segunda-feira, março 30, 2020

O IMPREVISÍVEL AMANHÃ

PARA MEMÓRIA FUTURA
Escritores de várias nacionalidades refletem sobre o mundo antes e pós-coronavírus | Por Lenide Duarte-Plon| 25/03/2020

« De quoi demain sera-t-il fait ? » (De que o amanhã será feito ou O que será o amanhã ?) perguntou Victor Hugo num poema. Ele continua : « O homem hoje semeia a causa. Amanhã, Deus faz amadurecer o efeito ».

O filósofo Jacques Derrida e a historiadora da psicanálise Elisabeth Roudinesco retomaram a pergunta do poeta, abreviando-a, para intitular o livro « De quoi demain… », em forma de diálogo, lançado na primeira semana de setembro de 2001.

Estimulante e abrangente, o diálogo gira em torno de temas políticos e filosóficos que resumem as interrogações de dois intelectuais sobre o século que se iniciava. A conversa termina com um elogio da psicanálise : somente levando-se em conta o inconsciente e a pulsão de morte podemos compreeder as desordens do mundo e restituir uma sociedade humana onde a abertura aos outros seja uma realidade.

Mas apenas alguns dias depois do lançamento do livro nas livrarias francesas, o 11 de setembro veio provar que o amanhã, de que falou Victor Hugo e sobre o qual se interrogavam Derrida e Roudinesco, é totalmente imprevisível.

Quem poderia prever o que se passou no dia 11 de setembro de 2001 ?

O mundo nunca mais foi o mesmo depois que a potência hegemônica se descobriu vulnerável, em estado de choque.

sábado, março 28, 2020

A VERDADE ENTRE A ILUSÃO E A DESILUSÃO


Traduzindo em contraponto Feuerbach diria que estamos a viver um tempo em que não reconhecemos a imagem da coisa, a cópia do original e a aparência do ser. A ilusão perdendo-se na verdade e a verdade refugiando-se na ilusão. Certos, sim, é de estarmos confinados a esta mística vida do seu agitar.

quarta-feira, março 25, 2020

O BEM E O BENEFÍCIO COMUM


Num texto marcado pela simplicidade culta, e nítida, e pela sua calorosa religiosidade, Anselmo Borges esclarece:

É preciso ceder bens menores a favor do bem maior, a saúde e a vida. Sacrificamo-nos todos, com o sentido do bem comum. Sem alarmismos, mas com racionalidade e urgência.

Entre outras de grande valor, destaco esta proposição por que confronta conceitos que no seu todo estreitamente se interrogam; bens menores, bem maior e sentido de bem comum. A saúde e a vida são, sem dúvida, pilares medulares desse bem maior. Outros existirão, mas a racionalidade e a urgência do momento determina a distinção. Não obstante, e sem pretensão de discordar de Anselmo Borges, bem pelo contrário, permitam-me sugerir, acrescentando, a inscrição da raiz de um bem maior na englobante e inclusiva ideia de dignidade humana e, em sequência, do valor da sua condição como horizonte comum de sentido. O momento que se atravessa, exatamente pela exigência da racionalidade e urgência, impõe, e bem, a necessidade de proteger a saúde e a vida, de todos, atribuindo-lhe sentido de bem comum. Com o tempo, estou certo, permanecerá a experiência vivida, austera e incontornável, desse desafio, desse bem imperioso. De um bem que, todavia, merece ser engrandecido, predicando-o na universalidade da sua natureza, e no seu imanente valor solidário, e não apenas como resposta, moldada e pragmática, a uma racionalidade de momento, necessária e urgente.

terça-feira, março 24, 2020

DAR-SE AO TEMPO POR DENTRO


Ruas nuas, silêncios enfadonhos. A turbulência do tempo oferece-se atando o sofrimento ao corpo e o real ao imaginário. Suspeita-se que a mudez tem voz, mas não se ouve, e que as palavras naufragam no furor do seu alento. Tudo parece obscurecido nesta ordem descontrolada, imerso que está na onda revolta de verdades incertas. E sem qualquer deus por perto, espera-se rumo,  sentido, e o seu nexo em nós. Porventura na esperança de um aguardo apenas. Sim, não mais que um aguardo que ora resguarde.

