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quarta-feira, junho 21, 2017

A FAMILIARIDADE DA LINGUAGEM E O DESCONCERTO POLÍTICO DE TORNAR O POBRE, UM BOM POBRE


Burgueses há muitos. Os que são porque o são. Outros, porque o cobiçam ser. Outros ainda, porque já os macaqueiam duvidando vir a ser. E, finalmente, a maioria, ou seja, os restantes pobres que se decidem burgueses. Os únicos tangíveis são os matrimoniados com o sistema, que neste vivem bem acolchoados e sabem, igualmente bem, porque razão nele habilmente logram permanecer. Todos os outros, particularizam-se pela natureza da sua ambição de ser, servindo-se de palavras, gestos e esgares grotescos, na qual a farsa, a mistificação, a hipocrisia e a própria imprevidência se caldeiam com a ensimesmada ignorância ou, pior ainda, com o cabal arroubamento de espírito.

Porém, existem Outros. Os pobres, os verdadeiros pobres, os assistidos, aqueles que não têm sequer ensejo para fantasiar e, por isso, atassalham a possibilidade de mitigar a realidade, macaqueando ou cobiçando sonsos e ociosos paliativos. Então, como reconhecer e discernir, não propriamente para surpreender os referidos originais, farsantes ou otários, mas sim o discurso que a todos estas figuras une? Quem é essa gente? Eis alguns sinais que emergem das raízes, relações e entrelaçados circunstanciais dos seus cerceamentos:

quinta-feira, dezembro 08, 2016

O LEGADO DA INDIGNIDADE

 

A significante evolução das condições de vida, nas últimas décadas, é inegável. A narrativa histórica e social assim o reconhece e a memória dos mais provectos tal confirma. Agora, concordar esta corroboração com o desígnio ontológico da condição humana respalda em si um paralático equívoco. A lógica mercantilizada do desenvolvimento vem cavando um trágico fosso humano e social feito de desigualdades, injustiças e precariedades. O Trabalho disso se ressente e a Cidadania assim se inabilita. Isto posto, trabalhar a condição humana exige o estímulo do humano no Homem e, para tal, importa cuidar da qualidade das políticas e da democracia. Eis, na minha leitura, o essencial da advertência, aliás otimista, deixada por Carvalho da Silva na sua Conferência “O trabalho, A solidariedade Intergeracional, O tempo de reforma”, a 6 de dezembro, nas Caldas da Rainha (Delegação do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa).

terça-feira, março 08, 2016

ULTIMATOS, HOSTILIDADES E POUCAS-VERGONHAS

 

susanna_e_os_ancic3b5esPedro Tadeu listou as mentiras e à Maria Luís Albuquerque acusou-a de mentirosa[1]. Das duas uma; ou a Maria Luís mentiu e é, com efeito, uma despudorada aldrabona, ou Pedro Tadeu, ofendendo a ex-ministra, incorre em conduta criminosa por calúnia. Não obstante, no plano da obviedade moral e cívica, aprovo a ideia do jornalista Tadeu de que a incompatibilidade de Maria Luís não é com a vida entre os abutres da finança, mas, sim, com a vida política sã. Mas como a Lei e a Moral, nos tempos que correm, não dialogam politicamente, tudo é possível.

Dizem os historiadores que o Ultimato inglês (1890) representou um sinal vexatório e humilhante para povo português, com consequências políticas e culturais consideráveis. O que pode esta referência histórica tem a ver com a trapalhada das presumíveis mentiras e das eventuais calúnias? É que as linhagens hoje são outras, de um outro universo, não baseadas na tradição histórica da pretérita e paroquial aristocracia, dando o caciquismo rural lugar à caciquia financeira da qual Maria Luís é uma ultramontana, certa e teologicamente submissa. Para mim, o que ela vai ganhar ou não, pouco ou nada significa. O que me importa significar é esse nó simbólico à entronização histórica de um outro aviltante Ultimato, aquele que igualmente nos apequena, o Ultimato continuado dos dissolutos delírios do eufemístico Mercado. E aí, Maria Luísa já há muito se definiu.


[1] No seu artigo de opinião no DN de hoje.

Imagem retirada DAQUI

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

UMA INTERROGAÇÃO ÉTICA – DO TRUNFO AO TRIUNFO DA BATOTICE

transferirNão estou acostumado mas também não me sinto (per)seguido pela sombra da perplexidade. Dedicados cristãos e ateus resolvidos, apesar das suas avessas justezas – uns crendo que Deus criou o homem, outros acreditando que foi o Homem que concebeu deus – ambos espelham com agrado, entre o louvor e a conveniência, o revelado rosário das melodiosas e sociais prédicas do Papa Francisco, de acordo com a natureza religiosa ou laica das suas espiritualidades. Donde vem esta sensibilidade comum que convizinha estas contrastantes almas, admissivelmente sobrevindas, do Cristianismo os primeiros e, quiçá, do Ideal marxiano os segundos?

A minha exegética explicação – e aqui vai a sua premissa medular – é que uns e outros são sensíveis ao sofrimento dos homens e das mulheres desterrados do chão da sua dignidade e, por via disso, uns e outros sentem-se irmanados não só na queixa (e natureza) desse desditoso calvário como comungam no concerto das suas causas e, eis a suma notícia, no apontar condenatório dos factótuns cultores, obscuros e inumanos, dessa alienante atmosfera que acorrenta as gentes ao dinheiro mediante despudorados e desalmados encantamentos, preceituando e compulsando, deste jeito, a cruenta lógica de uma realidade social agoniada pela voracidade da renda e pelo ascoso cálculo dos que muito têm e mais querem ainda.

