Será que alguém de bom senso contradita a ideia de que o Consumo há muito se descasou das verdadeiras necessidades das pessoas, viandando pela intemperança do dispensável ou pelas apatetadas passarelas do Simbólico? Eis um ruído sibilante que julgo salubre lembrar como óbvio; o abrir de mão das rendas com que o concupiscente Lucro avassala a Publicidade conivente em perda do Salário que o serve. Aliás, estrupido esse, que num mundo sem fronteiras, a Besta Globalizada faz ouvir enquanto seu santo e bendito Lugar. Neste, Ela forja mercados, inventa engrenagens e conforma ficções prestáveis à epidemia que sufoca o Humano Futuro. Um futuro, que no concreto, é tão-só um ensejo aguardado, cercado por uma avivada fadiga grifada no paradoxo da recusada descrença. Desta alogia, sobra então a íntegra razão da Esperança do (e no) Humano, donde medra a Convicção que alenta a faina do Resistir.
domingo, junho 18, 2017
quinta-feira, junho 08, 2017
OS LUGARES DA VERDADE
Exausto, onde busco os lugares da verdade?
Nos mitos quando a razão me confessa a sua falta?
Nas imagens junto dos vazios do representável?
Escalando o céu das transcendências,
repousando no aconchego das suas metafísicas?
Ou, entre outras artes ilusórias do entendimento?
Apenas creio que esse lugar está ao alcance da coragem,
algures no concreto da vida,
entre o que sou e o que ainda cuido ser.
sábado, maio 20, 2017
MAIO 13, UM CONCENTRADO DE EMOÇÕES
No 13 de maio último, numa intrigante fúria (ou fuga) histórica, enrugada por súbita vinculação a um sublime fado lusitano, admitia-se que os portugueses se haveriam, afinal, de reencontrar com as suas raízes simbólicas e mitológicas, mediante as quais a faceta exaltante da jactância, finalmente, reprimiria a aferrada queda na persistente e deprimente saudade acamada, um tanto ontológica, da sua arcaica essência criadora de impérios entretanto abortada.
De manhã, todos, mesmo todos (cristãos, ateus e apáticos), confluiriam, mental e fisicamente, para esse beatificado lugar predestinado, onde os pastorinhos, não deixando de o ser, se converteriam em santos. De tarde, todos, mesmo todos, se regozijariam com os seus lábaros ou bandeiras, na circunstância professantes ou tinhosos, estes caçoando com o burlesco da treta, os outros comemorando em gáudio e em trânsito o tetra, todavia, ambos, todos, em divina eucaristia canibalesca com o ondeante de agitação avermelhado.
À noite, muito provavelmente, e pelo contrário, o acerto apresentava-se menos esperançoso. Um rapazote, com uma deselegante aparência relaxada, barba em arrogante desalinho, cabelo estranhamente encapelado, à revelia dos mais reverenciados escantilhões prescritos, ousaria botar anomia artística na ordem fabril da exorbitância festivaleira.
Tudo aconteceu, tudo parece ter resultado, e como se presume saber, a transferência tem uma força psíquica poderosa, pois os egos marcadamente neuróticos, sobretudo em cenário de massas, tendem a albergar no seu eu esse mundo inteiro, embora incomum, quando este se compadece, acima de tudo, com uma desaconchegada dispneia existencial. Assim, deixar a libido descansar e as emoções flutuar livremente, manifesta-se em um útil oportuno. Certamente, assistirá ao nosso sentimento de sobrevivência e, nunca se sabe, de consolável refúgio.
domingo, maio 07, 2017
DESTINEMO-NOS
Reacende o sensível que em ti adormece.
Derrota essa cobardia que te desalma.
Sacode os galhos que te tolhem o rasgo.
E liberta-te da teia das repetições.
Descobre o novo diante da tartamudez do mesmo.
Arrisca a corrente de ar que te refresca.
Despede-te do sofrimento que te suga.
