quarta-feira, junho 04, 2014

PRÓS E CONTRAS – UM BREVE DESABAFO

Doc1Sempre se viveram tempos marcados por veladas perplexidades que, de modo continuado e evolutivo, atraem buscas impacientes de normalidades tranquilizadoras. Nestes encadeamentos de premência, apressam-se as esfaimadas ideologias normativas na salivante busca de cientificidades ordenadoras de convincentes e mitigantes conversões. A singularidade imaginada como anomalia e a natural espontaneidade observada como um desvio, ambas, acalentam o fantasmático que assim preenche e se apodera da caprichosa realidade inevidente.

Isto dito, até o gesto simples e genuíno facilmente se afunda no pecado moral ou na inteligibilidade da patologia. Em última instância, sobra a má educação como atribuição. O humano vê-se, deste jeito, cercado pela soberba do próprio homem e da norma que o poder deste fixa. Através das religiões ou do uso ideológico da ciência em detrimento do sujeito, da sua historicidade, da sua dinâmica pulsional e, sobretudo, das veredas identificativas de cada um.

O desamparo mental do que se admite desconhecer torna-se, por essa razão, em objeto acessível ao despudorado desprezo por essa indeclinável necessidade humana de compreender e de se entender. Por mim, recuso toda e qualquer teoria que não assente no otimismo cognitivo, na liberdade responsável e libertadora e no respeito pela dignidade da pessoa humana. O outro, assim o exige. Não o outro que é apenas um outro. Refiro-me a um Outro que é, tão-somente, um Outro-Eu. Se assim nos conduzíssemos, o essencial reluzente daí proveniente ofuscaria, estou certo, a serventia do acidental na trama interesseira das disputas.

IMPERTINÊNCIAS CONVENIENTES

 

Base

segunda-feira, maio 26, 2014

AS ELEIÇÕES EUROPEIAS E O REAL EMBARAÇO DA INTERNACIONAL SOCIALISTA

Publico_Porto-20140526“Face à gravíssima crise em que a Europa está mergulhada desde 2008, é preocupante constatar a incapacidade dos partidos membros da Internacional Socialista (IS) para formular e apresentar propostas políticas, económicas e sociais que constituam verdadeiras alternativas às políticas neoliberais que estão a corroer a democracia, o Estado Social e a própria União Europeia”, anota o socialista Alfredo Barroso no seu livro “A CRISE DA ESQUERDA EUROPEIA”.

Mas acrescentemos, dele, outras cortesias condenatórias:

(1) “É um problema que afecta toda a social-democracia europeia” que perante o “evidente fracasso do neoliberalismo” não dá sinal de “uma forte reacção política e [de um claro] sobressalto ideológico”, tornando-se, assim, numa “variante social-democrata do neoliberalismo”;

(2) “Agitando a bandeira da ´modernização`”, a social-democracia anuncia uma “terceira via” apresentando-a com enunciados esclarecedores, tais como: “as diferenças entre esquerda e a direita são obsoletas”, “não há alternativa à globalização neoliberal”, “nada temos contra quem consegue acumular grandes fortunas”;

(3) Para além de uma “´colonização` da sociedade civil por uma espécie de ´senso comum neoliberal`, a social-democracia tem vindo a fazer da “empresa” um “novo modelo do Estado, tal como a ´gestão empresarial`, o novo modelo de direcção dos organismos estatais”;

(4) Elevou, igualmente, o “´homem de negócios` e o ´empreendedor` “à categoria de heróis e exemplos a seguir, e o ´empreendedorismo` passou a ser um termo recorrente …” dos seus discursos políticos;

(5) Evitando um elencar mais exaustivo, uma última fineza; “A chamada ´esquerda moderna` foi-se aproximando, assim, da ´nova direita`, claudicando perante a hegemonia das ideias ultraliberais”.

Após o 25 de Abril, ainda eu era um imberbe cidadão, quiseram-me convencer que a social-democracia não era um fim em si mesmo mas, com toda a certeza, um meio humano, e igualmente eficiente, para chegar ao socialismo. Hesitei, provavelmente mais por intuição do que por fundamento, mas o vigor das dúvidas fizeram-me conservar as distâncias. Ao longo do tempo, os tempos mudaram e com eles, as vontades e os discursos da social-democracia também. O socialismo foi para a gaveta e no seu lugar despontou uma imprecisa gestão do capitalismo com preocupações sociais, através da bondade discursiva de um estado regulador capaz ou, numa fase mais adiantada, de um eficiente estado incentivador e garantidor dos serviços públicos essenciais.

Arrastados pela rivalidade do caminhar neoliberal, descuidaram que esse andar se faz, não tanto pelos caminhos amáveis do capitalismo, mas pelos lugares sinistros da sua essência, assente na exploração do trabalho, na maximização do lucro e no agravamento das desigualdades, e que em muito têm contribuído para um estado de classe, progressivamente mais cínico e forte, ao serviço dos objetivos dos múltiplos e diversos sectores dominantes, em particular do ganancioso e globalizado mundo financeiro.

Deste modo, termino como comecei, citando Alfredo Barroso; “O ´centro do centro` é, pois, um território propício a todas as renúncias ideológicas e abdicações políticas, invocando-se sempre os superiores interesses da Nação, do País ou do Estado, consoante a carapuça que cada partido queira enfiar”. Nesta linha de raciocínio, não posso deixar de me questionar até que ponto esta social-democracia em colapso, e a Internacional Socialista que a emoldura, não são sérios culpados pelo tsunami político e social que a União Europeia vivencia, como os resultados eleitorais de ontem atestam. Não conseguindo capitalizar, de forma convincente, os votos do descontentamento e da desilusão dos portugueses, a vitória envergonhada do PS não escapa, também por isso, a esta crítica de fundo. E é pena.

segunda-feira, maio 19, 2014

O EPICENTRO DESTE CONTINUADO ABALO SÍSMICO DO EMPOBRECIMENTO

A 25 de Maio, as raízes do meu VOTO

20110929_espiral.capitalistaO despudorado palavreado de intimidação moralista, que sustenta a mecânica da austeridade, abespinha. Os seus efeitos molestam. No plano material da economia, a sua capacidade destruidora é indómita. Arrasa a riqueza geral do país, destrói a sua capacidade produtiva, arruína o emprego e destina para o exterior uma parte significativa da nossa minguada riqueza. É neste contexto de austeridade e da sua voraz instrumentalidade, socialmente injusta e regressiva, que o governo PSD/PP se coloca ao serviço de finalidades mais veladas do que reveladas.

Os sistemas públicos de segurança social estão, nesta circunstância, na berlinda deste continuado abalo sísmico do empobrecimento. A pretexto da necessidade de redução da despesa pública, devoram-se direitos e rendimentos e entreabre-se a porta pública à cupidez da banca privada com a doce linguagem da complementaridade e do plafonamento. Para o governo, ajustar consiste em reduzir despesa pública e reformar, deformando o Estado. Para as gentes que trabalha significa cortes salarias e supressão de prestações sociais, acrescidos das truculentas arremetidas à segurança social, à saúde e à educação.

É nesta conjuntura, de obstinada investida, que os sistemas de pensões são tiranizados pelos argumentos tão ruidosos quanto enfezados de proteção às gerações futuras. Os jovens desempregados e emigrados, esses, não são futuro e, pela atual ação política, nem presente são. Os reformados e pensionistas, por sua vez, já foram. São hoje parcela a mais na despesa social pois em nada concorrem para a melhoria da competitividade da nossa economia. Valem, por isso, congelamentos, cortes e confiscos. Assim sendo, fica bem ao governo defender os direitos da geração que há-de vir mesmo que à custa dos direitos daqueles que exerceram o dever solidário com os que lhes antecederam.

A discursividade metafórica do pretenso lenocínio social dos aposentados parece exigir, através desta insistente e tonta balela, direito de cidadania a este vagabundear argumentativo neoliberal. Subverte-se a lógica da repartição solidária agitando as bandeiras da insustentabilidade financeira, das criancinhas que insistem em não nascer e dos velhos que teimosamente se aferram à vida, espalhando aos sete ventos a ruína do Estado Social ao mesmo tempo que, assistindo de palanque, o mercado aplaude mostrando-se presente para patrocinar as complementaridades necessárias.

Fazem-se cálculos, procuram-se convergências, trabalham-se limites, introduzem-se fatores e inventam-se taxas, tudo isto acompanhado de outras tantas tentativas bondosas, embora felizmente fracassadas, de empobrecimento das gentes de um país vozeado, por alguns, como cada vez melhor. Estes tratantes fingem ignorar que a solidariedade entre gerações funda-se num princípio que dimana de contribuições pagas sobre os rendimentos de quem trabalha e que a condição essencial para a sua sustentabilidade passa, naturalmente, por mais emprego e melhores salários. Ou seja, passa por uma mudança inequívoca nas políticas económicas que apadrinhem tal desiderato. As eleições europeias de 25 de maio podem, de imediato, nada resolver. Com toda a certeza, porém, podem ajudar. Talvez mais do que se possa pensar. Sinceramente, estou nessa.

