Assiste-se, presumo eu, a uma sequela traumática neste PSD, excitada por um triste e deprimido Passos Coelho, ainda fixado à marca de uma suposta e inconsequente vitória eleitoral, provável razão de ser desta estendida e gritante experiência do trauma. O seu discurso repetitivo, enfezado e cindido, não atina com qualquer rota de inscrição na teia, aliás consensual, de representações agora aceites face à atual realidade do país. E o que não se representa emerge sempre, e de um modo aparentemente novo, através ilimitadas e compulsivas repetições, diz a ciência psicanalítica. Encarcerado assim no seu trauma, o PSD ou o Passos no PSD, o passado não passa, a história não se move e o presente (do PSD ou do Passos) nela se vai esperneando por asfixia. Permita-se-me um recomendável palpite; lutar contra um luto, fazer o luto, não é enfrentar o esquecimento. É antes um corajoso exercitar da liberdade. É uma árdua faina de nos libertarmos das (pre)disposições que nos aprisionam aos lugares sombrios da infecunda melancolia.
segunda-feira, julho 17, 2017
sábado, julho 08, 2017
ESTRANHEZAS
Não me revivem deuses, santos ou ídolos de infância. Na escola, na igreja, e mesmo na família, retrataram-me uns tantos. Alguns deles, presentes demais em explanações fatigantes de estórias longínquas. Outros, poucos, mais avizinhados, carrearam uma outra vitalidade, na verdade, mais intimativos ao meu impressionável imaginário. Os retratos destes, em película, ofereciam proximidade, as estampas de outrora daqueles, apenas aparências misteriosas e improváveis. Assim, se porventura os tive, a deslembrança confirma que eles não resistiram ao passar dos tempos. Em definitivo, não habitam em mim heróis provindos da minha infância.
Mais tarde, no tempo adolescente, relevei algumas criaturas. Ainda assim, não muitas. Algumas que me destinaram marcas cinzeladoras do que tenho vindo a ser. Outras, que se me afigurando provocantes, e sobretudo intrigantes, delas conservei vestígios. Melhor, uma memória adiada, embora fecunda na sua permanecente e excitante estranheza. Quando a generalidade das pessoas me fala dos seus heróis e ídolos, não deixo de me sentir órfão desse comum partilhado. Interrogando-me, apesar de respostas presumíveis, não choro esse interpelante desabrigo. Talvez por isso, o culto aos heróis e notáveis não abalou, reconheço, a minha abaladiça emoção. Talvez por isso, não vicejei um qualquer instinto de rebanho. Talvez por isso, me sinta hoje um “velhote” tranquilo, cadenciado pela sua paradoxal inconformidade.
sexta-feira, julho 07, 2017
ORA PORRA!
Poema de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), que dedico como tributo (em particular) ao CM, o diário mais vendido neste país, e que tanto tem contribuído para a proliferação devastadora da ESTUPIDEZ
Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.
domingo, junho 18, 2017
AS UNHAS-DE-FOME DO LUCRO PANÇUDO
Será que alguém de bom senso contradita a ideia de que o Consumo há muito se descasou das verdadeiras necessidades das pessoas, viandando pela intemperança do dispensável ou pelas apatetadas passarelas do Simbólico? Eis um ruído sibilante que julgo salubre lembrar como óbvio; o abrir de mão das rendas com que o concupiscente Lucro avassala a Publicidade conivente em perda do Salário que o serve. Aliás, estrupido esse, que num mundo sem fronteiras, a Besta Globalizada faz ouvir enquanto seu santo e bendito Lugar. Neste, Ela forja mercados, inventa engrenagens e conforma ficções prestáveis à epidemia que sufoca o Humano Futuro. Um futuro, que no concreto, é tão-só um ensejo aguardado, cercado por uma avivada fadiga grifada no paradoxo da recusada descrença. Desta alogia, sobra então a íntegra razão da Esperança do (e no) Humano, donde medra a Convicção que alenta a faina do Resistir.
