Vive-se um tempo de insólita feira, onde a ambição, acima de tudo, mercadeja controversos desejos, desdobrados estes na promessa desmedida e abundante de imaginados, e quiçá, fúteis e excitantes prazeres. Daí que a nossa relação com esse atiçado mundo voluptuoso se faça emocionalmente atribulado. Porém, insatisfeitos tais intentos, os alentados proveitos esvaecidos esculpem-se em tristes frustrações ou em intensos desgostos. Enquanto a frustração o tempo cura, o desgosto apodera-se das pessoas. Neste, os incautos, deleitando-se, deixam-se entregar a continuados e reiterados gozos entretanto passados, contudo definitivamente já submersos. Daí que, dei comigo a ponderar, se não vale a pena cuidar da indiferença, procurando escapar, através dela, a inúteis desilusões e, sobretudo, a desgostos que tanto nos castigam. Ou melhor, no uso quotidiano comum, cuidar da indiferença, aprendendo a fazer dela uma qualidade e não, de todo, uma mera apatia mesquinha ou, mais errado ainda, praticar com ela uma selvática e familiar insensibilidade.
segunda-feira, julho 10, 2017
quarta-feira, junho 21, 2017
A FAMILIARIDADE DA LINGUAGEM E O DESCONCERTO POLÍTICO DE TORNAR O POBRE, UM BOM POBRE
Burgueses há muitos. Os que são porque o são. Outros, porque o cobiçam ser. Outros ainda, porque já os macaqueiam duvidando vir a ser. E, finalmente, a maioria, ou seja, os restantes pobres que se decidem burgueses. Os únicos tangíveis são os matrimoniados com o sistema, que neste vivem bem acolchoados e sabem, igualmente bem, porque razão nele habilmente logram permanecer. Todos os outros, particularizam-se pela natureza da sua ambição de ser, servindo-se de palavras, gestos e esgares grotescos, na qual a farsa, a mistificação, a hipocrisia e a própria imprevidência se caldeiam com a ensimesmada ignorância ou, pior ainda, com o cabal arroubamento de espírito.
Porém, existem Outros. Os pobres, os verdadeiros pobres, os assistidos, aqueles que não têm sequer ensejo para fantasiar e, por isso, atassalham a possibilidade de mitigar a realidade, macaqueando ou cobiçando sonsos e ociosos paliativos. Então, como reconhecer e discernir, não propriamente para surpreender os referidos originais, farsantes ou otários, mas sim o discurso que a todos estas figuras une? Quem é essa gente? Eis alguns sinais que emergem das raízes, relações e entrelaçados circunstanciais dos seus cerceamentos:
domingo, junho 18, 2017
AS UNHAS-DE-FOME DO LUCRO PANÇUDO
Será que alguém de bom senso contradita a ideia de que o Consumo há muito se descasou das verdadeiras necessidades das pessoas, viandando pela intemperança do dispensável ou pelas apatetadas passarelas do Simbólico? Eis um ruído sibilante que julgo salubre lembrar como óbvio; o abrir de mão das rendas com que o concupiscente Lucro avassala a Publicidade conivente em perda do Salário que o serve. Aliás, estrupido esse, que num mundo sem fronteiras, a Besta Globalizada faz ouvir enquanto seu santo e bendito Lugar. Neste, Ela forja mercados, inventa engrenagens e conforma ficções prestáveis à epidemia que sufoca o Humano Futuro. Um futuro, que no concreto, é tão-só um ensejo aguardado, cercado por uma avivada fadiga grifada no paradoxo da recusada descrença. Desta alogia, sobra então a íntegra razão da Esperança do (e no) Humano, donde medra a Convicção que alenta a faina do Resistir.
sexta-feira, junho 16, 2017
O SOFRIDO LABOR DA AUTENTICIDADE
Como é penoso sacudir o passado. Um passado que afinal não passa. Sempre presente, desvela uma sobra de afetos que me amarga. As palavras úteis escondem-se por trás desse mudo silêncio que me castiga. O meu eu inquieta-me e o espelho em que me procuro descobrir não se cansa de testemunhar a minha culpa. Assim, a singularidade, que laboriosamente busco, parece esgotar-se nessa briga infinda com o avesso mundo das normas e dos seus medidores. O caminho e o sentido da autenticidade, desse modo, tornam-se compromisso, dívida para com a dignidade, uma viagem sem dúvida incerta e ousada. No seu fundo, uma aventura humana que não posso, nem devo deixar de tentar. Sempre e com determinação. Não há volta a dar.