Vai, vai por que sem coragem o futuro aperta.
quinta-feira, fevereiro 16, 2017
SEM PROFETISMOS OU MESSIANISMOS
Em tradução livre, recordo Boaventura Sousa Santos, sugerindo que os lugares não têm destino. Têm passado, presente e têm futuro. Ouso propor que é nesta marcha do tempo que a destinação se desenha, se alicerça e constrói. Porventura, a escora de uma identidade própria que, deste jeito, se vai assenhoreando do seu caminho, produto de vontades que se agregam e afluem crendo nas pessoas, na eficácia da perceção comunitária do inaceitável e no talento práxico do comum. Sem vaidades ou tartufices, a bem do futuro do Lugar e das suas gentes.
quinta-feira, dezembro 29, 2016
UM CORPO AGITADO
O silêncio deste préstito fúnebre azeda-me. Definitivamente, já não dependo de mim. Desencaminhei a minha liberdade repetidamente, desprezando-a. Não vale a pena, nesta hora, o grito arrependido do abafado lamento. Ainda assim, a mudez dos marchantes teima em me perseguir, confirmando a cruciante subordinação. Detido no ataúde cerimonial, sinto bem o castigo merecido de não ter feito, afinal, um pouco mais. Pela minha liberdade, acompanhando outros nessa humana verdade. Por isso, sobre a pedra que me oculta abandono o seguinte epitáfio - “Aqui jaz um virtuoso e nobre medroso. Sacrificou a sua vida a ofertar bravura aos outros. Muitos deles, fracos e pobres de espírito”.
quinta-feira, novembro 17, 2016
ESCUTAR O CORAÇÃO DO VAZIO
Que coração é este? Decerto, um coração que ilumina o vazio na recusa de se consolidar no nada. Um coração que dá vida a esse vazio que se rebela, e revela, ante uma arredia existência. Afinal de contas, um coração que desperta a espessura de um vigor que ainda resta e que, assim sendo, traz consigo incitação e existência. Na sua obstinada verdade, um coração que faz com que esse experimentado e preciso vazio se torne, tão-só, um momento valoroso, síntese de muitos outros, quiçá dolorosos e magoados, e lhe oferece um sentido capaz de presença e, sobremodo, de vontade de resistir. Aliás, momento esse que vale pela negação do falso nada e se dispõe ao alívio, angustiado e decadente, desse desvio sem rosto. Um coração, em suma, que comunica instruído por vigorosas e vigilantes memórias e nos faz permanecer inteiros, provando que o vazio e o nada não são coisas semelhantes. Assim nos ensina a experiência dura, embora tranquila, desse vazio aclarado, capaz de nos exibir a vida sobrante que entrementes se esvaiu. Um coração, enfim, que nos resgata o nosso próprio rosto, nesta hora, sagaz e recompensado.
sábado, outubro 29, 2016
A JORNA DO DITO BANQUEIRO ANARQUISTA
O draconiano mercado tudo trafica, tudo subordina, e até mesmo o absurdo se transaciona. Torna-se casa de câmbio, lugar súpero no qual se opera o valor de troca dos homens. Muitos, diminuídos a ser valor produtivo e manadeiros de uma mais-valia extraível. Outros, igualmente numerosos, contas feitas, nada sendo, acrescentam uma maçada afinal utilizável. Neste pronunciado esboço, remanescem uns poucos. Gente providencial e qualificada que, agadanhando o frutuoso devido, com competência reconhecida, orientam a arrumação acertada dos demais merecimentos. Não só materiais como, principalmente, os simbólicos.
Daí, ser neste espaço subjetivo que a tagarelice de uma linhagem conceptual e argumentativa situa as suas necessitantes e pautadas arquiteturas que mantêm, reforçam e legitimam a batota social e económica. Ou, melhor dizendo, encenam as vantajosas patranhas que aclimam as gentes às obscenas desigualdades que perpetuam uma estirpe de moralidade, em que o pecado da injusta arbitrariedade, não só é absolvido, como se apresenta curandeiro. Conforme se comprova, discorrendo pela via láctea recortada pelas altas nuvens do rigor, da isenção e da juridicidade. Chover no molhado é, certamente, desperdício. Isto dito, passemos então à frente…
domingo, outubro 23, 2016
DIAS NÃO
Estou em dia não. Aliás, instantes e circunstâncias que se refazem a contragosto uma vez que tenho vindo, não tanto por me ter desapossado daqueles recursos coloquiais que me permitiam, tempos atrás, assegurar conversas obstinadamente recomeçadas, mas porque me sinto inábil em encenar dramaturgias simpáticas e estimulantes que animem as pessoas a uma cavaqueira prevaricadora de ramerrames enfastiosos que consomem as nossas ordenadas vidas quotidianas. Eis uma confissão forte, com certeza indelicada, mas que apenas tem por propósito admitir a esperança de uma simples, quiçá necessária, transgressão apta a um questionamento saudável das nossas transitórias certezas. No essencial, uma transgressão instruída e preparada para cuidar do avesso que o hábito, a fachada e a aparência nos acobertam. Tão-só.