segunda-feira, março 23, 2020

O ENCANTO DO DESCONHECIDO TAMBÉM DE QUARENTENA


Aqui está um momento místico, acaso delirante, de auscultação ao jeito humano de acomodação. Não regresso decerto à infância, mas sinto a necessidade de espiar o contraste da agitação conciliadora, boa ou impiedosa, de ânimos e movimentos. Isto é, arrumar diferenças entre esse tempo vivo de céu azul e este outro, bem cinzento, que oprime. Espiar exige-me então, por condição e silhueta do termo, um modo muito pessoal de anotar, ainda que perdido no baralho das referências, dos tempos e das vivências. Sobretudo, no uso das cartas desse lúbrico jogo de adaptação ao estranho e ao desconhecido. Mormente ao lembrar, e ao invocar, esse originário e vital cuidado dos pais, reconhecido como delicado e leal. Da alegórica proteção assegurada que a todo o tempo se faz obrigatoriamente intuída como esclarecedora. Assim sendo, e perante a sombra da nuvem virulenta, no lugar dos pais, avisto padrastos distantes, desapegados e frios. Educados, e de urbanidade conveniente, mas imperfeitos na razão da primordial afabilidade. Uma elementar falha que, quer queira ou não, me define um avesso e me força ao impasse no apuro do embaraçoso oculto. A memória de infância impõe-se-me, então, na catálise das precipitadas paralisias ante a indiferença das friezas. Afinal, de outra busca se trata certamente alheia a essa verdade primeira. O que se me apresenta será (ou é), então, e diferentemente, o alcance de novos e diferentes modos de resguardo e confiança. Numa túrbida paisagem de insólitas hierarquias que me envolvem neste mudado tempo intensamente vivido como incerto e insuficiente. A dependência de antes confronta-se hoje com enlaces distintos, bem atípicos, intuídos como rebentos de estranhas e imprecisas realidades, e ritualizações. Novos mitos despontam atraindo cada qual o seu vigor na norma do reajuste, do pretexto e do abrigo. E com eles surgem cerzidas narrativas, inéditas liturgias e austeras transições. Contudo, o calor da confiança não aquece, não chega, não consola, e não dá ao desconhecido a possibilidade de me pacificar. A ansiedade junta-se ao desconforto e, em somado, gelam a minha tranquilidade. E eu, sem ela, sinto-me incapaz de inventar roteiros, apenas de simples roteiros que me levem à alquimia do tempo. Deste tempo presente por demais virulento.

terça-feira, março 17, 2020

O QUE EXISTE DENTRO DE MIM, HOJE


Aos dúbios contornos da ordem e do caos tenho dedicado algum tempo, ainda que ajudado por magra ciência. Reconhecidamente frágil, entrego-me à aventura curiosa de entranhar as suas verdades e inamistosas ocorrências. Em todo o caso, e sempre, na busca de sentido, de luz e alguma consciência. Tenteando o que desconheço e indagando a adaptabilidade, e a firmeza, do histórico caminheiro. Porém, a fonte subjetiva da ideia de sentido nem sempre me ajuda. O conflito entusiasma-me a busca, sim, mas o medo deixa-me preso às algemas da minha fraqueza. Na busca, esperançado, enxergo a raia que me abrasa. Algemado, o caos devora-me até os ossos do espírito. Assim me encontro, hoje, enclausurado nesta desalmada ordem do caos, ou melhor, nesta grande merda dita de Covis-19.

quinta-feira, março 12, 2020

RUÍDOS DA LIBERDADE


A vida na sua errância aclara o ímpeto das circunstâncias. Diz-se que a verdade da vida se cumpre na metafísica do encontro, e da circunstância. Porém, de quando em vez, dá-se a prova da humana negação em afrontar o ardor da atração urgente. Quem sabe se efeito do desmedido valor dado ao ruído da liberdade. Por que este, o ruído, ilude e constrange, capaz de consolar o vazio que, amiúde, se tenta recusar, isolando-o. Ruído que assim se oferece para um curso de agasalhada ficção. Mas a liberdade, acredita-se, existe para viver. Por isso, nesta sua verdade ela ficará atenta, ou mesmo surda, ao rumor dos paliativos. Bem como distante dos seus alívios viciantes na experiência da indiferença. Seguramente, a verdade da vida passa por encontros e circunstâncias. Mas nunca isentando o homem da sua liberdade, e da sua dignidade.