sexta-feira, junho 09, 2017
SEI APENAS QUE POR AÍ NÃO VOU
Circunstância pode sugerir mera particularidade, condição ou mera qualidade determinante. Contudo, pode também instituir-se como causa, desejo ou motivação incitante ao comprometimento. Ou seja, uma circunstância que se faz ocasião e, não raras vezes, se torna acontecimento, já que força à preferência, ou mesmo, impõe a opção.
Claude Roy, no seu livro O homem em questão, anota no seu texto introdutório, duas ideias que desde 1972 – cumpria eu o serviço militar em Moçambique – eternizei no meu espírito.
A grande questão metafísica da vida quotidiana é a dos encontros. Os seres são inúmeros, mas apenas conheceremos alguns deles.
Mais à frente, acrescentava uma outra que abrilhantava e aclarava a primeira.
Viver nem sempre é escolher o que se conhece, mas é sempre escolher o que se recusa reconhecer.
Ao longo da vida, e nas mais diversas circunstâncias, a síntese destas simples intuições facultaram-me prezar (e dispor) o (do) argumento da recusa, mesmo quando confrontado com o incerto caminho a tomar. A recusa de um caminho tornou-se, nestes hipotéticos cenários, uma confiante certeza que me espicaça o risco de jornadear por veredas desconhecidas e até imprecisas. Apurei, apesar das dificuldades, que o exercício do Não, convicto e fundado, pode-se transfigurar num horizonte impensado de possibilidades e oportunidades. Diferentes, provável e naturalmente, e decerto bem mais benéficas para a Vida.
terça-feira, maio 23, 2017
PARA UMA CULTURA DE DESOBEDIÊNCIA
Vezes sem conta, muitas mais do que se imagina, a obediência rasteja por trilhos de obscura lealdade ou continuidade. Os encorajamentos da obediência, servindo-se de secretos e perversos alicerces, promovem e respaldam, com a maior das indignidades, estranháveis (embora entranháveis) autoridades. Estas, recorrendo a poderes intrigantes e a saberes por eles malsinados e utilizáveis, fatalmente excludentes, traçam com crueldade geométrica as suas fronteiras disciplinares, intransitáveis àquela liberdade desafiadora da emigração de criações implicantes.
Os condenados ao coagido exílio, nestas circunstâncias, negando o silêncio submisso, amantes da livre circulação da palavra, empenham-se (acertadamente) por pensar em voz alta, resistem pensando diferente e, sobretudo, com a presença ousada da coragem, não desistem de pensar. Ao mundo, os dogmáticos obedientes, acima de tudo estes, e não a triste escolta que a imbecilidade guarda, apenas mostram uma fachada, aquela codificada em sínteses ideológicas e morais trapaceiras, que bem escondem (nesses fundos) uma miserável história de exploração, dominação, hipocrisia e corrupção.
Em jeito de desfecho, diria que no fundo dos fundos, como vitalidade medular desta história, encontramos a ganância e os seus comoventes papagaios que rastejam à cata prostituída do restolho das migalhas. Assim sendo, garanto que o eixo utópico deste desalinhado contributo entrega-se mormente a amofinar o cantar desses psitacídeos e a infestar as suas gaiolas de padronização interesseira, sejam as douradas dos ladinos, sejam as piolhentas dos alegres e lerdaços parasitas. Como primeiro passo pedagógico, se me permitem, aconselho a estimar aquele olhar atiçado pela tentação de desobedecer, ou mais simplesmente, de dizer não e de corajosamente vociferar BASTA…
sábado, maio 20, 2017
MAIO 13, UM CONCENTRADO DE EMOÇÕES
No 13 de maio último, numa intrigante fúria (ou fuga) histórica, enrugada por súbita vinculação a um sublime fado lusitano, admitia-se que os portugueses se haveriam, afinal, de reencontrar com as suas raízes simbólicas e mitológicas, mediante as quais a faceta exaltante da jactância, finalmente, reprimiria a aferrada queda na persistente e deprimente saudade acamada, um tanto ontológica, da sua arcaica essência criadora de impérios entretanto abortada.
