domingo, julho 22, 2012

O DIABO DO BISPO EM FIGURA DE GENTE CAUSOU FERNICOQUES

 

PachecoEstou aposentado, e para quem ainda não deu por isso, carrego comigo a atendível responsabilidade de uma estimável superioridade. Quando fico capaz, depois de ter estado achacado, já não pergunto ao médico se posso no dia seguinte ir trabalhar. Apenas cuido de vivificar a vida dando largas à minha boa ou má disposição com as asas da liberdade recuperada. Não escapo à presa do achaque para impreterivelmente me enfiar num diferente padecimento a que se chama trabalho, suportando gente enfermiça que está porventura convencida do contrário. E como estou felizmente bem de saúde, cá vai…

Ora, o presente quadro de graça associado a este desimpedimento para a liberdade suscita, para quem dela saboreia, como é o caso, naturais e sadias insolências que convém habilmente abalançar para cativar a estima que interessa e arredar a desinteligência que agasta. Num livro há tempos lido, o autor citava um poeta romeno do século 19 que, não assegurando exatamente isto, me estimulou a testificar que as pessoas que prezam a vida em liberdade cometem mais loucuras do que as pessoas que se regem pelo impulso da razão conformada e cinzenta, alertando (no entanto e de imediato) que as insânias destes últimos, soturnos e fastidiosos moralistas, são sempre bem mais graves, peçonhentas e perigosas.

Em consonância com o poeta, tenho para mim que a prática difusa do politicamente correto se abastece sobremaneira no lado pardacento das razões convenientes. Por isso, este correto político autoriza ardilosamente que se diga não, embora nos limites óbvios e espremidos da elegância flutuante e acertada do profícuo peso-conta-e-medida. O que provavelmente muita boa gente não se apercebe ou não capta é que esta louvada cortesia proíbe que se diga não ao que ela patrocina não ter escolha. Ora, os prezadores da vida em liberdade, os tais dos atrevimentos e dos excessos, numa insistente e saudável experiência de impedir o sequestro da sua subjetividade, transformam o ser do não interditado por um outro ser do não; o não do resgate, porventura da transgressão e repetidamente da inconveniência.

Note-se todavia que a interdição folga, mais do que se presume, no cálculo de uma antecipada razão que, na intimidade da sua vontade bravia, enjeita sensibilidades e abomina emoções, sobretudo se as pressagia intrínseca e genuinamente humanas. É no silêncio deste deslizar melodioso da interdição para o arbítrio da incriminação que a panóplia dos poderes e das suas grotescas figuras tratam de aclarar os marcadores da apetecível ordem discursiva e definem os seus limites. E é igualmente na prolongação desse comedimento, aparentemente inócuo, que a forma e a substância do que se diz passam pelo crivo do mimetismo impercetível das relevâncias. A forma e a substância perdem o pé à sua verdade (e ao seu sentido) e passam (deste modo) a valer pelas consequências do que é conveniente. O Padre Manuel Morujão, da Conferência Episcopal, tem toda a razão; o que importa é que se fale verdade. E o Bispo Januário Torgal Ferreira vozeou a “nossa” verdade, apesar dos desagradáveis fernicoques causados ao ufano Aguiar e à pedante Avilez, entre outros solícitos papagaios. Bem haja, senhor Bispo.

quarta-feira, julho 18, 2012

O ASSASSINATO ECONÓMICO DE BRAÇO DADO COM A VIGILÂNCIA CORRETIVA DOS CHACAIS DA CIA

 

cny_cia_cia_db[1]Jornadeando pela FNAC, abalancei-me a adquirir um livro de Santiago Camacho intitulado “a troika e os 40 ladrões”. O autor é apresentado no verso da capa como escritor e jornalista cujos escritos têm como denominador comum a denúncia e a polémica, o que em si logo me arrepanhou. Acresce (no entanto) que os seus temas prediletos afinam, pela suspeição, com alguns dos meus, ou seja, o das regiões heréticas das sociedades secretas, dos serviços de inteligência e das teorias da conspiração. Contudo, confesso que o crivo do índice foi para mim o decisivo safanão motivacional para a sua aquisição mais do que o afadigado e reiterado conteúdo da apresentação inserto na contracapa. “Os truques sujos”, entre outros, excitou de imediato (e libidinosamente) o meu desejo abespinhado em tragar os malandros da sujeira.

O texto acusativo das patifarias apresenta-nos um homem de nome Jonh Perkins que, nas suas “ Confessions of na economic hit man”, historia como é que através de uma associação/firma de malfeitoria/consultoria (Chas T. Main) se formou e se promoveu em assassino económico. Ele próprio esclarece que este tipo de criminosos são “profissionais altamente remunerados que lançam armadilhas de milhões de milhões de dólares aos países do Mundo. As suas ferramentas de trabalho são relatórios financeiros fraudulentos, manipulação de eleições, subornos, extorsões, sexo e assassínio”.

Numa leitura apressada, e em apenas meia dúzia de páginas lidas, apurei que Perkins perseguia nas suas incumbências profissionais confundir os países mais pobres com enormes somas do Banco Mundial e do FMI com a garantia certa de que essa abundância era para aplicar em projetos investidos em companhias norte-americanas. A esta impiedosa caução, pelos vistos, outras exigências se anexavam materializadas num outro tipo silencioso de proveitos em domínios como o dos recursos naturais do país, da cooperação militar e de apoio político. Mas, e o que acontecia aos dirigentes que não aceitavam, pergunta Perkins, espicaçando a curiosidade salivante do leitor?

Perkins, dá-nos então conta dos casos dos teimosos e embirrentos presidentes Jaime Roldós (Equador) e Omar Torrijos (Panamá). O que lhes aconteceu? Morreram ambos de acidentes de avião. Todavia, não fossemos nós cogitar candidamente numa possível casualidade, Perkins esclarece que as suas mortes não foram acidentais. E acusa; os presidentes Roldós e Torrijos foram assassinados “porque se opuseram a essa fraternidade de corporações, governos e elites bancárias cuja meta é o império global”. E vai mais longe, completando; quando os assassinos económicos falham, há outros atrás deles que levam a cabo a tarefa. São eles, diz o penitente Perkins, “os chacais da CIA”. Tal e qual…

domingo, julho 15, 2012

O DESFASTIO QUE É ALFINETAR ESTA (DES)ORDEM

 

RETICENCIAASAnte novidades avistam-se continuada e diligentemente grandes males e imaginam-se, com apressado cálculo, dificuldades invencíveis na presença sempre temida de atrevidas propostas e ousados projetos. Deste modo, danos vindouros e embaraços antecipados convocam o irreprimível sobressalto diante da estranheza do possível emergente. Prefere-se, assim e em silêncio, a certeza prática do que é e está, fazendo falar a voz das suspeições seguras da incerteza. Tudo isto, a propósito de uma revolução digital que angustia pelas perplexidades que se agitam no bojo do seu mistério.

Fazendo da modéstia virtude sincera, direi que a minha incipiência no âmbito do digital, não me aconselhando a impertinência, autoriza-me (no entanto) a sancionar o otimismo nas tecnologias repulsando o(s) poder(es) do seu mau uso. Daí, o meu tímido mas persuadido alvitre sugere que se espie sagazmente os impactos admitindo, sem reservas, a bondade dos projetos feitos de finalidades claras e esclarecidas. Em particular, convicto de que as tecnologias digitais são também tecnologias intelectuais, capazes de engrandecer a esfera da comunicação e o espaço do saber incómodo, vou – cá por mim – “gritando” e “argumentando” em paz com a linha editorial do blogue.

Por isso apregoo que os tabus sempre me seduziram, a liturgia das circunstâncias cada vez mais me chateiam e não deixo de execrar, a todo o tempo e profundamente, o privilégio da fala concedido aos perpetuadores da ordem convencionada. É no alcance destas resistências primitivas, hoje mais primeiras, que vou recuperando verdades esconjuradas mas precisas à disputa urgente da valiosa e útil transparência das ideias. Reabilitar o expulso, dando voz ao interditado, é intentar dizer o que não foi dito totalmente ou não pôde, de todo, ser dito na conveniência histórica ou circunstancial de uns poucos.

Muitos são os temas que encrespam relações e sociabilidades. Como exemplo, a política, a sexualidade e o futebol inscrevem-se nesse universo de permanentes zangas sociais e não só. Mas se as fissuras feitas de diferenças no futebol fazem jeito à ordem das coisas, as diferenças na política e na sexualidade são coisas que, ao invés, atrapalham a conformidade dessa mesma ordem. Assim, se no campo do futebol se animam as diferenças alimentando a rixa, nas regiões da política e da sexualidade, pelo contrário, impõem-se limites ao vigor das suas diferenças. Os poderes têm destas obstinações; suportam bem a democracia das diferenças com a hábil  mas silenciosa condição de o verdadeiro que delas possa advir não derive e desalinhe o que está conveniente e previamente traçado. Alfinetadas? Precisam-se e muitas.

Imagem retirada DAQUI

sábado, julho 07, 2012

JOGO COMBINADO OU JOGOS QUE SE COMBINAM?