As teologias, cristã e laica, descobrem-se então naquele rizoma ético de germana humanidade enquanto uma outra gente, seguramente mais germânica, bem-apessoada, de jesuítico rosto e semblante altivo, taramela, em chorrilho, razões de mercado papeados em ruidosos e esgarçados números que, adormecente na sua presunção, espertam afinal a penúria e a plebe que dela amarga. Pedro Sampaio Nunes, no Prós e Contras desta segunda-feira[1], foi um indiscutível artista, histrião arquétipo dessa outra gente. Antecipou e regurgitou números sobre os números dos outros, arengou sobre eles empertigado e possuído por um sentido único e forcejou-se por catequizar os incautos chamando à encenação, com tocante contumácia, o uso simples mas espelhante de uma banal folha de Excel. Sempre improporcionado, os desfechos das suas oratórias económicas culminaram, através das suas mensagens epilogadoras, numa patética mas desmascarada exaltação política à lufa-lufa dos coveiros dos nossos cemitérios sociais e humanos. Em jeito de conclusão, configura-se-me, deste modo, como sempre atual a inconciliabilidade entre (os números do) Capital e (a verdade do) Trabalho, reconhecendo que a utilidade das categorizações, por si só, não consubstancia a engenharia reversa desta farsante e ignóbil batotice. Mas a batota, essa, transparece nua e obscena apesar de embrulhada no sorriso emproado e desdenhoso dos trapaceiros.


[1] 23 de Fevereiro de 2015

sábado, outubro 18, 2014

ALORPADO MAS … NÃO TANTO

imspotos_3As afetadas e analíticas arengas dos economistas, sobretudo daqueles que mumificam no tablado mediático, abespinham-me por vários porquês, dos quais aqui apenas acuso dois deles. O primeiro – raiz da intensa e difusiva canga ideológica dos tempos – porque não tenho ciência bastante para descodificar toda aquela cabalística linguagem técnica que, recolhida sobre si, nada acorre à minha retratada insipiência. O outro, o segundo, certamente dispondo dessa insciência minha e de muitos mais, tem a ver com a implicante e asnática soberba dos ditos que tudo fazem para acoitar a natureza estimativa do seu arrazoado e a hercúlea construção histórica da adequada fórmula política e social dos números que regurgitam, encenando (para tal) um patinar galante sobre o gelo das certezas matemáticas inquestionáveis. Para quando esta gente tão versada não me apresenta a mim, que não sou propriamente um apatetado deprimido, mas igualmente aos desfavorecidos deste mundo e em linguagem de gente, os fundamentos que legitimam, animam e determinam as indecorosas distribuições de rendimentos e as pornográficas desigualdades daí decorrentes. Se tiverem coragem e forem capazes, credibilizem o sistema (que tão piamente agasalham) começando exatamente por aqui.

domingo, outubro 12, 2014

AMANHÃ, O MUNDO PARECE O MESMO

O sonho é um olhar perdido no horizonte dos (im)possíveis

salgado4_584x385Manuel Maria Carrilho (MMC), no seu escrito O paradigma perdido, de 09.10.2014 no Diário de Notícias, traz-nos à consideração o tópico do crescimento na sua sinuosa relação com a problemática labiríntica do emprego. Como balizamento do que me proponho especular, em nota-de-roda-pé[1], cito os dois parágrafos que captaram a minha atenção e (consequentemente) afagaram a minha deferência.

Dado que não tenho saber bastante para aprofundar criticamente o transcrito, situar-me-ei no plano da valoração da profecia, tendo consciência certa que aventar juízos de valor deste calibre não significa propor um qualquer despego do conhecimento no movimento dialético da sua serventia. Ousar pegar esta lucubração pela ponta dos valores significa, tão-só, reafirmar e ratificar o postulado que assumo como certo do seu papel atuante e significante no estabelecimento e conformação do conhecimento, ou seja, considero que os valores, sendo elementos presentes e participantes na intimidade das ideologias e das culturas, não deixam de interferir afincadamente nos fundamentos, natureza e validade dos conhecimentos.

Posto isto, e recorrendo ao insuspeito e prestigiado Thomas Piretty, aliás citado pelo próprio MMC, sinto-me instigado a destacar, embora de modo sumário, algumas das suas principais e elucidativas conclusões, aliás expressas logo no capítulo introdutório do seu livro O Capital no Século XXI, com o propósito de afirmar a atualidade da importância e da significância da consciência social na definição da arquitetura de possibilidades de futuro. São elas:

1. [É] preciso desconfiar de todo e qualquer determinismo económico: a história da distribuição da riqueza é sempre uma história profundamente política e não poderia ser reduzida a mecanismos puramente económicos.

2. A história das desigualdades depende das representações dos atores económicos, políticos e sociais sobre o que é justo e o que não é, das relações de poder entre esses atores, e das escolhas coletivas que daí decorrem; essa história tem a forma que lhe dá o conjunto dos atores envolvidos.

3. [A] dinâmica da distribuição da riqueza põe em jogo mecanismos poderosos que, de forma alternada, puxam no sentido da convergência e da divergência, e não existe nenhum processo natural e espontâneo que permita evitar que as tendências desestabilizadoras e geradoras de desigualdades prevaleçam no longo prazo.

4. [As] duas crenças otimistas, a [da] “ascensão do capital humano” e a [da] substituição da “luta de classes” pela “luta de gerações” constituem em grande parte meras ilusões, [concluindo neste breve trecho que a] longo prazo, a principal força motriz que verdadeiramente tende para a igualdade das condições é a difusão do conhecimento e da qualificação.

Chegado aqui, e para evitar equivocações dispensáveis, é momento de confessar que a circunstancial relevância aqui dada a estas conclusões justifica-se, acima de tudo, pela atualidade da controvérsia que instala vinda de onde vem, e não pela minha (parcial) concordância ideológica com esses desenlaces. Vigorosamente enraizado na inveterada convicção da insanável (e dialética) desavença entre o capital e o trabalho, o meu íntimo não deixa de apadrinhar a ideia persistente, ou mesmo azucrinante, que é no quadro mais geral da dissimetria dessa disputa contraditória que se faz e constrói a dinâmica do futuro.

No entanto, regressando aos valores, aos ideais que estes esboçam e à sua tarefa primordial de assim alcançar o existente no sentido de abrir caminhos possíveis para o futuro, penso que é essencial reconhecer e valorizar a eficiência do princípio alicerçador de que o atingível se define pela(s) possibilidade(s) do realizável, conhecendo (e agindo sobre) a materialidade dos múltiplos dinamismos presentes, ao mesmo tempo que se acolhe e se situa no lugar certo da conflitualidade (histórica) que os vivificam.

De um modo decretório, e por um longo tempo no futuro do nosso viver, o que hoje se decide e se materializa marca, projeta e potencializa diferentes e contrastantes possibilidades de desenvolvimento social e humano. Assegurar, como o faz Piretty, que a principal força motriz que verdadeiramente tende para a igualdade das condições é a difusão do conhecimento e da qualificação, parece-me (todavia) claramente excessiva pela sua insuficiência.