De manhã, todos, mesmo todos (cristãos, ateus e apáticos), confluiriam, mental e fisicamente, para esse beatificado lugar predestinado, onde os pastorinhos, não deixando de o ser, se converteriam em santos. De tarde, todos, mesmo todos, se regozijariam com os seus lábaros ou bandeiras, na circunstância professantes ou tinhosos, estes caçoando com o burlesco da treta, os outros comemorando em gáudio e em trânsito o tetra, todavia, ambos, todos, em divina eucaristia canibalesca com o ondeante de agitação avermelhado.
À noite, muito provavelmente, e pelo contrário, o acerto apresentava-se menos esperançoso. Um rapazote, com uma deselegante aparência relaxada, barba em arrogante desalinho, cabelo estranhamente encapelado, à revelia dos mais reverenciados escantilhões prescritos, ousaria botar anomia artística na ordem fabril da exorbitância festivaleira.
Tudo aconteceu, tudo parece ter resultado, e como se presume saber, a transferência tem uma força psíquica poderosa, pois os egos marcadamente neuróticos, sobretudo em cenário de massas, tendem a albergar no seu eu esse mundo inteiro, embora incomum, quando este se compadece, acima de tudo, com uma desaconchegada dispneia existencial. Assim, deixar a libido descansar e as emoções flutuar livremente, manifesta-se em um útil oportuno. Certamente, assistirá ao nosso sentimento de sobrevivência e, nunca se sabe, de consolável refúgio.
domingo, fevereiro 26, 2017
VOTOS DE UM BOM CARNAVAL
Há gente que ao aparecer faz o possível de parecer o que não é, mas diligentemente mostra ser, por vezes, o que de todo não é. Outros há, que se empenham por aparecer, parecendo o que procuram denodadamente ser. Este é o quotidiano desigual de um tipo de carnaval multifacetado que o tempo de Carnaval desobriga, dissolvendo os diversos contrastes numa oportunidade comum de galhofa e onde a sadia ociosidade se espreguiça ante o esmero da distinção. O Carnaval é, deste modo, talvez o tempo único onde o poder de iludir escapa à prova da sinceridade e a hipocrisia, podendo existir, se acolhe na legitimidade da sua máscara risível. No Carnaval, o poder de iludir, ao desenvencilhar-se da maçadora perversidade do mau uso da liberdade de cada um, dá descanso à necessidade de agasalhar uma nudez interior embaraçosa. Aproveite-se o Carnaval ... para que o porvir do quotidiano possa lucrar com a venturosa folia.
sábado, dezembro 24, 2016
UM TEMPO, O TEMPO DE NATAL
O tempo de Natal é um tempo plural que amadurece, tornando-se sempre, ao longo desse tempo diverso, uma inefável e, por vezes, insondável vivência. Da chaminé adornada pelos ansiosos sapatinhos, aos dias de hoje marcados pelas memórias da virtuosa credulidade. Permanecem, nesta caminhada, presenças consoladoras, e insistentes ausências, que inteiramente nos acarinham. Afinal, o tempo de Natal releva a espiritualidade que acontece com esse fatal desenhar da vida. Um humano e esquinado traçado de dor e de felicidade, esboçado pelo incessante afeto que alenta a Vida e tempera a vontade de a continuar a viver. É tempo de Natal.
sábado, outubro 22, 2016
A SIMPATIA NEM SEMPRE RIMA
A minha última postagem, faz-me retornar hoje a um certo argumentário tendo como tónica a anotação aí citada das boas maneiras ou, se preferirem, dos bons modos. Com o propósito de trazer, desafiando consciências disponíveis, uma atenção crítica para a arrogância e a presunção dos signos que nelas se inscrevem e, acima de tudo, convocar um olhar analítico e perscrutador para os arbítrios protocolares que, de modo valorativo, se auto creditam distintos. Em peculiar, no compartilhado mundo das castas assentadas na metagaláxia reinante e naquele outro disputativo cosmos proporcionado por uma atontada parentela que lhe é confinante. Este, lamentavelmente pateta e patético, figurando o seu comovente idiotismo de assemelhação na mimética e notória contrafação carnavalesca.