 

Imagem retirada DAQUI

quarta-feira, maio 14, 2014

CUMPRIR O DEVER HOJE, PARA GARANTIR O DIREITO AMANHÃ

Eis o princípio original de um sistema de repartição socialmente solidário

8828336990_73b63522b3_0Em bom rigor, pensar e desdobrar uma problemática obriga a um talhar conveniente pelas articulações certas. Sem doutas presunções, apenas com a elementar prudência intelectual, apresentarei aqui, como ponto de partida, uma parte pertinente de um argumentário, que suponho basilar, para aclarar o modo como as políticas que adotam extensamente a austeridade têm como efeito, entre outros, pela ideologia e pela ação, desacreditar e desmantelar os sistemas públicos de pensões.

Neste brevíssimo escrito, pretendo apenas chamar a atenção para a importância do sentido que se abraça quando se representa o esquema de repartição – e não de capitalização, entenda-se – que apoia a visão da natureza da instituição-repartição. Deste modo, interessa esclarecer sobre o que institui ela? A transferência, por cada geração e numa perspetiva individual, do rendimento no tempo (modelo 1) ou, a partilha solidária do rendimento corrente entre gerações, ou seja, entre os trabalhadores no ativo e os trabalhadores reformados (modelo 2)?

A clarificação desta posição de partida não é de modo algum indiferente, quer no desenvolvimento lógico e argumentativo, quer nas implicações e consequências do modelo adotado. Bem pelo contrário. O modelo 1, ao assemelhar-se a um esquema de poupança-reforma, de implicação individual, oportuniza a emergência de uma semântica harmonizável com as ideias de poupança e de segurança e, em consequência, ativa um tipo de subjetividade que a legitima e, sobretudo, a naturaliza. O modelo 2, por sua vez, coloca-se na orbe da solidariedade entre gerações e da natural e necessária responsabilidade social que a escora, tendo presente que um trabalhador quando contribui, não o faz para financiar a sua pensão futura mas sim concorre para a sustentabilidade das pensões de reforma dos seus contemporâneos.

Pois bem! O modelo 1, hoje tendencialmente apadrinhado pelas políticas liberalizantes, tem vindo a impor-se progressivamente como referência dominante na análise e definição das pensões, enfatizando-se a ideia de que cada geração, no período de atividade, deve contribuir de modo a alcançar, aquando da reforma, uma prestação futura, em termos de valor, equivalente. Como se pode facilmente apreender, esta visão avizinha-se da lógica dos esquemas de capitalização que, de modo desinibido, hoje se vai acomodando na mesa das negociações. Subjacente a este artifício persegue-se, importa sublinhar, uma validação com base no isco ideológico de que o trabalhador deve acumular recursos para financiar a sua própria pensão.

Por sua vez, o modelo 2 situando-se no campo da solidariedade geracional, assenta no dever de contribuir previamente para financiar as pensões dos reformados das gerações precedentes, justificando e legitimando deste modo o direito de receber uma pensão no futuro. Trata-se pois de um contrato social/geracional que ao Estado cumpre regular, criando as condições que garantam e assegurem o seu financiamento, nomeadamente pelos trabalhadores e os seus empregadores, não desrespeitando ele próprio as suas obrigações no que concerne aos trabalhadores da administração pública, de modo a proporcionar ao reformado uma taxa de substituição humanamente condigna, tendo como referência o seu anterior rendimento salarial.

Em síntese, a lógica solidária da repartição tem por base a riqueza criada, o rendimento do trabalho e a sua redistribuição sob a forma de prestações sociais, de acordo com regras claras a que se deve submeter a distribuição e partilha no todo social. Pelo que foi dito, e em jeito de conclusão, é assim óbvio inferir que o financiamento das pensões não está dissociado da produção e, naturalmente, da distribuição de riqueza e das respectivas circunstâncias económicas, sociais e políticas. A destruição atual em matéria de criação de riqueza, de emprego e de capacidade produtiva, aliada à transferência de rendimento nacional para o estrangeiro, através da irrevogável dívida, mostra à exaustão que o tema das pensões é, acima de tudo, um problema mais vasto de natureza política que importa alterar, designadamente nos campos económico e social. Através da ação crítica, não desdenhando da pertinência discursiva que a conduz e a fundamenta.

sexta-feira, maio 09, 2014

UMA SAÍDA LIMPA OU … UM BECO SEM SAÍDA?

 

 

Beco sem saída.
Beco sem saída?
(...)
Levanta-te meu Povo. Não é tarde.
Agora é que o mar canta  é que o sol arde
pois quando o povo acorda é sempre cedo.

(Do Soneto do Trabalho, de Ary dos Santos)

Retirado, tal como a imagem, daqui

becoOutras andaduras me têm recreado em desfavor destes meus catárticos apontamentos. Hoje, como habitualmente, acordei bem-disposto e com uma vontade distendida, diria quase selvagem, de fantasiar um mundo ao meu jeito. Neste meio tempo, ao sair de casa, pulsou em mim, por inesperado, o sobressalto de um inconfortável desprazer. O sol não se quis aliar ao ideado devaneio e a friagem do tempo acolitou, quase que de imediato, o esmorecimento do meu inicial e determinado intento. Entreguei-me, todavia, ao rotineiro sabor da “bica” matinal e ao costumeiro descamisar do jornal diário onde, em nada me reanimando, ensecou, de uma vez por todas, a vitalidade do meu auspicioso espertar.

Já azedado, a sempiterna e desapiedada mesmice mediática não me poupou, trazendo-me à leitura gente (falsamente) moralista que reitera em aparecer e comparecer para acidar a minha alma e ensaiar trapacear a minha inteligência. A austeridade, enquanto representação, na base da sua familiaridade doméstica, saltita assim do editorial para as mais diversas e mágicas notícias e destas para os escritos argumentativos que, pela persistência e repetição, têm por incumbência estender e consolidar a opinião que importa. Se a busca da verdade constitui uma infinda e laudável empresa ética e epistemológica, o dizer-verdadeiro não pode deixar de ser a sua condição necessária.

Por isso, é na penumbra desta meia-luz que acontece a transmutação da controversa e disputada natureza da austeridade. Dispõe-se dessa ambivalência e dá-se a volta a uma interpretação de vinculação moralista tornando-a, apesar do seu minguado conteúdo substantivo, numa conveniente e conivente máxima económica. Se esta proposição acarreia consigo algum crédito, importa então sondar a ideia de austeridade e desenredar a instrumentalidade da sua relação com a economia, tendo presente o pensamento que a avaliza e a redefinição das relações fundamentais da organização da sociedade que ela agencia.

A austeridade ao serviço de uma economia política tem apenas uma saída que é, bizarramente, o seu nuclear mas inconfessável desígnio. De acordo com a sua pertinácia ideológica de derruimento social e económico, persegue-se a desvalorização do trabalho, a reposição de uma economia alicerçada nos baixos salários e embarga-se a possibilidade de evolução das economias periféricas face às economias centrais. Deste modo, firmar as disparidades estruturais é o propósito, cimentando, como é óbvio, dependências funcionais de meros abastecedores de trabalho barato, ao mesmo tempo que se procriam dóceis hospitalidades para os excedentes superavitários dos poderosos. Para tal, a austeridade não é mais do que um marcador que vai redesenhando, limpinho, os horizontes políticos e económicos do futuro. De um futuro, afinal, que mais não é do que um beco sujo sem saída.

quinta-feira, abril 24, 2014

A LUTA NÃO PODE ENTRAR EM GOZO DE UMA QUALQUER SABÁTICA LICENÇA

capitalAs boas e veneráveis liberdades do liberalismo são as serventuárias liberdades que assistem o Capital e cuidam da acumulação que o abriga e opulenta. Em jeito de refutação, as liberdades auspiciosas à elevação da dignidade do Trabalho, por sua vez, interessam aos cidadãos em geral e aos trabalhadores em particular. Abraçar ambas tem sido a bandeira da democracia (designadamente a social) e, como tal, o seu excelso intento. A atual crise exibe-nos, todavia, a verdade mascarada mas irrefreável do capitalismo e da sua inumana faceta, sempre violenta e moralmente dissoluta.

Para tal, hoje mais do que nunca, descarna-se a democracia mas protege-se, como convém, o seu esqueleto encoberto em múltiplas e torpes sombras. Chegados a este inaceitável ponto, como pensar tão manifesto e devastador absurdo? Se fui tendo, ao longo do tempo, como certo que a dança da alternância, e das suas sedutoras cadeiras, não era mais do que uma variante aformoseada da mesmidade, estou agora declaradamente convicto da urgência de provocar uma transformação ousada desse mesmo, acriminando a contumácia da ignóbil batota politiqueira.