terça-feira, março 01, 2016
A AMIZADE, AFINIDADES E SUPERFICIALIDADES
Na amizade não busco a mansidão. A amizade é vida, é experiência, é existência. Não é uma mera categoria nem propriedade ou qualidade de alguém. A amizade é relação, é proximidade genuína e livre. Não procuro com a amizade reciprocidades para a confirmar. Não idealizo, também, solubilidades que encobertem e desvaneçam equívocos entre a amizade que se aviva e o eu consciente que a deseja. Decerto postulo um toque de intimidade sem que a intimidade inquiete a verdade que me desperta. Aclimada às artes da existência, a um cuidado de si, sinto que a amizade não se pode enlear em pastoralismos ou em outras quaisquer servidões. Não destino, através da amizade, a plenitude ou uma outra ilusória verdade a não ser aquela que se vai dialogicamente revelando e alçando. Espero sempre muito da amizade, mas dela não aguardo tudo. A amizade resiste ao equívoco e ao distanciamento quando (e enquanto) a mendacidade não a permeia e contamina. Na amizade, as falhas e as fraquezas são acolhidas com singeleza quando vividas na presença sentida de uma liberdade e autenticidade reconhecidas. O espaço da verdadeira amizade é, e será sempre, dominado pelo desejo de estimar e não pelo mando da necessidade (in)certa. A amizade é, no essencial, um lugar de (des)construção, um lugar de liberdade, de autenticidade, de criatividade, de entusiasmo e de (trans)formação . A amizade, esta amizade, de resto, faz-me falta.
domingo, fevereiro 28, 2016
O EU, UM EU APENAS GRAMATICAL
Eu cá sou assim, um significante que pouco ou nada afirma de substantivo. Faz parte de uma família de ditos que mais não são do que resistências ao que nos excede, ao que nos escapa, ao que não se (quer) reconhece(r). Mais desastroso ainda; ao que se esforça ignorar como uma parte de nós que nos desconforta. Perante tamanho asserto, desista. Não há espaço para qualquer tipo de questionamento. Em tempo algum será reconhecido ao argumento o seu valor de cidadania. Ou então, faça de conta que não percebe. Passa por ser um tipo porreiro e dialogante, mas corre o risco de que o outro sentencie; já enganei mais um…
sábado, novembro 07, 2015
PRIVANÇAS
Não tem temeridade para dizer o que pensa? Reserve para si o abrigo, sempre reconfortante daquela máscara, embora demasiado vulgar e banal, de uma pobre espécie de "iminência parda", (aliás estupidamente inteligente, aviso, pois quem consigo convive percebe o seu suposto proveito), metamorfoseando-se num arlequim tarouco que acredita, pela sua suposta elegância e recato, nada pesar no que se recita. Num outro enredo, de cariz mais religioso, faça-se uma risível "múmia do presépio", pois com o seu ar angelical e silencioso, mais do que aos outros, sobretudo convence-se a si próprio. Não lhe será difícil, deste modo, viver iluso (mas "feliz") no seu engasgado e desabitado mundo.