Em jeito introdutório, falemos de elegância, uma ideia simbolicamente muito apreciada pelo atributo que lhe é concedido graças a um certo imaginário induzido pela invencionice da catalogação social. O reconhecimento desmedido e incondicional da boa educação daí provindo e que acompanha a graduação de tal seriação, alenta, em si, uma suposta lógica de superioridade que naturalmente faz o seu pretensioso percurso. Todavia, no âmbito das boas maneiras, e da elegância a elas associada, do meu ponto de vista, duas perspetivas se fitam. Num extremo, temos uma elegância proeminente que se filia e persegue, na sua austera aparência, a simbologia litúrgica dos distinguidos; no outro, e em clara discordância, uma distinta elegância instruída na genuína empatia da consideração e da reputação pelo Outro, por esse outro que é sentido, na sua raiz, como um outro-eu.
As relações humanas de sociabilidade, podendo-se aproximar daqueles limites, manifestamente se localizam no cultural registo da contradição caminhante. Porém, parece-me óbvio que a autenticidade da empatia, no ato espontâneo de se afastar do pavoneio que enfeitiça a primeira, elegante e discretamente, condena os múltiplos disfarces sociais que levam ao enganoso jogo simbólico das superioridades, das dominações e das servidões. Entre o espaço do pensar e do dizer posiciona-se um campo de subjetividade onde muitas enormidades acontecem e, sobretudo, as mentiras da significação se produzem. As maneiras, as boas maneiras protocolares, desligadas dos seus contextos concretos, modelam comunicações que escapam às suas objetivas e fundadas determinações. Ou seja, e em tradução livre, rematando em concordância com José Barata Moura; a mentira não é apenas a fáctica. A mentira, ou melhor, a mendacidade não utiliza apenas a língua e a sua voz. Utiliza, e bem, o corpo todo. Inclusive, a dissimulação que o conforma.
terça-feira, outubro 18, 2016
UMA ARTE SUPERIOR DE TER RAZÃO
Foste desbragado na linguagem, descortês ou simplesmente antipático, por isso, perdeste a razão. Se a perdeste é por que a tinhas, ou tinhas a forte probabilidade de a ter. Ficaste sem ela, a razão ou a esperança de a ter. Assim sendo, a tua razão nulificou-se subsumida pela avidez esganada da tua expressividade. Imprópria, ou tão-só inconveniente. Decerto, usaste-a desajeitadamente. Sem dúvida descuidaste a ciência das boas maneiras. No essencial, desdenhaste essa arte superior de ter razão. Afinal não a estudaste, alcançaste ou praticaste. Não entendes, mas, certamente, tornar-te-ias destro na dócil e obediente agilidade de obteres, também, razão quando não a mereces. O que tu perdes neste tempo de consensos voláteis…
quinta-feira, maio 19, 2016
O PROTOCOLO DA INCOMUNICAÇÃO
Gostava de ser um bom comunicador, mas nem sempre o consigo ser. Reconheço as minhas imperfeições. Sem qualquer consumição moral, confesso que as coloquiais máculas se inveteram na incauta têmpera da minha safada emoção, que me destinando muito da minha amena vida, de igual modo, é bem capaz, também, de a atraiçoar. Desse nervo cúmplice, fogoso demais por vezes, ainda assim dele tiro a vantagem sagaz da matreirice e, desta, a ardente e sadia energia que, em circunstâncias bem-fadadas, me fazem escapar à inútil tarefa da moderação ou ao indolente corretismo da polidez. Pois é. Mas comunicar, esse salubre e benéfico pôr em comum, pressupõe a ousadia da liberdade, a dádiva da disponibilidade e o leal empenho na partilha perspícua desse comum em que se procura adentrar, ou em que se esforça por concertar ou, tão-só, em que se dirime delicadas fissuras, afinal provavelmente irremovíveis. Esta sinopse marcada pelo dissemelhante, em que o comum todavia se arruma, é um desafio que aprecio, que me desperta e me entusiasma, não obstante os caprichos dessa bravia emoção antes aludida. Azucrina-me, isso sim, a cátedra da unidirecionalidade que sufoca o pensamento do outro, a arenga que subestima o diverso e o discrepante que intenta nulificar o exercício do diálogo e da crítica. Deste jeito funciona o suposto poder do algoritmo de alguma convencida sabença, de uma certa empáfia social arrogante, que sem pudor manobra a fala do recurso à estolidez que aferrolha horizontes e atravanca quaisquer estendeduras e escavações. Mais trivial ainda é o uso do método da simplificada e obscura forma de extremar o colóquio, despachando célere movimentos de argumentação embaraçosa e, em consequência, e desde logo, sepultando algo que, mesmo exordiando viva e fortemente, nasce já condenado a ser defunto prematuro. De facto, assim me parece ser e acontecer.
