quinta-feira, julho 12, 2018

“DE PERNAS PARA O AR”, UMA HOMENAGEM A EDUARDO GALEANO


No dia 17 de julho o auditório da Fundação José Saramago acolhe uma homenagem ao escritor uruguaio Eduardo Galeano, falecido em 2015.  Para conversarem sobre o legado do autor de De Pernas para o Ar – a escola do mundo às avessas, estarão presentes Alejandro García Schnetzer (editor), Gaddafi Núñez (músico) e Pilar del Río (jornalista).


domingo, julho 08, 2018

“DEVER DE SER FELIZ” NESTA CAÓTICA REALIDADE? SIM, MAS…


Vive-se um tempo de reconhecida inquietação civilizacional. A ordem política e económica globalizada não se mostra capaz de resolver, e como tal de disfarçar, a vastidão das facetas caóticas que justificam tal inquietamento. A experiência socialista foi o que foi, o capitalismo global revela-se depredador e os ideais humanistas frágeis e desarmados. As denúncias e as contestações multiplicam-se, dispersando-se por um continuum fragmentado, desenhado e finalizado de materialidades múltiplas e diversas. Apontam-se discordâncias, a crítica à exploração sobe de tom e as desigualdades e injustiças sobrenadam visíveis á tona da realidade das nossas vidas. Nestas circunstâncias, o valor do homem tem-se vindo a instituir e a prolongar, no quadro da evolução histórica da acumulação capitalista, como objeto de troca no circuito das mercadorias, sujeito, assim e obviamente, ao continuado arbítrio e interesse dos outros. Os princípios individualistas fazem, deste modo, o seu caminho, autoalimentados por uma desalmada ética alicerçada sob o signo de uma fraqueza, a felicidade hedonista, que hoje, mais do que nunca, a mobiliza. Se assim é, impõe-se a demanda de um conserto ético, uma outra ética que naturalmente, em face do retrato acima referido, tem vindo a ser violada ou progressivamente excluída. A definição convincente desta, enquanto modelo ideal, pode apresentar-se imprecisa, mas a ideia, por si só, tem a potência de desorganizar a obediência aos algoritmos que a escoram, procedendo assim ao seu urgente e necessário corte. Deste modo, sugerindo prováveis e novas perspetivas e possibilidades de vida, assim como despertando, desejavelmente,  modos alternativos e compreensíveis de subjetivar a felicidade.

segunda-feira, julho 02, 2018

COXA E INCLINADA, A IMPOSSIBILIDADE DA QUADRATURA DO CÍRCULO


Banner2_quadratura_circuloEm jeito de tópico central acautelaria a ideia, porventura a crença, de que disputar a verdade da Desigualdade e da Injustiça, acintosamente maiusculizadas, torna-se uma manifestação que garantidamente espelha quem a tal se expõe. Ser de diversas pertenças, de naturezas múltiplas, por certo, e desde logo, tal condição indelevelmente marca o horizonte das nossas disputas humanas. A todo o tempo, esse além apresenta-se distinto e, acima de tudo, dissemelhante na sua imediatez. Porém, entranhados no (e pelo) princípio da estratificação, e como tal amarrados aos seus critérios de sujeição, esse tornar-se diverso, de um modo inconsciente, deixa-se entorpecer pela inércia da naturalização e da sua vigorosa dinâmica socializadora. Como? Supostamente através da sedimentação de uma consciência social que advém, creio eu, da apropriação, poder e uso desigual das engrenagens da vida coletiva nas suas múltiplas possibilidades e contingências.

Esgrimir argumentos sobre aqueles temas, teimosamente acasalados, só a petulante tecnicidade económica se afirma valorosa e capaz, conseguindo impor-se, digo eu, pela falaciosa e fabulizada retórica da neutralidade da sua diligência. Deste jeito, as ideologias que dela se servem deixam assim de o parecer, tornando-se ilusão útil, ao contrário de outras, ato contínuo inculpadas de cuidarem unicamente de suspeitos interesses de grupo, corporativos ou de classe. Eis as raízes silentes da matriz neoliberal, consubstanciadas no enaltecimento da regência técnica, no desamor pela democracia e na aversão ao Estado social. Daí que, a Quadratura do Círculo, usando apenas a régua e o compasso do arranjo capitalista, falha na sua geometria política, pese uma certa e ajuizada moderação, considero eu, de Pacheco Pereira. Jorge Coelho, este, por sua vez, em tal caso e circunstância, de régua em punho, vai gizando linhas endireitadas de cauteloso otimismo, prudentemente rabiscadas, como convém, de coloridos traços pragmáticos. Lobo Xavier, mais explícito e desvendável, ufanamente apegado ao seu compasso, reduz-se a esboçar círculos que balizam garantias aos que trabalham, assim como ao investimento que a todos possa servir, dando espaço, e de muita sobra, aos bonecos ilustrados dos negócios privados. Isto posto, com tal régua e esquadro, estou convicto que jamais se criará o almejado quadrado de igual área ao suposto círculo. Coxa e inclinada, a Quadratura do Círculo assim se manterá, sempre viva, na sua epidémica impossibilidade.

Foto retirada DAQUI

quinta-feira, junho 21, 2018

O SINAL DE RODRA

Chego a casa e vejo um relâmpago. Toca a sair de máquina fotográfica, a adrenalina está ao rubro, penso num lugar, e... a imagem fala por si, uma das fotos da minha vida... O espectáculo é do mais lindo que podes ver... Mas principalmente, esta foto é uma das da minha vida, porque é um sinal... É um sinal de como devo lidar comigo. É um sinal sim, e eu agora percebi tudo”, remata o autor no texto que acompanha a foto.

BALEAL FOTO

Foto tirada por Rodrigo Paulino Lopes (RODRA) que merece ser partilhada. Acredito que o autor não leve a mal a ousadia de o fazer.

domingo, junho 10, 2018

A COCAÍNA DA BOLA, EXPEDIENTE DE DESFOCALIZAÇÃO POLÍTICA


Vale a pena divulgar, parte de um artigo de opinião de Pacheco Pereira, pela natureza da sua denúncia. Trata-se de incriminar um tipo avassalador de controlo do discurso público, a favor de uma dominância e hegemonia que, pela sua soma, e mediante o silêncio comparsa da ordem comunicacional instituída, convém política e culturalmente aos poderes (e interesses) que delas carecem e delas sabem - e bem - aproveitar.

É por isso que se pode reescrever o artigo da Wikipédia sobre a cocaína:

“O futebol é um estimulante, com efeitos anestésicos, utilizado fundamentalmente como uma droga recreativa, muito útil quando há pouco pão, para que haja muito circo. Pode ser visto, ouvido, lido, aspirado, fumado ou injectado. Os efeitos mentais podem incluir perda de contacto com a realidade, um intenso sentimento de felicidade ou de violenta agitação. Os sintomas podem envolver aceleração do ritmo cardíaco, transpiração e dilatação das pupilas, grunhidos, gestos obscenos, pinturas de guerra e porte de cornos na cabeça. Quando consumido em doses elevadas, pode provocar hipertensão arterial ou hipertermia ou definhamento da inteligência em geral. Os efeitos têm início dentro de alguns segundos ou minutos após a sua utilização e duram entre cinco e noventa minutos, pelo que é necessário estar sempre a ver televisão, a ouvir rádio, a ler jornais, a falar de futebol nos cafés, a discutir no emprego, em doses cada vez maiores.