 

9789723219012O veredicto do Tribunal Constitucional aparenta ser o que não é. E o que é, é verdadeiramente inquietante. Não quero aqui discutir a decisão nem tão pouco interpelar os seus fundamentos. Apenas e tão-só desejo destacar a secreta funcionalidade política do (des)acordo burlesco entre a comprovação e o voto. Mais claramente, gostaria de relevar e realçar a dissonância kafkiana de fazer valer o inconstitucional. Não ad eternum mas com o agravo acrescido de amigar-se a tese com a sua negação apenas por um tempo estimado conveniente. Se absurdo não é, como decifrar a heresia?

Ao inverso de muitas vozes, desconfiado e cético como sou em matéria de governos embrulhados e de tribunais amistosos, o inconstitucional suspenso, não mudando as coisas, acredito que põe mais a jeito o estado das coisas. Aborta possíveis incompatibilidades e força a imperativa concordância que sobrevêm da supletividade dos ilogismos (do Governo e do Tribunal). Há lazeira de uns acomoda-se (assim) a vontade de outros tantos na devoração do desditoso. Com o aprazimento da judicatura e a vulpina fixação dos mandantes a ameaça soergue-se avigorada em vértice argumentativo e justificativo.

Mas a verdadeira bravata, essa, já se transfigurou numa silenciosa embora desvendada violência democrática. As adesões necessárias (e sobretudo as profícuas) vão-se gradualmente descolando, a ritualização patética das justificações já não enternece e o seu perfume moderador foi-se melancolicamente dissipando. Remanesce, como é óbvio, a fúria do instituído sob a capa da respeitabilidade e da responsabilidade dos seus artistas e das suas arengas. Aquilo que parece ser conflito não é. Trata-se apenas de um fantasiado arrufo à espera de mais intensos fulgores.

Joga-se na finta política, pratica-se a intrujice jurídica e encobre-se a coação arbitrária. Os juízes, que eu saiba, têm por função impedir a violência e não desta fazer parte. O Governo, ao fazer de uma regra absoluta uma verdade evidente, aliciou os persuadidos constitucionalistas. Não da regra naturalmente mas da insondável verdade merkeliana. Como se sabe, o pensamento argumentativo e a ação que ele ajeita estão visceralmente enleados. Se a ação se combina (não obstante os argumentos dissemelhantes) é por que estes (os argumentos) no necessário se completam. É isso, se completam. O futuro o dirá.

domingo, julho 01, 2012

DESENFARDAR A CONDIÇÃO DE SER

 

FOTOComo me deleito, por vezes, passeando o meu olhar dos centros para os arrabaldes, dos meios para os seus contornos, do medular para o contíguo. Clareando racionalidades que me são afastadas, desfeiteando as razões que me afadigam e libertando muitas das minhas loucuras recalcadas. Enfim, aproximando-me do expulso, privando com o minoritário, observando o divergente e enfrentando o ameaçador.

É isso. Olhares que me levem ao outro lado da minha história, aos lugares que me fizeram (e onde me fiz) mas não compuseram o essencial da geografia dos meus pensamentos. Olhares que esgravatem as insuficiências de experiências imperfeitas vivenciadas no desabrigo dos limites e tentadas no desconforto das fronteiras. Importa chegar lá. Ver e dizer coisas diferentes, possivelmente outras, para descobrir um saber distinto advindo dos lugares diversos desse outro conhecer.

Pensar o que penso (e sou) compromete-me a desandar no tempo e dar alma – não aos lugares – mas às circunstâncias que se fizeram marcas indeléveis desses meus lugares. Mais do que uma disposição, cuida-se de uma meticulosa arqueologia em que esquadrinho vestígios sumidos na consciência insatisfeita do que sou. Quero assim ser mais, mais nítido (sobretudo aos meus olhos) e, se forçoso, diferente de mim mesmo.

Olhares que me abram espaços de liberdade inventados pela pertinácia de quem se procura num diário partilhado de zangas e de teimosias afortunadas. Liberdade que me (e nos) retoca no pensar e me (nos) muda nos gestos em rota com outros. Olhares e liberdade que demudam sociabilidades outras que crescem de afetos e sensibilidades e que se adicionam e completam no húmus de um espírito reabilitado. Poderes que se descortinam surdos e intrusos na sorte dos desconhecidos que afinal contam. Uma nova possibilidade de pensar a cultura (e a vida) e sondar os espaços que definem e me devem (por inteligência e integridade) socorrer à reinvenção do meu humano.

Foto retirada DAQUI

quinta-feira, junho 28, 2012

OS MEDIA NÃO SERÃO HOJE UM PROBLEMA DA E PARA A DEMOCRACIA?

 

36.0.posConfesso que já não sei para onde me virar neste tempo de um jornalismo tão bravateado quanto intimidado. Se o campo político o constrange, os interesses empresariais enquadram-no. Neste afetuoso bambolear o poder mediático vai-se instituindo. Sintomas seriamente inquietantes por anunciarem uma crise abominosa por intrínseca na sua natureza. No fundo, sinais de uma crise de legitimidade do jornalismo e, por rastejamento, dos próprios jornalistas.

O poder mediático surripia ao jornalismo, mas não tanto aos jornalistas, a desejável e necessária discrição, acomodando-se matreiro no centro do debate e, manhosamente, oferecendo palco aos seus artistas. O vedetismo, deste modo animado e requerido, convoca a distorção natural de fronteiras. A opinião e o comentário confundem-se e entranham-se na competição feita de sombrias manipulações e grosseiros compadrios.

Igualmente, e com uma docilidade arrepiante, os valores éticos submetem-se às habilidades do jogo das concorrências. As tragédias são miseravelmente exploradas, a agitação das almas avivadas e o folclore mediático exponenciado. A busca das audiências faz-se então meta, não dispensando com uma frequência inusitada, os lamentáveis recursos à patética dramatização e à torpe emoção. A informação incapaz de comunicar, transforma-se numa mera mercadoria desprezando a sua utilidade histórica na satisfação de necessidades sociais e coletivas.

Posterga-se, deste modo, o respeito pela liberdade de informar e encobre-se a verdade no disfarce de uma aparência arquitetada objetividade. Os limites da informação, da adulteração e da propaganda dissipam-se pela sua incomodidade e impedimento aos intentos indizíveis. O rigor e o exato dão lugar à inverdade (ou mesmo à mentira), ao embuste e ao espetáculo. Os factos, as opiniões e os comentários sucedem-se sem critério. A profissão corrompe-se ao desnudar os acontecimentos do seu significado e importância social e político.

O apelo à deontologia torna-se mera ingenuidade ou (tão-só) bandeira estratégica e cínica de quem pretende atrás dela se acobertar. Os valores da neutralidade, da conformidade e da objetividade são tão calcados quanto mais anunciados. A má consciência, servindo-se da nobreza das palavras, procura que estas cumpram a função de ocultação do gesto indevido. Os media, de instrumentos essenciais à democracia, tornam-se assim, muito provavelmente, um problema da e para a própria democracia. A sociedade da informação e o novo capitalismo têm muito que se lhe diga. O exercício do jornalismo sério sai prejudicado e a democracia profundamente lesada. A vigilância crítica e a denúncia permanente constituem-se (assim) em deveres inadiáveis de cidadania. Exercitemos então…

sexta-feira, junho 22, 2012

… COM OS “TOMATINHOS” NO LUGAR

 

CARLOS MAGNOO povo mais atento ao alvoroço entre o proeminente Relvas e o jornal Público, mas igualmente cético em relação à serventia da Entidade Reguladora para a Comunicação Social – ERC, nada aguardava de quatro dos seus elementos, dois deles servidores políticos do PSD e os outros dois do PS. A expectativa da imaginada dúvida estanciava, então, na suposta independência do senhor Presidente, de nome Carlos Magno.

Deste modo, neste antecipado quadro de empate instituído, nada de especial se esperava a não ser a posição do senhor Presidente. Colado à súcia do PSD ou encostado à conveniência ardilosa do PS, era apenas uma curiosidade insignificante e politiqueira. O que importava realmente saber não era propriamente a decisão – pela súcia ou pela conveniência – mas qual seria o teor da astúcia do (seu) fundamento. Carlos Magno não dececionou. A sua habilidade em se embuçar atrás das palavras é por de mais reconhecida.

Inaceitável significa, penso eu, que não se pode aceitar, que é inadmissível ou mesmo intolerável. Ilícito, significa (tão-só) que é contrário à lei, proibido ou mesmo ilegítimo. Dizer que é inaceitável mas não é ilícito, traduz à partida que a lei não interdita o inaceitável e, por desguarnecimento, faculta (com a sua taciturnidade) o insustentável. Em jeito de desfecho, os “relvas políticos” deste pobre País podem ser execráveis desde que dominem (a preceito) a languidez das fronteiras entre ilícito e o inaceitável e, sobretudo, a plasticidade mimética dos seus intérpretes.

Os mercados da economia e da política (sim, da política), nos tempos que correm, inspiram copulados um processo escabroso (inaceitável mas lícito) de mercadorização claustrofóbica das sociedades. No nosso País, o chico espertismo ativa, com uma particular sagacidade, a panelinha de um certo jornalismo ordinário que faz da chulice seu modo de vida e da informação uma mera e útil mercadoria. De facto, o pensamento e a consciência não definem, por si, a grandeza do homem. A superioridade deste exige mais. Exige que o pensamento e a consciência, enquanto meios, saibam criar e realizar valor(es )… com os “tomatinhos” no lugar.

quinta-feira, junho 21, 2012

EMBORA APÁTRIDA, PORTUGAL QUE GANHE

 

4485222_700b_thumb[2]A ocorrência do futebol limitado à fronteira dos clubismos é bem diferente do acontecimento-futebol forrado com a camisola das quinas. Os adeptos não são exatamente os mesmos, os de sempre tornam-se diferentes, as identificações ganham novos rumos e os discursos patéticos e ferrenhos daquele primeiro universo dão lugar à vivacidade dos grotescos nacionalismos deste último.

