Assiste-se, presumo eu, a uma sequela traumática neste PSD, excitada por um triste e deprimido Passos Coelho, ainda fixado à marca de uma suposta e inconsequente vitória eleitoral, provável razão de ser desta estendida e gritante experiência do trauma. O seu discurso repetitivo, enfezado e cindido, não atina com qualquer rota de inscrição na teia, aliás consensual, de representações agora aceites face à atual realidade do país. E o que não se representa emerge sempre, e de um modo aparentemente novo, através ilimitadas e compulsivas repetições, diz a ciência psicanalítica. Encarcerado assim no seu trauma, o PSD ou o Passos no PSD, o passado não passa, a história não se move e o presente (do PSD ou do Passos) nela se vai esperneando por asfixia. Permita-se-me um recomendável palpite; lutar contra um luto, fazer o luto, não é enfrentar o esquecimento. É antes um corajoso exercitar da liberdade. É uma árdua faina de nos libertarmos das (pre)disposições que nos aprisionam aos lugares sombrios da infecunda melancolia.
segunda-feira, julho 17, 2017
quarta-feira, junho 21, 2017
A FAMILIARIDADE DA LINGUAGEM E O DESCONCERTO POLÍTICO DE TORNAR O POBRE, UM BOM POBRE
Burgueses há muitos. Os que são porque o são. Outros, porque o cobiçam ser. Outros ainda, porque já os macaqueiam duvidando vir a ser. E, finalmente, a maioria, ou seja, os restantes pobres que se decidem burgueses. Os únicos tangíveis são os matrimoniados com o sistema, que neste vivem bem acolchoados e sabem, igualmente bem, porque razão nele habilmente logram permanecer. Todos os outros, particularizam-se pela natureza da sua ambição de ser, servindo-se de palavras, gestos e esgares grotescos, na qual a farsa, a mistificação, a hipocrisia e a própria imprevidência se caldeiam com a ensimesmada ignorância ou, pior ainda, com o cabal arroubamento de espírito.
Porém, existem Outros. Os pobres, os verdadeiros pobres, os assistidos, aqueles que não têm sequer ensejo para fantasiar e, por isso, atassalham a possibilidade de mitigar a realidade, macaqueando ou cobiçando sonsos e ociosos paliativos. Então, como reconhecer e discernir, não propriamente para surpreender os referidos originais, farsantes ou otários, mas sim o discurso que a todos estas figuras une? Quem é essa gente? Eis alguns sinais que emergem das raízes, relações e entrelaçados circunstanciais dos seus cerceamentos:
quinta-feira, junho 15, 2017
ILUSÃO OU PESADELO?
A ordem mercantilizada, hoje instituída e severamente estabelecida, acomoda-se a uma dinâmica progressiva de desigualdades, inscrevendo-as em largos e múltiplos campos de natureza muito diversa. Não conhecemos os confins deste açodamento, mas vivemos e sentimos já o seu violento ritmo. Saber se as classes sociais, consequência dessas desigualdades, existem e quais as suas fronteiras, constituem hoje vertentes analíticas de merecimento relativo. A expansão e o desdobramento do todo das desigualdades tornam, aquelas, seguramente subordinadas nos seus rumos e alcance. Com a atual evolução da Inteligência Artificial e do desenvolvimento da Biotecnologia, sem demora se perspetiva um outro cenário, ou seja, o da transmudação de natureza das próprias desigualdades. A tradicional e primordial natureza económica das desigualdades será, desta feita, reconcentrada pelo biológico. A partir daí, deixamos de falar de classes sociais e passamos a discorrer, com maior rigor e pertinência, sobre castas biológicas. Assim sendo, nesse tempo, certamente se urdirá e sintetizará a mais inquietante e desalmada doença da humanidade futura. Será?