Na verdade, o conhecimento em si e por si, pese embora a sua natureza contextual e histórica, pouco ou nada ocasiona na produção material das nossas existências. Todavia, atrevo-me a desembestar que, dialeticamente vinculado à sua dimensão valorativa e à ação prática que esta reclama e impulsiona, o conhecimento, só aí, reencontra a transparência da sua fundamentação ética (e) transformadora. Finalizo, então, partilhando (esgoelando) a convicção de que a diversão ideológica, assente na persistente e deliberada autonomização das partes, mais não faz do que perturbar a determinação desse (desejável) possível no complexo contexto da sua imediatez, da sua historicidade e da sua contraditoriedade, na valiosa expressão de José Barata Moura que aqui tomo de empréstimo com a prudência semântica devida[2].

Amanhã, o mundo parece o mesmo mas, de certo, será diferente. Os possíveis estão ao nosso alcance todos os dias, para não dizer a todo o momento. Saibamos nós, na insatisfação do existente e num esforço de aproximação, partilhado e comum, alcançar e trabalhar esses possíveis desejáveis. Lembremo-nos que o mundo não deixa de mudar mesmo que apenas o observemos. Dramaticamente, em qualquer dos nossos ancoradouros existenciais.


[1] Perante a situação marcada pelo debate temático do crescimento económico e, essencialmente, tendo em atenção a forma como ele tem sido tratado pela política através de discursos feitos de “palavras mágicas, que nada dizem [ou] de silêncios calculistas, que tudo escondem”, MMC escreve:

O tópico do crescimento ilustra como nenhum outro [a situação acima descrita]. Já tenho lembrado como ele surgiu, afinal muito recentemente, em meados do século passado. E como ele se impôs com valores altos imprevisivelmente altos, superiores a 3%, na conjunção de um vasto e extraordinário conjunto de fatores, que vão da máquina a vapor à eletricidade, da industrialização à urbanização e à emancipação feminina.

E também já tenho sublinhado que é pouco provável, para não dizer impossível, que uma conjugação análoga se repita agora. Sobretudo porque o potencial de crescimento das inovações mais recentes é muito mais baixa porque a sua lógica económica se alterou profundamente, dependendo ela muito mais da redução de custos do que do aumento da produção.

[2] Em Para uma crítica da “Filosofia dos Valores”.

 

Fotografia retirada DAQUI (Sebastião Salgado da série Trabalhadores, 1993)

terça-feira, julho 08, 2014

O VALOR HUMANO E SOCIAL DE UMA ÉTICA TRANSGRESSIVA

liberdade-paraiso

O DESPLANTE DE UMA CIÊNCIA COXA

Os tempos e as vivências, no fluir da sua historicidade, amiúde presenteiam-nos com o desvelamento de inusitadas perplexidades que, sujeitas ao crivo de uma empenhada crítica, notadamente denunciam a insuficiência do álgido, embora altivo, conhecimento económico. Despido este de vida e de humanidade, a favor da sua veneta de (querer) ser ciência inteira, relapsamente repele a discursividade humana e cívica, e com ela, a indeclinável presença e inscrição de orientações éticas e morais na colocação em perspetiva da ação política e da sua sustentação ideológica.

O PAPEL DA CENSURA LINGUÍSTICA

A magia da linguagem tem, neste domínio, uma relevância tão crucial quanto engodativa. Não constando do código linguístico dominante e, como tal, hegemonicamente circulante, há palavras que não se falam e que, dessa arte, na circunstância da sua mudez, calam imensos silêncios amordaçados. Outras há que, causticando a ordem instaurada, de imediato são apressadamente objurgadas por impiedade ou descomedimento. Outras ainda, desdobradas no interior de si próprias, confortavelmente se abrigam das significações inconvenientes ou mesmo incomportáveis.

A REALIDADE OCULTA NA SOMBRA IDEOLÓGICA DOS INTERDITOS

Assim, é neste cortejo de firmados interditos que se vai respaldando a lógica intrínseca do capitalismo, ao mesmo tempo que se acoberta a sinistra natureza do seu modelo económico. Ou seja, um modelo onde a exaltação da inovação e da criação do diferente e do opíparo, enquanto pilares consumistas de um desenfreado movimento desejador alienante, coabita impassível e tranquilamente com 1,4 bilhões de famintos espalhados por este nosso e contemporâneo mundo. Em contrapartida, uma outra ideia, de um diferente modo de produzir e de fazer acontecer, que anuncia a sua superioridade pelas suas preocupações éticas e ecológicas, encaminhadas na superação das reais necessidades humanas, constitui – imagine-se – um tedioso anacronismo histórico.

A CRÍTICA NECESSÁRIA À EMANCIPAÇÃO DO DESEJO

Desejar pelo que não se tem, sempre foi (e será) humano e legítimo. Mas na moldura do consumismo capitalista corre-se um sério risco de transfigurar o circunstancial em necessário, voltando-se o desejo contra si mesmo e assim embarcar num tipo de ideologia reativa e contrária à vida, isto é, num caos que interessa, como é por de mais evidente hoje, às governadeiras desta casa neoliberal cada vez mais global. Por experiência própria, e á base de muita bordoada, aprendi que o recurso à afirmação ousada vale bem mais do que a muleta da negação envergonhada. No essencial, descobri que o desejo emancipado ou criador pertence a uma outra ordem que não a do individualismo e da moralidade escrava do ressentimento e da inveja, típica da ideologia cultural judaico-cristã, tão bem caracterizada por Nietzsche na sua Geneologia da Moral. Por tudo isto, urge ser-se corajoso. Urge saber-se trabalhar uma cidadania fundada numa ética consequente firmada na indignação que esclarece e na transgressão que acalenta. Aos mais diversos níveis e nas múltiplas e diferentes paragens onde o humano e o social se podem e devem entrelaçar livre e produtivamente.

segunda-feira, maio 19, 2014

O EPICENTRO DESTE CONTINUADO ABALO SÍSMICO DO EMPOBRECIMENTO

A 25 de Maio, as raízes do meu VOTO

20110929_espiral.capitalistaO despudorado palavreado de intimidação moralista, que sustenta a mecânica da austeridade, abespinha. Os seus efeitos molestam. No plano material da economia, a sua capacidade destruidora é indómita. Arrasa a riqueza geral do país, destrói a sua capacidade produtiva, arruína o emprego e destina para o exterior uma parte significativa da nossa minguada riqueza. É neste contexto de austeridade e da sua voraz instrumentalidade, socialmente injusta e regressiva, que o governo PSD/PP se coloca ao serviço de finalidades mais veladas do que reveladas.