O futebol é muito viciante, graças aos efeitos provocados no cérebro, que assume cada vez mais a forma de uma bola. Existe um sério risco de dependência, mesmo se consumido por um curto período de tempo. A sua utilização aumenta ainda o risco de acidente vascular cerebral, infarto do miocárdio, problemas pulmonares em pessoas que o fumam, infecções sanguíneas e paragem cardiorrespiratória súbita, violência doméstica, homofobia e outras filias. No seguimento de administração repetida das doses, a pessoa pode ver diminuída a sua capacidade de sentir prazer e fisicamente sentir-se muito cansada, e ter várias formas de impotência, a começar por cima e a acabar em baixo.”

domingo, junho 03, 2018

A PARLAMENTAÇÃO ENTRE A ÉTICA E A CONVENIÊNCIA POLÍTICA


A briga discursiva sobre o mote da eutanásia ofereceu, no Parlamento, alguns surpreendentes momentos de manifesta elevação. Admito que apreciei certas apresentações, e indagações, não obstante as orientações de voto. Em ambiente sobretudo político, comprovar uma consciência generalizada da necessidade de abertura ao conhecimento, agradou-me. Aperceber-me esquadrinhados alguns caminhos interdisciplinares, desafiou-me. Reconhecer o sagaz acolhimento à fatal complexidade da matéria em disputa, enobreceu o debate e quem o encorajou. Nestas situações e circunstâncias, assim penso, o discurso político mostrou-se mais honroso, escapando à fácil e esquemática simplicidade, bem como aos limites da acostumada vulgaridade politiqueira de feição camiliana. A tonalidade filosófica dos problemas humanos esteve presente e o contributo científico não foi esquecido. Ao discorrer-se sobre o sentido da existência do ser humano atingiu-se, e bem, o reclamado campo da Ética. Importa, todavia, avançar mais, sem estremas nem pre(con)ceitos, a fim de alcançar uma profunda compreensão da perdurável controvérsia. E com a conquista desta, e através dela, exercitar um pensar livre, assumindo o dever e a responsabilidade de politicamente agir em uma fundada conformidade. Estreitando afastamentos entre a Ética e a Política, dignificando a Condição humana e o valor indissociável da Liberdade que a Ela intrinsecamente se associa. O futuro ansiado vai-se assim prenunciando. Seguramente.

segunda-feira, maio 28, 2018

ENLAÇAR AS ESQUERDAS? PORQUÊ? COMO? PARA QUÊ?


Interpelações pedidas de empréstimo a Boaventura Sousa Santos (BSS), para as quais esta desassombrada intervenção de Pedro Nuno Santos me desperta. A esquerda é diversa e, sobretudo neste tempo político, a convicção, compromete-me levar a ideia a sério. Não é fácil, mas julgo-a necessariamente útil e perscrutante. Citando ainda BSS, é indispensável “revolucionar a democracia e democratizar a revolução”. Para quem não engrace com as palavras revolucionar e revolução, sirva-se de outras semanticamente acertadas; mudar e mudança. Não dificultando, dir-se-ia assim: é indispensável mudar a democracia e democratizar a mudança.




sábado, maio 26, 2018

CAVACO SILVA, A CAPACIDADE DE DESPERSUADIR


Não lido bem com ferocidades altaneiras que, supondo refutáveis superioridades, lamentavelmente buscam obediências entorpecidas. Por isso, acompanho-vos


sexta-feira, maio 25, 2018

JÚLIO POMAR - O RISCO


Texto retirado de COMUNIDADE, CULTURA E ARTE

Este filme biográfico traça o retrato de um dos mais importantes pintores e escultores portugueses contemporâneos, através do seu testemunho e depoimentos de pessoas de vários quadrantes da sociedade, entre eles António Lobo Antunes, Siza Vieira, Mário Soares, Vasco Graça Moura, críticos de arte e galeristas, entre eles o fundador da Galeria 111 e galerista de Pomar em Portugal, Manuel Brito.




O percurso de Júlio Pomar (Lisboa, 1926 – 2018) é feito de rupturas e regressos. Abandona a Escola de Belas Artes devido a uma suspensão. Lidera o movimento neorrealista. É preso. Faz viagens, como a Amazónia, e descobre os seus grandes mestres. Instala-se em Paris em 1963. Desagrada-se com a pintura e destrói telas. Pratica cores lisas e contornos definidos mas também pintura livre e gestual. Faz colagens. Pinta erotismo. Decora espaços públicos. Ilustra grandes obras da literatura universal. Faz retratos polémicos. Gosta de rir e de viver. Apanha um susto e renasce para a vida. Pinta grandes formatos. Expõe em várias cidades do Mundo. É condecorado. Recebe prémios. Embarca nos mitos e odisseias. Marca o eterno retorno a D. Quixote. Faz esculturas,  assemblage, ilustração, cerâmica e vidro, tapeçaria, cenografia para teatro e decoração mural em azulejo.

quarta-feira, maio 23, 2018

A GLUTONIA INSACIÁVEL DO ARRANJO


Impõe-se a sidérea globalização como de uma benfazeja e sentenciosa pertença se tratasse. Sendo um estradeiro à esquerda, calcorreando caminhos que imaginam, amanhã, alcançar dignidade para os desabrigados de hoje, acompanho alguns outros recalcitrantes heréticos. Todas as tretas que buscam carcomer o princípio do Estado, em favor de premissas mercantis, continuamente não passam de ardilosas ciladas no sentido trapaceiro de atingir formas prestadias e gananciosas de um dócil alinhamento gregário. A suposta charada, na sua linguagem labiríntica, mantém-se obscura porque homizia o seu mostrengo neoliberal. Daí, não rareiam os jorros de vomições desreguladoras, os panegíricos à privatização, os elogios aos seus senhores, assim como os cultos venerados aos bancos, aos agiotas e a tantos outros anelídeos tipo FMI. Entrementes, pela calada bem cuidada, vai-se confiscando a democracia, premissa alicerçadora da sangria a extrair. Adormecidos, lá vamos esquecendo necessidades que de facto fazem falta, tanto quanto vamos aceitando uma liberdade contaminada de serventias e constrangimentos. A democracia assim se vai apodrecendo desgraçadamente corrompida. Assim parece ser a autofagia do Capital. Assim vai acontecendo este licencioso e selvagem imperialismo capitalista.

terça-feira, maio 22, 2018

O PONTO DE INTERROGAÇÃO DE JÚLIO POMAR

PomarMORTE? DESCANSAR RAPAZES

De acordo com o Público de 5 de Março de 2014, reaviva-se o cartaz do programa de comemorações dos 40 anos do 25 de Abril pela A25 de autoria de Júlio Pomar e de Henrique Cayatte. Uma imagem com fundo vermelho, com um ponto de interrogação branco desenhado ao centro, e as datas, 1974 a verde e 2014 a preto.

Questionado sobre o significado do ponto de interrogação, Júlio Pomar justificou-se com a incerteza dos tempos, sublinhando a “gravidade do momento que estamos a atravessar”. “Daqui para a frente o que é que vai ser?”, questionou. O autor da imagem referiu-se ainda à urgência de discutir a "revolução dos cravos", notando que a média de idades das pessoas presentes era um “sinal muito grave”, sendo por isso fundamental “aproveitar a experiência” dos que fizeram Abril.