terça-feira, abril 25, 2017
O TEMPO E AS SUAS DÚVIDAS
A(s) história(s), os discursos e os poderes, nos seus múltiplos entrelaçamentos, reiteradamente entretecem curtas verdades que acobertam o essencial da realidade. Pratica-se, então, o exercício de análise e de pensamento na busca compulsória de caminhos para surpreender o medular da Verdade mascarada. Posteriormente, indaga-se com atrevimento o saber desse exercer, correndo os riscos próprios de um tempo entrópico, acreditando no juízo disponível de uma consciência incertamente instruída. Os relatos então espiados, mesmo os mais inócuos, arrumam narrativas falhas que calam o segredo da mecânica do poder, abafam os seus movimentos e exorcizam as suas sequelas e responsabilidades. Eis as pequenas-grandes dúvidas de um tempo tão pessoal quanto imediato.
sábado, abril 01, 2017
UM ACORDO DE PRINCÍPIO QUE FINDA EM DESACORDO DE FACTO
Por muito que me esforce por escutar a voz da minha razão, o desconforto ofusca o seu ímpeto e confunde a sua linguagem. Entregue a mim próprio, o consolo possível parece persistir nesse aceno, um tanto patético, de apelar a algo que me ultrapassa e se esgueira. Embora distante, ou na fisionomia ausente, a minha condição de cidadão comum em tempo algum se despegou da sua dimensão política e, naturalmente, da sua legitimidade social e dever de intervenção. Após três mandatos consecutivos da CDU, independentemente do que se realizou ou não, se fez bem ou menos bem, e que a comunidade ajuizará nas próximas eleições, desponta uma incompatibilidade embaraçosa entre duas influentes personagens, socialmente reconhecidas, em particular no quadro político da CDU, que a meio de um percurso (im)provável e penoso, embora conseguido, se desavieram inusitadamente, sobretudo, para a generalidade do seu presumível eleitorado. O exercício político supõe ideias, exige projetos e, seguramente, trabalha por resultados. Não duvido das ideias e dos projetos que a ambos juntou. Suspeito, isso sim, que as consequências da rutura não tenham sido devidamente cuidadas e, permitam-me, acuradamente sopesadas. Consintam-me, pois então, a expressão pública deste meu penoso lamento.
domingo, março 05, 2017
O COMPROMISSO DE RECONHECER
A sua simplicidade, a sua firmeza, o seu saber, todo o seu conhecer e vontade de servir a comunidade, todas estas suas qualidades transformam-no num homem ímpar, que merece o meu reconhecimento público e, como tal, político.
quinta-feira, fevereiro 16, 2017
SEM PROFETISMOS OU MESSIANISMOS
Em tradução livre, recordo Boaventura Sousa Santos, sugerindo que os lugares não têm destino. Têm passado, presente e têm futuro. Ouso propor que é nesta marcha do tempo que a destinação se desenha, se alicerça e constrói. Porventura, a escora de uma identidade própria que, deste jeito, se vai assenhoreando do seu caminho, produto de vontades que se agregam e afluem crendo nas pessoas, na eficácia da perceção comunitária do inaceitável e no talento práxico do comum. Sem vaidades ou tartufices, a bem do futuro do Lugar e das suas gentes.
sábado, fevereiro 04, 2017
UM TESTEMUNHO APENAS
Não sei o que dizer quando testemunho um abraço entre dois amigos, enlace no qual, naturalmente, a amizade experimenta o embaraço (sobremodo recompensador) em assinalar as suas próprias fronteiras. Como vos invejo, amigos. Desculpai este ciúme, aliás de um saudável egoísmo, quando presumo reconhecer uma amizade capaz de resistir às vicissitudes das múltiplas exigências, dos tempos e das experiências, nem sempre, certamente, condicentes. No fundo, uma amizade onde o conveniente não é a marca e o convincente alcança o seu lugar. Admirável amizade que os seus amigos, que sei não serem poucos, sabem que transcendem os próprios Henrique Bertino e Rogério Cação. Se bem que, nem sempre presente, dessa nobreza e dignidade sou uma perseverante testemunha. Agradecido aos dois. Muitas felicidades a ambos.