Os sistemas públicos de segurança social estão, nesta circunstância, na berlinda deste continuado abalo sísmico do empobrecimento. A pretexto da necessidade de redução da despesa pública, devoram-se direitos e rendimentos e entreabre-se a porta pública à cupidez da banca privada com a doce linguagem da complementaridade e do plafonamento. Para o governo, ajustar consiste em reduzir despesa pública e reformar, deformando o Estado. Para as gentes que trabalha significa cortes salarias e supressão de prestações sociais, acrescidos das truculentas arremetidas à segurança social, à saúde e à educação.

É nesta conjuntura, de obstinada investida, que os sistemas de pensões são tiranizados pelos argumentos tão ruidosos quanto enfezados de proteção às gerações futuras. Os jovens desempregados e emigrados, esses, não são futuro e, pela atual ação política, nem presente são. Os reformados e pensionistas, por sua vez, já foram. São hoje parcela a mais na despesa social pois em nada concorrem para a melhoria da competitividade da nossa economia. Valem, por isso, congelamentos, cortes e confiscos. Assim sendo, fica bem ao governo defender os direitos da geração que há-de vir mesmo que à custa dos direitos daqueles que exerceram o dever solidário com os que lhes antecederam.

A discursividade metafórica do pretenso lenocínio social dos aposentados parece exigir, através desta insistente e tonta balela, direito de cidadania a este vagabundear argumentativo neoliberal. Subverte-se a lógica da repartição solidária agitando as bandeiras da insustentabilidade financeira, das criancinhas que insistem em não nascer e dos velhos que teimosamente se aferram à vida, espalhando aos sete ventos a ruína do Estado Social ao mesmo tempo que, assistindo de palanque, o mercado aplaude mostrando-se presente para patrocinar as complementaridades necessárias.

Fazem-se cálculos, procuram-se convergências, trabalham-se limites, introduzem-se fatores e inventam-se taxas, tudo isto acompanhado de outras tantas tentativas bondosas, embora felizmente fracassadas, de empobrecimento das gentes de um país vozeado, por alguns, como cada vez melhor. Estes tratantes fingem ignorar que a solidariedade entre gerações funda-se num princípio que dimana de contribuições pagas sobre os rendimentos de quem trabalha e que a condição essencial para a sua sustentabilidade passa, naturalmente, por mais emprego e melhores salários. Ou seja, passa por uma mudança inequívoca nas políticas económicas que apadrinhem tal desiderato. As eleições europeias de 25 de maio podem, de imediato, nada resolver. Com toda a certeza, porém, podem ajudar. Talvez mais do que se possa pensar. Sinceramente, estou nessa.

 

Imagem retirada DAQUI

domingo, março 16, 2014

A QUEM APROVEITA A FRAGMENTAÇÃO ARDILOSA DE QUEM VIVE DO RENDIMENTO DO SEU TRABALHO?

reformados2A saída da crise económica, pela competição que gera, exige uma imediata e descautelada exploração não só dos que trabalham mas, de um modo incompassivo, também dos que fazem jus ao direito da sua justa e legítima reforma. É nesta moldura política e ideológica, onde o capital ocupa o centro e ao trabalho apenas remanesce uma inumana periferia, que o capitalismo neoliberal, aliás geográfica e desigualmente repartido, procura ganhar tempo histórico para a mesmidade de uma recuperação, provavelmente hipotética mas, como sempre, mascarada.

A generalidade dos economistas, por pedantismo formativo ou  insolência política e/ou, ainda, por mesquinhas e interesseiras vassalagens de momento, mostra-se vulgarmente empedernida aos dramas da aplicação supostamente sábia das leis internas do seu requerido e exclusivo saber. Aliás, como se sabe, onde estes procuram regularidades, ciclos e previsibilidades, outros não podem deixar de se preocuparem com a condutividade e explicação dos desconcertos humanos e sociais do alcance prático, teórico e ideológico, desses mesmos saberes.

A fragmentação ardilosa incentivada entre trabalhadores no ativo e trabalhadores reformados, entre jovens e idosos, entre pessoas que trabalham no privado e os que trabalham no público, entre algumas outras patéticas dicotomias, não são mais do que minúcias despudoradas de um epifenomenismo resultante do atual reportório das políticas que, matreira e silenciosamente, se vão acomodando. O cinismo é tal que se descobrem insustentáveis injustiças entre os que sofrem e se ignoram as distâncias que separam estes dos que deles à custa vivem.

Assim sendo, o que pode esperar, destas políticas, o Trabalho? Como se vai, com clareza, confirmando, o que se pode esperar é a redução dos seus rendimentos quer por diminuição do salário real, quer por aumento das horas de trabalho não remuneradas, quer, ainda e indiretamente, por pressão do elevado desemprego. Tudo isto num contexto socialmente desfavorável, marcado por um Estado-Providência em profunda asfixia graças ao crescimento desregulado de uma obscena e impositiva financeirização, com lucros rentistas, daí advindos, verdadeiramente ultrajantes.