sexta-feira, junho 16, 2017
O SOFRIDO LABOR DA AUTENTICIDADE
Como é penoso sacudir o passado. Um passado que afinal não passa. Sempre presente, desvela uma sobra de afetos que me amarga. As palavras úteis escondem-se por trás desse mudo silêncio que me castiga. O meu eu inquieta-me e o espelho em que me procuro descobrir não se cansa de testemunhar a minha culpa. Assim, a singularidade, que laboriosamente busco, parece esgotar-se nessa briga infinda com o avesso mundo das normas e dos seus medidores. O caminho e o sentido da autenticidade, desse modo, tornam-se compromisso, dívida para com a dignidade, uma viagem sem dúvida incerta e ousada. No seu fundo, uma aventura humana que não posso, nem devo deixar de tentar. Sempre e com determinação. Não há volta a dar.
sábado, junho 03, 2017
O CÃO, O GATO E O HOMEM
O cão e o gato, mesmo quando exultantes, não riem. A todo o momento, os humanos-bichos-do-mato podem levar o sorriso aos confins da gargalhada. Aqui habita uma estranha diferença digna de ser esgravatada. Desejavelmente, até ao fundo do seu tutano, não obstante as múltiplas teorias a respeito deste social afogo e dos seus peculiares roteiros espraiados sem limites. Para proveito humano e do humano, decerto interessa ousadamente insistir nele, no riso.
O riso é sempre bem-acolhido. Quando a liberdade cumpre a sua parte e o riso alegra o clima. Melhor ainda, se arruma o seu júbilo à serventia do pensar, escarnecendo sobre os ondulantes artifícios das certezas que ordenam as superfícies sonsas das nossas vidas. A sua autora ironia, com malícia encostada, habilmente apresentada, cumpre então aquele vital divertimento de nos devolver as coisas da vida de modo mais aprazível e saudável. Diante disto, enobrecer o riso com humanidade, não só traz vigor à Vida como encanta a sua condição (a Liberdade) e cuida do seu destino (o Outro).
sábado, maio 27, 2017
CAUTELA COM AS TOPADAS
Acredita-se que o português fantasia ser o que não é ou estar onde não está. Diz-se que assim vive suspenso no seu tempo histórico, adormecido na sua entranhada religiosidade, replicando-se incansavelmente nas regras e fórmulas do seu culto. Porém, sendo o português, diz-se também, certamente mais supersticioso do que devoto, a vida mostra que lhe sobra uma galhardia feita de talento inspirativo e de emoção lírica fácil, para se ligar a consentâneas circunstâncias, mais doídas ou entusiasmantes, donde se soerguem grotescas e teatrais erupções coletivas.
Errante e dilemático, esse português, usa máscaras e disfarces numerosas, jubila com rotineira leviandade, se bem que fácil (e amiudadamente) se estatele na merda. Descuidado (ou nem por isso), enleia os valores do sentimento e da comoção, cultuando sem lágrimas e com aguaçada destreza, o segredo do mexerico e, com a leveza do instintivo, agarra-se ao vício irresistível de profanar o próximo, mesmo que de um comparsa se trate. Por mim, duvido deste retrato identitário do português. Não obstante, se não me cuido, neles tropeçarei mais vezes do que agoiro.
domingo, fevereiro 26, 2017
VOTOS DE UM BOM CARNAVAL
Há gente que ao aparecer faz o possível de parecer o que não é, mas diligentemente mostra ser, por vezes, o que de todo não é. Outros há, que se empenham por aparecer, parecendo o que procuram denodadamente ser. Este é o quotidiano desigual de um tipo de carnaval multifacetado que o tempo de Carnaval desobriga, dissolvendo os diversos contrastes numa oportunidade comum de galhofa e onde a sadia ociosidade se espreguiça ante o esmero da distinção. O Carnaval é, deste modo, talvez o tempo único onde o poder de iludir escapa à prova da sinceridade e a hipocrisia, podendo existir, se acolhe na legitimidade da sua máscara risível. No Carnaval, o poder de iludir, ao desenvencilhar-se da maçadora perversidade do mau uso da liberdade de cada um, dá descanso à necessidade de agasalhar uma nudez interior embaraçosa. Aproveite-se o Carnaval ... para que o porvir do quotidiano possa lucrar com a venturosa folia.
domingo, fevereiro 19, 2017
ONDE SE METEM OS COBARDES APADRINHADOS?