Júlio Pomar decidiu então descansar. Por isso, importa relembrar a figura, evocando hoje, em 2018, a sua irreverente e militante inquietude.

segunda-feira, maio 21, 2018

AS LÁGRIMAS DE PATRÍCIO

https://www.jn.pt/opiniao/ines-cardoso/interior/as-lagrimas-de-patricio-9360633.html

Do escrito, o devaneio que elejo:

“Na Comunicação Social, podemos começar por não dar tempo de antena a comentadores que em direto oferecem porrada. Ou retirar-nos de salas de imprensa quando os Brunos de Carvalho desta vida ficam horas a falar sem espaço a perguntas. Se nem desta vez aprendermos alguma coisa, o futebol continuará a perder”

Será que a ideia terá colo numa comunicação social que encoraja e transaciona esse despudorado “negócio”? Será ela, a ideia, igualmente suficiente e suficientemente eficiente? Do que precisamos afinal? Sejamos mais claros, sem (A) “economia de responsabilidades…

quarta-feira, maio 16, 2018

ENTENDER A CULPA, UM DURO TRABALHO


A subordinação que nos cativa, desencaminha o dever de responsabilidade. A consciência que vivifica tal acato, do meu ponto de vista, não nos submete moralmente. Admitir-se responsável pressupõe reconhecer a culpa no descuido. Para tal, impõe-se lutar pela autenticidade, pela verdade, escapar ao medo, fazendo o fatigante caminho capaz de despertar uma clara consciência da culpa. Ou seja, da culpa que sobrevém de uma moral educada na liberdade e na responsabilidade e nunca corrompida pelo medo dogmático dos valores, das imposições ou dos preceitos doutrinados.

segunda-feira, maio 14, 2018

DE ONTEM, SOBREVIVEU AMAR PELOS DOIS


Ontem, confirmou-se. AMAR PELOS DOIS fez-se uma canção singular e invulgarmente admirável.

Composição de Luísa Sobral, arranjo de Luís Figueiredo e com a talentosa interpretação de Salvador Sobral



quinta-feira, maio 10, 2018

É OU NÃO GRANDE PENALIDADE?


PENALTIQuando alguém fala do que toda a gente viu, a realidade mostra-se estranhamente diversa. A diferença mora, sem dúvida, na desordem dos olhares e, de modo algum, como é óbvio, nos factos vistos. O real e o imaginário acertam, no seu todo subjetivo, a interpretação que convém. O tolerante dirá que tal acerto é uma sequela da natural paixão e da emoção que a ela se associa. Decerto que sim. Todavia, a persistência dos excessos, e o jeito armífero com que se manifestam os arbítrios, não cabem no regaço bondoso da compreensão. A insistência obstinada na versão, que não se reconhece tendenciosa em tempo algum, adquire claramente características patológicas. Com o tempo, o encarniçamento nada explica, apesar de se explicar de mais e, acima de tudo, bloqueia em definitivo a capacidade, afinal, de separar a ficção da verdade. O ambiente do bate-boca ganha assim, através da intoxicação verbal alardeada, contornos de uma risível, embora penosa, paranoia tristemente generalizada. Não será grande a penalidade, mas é, na verdade, uma inevitável indigência comunicativa.

domingo, maio 06, 2018

SERÁ O TEMPO DO DESTEMPO?


Apanhar a tempo o tempo é uma qualidade política. Fazer da contingência uma possibilidade é exercer essa qualidade a tempo. Era cedo, sim; poderia ser tarde, evidente; mas será que é agora o tempo certo? No Congresso far-se-á, naturalmente, juízo desse tempo. Sócrates, tendo ido, mas não desaparecido, fulgurará nele com uma exabundante e somada vida. Não obstante, para um cruel estrebuchar, afinal para um desenlace último, quiçá insondável, creio por muitos apetecido. Atados pelo desfastio, mas desavindos na fraterna briga entre a história e os votantes. Uns, escudados na nobre retórica do célebre imperativo categórico; o de à Política o que é da Política e à Justiça o que é da Justiça. Os restantes, decerto bem mais numerosos, fartos de más companhias, entredentes desfraldam, embora retraídos, opostas vontades. Para estes, o categórico não dá votos. Outros imperativos os inspiram. Prouvera Deus, diz o ateu, seja outro que não o asfalto esburacado da terceira via. Haja tempo. O Congresso atestará.

sábado, abril 28, 2018

… as redes sociais vieram dar voz aos imbecis!


Regressando a esta asserção polémica de Umberto Eco e em resposta a um comentário produzido face à postagem na altura por mim colocada no facebook, senti-me na necessidade de expor o seguinte esclarecimento, que achei por bem incluir (hoje) no GRITOEARGUMENTO.


Esclareço que julgo não ser um bobo feito “profeta da desgraça” no que respeita às tecnologias digitais. Nelas não pressinto, de modo algum, o diabólico, nem empobrecimentos avassaladores. No plano pessoal, a elas recorrendo hoje como um recurso inevitável e altamente vantajoso, não deixei, porém, de conviver, de ler e de escrever, aliás agora até com cuidada regularidade e entusiasmo. Reconheço, como a generalidade das pessoas, que as armadilhas não estão na tecnologia, mas na forma como se usa e se convoca o seu uso. Algo é certo e que importa registar; a evolução digital favorece e potencia transformações bem visíveis nos paradigmas tecnológicos com um enorme impacto nas dinâmicas sociais, nas mutações socioculturais e, até mesmo, nos nossos ambientes antropológicos. As redes sociais fazem parte desse grande domínio, hoje designado por cibercultura, através das quais se partilha valores, linguagens e ícones. Assim sendo, não se trata de calar os imbecis que legitimamente por aqui jornadeiam. O que importa dizer é que os há e em número enorme. Imbecil, refere o dicionário, é um idiota, um parvo ou mesmo um tolo que alimenta, pela negativa, e frequentemente com petulância, a asneira grossa, a mediocridade ética, o ataque injurioso e não tanto o desconhecimento e a ingenuidade. Denunciar este tipo de comportamentos, diria de fenómeno, é um exercício de responsabilidade e de cidadania. Provavelmente, Umberto Eco usou de uma estética discursiva altaneira e deselegante. Mas este suposto pecado do doutor honoris causa não dá, de modo algum, razão aos imbecis e aos seus comportamentos.

quarta-feira, abril 25, 2018

ITINERÂNCIAS DO SILÊNCIO AO VALOR DA PALAVRA


O incitamento ao silêncio habitualmente por si se confessa. A sua originária estranheza dissipa-se, aclarando-se, com o desenrolar do seu pulsar enovelado. De começo, aparentemente intangível, o silêncio vai-se assim deslindando. Os sinais, gestos por demais humanos, soltam decerto o recôndito segredo. Para tal, subsiste a sua ramosa proximidade. A que o acompanha de perto e uma outra que o orienta para lá da circunstância. É assim um silêncio que fala sem palavras, espelhando a translucidez do não-dito. Quiçá, um silêncio que aguarda sereno a vez da palavra necessária. Deste jeito, o sentido do silêncio passa por esta arte de bem usar a linguagem do dizer e do não-dizer. Uma aprendizagem que se firma no recato da presença autêntica, sem distâncias ou vazios. Um silêncio sem solidão, afinal preso ao apego e à vontade de sempre fazer. Não se me apresenta simples. Embora tardiamente, vou-me aventurando no empreendimento.