domingo, abril 10, 2016
ESCREVE, AMIGO
És um daqueles amigos que muito admiro, permanentemente instigado pelo desafio do escuro, daquele impreciso que te desconcerta, te parece desalinhado, mas que se te apresenta livre, sedutor e acertadamente indisciplinado. Mareias por águas bravias e outras dóceis e domésticas como se a vida não desnudasse o contraste. Curiosamente, respaldas-te naquelas e vives azedado no quotidiano das últimas. Não obstante, é nestas que refazes a saudável vitalidade e energia da tua fúria e encontras o irónico sossego do arrimo que te permite viver a vida que sabes escapar-te.
Por isso, tens de escrever para dar forma ao informe experimentado que te cabe no universo dessa infinidade de possíveis mundos e modos de vida, dando vida aos restos exclusos da desenxabida mas cuidada cena do tartufismo nomeável. Muda de palco e encena a tua história. Dá voz aos silêncios que tão bem soubeste guardar ao longo dos tempos. Sei que sabes escutar os murmúrios desses destroços empilhados e, mais do que escutar, perceber a sua linguagem e inventar as palavras com que o teu imaginário enlaçará o real, que nunca se apreende por inteiro, e o simbólico, que sempre nos surge incapaz. Escreve, amigo. Com nobreza, se fores capaz sem o calor embriagado da inquietação ou, com grandeza, escusando o afável aliciamento do cativeiro.
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domingo, abril 03, 2016
O VALOR DO NÃO NA OBRA DO SIM À INDIGNAÇÃO
Tristemente nem sempre a razão da indignação se faz ouvir perante o inadmissível. Diante desse imperdoável que abala, a dor forma-se no nosso Ser. O Ser e o ter vinculam-se a qualidades diferentes e visceralmente distintas. Importa separar. O Ser pode-nos levar à indignação, o ter soma-lhe contrariamente a inveja que alenta a avidez. A indignação firma-se na defesa do que se É. Ao invés, a cobiça radica no que não se goza o que outro possui. A indignação busca o reconhecimento que perfilhamos como vital. A sofreguidão, pelo contrário, desvia-se para a degenerescência por entre imediatas adiaforias.
Deste jeito, ao perder-se a paciência, só nos resta o movimento humano da impaciência. Agitado pela voz da indignação, assim se recusa (e bem) a ordem silenciosa da avidez. A invídia não nos trará certamente novos destinos, mas apenas os reiterados ressentidos da passiva inação ou da boçal cupidez. Amanhemos, assim, o vigor diligente da indignação escapando à madraça alienação das cobiças desmedidas ou das frias invejazinhas. Recusemos o espetáculo opressivo do ter, desse ter que nos enfeitiça, valorizando a consciência que naturalmente crescerá com a razão de Ser nesse movimento de recusa e de indignação. Em nome de um outro ter, um ter-valor que nos ultrapasse e se possa estender ao conjunto dos outros.
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domingo, março 13, 2016
ACONTECE ENTREVISTA
De PEDRO PAIXÃO com HELENA SACADURA CABRAL
Um momento introdutório com FANCISCO JOSÉ VIEGAS, entrevista publicada em agosto de 2013. Um homem singular, inteligente, culto e desarmante. Aqui deixo o registo.
“Talvez por causa da doença, não tive uma vida muito fácil mas não a trocava por mais nenhuma. Apesar de ter sofrido tanto, tenho muito a agradecer à minha doença, porque foi por causa da minha doença que me doutorei, que escrevi os livros que escrevi, tive as paixões que tive. Há um elemento espiritual muito forte. É possível que Jesus Cristo tenha sido bipolar. Uma pessoa vai ver no Novo Testamento, as mudanças de humor dele são imensas e muito fortes. Isto eu nunca ouvi em lado nenhum, isto é uma tese nova.”