sábado, outubro 03, 2015
PRAXATEAR AS CONSCIÊNCIAS
Definitivamente, não condescendo com as praxes arbitrárias e humilhantes. A dignidade humana e o sentido de Universidade que a ela se impõe associar, exigem vindicar algo bem diferente e bem mais escrupuloso no desígnio ético. Suspeito que uma liberdade perdida no vazio de referências, sem regras e estremas, prontamente encaminha a benignidade dessas tradicionais práticas de iniciação e de integração para o cavouco obsceno da indignidade e do escorchado espetáculo. Reconheço que se trata de um radical sentimento pessoal que se apura face a comportamentos que considero digressivos para quem busca coabitar um emérito lugar de elevada formação e de expectável responsabilidade social e cívica. Admito que aprecio a rebeldia (ou a insubmissão) quando esta sabe exercer o seu espírito crítico em fecundo e inteligente diálogo com os valores sociais e políticos da cidadania. Nesta medida, creio sensato que se estime este (ab)uso reprovável da praxe olhando para ele como uma espelhada e inquietante imagem de uma sociedade em que o valor do outro obedece à tirania de uma aviltada razão instrumental. Ainda é tempo de não comprometer insanavelmente o compromisso com o outro. Culpar os desregrados não desobriga as responsabilidades coletivas e, sobretudo, o instituto que destas deve cuidar, tutelando o tempo vindouro que a todos nós pertence.
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sábado, setembro 26, 2015
NÂO PERDOES, MAS ESQUECE
Há fórmulas convencionais que eu recuso. Confesso que elas já me acudiram perante outros que igualmente as consideravam. “Perdoar mas não esquecer” é uma delas. A coligação PaF não perdoa nem esquece, em 2015, o tempo de 2011. Esta época negativa, sobremaneira reavivada, torna apenas supletivo o tempo que as separa. Num outro plano (e escala), diria que, embora me encanzine com facilidade, a ideia vangloriosa do perdoar é-me repulsiva. A arrogância que procura a humilhação do outro não me merece apreço. Aprendi com o tempo que a arte do distanciamento fluidifica a emoção e irriga a lucidez. Desta destreza, assenta o salubre sedimento que não pode adormecer. Todavia, as inverosímeis sondagens parecem assentar num estranho mas inovador preceito; “não perdoem mas esqueçam”. Sobretudo, no dia 4 de outubro, não perdoem mas, por favor, esqueçam o mal que, por causa de outros, não pudemos evitar de vos fazer. Nestas circunstâncias, e ante tal trapaça que a inversão da fórmula mascara, o saudável sedimento que em mim desperta, em voz ironicamente serena, consente-me sussurrar; “é preciso ter muita, mas mesmo muita lata!”.
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sábado, setembro 19, 2015
A LUTA PELO VOTO DA CONFRARIA DOS OTÁRIOS
Contrafazendo outrem, em favor do voto do arremedo apregoado, algumas cruzadas eleitorais mostram-se habilmente distorcidas face à realidade e aos dogmas que a escoram. Para tal, fazem equivaler a disputa política a um banal clássico desportivo e, em suposta concertação, do cidadão apenas buscam (e requerem) o seu costado lerdo de homem ludens.
A agiotagem cínica e petulante que se sacode pelos media, sabe bem, e em benefício próprio, aliás sempre mais funcional, cobiçosa e calculista nestes resolutivos cenários, explorar o emocional como matéria-prima. Empenha-se, para tanto, em subtrair à racionalidade o valor crítico da objetividade e, com o jeito industrioso que (afinal) a incrimina, colocar o velado a favor da circunstancial e volátil subjetividade.
Os poderes enredados no conluio deste profícuo paradigma, marcado pela talhada e desejada pré-reflexividade, pressupõem perfeitamente o que em comum lhes interessa, e sabem, melhor do que ninguém, como fazê-lo desaparecer em encarrilada forma de polémica, ganhosa para ambos. Procura-se, acima de tudo, que a substância se volatilize em emoção e que esta cumpra o seu dever de controlo ideológico sobre o cidadão desprevenido.
Como sou um indolente cismado – aliás próprio de um racional bem consciente do pecado da emotividade que, frequentemente, se lhe entorna – preciso de tempo para acompanhar a tartufice deste tipo de comunicação intencionalmente célere e invasor. Sobretudo, quando pressinto que, não sendo fácil policiar o pensamento, procuram torná-lo superficial e, como tal, presa dócil da inércia ideológica vigorante.