E se o homem experienciasse o desrespeito com maior exigência? E se o sentimento daí resultante se revertesse em convicção político-moral? Ou melhor, se esse sentimento volvesse em estímulo motivacional de um ressarcir empenhado da sua dignidade e integralidade? Onde se iriam refugiar, com o rabinho bem entre as pernas, os oradores sagrados deste tempo selvático?
sábado, outubro 22, 2016
A SIMPATIA NEM SEMPRE RIMA
A minha última postagem, faz-me retornar hoje a um certo argumentário tendo como tónica a anotação aí citada das boas maneiras ou, se preferirem, dos bons modos. Com o propósito de trazer, desafiando consciências disponíveis, uma atenção crítica para a arrogância e a presunção dos signos que nelas se inscrevem e, acima de tudo, convocar um olhar analítico e perscrutador para os arbítrios protocolares que, de modo valorativo, se auto creditam distintos. Em peculiar, no compartilhado mundo das castas assentadas na metagaláxia reinante e naquele outro disputativo cosmos proporcionado por uma atontada parentela que lhe é confinante. Este, lamentavelmente pateta e patético, figurando o seu comovente idiotismo de assemelhação na mimética e notória contrafação carnavalesca.
Em jeito introdutório, falemos de elegância, uma ideia simbolicamente muito apreciada pelo atributo que lhe é concedido graças a um certo imaginário induzido pela invencionice da catalogação social. O reconhecimento desmedido e incondicional da boa educação daí provindo e que acompanha a graduação de tal seriação, alenta, em si, uma suposta lógica de superioridade que naturalmente faz o seu pretensioso percurso. Todavia, no âmbito das boas maneiras, e da elegância a elas associada, do meu ponto de vista, duas perspetivas se fitam. Num extremo, temos uma elegância proeminente que se filia e persegue, na sua austera aparência, a simbologia litúrgica dos distinguidos; no outro, e em clara discordância, uma distinta elegância instruída na genuína empatia da consideração e da reputação pelo Outro, por esse outro que é sentido, na sua raiz, como um outro-eu.
As relações humanas de sociabilidade, podendo-se aproximar daqueles limites, manifestamente se localizam no cultural registo da contradição caminhante. Porém, parece-me óbvio que a autenticidade da empatia, no ato espontâneo de se afastar do pavoneio que enfeitiça a primeira, elegante e discretamente, condena os múltiplos disfarces sociais que levam ao enganoso jogo simbólico das superioridades, das dominações e das servidões. Entre o espaço do pensar e do dizer posiciona-se um campo de subjetividade onde muitas enormidades acontecem e, sobretudo, as mentiras da significação se produzem. As maneiras, as boas maneiras protocolares, desligadas dos seus contextos concretos, modelam comunicações que escapam às suas objetivas e fundadas determinações. Ou seja, e em tradução livre, rematando em concordância com José Barata Moura; a mentira não é apenas a fáctica. A mentira, ou melhor, a mendacidade não utiliza apenas a língua e a sua voz. Utiliza, e bem, o corpo todo. Inclusive, a dissimulação que o conforma.
quarta-feira, julho 13, 2016
TORNAR CLARO O QUE É UM TANTO OU QUANTO OBSCURO
A 30 de maio, faz mês e meio, fiz a minha última postagem. As leituras, que consomem (e bem) muito do meu tempo, de facto, entusiasmam-me pois facultam-me oportunas e proveitosas vitalidades mediante a benfazeja inquietude que elas me espertam. Apesar disso, o desassossego daí advindo apenas me tem levado ao constringente perscrutar de novas leituras e não à escrita sofrida capaz de amanhar e alicerçar as reflexões que busco. Tudo isto na exploração de ressignificar um passado e de viver um presente que, embora tardio, seja capaz de expandir horizontes e esperançar futuro.