Se algum clube da nossa paróquia ganhar uma competição internacional, o suposto orgulho nacional (que ferverosamente escolta o “clube da nação”) parece volatilizar-se em três tempos. A parcela aparcela e desfaz a identificação fundadora do orgulho que se revira no seu contrário. O argumento da paixão (que é o futebol, diz-se) tudo explica, justifica e assim (silenciosamente) autoriza os pensantes a adormentarem a exigência da relação coerente. Tudo bem até aqui, não fosse a desproporção do ilogismo.

Tudo isto, porquê? Ouvindo o previsível Paulo Bento, em resposta aos seus supostos maledicentes, sinto-me (assumo) um apatriota por exclusão. O dizer absoluto de Paulo Bento declina a impassibilidade uma vez que no lugar-comum por ele vozeado parece não haver oportunidade para a distância. No fulgor mediático do delírio patriótico, acicatado (digo eu) por enredos sombrios e rivalidades confinantes, Paulo Bento parece igualmente reclamar (pela veemência e conteúdo do seu discurso) que se tome partido. Ou se está a favor ou se está contra a seleção, como se seleção, país e nação fossem simples duplicatas.

A simplificação cénica da sua suposta modéstia, a argumentação exacerbada da trivialidade exposta e o descomedimento de uma reiterada coragem advinda do seu elogiado (mas discutível) pragmatismo constituem alguns dos ingredientes que dão à comédia do comentário jornalístico e mediático um (in)devido espaço e uma aparente credibilidade aos seus principais atores (ou detratores, não sei bem), construindo-se (assim) a lastimável comicidade dos grandes efeitos desabrochados de pequenas e torpes causas. Para tal, conta-se com a competência dos comediantes. Enfim, o óbvio; o mundo do futebol (sobretudo o que ao redor dele gravita) não pode ser melhor do que a sociedade em que se vive. Uma evidência…

segunda-feira, junho 18, 2012

A INSCIÊNCIA PEDAGÓGICA DA COMPETIÇÃO

 

A cultura da competição desdenha a cidadania democrática e, por congraçamento, atravanca a educação crítica, participativa e argumentativa. Daí, as loas a uma educação afinada às mendicâncias concretas da casta económica e aos alcances que as acautelem. Assim, ideologicamente e em posição hegemónica, faz daquela a educação imperativa e, por oposição, desfeiteia uma outra qualquer pelo atribuído e imaginário diletantismo e facilitismo.

A democratização social e económica, não isentando a escola, mostra que esta exibe, ante tal intento, a sua reconhecida e confessada insuficiência. A possível ingenuidade na falsa crença incorpora simplismo onde importaria inscrever rigor, ousadia e comprometimento, ou seja, um empenhamento arraigado na complexidade relacional do social e do humano e decididamente aventurado no seu apaziguamento.

A prevalência do económico sobre o pedagógico fabula e pavoneia uma outra categoria de rigor, cujo ofício não é o do apaziguamento mas o de aclimar o conflito da artificiosa diferenciação. Receando a insubordinação, a ordem deita então mão à burocracia, aos exames e a outros julgamentos, solicitando que aquela vigie a disciplina e estas moderem o essencial irrevelável da arbitrariedade nela hospedada.

A escola, a educação, pode não transformar o social; o que pode e deve é opor-se à sujeição da divisão que multiplica a iniquidade. A neutralidade aduzida não convence ninguém mas muitos dela se servem para nela acobertarem sobressaltos e espantarem responsabilidades e cidadanias. Não há futuros traçados. Existem apenas possibilidades de dar uma outra forma à condução do nosso viver. Com mais justiça e humanidade, por um mundo mais solidário.

Imagem retirada MURAL DOS ESCRITORES

quinta-feira, junho 14, 2012

DEIXE EM PAZ O SEXO DOS OUTROS, SENHOR NARCISO

 

c7a77828A referência presunçosa ou o proveito ideológico à divisa de uma sexualidade normal eflui de uma suposta e genuína ideia certa de Natureza Humana. Desta segurança indubitável (convicta ou farsante) segrega-se a (pre)disposição profícua da contranaturalidade, esgarçada pela tradição judaico-cristã através do pecado e da moral por este nomeada. Será que o animal, dado como exemplo, dá-nos a lição da união devida e conduz-nos (superiormente) à recusa da indecorosa perversão que é a homossexualidade?

Em tempos, não muito recuados, o Direito, de braços curtos e cabeça definhada, procurava assim abarcar e pensar o homem constrangido à tal natureza decretada, inventando os desvios e as palavras que teriam a função de apontar e chibar os pecantes e os pervertidos que, por doença ou crime (qualquer outra alternativa não se pressentia), violavam as leis da natureza. Mas surpresa das surpresas a dita Natureza, pela sua grandeza ontológica e relacional, não se deixou agarrar por tão tacanhos braços e, sobretudo, socializar-se por definitivas injunções de acefalópodes que traem a inteligência da sua própria natureza.

Narciso Mota ainda está, na melhor das cenas, no patológico do patológico no que toca à homossexualidade, pese embora se deva reconhecer a sua louvável benignidade social-democrata quando sugere a cura mas já não reclama a prisão. Todavia, narcisos há muitos, designadamente no palco político dos rústicos narcisismos em que os próprios se mostram em desfavor da sua função de representar e do respeito que devem aos representados, a todos e não apenas a uns poucos.

Pois bem, senhor Narciso. Se me permite, dir-lhe-ei que desde o tempo de Freud que múltiplos académicos e especialistas vêm mostrando à biologia, à moral e à religião que a sexualidade humana é mesmo perversa – os conceitos têm uma genealogia que importa atender – na exata medida que a pulsão sexual não tem um objeto específico, único e muito menos previamente determinado sob o ponto de vista biológico. A homossexualidade (tal como a heterossexualidade) constitui uma postura libidinal identificatória e instituinte de uma historicidade própria e indestrutivelmente legítima. Senhor Narciso, com as responsabilidades que assume, traga para o debate público as verdadeiras questões éticas e sociais e deixe em paz o sexo dos outros.

sábado, junho 09, 2012

“CHEGO A CASA, TOMO BANHO, SOU OUTRA PESSOA”

 

Título retirado de um testemunho de um operário, inserido no artigo em apreço

operarios__Tarsila_thumb[1]O sociólogo Bruno Monteiro, no Le Monde Diplomatique (edição portuguesa do corrente mês), num artigo intitulado “Armar estrondo”, escreve a respeito da forma como os jovens, enquanto novos operários, se apresentam perante a comunidade na sua relação com as marcas sociais por eles supostamente vividas “de invisibilização, inferiorização e desqualificação” e que (experiencialmente) tramam os seus sentimentos enquanto pessoas. Trata-se de uma temática relevante com múltiplos desenvolvimentos e ramificações possíveis.

Nele se referem os tópicos das marcas de classe, dos sentimentos de inferioridade e do valor funcional das aparências, não ignorando (como é natural) o quadro social e cultural das seduções, das incitações e dos arrebatamentos atuais na sua relação com o “consumo, a novidade e a aparência”, designadamente junto dos jovens operários. Neste entrelaçado de tópicos, procura-se suscitar indicações para a compreensão de comportamentos (discursivos e de atuação) através de “usos diferenciados e diferenciadores” de estratégias por parte daqueles que não se apaziguam à tradicionalidade da envolvência oficinal.

Ao espaço do trabalho opõe-se, em jeito de rutura, um outro que (por rivalidade) desobriga e liberta, todavia pelo conflito e não pela afirmação, o que (como é óbvio) importa diferençar. Neste se intenta então a reparação “por práticas derrogatórias dos vestígios físicos e estatutários impostos pelo trabalho fabril sobre a carne”. Com a permanência da revolta sempre inquieta, os “danos físicos e psicológicos da fábrica” fazem-se sentir suscitando a indispensável regeneração de um corpo e de um espírito “maculado” pelo mundo do trabalho. Inventam-se, a partir daqui, “tentativas de inversão ou de suspensão da dominação” de forma a encobrir (em público) “os sinais caraterísticos da condição operária”.

Na emergência da reinvenção a fazer-se (e sentida como essencial), ganham maneiras imaginativas as “formas de autoapresentação” percebendo-se da importância que “os gestos, as poses ou as palavras” têm “como sinais de reconhecimento e pretensão”. No entanto, a naturalidade (sobrepondo-se à teatralidade encenada) deixa por vezes escapar algumas revelações que, “despidas de intenções deliberadas e programadas”, possibilitam a crueza dos “veredictos sociais, (dos) julgamentos sobre a verdade de alguém e, (muito provavelmente de) uma sentença sobre o seu destino”.

É desta (e nesta) permanente disputa (onde o ser se busca no parecer e se soltam as imagens, os investimentos e os eufemismos) que o ter procura (aí, na agitação dessa desordem) um estatuto (in)devido. Surgem assim as “práticas de estilização dos jovens operários” num mapa diverso que se alarga em tentativas de reinvenções admitidas, sejam elas “exageradas”, “falsificadas” ou “desgraciosas”. Importa aparecer, ser visto, ser reconhecido, sair do anonimato da fábrica e da sua severa condição, um propósito (aliás) bem legítimo de se sentir considerado.