Nesta circunstância, apresenta-se-me então uma decisiva questão; como manter o epílogo desta crise em aberto e não blindado aos propósitos do neoliberalismo vigente como pretendem as atuais forças políticas governamentais, nacionais e europeias? Pelo que atrás se destacou, uma coisa parece configurar-se acertada. Como condição medular, importa que a classe trabalhadora, pese embora a diversidade social dos que hoje vivem do Trabalho, não se deixe ingenuamente fragmentar e que, de um modo pragmático, embora lúcido e impetuoso, se saiba solidarizar, unir e organizar à volta do que afinal é comum na sua essencialidade. Ou seja, no dinâmico posicionamento crítico, considerar como fundamentais as referências da substantivação da democracia, da dignidade das existências e da equidade e justiça sociais. A manipulação do Capital tornar-se-ia bem mais árdua e custosa, quando não inoperante.

sábado, março 01, 2014

A ABSOLVIÇÃO “COMPETENTE” DA EXPLORAÇÃO

força trabalhadoresJosé Pacheco Pereira (JPP) escreve hoje (01MARÇO2014) no Público, e a dada altura, no seu texto “A Europa que nunca se debate”, forma o seguinte juízo: “Com candidatos como Rangel e Assis, que é bastante próximo de muitas posições de Rangel, o debate europeu ficará prejudicado por se fazer apenas dentro de uma ortodoxia europeísta que, do meu ponto de vista, de há muito perdeu o contacto com a realidade das nações europeias, com aquilo que é hoje a União Europeia, e com a vontade dos povos e nações da Europa”, sem que antes não se tenha coibido de acusar Rangel como “o mais europeísta de qualquer candidato europeu até agora”. De acordo com JPP, pelo que diz e escreve, Rangel mostra-se “um crítico da própria ideia de soberania e independência”, já que, ao congratular-se “com a deslocação da decisão constitucional do âmbito nacional, no caso alemão, para o Tribunal Europeu”, não deixa de implicitar a sua posição face às decisões que têm vindo a ser tomadas pelo Tribunal Constitucional português.

Não obstante a descoincidência na estética, o discurso de Rangel não só se associa como substancia a prédica do seu governo, designadamente quando, no contexto europeu, ele se arruma ao lado do “europeísmo mais extremo” do Partido Popular Europeu. Governo e Rangel estão assim abancados num alucinado avião que preanuncia descolar mas, na realidade, não levanta voo porque o delírio não produz qualquer energia impulsora. Uma estranha crença espirita se instala, assim e neste acinzentado tempo, ao encarnar o desvario fundeado numa espécie de religiosidade que faz da pobreza e das desigualdades a sua dinâmica constituinte e do abandono e da incerteza a condição vital dos seus indizíveis proveitos. O baloiçar do sofrimento errante, mergulhado num mundo de dependências, mantém viva a missão purgadora dos seus residentes, destinando-lhes um colo assistencial ao sopro do seu messiânico e estoico arengar. Nesta liturgia político-religiosa, a aristocracia – dos dinheiros e das influências – procura amimalhar a relação com os seus humildes alentando a ilusão de uma proteção garantida nesta vida; outros, em amiganço com a ganância dos primeiros, prometem o amparo noutras e futuras vidas. Até quando aceitamos esta miserável comédia?

sábado, fevereiro 08, 2014

A VERDADE DE UMA ESTATÍSTICA E A SUA INSIGNIFICÂNCIA EMPÍRICA

Exemplo tomado de empréstimo de Mark Blyth, embora o texto seja da minha total responsabilidade (Austeridade – A História de um Ideia Perigosa)

transferirOs economistas persistem em ver as questões de distribuição de uma forma simples que passo a descrever. Imagine que Bill Gates entra no bar onde você está a beber um copo. A partir do momento que ele entre no bar, toda a gente que está lá a beber (como você) passa a ser milionária. Porquê? Porque, garante o douto economista, o valor médio de todos os que lá estão não o desmente. No entanto, você sabe bem que na realidade não há milionários no bar mas apenas um multimilionário, apesar da teimosia do economista que permanece no seu competente cálculo.

As políticas de austeridade usam e abusam desta ilusão estatística e distributiva de um modo, diria eu, libidinoso. Porquê? Porque os economistas – designadamente os serventuários desta letal onda neoliberal – muito se encantam com uma outra realidade, a da volúpia matemática dos números. Servem os agiotas, bajulam os políticos e salivam com as recompensas. Assim sendo, a lição a retirar deste simples exemplo é igualmente simples; mais significativo que saber matemática, importa aprender a hermenêutica da sua razão.

quinta-feira, julho 18, 2013

E SE NOS DÉSSEMOS AO “LUXO” DE PENSAR?

rupturaSabemos, pouco ou muito, mal ou bem, segundo a natureza e a diversidade dos crivos e das jurisdições contidos na determinação desse saber por reputar. Do opinável, marcado pela avita aceitação social do confinante zelo, ao exercício da vaidade no palco das sapiências, malbarata-se o inestimável e profícuo alento na busca aplicada do firmado saber conquistado, reconhecido e depositado na tulha cultural da credibilidade gnosiológica.

Num tempo de densas e desdobradas aparências, ressai o apelante e sedutor artifício das exterioridades que, piscando o olho à soberbia aparecente do opinioso, o faz formigar em infundados desencontros que apenas se aquietam no suposto êxito do obnubilado convencimento. O contingente deslizar de opiniões na superfície das realidades, mistura-se, enleante, no feitiço do entretimento desprezador das finalidades últimas da razão humana. Servindo-se de diatribes, tendencialmente antinómicas de uma outra, mas servil razão, proscreve-se aquele trabalho que agrega, no exercício dialético da crítica – daquele que se ocupa da pergunta e procura, com verdade, uma resposta – a continuada busca material do seu fundamento.

Esta é a minha opinião, uma expressão tradicional e definitiva que, ao fixar, sem mais conversa, o termo de um qualquer desacordo, decide por cissura e abandono, as dificuldades sentidas, porventura, como já insuportáveis. Nestas circunstâncias, o adjacente mas encolhido acho que, convertido numa espécie de crença, sabe a pouco, já que, apesar do disfarce da impulsiva assertividade, não deixa de exibir dúvidas que a exortada adesão à validade de um saber, mais não faz do que o reconhecer como insuficiente, ou de mal a pior, sobretudo como simulado. A distância que separa a representação subjetiva do opinável ao pensamento que busca, pela persistência, a sua consistência e validade epistemológica (ou mesmo ontológica), pelo que em si e para si conta, somente funda a incomodidade desesperante do que sabe ser a facticidade na sua nua e modesta imediatez.

