domingo, fevereiro 08, 2026

ONDE ESTÁ A “CIGANICE”, AFINAL?

A xenofobia preconceituosa anda cansada. Muito cansada. Sofre, suspira, diz-se esgotada por este tempo moderno que insiste em ser povoado. Há gente a mais, vida a mais, ruído a mais. Pessoas fora do sítio, fora do tom e, sobretudo, fora do delicado acordo tácito que define quem pode existir sem incomodar. Respira-se mal, não por falta de ar, mas por excesso de gente errada.

Há demasiada gente a passear, não a trabalhar, como se o mundo não fosse um estaleiro moral permanente. Demasiadas vozes sem licença, hábitos sem manual, presenças que se recusam a aprender a virtude fundamental da urbanidade: desaparecer. O incómodo torna-se, então, a prova suprema de sanidade. Quem não se irrita é suspeito. Quem não se indigna, cúmplice. Quem não se queixa é, claramente, parte do problema.

O discurso fascistoide domina esta arte com notável eficácia. Escolhe um alvo socialmente desprotegido, cola-lhe todos os rótulos disponíveis - preguiça, perigo, parasitismo, desordem - e apresenta-se, com ar grave e voz de locutor responsável, como fiscal da ordem. Uma ordem curiosa, diga-se: aquela que permite insultar e provocar sem consequências e exige silêncio absoluto de quem ousa responder. Ordem simples, acessível a todos: falar alto, apontar o dedo com convicção e chamar coragem à falta de vergonha.

Não se trata, convenhamos, de resolver conflitos sociais. Isso daria trabalho, exigiria pensamento e algum risco ético. Trata-se, antes, de os explorar, de os encenar e, sobretudo, de os tornar produtivos. Não se procura convivência, fabrica-se resignação. Não se quer justiça, administra-se submissão. E, se possível, votos suficientes para continuar a chamar democracia a este exercício de intimidação coletiva.

Os votos vão-se apresentando. São 15 horas. Faltam algumas horas, aguardo. Não posso aceitar que esteja enganado. Esta versão irónica e corrosiva não é mais do que uma ilustração que apela à compreensão humana e que, neste momento eleitoral, constitui um valor, entre muitos, que a democracia deve reconhecer e com o qual se deve comprometer e solucionar. Assim, espero confiante. 

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