quinta-feira, dezembro 08, 2016
O LEGADO DA INDIGNIDADE
A significante evolução das condições de vida, nas últimas décadas, é inegável. A narrativa histórica e social assim o reconhece e a memória dos mais provectos tal confirma. Agora, concordar esta corroboração com o desígnio ontológico da condição humana respalda em si um paralático equívoco. A lógica mercantilizada do desenvolvimento vem cavando um trágico fosso humano e social feito de desigualdades, injustiças e precariedades. O Trabalho disso se ressente e a Cidadania assim se inabilita. Isto posto, trabalhar a condição humana exige o estímulo do humano no Homem e, para tal, importa cuidar da qualidade das políticas e da democracia. Eis, na minha leitura, o essencial da advertência, aliás otimista, deixada por Carvalho da Silva na sua Conferência “O trabalho, A solidariedade Intergeracional, O tempo de reforma”, a 6 de dezembro, nas Caldas da Rainha (Delegação do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa).
quarta-feira, novembro 16, 2016
A FORTALEZA, 40 ANOS DE PRISÃO POLÍTICA
Enlaçada em factos, lembranças e esquecimentos, veracidades e falsificações, bem como em silêncios que a desengrandecem, a História constrói-se, em todo o caso, sempre incerta. Persistentemente entretecida pelos fios comprometedores da memória (individual e coletiva), as narrativas da história, fazem-se de maculadas impurezas ou (mesmo) de sujidades, sobretudo pelos poderes triunfantes dos poderosos e afins. Daí, um outro facto, ou seja, um consequente futuro que se vai mostrando nessa disputa desproporcionada da “verdade” das narrações.
Ainda que assim seja, porventura sempre incerta a história, ao abordar-se as prisões políticas e as suas memórias, o esquecimento ocupado de silêncios ou vazado em subterfúgios, em tempo algum, poderá espaldear-se em quaisquer margens que admitam burlar a História. Rememorar aqueles que lutaram pela nossa Liberdade, que de miseráveis sofreram facínoras torturas, e deles foram atormentados e assassinados, é recuperar o que nunca pode ser esquecido, o que em tempo nenhum deve, por decência, ser calado na voz da História. O contrário, mais do que uma desmedida injustiça, e que a todos rebaixa, o que carrega esse avesso é, tão-somente, a nossa vergonha coletiva.
segunda-feira, maio 30, 2016
GERINGONÇA, UMA UTOPIA?
Geringonça, uma utopia? Se é certo que a(s) utopia(s), o que não sendo podem via a ser, elas ocorrem, com toda certeza, de amargosas circunstâncias históricas que nos inspiram a busca de um tempo e lugar diferentes. O certo, essa irremissível evidência, é a amargura do presente com a contrastante possibilidade do aprazimento que só o futuro pode acolher. Esta é a marcha inevitável do homem que, escapando à alienação do medo, prefere o fracasso à desistência de ser corajosamente humano.
quinta-feira, março 10, 2016
O DIFÍCIL PARA CADA PORTUGUÊS NÃO É SÊ-LO; É COMPREENDER-SE
Citação de Miguel Torga (Diário XV, 1987), retirado do DN de hoje.
Século XX. Parte dele, por obra da herança que recebemos, prestou-se à catarse do intelectualícidio amargado. Estado, Igreja e Universidade, em celestial enredo com a PIDE/PVDE, tiranizou a crítica política e escarmentou os exegetas desataviados. Comparável, em matéria de acossamento, só o Tribunal do Santo Ofício, no século XVI.
Hoje, no século XXI, às instituições incriminadas, embora num frágil quadro democrático, reuniu-se uma outra vigorosa, de contornos mais indefiníveis, mas não menos eficiente. Os media, que outrora ajudaram à fundação da democracia, exibem-se hoje como um dos seu principais fatores de degradação. Os interesses gerais descobriram-se trocados por outros, criados pelos mercados e seus apensos publicitários e políticos.