Assim sendo, importa alargar limites e tudo fazer para corrigir matricialmente a forma de instituir e de organizar a recriação de um novo e diferente viver para as nossas sociedades humanas. No mundo globalizado de hoje, a tarefa encontra-se cercada e minada por uma enrolada e, sobretudo, por uma pervertida e estudada complexidade. Saber onde tocar, e sobre o quê, torna a luta a travar bem mais delicada e, deste modo, a construção e a organização da alternativa necessariamente mais problemáticas. No entanto, não se vislumbra outro caminho. Sobreviver não é viver e, muito menos, pode significar a desistência de viver. Logo, nestas circunstâncias, e tomando de empréstimo uma expressão de Barata Moura, a luta não pode entrar em gozo de uma qualquer sabática licença. Por isso, mãos à obra e briguemos pela Vida reabrindo, como diz o poeta, as portas que ABRIL abriu.

sexta-feira, abril 11, 2014

A LABORIOSA LIBERDADE DE VAGABUNDEAR

127340_Papel-de-Parede-Tempestade-no-mar--127340_1440x900O meu íntimo, embora saturado de um labiríntico de afetos e pensamentos associados, desafia-me a viajar por minha conta e risco, liberto do olhar sentinela dos poderes expansivos e das violências intrusivas de um qualquer Outro, quiçá desorientado no interior túrbido da sua impulsiva presunção. Destes abanões, com o tempo aprendi a livrar-me instintivamente da mesquinhez de uma universalidade socialmente inventada e da mediania de um senso comum adormentado na desnaturada sujeição que a encaminha. Por esse motivo, nesse meu recanto íntimo, guardo este lindo poema de Manuel da Fonseca, com que uma sábia e sensível amiga , num dia de penoso desencanto, me soube reconfortar.

 

 

O VAGABUNDO DO MAR

 

Sou barco de vela e remo

sou vagabundo do mar.

Não tenho escala marcada

nem hora para chegar:

é tudo conforme o vento,

tudo conforme a maré...

 

Muitas vezes acontece

largar o rumo tomado

da praia para onde ia...

 

Foi o vento que virou?

foi o mar que enraiveceu

e não há porto de abrigo?

ou foi a minha vontade

de vagabundo do mar?

 

Sei lá.

 

Fosse o que fosse

não tenho rota marcada

ando ao sabor da maré.

 

É, por isso, meus amigos,

que a tempestade da Vida

me apanhou no alto mar.

 

E agora,

queira ou não queira,

cara alegre e braço forte:

estou no meu posto a lutar!

Se for ao fundo acabou-se.

Estas coisas acontecem

aos vagabundos do mar.

 

domingo, abril 06, 2014

A REALIDADE DA SERVENTIA

visao0411_blog1Participar não se esgota na mobilização. Mas sem esta, é duvidoso que se impulsione a participação. Todos (uns mais, outros menos e alguns absolutamente nada) queixam-se da apatia política. Mas há os que, exaltando-a na cobardia do silêncio, acham que a participação não é propriamente um bem. Pelo contrário – o seu excesso encoraja o conflito social e torna a democracia ingovernável. Nesta escurecida atmosfera, o neoliberalismo encontrou a sua solução. Arruinou um Estado (o Estado Social), erguendo, em substituição, um outro vergado aos mercados (leia-se ao Capital) e, em sequência, transformou-o num obediente regulador absconso e blindado ao controle democrático. Só assim se apreende a legitimação na imposição da austeridade cega, no desdém pelas promessas eleitorais e na canalhice institucional face ao Tribunal Constitucional. Alguém tem dúvidas deste aprisionado percurso ao projeto político de destruição progressiva da democracia? Uma coisa é certa; a apatia política é, para esta gente, a expressão triunfante de um eficaz e oportuno grau de aprovação das suas políticas. Lamento o desabafo, mas aqui reside esta minha desgostosa e angustiada crença!

sábado, abril 05, 2014

UM DESABAFO SOBRE OS HOMICÍDIOS PASSIONAIS E O CORREIO DE TODAS AS MANHÃS

cmanhaA paixão afronta sempre a desprotegida (ou desprevenida) razão castigando-a com a impenetrabilidade estranha, e quase sempre espinhosa, de um caudal complexo de sentimentos contrastantes. No entanto, talvez ainda bem que assim seja pelo desafio incontornável que coloca à presunçosa, embora vulnerável, condição humana. Como é evidente, sempre se sente um deleite aprazível em estar apaixonado, sucedendo, não obstante, e no silêncio de noites mal dormidas, que a emoção rejubilante que se experimenta, afinal, não depende só da nossa vontade e, talvez por isso, cedo se adivinha reiterados e intraduzíveis sofrimentos. A assertividade do consentimento, ou mesmo da liberdade que a ele se alia, logo se emudece na presença viva, e sobretudo agitada, dos sentimentos e das emoções que na paixão se ocasionam.

No entanto, a razão avisada, pela prudência da experiência e do testemunho, não esconde a intensidade da paixão, não mente sobre a possibilidade da sua efemeridade e, sobretudo, não se afadiga em alertar para o achaque primitivo da sua eventual exclusividade. Contudo, nestas circunstâncias, a unilateralidade pode levar-nos mais longe e tornar o objeto da paixão insubstituível e, como tal, originar uma dedicação obsessiva que nele se vai esgotando doentiamente. A paixão é um sentimento tão encantador quanto incerto e, por conseguinte, capaz de aturdir o lado racional dos apaixonados, abrindo um obscuro caminho à inconsciência da potencial violência das emoções (e dos ciúmes em particular), ao arruinar neles qualquer referência ética ou moral. E a partir daqui, tudo é possível. E é neste “tudo” que pode permanecer o medonho da história que tão bem acasala com a ganância de um certo e bestificado jornalismo.

terça-feira, abril 01, 2014

UM ENCENADOR CONVENCIDO, NUMA TRÁGICA COMÉDIA

passoscoelho11Passos Coelho, ontem no Europarque, em Santa Maria da Feira, avisadamente não chalaceou com a supina piada de que neste Portugal-melhor existem pessoas que se obstinam em continuar pior. Absteve-se do ridículo representando-o pela fabulação de um amanhã que luz nos confins desta trapaçaria sem fundo. A exaltação inicial, de que o pior já havia passado, logo se embaciou num futuro assombrado pelas dificuldades que, por pirraça, teimam em não se retirarem de cena. Por isso, condoído, Coelho gostaria de entusiasmar mas, prudentemente, reconhece os limites da palhaçada. Todavia, tal compadecimento não lhe abala a vaidade pelo que fez e ensinou, ousando sugerir que não vale a pena o zelo de aleitarem outros e diferentes cenários. Apenas e só a peça que está em palco e o contrato do encenador é que valem. Contudo, educado eu na minha visceral radicalidade, enxergo que o competente ensinador/encenador Coelho não tenha historicamente aprendido que, ao pensar-se num projeto alternativo, a raiz dessa ousadia semeia-se num outro solo cuja fertilidade se firma, não no terreno da sua entufada infabilidade, mas, bem pelo contrário, num outro de negação resoluta do “seu” presente.

segunda-feira, março 31, 2014

DESERTASTE … E VENS AGORA FAZER DOS PORTUGUESES IMBECIS

10172795_796892143672662_1823030382_nJá não chega um governo, uma maioria e um presidente. Durão quer alongar mais a tríade. Quer um outro governo, uma outra maioria e um outro presidente. Uma trilogia mais alargada, mais funcional e, sobretudo, mais despolitizada. Quer, com o sémen ordoliberal, dar à luz um consenso que descarte o valor do dissenso e o poder constituinte do conflito. Durão quer, no fundo, uma democracia sem substância, uma democracia onde a política se torne dispensável e o direito constitucional intolerável. Uma tríade à altura da austeridade e da agiotagem dos seus propósitos.

quarta-feira, março 26, 2014

O CÍNICO E INDECOROSO CRITÉRIO DE EQUIDADE

  • ASSENTE NO EMPOBRECIMENTO PROGRESSIVO E GENERALIZADO DAS REFORMAS
  • FUNDADO NUM EVOLUTIVO E DEBILITANTE QUADRO ECONÓMICO E SOCIAL
  • QUE SE CUMPRE ATRAVÉS DE UM AJUSTAMENTO COM BASE NA REDUÇÃO DE PENSÕES
  • E NEGLIGENCIA A FUNÇÃO SOCIAL DOS SISTEMAS DE REFORMAS NA FORMULAÇÃO DAS SUAS POLÍTICAS

 

pensoesO desenvolvimento deste tópico é o primeiro de um agrupado de textos que tem como âmago a situação dos reformados e pensionistas. Nesta perspectiva, começo por manifestar, neste escrito inaugural, o meu estado de alma, confessando o sentimento de que a vitalidade de um aposentado radica nos seus elementares e justos projetos futuros com a consciência certa de que, na ausência destes, se avizinhará, com toda certeza, a desistência intimadora de um viver naufragado na intensa e torturante percepção, diria limite, dos naturais limites da vida. Assim, nestas árduas circunstâncias do tempo atual, apenas sobrará ao idoso aposentado o angustiante sofrimento de um sobreviver sem vida, fragilizando-o ainda mais ante os acrescidos e diversos constrangimentos que inesperadamente o atormentam, como sejam os que hoje regressivamente acontecem, no plano social e económico. As políticas de austeridade, obstinada e violentamente alojadas nos rendimentos dos trabalhadores e dos aposentados, em muito têm contribuído para o revés dessa derradeira e vital vontade de pensar e experienciar expectativas futuras encorajadoras.