Certamente por inépcia minha, nessa busca pessoal de sentidos que se prestem valorosos, confesso, nada de verdadeiramente novo alcanço que se me ofereça inspirador e, como tal, tenha o dom de acicatar este meu pachorrento e fleumático humor quotidiano. Daí, uma insistente preguiça teima em escolher a despreocupada (embora desafiante) indagação, encanzinada que está a optação pela escarpada rota suscitadora de ideias, despretensiosas certamente, mas que possam valer neste tempo saturado de lavas feitas de ativos tóxicos diversos. A(s) crise(s) múltiplas fazem o seu percurso com uma vagareza acertada na devida cadência da naturalização que a própria encalça, arquitetando com o tempo a perceção que o dramático está para além do controlo humano, acobertando a responsabilidade da ação política que a determina.
Sendo assim, nesta Europa política que vai martirizando os mais fracos, tendo como referência uma lógica neoliberal de integração capitalista, quis a ironia do destino que Portugal se tenha mostrado suficientemente forte para ser, nesta matéria do futebol, o melhor da União. Ateísta que sou, atrevo-me a dizer, contrariando o próprio, que a fé de Fernando Santos valeu provavelmente pouco ou mesmo nada. Caso contrário, o seu Deus teria cometido não só uma injustiça, privilegiando os seus santos e as suas preces, como o nosso merecimento de campeões seria fortemente estorcegado porque beliscada no seu talento. Sem rebuço o digo, no lugar de Deus coloco o próprio treinador (e este em especial), os jogadores e todos os demais que concorreram para o todo dos factos que determinou a vitória dos portugueses.
Eu sei que seria cómodo, deferente e igualmente mais fácil, inteirar o porquê do sucesso agradecendo o achego de Deus. Por mim, no entanto, e apesar da dificuldade da resposta, agrada-me quem prefira o como ao porquê, esgravatando e desnudando o conjunto dos factos (re)conhecidos, analisando a operacionalidade decursiva da relação entre eles e aferir da responsabilidade individual e coletiva dos intervenientes na dinâmica circunstancial dos acontecimentos. O que aconteceu, aconteceu e não há volta a dar. Não há lugar para mistérios nem tão pouco para sentidos insondáveis. As soluções encontradas e as situações daí ocorridas não são do domínio da metafísica nem de um qualquer panteísmo de última hora. Em síntese, não neguemos a ação e a responsabilidade humana como vão fazendo os autores da lenta crise que nos sufoca. Parabéns a Portugal e a todos aqueles que fizeram as coisas acontecer. Afinal, o fazer as coisas acontecer, engenha a lição que merece ser utilmente assinalada e sublinhada.
quarta-feira, maio 11, 2016
A RETÓRICA DA IMPOSTURICE E DA DRAMATIZAÇÃO
Ao abrigo dos Gigantes da net que atacam a liberdade de imprensa, a 4 de maio o Correio da Manhã, como nota relevante de uma conformada Conferência, maldizia o uso abusivo de conteúdos produzidos por alguns nupérrimos meios de comunicação, em especial esses hercúleos do Google e do Facebook. O argumento fulcral enganchava-se na fuga de publicidade (e, como tal, de pecúlio) que resvalavam desmerecidamente para tais ogres gulosos.
Há muito tempo que pouco ou nada espero da corrigibilidade ética do capitalismo, das suas lógicas e dinâmicas, cujo único e absoluto valor é o capital. Daí, tudo isto se me afigura como uma rixa de convizinhos que se engalfinham por uma talhada de terra que, nos tempos de hoje, se torna em uma eficiente herdade mediadora da (des)ordem financeira no poder, malsinando perceções cognitivas esculpidas a uma forma de consciência onde a tacanha resignação é exercitada a esmoer a humana vitalidade da convicção.
O senhor diretor do CM/CMTV, de nome Octávio Ribeiro, diz o seu jornal, não deixou cinicamente de alertar para os perigos de uma democracia sem jornalismo. Com certeza compadecido e naturalmente bem consciente dos problemas e do papel que lhe concerne, ou seja, dos dinheiros que se esgueiram e da ideologia vazia que mercadeja, facto que bem caracteriza a admirável lata do homem e do seu pasquim.