Ao invés, há quem adote a inferioridade social como destino, construindo (através dessa disposição ou aculturação) uma traiçoeira naturalização que, para além de sustentar o surgimento de quadros relacionais de indiferença e de desqualificação, acrescenta à realidade o incremento equivocado de “sentimentos de auto irrisão e autopunição”. Os sinais visíveis daí decorrentes, sejam eles de embaraço, de desconforto ou de inadaptação, acabam assim por confirmar as representações de inabilidade e de insociabilidade “que antecipadamente possam ter sido criadas sobre eles”.

Muitas pistas de reflexão se colocam através do texto aqui referido. O problema da autoapresentação como mediação é um deles e com a convocação deste muitos outros são suscitados, tais como as questões da imagem, da afirmação e da legítima consideração social. Vive-se hoje um tempo de escolaridades prolongadas e de tardias entradas no mundo (da fábrica e) do trabalho. Habita-se uma sociedade de forte apelo consumista, onde o consumo (também) cumpre a sua força e presença sublimativa. As tentativas de estilização das vidas e dos sentimentos constituem, nesta trama, realidades possíveis de “resistência à desqualificação simbólica”. Sem ambição de superiores juízos de valor ou políticos, a questão terminante mantém-se; como lidar (valorizando) esta condição operária, ou melhor, a condição operária sentida como inferior.

sexta-feira, junho 08, 2012

A PACIÊNCIA É UM RECURSO E, COMO TAL, TAMBÉM SE ESGOTA

 

DemocraciaOs valores democráticos não se inscrevem apenas nesta ou naquela democracia nem tão pouco na ritualização dos seus discursos laudatórios. Mesmo no abstrato, direi que as democracias valem pela democraticidade que lhes dá vida e, nesta perspetiva, as suas legitimidades devem reconhecer-se na materialização dessa magna exigência. A minha profunda convicção, arreigada nesta simples ideia, leva-me a manifestar com todo o vigor que não sou, não quero ser e tudo farei para que muitos outros não se sintam no dever moral de serem democratas nesta forma política obscena, viciosa e espessamente mercantilizada.

Leva-se os cidadãos a expressar vontades e intenções para de imediato, através da mediação de múltiplas representatividades habilidosamente formalizadas, desdenharem estas a favor de um outro tipo de lógicas e de interesses que, de modo resvaladiço, escapam à instigação de um imperioso escrutínio público informado e esclarecido. Quem é democrata sabe que a fertilidade da democracia não carece de mascaradas técnicas de reprodução artificial, empregando (é o termo) barrigas de aluguer que, sem qualquer recato, petulante e impropriamente aparecem a reclamar, como suas, legitimidades em si (e por si) irrefragáveis.

Fazendo da economia coisa apolítica, o segredo exibido converte assim vontades expressas em sarcásticas sujeições lógicas e, matreiro, o segredo descobre ainda e enaltece depois paciências e compreensões umbráticas tudo em nome do povo, não do seu presente (claro) mas de um futuro (in)certo que há de vir. No fundo, são estas as singelezas (entre outras) do chamado Estado democrático moderno onde as numerosas máquinas que fazem política, apadrinhadas pelo conluio dos seus amigáveis aparelhos partidários, esgotam e ensecam as democraticidades, reinventando manipulações e expropriando cidadanias.

Assim, meus amigos, se esta democracia não se ajusta, importa esperar (sem espera, como diria Derrida) por uma outra, embargando a que, como a atual, pelas razões experienciadas, não serve. Fazer acontecer esta interrupção é uma necessidade, é uma urgência, é um ditame que se espera pela mobilização ativa e não expectante de um povo que quer (e luta por ter) um futuro, apropriando-se da sua marcha, construindo nele uma nova ideia de justiça e de democracia. Talvez revolucionando a democracia e, por que não, a própria ideia de revolução, lembrando sempre que as democracias valem pela democraticidade que lhes dá vida e lhes confere legitimidade e dignidade.

quarta-feira, junho 06, 2012

O BIG BROTHER EDUCATIVO

 

Uma omnipresença autoritária e controladora mas encoberta e biliosa…

Sobre o Despacho normativo n.º 13-A/2012

Despacho normativo que concretiza os princípios consagrados no regime de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos públicos da educação pré -escolar e dos ensinos básico e secundário.

marioneteComeço por afiançar com a toda (a minha) certeza pessoal que transcorre de uma vida profissional atribulada (mas inteira) dedicada ao ensino (e à sua causa) que os que mais se inquietam com os alunos são, sem qualquer  vacilação, os seus pais e as suas famílias (embora nem todos ou todas), a seguir sobressaem os professores e as professoras (igualmente nem todos ou todas) e, no fim da fila, espreitando em ziguezagues o espetáculo dos deslizes e das fendas, os políticos (e estes, infelizmente, quase todos) acompanhados pelos ecos múltiplos dos inúmeros bonecos mediáticos que nos ocupam a casa em forma de gente douta e experimentada.

Sobre o anúncio (em jeito de pregão) do presente despacho que “visa estabelecer os mecanismos de exercício da autonomia pedagógica e organizativa de cada escola” não posso deixar de rememorar (por precaução) que, ao longo da minha alongada cidadania profissional, a contenda da autonomia foi sempre, após o 25 de Abril, tema obrigatório (logo, recorrente) das agendas políticas da trintena de ministros da educação que com ele (o tema) se entretiveram e divertidamente nos enfadaram. Logo, não estamos perante qualquer novidade e, justiça seja feita, se melhor atendermos à expressão colada no despacho agora apresentado percebe-se que não se sustenta qualquer estranha inovação mas tão-só a jactância de precisar (como convém à metáfora do estilizado rigor) os mecanismos do seu exercício.

Em tempo de vacas magras, a retórica do “incremento de autonomia” converte-se em arte de logração ao reclamar autoritariamente que “cada escola se (deve tornar) mais exigente nas suas decisões e (estabelecer) um forte compromisso de responsabilização pelas opções tomadas e pelos resultados obtidos”. O discurso soa bem e melhor ressoa quanto menos se interpela a natureza das decisões, das opções tomadas e dos resultados que se procuram. Contudo, o “forte compromisso de responsabilização” sempre vai advertindo, por solidariedade com os incautos, que os tais imperativos de “concretização da autonomia pedagógica e organizativa” exigem “decisões sustentadas pela escola”, “condições por parte desta para as concretizar” e, como não podia deixar de ser, “recursos e uma boa gestão destes”.

Para qualquer pessoa que disponibilize os seus mínimos (de seriedade, de atenção, de conhecimento e de empenhamento intelectual) percebe que o traje que a escola é convidada a vestir não é propriamente um fato-de-ver-a-Deus mas (apenas e tão-só) um outro indumento padronizado angariado num qualquer mercado a retalho (vulgo e sombrio outlet). De uma só vez – pensam os nossos presumidos e inteligentes governantes – papa-se uma cambada de idiotas, uns que querem ver os filhos doutores, outros que em vez de trabalharem recreiam-se nas pedagogias. Deste modo e doravante, a escola para mostrar a sua habilidade e não expor a sua inépcia, vai ter de se adaptar ao generoso e sublime fato e com ele mascarado serigaitar aos “ritmos próprios no desenvolvimento (possível) do seu trabalho”.

Mas a rábula não tem fim e vai continuar. Crato e Companhia querem (com esta magnânima visão da escola do futuro) resguardar “a necessária unidade a nível nacional (incentivando) a liberdade das escolas para concretizar a promoção do sucesso escolar dos alunos e dos objetivos educacionais fundamentais”. Crato e Companhia mostram assim que fizeram o que deviam ter feito e as consequências terão de se declarar, aos olhos dos mais distraídos, naturalmente óbvias; o insucesso futuro dos nossos jovens será da responsabilidade das escolas, dos professores e, sobretudo, dos alunos e das famílias. Aliás, na linha mais geral das cabeças destes lacaios políticos (e dos interesses que servilmente prestam) emerge como tonalidade ideológica a insidiosa e cautelar culpabilização individual escoltada pela correlativa desresponsabilização política e social daí advinda. O desempregado se o é, é porque não tem formação, não é empreendedor ou não sabe (ou não quer) aproveitar as oportunidades. O descarte neoliberal é tão simples quanto isto...

Prometendo voltar a este tema esgravatando as normas da peça em apreço, conteúdo esse que verdadeiramente lhe confere significado, finalizo expressando convictamente que, ao contrário do que afirmam Crato e Companhia, os órgãos de administração e gestão das escolas não veem, com este despacho, reforçada a sua autonomia. Assumem (isso sim) responsabilidades acrescidas que não lhes pertencem nas condições em que aquelas são impostas e, sobretudo, transfiguram-se em comoventes marionetas deste esquema neoliberal que nos últimos anos tanto tem agredido o campo público da educação. Mas não haja ilusões; a agressão à educação é deliberada por que servem os interesses estratégicos de quem tem toda a conveniência em aprofundar e reforçar a dualização social (pre)dominante. Não cuidará com certeza dos interesses e das necessidades de quem nessa dualização não se revê e contra ela reage e, em coerência, contra ela luta.

quarta-feira, maio 30, 2012

É PRECISO TER LATA E NÃO TER …

 

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O estudo que o atual Governo solicitou ao Instituto Superior Técnico sobre a avaliação do desempenho no mercado de trabalho dos adultos participantes em processos de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC), é claramente uma logração se tivermos em linha de conta a apetecida indução de se aferir (e inferir) a (e da) qualidade do referido processo na sua relação com a empregabilidade e a respetiva progressão salarial.