Para melhor introduzir este resvalar sucessivo do empobrecimento dos aposentados e enquadrar as análises e reflexões que se seguirão, neste como nos tópicos seguintes, tomo de empréstimo um trabalho do economista Pedro Carvalho, publicado em 14/2/2014 aqui , reproduzindo um conjunto de gráficos, claros e convincentes, sobre a evolução dos principais indicadores (macro)económicos, e através dos quais, de um modo simples mas expressivo, o autor nos proporciona um retrato da situação portuguesa em 2013, procurando comprovar as consequências dos impactos da integração capitalista europeia, assim como da afirmação persistente dessa perigosa ideia de austeridade, como muito bem é historiada, por Mark Blyth, no seu convincente livro sobre o assunto.

domingo, março 16, 2014

A QUEM APROVEITA A FRAGMENTAÇÃO ARDILOSA DE QUEM VIVE DO RENDIMENTO DO SEU TRABALHO?

reformados2A saída da crise económica, pela competição que gera, exige uma imediata e descautelada exploração não só dos que trabalham mas, de um modo incompassivo, também dos que fazem jus ao direito da sua justa e legítima reforma. É nesta moldura política e ideológica, onde o capital ocupa o centro e ao trabalho apenas remanesce uma inumana periferia, que o capitalismo neoliberal, aliás geográfica e desigualmente repartido, procura ganhar tempo histórico para a mesmidade de uma recuperação, provavelmente hipotética mas, como sempre, mascarada.

A generalidade dos economistas, por pedantismo formativo ou  insolência política e/ou, ainda, por mesquinhas e interesseiras vassalagens de momento, mostra-se vulgarmente empedernida aos dramas da aplicação supostamente sábia das leis internas do seu requerido e exclusivo saber. Aliás, como se sabe, onde estes procuram regularidades, ciclos e previsibilidades, outros não podem deixar de se preocuparem com a condutividade e explicação dos desconcertos humanos e sociais do alcance prático, teórico e ideológico, desses mesmos saberes.

A fragmentação ardilosa incentivada entre trabalhadores no ativo e trabalhadores reformados, entre jovens e idosos, entre pessoas que trabalham no privado e os que trabalham no público, entre algumas outras patéticas dicotomias, não são mais do que minúcias despudoradas de um epifenomenismo resultante do atual reportório das políticas que, matreira e silenciosamente, se vão acomodando. O cinismo é tal que se descobrem insustentáveis injustiças entre os que sofrem e se ignoram as distâncias que separam estes dos que deles à custa vivem.

Assim sendo, o que pode esperar, destas políticas, o Trabalho? Como se vai, com clareza, confirmando, o que se pode esperar é a redução dos seus rendimentos quer por diminuição do salário real, quer por aumento das horas de trabalho não remuneradas, quer, ainda e indiretamente, por pressão do elevado desemprego. Tudo isto num contexto socialmente desfavorável, marcado por um Estado-Providência em profunda asfixia graças ao crescimento desregulado de uma obscena e impositiva financeirização, com lucros rentistas, daí advindos, verdadeiramente ultrajantes.

Nesta circunstância, apresenta-se-me então uma decisiva questão; como manter o epílogo desta crise em aberto e não blindado aos propósitos do neoliberalismo vigente como pretendem as atuais forças políticas governamentais, nacionais e europeias? Pelo que atrás se destacou, uma coisa parece configurar-se acertada. Como condição medular, importa que a classe trabalhadora, pese embora a diversidade social dos que hoje vivem do Trabalho, não se deixe ingenuamente fragmentar e que, de um modo pragmático, embora lúcido e impetuoso, se saiba solidarizar, unir e organizar à volta do que afinal é comum na sua essencialidade. Ou seja, no dinâmico posicionamento crítico, considerar como fundamentais as referências da substantivação da democracia, da dignidade das existências e da equidade e justiça sociais. A manipulação do Capital tornar-se-ia bem mais árdua e custosa, quando não inoperante.

domingo, março 09, 2014

UM PREFÁCIO LITÚRGICO AO PENSAMENTO ÚNICO

{0}&w=171&h=114&act=cropResizeOnde gira o dinheiro, daquele que se revira capital, dever-se-á hospedar a cultura da crítica, servida por um saber que edifica o lado certo da barricada. Sem pressas de vitória, interessa ocasionar e organizar forças capazes de reagirem às violências que nos controlam. Pela oposição, pela insubmissão, pela resistência, ou – quando não – pela revolta ou rebelião. A ação crítica, neste campo de refrega à dominação capitalista perversa, não pode comparecer coxa da sua ação política. Todos os meios são escassos ante a cachoeira conciliada de teses (domésticas e outras) que apoiam a perversidade do sistema na sua escandalosa mas amigável difusão mediática. O fascistoide pensamento transmitido como único, ideologicamente homótono, padroniza costumes, valoriza lugares comuns e manipula, sem pejo, o benevolente senso popular. Logo, a democracia vai-se assim trajando com uma indumentária útil para um corpo cada vez mais totalitário. Os mercados capitalizando, o povo amargando e o Cavaco enleando.

sábado, março 08, 2014

EM VÉSPERAS DE ABRIL - RELEMBRAR JORGE DE SENA

liberdade

 

CANTIGA DE ABRIL

Às Forças Armadas e ao povo de Portugal
«Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade»
J. de S.

 

 

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.


Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste país,
a conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos
chegava até à raiz.


Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.


Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever
com que palavras gritar!


Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essa paz do cemitério
toda prisão ou censura,
e o poder feito galdério,
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.


Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essas guerras de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por política demente.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo
só miséria sem segundo,
só desespero fatal.


Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim altiva e nua,
com força que não recua,
a verdade mais veraz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Jorge de Sena, 40 Anos de Servidão, 1979.

O DISFARCE DO INVOCATIVO DIREITO À INDIGNAÇÃO

imagesMoral, moralidade e moralismo são conceitos de raias permissíveis aquando da sua aventura mundana de inevitável particularização. Ao aliciar juízos moralizadores, a presença catalisadora da legalidade e dos costumes relaxam as fronteiras da exigente elucidação. Entre a ética que escora a moral e o moralismo que a dessubstancializa abismam-se múltiplas significâncias. Com destinações diversas, advindas de patéticas inocências ao limite da sagacidade malevolente, o campo político serve-se da bruma daí proveniente, comprazendo-se em moralizar mistificadas realidades sobre as quais ajuíza. Com a qualidade argumentativa que se lhe reconhece, José Pacheco Pereira (JPP) explora[1] o tópico, de um modo claro e fundamentado, delineando a fronteira que levou Passos Coelho a clamar indignação onde apenas mora irritação.

Tal como JPP, não me inquieta que um político esconda determinados comportamentos privados em público. Se o político A ou B engana a mulher, se tem uma filha que encobre, se é homossexual ou ainda se conserva no armário[2], são aspetos de uma natureza que, do meu ponto de vista, não constituem objeto da alçada imediata da moralidade em política. Com um sentido algo sarcástico, JPP recorda que, se assim fosse, Churchill não aguentaria um mês com tais critérios de exposição moralista, em oposição a Hitler que tinha uma vida privada sóbria e frugal. Imoralidade em política passa por outros roteiros, como lembra JPP. Roteiros feitos de mentiras, de enganos, de desprezo pelas pessoas comuns e pelo espezinhar impiedoso dos mais frágeis. Contudo, não acompanho JPP quando ele afirma; [a] acusação ao primeiro-ministro de que a sua palavra não valia nada provocou-lhe um surto de irritação mais do que indignação. Para mim, tenho que o reconhecimento deste radical juízo bateu forte, atordoou-o e a irritação despontou por clara intolerância à densidade da verdade e à firmeza da inculpação. O invocativo direito à indignação apenas se prestou a encobrir a irritabilidade de uma ocultada predisposição ao assanhamento provocada pela verdade e por esta em particular; a indesmentível verdade de que o valor da sua palavra é nenhum.


[1] “Colocar o engano no centro da política”, jornal Público, de 08Mar2014

[2] Como refere JPP no seu texto.

terça-feira, março 04, 2014

ACORDAI, CIDADÃOS!

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A simbiose do Estado e do povo foi dissolvida. Há dois Portugais em Portugal, assim como há duas Europas na Europa. Merkel e Passos representam uma delas, certamente a mais ameaçadora. Na outra, estamos nós, os ameaçados. A contraconduta, a dissidência não são, somente, actos políticos; sobretudo, representam urgentes condutas morais”.

Baptista-Bastos

sábado, março 01, 2014

A ABSOLVIÇÃO “COMPETENTE” DA EXPLORAÇÃO

força trabalhadoresJosé Pacheco Pereira (JPP) escreve hoje (01MARÇO2014) no Público, e a dada altura, no seu texto “A Europa que nunca se debate”, forma o seguinte juízo: “Com candidatos como Rangel e Assis, que é bastante próximo de muitas posições de Rangel, o debate europeu ficará prejudicado por se fazer apenas dentro de uma ortodoxia europeísta que, do meu ponto de vista, de há muito perdeu o contacto com a realidade das nações europeias, com aquilo que é hoje a União Europeia, e com a vontade dos povos e nações da Europa”, sem que antes não se tenha coibido de acusar Rangel como “o mais europeísta de qualquer candidato europeu até agora”. De acordo com JPP, pelo que diz e escreve, Rangel mostra-se “um crítico da própria ideia de soberania e independência”, já que, ao congratular-se “com a deslocação da decisão constitucional do âmbito nacional, no caso alemão, para o Tribunal Europeu”, não deixa de implicitar a sua posição face às decisões que têm vindo a ser tomadas pelo Tribunal Constitucional português.