A sua indiferença social expressa é ocupada por tiros, malandrices e facadas e por outros equivalentes como coscuvilhices intrusivas e patéticas. A sua arrogância é almofadada pelos desordeiros do profícuo poder através da denúncia mercenária de outros que lhe sejam desvantajosos. O caos, a violência e o medo constituem as glândulas reprodutoras do seu entusiasmo, expropriador da crítica social séria, significativa e fundamentada. Em síntese, o seu problema é vender um evangelo diário que sirva os interesses obscuros que se escondem por de trás deste dramático modelo social e cultural regressivo dos dias de hoje. Em síntese, um desabafo; tenha pudor moral e intelectual, senhor Octávio…
terça-feira, março 15, 2016
A ALEGRIA PARTILHA-SE, A DOR RARAMENTE
“A obra de Rouault “Rosto de Palhaço” (1948) se encontra atualmente exposta no Museum of Fine Arts, em Boston, Estados Unidos. O retrato do palhaço assume no quadro deste pintor uma projeção épica, mostrando que ao contrário do que o artista que é o palhaço deixa transparecer, ele também sente dor. O pintor concentra sua atenção no rosto do retratado, tentando captar de todas as formas possíveis essa dor, através de suas tintas aquarelas. Os traços expressionistas estão presentes na forma disforme e caricata que o rosto assume, com traços grosseiros e fortes, expressando além da dor, certa raiva e angustia do palhaço.” (http://vanguardaexpressionista.blogspot.pt/)
José Rentes de Carvalho (JRC), citado por João Céu e Silva[1], sobre o seu livro O Meças, diz:
| O que conto é o filtrar de uma longa sequência de situações, pois tenho uma boa capacidade de observar e nada mais faço na vida do que estar atento ao que acontece. Vou picando aqui e além tiques das pessoas, maneiras de ser, frases que dizem e atitudes que têm. Podia ter sido polícia porque escapa-me muito pouco. Este Meças é uma construção de situações, sentimentos e acontecimentos vistos ao longo de um determinado período de tempo. É o amalgamar de muitas situações numa única personagem. É a condição humana. |
E esclarece:
| Não conheço ninguém assim, mas sim muitas pessoas que têm uma boa parte dessa violência dentro de si. Tenho-as visto explodir por questões minúsculas e pergunto-me como é que um sujeito estoura daquela maneira se o motivo é tão diminuto. A resposta é: tem muita raiva acumulada desde que nasceu. |
Estas duas passagens cativaram-me à leitura, em breve, de O Meças. Deleito-me, tal-qualmente JRC, a espiar trejeitos, a dissecar modos de ser, a sondar o que se diz e a botar acidez, quanto baste, à tartufice da neutra e sensaborona linguagem. Em contrapartida, com a singularidade de ser um tipo emocionalmente reativo, senti-me alfinetado quando o autor alude as feiosas e descompassadas explosões promanadas da raiva acumulada, sobretudo armazenada desde o berço.
Reconhecendo o labirintar do pensamento, umas vezes mais sólido, outras menos vigoroso pelo efeito do humano envolvimento, vejo-me, nessa reversão às raízes, numa série de encruzilhadas onde o caminho da razão se deixou atalhar, em momentos mais que muitos, pelos inúmeros e intensos trilhos dos afetos e das emoções. Para a minha idade, acresce um tempo longo de mais e exageradamente fundo para me procurar, andarilhando pelo O erro de Descartes Ao Encontro de Espinosa.
Porém, quatro enastrados significantes (condição humana, violência dentro de si, questões minúsculas e raiva acumulada) em dois curtos excertos é obra, embora controversa, sempre estimulante para excogitar sobre a mediação emocional, sobretudo quando nos pomos no âmago do achado. No essencial, como sentir, para mim, é estar implicado, é avaliar as aproximações às coisas e às pessoas, é orientar-me nas relações inevitáveis com o todo da vida, é nele – nesse sentir - que o pensamento se me faz movimento e me apega ao mundo dos afetos e das emoções.