(Pedro Paixão, 2009, Grande Reportagem SIC: Mentes Inquietas)
Nota – testemunhe apenas se estiver disponível para ser inquietado.
quinta-feira, fevereiro 04, 2016
ESTE MESMO TEMPO – AFINAL UM TEMPO SEMPRE DIFERENTE
Falar da vida com gente mais nova é sempre uma experiência deveras estimulante. Vivendo ambos o mesmo tempo, vivem-no respaldado sobre temporalidades diferentes. Os mais velhos, narrando sobremodo o passado, afiguram-se desejar suspender o tempo. Os mais novos, entrevendo futuridades a alcançar, apresentam-se em especial galanteadores do porvir.
O comum da inquietação é que a ambos o tempo lhes transcende. Na busca dessa sublimidade que lhes escapa, uns e outros se aventuram na façanha do seu gozo. Uns, trabalhando o sadio resgate das suas histórias de vida; os outros, salutarmente esforçando-se por as erguer. Aqueles, sentindo as traições de uma atribuída linearidade; estes, os mais novos, ainda sem memória dos restos que pelo caminho vão ficando.
Os mais velhos não têm pressa; os mais novos mostram-se ansiosos. Mas os dois, espiando a marcha do relógio, sabem que o tempo que importa está ligado aos insuprimíveis desejos. Afinal, esse tempo que significa e se significa é, acima de tudo, subjetivo. O garantido do tempo é que ele passa e não volta para trás, sendo o agora, o único tempo possível em que algo pode acontecer ou, nada sucedendo, sem remédio ele se perde.
Podemos voltar a todos os lugares estimados mas esse retorno jamais fará reverter o tempo. E é o reconhecimento desta absoluta inviabilidade que anima a agitação de significar as nossas histórias de vida e nos concede a possibilidade de as ressignificar, na busca continuada de uma verdade que não sobrevive idêntica ao longo do tempo. Esse agora, esse único tempo possível, e do possível, esse presente sempre fugaz, que logo se torna passado e se faz futuro, é o instante de um presente onde tudo se condensa e converge. As memórias como o presente do passado, a realidade vivida e sentida como presente do presente e o futuro como o presente da espera que se espera com esperança ou mesmo sem ela. Por isso, mais novos ou menos novos encontram-se nesta inquietação comum assente, não na natureza do tempo em si, mas sim na relação do sujeito com o tempo do seu tempo.
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terça-feira, fevereiro 02, 2016
SOBRE A ADOÇÃO
João Miguel Tavares (JMT) confessa-se; teve um sonho. Mas vai mais longe e mitiga a opressão angustiosa da noite rabiscando-o no seu orespeinhonãoébonito, um espaço que o Público lhe concede para os seus devaneios e imaginários remexidos. Aqui, e desta feita, apresenta-se oportunamente pautado, inclinado a cooperar com os seus confirmados pergaminhos para o enobrecimento do debate público Sobre a adoção gay.
Acompanhado da integridade que o convence, e em obediência à sua tão exaltada liberalidade, propõe-se pular duas ou três linhas acima do nível da cavernícola, evitando que o outro simbólico se precipite no recôncavo do subterrâneo das cavernas. Seriamente incomodado, o que não deixa de ser um bom sinal, com as cegas reações igrejeiras (de rejeição ou acolhimento) ao veto do expirante Cavaco, JMT descortina no canto do esvaído Presidente dois bondosos timbres na melodia que fazem, da sua resinosa partitura, algo de aplaudível.
O primeiro timbre, revelador do seu profundo sentido musical, inscreve-se naquela composição cristianizada por pautas que, dispensando algumas notas musicais, inspiram a notação monódica do consagrado gregoriano do Arco da Governação. O segundo timbre, logicamente inscrito na raiz conservadora do gregoriano, passa pela letra da música, das suas dinâmicas e prossegue até ao entrosamento do grupo, para se fixar na qualidade do canto em nome do superior interesse da criança.