Não obstante a descoincidência na estética, o discurso de Rangel não só se associa como substancia a prédica do seu governo, designadamente quando, no contexto europeu, ele se arruma ao lado do “europeísmo mais extremo” do Partido Popular Europeu. Governo e Rangel estão assim abancados num alucinado avião que preanuncia descolar mas, na realidade, não levanta voo porque o delírio não produz qualquer energia impulsora. Uma estranha crença espirita se instala, assim e neste acinzentado tempo, ao encarnar o desvario fundeado numa espécie de religiosidade que faz da pobreza e das desigualdades a sua dinâmica constituinte e do abandono e da incerteza a condição vital dos seus indizíveis proveitos. O baloiçar do sofrimento errante, mergulhado num mundo de dependências, mantém viva a missão purgadora dos seus residentes, destinando-lhes um colo assistencial ao sopro do seu messiânico e estoico arengar. Nesta liturgia político-religiosa, a aristocracia – dos dinheiros e das influências – procura amimalhar a relação com os seus humildes alentando a ilusão de uma proteção garantida nesta vida; outros, em amiganço com a ganância dos primeiros, prometem o amparo noutras e futuras vidas. Até quando aceitamos esta miserável comédia?

quinta-feira, fevereiro 27, 2014

E SE EU ACRESCENTASSE ALGO?

1794796_1420900998150916_1686626475_sManuel Maria Carrilho, no seu artigo de opinião do hoje (27.02.2014) no Diário de Notícias, fazendo referência a estudos de opinião, revela que estes nos confirmam que “a maioria dos cidadãos pensa que pior que um regime político de partidos, só um regime político…sem eles”. Concordo. No entanto, o que a seguir refere, no contexto deste breve texto, é bem mais curioso para mim, dado situar o objeto de consideração no perfil da adoção dos partidos políticos por parte dos cidadãos, distinguido (em concreto) três tipos de adesão; o clubista, o pretoriano e o cidadão. Quanto ao primeiro, ele caracteriza-o como o mais tribal; o segundo, define-o como “ [vivendo] do chefe e para o chefe”; o terceiro e último, enaltece-o porquanto ele “valoriza as ideias e a sua discussão”, acentuando ao arrematar e em sintonia com uma perceção generalizada, que “o caminho tem-se feito sempre em prejuízo [deste último] ”.

Descartando a referência matreira ao Congresso do PSD como evidência das evidências, não posso deixar de manifestar a minha relativa concordância com o esquema de análise proposto, na medida em que nele se inscrevem alguns critérios básicos à aceitabilidade de uma qualquer teoria, aqui entendida e respaldada na sua adequação aos factos. A perceção generalizada acima referida, alicerçada na realidade empírica, largamente testemunhada e regularmente confirmada, valida por si a demandada norma do crédito da presunção. Por outro lado, a categorização proposta, embora esquemática, não expõe inconsistências criticáveis, respeitando (destarte) um outro reivindicado preceito, ou seja, o do critério da coerência interna. Acresce ainda, designadamente no plano formal, que o esquema em apreço, não corrompendo nem contestando princípios democráticos instituídos no domínio da organização político-partidária, convoca a possibilidade de abertura a novos caminhos e formas de sociabilidade, inclusão e participação política e partidária.

Neste âmbito, a talhe de foice – e aqui não deveria associar o martelo – penso que muitos dos nossos políticos, assumindo-se como a elite das elites, olham para as massas a partir deles, definindo-as assim como parte negativa de uma antinomia simplificada, tornando homogéneo e indiferenciado o que é objetivamente diverso. Todavia, é bom lembrar que a generalidade das elites, designadamente as políticas, não desconhecem que o nível de influência – quando não de intimidação – sobre as massas é tanto maior quanto menor for o nível de incorporação e de participação organizada destas no espaço público-institucional, agindo (assim e como tal) em conformidade. O conservadorismo político, de uma forma geral, e a direita populista de um jeito bem grosseiro, sabem bem quanto é importante que as massas constituam um amplo amontoado de gente desorganizada, mantidas numa envolvente de sociabilidade emocional, naturalmente superficial e efémera, para que a individualidade facilmente possa submergir no constrangimento difuso por eles deliberadamente infundido. Assim sendo, logicamente não posso deixar de sustentar que a(s) esquerda(s), de verdade – e com verdade – enraizada(s) nas massas, nas suas necessidades e comprometidas com os seus anseios, em coerência têm de lutar, organizando-se e trabalhando, em sentido objetivamente inverso, rejeitando não só o tribalismo partidário e a militância pretoriana como a própria cidadania hipotecada a uma ordem iníqua e insensível (ou mesmo indiferente) à condição humana. Assim sendo, interrogo-me; estarei eu a pensar acertadamente?

domingo, fevereiro 23, 2014

SE OS PORTUGUESES VIVEM PIOR, PORTUGAL ESTÁ MELHOR PARA QUEM?

FOTO imagemEnaltecer um Portugal melhor, com os portugueses a viver pior, representa a confirmação eloquente de que a mentira também faz parte da verdade. E porquê? Porque a mentira, na sua peculiar falsidade, tem como intento esconder, confundir ou iludir, acobertando-se na insídia obscuridade de um suposto fundo de verdade. Por outro lado, a mentira no seu regabofe de deturpação constante, escora-se sempre na simples e conhecida regra, aliás manhosa e sempre alindada, cuja serventia não é mais do que encobrir, deslocar, excluir ou mesmo adulterar a verdade, tornando esta algo de indistinguível, de temido ou de adequadamente distante. Por último, e este é talvez o aspeto mais desafiante, partindo-se dela, a mentira possibilita o desenvolvimento de um exercício de análise crítico e fundamentado, quando se toma por objeto a relação dialética que ela estabelece com as realidades que procura ocultar, deturpar ou abastardar.

Assim sendo, a mentira transporta consigo muito embaraço, nela há muito hospedado, que importa divisar com o propósito de informar os interesses incertos e suspeitos que ela serve e protege e à ordem de quem. A partitura neoliberal está claramente engenhada e as partes que a formam justapostas em perfeita sintonia. E foi assim que o Congresso do PSD se tornou, neste fim-de-semana, numa peça nevrálgica da asfixiante e já montada arquitetura de propaganda, destinada tão-somente a formatar as representações e os sentimentos dos comparsas ditos inconsequentes e, em particular, dos bondosos eleitores mais desavisados. Deste modo transformada a magna assembleia numa feira de aleivosias, vaidades e fingidas convergências, ali se mercantilizou, como é óbvio, uma abundância de artefactos ideológicos contrafeitos. O interesse nacional, a social-democracia, a liberdade, a democracia e um estado social em bom estado foram os pregões mais escutados. O saldo do negócio estando (todavia) por apurar, uma coisa é já certa e o aviso conhecido. Nestas feiras, o que se compra está comprado. Não se aceitam posteriores reclamações. Assim, e depois deste reiterado aviso, aqui deixo um simpático recado; o futuro não despertará apenas amanhã, já que há muito que ele se vem encaminhando. Naturalmente contrafeito…

domingo, fevereiro 16, 2014

AS CRENÇAS DO NOSSO ACREDITAR

Viver é assumir-se para alterar-se.
Vilém Flusser

internacional-algemas-prisao-hamas-faixa-de-gaza-israel-fundamentalismo-isla-20130508-01-size-620O acontecido no passado encaminha o futuro pelas entranhas de um vínculo chamado memória. Não apenas por aquela autobiográfica e consolidada que a lembrança evoca, valendo-se da “representação de si” no movimento do tempo e amoldada por uma útil e ritmada ficção. A memória é bem mais ampla não se esgotando unicamente no lado consciente desta invenção fabuladora. O nosso sentir subjetivo – desprovido de recordação e de um “eu” imaginado num tempo preciso – subsiste  apesar de não se reconhecer nas raízes do seu passado.

Ora, é nesta superfície da memória – asseguram os doutos da especialidade – que se fixam os nossos valores, crenças e papéis, por apropriação e reconstrução, ativa e interna, dos elementos de uma cultura que acostuma. Com a repetição, a aptidão humana de pensar faculta a descoberta de homogenias e contrastes, produzindo-se, assim e naturalmente, as representações necessárias às aprendizagens da vida. Por consequência, provindo de contextos ordenados culturalmente, estas representações ou generalizações não são, por essa atuante razão, criações singulares, pese embora o seu emprego eclético orientado para interesses e utilidades necessariamente múltiplos e distintos.

Chegado a este ponto, levanta-se a questão; onde e como edifico as crenças para o meu acreditar? Pondo de lado, por prudência, os estratos mais profundos da crença, acolho a ideia de que esta aparece e se forma sempre num horizonte de indeterminação que, por uma necessidade intrinsecamente humana, o indivíduo procura conquistar, determinando através da descoberta, o ainda indeterminado. Mas, descortinar a verdade não é o mesmo que esclarecer o bem e muito menos deslindar o belo. Os atos de crença envolvidos na descoberta da verdade, do bem e da beleza não são atos da mesma casta. Enquanto a verdade faz apelo à prova, o bem recorre ao argumento e a beleza à evidência. Eis as diferenças que, no seu âmago, as distinguem e as separam.