A função crítica desvaneceu-se e a perversa influência acomodou-se no lugar desocupado. De cidadãos resta-nos a condição de alorpados consumidores, eleitores e clientes. Chega Marcelo com um sedutor discurso de consenso. À volta da Constituição e sem aparentes indecisões sobre o Governo “à esquerda”. De opinante galga à suma instância do político. O tempo dirá como ele, Presidente, jogará neste campo minado de convergência entre a opinião e a política.
terça-feira, março 08, 2016
ULTIMATOS, HOSTILIDADES E POUCAS-VERGONHAS
Pedro Tadeu listou as mentiras e à Maria Luís Albuquerque acusou-a de mentirosa[1]. Das duas uma; ou a Maria Luís mentiu e é, com efeito, uma despudorada aldrabona, ou Pedro Tadeu, ofendendo a ex-ministra, incorre em conduta criminosa por calúnia. Não obstante, no plano da obviedade moral e cívica, aprovo a ideia do jornalista Tadeu de que a incompatibilidade de Maria Luís não é com a vida entre os abutres da finança, mas, sim, com a vida política sã. Mas como a Lei e a Moral, nos tempos que correm, não dialogam politicamente, tudo é possível.
Dizem os historiadores que o Ultimato inglês (1890) representou um sinal vexatório e humilhante para povo português, com consequências políticas e culturais consideráveis. O que pode esta referência histórica tem a ver com a trapalhada das presumíveis mentiras e das eventuais calúnias? É que as linhagens hoje são outras, de um outro universo, não baseadas na tradição histórica da pretérita e paroquial aristocracia, dando o caciquismo rural lugar à caciquia financeira da qual Maria Luís é uma ultramontana, certa e teologicamente submissa. Para mim, o que ela vai ganhar ou não, pouco ou nada significa. O que me importa significar é esse nó simbólico à entronização histórica de um outro aviltante Ultimato, aquele que igualmente nos apequena, o Ultimato continuado dos dissolutos delírios do eufemístico Mercado. E aí, Maria Luísa já há muito se definiu.
[1] No seu artigo de opinião no DN de hoje.
Imagem retirada DAQUI
domingo, março 06, 2016
ESGRAVATA-SE UM PONTO DE FUGA
Quando é que a Política funda uma racionalidade no ventre desta desordem de igrejinhas? Uma Política capaz de se livrar desse angustiante e imorredouro paliativo que, deixando intacta a ideia do mal e da trapaça, nele inscreve e perpetua o artifício que a sanciona?
sábado, fevereiro 13, 2016
PODER E VIOLÊNCIA SOCIAL
sábado, dezembro 12, 2015
APELO À FELICIDADE DO CANDIDATO MARCELO
Marcelo tem a noção óbvia da passagem impiedosa do tempo como igualmente tem a meândrica ideia de que o tempo é sempre feito de múltiplos e matizados tempos, nem sempre coerentes. Como o tempo não pára, o “agora” de Marcelo não é para ele um “puro presente” tornado eternidade. Por isso, afirma a felicidade certa de um “antes” desacreditando, por imaginada caução ou conveniente condoimento, o que lhe possa calhar no “depois”.
Marcelo tem muitos amigos e, mesmo não sendo eu um dos seus próximos, pode contar comigo; o meu voto será um voto devido à sua felicidade certa e genuinamente confessada. Não obstante, solidário, vou mais longe desejando-lhe que, ao lado do meu, se junte uma imensidão de outros votos a bem do regresso à sua já nostálgica certeza.
