Os escritos estilhaçados que aqui trago e arrumo são, como expressamente acautelo, meros apontamentos de circunstância feitos de triviais notas que restam da vida. Nem sempre o ânimo colabora nesta arte de juntar palavras capazes de fazer cabriolar os desabafos calcados pelo sucessivo descuido e fraqueza. Para mais, não é fácil escapar ao lampejo dos códigos, despegando os rostos das circunstâncias, assim como os seus rastos do ramerrame dos dias. Mais do que as palavras, interessa-me a escrita da liberdade, malgrado a história e o peso das próprias palavras. Não tem sido fácil. Daí, até breve.
domingo, fevereiro 18, 2018
terça-feira, fevereiro 06, 2018
LIAMES DA AMIZADE
Sem dúvida, ter-se amigos abrilhanta sociabilidades. Mas se à amizade se soma o companheirismo, sente-se a distância das afeições. Um amigo, a sê-lo, em princípio é sempre um amigo. Um amigo companheiro é, no entanto, não apenas mais um amigo, mas sim um amigo-mais. Um amigo que, mesmo não palmilhando os mesmos caminhos, se entrega às nossas sortes, às nossas angústias e adversidades e, aquando dos nossos despertares, com a sua lídima vizindade engrandece o nosso entusiasmo. Em síntese, um amigo companheiro que abertamente abraça por completo o sentimento de partilha, sabendo ler pacientemente as nossas sílabas, bem como captar a voz dos nossos silêncios. Um companheirismo, no fundo, que nos oferece, tão-só, uma singular amizade, se bem que uma amizade vivida simplesmente por inteiro.
domingo, fevereiro 04, 2018
JANEIRO JÁ SE FOI. REGRESSOU O BAR DA PRAIA (BALEAL)
Eis um LUGAR do meu dia-a-dia onde o quotidiano das leituras me reinventa e as artes de pensar me surpreendem. Sinto até, por vezes, uma inefável intimidade que me oferece uma outra imagem de mim próprio. A geometria do seu espaço, o carisma circundante e o calor humano das suas gentes, embelezam em eufonia esse LUGAR existencial, por mim privado sem ajustada moderação. Acompanhado na minha solitária particularidade, o BAR DA PRAIA já não é, há muito, um mero não-lugar, ponto de passagem, provisório e incerto. Fez-se, ao longo destes últimos anos, um LUGAR inevitável. No seu singular espaço vai acontecendo um acrescer de jogos reflexivos que me completam, me despertam e me entusiasmam. Rodeado, porém, do préstimo magnânimo dos livros que, comigo, conversam. Tempos já tardios, sim, mas tempos sobremodo prazenteiros que experimento darem-se neste LUGAR do BAR DA PRAIA.
quinta-feira, fevereiro 01, 2018
FAZENDO OU NÃO FAZENDO, SOMOS RESPONSÁVEIS
Com uma clara ou imprecisa consciência, desafiados pela forma como concebemos o mundo, todos somos explicados por crenças, convicções, valores e princípios. Dessa construção, quiçá ideológica, emanam as inquietações do homem e do cidadão concreto. A dimensão ética revela-se, em consequência, nas suas predisposições e orientação na presença do Real. Deste cenário não escapamos, arrumando urgências em torno das nossas vitais preocupações, humanas e sociais. A escrita, mesmo em modo de desabafos, como é o caso, não se livra desta disposição. Neste tempo de fortes desigualdades, o acordo da Liberdade com a responsabilidade de interceder em favor da Dignidade da nossa humana condição, para onde nos inclina, afinal de contas, a Ética? O que proclamar? Por mim, opto pelas inquietantes questões da Justiça e das injustiças. Contudo, sem alienar a Liberdade, mesmo que mediada pela própria liberdade.