O teórico literário e filósofo Yves Citton, na conferência Como Sair de um Futuro em Crise (Festival de Avignon), conforme noticia o jornal Público[1], à questão “se podemos viver para além da crise ou se é a crise que nos ajuda a viver”, responde:

A crise, que cada vez mais se esquece que não é só económica, mas cujo poder económico asfixia a reflexão sobre a crise social, de valores, filosófica e cultural, é um momento de reflexão. Como se reconhecêssemos que antes da “crise” vivíamos numa estabilidade aceitável, ou sustentável, e quiséssemos a ela regressar. Porquê – pergunta o filósofo. Porque não sabemos viver sem imaginação. Reivindiquemos, primeiro, o luxo de pensar.

Desta redarguição, coloco em relevo sintetizado o tópico sugerido para reflexão, o questionamento da suposta aceitabilidade da era ante crise e a urgência de pensar, apreciado como luxo pela ingénita, embora perversa, asfixia infundida pelo poder económico. Numa perspetiva materialista e dialética, que aqui adoto, diria que a centralidade económica capitalista sempre mereceu, e não apenas nestes tempos de inusitadas agruras, um trabalho ousado e valoroso, não só do ponto de vista crítico e analítico como instrumental.

Assim sendo, no plano crítico, impõe-se desarmar, esclarecendo, o conjunto de presunções em que se cimenta a prática e a catequização que se aprumam na materialização de objetivos sociais de sujeição. No domínio da análise, uma economia capitaneada pela produção de capital, deve ser pensada, não apenas nos seus mecanismos de dominação histórica como também na base material sobre a qual essa dominação se conforta, não descartando, desse crivo, o movimento dialético que a encaminha e lhe é intimamente intrínseco. Enquanto instrumento, importa teimosamente descontinuar a dinâmica sistémica como a economia capitalista organiza a produção do nosso viver, procurando compreender os alicerces do seu funcionamento de modo a poder nela intervir consequente e consistentemente, assumindo com clareza uma vontade pensante, fundamentada e de inequívoca rutura. Do meu ponto de vista, ou a democracia vale, revelando esta plasticidade, ou a existência de um descontentamento, que se vai alargando e aprofundando, pode levar o “luxo de pensar” à necessidade de transposições doutrinais que se traduzam numa séria apoquentação para a dominância material e ideológica dos interesses por demais instalados. Mas não tenhamos dúvidas; a democracia não vale mesmo sem essa apoquentação. Em particular, decorrente da ação dos que se sentem, em consciência, explorados e injustiçados. 


[1] Público, 17 de Julho de 2013, artigo intitulado Pode a solução para a “crise” estar na imaginação, de Tiago Bartolomeu Costa.

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sábado, maio 04, 2013

A TRAGÉDIA DO EURO ALEMANIZADO

grécia_crise_euro_tragédiaAo contrário do que nos pretendem persuadir, a nossa fundada desgraça coletiva volve-se a 1991 com o reverente e bajulador amém, dos nossos regentes, ao exaltado Tratado de Maastricht. Num quadro crítico (histórico e político), marcado pela derrocada e implosão da União Soviética e a consequente unificação alemã, os jogos de poder no interior da Europa atraíram supletivos amanhãs naturalmente cultivados por arteiras engenhosidades e ideológicas oratórias. Como era imaginável, a favor de uma Alemanha reunificada, em desabono de um Mitterrand pingão e com o conluio “babaca” e servidiço dos demais.

Neste enredo de predominâncias, a moeda única não deixou de escorar a hegemonia alemã ao tolerar-se, para além da imposição do peso da sua moeda e do vigor do seu poder económico e demográfico, a germanização em ganho próprio das condições institucionais da sua implementação. A reclamação de uma política monetária única, de uma gestão orçamental comum e de uma forânea dívida pública mais não é, no seu todo, do que uma embuçada e clandestina federalização europeia. Tudo isto, emparceirado com a doutrina neoliberal, a autoridade e independência do Banco Central e a consequente submissão aos mercados financeiros, esclarece-me em grande parte o desmedido desastre europeu e a enorme tragédia dos seus elos mais fracos.

Reforça-se, deste jeito, neste tempo civilizacional destituído de esteios morais e culturais e enlodado em ressaibos, invejas e temores, que gente abjeta e demagoga explore as consequências atuais de generalizado amedrontamento em proveito dos seus desígnios próprios e mesquinhos de classe. Gente que não está interessada em dar dignidade humana e social às soluções, gente que governa sem ideias próprias, gente que se serve da injustiça para manter um clima de falsidades e odiosidades fazendo de alguns, fria e cinicamente, os bodes expiatórios das agruras coletivas. Gente aliás que rasga de um dia para outro as promessas, engana e atraiçoa sem pejo os cidadãos e deita mão, presentemente, a um deplorável populismo para manter um poder (em si) já ilícito, procurando com a aleivosia do costume engodar as suas vítimas incautas e atormentadas. Pergunto-me; até quando aceitaremos que a nossa liberdade e as nossas vidas dependam da obscena liberdade dos mercados e desta gentalha politiqueira que os assiste?

quinta-feira, novembro 01, 2012

DA GOVERNANÇA À PREMÊNCIA DA GOVERNAÇÃO - A REFUNDAÇÃO QUE URGE

 

Texto redigido no dia em que sabemos que a nossa governança, com o FMI e o BM, trabalha afincadamente na reestruturação do nosso estado social. Será?

vitor-gaspar-pedinte-fmiOs “partidos do arco da governabilidade” constitui uma daquelas expressões que me agasta pela sua diligente aceção antidemocrática. Não pela figuração em si mas pelo que ela intenciona quando adotada na mudez sarcástica das suas conveniências. Insinua-se com ironia azeda uma sentença performativa, estimando (a preceito) as democraticidades (e os democratas) que valem. Umas (e uns) merecem o reconhecimento de um valor feito de capacidade, de competência e de sentido de responsabilidade. Outras (e outros), por contraste, não aparentam exibir iguais virtudes. Com arteirice, amolda-se a jeito a democracia estreitando o seu vantajoso embasamento. Porém, os atuais mas inquietos tempos impõem e requerem mais para que os sobressaltos ocorram menos. Por isso, a refundação como expediente narrativo inspira-se no afeiçoamento da democracia (desta e de qualquer outra) aos desígnios da financeirização globalizada e da sua doutrina neoliberal.