quarta-feira, abril 11, 2018

EM CONTRAMÃO, TALVEZ SE ACERTEM RUMOS


Reagir, saber reagir, insurgir-se, em regra são, quiçá, atitudes não só dignas como socialmente higiénicas. Sobretudo, em face de silêncios entorpecentes, e insistentes, provindos de arranjos assentes em lugares e circunstâncias de assimétricos poderes. A medrosa mudez aqui indiciada torna-se, destarte, oportuna condição de ainda mais domínio, guarnecido, como é conveniente, de conspícua e ufana superioridade. A distância afinal, por muitos desde sempre namorada, assim se estabelece, certamente se instaura, e a arbitrariedade com social desembaraço se metaboliza em obstinado abuso. Costumeiramente mediante expedientes que se vão simbolizando sob formas matreiras e sortidas de pedantices ideológicas, em permanente aclimatação da sua aburguesada base algorítmica. Ou seja, uma base, tipo excipiente, onde se faz germinar, e daí medrar, a tão propalada e enjeitada manipulação.

domingo, abril 01, 2018

OS BALDIOS DA NATURALIDADE


O “à toa” tornado natural, amiúde se inebria na nascente das abstrações. Despreza, ou mesmo humilha, descuidada, a condição terrena do seu álveo concreto. Daí, se desponta um sortido de duvidosos supostos, aforismos decerto humanos e ocultados em augustos princípios. De propósito, ou não, estes calam sempre a sua nudez, diga-se ingénua, da sua mancebia lógica. Neste incauto e preguiçoso entrelaçar, quiçá assustado, tal nexo faz das suas. As relações e os vínculos, por isso, e nessas circunstâncias, detalham aparências onde o singular se mostra alegremente dispensado das suas pertenças e determinações. A partir daí, move-se a incessante e genérica moldura de um esboço alegórico com as saloias pretensões de se incutir em decisiva representatividade. A compreensão das coisas, desde então, ufana e atoleimada, difunde-se através das suas sonambúlicas derivas. Porém, num descampado onde o precioso sentido do transformável se desorienta ou, pior ainda, de todo se perde. Mesmo quando sós, bem reconhecemos que jamais caminhamos sozinhos. Melhor, e talvez com mais acerto, diria que é bom e conveniente lembrar que a humanidade é aquele vital e útil “terreiro do não-eu” onde o eu se situa e vive e aí se projeta e singulariza. Em consciência, onde o singular, o dito individual, se solidariza (ou não) com o Outro no transformável mundo que importa. Com (ou sem) esperas celestiais ou transcursos homólogos. O natural é (ou pode ser), de certo modo, um descuidado impensado que espera (ou desespera) mais de nós e das nossas humanas faculdades.

sexta-feira, março 23, 2018

O INFERNO ESTÁ NOS OUTROS, EIS A CERTEZA DO NOSSO FUTEBOL


O futebol e seus abarcantes, pouco a pouco, cada vez mais, consomem (e consomem-se de) uma prática viciada e viciante. Animada por interesses e valores bem diferentes, e diferenciados, nesta trama todos são cúmplices e, paradoxalmente, de igual modo coniventes. Afigura-se, assim, uma realidade de obscura obediência, supostamente a uma intrusiva teologia à volta da bola e das suas piruetas. Brotada esta, quiçá, por uma vulgata versio que a todos desobriga do sacramento da razão. Da religião assim emergente enxerga-se, certamente, um qualquer cabalístico deus fanático, que se revela em espírito aos seus santos caudilhos. Daí, aos diletos intérpretes destes impende o posterior e divino apostolado do urgente refinamento dos seus crentes. Adquirida a vital e acossada , condição precípua de acolhimento e pertença, o desprotegido entendimento, agora sobrante, apenas alcança a evidência do dogma que assim se tonifica. Deste jeito, o fanatismo religioso em modo clubístico talvez baste. Desde de que a decência da virgindade original se invente diluído na trama religiosa da semelhança. Tarefa a que alguns intelectuais da nossa praça se dedicam com genialidade, pedantismo e … patético patetar servilheteiro.

quinta-feira, março 22, 2018

EVOCANDO O AMIGO CARLOS MEDEIROS

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INSOMNIA
(«A voz humana», Jean Cocteau-Teatro Nacional São João)

Poderia ser uma imagem do que antecede ou se segue ao telefonema que uma mulher faz ao amante que a abandona, … aproximando-nos antes dos anos 1930 e 1940, a época em que o monólogo de Cocteau se estreou e conheceu, primeiro, o escândalo e, depois, uma invulgar fortuna. Inspirada no imaginário do film noir, utilizando sombras dramáticas e alto contraste, INSOMNIA oferece uma narrativa densa, sem desfecho.

(retirado de http://www.carlosmedeiros.com/)

quarta-feira, março 21, 2018

OS MEDIA, UMA FONTE TÁCITA DO POPULISMO?


No seu livro O QUE É O POPULISMO?, Dani Rodrik diz-nos que Fukuyama, ao prenunciar “O Fim da História”, não reclamaria sustentar o fim de todas as hostilidades. Talvez afiançasse, isso sim, que a democracia liberal (associado ao capitalismo de mercado) não teria no futuro, e no plano das ideias, eficazes concorrentes. Para tal, como justificativas, convoca a assombração do “islamofascismo”, avoca o “modelo chinês de capitalismo” e, sobretudo, desperta para o perigo crescente fenómeno do populismo. Dani Rodrik contraria, com tais fenómenos, o altaneiro convencimento de Fukuyama. Acima de tudo, e isso particularmente me interessa, manifesta que tal perigo possa vir do próprio interior do mundo democrático, hoje reconhecidamente rebaixado.

Este último lampejo, o do populismo que daninha enraizado no modelo democrático, é aquele que, por isso, aqui importa permanecer e, a ele recorrendo, espiar culpabilidades que os media têm vindo a gerar no adensar da epidemia desta doença politicamente traiçoeira. Entre o que o cidadão necessita de saber (exigência política) e o que interessa ao consumidor (conveniência de mercado), solta-se a substância de um intervalo que se impõe assim como matéria de indagação. Não perdendo tempo, por evidente serventia ao intuito de despudorada despolitização, com um tipo de mediação/mediatização afeito às alcoviteirices sociais, às indecorosidades sexuais e aos crimes e escândalos que compungem, sem interrupção avanço, de um modo esquemático, para a sinopse que importa.

Historicamente, julgo ser consensual que o jornalismo serviu provadamente o instituir da Democracia, designadamente da democracia representativa. Hoje, o dito Mercado, através de um todo poderoso industrial e empresarial no campo da informação, tem vindo a distorcer a qualidade dessa irmanada e alicerçadora convivência memoriosa. Como prólogo aos tópicos que a seguir na sinopse se considera, vale a pena caracterizar, em jeito breve (e decerto caricatural), o que significa (e alcança) esta, hoje, original máquina social do mediar imediato da informação. Ela (esta máquina) encaminha, através de acertados filtros, os nossos olhares a espreitarem e a descodificarem uma certa, aliás particular, e (correntemente) imperfeita realidade. Ela (esta máquina) doutrina mais do que informa, propagando astutamente discursividades fragmentárias e favoráveis ao talhado arranjo da nossa perceção política e ideológica. Ela (esta máquina), e de um modo larvar, impinge um saber superficial, alicerçado em decididos factos e opiniões, que adiante move e moverá úteis juízos de valor pragmaticamente convenientes, convertendo assim tal engenho num eixo axial do andamento democrático.