Para tal, o dualismo cartesiano da mente e do corpo, do físico e do psíquico, da matéria e do pensamento, não me serve. É uma possibilidade que não me protege nessa vontade de manter irrequieta e entusiasmada a minha capacidade de reagir e de me indignar na busca esgrimida de uma vida mais plena e satisfatória. Com alguma raiva, talvez. Mas certamente entranhada em muita repugnância e tristeza. Uma dor de alma que a reflexão e o tempo não alcançaram civilizar...
[1] Artigo interessante que vale a pena ler (DN de 12 de março de 2016).
quinta-feira, março 10, 2016
O DIFÍCIL PARA CADA PORTUGUÊS NÃO É SÊ-LO; É COMPREENDER-SE
Citação de Miguel Torga (Diário XV, 1987), retirado do DN de hoje.
Século XX. Parte dele, por obra da herança que recebemos, prestou-se à catarse do intelectualícidio amargado. Estado, Igreja e Universidade, em celestial enredo com a PIDE/PVDE, tiranizou a crítica política e escarmentou os exegetas desataviados. Comparável, em matéria de acossamento, só o Tribunal do Santo Ofício, no século XVI.
Hoje, no século XXI, às instituições incriminadas, embora num frágil quadro democrático, reuniu-se uma outra vigorosa, de contornos mais indefiníveis, mas não menos eficiente. Os media, que outrora ajudaram à fundação da democracia, exibem-se hoje como um dos seu principais fatores de degradação. Os interesses gerais descobriram-se trocados por outros, criados pelos mercados e seus apensos publicitários e políticos.
A função crítica desvaneceu-se e a perversa influência acomodou-se no lugar desocupado. De cidadãos resta-nos a condição de alorpados consumidores, eleitores e clientes. Chega Marcelo com um sedutor discurso de consenso. À volta da Constituição e sem aparentes indecisões sobre o Governo “à esquerda”. De opinante galga à suma instância do político. O tempo dirá como ele, Presidente, jogará neste campo minado de convergência entre a opinião e a política.
domingo, fevereiro 28, 2016
O EU, UM EU APENAS GRAMATICAL
Eu cá sou assim, um significante que pouco ou nada afirma de substantivo. Faz parte de uma família de ditos que mais não são do que resistências ao que nos excede, ao que nos escapa, ao que não se (quer) reconhece(r). Mais desastroso ainda; ao que se esforça ignorar como uma parte de nós que nos desconforta. Perante tamanho asserto, desista. Não há espaço para qualquer tipo de questionamento. Em tempo algum será reconhecido ao argumento o seu valor de cidadania. Ou então, faça de conta que não percebe. Passa por ser um tipo porreiro e dialogante, mas corre o risco de que o outro sentencie; já enganei mais um…
sábado, fevereiro 20, 2016
O ARDILOSO PIL(A)RETE
António Barreto (AB) faz parte daquele tipo de coro que melhor cantareja o refrão anticomunista. É o homem das sínteses fáceis que, com desembaraço, acaçapam contradições não resolvidas. As suas ideias aparecem sempre emparelhadas para que a falsidade de uma, que importa difundir, se desaperceba acostada a uma outra em geral estimada. Para AB, a liberdade nunca viaja só. Deve mostrar-se sempre bem acompanhada. Pela lei, pelo direito, pela ordem ou pelo consenso. E se aquela se porta mal, a explicação está na complacência crítica dos seus pares. Se os comunistas estão de um lado, ele está certamente na barricada oposta. Aliás sempre do lado dos que lutam contra a luta. Em síntese, a minha, o pigmeu é apenas um pilr(a)ete ardiloso ao serviço das metamorfoses do capital. Domingos Abrantes esclarece[1]:
[1] Entrevista no Diário de Notícias de hoje (20FEV2016)
| “A natureza é por vezes demasiado cruel para algumas pessoas quando chegam a certa idade. António Barreto é uma personagem pouco séria intelectualmente. Barreto já foi tudo na vida. Esquerdista, comunista, socialista, social-democrata. Ultrarrevolucionário quando estava longe da política na Suíça, e contrarrevolucionário no Portugal de Abril. Ele faz parte de uma fauna que quando não sabe explica. Desliza a grande velocidade para posições fascizantes. Basta ver as suas posições sobre a revisão da Constituição e o que defende para a arquitetura do Estado. Nessa crónica expressa um argumento típico do fascismo, a defesa violenta contra os comunistas. Sofre da síndrome dos pigmeus. Acredita que bolçando lama sobre os grandes se torna gigante. É uma doença incurável. Precisamos que Eça ressuscitasse por algum tempo para se ocupar de certas abencerragens.” |
sábado, novembro 28, 2015
NÃO ESPERE. TENHA ESPERANÇA. CAMINHE.