No entanto, jogam a favor da minha absoluta desconfiança, a vigilância atenta sobre o tempo passado, o reconhecimento da sucessão e permanência dos problemas e o escrutínio da isonomia cristalizadora dos comportamentos políticos de quem nos têm governado. Deste modo, para alinhar nessas cruzadas de apoio e reafirmação a esses poderes (sejam eles, nacionais ou europeus), teria de destruir memórias que me fizeram o que sou. Seriamente, não me vejo tão otário assim para me revogar tão imbecilmente.
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quinta-feira, setembro 17, 2015
O ONDE E O AONDE DO FUTURO
Sinto-me bem neste lugar. Logo, experiencio agrado ONDE estou. Se não estou bem, sobra-me uma resposta certa que, por si e de imediato, arrasta consigo uma pergunta; mudo-me, seguramente é a resposta; para AONDE? a pergunta de igual modo certa para uma resposta, todavia, incerta.
ONDE e AONDE, ambas preanunciam lugares. Porém, é obrigatório atender às diferenças. ONDE nomeia o lugar onde estou e, provavelmente, me sinto bem. AONDE, ao comunicar uma noção de movimento, significa deslocamento, por consequência, mudança para um outro lugar.
Neste quadro eleitoral, onde se instala o ONDE e o AONDE das nossas opções? O ONDE acomoda-se, por certo, na resignação, tolhido pelo medo e pelo artifício da ausência de alternativa. O AONDE abraça o inconformismo, irrita a camorra europeia e faz, com toda a certeza, saracotear a história. Por mim, voto AONDE, voto FUTURO, dignificando, com total liberdade, o meu VOTO.
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sábado, julho 04, 2015
Varoufakis: "O que estão a fazer com a Grécia tem um nome — terrorismo”
NOTA - O ponto de partida deste desabafo tem origem nesta notícia
Eu, sinceramente, não tenho grandes dúvidas. O capital, hoje na sua expressão financeira e globalizada, arreganha os seus ulcerados, sanhosos e ignominiosos dentes ao povo maioritário e, como tal, ao fazê-lo, desnuda a sua odiosidade de classe à democracia como valor político atendível. Um discurso manhoso e unguento, historicamente reiterado que se vai espelhando ciclicamente ao longo dos tempos, e que procura (apenas e tão-só) estrumar o medo e abrasar a incerteza em seu particular proveito. Independentemente de (ou dos) resultados mais imediatos, reconheça-se que o atual governo grego acareia, com ousadia e tenacidade, essa mefítica viscosidade destilada do tumulto demoníaco, hoje bem vivo, da natureza do sistema capitalista. Por mim, estou convictamente ao lado da coragem do dizer basta e, isto posto, engajar-me no rumo histórico – incerto que seja – das possibilidades do NÃO.
terça-feira, maio 05, 2015
TARDE DEMAIS
Muitos contam a si próprios histórias sobre si mesmos sem se darem conta da mentira que da sua vida fizeram e, em jeito de tardia sobrevivência, embora desajeitadamente, obstinam-se em a prolongar. Certamente, tarde demais, surpreendem-se (quando, e se compreenderam entretanto) que as mentiras que a si contaram, contando aos outros as suas próprias mentiras, os sitiaram na clausura penosa de um beco sem saída. Enfim, talvez tarde demais. Fizeram apenas o que as mentiras confirmavam mas, no íntimo e com verdade, sentem que pouco ou nada fizeram. E o que fizeram, fizeram-no sem a alma contagiante da autenticidade que ceiva e desafia a própria Vida. Povoaram, afinal de contas, a inércia obscura de um licencioso e arrastado definhamento que sempre os atraiçoou. No essencial, tarde demais sentem ter vivido um atormentador velório, sem finado, à espera do seu aquietador e triste fim. Sim, tarde demais.
sexta-feira, maio 01, 2015
A MERDA DO ESTREBUCHAMENTO QUE MEDRA
Nota – Merda apenas pretende expressar a minha e muito pessoal irritação e repulsão pelos papagaios mediáticos.