Tendo presente que o poder desta maquinaria informativa, em síntese, opera em dois relevantes domínios, ou seja; (1) no da descodificação e interpretação dos factos e, como tal, nas implícitas sugestões veiculadas no campo das análises e leituras politico-ideológicas e (2) no dos sistemas de representação estruturados quanto à compreensão da realidade, com o consequente impacto no campo da crítica social e política, aqui deixo para inquérito o seguinte e premente enredo; até que ponto este ordenado poder, que entre nós e a realidade, opera, se faz (ou não) hoje um mastodôntico território simbólico, que nos vem afiliando (ou não) ao teatral divórcio ante a materialidade objetiva da nossa concreta experiência de vida, dos nossos interesses reais, recolocando no lugar destes alienantes considerandos embelezados pela lógica consertada e domesticadora demarcada pelas conveniências dos respetivos mercados? Na minha modesta opinião, a somática colagem dos media aos interesses vantajosos destes últimos proveitos, tem vindo, creio eu, a instigar o incremento da insurgência antissistema e, como tal, a tornar-se numa silenciosa e pérfida parceria, fonte significante deste generalizado, mas perverso populismo crescente. Estarei eu a ser descomedido nesta alarmante, embora pessoal inquietação?

domingo, março 18, 2018

ONDE A RAZÃO ADORMECE, OS BARREIRAS DUARTES RESFOLGAM


O exercício político, numa sociedade democrática, não é nem pode ser interditado a qualquer cidadão que o queira exercer. Pois, simplesmente tal exercício não exige uma qualquer e determinada qualificação. O culturalmente inquietante é quando parece aceitar-se a surda oficialização desta opaca exigência. Ainda assim, mais sério é quando, não sendo forçosa a qualificação, se recorre à fraude, fazendo-se valer de créditos que não se porta. O inquietante situa-se no plano da discriminação - inaceitável. A fraude no domínio da ética - condenável. Logo, é este segundo, o da intrujice, que importa instituir como instância excludente. O político que dela se serve, não serve. Ponto final.

domingo, março 04, 2018

O AGITADO ACERVO DO INCERTO

Com mais ou menos distância, curiosos espiamos o pequeno mundo à nossa volta. Amiúde, a corrente e irreprimível opinião advém daí fria, desproporcionada ou tontamente comprometida. O ponto de vista raramente se forja no sofrido silêncio das meditações do pensar. De um modo fácil e ligeiro assim apressamos a crendice que supostamente a advoga e confirma. Com a avidez de entrar em cena, o falar não ajuda. Pelo contrário, pois à exigência do pensar, priva-se o seu merecido tempo. A repentina produção bruta, deste jeito, cegamente aliena o desafio da paradoxal urgência do seu acabamento. Sendo o pensar uma prática solitária, aparentemente silenciosos, os outros estão aí sempre presentes. Estimulando as nossas hesitações e agitando as nossas certezas. Com a pressa de a estas chegar, com igual ligeireza enjeitamos a fecundidade do incerto. Nesta longa e humana viagem, feita de concordâncias e discordâncias, as incertezas cumprem a sua serventia. O seu potencial valor de assim fazer progredir o pensado que, afinal de contas, interessa escutar e partilhar. Sem qualquer banimento de percursos que dessa viagem são parte, das simples caminhadas às extensas rotas. O agir humano e social desta clarividência carece. Não obstante, sem oníricos e inférteis idealismos.

domingo, fevereiro 18, 2018

SIM, ATÉ JÁ

Os escritos estilhaçados que aqui trago e arrumo são, como expressamente acautelo, meros apontamentos de circunstância feitos de triviais notas que restam da vida. Nem sempre o ânimo colabora nesta arte de juntar palavras capazes de fazer cabriolar os desabafos calcados pelo sucessivo descuido e fraqueza. Para mais, não é fácil escapar ao lampejo dos códigos, despegando os rostos das circunstâncias, assim como os seus rastos do ramerrame dos dias. Mais do que as palavras, interessa-me a escrita da liberdade, malgrado a história e o peso das próprias palavras. Não tem sido fácil. Daí, até breve.

terça-feira, fevereiro 06, 2018

LIAMES DA AMIZADE

Sem dúvida, ter-se amigos abrilhanta sociabilidades. Mas se à amizade se soma o companheirismo, sente-se a distância das afeições. Um amigo, a sê-lo, em princípio é sempre um amigo. Um amigo companheiro é, no entanto, não apenas mais um amigo, mas sim um amigo-mais. Um amigo que, mesmo não palmilhando os mesmos caminhos, se entrega às nossas sortes, às nossas angústias e adversidades e, aquando dos nossos despertares, com a sua lídima vizindade engrandece o nosso entusiasmo. Em síntese, um amigo companheiro que abertamente abraça por completo o sentimento de partilha, sabendo ler pacientemente as nossas sílabas, bem como captar a voz dos nossos silêncios. Um companheirismo, no fundo, que nos oferece, tão-só, uma singular amizade, se bem que uma amizade vivida simplesmente por inteiro.

domingo, fevereiro 04, 2018

JANEIRO JÁ SE FOI. REGRESSOU O BAR DA PRAIA (BALEAL)

IMG_20180204_115040Eis um LUGAR do meu dia-a-dia onde o quotidiano das leituras me reinventa e as artes de pensar me surpreendem. Sinto até, por vezes, uma inefável intimidade que me oferece uma outra imagem de mim próprio. A geometria do seu espaço, o carisma circundante e o calor humano das suas gentes, embelezam em eufonia esse LUGAR existencial, por mim privado sem ajustada moderação. Acompanhado na minha solitária particularidade, o BAR DA PRAIA já não é, há muito, um mero não-lugar, ponto de passagem, provisório e incerto. Fez-se, ao longo destes últimos anos, um LUGAR inevitável. No seu singular espaço vai acontecendo um acrescer de jogos reflexivos que me completam, me despertam e me entusiasmam. Rodeado, porém, do préstimo magnânimo dos livros que, comigo, conversam. Tempos já tardios, sim, mas tempos sobremodo prazenteiros que experimento darem-se neste LUGAR do BAR DA PRAIA.

quinta-feira, fevereiro 01, 2018

FAZENDO OU NÃO FAZENDO, SOMOS RESPONSÁVEIS


Com uma clara ou imprecisa consciência, desafiados pela forma como concebemos o mundo, todos somos explicados por crenças, convicções, valores e princípios. Dessa construção, quiçá ideológica, emanam as inquietações do homem e do cidadão concreto. A dimensão ética revela-se, em consequência, nas suas predisposições e orientação na presença do Real. Deste cenário não escapamos, arrumando urgências em torno das nossas vitais preocupações, humanas e sociais. A escrita, mesmo em modo de desabafos, como é o caso, não se livra desta disposição. Neste tempo de fortes desigualdades, o acordo da Liberdade com a responsabilidade de interceder em favor da Dignidade da nossa humana condição, para onde nos inclina, afinal de contas, a Ética? O que proclamar? Por mim, opto pelas inquietantes questões da Justiça e das injustiças. Contudo, sem alienar a Liberdade, mesmo que mediada pela própria liberdade.