Ao professor Marcelo, votos então de muitas felicidades para que a certeza da sua felicidade se reverta velozmente da atual atimia, dispondo da sempre presente compreensão generosa dos portugueses. Marcelo merece e a esquerda, de modo igual, não desmerece.
domingo, novembro 15, 2015
O DECISIVO E O DISPONÍVEL, A SOCIEDADE E O CIRCO
Neste tempo higiénico de acareação política (e atipicamente argumentativo), os comissários múltiplos desta ordem marcada por um tempo carregado de quatro e vagarosos anos de radicalidade da direita, com a aquiescência da burocracia europeia e reforçada (esta) pelos seus artífices da finança mundial, não toleram a rejeição (esta ou outra) ou, mesmo, a simples e cândida divergência. As desafeições, as improvações, a blasfémia e as excomungações tornam-se a costumeira sentença desse credo (e crentes) que não autoriza (autorizam) que se coloque em causa o exclusivo da sua verdade, aliás, repisada e insistentemente escudada pelos paroquiais e mediáticos contratados de serviço, em esmerada solidariedade reflexa das vozes de controlo remoto que do exterior se fazem perceber.
O ideológico espetáculo confessional aqui e hoje exibido (2015), bem próprio de sociedades medievais, garantidas por uma forte e pespegada afeção religiosa, nem o disfarce de um qualquer operativo efeito descomprometedor é esgravatado. Se dúvidas houvesse, Passos Coelho, na sua histriónica erupção, feita no obsequioso abrigo laranja, apontou ao que vinha e, sobretudo, o que foça (e foca) trapacear. Arrisca na esperançosa invulnerabilidade das vigências coletivas das crenças, acalentadas pela suposta segurança ontológica assente no propósito da continuidade da insubstituível regência (e domínio) e no óbvio e natural convencimento daí resultante. Assim sendo, convencer, vencer e aprisionar é o jesuítico alvo perseguido. Mas, felizmente que a sociedade não se delimita a esse efúgio circense e aos seus entusiásticos circunstantes.
agem retirada DAQUI
terça-feira, outubro 06, 2015
O PS E A SAÍDA PARA O FUTURO
Enquanto não me apresentarem uma argumentação convincente e consolidada, capaz de reabilitar a minha ancilose epistémica, permanecerei seguramente conservador. O tópico contemporâneo das enraizadas e dissolutas desigualdades, aliás de iníquos e trágicos alcances, teima em exibir-me a relação capital-trabalho bem acomodada no miolo da desconfortável fórmula marxista da equação dos seus oponentes interesses e, assim sendo, a tornar-me incompassível aos hodiernos travestismos com que se entraja tal liame. Aqui repousa, nos dias de hoje, e do meu ponto de vista, a aporia (ideo)lógica do PS e da sua social-democracia e, sobretudo, do seu penoso tiquetaquear político de desejada, ou fingida, superação.
A questão não é, como creio, de ter ou não responsabilidade institucional, preceito eleito (como convém) pela governabilidade da dominante Ordem, mas de um inconfundível posicionamento face à verdade da iniquidade do real. Esta verdade pede clareza e não uma qualquer retórica que subjaz à evasiva do seu íntimo entendimento. A bipolarização política vai-se, assim, entregando aos extremos, não outorgando espaço às premeditadas vacilações e obscuridades. Aqui, afinal, reside para mim, a consequente positividade sarcástica das consequências históricas deste selvático e dogmático Conselho de Washington. Aprendi que ter esperança não se fica pela espera. Ter esperança incita a caminhar atrás do que não existe no interior da insatisfação pelo que existe. Este é o esperar da esperança do meu conservadorismo e do otimismo que o segue na vivificante SAÍDA para o FUTURO.
domingo, setembro 13, 2015
AS SOMBRAS METAFÓRICAS DA UTILIDADE
Passos Coelho e António Costa cumpriram a costumeira liturgia de evangelização eleitoral. Ocuparam, sem qualquer pejo democrático, um desmesurado e condensado espaço mediático decididamente aprontado para a eficaz reprodução inventiva da universalidade hoje ficcionada e talhada à regulação vigorante da presente hegemonia ideológica do euro. No “bate-boca”, cada um a seu modo, esgueirou-se da tirania dos incomplacentes instrumentos da dívida e dos ajustes orçamentais. Em síntese, o primeiro, contente, fingiu-se contristado; o outro, contrafeito, paliou a conformidade.