Como avaliador externo considero afrontoso que um Governo, em vez de explicar claramente ao povo português as razões profundas do desemprego (que tem vindo a crescer assustadoramente neste últimos anos), faça baixa política com as Novas Oportunidades (NO) procurando desqualificá-la de um modo tão grosseiro e indigno, desprezando todos(as) quantos(as) as têm servido e, sobretudo, rebaixando todos(as) aqueles(as) que, designadamente adultos, nelas se reviram e delas recobraram entusiasmos há muito perdidos.

Em vez de melhor estudar com rigor as razões das adesões massivas, das dinâmicas formativas entretanto geradas, das motivações múltiplas e diversas originadas, o Governo (na sua cegueira neoliberal) aproveita as recessões de toda a ordem (do desemprego aos salários) para, mais uma vez, de um modo falso e mesquinho, tornar individual e conjuntural o que todos sabem ser densamente estrutural. Se o Governo considera este critério de “desempenho no mercado de trabalho” valioso, não lhe resta outra alternativa que não seja a de generalizar a sua aplicação.

Mas para além de doloso, este Governo arrasta consigo um outro pecado; é só forte com os fracos e fraco (quando não cobarde) com os fortes. Não terá, com toda a certeza, coragem de embirrar com muitas das outras instituições formativas, nomeadamente universidades, que têm formado supostamente também para o dito “desemprego”. A introdução do documento é uma peça digna de ilusionismo político. Os seus artistas, com uma ligeireza argumentativa descarada, fazem desvanecer o muito que as NO e o RVCC trouxeram de bem, de bom e de positivo e celebram habilidosas prestidigitações no palco da tartufice política. Simplesmente vergonhoso.

terça-feira, maio 29, 2012

O ELOGIO ANUNCIADO DO POETA

 

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Recordar a propósito do RVCC, advertindo da saloiice revivalista dos tempos que correm…

 

APRENDER A ESTUDAR

 

 

 

Estudar é muito importante, mas pode-se estudar de várias maneiras....

Muitas vezes estudar não é só aprender o que vem nos livros.

Estudar não é só ler nos livros que há nas escolas.

É também aprender a ser livre, sem ideias tolas.

Ler um livro é muito importante, às vezes urgente.

Mas os livros não são o bastante para a gente ser gente.

É preciso aprender a escrever, mas também a viver, mas também a sonhar.

É preciso aprender a crescer, aprender a estudar.

Aprender a crescer quer dizer: aprender a estudar, a conhecer os outros, a ajudar os outros, a viver com os outros.

E quem aprende a viver com os outros aprende sempre a viver bem consigo próprio.

Não merecer um castigo é estudar.

Estar contente consigo é estudar.

Aprender a terra, aprender o trigo e ter um amigo também é estudar.

Estudar também é repartir, também é saber dar o que a gente souber dividir para multiplicar.

Estudar é escrever um ditado sem ninguém nos ditar; e se um erro nos for apontado é sabê-lo emendar.

É preciso em vez de um tinteiro, ter uma cabeça que saiba pensar, pois, na escola da vida, primeiro está saber estudar.

Contar todas as papoilas de um trigal é a mais linda conta que se pode fazer.

Dizer apenas música, quando se ouve um pássaro, pode ser a mais bela redacção do mundo...

Estudar é muito mas pensar é tudo.

 

NOTA – Agradeço à Maria Manuela Freitas, que ontem (28.05.2012) concluiu o seu processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências de Nível Secundário (CNO da BARAFUNDA - Associação Juvenil de Cultura e Solidariedade Social) e no contexto do seu trabalho citou este poema de Ary dos Santos.

sábado, maio 26, 2012

APONTAMENTOS COM RUMO INCERTO POIS INCERTAS SÃO AS DÚVIDAS

 

educacaoadultos_190Começo por dizer que sou daqueles otimistas, que alicerçado em testemunhos intensamente vividos, entendo que o processo Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC) favorece (ou pode favorecer) a criatividade identitária. Todos nós reconhecemos que essa capacidade de nos descobrirmos está estreitamente ligada ao nível e à diversidade dos recursos de que cada um de nós dispõe ou pode dispor. Sejam eles económicos, sociais ou culturais. A fraqueza dos recursos (como toda a gente sabe, até por experiência própria) limita naturalmente a quantidade e a variedade dos si mesmos possíveis.

Esta desmultiplicação de si mesmo, apoiada por recursos suficientes, permite acrescentar novas identidades a um conjunto aberto já diversificado, tornando (assim) a estrutura das personalidades mais ricas e subtis. Pelo contrário, os que têm menos recursos percebem e sentem (com frequência) estas imposições como fatores de intensos incómodos. Qualquer processo identitário supõe distanciamentos (por vezes dolorosos) face às socializações que nos determinaram ou determinam. Esses distanciamentos pressupõem (como é fácil de admitir) pontos de apoio, horizontes de identificação possíveis e recursos adequados que os possam proporcionar.

Sou também daqueles (talvez ingénuos) que acredita que o processo de RVCC pode, neste domínio, produzir trabalho válido. E é neste sentido que vos apresentarei alguns apontamentos em que me apoiarei para alargar um olhar sobre a educação de adultos e do papel que o RVCC pode aqui assumir, na convicção de que para nos fazermos temos de duvidar de algumas certezas e (sobretudo) não recear caminhar para novos rumos, procurando as respostas mesmo que através da incerteza das próprias dúvidas.

quinta-feira, maio 17, 2012

A PRIVATIZAÇÃO DO ESTADO E O ESVAECIMENTO DA DEMOCRACIA

 

o-que-fazer-com-a-democraciaA razão deste post alicerça-se no atual modismo neoliberal escarnecedor do valor da democracia, da sua legitimidade e da sua suficiência, designadamente no que toca ao melancólico domínio do económico. No breve escrito que lhe dará corpo esgravatarei essa evidência fazendo uso de um raciocínio lógico e, de modo razoável, brigarei com a suposta superioridade advinda de uma adotada e subtil convicção que aguenta tal presunção. Se escolho o dito convicção (e não um outro qualquer sentimento mais permeável à obscuridade) é por que tenciono mover da argumentação tropelias dispensáveis à narrativa adotada.

Presumo que ninguém minimamente (d)esperto deixa de relacionar dimensões próximas tais como o bem comum, os interesses privados/públicos, a democracia, a economia e a política quando considera algum destas situações em particular. No entanto, se aquela trama concetual se apresenta calma à partida aquando do bate-boca de um qualquer destes tópicos, já a construção argumentativa que dela escapa e a exibição dos juízos valorativos que a substanciam são claramente marcadas pela conflitualidade ideológica incombinável.

Perceber como é que esse dogma venerável da doutrina neoliberal (e por isso para ele indispensável) da separação entre o estado e a economia tem feito o seu caminho de simulada irrefutabilidade constitui, por si, um exercício lógico e filosófico de desconstrução absolutamente urgente neste quadro atual historicamente crítico das sociedades. Da ideia inaugural da virtuosa e saudável concorrência à privatização do estado e ao correlativo esvaecimento da democracia (enquanto instância política) fez-se da neutralidade um fundamento vulpino do método ideológico da dita e glorificada doutrina.

Deste modo, o mimetismo liberal reconhecendo a perturbadora natureza política do estado democrático encetou há muito tempo o seu enfraquecimento presenteando melhores condições à energia do seu dogma na justa proporção que fanava à democracia a genuinidade da sua origem instituinte de ação e decisão políticas. Privatizar idealizando horizontes sem limites inspirava assim invenções que, aparentando culto pela democracia, a pudessem golpear na sua identidade básica e essencial, ou seja, de livremente definir, eleger e realizar políticas em conformidade.

Nesta circunstância, com o pretexto generoso de acautelar os interesses públicos criaram-se as regulações necessárias e com estas descobriram-se autoridades de competência assegurada para as afiançar e as levar a cabo. Afinal duas chagas se aliavam sem que ninguém desse por isso; a livre concorrência não se confinava afinal ao exercício da virtude e o estado democrático persistia no desperdício e obstinava-se numa ingerência imprópria. Agregar então à democracia gente conhecedora que à competente sagacidade reunisse o atributo de técnico não-político seria ouro sobre azul em benefício de todos. O estado democrático dava assim a sua vez, com uma deferência inusitada e perante a sua suposta ineficiência, a um estado abençoado pela regulação.

E é no apetecível reconhecimento deste estado regulador que medra como virtude democrática a neutralidade e se pespega a isenção política como condição conveniente ao exercício dessa cidadania magnânima e sem-par. Como é fácil de captar, uma democracia feita de equanimidades e desprendimentos deste jaez, revitaliza-se naturalmente perante o engasgo comparsa da política. A palavra de ordem “menos política, mais democracia” é vozeada em silêncio embora sem disfarce. A onda neoliberal elege assim as tecnocracias politicamente puras que na presença da privatização do estado têm por responsabilidade não só proteger os interesses públicos como restaurar as deformidades que do tempo democrático dimanam. Como estamos agradecidos e deles necessitados neste magano leilão dos interesses públicos nos eficientes mercados da liberalização. Por isso, bem hajam.