A infundada certeza dos fundamentalistas, como parece ser notório, exibe-se na incondicional repulsa por uma qualquer evidência que a possa contraditar. Não estando propriamente no arbítrio de quem a aclama, a desvirtude reside sobretudo na convicção firme da irrefutabilidade da sua certeza e na superior companhia da negação da evidência que a recusa. Tanto quanto sou capaz, escoltado por uma vontade de pensar criticamente, embora defenda com forte paixão as minhas crenças, não deixo de estar atento aos escorregadios declives fundamentalistas ou ao conforto fácil e abrigador do pálio de uma qualquer fé. O assenhoreamento do indeterminado faz-se perseguindo a verdade, validando-a com provas que a tornem mais real. Na ausência destas, a crença enfraquece. Na presença convincente de outras que a refutam, resta um caminho; considerar a falha e mudar de ideias. Simples, evitando os fundamentalismos obtusos ou a amável comodidade das verdades reveladas.

sábado, fevereiro 08, 2014

A VERDADE DE UMA ESTATÍSTICA E A SUA INSIGNIFICÂNCIA EMPÍRICA

Exemplo tomado de empréstimo de Mark Blyth, embora o texto seja da minha total responsabilidade (Austeridade – A História de um Ideia Perigosa)

transferirOs economistas persistem em ver as questões de distribuição de uma forma simples que passo a descrever. Imagine que Bill Gates entra no bar onde você está a beber um copo. A partir do momento que ele entre no bar, toda a gente que está lá a beber (como você) passa a ser milionária. Porquê? Porque, garante o douto economista, o valor médio de todos os que lá estão não o desmente. No entanto, você sabe bem que na realidade não há milionários no bar mas apenas um multimilionário, apesar da teimosia do economista que permanece no seu competente cálculo.

As políticas de austeridade usam e abusam desta ilusão estatística e distributiva de um modo, diria eu, libidinoso. Porquê? Porque os economistas – designadamente os serventuários desta letal onda neoliberal – muito se encantam com uma outra realidade, a da volúpia matemática dos números. Servem os agiotas, bajulam os políticos e salivam com as recompensas. Assim sendo, a lição a retirar deste simples exemplo é igualmente simples; mais significativo que saber matemática, importa aprender a hermenêutica da sua razão.

terça-feira, fevereiro 04, 2014

OUTROS “AMANHÃS QUE CANTARÃO”…

… com um pouco de água benta para limpeza espiritual

transferirA crença na fatalidade e na influência dos fados, abrigada na descrença do que sobra, esclarece que tudo vai mal por culpa dos homens e não, mesmo nunca, da desatenção dos benévolos deuses. São estes os ingredientes mentais que, desposando servilmente o obscurecido e escurecedor argumentário de determinado conservadorismo ultramontano, lhe permitem – mas não só a ele – perseguir aquele imenso proveito, aliás muito real, de que “não há grande coisa a fazer” a não ser esperar pelo inevitável refúgio dadivoso e consolador numa qualquer e convincente fé teológica ou afim.

Deste modo, sabendo esse e outros conservadorismos (e os interesses por eles servidos) que não sobrevivem se não levarem a água (mais-valias) ao seu moinho (capital), trabalham os mesmos laboriosamente, cada um a seu jeito, para persuadir os crédulos não só de que “não há grande coisa a fazer”, mas, sobretudo, de que “não há mesmo nada a fazer”. Pelo que, e em conformidade, erigem assim os distintos e elegantes laisser-faire, laisser-passer em arrimos (ideo)lógicos da fórmula económica que ampara a embustice da enfática e persistente narrativa da mão invisível. Esta mão (feita de farsa e de ficção, pois desmentida ad nauseam), saberá arquitetar por essa sombria álea (assim no-lo juram pelas alminhas), com a ajuda escrupulosa de um qualquer deus misericordioso, a justiça no mundo dos homens. Ou seja, num devir ritmado “por amanhãs que também não deixarão de cantar”, naturalmente em paraísos sapientemente apresentados. Não aqui na terra, infelizmente. E é pena…

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

A AMIZADE E A SEMÂNTICA

amizade1GOSTAR MAIS DE MENOS GENTE

Texto postado por Rogério Cação na sua página de Facebook

 

Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem – Millôr Fernandes

Posto que viver me é excelente, cada vez gosto mais de menos gente. A frase não é minha mas desse grande pensador das simplicidades que foi Agostinho da Silva. E dá que pensar. De facto, são muitas as pessoa que vamos conhecendo ao longo da vida, mas não são assim tantas as que se tornam indispensáveis. Não quer dizer que não se possa gostar de muita gente, mas apenas que apenas alguns cabem no lugar especial que cabe na ideia de “menos gente”. Mais do que uma escolha, o afeto pressupõe um merecimento, reciproco e incondicional e, deste ponto de vista, apenas nos “merecemos” quando somos quando se verifica essa dupla condição da indispensabilidade e incondicionalidade. E à medida que avançamos na idade, tornamo-nos mais exigentes nos afetos, porventura porque não temos tempo a perder. Com o passar dos anos, todos nós vamos gostando mais de menos gente. Porque uns quantos partiram. Porque outros tantos nos desiludiram ou dececionaram. Porque alguns não quiseram ou não souberam merecer-nos. Porque outros não apareceram quando precisávamos deles. São muitos os que passam pela nossa vida e que, sendo embora importantes num determinado momento, vamos deixando algures pelo caminho, às vezes sem sabermos muito bem porquê. É por isso que sentimos necessidade de, quando damos conta que nos falta gente, dar um saltinho ao passado e/ou arranhar a consciência, à cata de explicações para a ausência de gente que nos é indispensável. Talvez acrescentasse uma outra ideia ao pensamento de Agostinho da Silva: porque a vida não me é indiferente, cada vez gosto mais de menos gente. Mas quando gosto, gosto mesmo, acreditem.

Os meus comentários:

Ontem (02FEV), comentei na página do Rogério: “Gostei e de imediato pensei no lado calmo, idiossincrático e pessoal da vida que nem sempre se dá quando em demasia se submete o afeto à superfície dispersiva do número. Não se trata de uma vulgar misantropia nem de um qualquer outro refúgio egoísta. Apenas a descoberta de uma brecha de vida numa outra escala de possibilidades; a da reciprocidade que nos surpreende no íntimo da nossa própria condição”.

Hoje (03FEV), acrescento aqui: “Gostei de ler o teu texto não na perspetiva do número mas da semântica que acompanha a significação que se tem (ou pode ter) da amizade. Não é novidade para ninguém que, no plano histórico, a ideia de amizade aparece demasiado grudada aos ideais catequéticos de igualdade e de fraternidade sujeitando-a, assim, a uma forte envolvência de proximidade modelada no privilégio da autoridade de consciências vizinhas como as de intimidade e de familiaridade, entre outras. No entanto, todos nós também sabemos que esta proximidade (feita de intimidade e familiaridade) atrai, com uma frequência que nos surpreende, dinâmicas relacionais de imposições homogeneizadoras que enfermam a relação com o Outro através de práticas autoritárias que, longe de humanizar, sobretudo não integralizam. Tendo por eixo esta linha de pensamento, desviei o meu olhar para um outro horizonte, que o teu texto parece sugerir, da amizade enquanto relação intersubjetiva considerada num registo de qualidade diferente, ou seja, naquele que se desdobra na imprevisibilidade da alteridade e dos seus vínculos, designadamente tendo em conta os tempos de hoje marcados pela fragilidade e superficialidade das sociabilidades relacionais e comunicacionais. Independentemente do número de amigos - e como é bom os ter - é importante que estes nos preencham, nos façam crescer e nos ajudem a realizar esse projeto de sermos pessoas. E estes não são muitos e os outros não deixam, apesar disso, de continuar amigos. Embora, admitamo-lo, amigos certamente diferentes”.

domingo, fevereiro 02, 2014

ESQUERDAS, DIFICULDADES E INEVITABILIDADES

FOTO ACTUAL

 

Uma ordem política que descuida a intimidade sadia que os valores da legalidade e da juridicidade devem manter com os da moralidade e da eticidade, maleficia a coesão social, ofende a dignidade racional dos homens e humilha, sem contrição, a própria condição humana.

O discurso político do Governo e o da maioria parlamentar que o respalda, sobretudo este mais recente de eleitoralismo antecipado, descarado e sem-vergonha, em tinido de uma nota só, impudentemente e com cristalinidade, acrescido com o desplante sustento do concubinato financeiro e europeu, mostra - esse discurso - a perversidade dos tempos e a solércia entorpecente dos regedores de serviço à nossa combalida democracia.