sexta-feira, janeiro 26, 2018
LUGARES DE SINGULARIDADE
O exílio, do sinistro degredo ao sóbrio isolamento, encaminha o homem para lugares, por certos desiguais, de imprecisos sentimentos de perda e ausência. Sobretudo, e em comum, de perdas que magoam a dignidade e confundem a identidade humanas. Daí se faz um cabouco que não acautela um humano assento aos alicerces da basilar e íntegra singularidade. A diferença inquieta, eis o silenciado fundamento, aliás sempre presente, na mudez da exclusão. Em particular, porque incomoda e desfigura as abstrações e as racionalizações das almas sossegadas. Os zeladores da ortodoxia cultural e da sintaxe social cumprem aqui o seu papel. O impulso intrusivo à absorção, mediante o constrangimento à semelhança, de imediato é assim suscitado. Em consequência, as condições da verdade movem-se e ajustam-se. Da lógica da razão, solta-se então o furor desajuizado do reprimido. Na fé de que a dobra das vidas e das experiências consertem as expectativas e agasalhem o imperturbado futuro. Contudo, o exilado ao (sobre)viver, caminha por muitos e outros lugares e não-lugares, entre si miscigenados, certamente, em um lugar-outro. Rasgando, assim, novas fronteiras, alargando as suas experiências e, arrastado pelo desconforto, adentrando-se por outros horizontes, perspetivas e sensibilidades. Os danos, afinal de contas, nos seus efeitos, aos sentimentos de perdas, apensam e transladam outros possíveis alcances. Na busca de diferentes sentires e presenças que iluminem a própria dignidade e avivem, em síntese, o substancial da singularidade que dela, da dignidade, tem obrigação de cuidar. O necessário e o útil, nem sempre comunicam através da invenção da semelhança. Diria mesmo, raramente se entendem.
domingo, janeiro 14, 2018
IMORAL É DESISTIR, MESMO QUE SEJAM MONSTROS OS OPOSITORES
Vivemos num mundo onde nos escondemos para fazer amor! Enquanto a violência é praticada em plena luz do dia (John Lennon)
O Trabalho e o Capital permanecem teimosamente atados por um vínculo rixoso. A eruptiva (e mantida) pirraça do Trabalho amofina o Capital e, grotescamente, muitos dos arrivistas que nele pesticam. O Capital assim vive e tonifica-se. Esses outros, arranjistas de marca, penosamente remanescem sabujando a astuciosa distinção. O Capital, ao contrário do que se pensa, não exige só lucros. Precisa e inquieta-se por mais. Redesenhar a sociedade, concentrar poderes e subordinar recursos e capacitações. A responsabilidade ética (e moral) racionaliza-se. Deste jeito, cede o seu encargo ao servilismo do empenho técnico. A razão instrumental, com permissão, decreta livre em desgraça da sadia empatia humana. Esta, fatal e socialmente desacreditada como convêm ao agiotar do absurdo ideológico. O capitalismo, e o tal Sistema que o calça, captura a científica racionalização destes tempos modernos. Invade o campo das ideias fazendo do racional económico o cálculo arguto de todo o discernimento político. Abrangendo até a conveniente e injuntiva produção social da indiferença moral. É neste cenário que a rixa se impõe substanciar e prosseguir. A porra dos ajustamentos não pode foder sempre os mesmos. Esses mesmos que são, afinal, o Trabalho.
sábado, janeiro 13, 2018
A BANALIDADE DA INJUSTIÇA
Um mundo injusto acostuma a injustiça. Esta faz-se normal e impessoal. A qualidade humana hospeda o mal que a alenta e o cruel que com ela se articula. A moral já não atrai e o abuso da lei justa aproveita o vazio indefeso. Desperta-se e espalham-se significações nas remoinhadas consciências. Talvez não para a maldade ou para a estupidez. Certo sim para tornar inábil o pensar. E chega. É o bastante para cultivar a desnaturada e necessária banalidade. Com o tempo, viciante tanto quanto possível.
quarta-feira, janeiro 10, 2018
ENLEAR A VIDA NO CRIVO HUMANO DO DIVINO
Apercebo-me de Deus nos arrimos que ainda hoje encontro suspensos na minha memória. Se os acho, seguramente não fui ainda capaz de lhes atribuir o destino crítico acertado. Por primordialidade, a inteligência e o sentimento sempre se conciliam. Ainda assim, em situações de premência, por vezes, se apresentam desavindos. As ideias embora se mostrem razoavelmente claras, as significações perturbam-se. Não só pelo que é dado, mas sim pela sua filiação agregada em memórias e experiências então recuperadas.