Sem dúvida, a vida é uma longa viagem. Todos os dias se chega a algum lado, mesmo que de tal não haja nota consciente. Porém, uma coisa é certa; no dia seguinte, é deste ponto de chegada que partimos. Desejavelmente, procuramos nós, por novos (ou diferentes) caminhos, com a certeza do desejo de viver novos ou renovados incitamentos. A esperança alenta-se, nesse puro presente, não só do possível inesperado de entre as possibilidades que escapam ao tirânico do impossível, como da vibrante força de relação que, com aquele, intentamos estabelecer. Quando nada se espera, o vazio que fica, será, não o resto, mas o essencial da substância do nosso melancólico desespero. Enfim (…) a Vida por aqui passa, por esse caminho da esperança que se faz, inevitavelmente, caminhando e não (des)esperando…
ALMA VIAJEIRA
Daniel Lima
| Aonde irás ter, perguntas, se de novo tiveres de seguir outros caminhos no fim desses caminhos já seguidos? Aonde irás ter? Que adianta perguntares, agora alma viajeira? Não o saberias nunca. A estrada chama, a alma chama, os pés chamam, a vida chama. Andar, sair, caminhar sempre, é isto o que tens de fazer, eterno peregrino, e é o que sempre em agonia vens fazendo na insatisfeita busca de ti mesmo. Vai, pois, sem nem saber aonde caminhas. Anda sem de roteiros indagares, que o mistério da vida, que a embeleza de vida só se dá, gratuita e plena, a quem, andando sempre, ama a viagem, porque a viagem é a estrada e a estrada é a Vida | |
domingo, novembro 22, 2015
O PRETO E BRANCO DO POVARÉU ABURGUESADO
O exibicionismo social, por si, seja de que natureza for, e tome a forma que tomar, não me abespinha de todo. Pelo contrário, higienicamente acarreia a diversão e o desafio críticos da minha curiosidade em ler e alcançar o social que, o tal suposto e estulto alarde, se esforça por mascarar e acobertar.
O que se apresenta por fremente cálculo e se deseja imediatamente atrativo e visível, acidenta (sim) o meu olhar. Não o escondo. Todavia, esse olhar, já calejado e prevenido pela experiência da trapaça, aliás sempre solícito, protege-me a alma das factíveis e insensatas comoções.
Vagabundear por muitas e diversas margens e baldios, sociológicas e culturais concretas, ajuda. Pode despertar ecos e rumores de vidas suspeitas e incomuns. Sim, pode disso ter tudo, alguma coisa, um pouco apenas ou nada mesmo. A ânsia de descobrir eiras, por vezes sem beiras, difere a melosa arrogância da lição que se tem pressa em dar, tal como refreia a ufania da urgente e impaciente censura que ousamos para nos convencer e confortar.
Todavia, a vantagem maior não é a lição apressada nem o soberbo julgamento a tempo evitadas. A utilidade superior é o arrebatamento pelas descobertas que se fazem ao adentrar nos submundos do silêncio, da ocultação e do ilusório desperdício, esgueirando-se ao iníquo convencionalismo que se fecha na sua linguagem e, humanamente, nos circunscreve e diminui.
A crítica paciente e argumentada, por que da vida ela é arrancada, toma assim o lugar do juízo ao alcance da mão, sempre cómodo e fácil. Ainda bem que assim é, pois há um senão, um impiedoso senão neste juízo ali pronto, enraizado nas difundidas fórmulas dos modelos reinantes; ele traz-nos, embora aconchegados, exilados em desterrados repousos onde a liberdade nos mente e o temor nos acomoda.