À parte da rixa birrenta com o mote do casamento homossexual, diz o crítico, nada de confundir esse legítimo ponto de partida com o direito dos miúdos a serem adotados por esses excêntricos casais. Existindo já laços afetivos estabelecidos, tudo bem. É um problema de coadoção, por acaso já resolvido. Até aqui, é certo, o homem está de acordo. Daqui para a frente, aconselha ele a empreender um amplo e esclarecedor debate público. Assim sendo, e face ao exposto, qual passa afinal a ser o objeto preciso da dúvida? Se o problema é dos laços afetivos, ou seja, de uma não existência anterior desses laços, o que diferencia o casal homossexual do heterossexual? Eventualmente, digo eu, talvez o preconceito, tornando este, por fim, o essencial da Coisa do debate. Em conclusão; algo já há muito permanecente no recôncavo do subterrâneo das cavernas.
quinta-feira, outubro 01, 2015
A ESTRANHEZA DO ÚTIL E DA UTILIDADE DO VOTO
O PAPEL DO JORNALISMO NA CONFISCAÇÃO DA DEMOCRACIA
Apercebo-me que a função social do jornalismo – verdade seja dita, qualificadora da legitimidade profissional do jornalista – vagabundeia hoje pelos becos de uma obscura “deontologia”. Descuidada da sua originária missão, a auspiciosa função social, o jornalismo vem-se acostando e, de uma forma extremada, amimando a ávida jurisdição dos conluiados poderes económicos e políticos.
Entre outros pastoreios, deste respaldo se efunde, como parece ser óbvio, uma disposição contrafeita pela incursão no jardim das delícias do dinheiro e do poder, com a incluída barganha dos senhores poderosos dos media. Aqui, neste lustroso covil, o consenso converte-se no propósito comum do ajuste; o folclorismo da conflitualidade, numa conveniente diversão prescrita; e a dissidência, numa mera periferia onde se desdenham as proezas da irresponsabilidade ou da utopia.
A política está infamada, diz-se. Tagarela-se sobre a crise de representação incriminando, talvez com razão suficiente, a partidocracia ocorrente; uma sequela provável do confisco perverso dos diretórios partidários. Deste modo, os pecados da democracia ficam nomeados e, para brandas consciências, apontados estão os incontritos pecadores.
O que dizer então, nesta embrulhada, da envoltura comprometida do poder mediático? Como pratica este o jogo da mediação? Se medeia é porque ocupa um determinado meio; supostamente, uma valiosa centralidade nessa prestadia jogatana da tradução e representação do palpitar concreto das inquietações das gentes. Assim sendo, se há crise de representação, a crise também os compromete.
O decente e isento entendimento das coisas, que eu saiba, pressupõe ideias e destas, exige-se rigor e clareza. Eis o encargo a que os media estão obrigados pelo seu mandato social. E sobre esta matéria, estamos conversados. O voto útil, tema fartamente propalado pelo comentário político (e não só), torna-se, nestas circunstâncias, um bom exemplo de manipulação. Uma ideia turva e acintosamente enganosa de afunilamento democrático a favor das alternâncias e em desfavor das alternativas.
Pois é. Ao contrário do se pensa, o jornalismo não se mostra hoje vinculado à obra da democracia. Não respeita o dever de informar com verdade e, nessa medida, anarquiza os preceitos do escrutínio democrático. Assim vai um jornalismo que, cada vez mais, dimana, não da sua primordial função social, mas da determinação e das cumplicidades do acumulado e concentrado poder, incluindo dos mediáticos patrões. O Trabalho que se cuide. O Capital e os seus afins, esses, já se apropriaram da democracia, com o propósito neoliberal de obter (para si) um estado de classe cada vez mais rendido ao capital financeiro.
sábado, setembro 19, 2015
A LUTA PELO VOTO DA CONFRARIA DOS OTÁRIOS
Contrafazendo outrem, em favor do voto do arremedo apregoado, algumas cruzadas eleitorais mostram-se habilmente distorcidas face à realidade e aos dogmas que a escoram. Para tal, fazem equivaler a disputa política a um banal clássico desportivo e, em suposta concertação, do cidadão apenas buscam (e requerem) o seu costado lerdo de homem ludens.
A agiotagem cínica e petulante que se sacode pelos media, sabe bem, e em benefício próprio, aliás sempre mais funcional, cobiçosa e calculista nestes resolutivos cenários, explorar o emocional como matéria-prima. Empenha-se, para tanto, em subtrair à racionalidade o valor crítico da objetividade e, com o jeito industrioso que (afinal) a incrimina, colocar o velado a favor da circunstancial e volátil subjetividade.