Dizem historiadores críticos que os acasos da financeirização e da globalização vêm dos tempos remotos da época medieval. Se assim é, tudo leva a crer que nada de essencialmente novo ou de inesperado está a acontecer. A recentidade atual do prenunciado, que parece candidamente sugerir o inopinado, reside afinal na vitalidade do aprofundamento perverso do velho e histórico concubinato entre ambos. Celebrada e respaldada pela arrogância ideológica neoliberal, a afinidade torna-se no entanto mais íntima e a sua ação por de mais sórdida. Capitaneada pelo moderno capital financeiro e pela projeção de poder das grandes potências, vivemos hoje uma economia que se exaure na triste realidade de um “imperialismo assente no endividamento” (Michael Hobson). Ou seja, dito de um jeito mais cortante, se onaniza num revivalismo que nos arremete para os tempos originários do capitalismo selvagem e nos desvela, sem qualquer pudor, o âmago da sua própria essência.

O “arco da governabilidade” não é mais do que uma metáfora, quiçá uma ideia tropológica de feitorização desta civilização que se vem firmando nas desigualdades (nas velhas e nas novas) e nos múltiplos poderes que a sustentam e a instigam. A confluência dos rendimentos e das riquezas – em alguns – enseca e estrema a vida dos demais e incompatibiliza a democracia real, com o perigo de possíveis aventuras daí decorrentes. Deste modo, afrontar este estado de coisas e as políticas que o oportunizam é (também) batalhar pela democracia na busca intransigente dos bens que devam e possam ser comuns. Como ateu confesso - e no que ao bem comum diz respeito - serve-me o conceito ético formulado na encíclica Pacem in Terris pelo Papa João XXIII: "O bem comum consiste no conjunto de todas as condições de vida social que favoreçam o desenvolvimento integral da personalidade humana e sua sociedade." Assim, e acima de tudo, o que convém refundar é a metáfora que tão bem tem acomodado os nossos feitores desde o 25 de Abril, sem exceções. Por isso, importa refundar – isso sim – o arco, as suas políticas e os seus políticos. No sentido das alternativas imprescindíveis a uma vida social decente essencialmente digna, humana e solidária. No fundo, interessa saber se estamos ou não de acordo com a necessidade inadiável de refundar esta governança…

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sábado, agosto 11, 2012

O MONÓLOGO DA CEGUEIRA ECONÓMICA

 

nl17Ao folhear o “Le Monde diplomatique” (Edição Portuguesa) de agosto de 2012, dele anoto três simples apontamentos de uns tantos escritos distintos.

1ª nota (A lei dos bandidos)

Serge Halimi alude em artigo que, todos os dias, o nível da Libor é estipulado por uma vintena de grandes estabelecimentos financeiros e que este ajusta o padrão a transações num montante de 800 biliões de dólares, empreendidas particularmente no mercado dos produtos derivados, acrescentando: “Os montantes em causa são de tal forma faraónicos que encorajam a imprensa não financeira a concentrar sua atenção em pecadilhos, mas de escala humana, dos pais que recebem abonos de família sem garantirem a presença dos filhos na escola aos assalariados gregos que completam os seus magros rendimentos arranjando trabalho não declarado. Para estes está reservada a ira dos governos e do Banco Central Europeu”.

Pois então, não mandar os filhos à escola e ainda por cima acumulares? Dá de frosques e porta-te mas é bem…

2ª nota (Universidades, 20 anos depois)

Sandra Monteiro menciona, por sua vez, que a composição da estrutura social do ensino superior tem vindo a sofrer, nos últimos anos, uma forte elitização. E os números avançados são (por si) elucidativos. Assim, 9, 9% da população portuguesa de rendimentos mais elevados, em 1994/95, ocupava 14, 4% dos lugares. Em 2010/11, essa percentagem subiu para 38,2%. Por outro lado, no que concerne à classe média, constata-se o inverso; em 2004 eram oriundos dessa camada 74,1% dos estudantes, em 2010 essa percentagem baixa para 43,8%.

Olha, olha! Escola para todos? Não querias mais nada? Vai mas é trabalhar, malandro, para saberes o que é a vida…

3ª nota (Jovens jornalistas: entre o sonho e desesperança)

Liliana Pacheco ao debruçar-se sobre o desemprego e a precariedade dos jovens jornalistas também nos dá alguns números esclarecedores. Dá-nos a conhecer sobre o sector dos media em Portugal que, entre 2008 e 2011, o mercado de publicidade no nosso país perdeu quase 200 milhões de euros, o que significa uma quebra (nesse período) de 26%. Desta contração, estima-se que, entre 2006 e 2010, as empresas dos media em Portugal tenham perdido cerca de 500 trabalhadores. Tendo presente estes números e um quadro progressivo “de concentração de cada vez mais órgãos de comunicação em cada vez menos proprietários”, é fácil de perceber que é complicado, no plano deontológico, um jornalista argumentar com quem por esses deveres e regras não se governa. Mais fácil ainda será entender que a dificuldade do jornalista cresce à medida da precariedade do seu vínculo laboral.

Em jeito de síntese, vale a pena citar a última das suas considerações:

Se a precariedade se constitui como um problema grave nos nossos modelos de trabalho e em todas as profissões, no jornalismo acarreta ainda maiores consequências, já que põe em causa o princípio da liberdade de imprensa. Esta não deve ser encarada como um privilégio dos jornalistas, mas como um meio indispensável à garantia da liberdade de expressão e do direito dos cidadãos a uma informação livre e independente”.

Atina-te, ó palerma. Liberdades e direitos têm preço. Se não sabias, ficas a saber. Põe-te a milhas e deixa-te de retóricas…

Como é óbvio, muitas outras notas poderiam ser acrescentadas a estas que, escolhidas apenas por serem de campos e de natureza diferentes, não deixam (no entanto) de constituir sinais de uma mesma realidade, ou seja, sinais representativos das múltiplas estratégias que fazem funcionar ou manter o dispositivo neoliberal do sistema. Um sistema feito monólogo injuntivo da cegueira económica sobre a insubmissão democrática.