Espiritualidade e religiosidade não sendo digressivas, são abstrações dissemelhantes. Ambas procuram o que se busca encontrar para além da inteligência humana. Distinguem-se pelo argumento da liberdade e da responsabilidade que aceitam no caminho de si e da relação com o Outro e com o Mundo. O místico apresenta-se-me embaraçosamente esotérico. Sobretudo, desacompanhado da materialidade ética dos valores que todo e qualquer “conduzir-se” exige. Assim sendo, aproximando-me de Leloup, Deus, se é ou não, uma hipótese inútil, a ele (Leloup) me associo. Partilho com ele a ideia desse Deus ausente face aos acintosos sofrimentos, injustiças e maldades que a História transmite e nela permanecem.
Insculpido, em tempo de iniciação, em sintaxes ficcionais de domesticação judaico-cristã, não me foi fácil afastar dessa ensinada proveniência. Os representantes fáticos desse Deus que revivo, submetendo-se ao beato fundamento, amiudadamente se me revelaram nefastos á realização plena do humano. Assim, fui-me afastando desse caminho, numa viagem sem esse Deus mas com os homens, virtuosos, comuns ou mesmo desalmados. Contudo, todos eles desigualmente imperfeitos, sempre imperfeitos. Com eles, escolhi palmilhar os roteiros de uma outra humanidade. Cada um à sua maneira, me oferecem e concedem as suas experiências e as suas dores. Em comum, não se busca a aquietação à sombra segura de um qualquer preceito religioso.
Certo, certo, é que aprendi sempre mais com a fragilidade do desalento humano do que com a convicta e ínclita pregação. A espiritualidade, sendo inerente ao ser humano, assim se vai enriquecendo na busca dolorosa de sentidos de Vida. Pertencer a algum lugar, estar com outros, partilhar autenticidades, dispensa dogmas e paradigmas que suscitem e amamentem culpabilidades. Aqui, a imperfeição não serve de justificação mas sim de desafio, pessoal, moral, social e existencial. A espiritualidade está, estou convicto, para lá das religiosidades e das religiões. Independentemente das experiências de felicidade para os que acreditam e creem na recompensa divina.
terça-feira, dezembro 26, 2017
O ÓNUS DO EMBARAÇO
As crises têm sempre um futuro. Promissoras ou ruins, de acordo como as adotamos. Sendo incertas, são certamente mudança. Possibilidades de alcance ou de queda. Assim sendo, crise é encruzilhada. Exige escolhas, mesmo que as hesitações entrelacem os caminhos. Por aqui ou por ali? A vida não pára e a história cumpre-se. Que rota tomamos? Quem escolhe? Quem decide? Nunca os outros. Logo, tentemos, nós mesmos.
domingo, dezembro 24, 2017
A "IDEOLOGIA DO AMOR" EMPACOTADA PELO TALENTO CONSUMISTA
Moita Flores, escreveu. Um texto divino, embora implacável. Eu sei, eu sei que esta simples e banal verdade das prendas natalícias amofina muitas e boas pessoas. Ainda assim, não deixo de desejar a todos, mesmo aos aborrecidos pela dureza do texto, que tenham as suas "prendas felizes". Porém, as prendas que desejo não as encontrarei, certamente, nesta data de um culto de "poeira efémera", desde há muito, dissoluto pelo selvagem consumismo.
Venham-me os genuínos e humanos afetos. Não aqueles outros umbigados que vivem de abstrações acolchoados de egotismo e filáucia. Aconteçam-me, sim, sociabilidades singularizadas pela disponibilidade sincera de abertura e autenticidade. Dispenso a tentativa de comunicar onde a partilha do comum não se faz busca, vínculo e amizade. Não aceito "ver-e-sentir-me" um ser meramente vegetativo, parte tola de um ritual e contrafeito aparato natalício. Sem este espírito, nem esta exigente verdade, duvido que possa existir O NATAL. Apenas se me cumprirá mais um falto e árido natal.