sexta-feira, janeiro 26, 2018

LUGARES DE SINGULARIDADE


23416968_191901008041952_6990950217960914944_nO exílio, do sinistro degredo ao sóbrio isolamento, encaminha o homem para lugares, por certos desiguais, de imprecisos sentimentos de perda e ausência. Sobretudo, e em comum, de perdas que magoam a dignidade e confundem a identidade humanas. Daí se faz um cabouco que não acautela um humano assento aos alicerces da basilar e íntegra singularidade. A diferença inquieta, eis o silenciado fundamento, aliás  sempre presente, na mudez da exclusão. Em particular, porque incomoda e desfigura as abstrações e as racionalizações das almas sossegadas. Os zeladores da ortodoxia cultural e da sintaxe social cumprem aqui o seu papel. O impulso intrusivo à absorção, mediante o constrangimento à semelhança, de imediato é assim suscitado. Em consequência, as condições da verdade movem-se e ajustam-se. Da lógica da razão, solta-se então o furor desajuizado do reprimido. Na fé de que a dobra das vidas e das experiências consertem as expectativas e agasalhem o imperturbado futuro. Contudo, o exilado ao (sobre)viver, caminha por muitos e outros lugares e não-lugares, entre si miscigenados, certamente, em um lugar-outro. Rasgando, assim, novas fronteiras, alargando as suas experiências e, arrastado pelo desconforto, adentrando-se por outros horizontes, perspetivas e sensibilidades. Os danos, afinal de contas, nos seus efeitos, aos sentimentos de perdas, apensam e transladam outros possíveis alcances. Na busca de diferentes sentires e presenças que iluminem a própria dignidade e avivem, em síntese, o substancial da singularidade que dela, da dignidade, tem obrigação de cuidar. O necessário e o útil, nem sempre comunicam através da invenção da semelhança. Diria mesmo, raramente se entendem.

domingo, janeiro 14, 2018

IMORAL É DESISTIR, MESMO QUE SEJAM MONSTROS OS OPOSITORES


Vivemos num mundo onde nos escondemos para fazer amor! Enquanto a violência é praticada em plena luz do dia (John Lennon)

O Trabalho e o Capital permanecem teimosamente atados por um vínculo rixoso. A eruptiva (e mantida) pirraça do Trabalho amofina o Capital e, grotescamente, muitos dos arrivistas que nele pesticam. O Capital assim vive e tonifica-se. Esses outros, arranjistas de marca, penosamente remanescem sabujando a astuciosa distinção. O Capital, ao contrário do que se pensa, não exige só lucros. Precisa e inquieta-se por mais. Redesenhar a sociedade, concentrar poderes e subordinar recursos e capacitações. A responsabilidade ética (e moral) racionaliza-se. Deste jeito, cede o seu encargo ao servilismo do empenho técnico. A razão instrumental, com permissão, decreta livre em desgraça da sadia empatia humana. Esta, fatal e socialmente desacreditada como convêm ao agiotar do absurdo ideológico. O capitalismo, e o tal Sistema que o calça, captura a científica racionalização destes tempos modernos. Invade o campo das ideias fazendo do racional económico o cálculo arguto de todo o discernimento político. Abrangendo até a conveniente e injuntiva produção social da indiferença moral. É neste cenário que a rixa se impõe substanciar e prosseguir. A porra dos ajustamentos não pode foder sempre os mesmos. Esses mesmos que são, afinal, o Trabalho.

sábado, janeiro 13, 2018

A BANALIDADE DA INJUSTIÇA


Um mundo injusto acostuma a injustiça. Esta faz-se normal e impessoal. A qualidade humana hospeda o mal que a alenta e o cruel que com ela se articula. A moral já não atrai e o abuso da lei justa aproveita o vazio indefeso. Desperta-se e espalham-se significações nas remoinhadas consciências. Talvez não para a maldade ou para a estupidez. Certo sim para tornar inábil o pensar. E chega. É o bastante para cultivar a desnaturada e necessária banalidade. Com o tempo, viciante tanto quanto possível.

quarta-feira, janeiro 10, 2018

ENLEAR A VIDA NO CRIVO HUMANO DO DIVINO


imagesApercebo-me de Deus nos arrimos que ainda hoje encontro suspensos na minha memória. Se os acho, seguramente não fui ainda capaz de lhes atribuir o destino crítico acertado. Por primordialidade, a inteligência e o sentimento sempre se conciliam. Ainda assim, em situações de premência, por vezes, se apresentam desavindos. As ideias embora se mostrem razoavelmente claras, as significações perturbam-se. Não só pelo que é dado, mas sim pela sua filiação agregada em memórias e experiências então recuperadas.

Espiritualidade e religiosidade não sendo digressivas, são abstrações dissemelhantes. Ambas procuram o que se busca encontrar para além da inteligência humana. Distinguem-se pelo argumento da liberdade e da responsabilidade que aceitam no caminho de si e da relação com o Outro e com o Mundo. O místico apresenta-se-me embaraçosamente esotérico. Sobretudo, desacompanhado da materialidade ética dos valores que todo e qualquer “conduzir-se” exige. Assim sendo, aproximando-me de Leloup, Deus, se é ou não, uma hipótese inútil, a ele (Leloup) me associo. Partilho com ele a ideia desse Deus ausente face aos acintosos sofrimentos, injustiças e maldades que a História transmite e nela permanecem.

Insculpido, em tempo de iniciação, em sintaxes ficcionais de domesticação judaico-cristã, não me foi fácil afastar dessa ensinada proveniência. Os representantes fáticos desse Deus que revivo, submetendo-se ao beato fundamento, amiudadamente se me revelaram nefastos á realização plena do humano. Assim, fui-me afastando desse caminho, numa viagem sem esse Deus mas com os homens, virtuosos, comuns ou mesmo desalmados. Contudo, todos eles desigualmente imperfeitos, sempre imperfeitos. Com eles, escolhi palmilhar os roteiros de uma outra humanidade. Cada um à sua maneira, me oferecem e concedem as suas experiências e as suas dores. Em comum, não se busca a aquietação à sombra segura de um qualquer preceito religioso.

Certo, certo, é que aprendi sempre mais com a fragilidade do desalento humano do que com a convicta e ínclita pregação. A espiritualidade, sendo inerente ao ser humano, assim se vai enriquecendo na busca dolorosa de sentidos de Vida. Pertencer a algum lugar, estar com outros, partilhar autenticidades, dispensa dogmas e paradigmas que suscitem e amamentem culpabilidades. Aqui, a imperfeição não serve de justificação mas sim de desafio, pessoal, moral, social e existencial. A espiritualidade está, estou convicto, para lá das religiosidades e das religiões. Independentemente das experiências de felicidade para os que acreditam e creem na recompensa divina.

terça-feira, dezembro 26, 2017

O ÓNUS DO EMBARAÇO

As crises têm sempre um futuro. Promissoras ou ruins, de acordo como as adotamos. Sendo incertas, são certamente mudança. Possibilidades de alcance ou de queda. Assim sendo, crise é encruzilhada. Exige escolhas, mesmo que as hesitações entrelacem os caminhos. Por aqui ou por ali? A vida não pára e a história cumpre-se. Que rota tomamos? Quem escolhe? Quem decide? Nunca os outros. Logo, tentemos, nós mesmos.

domingo, dezembro 24, 2017

A "IDEOLOGIA DO AMOR" EMPACOTADA PELO TALENTO CONSUMISTA


Moita Flores, escreveu. Um texto divino, embora implacável. Eu sei, eu sei que esta simples e banal verdade das prendas natalícias amofina muitas e boas pessoas. Ainda assim, não deixo de desejar a todos, mesmo aos aborrecidos pela dureza do texto, que tenham as suas "prendas felizes". Porém, as prendas que desejo não as encontrarei, certamente, nesta data de um culto de "poeira efémera", desde há muito, dissoluto pelo selvagem consumismo.