segunda-feira, março 09, 2020

ATÉ JÁ, AMIGOS


Escrevi há tempos;  … “uma boa conversa acrescenta-nos um quê identitário,tornando-nos mais completos e, justamente, ainda mais disponíveis. Para a vida, a tal vida de todos os dias. Por isso prezo as boas conversas e, no dia de ontem, a maré cumpriu a convicção. Experienciei, e senti, a instigante circunstância afetuosa do retomar de muitas dessas conversas que a incontornável razão da distância atrasou. Deu-se, acredito eu, um momento peculiar de caloroso convívio que concedeu vida. Às memórias e, porventura, ao sentido dos sucessivos rumos, tempos sempre incertos, plurais, mas significantes. Em suma, à história do passado acolheu-se a esperável e benfazeja retemperação do reconhecimento. De modo especial, da amizade, do apreço e do companheirismo. Assim sendo, o que nos resta, então? Não mais que presentificar e revigorar esse ressonante apelo de proximidade, vivência e afeição. Daí, amigos, com simpatia finalizo com um familiar e sincero ATÉ JÁ.

segunda-feira, março 02, 2020

PARA TI, MADALENA

A paixão não é tragédia e o desconhecido não é drama. Sorte adversa, sim, é o confronto da experiência da fraqueza na conversão do conhecido que nos faz mal. Sobretudo desse mal existencial que golpeia a decência moral e a dignidade das pessoas. Logo, não recues protegendo-te nas sombras socializadas do cínico cânone absorvente. A tua consciência jovem, já hoje lúcida e ambiciosa, pede-te coragem e não refúgio em acomodadas adaptações ardilosas. Por isso não cedas à confortável e egoísta tendência humana da desistência. Não te deixes igualmente apoderar pelo medo que em muitos atrai a cobardia do subterfúgio. Não te deixes também vender nos primeiros passos desse teu caminhar livre da maturidade. A liberdade não se compra, constrói-se, defende-se, partilhando-a. Com custos certamente. Mas a alternativa, a subjugação à iniquidade e à indignidade não merece a tua preguiça. Não tenhas medo do futuro e sê firme na coragem de dizer não. Os poderes a contrariar, e a afrontar, são muitos e diversos. Sejam eles os talentos aliciantes, os dons sedutores, ou mesmo as perícias silenciosas que por aí não escasseiam. Jogam, todos eles, na promessa do acolhimento, da segurança e do acerto do mundo. A mentira que aqui subsiste e aqui medra sabe muito bem encenar o seu próprio jogo para que a batota passe despercebida no ardiloso cumprimento das suas regras. E eis, então, seguramente o problema maior da democracia. Não é ela, a Democracia, que é o problema. Bem pelo contrário. O problema encontra-se, isso sim, entranhado nas mentiras e nos jogos que nela circulam, a pervertem e a corrompem. Aliás, passe a expressão, sem qualquer “pingo de vergonha”…