Imagem retirada DAQUI
quinta-feira, outubro 01, 2015
A ESTRANHEZA DO ÚTIL E DA UTILIDADE DO VOTO
O PAPEL DO JORNALISMO NA CONFISCAÇÃO DA DEMOCRACIA
Apercebo-me que a função social do jornalismo – verdade seja dita, qualificadora da legitimidade profissional do jornalista – vagabundeia hoje pelos becos de uma obscura “deontologia”. Descuidada da sua originária missão, a auspiciosa função social, o jornalismo vem-se acostando e, de uma forma extremada, amimando a ávida jurisdição dos conluiados poderes económicos e políticos.
Entre outros pastoreios, deste respaldo se efunde, como parece ser óbvio, uma disposição contrafeita pela incursão no jardim das delícias do dinheiro e do poder, com a incluída barganha dos senhores poderosos dos media. Aqui, neste lustroso covil, o consenso converte-se no propósito comum do ajuste; o folclorismo da conflitualidade, numa conveniente diversão prescrita; e a dissidência, numa mera periferia onde se desdenham as proezas da irresponsabilidade ou da utopia.
A política está infamada, diz-se. Tagarela-se sobre a crise de representação incriminando, talvez com razão suficiente, a partidocracia ocorrente; uma sequela provável do confisco perverso dos diretórios partidários. Deste modo, os pecados da democracia ficam nomeados e, para brandas consciências, apontados estão os incontritos pecadores.
O que dizer então, nesta embrulhada, da envoltura comprometida do poder mediático? Como pratica este o jogo da mediação? Se medeia é porque ocupa um determinado meio; supostamente, uma valiosa centralidade nessa prestadia jogatana da tradução e representação do palpitar concreto das inquietações das gentes. Assim sendo, se há crise de representação, a crise também os compromete.
O decente e isento entendimento das coisas, que eu saiba, pressupõe ideias e destas, exige-se rigor e clareza. Eis o encargo a que os media estão obrigados pelo seu mandato social. E sobre esta matéria, estamos conversados. O voto útil, tema fartamente propalado pelo comentário político (e não só), torna-se, nestas circunstâncias, um bom exemplo de manipulação. Uma ideia turva e acintosamente enganosa de afunilamento democrático a favor das alternâncias e em desfavor das alternativas.
Pois é. Ao contrário do se pensa, o jornalismo não se mostra hoje vinculado à obra da democracia. Não respeita o dever de informar com verdade e, nessa medida, anarquiza os preceitos do escrutínio democrático. Assim vai um jornalismo que, cada vez mais, dimana, não da sua primordial função social, mas da determinação e das cumplicidades do acumulado e concentrado poder, incluindo dos mediáticos patrões. O Trabalho que se cuide. O Capital e os seus afins, esses, já se apropriaram da democracia, com o propósito neoliberal de obter (para si) um estado de classe cada vez mais rendido ao capital financeiro.
terça-feira, maio 05, 2015
TARDE DEMAIS
Muitos contam a si próprios histórias sobre si mesmos sem se darem conta da mentira que da sua vida fizeram e, em jeito de tardia sobrevivência, embora desajeitadamente, obstinam-se em a prolongar. Certamente, tarde demais, surpreendem-se (quando, e se compreenderam entretanto) que as mentiras que a si contaram, contando aos outros as suas próprias mentiras, os sitiaram na clausura penosa de um beco sem saída. Enfim, talvez tarde demais. Fizeram apenas o que as mentiras confirmavam mas, no íntimo e com verdade, sentem que pouco ou nada fizeram. E o que fizeram, fizeram-no sem a alma contagiante da autenticidade que ceiva e desafia a própria Vida. Povoaram, afinal de contas, a inércia obscura de um licencioso e arrastado definhamento que sempre os atraiçoou. No essencial, tarde demais sentem ter vivido um atormentador velório, sem finado, à espera do seu aquietador e triste fim. Sim, tarde demais.