Assim, Passos, enredado e equivocado por números desarticulados, descobriu-se empurrado e encurralado na sua abrupta e enfezada defesa, tanto mais desordenada quanto acreditável, para ele, da sua superioridade e do suposto mérito do seu argumentário. O seu discurso sobre o futuro, escorando-se somente na inoculação do medo, tornou-se sombrio e desalentador. Apesar disso, e perante esta inesperável inépcia do oponente, sabendo vencer mas não convencer, Costa não foi capaz (ou não quis) ganhar definitivamente o país. Esmolando amiúde confiança, não arredou dos cidadãos votantes a arrastada suspeita sobre o seu projeto de futuro. A sua fala, nem uma vez só, transpôs com clareza as raias do liberalismo que diz rejeitar.
Prisioneiros de uma ordem que não adversam, por conveniência ou fraqueza, remanesceu-lhes (tão-só) os artifícios retóricos saturados de significantes que emprazam sentidos espúrios, marcados pela inanidade ética e social e pela sua consonante indeterminação, ou mesmo, indistinção política. Do PSD e do CDS nada se aspira; a ordem serve-lhes e eles piamente tratam de cuidar dela. Ao PS, auto situando-se no campo da esquerda, exige-se bem mais; importa esclarecer contra quem ele se organiza (ou vem organizando), tendo em conta a luta política que se impõe empreender nestes tempos complexos do neoliberalismo globalizado. A utilidade do voto depende desta inadiável aclaração; só depois se pode saber a quem serve o voto e o que ele pode representar na rotura necessária - não só imediata mas também na sua previsibilidade histórica - a favor da inscrição inequívoca da equidade e justiça no âmbito do desenvolvimento social do país.
domingo, agosto 09, 2015
O FUTURO PODE SER JÁ HOJE
Seria útil e conveniente, hoje como era já ontem, que nos descobríssemos na liberal armadilha do voto – na verdade sempre incessante e torturante através de uma peculiar e incansável cruzada – se, despertos para esta dolorosa travessia dos últimos anos, tivéssemos a sagaz paciência e sabedoria de expor e brigar, com veia e método, o embuste e a ocultação que calam e protegem, no silêncio da estrepitosa e mediatizada refrega política, o nascedouro do putrefacto mas perdurável miolo dessa continuada estabilidade perante a qual as mudanças (simplesmente anunciadas ou mesmo realizadas), mas sempre energicamente apregoadas, jamais daquela estabilidade criticamente se achegaram.
Afinal, importa assim sondar qual a natureza desse miolo, dessa medular substância que jura tudo fazer melhor e diferente quando tudo, afinal, de modo invariante, continua igual? A esta estranha e esotérica substância alcunho eu, aqui e agora, de exploração capitalista, a tal e persistente desdita que deveria constituir-se, através do seu/nosso reconhecimento, em reagente de uma insurgente e mais bem educada consciência para o necessário e árduo conflito capaz, política e culturalmente, de esclarecer e sementar uma confiável e prometedora mudança, mudança essa que não temesse a radicalidade (porventura revolucionária) enquanto esteio de um combate (quiçá incerto) por um distinto e regenerante modelo de democracia que, em liberdade, albergasse essa radicalidade e desta fizesse o seu indeclinável arrimo mentor. Posto isto, então por que não admitir e acreditar que o Futuro não desponta apenas amanhã porquanto foi ele possível ontem e, talvez por culpa nossa, nos escapou? Assim sendo, por que razão não poderá o Futuro começar hoje mesmo? Quem sabe…