sábado, fevereiro 08, 2020

O INCERTO CONFLITO DA ILUSÃO REALISTA


Tradição é passado que permanece. Conferir direitos à tradição depende afinal de um reconhecimento atributivo. Com que fins? Da liberdade, da igualdade? Ou do seu oposto? Da sujeição, da autoridade ou do amedrontamento. Tudo junto, ou em separado. Em abstrato, a tradição não se opõe à modernidade. Ambas não são em si, e por si, predicamentos definidores de virtude. Nomeadamente no campo particular da informação e da comunicação. O fanatismo e o obscurantismo sobrevivem ao tempo. Hoje, como no passado, buscando apropriar-se do direito humano de pensar livremente. Emaranhando inteligibilidades, suscitando desorientações, deleitando o mundo opinativo das paixões. Daí, a face emergente e inadiável da consequente avidez técnica, do seu alcance e utilidade desvirtuada. Na comunicação social vacilante, nas redes sociais em expansão e nos demais (re)cursos de intermediação. Entrelaçando e aturdindo proximidades críticas e analíticas face ao mundo da vida. Um conflito incerto marcado pela perplexidade de sinais causadores de incertezas, receio e insegurança. A mediação útil e valiosa não se ausentou. A mediatização é que eficientemente se lhe contrapõe. Eis aqui, certamente, um desafio, quiçá  medular, deste tempo. De um tempo apressado, embora não letárgico, da atual civilização da imagem, do fetiche e da sua imodéstia simbólica.

quinta-feira, janeiro 23, 2020

A REALIDADE NÃO SE ESGOTA NO EMPÍRICO


Há destinos incomplacentes em que a partida se faz aproximação. O certo, o que persiste e subsiste, acoita-se no espírito das memórias, das palavras e dos pensamentos. Uma vida, afinal, marcada pela vida que ainda sobra. Na prova da ausência, e do silêncio, que dela sempre desponta. Enfim, uma distância sem cálculo de um percurso que se faz sempre só. Reconhecendo, decerto, a presença dos que partem na sua imanente intemporalidade. Partiste, sim. Uma contingência, afinal radical, que merece e exige sentido. Quem sabe, como afirmaria Anselmo Borges, através de uma outra presença. A Presença sagrada, divina, como seu fundamento e sentido últimos. E tu, Carlos, sabes, bem melhor do que eu, sabes que não estás evidentemente só.

domingo, janeiro 12, 2020

A ALMA POPULISTA


Reverencio os políticos que deslustram da política e maldizem dos parceiros do costume. Como? Costumando, eles, do devaneio democrático que ali estão para fazer diferente. Confesso que me comove a grandeza de alma dos que, sem se enredarem na política, se obrigam à missão. Por isso, merecem a minha mesura e consideração. Mormente quando, com o tempo, enrugam na busca falhada da dissemelhança. A história assim o relembra e os exemplos passados não faltam. Hoje, os prontos e frescos seguidores preanunciam-se, prometem. Com méritos e passadas diferentes, fatiando cordialmente afinidades e proximidades. Anunciando sempre virtuosos e empolgantes caminhos. Grudando à realidade a sedução do artifício. Conhecem bem os limites da liberdade e os fundamentos da sua condenação moral. Desconsideram partidárias mediações, discernindo neles, nos próprios, o irrefutável e social reconhecimento. A alma populista não se propõe, afirma-se. Eles são o povo, logo, a voz fundada da democracia. Ou melhor, da “tra(m)palhada” fascizante dos tempos modernos…

terça-feira, dezembro 10, 2019

TEMPO DE ENLAÇAR, O SABER COM A ARTE DE VIVER

A CIRCUNSTÂNCIA DO SABER EM TEMPOS DE SENIORIDADE

Fui professor. Talvez por isso, e com o exercício e acertos devidos, aprendi com erros meus e tolhimentos de fora. Neste meu novo tempo biográfico, das sombras desse anterior sinto raiar-se a sobra de uma luz remanescente. Vinda, rútila, de uma solta e desusada impermanência. Marcada pela raridade de uma serena inquietação. Lugar nascente, afinal, onde se leveda um saber outro, simples e singular na arte de viver. De viver esse novo tempo, com passado, sim, com futuro, ainda, mas sobretudo com um intenso presente. Melhor, um aqui e agora onde o saber busca harmonia com a experiência, familiaridade com a vida e realização pela satisfação de estar, de existir. Sem currículos prévios ou roteiros preestabelecidos.