 

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quinta-feira, maio 10, 2012

ADMITINDO AS DIFERENÇAS, TANTO FAZ NA PRAIA COMO NO RVCC…

 

HORIZONTESO processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC) iniciou-se em 2012 num contexto social e laboral significativamente diferente do atual, reportando em particular à taxa de desemprego de cerca 5% da altura em confronto com a sua análoga recente que se cifra hoje num valor superior a 15%. Ao convocar o olhar para estes dados pretende-se cotejar realidades e, dessa acareação, tornar mais claro o interesse que as perceções das condições de mercado apresentam enquanto fator condicionante de projetos que, pelo facto de o serem, presumem uma óbvia antecipação incessantemente idealizada.

Sempre considerei (e expresso-o aqui de um modo conscientemente simplificado) que o mérito maior do RVCC não se encerra na certificação em si mas nas múltiplas e diversas agitações que a experiência formadora (inerente ao processo) poderia (e deveria) germinar, designadamente tendo em conta a curta escolaridade da generalidade dos adultos e tudo quanto nesta condição, por conformação, se foi naturalmente incorporando. Se de início assim concebia o RVCC, ao fim destes dez anos de contacto intenso com o dispositivo, as pessoas e as suas realidades e anseios, sem receio de qualquer tipo de imprecaução, não posso deixar de ratificar (hoje) como certo esse meu pressentimento inaugural.

O adulto termina o RVCC sentindo-se com frequência (e manifestando-o por vezes de modo extasiado) uma pessoa diferente daquela que havia entrado. Em abono da verdade, outra coisa não seria de esperar, tendo mesmo em conta que muitos o iniciaram apenas com o manifesto propósito da certificação. Todavia, esclareça-se desde já que esta constatação não retira qualquer legitimidade ao intento, bem pelo contrário pelo que a seguir se procura atestar. Assim, e no desenvolvimento desta confirmação, direi que conhecer o que leva o adulto (após o processo) de diferente consigo é que interessa indagar e aclarar pela sua relevância futura. No entanto, cedendo esta empreitada para outros fôlegos, ousaria afirmar a suspeita de que as fronteiras da ambição dos adultos se foram estendendo gradativamente na justa proporção das descobertas de si que em si habitavam adormecidas e desacreditadas.

Percursos, representações, projetos e investimentos no domínio da formação, compõem um entrelaçado de aspetos que, na sua conjugação gradualmente idealizada, arquitetam as realidades nas quais se inscrevem os rumos possíveis de intensas buscas educativas ou (tão-só) de diligências formativas mais ou menos urgentes. Assim sendo, é na elasticidade deste amplo quadro de expectativas e de possibilidades que se fazem então as motivações, se praticam as atitudes de conquista da obra formativa, se individualiza a perceção da utilidade das suas dinâmicas e se refina a consciência dos recursos para o conseguir. Fazer da formatividade uma estratégia obriga a um instituir que, não desobrigando as referências do passado, as revigora nos horizontes que se futuram. Daí, as mediações, os possíveis e, sobretudo, a importância da bondade das primeiras e da inspiração imprescindível dos últimos.

Chegar ao processo apoucado pela situação de desemprego e ter como horizonte a mesmidade acrescenta às dificuldades congénitas mas desafiantes do processo uma lassidão que atrapalha e perturba o entrelaçamento anteriormente referido. Tudo aparenta menos entusiasmante e, mormente, muito mais desengraçado ao viver-se nessa fronteira que soma angústia a uma esperança tristemente abalada. A racionalidade estreita-se e com ela a energia da reinvenção enfraquece. O peso do passado endurece identidades e sitia os adquiridos, sejam eles feitos de hábitos ou de convicções. O adulto, reconhecendo-se delimitado, escusa a alegria da liberdade no exercício de uma reflexividade que ele sente historicamente marcada e condicionada pela cruciante verdade alcunhada de “falta de emprego”. Pois é. Como se diz nestas circunstâncias, não basta estar numa praia edénica fazendo férias; importa andar animado e apreciar lá estar. Admitindo as diferenças, tanto faz na praia como no RVCC.

Imagem retirada daqui

segunda-feira, maio 07, 2012

A PORRA DA VELHICE

 

Um elogio a Helena Sacadura Cabral

transferirA “velhice” pode ser uma chateação possível mas as representações sociais que a escoltam fazem dela uma “porra certa” feita de irritações numerosas, algumas delas verdadeiramente sórdidas. O paternalismo desleal e falsamente protetor que a segue (a velhice), como tal, inspira as ditas representações, enjeita nos chamados “idosos” ou “idosas” (por antecipação) potencialidades de natureza diversa e, ao mesmo tempo, reforça o seu poder insistindo (por excesso e sem tino) no peso dos seus limites, das suas doenças ou da sua morte vaticinada.

O percurso lógico começa pelo invento de traços físicos identificadores capazes de marcar as gentes, de fundamentar as diferenças e de fixar os territórios. Deste jeito, geram-se abandonos e favorecem-se exclusões ou inventam-se negócios e criam-se acolhimentos. Em comum, oferecem-se não-lugares, uns formados de perdas inteiras, outros de privações essenciais. Anula-se a importância, golpeia-se a estima e ironiza-se a sexualidade. Propõe-se, no fundamental, em lume brando, uma morte ainda em vida.

Todavia, há sempre quem resista e, neste universo de oponentes, alguns ditos “velhos” ou “velhas” desviantes feitos(as) de tremendas descrenças e enérgicas teimosias. Ao longo da vida, estes(as) instruíram-se (naturalmente) na deserção a muitas normas instituídas e às bondades das categorias em que aquelas sempre os(as) aliciaram e hoje, caprichosamente, julgam ter chegado o tempo certo de os(as) capturar. No entanto, os(as) resistentes aprenderam, como sempre, por manha, habilidade ou inteligência, a navegar em contracorrente nas enxurradas dos binários da simplificação e da classificação com que se formatam as vidas e as existências de muitos(as) e azarados(as) imprevidentes.

Fora assim do enxurro, os(as) desviantes avistam o excêntrico de margens imprecisas e tropeçam em horizontes provavelmente mais salubres e reavivados de possibilidades. Para eles(as), as evidências deixam de o ser na perplexidade que alcançam e no pensamento que os(as) inquieta no estímulo dos progressivos e contínuos achados. Descobrem então que a vida que buscam não está do outro lado da norma mas sim numa reinvenção que rejeita a facilidade da mera e simples oposição à norma. Eles(as) sabem, melhor que ninguém, que envelhecer … lá terá que ser. Contudo, não pelas categorias sociais que eles(as) percebem estranhas e que, pela sua estranheza, mais espontaneamente podem entranhar. Decidem, assim, não murchar antes do tempo, de um tempo que a cada um deles(as) pertence e que a cada um(a) definitivamente cumpre viver.

sábado, maio 05, 2012

A FOLHA BRANCA QUE NÃO ESTÁ EM BRANCO

 

Texto reformulado

Ao longo deste tempo, na qualidade de avaliador externo, tive oportunidade de ler variadíssimas histórias de vida. Percebe-se que se observa o passado com as referências de hoje e com representações diferentes daquelas que, nesse tempo, orientaram as leituras e guiaram as interpretações das vivências que agora se procuram (de novo) situar e (re)significar.

folha de papel homepen

O peso do passado que se impõe, a convenção que sempre dificulta e a memória endurecida por dizer o dito vezes sem conta, tornam-se embaraços às exigências da reflexão que tem por missão reconstruir, uma vez mais, a história do vivido. As pertenças, as particularidades e os pressupostos, nem sempre claros, marcam a subtileza da reinvenção do relato. A última das compreensões não dispensa, no seu deslizar vacilante, os entendimentos que a precederam num processo reconhecidamente penoso pela insatisfação do que, no íntimo, se mostra inquietante e duvidoso.

A historicidade que situa o testemunho e a reflexão que a completa (por correções e aclaramentos) fazem-se (assim) num movimento de leituras e juízos que a narrativa que se conta procura articular suprimindo vazios e discrepâncias que atrapalham a limpidez da história biográfica. E é no preciso momento da escrita que a dificuldade de escrever numa folha de papel que não está em branco, a consciência desperta para a riqueza do que é perplexo, equívoco e maleável.

É esse o instante inevitável da (re)elaboração e da (re)significação que, paradoxalmente, nos apresenta e exibe hoje o que somos ou o que, não sendo, desejamos ou procuramos ser, independentemente das histórias já escritas na folha branca onde escrevemos.

quinta-feira, maio 03, 2012

OS COMÍCIOS DO PINGO DOCE OU O POPULISMO NO SEU MELHOR

 

1[8]Problematizar (trabalhando possibilidades outras) anuncia a todo o tempo perplexidades, busca continuadamente formas novas de olhar os problemas e desperta sem fim exercícios de pensamento que moldam leituras desafiadoras a naturalizações que, embaraçando a tentativa, estimulam o seu propósito. Estranhar o habitual e permitir a familiaridade do desconhecido requer uma disponibilidade treinada (aberta e diligente) na tarefa sempre árdua de divisar diferenças (presentes e ausentes) nos movimentos silenciosos das diferenciações articuladas que sossegam enrijadas no leito dos múltiplos interesses estabelecidos.