domingo, dezembro 17, 2017
A FITCH, AS NOTAÇÕES E A RELIGIÃO ECONÓMICA
Estar informado de muitas coisas não se faz por si um exercício habilitado de inteligência da razão e da ética. Assim e sempre, o meritório saber vasto e variado não vai à fundura do verdadeiro conhecimento. Fica-se, então e repetidamente, pelo verniz narrativo da contingência do mero acontecer. Quantas vezes, o mundo das representações se ergue, assim, assente nesta imediatez tecida de dados primários de consciência. Ou seja, através deste imaterial sem história e circunstâncias, do qual se procura reputar a abstração e se parteja o diminuído elemento empírico. Neste quadro interpretativo, e apoiando-me livremente em José Barata-Moura, diria que é nesta cartola de fundo falso que se procura, então, sacar os coelhos especulativos das razões convenientemente explicativas. Dessa arte, então entretidos e abstraídos, se vai caminhando, porventura, sem saber ao certo o caminho que se caminha.
sábado, dezembro 16, 2017
O ANTES E O DEPOIS DO “MAS”
O “mas” governa em si numerosos significados. Pode valer como socorro de uma ideia, acudir a uma relação com o já afirmado, ou mesmo, apenas avivar um destacado sentido. Ou, maliciosamente ainda, interessa aqui destacar, uma latente oposição. Acolher que se está de acordo, mas … significa, através deste subtérreo desmentido, que o essencial está por vir. Neste tempo, em que a busca da genuína tranquilidade se mostra custosa, este “mas” argumentativo é bem mais profundo do que o acordo antes antecipado. É o “mas” que comunica o que não tivemos coragem de tornar preciso e que, assim, nos afasta da então inicial e simpática sintonia abraçada. É o tal “mas” que evita, porventura, o doloroso trair último de sensações, a triste morte em vida e em lume brando, como ainda protege a sobrevivência das possibilidades de gozo rudemente domesticadas. No fundo, é aquele “mas” que nos faz ainda desejar e sonhar com um tempo menos castrador, mais autêntico e menos frustrante. Ou seja, um amanhã em que o princípio do prazer seja humanamente capaz, enfim, de educar e civilizar o atual e capturado princípio da realidade.
domingo, dezembro 10, 2017
OS OUTROS, E AS HISTÓRIAS QUE DELES RECRIAMOS
As coisas mais mesquinhas enchem de orgulho os indivíduos baixos, diz-nos Shakespeare
O subterfúgio da invocada natureza de vida interior é um artificio enganoso. Pior, comodamente dissuasivo, e para o próprio, por vezes, paradoxalmente impiedoso. A vida interior não é uma coisa, um íntimo em si. A vida interior existe, sim, se bem que na presença dos seus factos que se cravam no leito dramático de um real amiudadamente apoucado. Não obstante, quando isolados do seu lugar concreto, tais factos se tornam engodos míticos, pois esburgados e desnaturados de si mesmos. Viver no íntimo de nós próprios é experienciar a verdade, acaso um coabitar interior, ainda que resultado de uma autenticidade de ecos particulares, nem sempre alcançáveis. É nesta dura experiência, embora sempre incerta, que se busca a entidade ontológica daquela vida íntima que, assim e imperfeitamente, se entrega com simplicidade a um falso interior amansado. Esta, intuitivamente sentida pelo próprio como dolorosa, talvez mesmo inconsciente por abrigo, se faz preguiçosa na diligência receosa de esbarrar com dependências e reciprocidades que não se intenciona aclarar.
Se pirutear a imaginação, diria que, ao escutar testemunhos de vida (diga-se, dos outros), se não se atender (e cuidar) ao concreto das histórias, imagina-se (ou romanceia-se) apenas tristes estórias de falsos duplos. Interpreta-se, assim, acudindo-se de uma significação que elege sinais que se calculam ser, afinal, a suposta vida concreta do visado. Quiçá possivelmente insidioso, eis o método que, com a pressa e a superficialidade convenientes, serve para sujamente recontar, recriando não as verdadeiras histórias, mas outras propositadamente viciadas. Sobre tal propositada tradução, sabendo-se de manifestas imprecisões, deliberadamente se ousa então deturpar, mentindo-se para outros salivarem e os babados assim convocados a fazerem tal tramoia medrar, se possível festivamente.