Venham-me os genuínos e humanos afetos. Não aqueles outros umbigados que vivem de abstrações acolchoados de egotismo e filáucia. Aconteçam-me, sim, sociabilidades singularizadas pela disponibilidade sincera de abertura e autenticidade. Dispenso a tentativa de comunicar onde a partilha do comum não se faz busca, vínculo e amizade. Não aceito "ver-e-sentir-me" um ser meramente vegetativo, parte tola de um ritual e contrafeito aparato natalício. Sem este espírito, nem esta exigente verdade, duvido que possa existir O NATAL. Apenas se me cumprirá mais um falto e árido natal.

domingo, dezembro 17, 2017

A FITCH, AS NOTAÇÕES E A RELIGIÃO ECONÓMICA


Estar informado de muitas coisas não se faz por si um exercício habilitado de inteligência da razão e da ética. Assim e sempre, o meritório saber vasto e variado não vai à fundura do verdadeiro conhecimento. Fica-se, então e repetidamente, pelo verniz narrativo da contingência do mero acontecer. Quantas vezes, o mundo das representações se ergue, assim, assente nesta imediatez tecida de dados primários de consciência. Ou seja, através deste imaterial sem história e circunstâncias, do qual se procura reputar a abstração e se parteja o diminuído elemento empírico. Neste quadro interpretativo, e apoiando-me livremente em José Barata-Moura, diria que é nesta cartola de fundo falso que se procura, então, sacar os coelhos especulativos das razões convenientemente explicativas. Dessa arte, então entretidos e abstraídos, se vai caminhando, porventura, sem saber ao certo o caminho que se caminha.

sábado, dezembro 16, 2017

O ANTES E O DEPOIS DO “MAS”


O “mas” governa em si numerosos significados. Pode valer como socorro de uma ideia, acudir a uma relação com o já afirmado, ou mesmo, apenas avivar um destacado sentido. Ou, maliciosamente ainda, interessa aqui destacar, uma latente oposição. Acolher que se está de acordo, mas … significa, através deste subtérreo desmentido, que o essencial está por vir. Neste tempo, em que a busca da genuína tranquilidade se mostra custosa, este “mas” argumentativo é bem mais profundo do que o acordo antes antecipado. É o “mas” que comunica o que não tivemos coragem de tornar preciso e que, assim, nos afasta da então inicial e simpática sintonia abraçada. É o tal “mas” que evita, porventura, o doloroso trair último de sensações, a triste morte em vida e em lume brando, como ainda protege a sobrevivência das possibilidades de gozo rudemente domesticadas. No fundo, é aquele “mas” que nos faz ainda desejar e sonhar com um tempo menos castrador, mais autêntico e menos frustrante. Ou seja, um amanhã em que o princípio do prazer seja humanamente capaz, enfim, de educar e civilizar o atual e capturado princípio da realidade.

domingo, dezembro 10, 2017

OS OUTROS, E AS HISTÓRIAS QUE DELES RECRIAMOS


As coisas mais mesquinhas enchem de orgulho os indivíduos baixos, diz-nos Shakespeare


O subterfúgio da invocada natureza de vida interior é um artificio enganoso. Pior, comodamente dissuasivo, e para o próprio, por vezes, paradoxalmente impiedoso. A vida interior não é uma coisa, um íntimo em si. A vida interior existe, sim, se bem que na presença dos seus factos que se cravam no leito dramático de um real amiudadamente apoucado. Não obstante, quando isolados do seu lugar concreto, tais factos se tornam engodos míticos, pois esburgados e desnaturados de si mesmos. Viver no íntimo de nós próprios é experienciar a verdade, acaso um coabitar interior, ainda que resultado de uma autenticidade de ecos particulares, nem sempre alcançáveis. É nesta dura experiência, embora sempre incerta, que se busca a entidade ontológica daquela vida íntima que, assim e imperfeitamente, se entrega com simplicidade a um falso interior amansado. Esta, intuitivamente sentida pelo próprio como dolorosa, talvez mesmo inconsciente por abrigo, se faz preguiçosa na diligência receosa de esbarrar com dependências e reciprocidades que não se intenciona aclarar.

Se pirutear a imaginação, diria que, ao escutar testemunhos de vida (diga-se, dos outros), se não se atender (e cuidar) ao concreto das histórias, imagina-se (ou romanceia-se) apenas tristes estórias de falsos duplos. Interpreta-se, assim, acudindo-se de uma significação que elege sinais que se calculam ser, afinal, a suposta vida concreta do visado. Quiçá possivelmente insidioso, eis o método que, com a pressa e a superficialidade convenientes, serve para sujamente recontar, recriando não as verdadeiras histórias, mas outras propositadamente viciadas. Sobre tal propositada tradução, sabendo-se de manifestas imprecisões, deliberadamente se ousa então deturpar, mentindo-se para outros salivarem e os babados assim convocados a fazerem tal tramoia medrar, se possível festivamente.

terça-feira, dezembro 05, 2017

HORÁRIO DO FIM


tio oscar2Porventura, sou sem me dar ao desafio de ser. O concreto das determinações que me decide, esconde-se-me. Amiúde, busco resgatar essa história que assim me foge. É nesse exercício de pensar o passado que a saudade, não raro, se experimenta. A circunstância, todavia, desespera pela alvura da nítida lembrança. A pessoalidade de afeto conservado, agita-se no interior das densas memórias esbatidas. A insistência teimosamente fracassada confirma-me de que pouco vale o meu interpelar racional da saudade. Acima de tudo, explicá-la, situá-la. A saudade existe. Sinto-a, e essa é a verdade que me resta da recôndita materialidade. O fardo torna-se, assim, mais pesado e difícil de suportar. De tal maneira fatigante se faz que a saudade se completa em pesadelo. O vigorante saudosismo, acolitado pela sobredeterminação de cabalísticas raízes, culpa-me então de fraqueza. Suponho-me, então, exilado nesse passado que não recupero, mas que o sinto na pele sensível do vivido.

Em jeito de sinopse, significo com Mia Couto, lembrando que o Fim tem sempre o seu horário. Quando chega a vez, morre-se de nada. Quando é o justo momento, morre-se de tudo. Porém, não é nunca, para nós, esse momento. Por isso, as memórias cá estão para suspender e embargar esse Fim. Com a saudade a musicalizar a inspiração dos achados que interessam. Por isso, sem saberes, continuarei a cruzar-me contigo. Até breve, tio.

sexta-feira, novembro 24, 2017

CONVENIENTEMENTE ENTRETIDOS

O politicamente correto desvia-se, mais do que se julga, das referências morais com que se anuncia. A ordem pragmática da conveniência prevalece antepondo-se à exigência moral da probidade assim adormecida. A favor de propostas, seguramente, de improváveis vantagens. Os costumes ajudam, os urdidos preceitos informam e as valias inspiradas desatam, como se espera, as raízes da matéria ética. As boas maneiras, então afloradas, interpelam as gentes através de usos tolos e desmedidos no encalço de volúveis expectativas. Sem se dar por isso, vagueia-se pelas ruelas caóticas da ideologia onde o óbvio se faz acerto impreciso e duvidoso. A conveniência transfigura-se, deste jeito silencioso, em esquema e medida do gesto social. Sem profundidade e densidade humana. A conveniência cumpre, então, livremente o seu oficio. Entretendo e entretecendo o templo e o tempo desse social.