Para quem não alenta nem se fundamenta em rebanhos de espécie duvidosa, as demonstrações populares de desmedido espavento são sempre vistas com o olhar crítico da tolerância exigente. As evidências da numerosidade arrastam consigo (vezes sem conta) a possibilidade de achacados populismos que se corporizam nas imperfeições civilizacionais, quando não nas penúrias de toda a ordem, nas desesperanças da vida ou em crises presentes de futuros adiados. Se alguns políticos (ou políticas) exploram tais particularidades, os mercados possuem delas um saber feito pelas agulhas e linhas com que se cosem.

Assim pensando, diria que a soberania de um qualquer populismo (político ou mercantil), numa sociedade tutelada por culturas de propaganda, nutre-se da exaltação de consumismos diversos com a cumplicidade sempre pronta e enérgica dos enredos mediáticos habilmente dóceis e (sobretudo) artificiosamente criativos. O irresistível anunciado, a necessidade fabricada, o desassossego excitado, tornam voluntário um gesto que (na sombra) embala o humano que nele se deixa adormecer. A necessidade desobriga-se assim da liberdade e da dignidade e amamenta o “kitsch” ardiloso que se alastra transversalmente por campos dispersos, todos eles submetidos (hoje, mais do que nunca) à lógica mercantil que nos incompleta.

A campanha do Pingo Doce, vale o que vale mas vale, no essencial, por que se entranha num espécime de populismo universalizado que, por muitas cambalhotas argumentativas que se deem, não deixa de constituir apenas mais uma forma (manhosa e, talvez por isso, rentável) de desumanização e, já agora, de revivalismo ideológico. O populismo sempre se revelou como meio expedito e despudorado de conservação ou de conquistas de poder(es). Neste particular, qualquer pessoa de bom senso não pode deixar de reconhecer que o Pingo Doce não se quis prestar à virtude da generosidade ou de uma outra qualquer grandeza humana ou social. O Pingo Doce foi apenas e simplesmente oportunista. Fez marketing, fez negócio e não deixou de fazer política. O 1º de Maio era a data conveniente para a convergência de tantos fazeres sem causa moral alguma. O populismo no seu melhor.

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segunda-feira, abril 30, 2012

O HOMEM NÃO É, FAZ-SE … E DESDE O COMEÇO

 

A propósito da delinquência e não só…

DelinquenJosé Barata-Moura exprimiu, um dia, no Conselho Nacional de Educação, que o homem não é, faz-se. Ao crer no juízo, direi que qualquer um se inicia nesse fazer desde o começo, esgotando-se nos lugares das suas primeiras falas, risos, lágrimas e birras onde o enlevo e a dor das memórias esculpem muita da rejeição que, dessa história, escapa à lembrança. Dizem os versados que desta memória retalhada e difusa muito acontece e se declara (mais além) no mundo mestiço das pulsões, satisfações e frustrações.

Como ocorrem as ruturas decisórias com o social de jovens malfadados? Como se dissipam destes os sonhos e se desfazem deles as identificações de criança genuinamente imaginados? Que abismo se abre e os levam aos vazios da desistência ou às violências da sobrevivência? E os outros, que ao invés, a demasia lhes forçou os limites na busca de serem (por pedido) o que as frustrações de outros exigiam? Que mundos se representam e se inventam no ventre dessas severas má-sortes ou no coração doente dos narcisismos desgovernados destes últimos?

Fragilizadas e influenciáveis as mentes vacilam, os modelos implodem e a inconstância das referências retira vigor ao apelo natural e orientador que destas se esperam. A busca torna-se assim um caminho farto de sinaléticas suspeitosas. A desorientação sentida e vivida faz do jovem um viajante naufragado na esperança de alcançar o aconchego de um apressado abrigo. A viagem sonhada transmuda-se numa aventura de múltiplos rumos sem destinação. Entre aqueles rumos e a desejável destinação colocam-se fatalmente distâncias codificadas dificilmente transponíveis.

A desavença assim experienciada contagia relações (com os outros e com o mundo) que, nas suas múltiplas versões, se manifesta mais tarde em disfunções (diversas e dispersas) ante um social que, no fundamental, não acertou ou (pior ainda) renunciou às suas obrigações. E muito verosimilmente desde o seu começo. Citando, o ex-Reitor importa reiterar que, sob o ponto de vista deontológico, a educação é um processo relacional, continuado e aberto, ou seja, um processo de dar forma à condição do nosso viver. Este enunciado, em toda a sua grandeza e exigência, revela responsabilidades não assumidas por quem devia e, sobretudo, o modo irreflexo como elas são sacudidas para outros, senão quando para os próprios padecedores.

 

Imagem retirada daqui

quinta-feira, abril 26, 2012

A NEUROSE DA (IR)RESPONSABILIDADE

 

Miguel-Velasco-NeurosisA convocação constante e pomposa do sentido de responsabilidade merece-me uma incessante vigilância crítica que, com o amealhar dos anos e a senescência por longe (felizmente), se desenvolveu ao extremo da teimosia e não, é pena, no seu refinamento apetecível. No entanto, confesso que saber de onde irrompe esse deslizante apelo, desde logo, desperta em mim o interesse (adormecido e preguiçado pela impreparação) de compreender o fenómeno. Saber quem é o responsável, aplicado e generoso, motivado pelo meu comportamento ou desempenho responsável faz-me (talvez) mais esperto e, sobretudo, por que dependente da minha vontade, obstinadamente diligente nesse intento solitário de espiagem.

Saber se esse responsável é um mero serviçal de um osco poder ou vive em concubinagem com uma qualquer estranha moral, não é obviamente um saber despiciendo. Neste particular, a experiência sovada pouco me ensinou pois a vida (por si) nada ensina. No entanto, à força de tanta sovadura eu tive que aprender com ela e não aguardar que ela se prestasse a ensinar-me alguma coisa. Deste modo, aprendi a aprender (passe o modismo), fazendo das tareias o conteúdo necessário deste meu saber vivencial. Aprendi que me tornava (aos meus próprios olhos), ao anuir a esses poderes embuçados e ao acatar os desvarios dos dispersos concubinários, um responsável lerdaço e inútil, desconfortado em crescendo com as lisonjas de todos aqueles outros.

Há responsabilidades que se acolhem por que se celebram comprometimentos e dependências, supostamente no exercício de uma liberdade essencial e de uma consciência sentida como plena. Responsabilidade e liberdade fazem-se (assim) relação de inteligibilidade potenciadora de valor nesta fatal disputa de ajuizar condutas e audácias. Atente-se (porém) que liberdade essencial não significa, por uma qualquer vontade conveniente, fácil repudiação ou remoção de embaraços, como também não se mostra em meras espontaneidades de quereres que se bastam a si próprios. Igualmente ainda, em abono da provocação, diga-se que a liberdade de que falo como essencial não é essa liberdade dirigida que por aí perambula e que gentil e generosamente oferece escolhas não-determinadas por quem as elege.

Liberdade essencial significa estar livre para a acareação consigo (fundamentalmente), com o mundo (desejavelmente) e com as suas múltiplas e diversas exigências (necessariamente), reconhecendo em si (como sujeito individual ou coletivo) os poderes de constituir e de destinar e (assim) inventar as soluções necessárias aos desafios, próprios e dos outros, que o enredo da vida vai inevitavelmente entrelaçando. A responsabilização (como ato que se sucede no tempo) apela a um sentido de responsabilidade que, pela sua natureza educável e pela sua função de orientação e de rumo, apresenta como referente e essência o sentido forte, influente e decisivo do que é humano e se presta à humanidade. A responsabilidade de avançar nesta aventura nossa, que é de todos, dispensa disfunções que esvaziam essa referência e a sua essencialidade.

IMAGEM RETIRADA DAQUI

terça-feira, abril 24, 2012

A POBREZA ENVERGONHADA

 

feminis_lang_migr_mothr_lg[1]A vergonha anuncia-se nos temores da desonra, nas incertezas do ridículo, na apercepção do comportamento inconveniente, na sensação da perda da dignidade, na consciência da humilhação ou na convicção do aviltamento. Na pluralidade de interpretações, uma qualquer nota da pobreza refreada inspira (assim) a prova da significação que cuide do sentido que a vergonha cala.

O que reprime afinal o encobrimento da vergonha? O que tem em mente aquele que faz do fingimento necessidade? Que racionalidade íntima funda essa escolha que à experiência sofrida junta a sequidão do isolamento? O que nos clama aquele (fingido) silêncio impassível na sua forte presença e viva coexistência? Que acessibilidades descobrimos para nos escoltar e levar à crível compreensão desse grito que mima suplicando calado?

Tematizar a vergonha que na pobreza radica, torna-se (no desenho destas interrogações) uma sondagem muito singular e delicada mas irremediavelmente condenada à inquietação da imperfeição do que é inconcluso. A obscureza da sua razão (no entanto, fundante e orientadora) coloca, como condição ao seu entendimento, o conhecimento das totalidades e das circunstâncias em que o humano se inscreve e nas quais ele se determina.