terça-feira, dezembro 05, 2017
HORÁRIO DO FIM
Porventura, sou sem me dar ao desafio de ser. O concreto das determinações que me decide, esconde-se-me. Amiúde, busco resgatar essa história que assim me foge. É nesse exercício de pensar o passado que a saudade, não raro, se experimenta. A circunstância, todavia, desespera pela alvura da nítida lembrança. A pessoalidade de afeto conservado, agita-se no interior das densas memórias esbatidas. A insistência teimosamente fracassada confirma-me de que pouco vale o meu interpelar racional da saudade. Acima de tudo, explicá-la, situá-la. A saudade existe. Sinto-a, e essa é a verdade que me resta da recôndita materialidade. O fardo torna-se, assim, mais pesado e difícil de suportar. De tal maneira fatigante se faz que a saudade se completa em pesadelo. O vigorante saudosismo, acolitado pela sobredeterminação de cabalísticas raízes, culpa-me então de fraqueza. Suponho-me, então, exilado nesse passado que não recupero, mas que o sinto na pele sensível do vivido.
Em jeito de sinopse, significo com Mia Couto, lembrando que o Fim tem sempre o seu horário. Quando chega a vez, morre-se de nada. Quando é o justo momento, morre-se de tudo. Porém, não é nunca, para nós, esse momento. Por isso, as memórias cá estão para suspender e embargar esse Fim. Com a saudade a musicalizar a inspiração dos achados que interessam. Por isso, sem saberes, continuarei a cruzar-me contigo. Até breve, tio.
sexta-feira, novembro 24, 2017
CONVENIENTEMENTE ENTRETIDOS
O politicamente correto desvia-se, mais do que se julga, das referências morais com que se anuncia. A ordem pragmática da conveniência prevalece antepondo-se à exigência moral da probidade assim adormecida. A favor de propostas, seguramente, de improváveis vantagens. Os costumes ajudam, os urdidos preceitos informam e as valias inspiradas desatam, como se espera, as raízes da matéria ética. As boas maneiras, então afloradas, interpelam as gentes através de usos tolos e desmedidos no encalço de volúveis expectativas. Sem se dar por isso, vagueia-se pelas ruelas caóticas da ideologia onde o óbvio se faz acerto impreciso e duvidoso. A conveniência transfigura-se, deste jeito silencioso, em esquema e medida do gesto social. Sem profundidade e densidade humana. A conveniência cumpre, então, livremente o seu oficio. Entretendo e entretecendo o templo e o tempo desse social.
domingo, novembro 19, 2017
ELOS DA EDUCAÇÃO, LIAMES DA VIDA
“O homem é sempre mais do que sabe de si mesmo. Não é o que é de uma vez para sempre: é caminho” (Karl Jaspers)
Queremos, afinal, ser gente, sonhando com inteirezas ou perfeições. Porém, com o tempo, moldamo-nos ao fracasso da sua improbabilidade. Daí, o possível fazer-se da vida e do futuro que resta. Desenganada a infactível perfetibilidade, o realizável descobre-se na entrega ao impulso do desafio. Apesar da deceção, acredita-se nas possibilidades do estreitado caminho ainda assim aberto. A educação é esse caminho, sempre diferente, do vai e vem entre o “si-mesmo” e o mundo. Logo, a nossa humana realização não escapa a esse mundo, nem prescinde desse caminho incomum. Ainda que este caminhar se nos afigure estranhamente rotineiro…
segunda-feira, novembro 13, 2017
O DESEJO DETERMINADO DE DURAR QUE SEMPRE PREVALECE
Ao João, amigo de longa data!
O passado é uma anterioridade sempre relembrável. As suas precedências alimentam as memórias do tempo presente. Estas, permeando o futuro, não decretam, porém, o Futuro. Neste porvir, pela esclarecida coragem, recuperam-se transvios recuados. As descontinuidades prestam-se, por isso, a tais reparações. Outras prioridades se revelam então. E a ordem a contrariar, na aparência precisa e arrastada, desnuda-se. Anuncia-se, afinal, atacável pela necessidade destemida do reparo. A vida, essa, enquanto ordem última, resiste e projeta-se nesse outro Futuro a inventar. Os impulsos, as motivações e as emoções, que outrora atraíram, mostram-se, pois, debilitados e inexprimíveis. Deste modo, a vontade traída, retira-se do beco sem saída do juízo gratuito. Os meios desobrigados dos seus fins, mostram-se pequenas artes para tão pobres propósitos. Sobrepõe-se, de agora em diante, o desejo determinado de durar que sempre prevalece. E o caminho, decerto, acontecerá desdobrado em múltiplos e merecidos possíveis.