A esquerda, embora destoante e diversamente enérgica no seu dever de oposição, tem de reconhecer que a malignidade da esperteza desse arengar assenta no conhecimento destas e daquelas outras (in)verdades que sabem explorar quando interessam e desdenhar fora disso. Nesta linha de raciocínio, espera-se da esquerda que saiba ser nobre, esclarecida e consequente e tudo faça para discernir os interesses capazes de agilizar a mobilização de uma razão prática que se torne causa poderosa na formação de uma vontade comum. Caso contrário, lamento ter de inferir que a direita governa porque a esquerda não o merece. O Capital rejubila, o Trabalho (entretanto) amargura…

quarta-feira, janeiro 01, 2014

ATENÇÃO 2014 - O CAGAÇO CORROMPE

8396525_fNabaO poder político torna-se mais burilado quanto menos democrático e tanto menos democrático quanto mais o medo enlaça a liberdade das gentes. Esculpida assim a sociedade, por um medo sabiamente exortado e candidamente desvelado pela dúvida nela asilada, o apetite totalitário agita a bafienta e exaurida recompensa histórica. O povo abre mão da liberdade e aquele arbítrio feito poder, atento e ciente da inevitabilidade da sua progressiva ilicitude, garante em troca a sua experimentada e obscena segurança. Os sinais vão-se hoje empilhando, e por essa razão densificada, convém espertar as gentes para a natureza não separativa mas dialética da relação. Sim, o povo quer segurança mas uma Segurança estribada no exercício da Liberdade e no respeito pela Democracia e pela Constituição que a regula. Acagaçados, nem de joelhos e de mãos em prece nos sobrará a dignidade de existir.

Imagem retirada DAQUI

quinta-feira, dezembro 05, 2013

A ALMA DAS RUAS SÓ É INTEIRAMENTE SENSÍVEL A HORAS TARDIAS

(O título é uma citação da autoria de João do Rio)

 

NoitesBrancas-3Uma cultura faz-se enlaçando significados, atitudes e valores e consolida-se através de simbolismos próprios, de acordo com as gentes, os lugares e as suas singularidades. Porém, a compreensão dos subentendidos, constituindo uma forma privilegiada de nela adentrar, apela a olhares atentos e distendidos, ao mesmo tempo que nos aproxima de diversas e inusitadas reciprocidades. Deste modo, o Bairro Alto, esculpido no meu imaginário pela ideia de uma certa boémia, feita de vizinhança entre fado, prostituição e marginalidade e enobrecida pela tertuliana convivência de jornalistas e intelectuais, apresentou-se-me, ao tempo, como um espesso lugar envolvente, marcado por uma estranha e sibilina comunicação. A riqueza dos seus signos e a diversidade dos seus usos, nesta paisagem matizada, explicam porventura essa misteriosa vinculação que em mim se instalou entre realidade e fantasia, em que uma e outra, conflituando, mútua e cumplicemente se deixaram arrastar. O 25 de Abril, entre outras essencialidades, libertou-nos dos rigores espirituais da moralidade cristã e complicou-nos a vida educada e disciplinada do lazer. A liberdade de recriar novas representações da noite, distante da conceção do pecado e do maniqueísmo da tradição católica, tem necessariamente o seu preço, a que esse tempo privilegiado de busca de novas ordens públicas e morais – felizmente – não escapou.

Lembrar o Bairro Alto é, por tudo isto, dar vida às memórias, é reviver experiências que me ajudaram a crescer. Que, sobretudo, me ajudaram a ser. À noite, devaneei pelas suas estreitas ruas, tocando existências que, até ao momento, me ficavam bem distantes. Intuindo, com estranheza mas com agilizada liberdade, vivi esse tempo inventando sentidos, seduzido pela escuta arrebatada do sentir humano que na noite descobre o lado autêntico da sua alma. Com redobrado contentamento, descortinei que o Bairro Alto era uma realidade feita de raias incertas e animada por múltiplas e diferentes representações que, dando-lhe vida, prosseguiam a sua imaginária e sedutora identidade. Todavia, o seu denso espaço público não passou de uma vernácula superfície onde me ocupei a rabiscar textos, alguns bem necessários, de valiosa significação pessoal. As errâncias por caminhos não previstos alargaram-me o campo das apreensões e deram uma outra solidez aos valores que me são caros. Com a vantagem de ter sentido o latejar de vidas silenciadas, estes valores floresceram no chão íntimo da compreensão próxima do outro, do diferente e do socialmente diverso. Um tempo de andarilho que me proporcionou fazer do conflito entranhado uma poderosa razão para vencer, pela inteligência e pela sensibilidade, agitações impróprias provocadas por estranhas e insuportáveis ordens. Foi neste seu desafio dialético que a transparência da materialidade dos valores se insurgiu contra essa distante arte de bem persuadir a que se chama retórica, uma espécie, afinal, de oração que rarefaz a seu jeito a realidade – humana, social e cultural – que diz cuidar. Isso mesmo, um cuidar a seu jeito.

Imagem retirada DAQUI

domingo, novembro 24, 2013

NOVOS TEMPOS

À Guilhermina, ao João Fernandes e ao Mário Rui que comigo viajam nesta incursão ao mundo novo do remanso …

Encontro_Aposentados_LogoO tempo do calendário não anuvia a dimensão humana do tempo. À regularidade de um opõe-se o descompasso do outro. O primeiro mede-se, o segundo faz-se consciência sem tempo. Aquele regista as datas das nossas estórias, este refaz as nossas memórias e propicia a invenção de diferentes tempos. No essencial, vale este que se torna o tempo que (para nós) realmente conta. A despeito do sobressalto do agora, este tempo que conta cria no presente as possíveis rotas naquele outro que lhe advirá. Agraciemos então a vida com a energia do vivido, recusando o rumor monótono da clausura do tempo ritmado pelo tiquetaquear do relógio.

O presente não tem começo nem termo precisos malgrado a finitude de um agora que acontece. Mas o presente, no desalinho do horizonte do tempo imediato, permanece sempre inteiro, embora caprichoso. No seu gesto contínuo de (re)viver e de (re)significar, espera-se dele que faça do futuro um amável tempo presente. Com esperança mas sem resignadas esperas que nos tornem cativos do que vai acontecendo. Há sempre algo a desejar e a esperar da vida e do futuro. Ambicionando, nutre-se energia e desta extrai-se vitalidade. Na intimidade da esperança e dos desejos saberemos, com certeza, desvendar e reavivar estimulantes extensões das nossas vidas. Com a alegria de viver será tudo mais fácil. Não obstante a inurbanidade de muitos, o tempo futuro também nos pertence.

sexta-feira, novembro 08, 2013

A FORÇA E A AUTORIDADE DO NEGATIVO

120730-MarxB-e1343643612991Este tempo de crise que acontece envolve-me numa inexprimível moldura trágica. Embebida no bafo sufocante desse devasso pensamento que renega outras rotas, a desgraça faz-se calamitosa. A minha obstinada oposição marxiana ante a banalização das desigualdades, das servidões e das insolidariedades, se porventura aguça a caturrice, acrescenta todavia vigor redobrado à vivacidade do meu inconformismo. Na minha pirraça solidária, o sentido de historicidade, de materialidade e de dialética, torna-se numa saudável arma – na sua laboriosa e exigente filiação – para os desafios compromissórios da inteligibilidade com a  transformação. Uma salutar arma que acrescenta, à acolitada rebeldia desse inconformismo, a convincente mas restribada firmeza de lutar as lutas que valem. Por uma sociedade realmente diferente, capaz de causar e de exercer uma radical humanidade sem disfarces, sejam estes dolosas improbidades ou simples situacionismos de circunstância.

Pulsando entre uma alicerçada teimosia em que se funda o dever de acossar a iníqua ordem estabelecida e a institucionalização transitória das ruturas que se alcançam, decido sempre pelas portas que se deixam abertas à possibilidade da incontornável permanência de progressivas e humanas transformações sociais. Ou melhor, a mudanças incessantes no sentido exato de um ambicionado porvir em que a maldade, no seu amplo mas profundo significado ecológico, se confronte com distintos e acumulados embaraços em se aparentar com o seu incómodo contrário – e, sobretudo, em viver à custa dele. Não correndo atrás de nenhum fantástico paraíso, é confiante nestas mudanças possíveis que me procuro situar, sem arrogâncias ou rendições, nas disputas continuadas por uma sociedade com mais dignidade, com mais justiça e com mais humanidade. No entanto, não deixando de radicalizar em nome dos princípios aqui inscritos, não deixo igualmente de reconhecer o lado frágil, o lado demasiado humano, das histórias que nos fazem ser – sem possibilidades significativas de fuga – consequência dos múltiplos e contraditórios vínculos com que vamos enlaçando a complexa e contraditória totalidade das nossas existências.