Assim sendo, a razão que aqui se submete ao entendimento não decorre do domínio da lógica mas sim (e sobretudo) do contexto vivencial no qual ela – essa razão – se plasma e alcança sentido. A dignidade, sendo um valor que a linguagem (por insuficiência) não permite esclarecer em absoluto, traz consigo uma pessoalidade que a devolve irredutível aos seus exercícios de compreensão. A pobreza não é, no essencial, o que se vê e está próximo. Está em outro lugar, alguns bem distantes, naturalmente escondido na transcendência do indizível que a cada um pertence.

domingo, abril 22, 2012

O DESTINO DO FUTURO

 

71233632_c14e63ba5aA resignação, tida paciência tola de conformação, maça-me em absoluto. Confesso o cansaço dessa absurda licenciosidade retesada no regaço insensível de um qualquer destino aceite, supostamente reservado. Parece-me (ante ela) escutar uma espécie triste de fado sem voz nem passado, desapaixonado pelo presente e descrente no futuro. Enclausurada assim (nessa infausta musicalidade) ouve-se a imaginação do porvir ao longe e percebe-se uma eventualidade muito remota. Uma lonjura lânguida produzida de desesperanças que atrai, pela fadiga,  o hábito das saudades ociosas sem materialidade nem historicidade. A circunstância deste modo desenraizada, no vazio de horizontes dissipados no infinito, desperta (pois sim) peregrinações sem destino, santos e lugares. Liquefaz-se o tempo (que se vive) nesse outro tempo futuro afigurado longínquo e que se teima em não o encurtar para o poder viver … já. O futuro que, afinal, já ontem devia ter começado.

quarta-feira, abril 18, 2012

O TRISTE ENLEIO DOS DIREITOS

 

Capa Diabo 1810[3]A utopia é anúncio e sinal de vida. Abraçado à utopia (imaginada e imaginável) experiencia-se um inefável apreço pela vida. Porventura busca-se um não-lugar, provavelmente quimérico, feito de margens múltiplas que torna mais perto aquele lugar longínquo. No desprazer do outro (do lugar habitado) prospera assim o devaneio fatal de uma desejada proximidade ao tal não-lugar da vida, reinventando-se (de modo obstinado) as veredas de profundas e fundadas recusas.

Nesta incessante e infindável procura descobre-se os caminhos da cidadania e sulcam-se os percursos da moral necessária. A negação de espúrios privilégios convoca o exercício sadio dessa cidadania e faz esta tomar a estrada socialmente salubre dos direitos. Mais e melhor cidadania é fazer da riqueza um meio transparente de coesão social, restituindo à liberdade a responsabilidade que nela se inscreve. O dano social dos privilégios é bem mais penoso para todos do que os dinheiros usurpados que eles custam. Adoece a sociedade e corrompe a democracia. Não há volta a dar…

terça-feira, abril 17, 2012

UNIDADE E SENTIDO DE RESPONSABILIDADE – AS ELEIÇÕES NO SPGL

 

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A 31 de Maio vamos ter eleições no SPGL. Alguns anos afastado de responsabilidades sindicais, as memórias despontam e o desassossego que daí advém convoca a historicidade de uma reflexão própria que (ao avivar conflitos) se torna necessariamente dolorosa. Uma narrativa que atinja a vida, sobretudo a pretérita, não deixa de ser uma produção permanentemente atualizada de uma construção progressiva de si. Memória e reflexividade, na sua relação penetrante e movente, arrastam consigo a inevitabilidade do (des)conforto das fidelidades, das recusas e das reconciliações.

É neste quadro que tem importância acrescida sublinhar o papel do sindicalismo no seu caminhar social e histórico, designadamente tendo presente o atual contexto de desmarcadas preponderâncias dos poderes económicos e financeiros no gozo de uma usurpação bastarda do político. Mais do que o papel, diria que a missão do sindicalismo deve prosseguir declarando-se ainda mais exigente, firme e robusta. Assim sendo, não posso deixar de concluir que importa unir forças, vontades e, sobretudo, responsabilidades neste tempo de dramática asseveração de um neoliberalismo impassível, que consigo roja modos de socialização e de contradições múltiplas com expressão em profundas desigualdades e em manifestos desequilíbrios.

Ao mundo laboral (pela centralidade humana e social que o trabalho toma sobre si) os sindicatos não podem igualmente deixar, neste momento histórico, de alargar intervenções e participações encorpando movimentos sociais mais amplos (fazendo deles parte) e com eles partilhar o aprofundamento da democracia e da sua verdade. Mobilizar e implicar para ganhar a vida não é (de todo) tarefa fácil. No entanto, bem mais complexo será, com toda a certeza, envolver e comprometer as pessoas na transformação social que consinta mudar de vida. Sem esta referência, diria que o chamado sindicalismo propositivo navega em águas turvas (por outros) agitadas. A experiência adverte, com alguma ironia amarga, que a unidade transita por aqui e não por meras lógicas e operações aritméticas de arranjos circunstanciais de lugares ou de poderes.

sábado, abril 14, 2012

ERRÂNCIAS

 

Para a Mariana Varela e colegas, parabéns pelo trabalho e votos de muitas felicidades e êxitos futuros

ARREPIAR CAMINHO SEM DEMORA

 
Caminho tortuoso
Pensar o que se pensa e faz (ou talvez o que não se pensa e não se faz, real e objetivamente) não prescinde (por muito que se queira) da viveza da dialética. Ao trabalhar-se a plasticidade dos limites com o propósito da sua superação, ao dar-se apreço à necessidade pelo valor que nesta se inscreve e, mais ainda, ao aditar-se finalidade à existência (que sendo sempre de alguém não dispensa os demais), cria-se mundo a um mundo que, insuficiente e distorcido, merece ser transformado para melhor. Afinal, a subjetividade não deixa de ser ao mesmo tempo limite e superação, necessidade e valor e, inelutavelmente, existência e finalidade.
 
A ética da responsabilidade (a todo o momento) previne para a inevitabilidade desta objetivação dialética e adverte também para o incumprimento (desconfortante) das obrigações próprias de cada um, do qual o quase todos se alimenta. Neste contexto e no quadro desta penetrante crise, apetece dizer que não chega hoje (talvez mais do que no passado) lutar por ganhar a vida mas, mais fundo ainda, importa o empenho firme em mudar de vida. Capturados pelo atavismo economicista (através dos seus pérfidos preconceitos) aldrabam-se os limites, alienam-se as necessidades e atraiçoam-se finalidades. A penosa evidência dos resultados é a vida que não se ganha e, sobretudo, a vida que não se alcança. O imerecido sofrimento silenciado (ou melhor, institucionalizado e mediatizado) não merece o respeito do dever e do exercício de cidadania. Dê-se assim voz (e uma consciência ativa) a este silêncio feito de um conformismo ingénuo e tolo mas deveras insalubre.
 
 
 

terça-feira, abril 10, 2012

Os riscos do PC

 

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Segundo o Expresso, Passos Coelho (PC) em reunião com grupo parlamentar do seu partido (a 29 de Março) reconheceu em privado o que não admite em público; a forte probabilidade de elevado risco social. Uma constatação apenas:

 

  A solicitação feita aos seus deputados para que reforçassem a vigilância sobre as suas gentes e lhe dessem notícia (atempada) de toda e qualquer ocorrência que pudesse vir a perturbar o sossego (superficial que fosse) da ordem.

Como parece ser evidente, o propósito lógico e consequente é o de atalhar a tempo qualquer possível foco de alvoroço e, sobretudo, evitar recorrer às desmedidas ações policiais como prova pública e mediática de desgoverno. É sabido que manter a ordem é politicamente mais acertado, sensato e eficiente do que ter de a repor. No entanto, a constatação e a evidência que aqui se apresentam não são trejeitos de má vontade mas (e tão-só) expressão de olhares diferentes e de semânticas distintas.

Onde PC avista homogeneidades (o distrito como categoria de análise), muitos outros enxergam e sentem a transversalidade cada vez mais funda de assimetrias várias. Onde PC calcula riscos, muitos outros pressentem polícia e temem sovas. Onde estes encontram e vivem dramas sociais (e não apenas riscos), o PC fantasia inevitabilidades. Como risco significa perigo, poder-se-á concluir que cada qual risca à sua maneira os perigos que pressagiam. Assim sendo, a dúvida persiste; será que a vigilância requestada por PC aos seus correligiosos vai estancar o aumento progressivo dos riscados? Não acham que este poderá ser um critério aferidor?

Nota: PC significa Passos Coelho e não Pinto da Costa ou qualquer outra denominação.

segunda-feira, abril 09, 2012

UM DESABAFO

 

(8 de Abril de 2012)

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A possibilidade de nos confrontarmos com desconcertos de significação nas nossas vidas é naturalmente elevada. Para uns ainda bem, para outros nem por isso. Os primeiros encontram nela oportunidades, os segundos ameaças e inseguranças. Para estes, essas dissonâncias revelam-se estranhas, por vezes enigmáticas quando não hostis. A urgência de defesa convoca de imediato o enquistamento de posições. A abertura dá lugar ao autismo e este ao divórcio com a realidade e com a reflexividade que nela nos faz situar. A irritação germina então no vazio criado e os diabos à volta florescem (como por bruxaria) neste caldo emocional. A vida sobrevive assim por meio de uma repetição de imagens iguais que se desdobram sem fim. Em nome de uma liberdade celebrada dela arrepiamos caminho incapazes de nos reinventarmos. Insensatamente.

 

Imagem retirada DAQUI

sábado, abril 07, 2012

O DÉBIL SILÊNCIO DOS POBRES

 

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O pobre quando grita a sua pobreza pode continuar pobre. Quando a silencia torna-se contudo mais pobre e mais só. Acrescenta à sua pobreza a penúria das imagens e o ermo das emoções. Às asperezas que o fizeram mescla um outro e novo espaço de desigualdades, mais duras e intangíveis.