quinta-feira, novembro 02, 2017
A ALQUIMIA DA LIBERDADE
A LIBERDADE é uma presença íntegra que nunca nos abandona. Bem como, não estranhamente, em circunstância alguma se nos impõe. A LIBERDADE anuncia-se, deste jeito, igual a si própria. Falamos da LIBERDADE. Sempre presente, confiável na sua discreta e irrevogável decência. Companhia diligente, solidária e generosa, apesar dos nossos continuados descuidos. Da LIBERDADE, a sua coragem assusta-nos. Desperta-nos inquietações, quando não inoportunos desconfortos. Embalados nos romantismos das nossas agitações, DELA não desmerecemos a sua solicitude. A pujança das urgências, provavelmente adiáveis ou mesmo inúteis, por si só, determinará o descaso em favor das vontades do momento. À LIBERDADE, embora atenta e presente, viramos-lhes então as costas. Não por receio de sucumbir à firmeza do seu axiomático olhar, mas por recusa da árdua tarefa que ELA, porventura, encorajaria. Sobra-nos, assim, a agitação dessa vida outra, uma vida animada talvez por profusas máscaras, farsas e preconceitos. Mesmo assim, a LIBERDADE, pedagógica, tolerante e paciente, não se retira. Observa-nos, sempre presente, certamente desolada, ante a dramatúrgica cena de cativeiro que representa, afinal, a nossa alegre, embora comovente condição de amansados. Mas ELA continua lá, mesmo ao nosso lado, aguardando paciente, talvez inconformada, por um qualquer apuro nosso.
domingo, outubro 29, 2017
JURO QUE NÃO VOU ESQUECER
domingo, outubro 22, 2017
A INVERDADE DA VERDADE DA EVIDÊNCIA
Com proximidades e sentimentos díspares, e proporcionalidades desiguais, o FOGO-CALAMIDADE é sempre uma evidência que desperta múltiplos sinais. Paradoxal e juntamente, a evidência atrai, em circunstâncias desta natureza, apaixonadas respostas invariavelmente precipitadas. Mais do que soluções, estas obscurecem as razões quanto a elaborações possíveis de leituras seriamente fundamentadas.
A liberdade de discorrer e ajuizar sobre a tragédia é inatacável, mas o abuso de pensamento e expressão, sobretudo no domínio da responsabilidade política, não pode deixar de ser reprovado pelos critérios de rigor e disciplina exigidos por uma conscienciosa e genuína vontade de empreender uma consequente e séria reflexão, obviamente aprofundada, consolidada e crítica.
Assim sendo, a evidência, enquanto tal, pode somar tolhimentos às dificuldades de compreensão das coisas. Através dela, corre-se o risco de aliciar e manipular a natural e humana superficialidade do visível, do emocional e do trágico. O imediatismo aí se enraíza, tornando a desconstrução dessa evidência uma exigência penosa e difícil. Por isso, é determinante avivar a vigilância à natureza das inquirições e aos arrebatados entendimentos daí decorrentes. Afinal de contas, estas poderão constituir não mais do que acrescências que ensarilham o PROBLEMA e não, de acordo com o que se pretende, alcançar as imperiosas indicações benéficas à cura que se busca.
O rigor e a disciplina no pensar, passe o juízo normativo, não pode ser descuidado e, muito menos, aviltado em momento algum. Mormente, nestes dias calamitosos marcados por reconhecidas causas de viciosas políticas que, ao longo do tempo, a vários governos responsabiliza. A incompreensão pode conduzir, assim, a um excesso de palavras frívolas, a trás das quais se acoberta o essencial do PROBLEMA e se omite a sua lamentável história. Eis, deste modo, um novo problema, aquele que sobrevém da inverdade que a verdade da evidência se arrisca a ocasionar e a fazer frutificar, desvanecendo assim o verdadeiro e lídimo PROBLEMA.