Para desmedir o nosso já censurável infortúnio, a globalização uniu globalmente o capital e desconjuntou, ou procura ainda desarticular mais e com absoluto descaro, as forças críticas que o combatem. O discurso político e ideológico dos nossos poderes paroquiais revela-se, neste campo e pela sua obviedade, um patético e obsceno modelo. A persistente tentativa de cisão e de debilitação do campo do trabalho constitui o eficaz método e o avivar abjeto do sentimento penoso de sobrevivência proporciona-lhe o seu sórdido ingrediente. Por mim, e no contexto deste breve escrito, não vou aqui argumentar se o marxismo, enquanto doutrina política, pode ou não ser adequado, ou mesmo conveniente, para esclarecer a sociedade futura. Interessa-me, isso sim, reafirmar a sua fecundidade na análise do (neo)capitalismo que nos sitia, favorecendo um olhar crítico e indagador quanto à significação da inteligibilidade da sua intrínseca e incontornável contradição. Contradição que, no essencial, assenta, por um lado, na necessidade expansiva e ativa do consumo, visando a intenção cobiçosa e mal disfarçada da busca infindável de mais-valias, sobre fabricando mercadorias, não por elas, mas pelos lucros colossais que assim se geram, enquanto simultaneamente se empenha, no seu absurdo e contraditório movimento, em reduzir o poder aquisitivo dos trabalhadores e deixar de atender a evidentes necessidades humanas e sociais, multiplicando-se em cínicas arengas e ardilosas alegações. No fundo, as crises não são, afinal, mais do que contínuos sobressaltos, uns bem mais dramáticos do que outros, nesta persistente e histórica luta entre o trabalho e o capital ou, melhor dizendo, entre os muitos que habitam o mundo do trabalho e os poucos que se acobertam por detrás do capital e das suas agências. Objetivamente, este combate não permite neutralidades. Então, corajosamente, incomodemos os nossos mesquinhos sossegos: de que lado nos havemos de colocar?

 

 

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quarta-feira, outubro 23, 2013

AS RESSONÂNCIAS QUE SE TEIMAM EM SILENCIAR

CONTEXTOS DE VIDA E A RELAÇÃO CONSIGO MESMO E COM OS OUTROS

 

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Onde não há reciprocidade mora a dominação, o poder de um a vigiar pacientemente a desindividualização do outro. Tudo o que liga este a si mesmo é, subtil e silenciosamente, apresado e governado por aquele outro. Todavia, o retorno é sempre possível. Escutando o som dos rumores indizíveis, sopesando a sombria canseira da solidão e tomando a amargura como o nervo medular da insurgência. Audazmente, assim reinventando a vontade adormentada e, sem fraqueza, fazendo detonar a insistente patologia da triste submissão.

 

              Obra de  Ado Malagoli

                   Retirado DAQUI

domingo, outubro 20, 2013

QUE RELIGIÃO É ESTA QUE REZA O PAI-NOSSO E TEM UNS IRMÃOS À MESA E OUTROS À PORTA?

G88165Frei Bento Domingues, no seu artigo de opinião de hoje no jornal Público (20.10.2013), intitulado De quem é a doutrina social da Igreja? expressa o seu acordo com o atual Papa Francisco quando este não se cansa de repetir que a Igreja somos todos nós, acrescentando todavia que, se assim é, a doutrina social da Igreja terá de resultar das respostas que a pluralidade das comunidades cristãs, situadas em culturas diferentes, souberem dar a antigas e novas perguntas, tais como:

1. Que fizeste do teu irmão?

2. Que economia é essa que tem no centro o culto idolátrico do dinheiro e exclui os doentes, os idosos, os jovens e as crianças?

3. Que religião é esta que reza o Pai-Nosso e tem uns irmãos à mesa e outros à porta?

Frei Bento termina, desafiando naturalmente os cristãos – e não só – com uma oportuna sugestão em forma de uma penosa interrogativa, ou seja, perguntando: [e] se trocássemos umas ideias sobre isto?

Não aderindo aos useiros enredos abstratos de mera contraposição de teses ou de proscrições moralistas de ordem diversa vinculadas a sentenciosos e rotinados aforismos do “dever-ser”, as interpelações colocadas, pela sua natureza entretecida de subjetividades e objetividades várias e em domínios que, embora distintos, se atravessam (1. o valor do outro-eu, 2. o papel humano e social da economia política e 3. a genuinidade da doutrina social da Igreja), as ditas interpelações – dizia eu – apelam, do meu ponto de vista, a uma exigência dialética e crítica necessariamente rigorosa, complexa e continuada.

Nesta linha de pensamento, importa assim reconhecer a crítica como um processo que pressupõe uma compreensão efetiva do que se critica, da tese e do fundamento que a suporta e da materialidade manifesta sobre a qual o criticador, sadiamente inquieto, se possa – na sua empreitada e em consciência – aquietar. O questionamento múltiplo e angustiante formulado por Frei Bento leva-nos, através de um eloquente silêncio, à implícita condenação do egoico individualismo que despreza o outro, da brutal indiferença ante as intoleráveis e excessivas diferenças, da desapiedada incivilidade das desigualdades em crescendo e, como amálgama resultante de tudo isto, Frei Bento reprova, com toda a certeza e igual vigor, a aviltante e progressiva pobreza humana e social, hoje generalizada de um modo humilhante para todos ou quase todos nós. Por mim, as respostas necessárias são essencialmente de natureza político-económica, ideológica e educacional. Todavia, no campo das religiões, espero – ainda assim – que a Igreja, por si, não se fique pelo Pai-Nosso e, sobretudo, não se deixe conformar por uma vexante política assistencialista, abandonando uns irmãos à porta da compaixão enquanto outros se sentam (e bem) à mesa do digno e respeitável ganha-pão. E, não sendo eu crente, acredito porém sinceramente que Frei Bento não discordará de mim.

Nota – O título da postagem foi retirado do próprio artigo de opinião.

sábado, outubro 19, 2013

O CHORO MURCHO DAS CARPIDEIRAS

imagesA representação em Lisboa da Comissão Europeia produziu um relatório que doutrina por si mesmo. Acobertar agora o seu conteúdo, como faz a própria Comissão, fluidificando-o em esclarecimentos formais ou em explicações processuais (ou ainda em trémulos subestimados) mais não faz do que aviventar os seus viciosos pecados.

Num impudente quadro elogioso à atividade governativa, a capatazia da Comissão Europeia, ao carpir o suposto enfraquecimento ou mesmo o derrube do Governo por um eventual chumbo de certas medidas do Orçamento de Estado pelo Tribunal Constitucional e ao duvidar da imparcialidade deste órgão insinuando a presença nele de um possível e adverso ativismo político, torna claro o pano de fundo que a nível da União Europeia almofada em crescendo o modelo neoliberal e sublinha a importância histórica que Coelho, Portas e o irresoluto Seguro têm neste subliminar (mas lastimável) desdobramento. Ponto final.

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domingo, outubro 13, 2013

UMA SOCIEDADE PORNOGRÁFICA APODERADA POR INSIGNES E PÍFIOS BATOTEIROS

 

“Oh! Sejamos pornográficos (docemente pornográficos)”

Carlos Drummond de Andrade

transferirÉ-me bem mais difícil corroborar que a pornografia é moralmente errada quando me confronto com uma sociedade globalmente arquitetada por uma vampírica economia política, sugadora de trabalho vivo e que deste vive tanto mais quanto mais dele se aproveita. Ao condenar-se a pornografia invocando os princípios morais da dignidade e do dano aos outros, pergunto-me: e se em nome da semelhança da relação reclamássemos esses mesmos princípios no juízo que fazemos da sociedade em que vamos sendo compelidos a viver? Se a pornografia não passa (de certo modo) de uma ficção, a vida concreta das pessoas é (todavia) feita de uma outra natureza e verdade bem mais reais e valorosas. Aplicando então o critério da intenção e atendendo aos seus efeitos, diria que a pornografia produz uma primária e compósita excitação enquanto a avidez capitalista ocasiona coisa bem pior e tangível: a exploração e a miséria a quem dela é vítima. Não obstante a indignidade e a obscenidade que em ambas perpassam, quanto a mim, prefiro viver inquietado pela excitação da pornografia do que perecer humilhado ante a baixeza da mancebia dolosa desta outra perversidade que (reinando) nos corrompe e atraiçoa.

Inscrevendo-se inevitavelmente num jogo de relações determinadas, necessárias e independentes da nossa vontade, a vida de cada um não escapa, neste quadro sempre regrado, a uma criação social de um viver intensamente decidido por uma singular e injusta base económica, a partir da qual se acertam, em ajustada moldura dialética, leis e políticas que açulam, e em simultâneo atraem, apetentes e desejáveis formas de consciência assim como receitam conformados e formatados comportamentos e, sem virtude, ordenam possibilidades e oportunidades. Pela sua extensão e desumana profundidade, a crise que hoje se vive constitui uma ocasião histórica para trabalhar uma mudança fundamental na dormente subjetividade social de modo a subverter a ordem institucional que qualifica a hegemónica organização desta atual e deprimente ordem (neo)capitalista. A adveniente consciencialização social e política necessária à mudança também passa por aqui, ou seja, passa por reconhecer que a compreensão da ação individual no seu quadro sistémico não pode deixar de valorizar a subjetividade como uma força de produção humana realmente capaz de insubmissão ao domínio do imediatismo instrumental deste batotar insistente do capital. Na escalada das obscenidades, um corpo nu grosseiramente exposto pode ser obsceno. Todavia, uma sociedade escaveirada na sua dignidade, despelada nos seus direitos e despida nos seus sonhos é tragicamente uma sociedade que entranha na mais infeliz das obscenidades a sua intrínseca pornografia.

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