Democracia? Tá bem, tá bem. As nossas leis cuidam disso e o monólogo faz o resto…

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quarta-feira, julho 18, 2012

O ASSASSINATO ECONÓMICO DE BRAÇO DADO COM A VIGILÂNCIA CORRETIVA DOS CHACAIS DA CIA

 

cny_cia_cia_db[1]Jornadeando pela FNAC, abalancei-me a adquirir um livro de Santiago Camacho intitulado “a troika e os 40 ladrões”. O autor é apresentado no verso da capa como escritor e jornalista cujos escritos têm como denominador comum a denúncia e a polémica, o que em si logo me arrepanhou. Acresce (no entanto) que os seus temas prediletos afinam, pela suspeição, com alguns dos meus, ou seja, o das regiões heréticas das sociedades secretas, dos serviços de inteligência e das teorias da conspiração. Contudo, confesso que o crivo do índice foi para mim o decisivo safanão motivacional para a sua aquisição mais do que o afadigado e reiterado conteúdo da apresentação inserto na contracapa. “Os truques sujos”, entre outros, excitou de imediato (e libidinosamente) o meu desejo abespinhado em tragar os malandros da sujeira.

O texto acusativo das patifarias apresenta-nos um homem de nome Jonh Perkins que, nas suas “ Confessions of na economic hit man”, historia como é que através de uma associação/firma de malfeitoria/consultoria (Chas T. Main) se formou e se promoveu em assassino económico. Ele próprio esclarece que este tipo de criminosos são “profissionais altamente remunerados que lançam armadilhas de milhões de milhões de dólares aos países do Mundo. As suas ferramentas de trabalho são relatórios financeiros fraudulentos, manipulação de eleições, subornos, extorsões, sexo e assassínio”.

Numa leitura apressada, e em apenas meia dúzia de páginas lidas, apurei que Perkins perseguia nas suas incumbências profissionais confundir os países mais pobres com enormes somas do Banco Mundial e do FMI com a garantia certa de que essa abundância era para aplicar em projetos investidos em companhias norte-americanas. A esta impiedosa caução, pelos vistos, outras exigências se anexavam materializadas num outro tipo silencioso de proveitos em domínios como o dos recursos naturais do país, da cooperação militar e de apoio político. Mas, e o que acontecia aos dirigentes que não aceitavam, pergunta Perkins, espicaçando a curiosidade salivante do leitor?

Perkins, dá-nos então conta dos casos dos teimosos e embirrentos presidentes Jaime Roldós (Equador) e Omar Torrijos (Panamá). O que lhes aconteceu? Morreram ambos de acidentes de avião. Todavia, não fossemos nós cogitar candidamente numa possível casualidade, Perkins esclarece que as suas mortes não foram acidentais. E acusa; os presidentes Roldós e Torrijos foram assassinados “porque se opuseram a essa fraternidade de corporações, governos e elites bancárias cuja meta é o império global”. E vai mais longe, completando; quando os assassinos económicos falham, há outros atrás deles que levam a cabo a tarefa. São eles, diz o penitente Perkins, “os chacais da CIA”. Tal e qual…

quarta-feira, março 28, 2012

IMPÕE-SE COLOCAR A ECONOMIA NO SEU DEVIDO LUGAR

 

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Vive-se um tempo que importa fazer aproximar a política da filosofia e colocar a economia no seu devido lugar. O culto da democracia (feita de intermináveis controlos, com a economia no seu centro) é uma rábula cínica que, ao crescimento das liberdades, nada mais se faz do que avançar sujeições. Os direitos (hoje) propalados não buscam a equidade e a dignidade, apelam, isso sim, à domesticidade do pensar radical do que é verdadeiramente digno e justo. A captura é real, tudo o resto, representação. Seja-se livre e transparente e substitua-se a arrogância de demonstrar a verdade pela coragem de criticar radicalmente. A verdade funda-se neste confronto e na luta que lhe será consequente. Mais do que política, é uma obrigação moral, ética e cívica. Insurgência e inteligência, eis a palavra de ordem!

sábado, fevereiro 18, 2012

A VELHA MAS EFICIENTE INVERSÃO DO SER E DO PARECER

 

430291_370373286324552_100000556514411_1322837_1267514414_nOnde estavam antes do 25 de Abril o Mello, o Champalimaud, o Espírito Santo e outros mais ou menos "nobres zalazaristas"? No conforto da banca e do capital industrial ...

Onde estão eles hoje? De regresso, bem vivos, arrogantes e em força ...

Onde está, no meio de tudo isto, o 25 de Abril? No que se transformou ele? Numa triste paródia democrática ...

Onde estão os políticos autores desta penosa paródia? No lascivo convívio desses, hoje, "nobres democratas" ...

terça-feira, fevereiro 14, 2012

E SE ENTUPÍSSEMOS A “VÁLVULA”?

 

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Os números falam por si... Não é assim, com esta frieza, que os tecnocratas desta democracia apodrecida representam as realidades que lhes interessam? A luta ideológica, hoje, passa por avivar nas pessoas as suas frustrações e fazer-lhes reviver os recalcamentos sucessivos a que têm estado submetidos por um poder económico obscenamente difuso. O protesto instituído tem cumprido com a sua função de conter a energia da revolta. Por isso, importa libertar essa energia abrindo outras e novas possibilidades de ação capazes de gerar verdadeiras e adequadas mudanças. Ajudemos a reinventar novos mecanismos de regulação social. Pela força, se necessário ...

domingo, janeiro 01, 2012

AS REVISTAS COR DE ROSA NÃO ME ABRIGAM … FELIZMENTE!

 

A alucinação ideológica neoliberal da nossa governação parece claramente que está a demolir este pobre País. A sua política de austeridade, de sentido único, assente na teimosia cegueta, tem como propósito abonar o pagamento da “nossa dívida” aos grupos financeiros, nossos magnânimos credores. Se a consequência é, como está a acontecer, a destruição da economia e da sociedade, esta não constitui, neste tempo atual, uma preocupação política de raiz humana e social, quer dos nossos governantes, quer dessa gente sempre pronta ao exercício da generosidade.

A redução real do défice em 2011, é bom lembrar, não foi conseguida. Revela-se 5,9% do PIB mas o exato e pungente número é 7,5%. O truque, mais um ardil entre outros, alcança-se através da sonegação de uma parte dos ativos dos fundos de pensões dos bancários. Mas em 2012, o défice deverá reduzir para 4,5%, não sei se de 5,9 ou de 7,5. O que importa é perceber, na impossibilidade do uso de renovadas artimanhas aritméticas, o que vai acontecer à generalidade dos portugueses.