Os poderes enredados no conluio deste profícuo paradigma, marcado pela talhada e desejada pré-reflexividade, pressupõem perfeitamente o que em comum lhes interessa, e sabem, melhor do que ninguém, como fazê-lo desaparecer em encarrilada forma de polémica, ganhosa para ambos. Procura-se, acima de tudo, que a substância se volatilize em emoção e que esta cumpra o seu dever de controlo ideológico sobre o cidadão desprevenido.
Como sou um indolente cismado – aliás próprio de um racional bem consciente do pecado da emotividade que, frequentemente, se lhe entorna – preciso de tempo para acompanhar a tartufice deste tipo de comunicação intencionalmente célere e invasor. Sobretudo, quando pressinto que, não sendo fácil policiar o pensamento, procuram torná-lo superficial e, como tal, presa dócil da inércia ideológica vigorante.
No entanto, jogam a favor da minha absoluta desconfiança, a vigilância atenta sobre o tempo passado, o reconhecimento da sucessão e permanência dos problemas e o escrutínio da isonomia cristalizadora dos comportamentos políticos de quem nos têm governado. Deste modo, para alinhar nessas cruzadas de apoio e reafirmação a esses poderes (sejam eles, nacionais ou europeus), teria de destruir memórias que me fizeram o que sou. Seriamente, não me vejo tão otário assim para me revogar tão imbecilmente.
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quarta-feira, junho 10, 2015
AS DANÇAS DA SIGNIFICÂNCIA SOB O VÉU DAS APARÊNCIAS
… ou a moralidade política da mentira
Espero, observo e acompanho, com manifesta inquietude, o atual momento da incerta e controversa situação grega, europeia e não só. Presencio labirínticos negociamentos com múltiplos (e mancomunados) poderes, abarcando (como é óbvio) a lacaiada que a estes assiste. Neste melífluo e embrulhado tráfico de interesses, questiono-me, como é lógico, sobre a imediatidade dos resultados a que se possam chegar. Ainda assim, mais do que reputar estes fins subitâneos, interessa-me apreender os rumos a que eles conduzem, descodificar os modos e as razões por que são eles sobremaneira qualificados e descortinar a medular e obscura irmanação que entre esses mandos (de diversas jurisdições) se firmam e consolidam.
Não obstante, como causa maior, importa captar a sanha que conduz o brumoso apuro e refinamento das irreveláveis simulações, dissimulações (ou mesmo mentiras) que assediam os povos neste obnubilado e prolongado ajuste. Ao longo do tempo, com a vida e com os tropeções nela ocorridos e a experiência das suas chagas acumuladas, adestrei-me na vigilância suspeitadora de sensos calcetados em números, desses números que aligeiram respostas e (amiudadamente) afastam a nossa atenção (e cuidado) da essencialidade dos problemas. Desta feita, um cinzelar astucioso (de expedientes e modos reguladores de difusão e representação) completa o método e requinta o seu eficiente e ordenador papel de aquiescente intimação sobre as tais obscurecidas (embora utilíssimas) respostas.
Não sei se o povo é facilmente enganado ante um saber convenientemente debruado e colorido que o embaraça de avistar o exato alcance de tão perentória (e particular) ciência. O que sei, porque o alarde é evidente, é que as rédeas que estas indecorosas governanças puxam não prescindem da conformada presciência de tirar partido – em cada conjuntura, situação ou mesmo agitação – por meio do empenho da maquinação e da encenação do chamamento à costumeira e mesquinha fragmentação do social, acorrentado aquele à difusa abantesma do medo, dando largas às suas exercitadas maestrias de raposa (astúcia) e de leão (temor), na recorrente (e já histórica) peça teatral evolutiva do seu desalmamento, porfiando teimosamente a celebração da ideia, aliás sempre abafada, de que os fins justificam os meios. Os homens, sobretudo os que dominam, na ausência de alertas e de ações impedientes, apenas evocam e fitam os (seus) fins. A natureza instrumental da mendacidade, nas suas múltiplas formas, converte-se na dimensão essencial (e fecunda) da moralidade política da mentira.