A inconformação, por tento e tato, quando (nos diferentes canais televisivos) vê e ouve os papagaios de serviço bolçarem iguais rações desmesuradas de eupatias, empenha-se (levado por um desvio ajuizado de leitura) em significar o lídimo texto de fundo, ou seja, aquele que o dito (afinal de contas) procura capciosamente acobertar. Para tal, à destinação do entorpecimento que o ludibrioso encalça, a crítica informada e inconformada resgata (ou para isso se esforça) o sentido cobiçoso inoculado pelas malsãs homiléticas dessa serventuária família mediática de psitacídeos.
Com persuasão asseguro que o tempo histórico de hoje obriga a um conhecimento (talvez outro) necessário e fundamental, com inscrição no real humano, capaz de ampla penetrabilidade social e de viável abrangência, sem ambiguidades ou vaguezas, em pontos concretos do existencial vivido. O discurso de apresentação da candidatura de Sampaio da Nóvoa encaminhou-se (do meu ponto de vista) neste roteiro. Daí, o meu enaltecimento.
Para a esquerda (feita da inconformação de que falo) vencer as presidenciais passa (assim penso neste crítico momento histórico) por sobrepujar não só a nossa direita paroquial como refutar (com coragem e persistência) essa outra merkeliana europa conservadora, capitalista, clerical e colonialista, como tão bem diagnosticou e pressagiou (em devido tempo) Olof Palme. Por isso, nós, os inconformados, sentimos que temos Homem para este arrojo necessário e comum de lucidez, liberdade e destemor.
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sábado, abril 25, 2015
NÃO SE PODE PEDIR COICES A UM CAVALO DE CARROCEL
Um desabafo sobre Thomas Piketty e o seu Capital no Século XXI
O mundo à medida do Capital, que no tempo que ocorre estrangula, com desumana violência, o campo imenso do trabalho, tem vindo a mover-se e a envolver-se em uma vigorosa onda sistémica que a seu favor estorcega, sem clemência, não apenas a esfera do económico como também as jurisdições da política e da cultura, atroando impassível as sociabilidades que conformam a vida e o dia-a-dia dos trabalhadores e das suas famílias. A mancebia amorável, todavia dissoluta, do acasalamento neoliberal com o fundamento pós-modernista explica, e em muito, a escala e a sucessão dos fenómenos sociais que dessa intimidade desabrocham e que enchiqueiram hoje, como no passado, o mundo da grande maioria das pessoas que do trabalho vivem.
Perante tão dramática realidade, pergunto-me; e se, de uma vez por todas, deixássemos de encarar às avessas este mundo e definitivamente sepultássemos a peregrina ideia de que é o dinheiro que gera riqueza e nos convencêssemos que somos nós, os trabalhadores, quem afinal produz o Capital. E se desistíssemos de pensar o Capital como o dinheiro dos ricos, como nos aconselha Frédéric Lordon[1], e aprendêssemos com Marx que o Capital “é um modo de produção, isto é, uma relação social. Uma relação complexa que, à relação monetária das simples economias mercantis, acrescenta – é este o centro de toda a questão – a relação salarial, constituída em torno da propriedade privada dos meios de produção, da fantasmagoria jurídica do ´trabalhador livre`, esse indivíduo todavia privado de qualquer possibilidade de reproduzir por si próprio a sua existência material, e por isso atirado para o mercado de trabalho, forçado, para sobreviver, a empregar-se e a submeter-se ao controlo patronal, numa relação de subordinação hierárquica”? A mutilada epistemologia de Piketty, sobre estas questões, nada diz porque a raiz dessa mesma epistemologia não inscreve, de modo claro e consequente, o incontornável antagonismo Capital/Trabalho. Daí, o seu Capital do Século XXI ter merecido uma surpreendente (ou talvez não) unanimidade mediática.
[1] Do artigo no LE MONDE DIPLOMATIQUE, edição de ABRIL 2015, de FRÉDÉRIC LORDON, intitulado Com Thomas Piketty, não há perigo para o capital no século XXI.
Nota – O título dado a este texto é uma expressão de FRÉDÉRIC LORDON usada no artigo acima referido.