terça-feira, dezembro 03, 2019

NEM TUDO O QUE RELUZ É OURO

Num tempo de mediações meândricas e de contornos incertos, a mediatização impõe-se. Praticando a ligeireza e a superficialidade. Sem critério, e sem tempo, agitando enxurradas de imagens no efémero fundo do excesso. Macaqueando arremedos de realidade, quiçá distrativos, mas cínicos e duvidosamente escrupulosos. As audiências ordenam e as receitas testemunham. O caótico do imediato enjaula assim a ilusão, imobilizando a mediação na sua exigência e alcance. Em suma, ao contrário do que se julga, tolhe a liberdade, espalmando-a ante o desmedido peso de uma “máquina de subjetivar”. Determinando, e maltratando, deste jeito, esse lugar primordial, e genuíno, de se ser sujeito, sujeito pensante. Retraindo e comprometendo o livre exercício da liberdade. Na legítima e humana formação da subjetivação, do refletir e do pensar. Com tempo.

domingo, dezembro 01, 2019

UM RECONHECIMENTO PARA INCRÉDULOS


José Moreira deu uma longa entrevista ao PORTO CANAL. Neste breve fragmento, de cerca de três minutos, tem a modéstia e a simplicidade de destacar o meu nome. Agradado e orgulhoso pelo reconhecimento, deste me presto para botar figura junto dos meus amigos desconfiados. Ao José Moreira, um abraço.

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terça-feira, novembro 19, 2019

SENTIR, SENTINDO A INQUIETAÇÃO




Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho

domingo, novembro 17, 2019

TÓPICOS DE UMA MEDIAÇÃO DESACREDITADA


O Muro caiu e com ele dissipou-se uma marcante fronteira no tempo político. Em crescendo se abriram novos e contrastantes horizontes, e novas e resolutas engenharias se engendraram. O exercício mediático foi-se então confortando no poder ganho, e se propagando na sua ambição. Entretanto, outra e dúbia condição se espalhou. Subterrâneos interesses aproveitaram, e instalaram-se. Passo a passo, a democracia abraçada veio-se assim demudando, desfigurando-se. Habilmente o cidadão virou público, o espaço público plateia. Logo se anunciou a pós-democracia, obscura realidade ainda por entender. A cidadania foi-se desvitalizando e as suas referências perdendo-se no além do embaciamento. A superfície dos factos, por fim, tornou-se palco, publicidade, mercado. Consumo e espetáculo de emoções e fabulações assim aproveitáveis. Infundiu-se a insegurança e a incerteza, pilares do político inconfiável. Desacreditou-se a mediação prestativa, de análise e fundura úteis. Sobrou, pois, um horizonte de ligeireza, de disfarce e de fingimento. Um prolífero terreno de aproveitamentos, nutriente de sórdidos e improváveis populismos. Uma democracia, afinal, anémica, indefesa, também ela desmurada. Dos muros primordiais de intermediação que, outrora, a fecundaram e a protegeram. Em sinopse, tópicos para cuidar e pensar um futuro. Aliás, um futuro já hoje presente.

Imgem retirada DAQUI

quarta-feira, novembro 13, 2019

terça-feira, novembro 05, 2019

ERRÂNCIA, DESTINOS

Não existe ordem sem desordem. Desregramento no interior do alinhado das ordenações. As resistências estão lá, permanecem. A desordem persiste no impreciso anseio de um outro arranjo. Hesitando entre aproximações e libertações. Nesse intervalo instável da permanência, de resistir. Lugar natural de conflito em que a liberdade se aprende e deixa trilhos. No pensar e no agir. Como na afirmação que cria esperança. De um viver outro em relação ao que há-de vir. Não esperando ordem na desordem, mas tão-só rumo à errância.

Imagem retirada DAQUI

sábado, novembro 02, 2019

DA “CRISTALINA” FACTICIDADE

 Devotada ao determinismo dos factos, em obediência ao deus-capital, a liberdade deixa de ser livre. Renuncia à sua existência, reduzindo-se à necessidade do fracasso. O factual, algo que pode ser diferente do que é, torna-se obrigada condição. Essa que restringe, legitima, e se liberta da exigência intelectual, da obrigação humana. Assim, o ponto de partida e o ponto de chegada estreitam-se no comum dos números e das suas representações. Sustentadas pela útil superfície das cifras, dos seus preconceitos, opiniões e falsificações simbólicas. Enfim, postulações deste tutelar - e boçal - tempo da fúria capitalista.