domingo, novembro 19, 2017

ELOS DA EDUCAÇÃO, LIAMES DA VIDA


“O homem é sempre mais do que sabe de si mesmo. Não é o que é de uma vez para sempre: é caminho” (Karl Jaspers)

Queremos, afinal, ser gente, sonhando com inteirezas ou perfeições. Porém, com o tempo, moldamo-nos ao fracasso da sua improbabilidade. Daí, o possível fazer-se da vida e do futuro que resta. Desenganada a infactível perfetibilidade, o realizável descobre-se na entrega ao impulso do desafio. Apesar da deceção, acredita-se nas possibilidades do estreitado caminho ainda assim aberto. A educação é esse caminho, sempre diferente, do vai e vem entre o “si-mesmo” e o mundo. Logo, a nossa humana realização não escapa a esse mundo, nem prescinde desse caminho incomum. Ainda que este caminhar se nos afigure estranhamente rotineiro…

segunda-feira, novembro 13, 2017

O DESEJO DETERMINADO DE DURAR QUE SEMPRE PREVALECE

Ao João, amigo de longa data!

O passado é uma anterioridade sempre relembrável. As suas precedências alimentam as memórias do tempo presente. Estas, permeando o futuro, não decretam, porém, o Futuro. Neste porvir, pela esclarecida coragem, recuperam-se transvios recuados. As descontinuidades prestam-se, por isso, a tais reparações. Outras prioridades se revelam então. E a ordem a contrariar, na aparência precisa e arrastada, desnuda-se. Anuncia-se, afinal, atacável pela necessidade destemida do reparo. A vida, essa, enquanto ordem última, resiste e projeta-se nesse outro Futuro a inventar. Os impulsos, as motivações e as emoções, que outrora atraíram, mostram-se, pois, debilitados e inexprimíveis. Deste modo, a vontade traída, retira-se do beco sem saída do juízo gratuito. Os meios desobrigados dos seus fins, mostram-se pequenas artes para tão pobres propósitos. Sobrepõe-se, de agora em diante, o desejo determinado de durar que sempre prevalece. E o caminho, decerto, acontecerá desdobrado em múltiplos e merecidos possíveis.

quinta-feira, novembro 02, 2017

A ALQUIMIA DA LIBERDADE


A LIBERDADE é uma presença íntegra que nunca nos abandona. Bem como, não estranhamente, em circunstância alguma se nos impõe. A LIBERDADE anuncia-se, deste jeito, igual a si própria. Falamos da LIBERDADE. Sempre presente, confiável na sua discreta e irrevogável decência. Companhia diligente, solidária e generosa, apesar dos nossos continuados descuidos. Da LIBERDADE, a sua coragem assusta-nos. Desperta-nos inquietações, quando não inoportunos desconfortos. Embalados nos romantismos das nossas agitações, DELA não desmerecemos a sua solicitude. A pujança das urgências, provavelmente adiáveis ou mesmo inúteis, por si só, determinará o descaso em favor das vontades do momento. À LIBERDADE, embora atenta e presente, viramos-lhes então as costas. Não por receio de sucumbir à firmeza do seu axiomático olhar, mas por recusa da árdua tarefa que ELA, porventura, encorajaria. Sobra-nos, assim, a agitação dessa vida outra, uma vida animada talvez por profusas máscaras, farsas e preconceitos. Mesmo assim, a LIBERDADE, pedagógica, tolerante e paciente, não se retira. Observa-nos, sempre presente, certamente desolada, ante a dramatúrgica cena de cativeiro que representa, afinal, a nossa alegre, embora comovente condição de amansados. Mas ELA continua lá, mesmo ao nosso lado, aguardando paciente, talvez inconformada, por um qualquer apuro nosso.

domingo, outubro 29, 2017

JURO QUE NÃO VOU ESQUECER


A proximidade, o sentir dessa afabilidade que por vezes suscita e (desse causar) nos inspira, a um misterioso acordar humano do adormecido que permanece teimosamente na indignidade do nosso descuido.


Texto de António Lobo Antunes, Visão


domingo, outubro 22, 2017

A INVERDADE DA VERDADE DA EVIDÊNCIA


Com proximidades e sentimentos díspares, e proporcionalidades desiguais, o FOGO-CALAMIDADE é sempre uma evidência que desperta múltiplos sinais. Paradoxal e juntamente, a evidência atrai, em circunstâncias desta natureza, apaixonadas respostas invariavelmente precipitadas. Mais do que soluções, estas obscurecem as razões quanto a elaborações possíveis de leituras seriamente fundamentadas.

A liberdade de discorrer e ajuizar sobre a tragédia é inatacável, mas o abuso de pensamento e expressão, sobretudo no domínio da responsabilidade política, não pode deixar de ser reprovado pelos critérios de rigor e disciplina exigidos por uma conscienciosa e genuína vontade de empreender uma consequente e séria reflexão, obviamente aprofundada, consolidada e crítica.

Assim sendo, a evidência, enquanto tal, pode somar tolhimentos às dificuldades de compreensão das coisas. Através dela, corre-se o risco de aliciar e manipular a natural e humana superficialidade do visível, do emocional e do trágico. O imediatismo aí se enraíza, tornando a desconstrução dessa evidência uma exigência penosa e difícil. Por isso, é determinante avivar a vigilância à natureza das inquirições e aos arrebatados entendimentos daí decorrentes. Afinal de contas, estas poderão constituir não mais do que acrescências que ensarilham o PROBLEMA e não, de acordo com o que se pretende, alcançar as imperiosas indicações benéficas à cura que se busca.

O rigor e a disciplina no pensar, passe o juízo normativo, não pode ser descuidado e, muito menos, aviltado em momento algum. Mormente, nestes dias calamitosos marcados por reconhecidas causas de viciosas políticas que, ao longo do tempo, a vários governos responsabiliza. A incompreensão pode conduzir, assim, a um excesso de palavras frívolas, a trás das quais se acoberta o essencial do PROBLEMA e se omite a sua lamentável história. Eis, deste modo, um novo problema, aquele que sobrevém da inverdade que a verdade da evidência se arrisca a ocasionar e a fazer frutificar, desvanecendo assim o verdadeiro e lídimo PROBLEMA.

terça-feira, outubro 10, 2017

DECERTO, ILUDINDO O DESABRIGO DO TEMPO

Um tipo, quando escala a uma idade mais avançada, bem vivida e calejada, é natural que se vá dando, com o tempo, a um outro andamento. De quando em vez, a vivacidade que lhe remanesce resiste melhor às sacudidelas do imediatismo e a experiência dos refolgos, à peculiar condição, faz-se aprendizagem. Benfazeja por vezes, se bem que correntemente inquietante. Em tais casos, despertam-se inéditos acessos, alguns deles impremeditados, dificultando que os caminhos outrora demasiado espezinhados, e hoje não andarilhados, se façam penosos e soberanos vazios que unicamente a resignada memória dá conta de habitar. Assim sendo, e acompanhado por este acolhedor otimismo, vai-se rasgando este novo tempo resguardado, tanto quanto possível, das inevitáveis intempéries da vida.

É isso, creio eu. Não obstante, pergunto-me se acredito mesmo crer? Ou, pelo contrário, se calculo eu que o seu avesso abrigue mais verdade? Não sei. Releio o que aqui aprontei em jeito de texto, rabiscado e acomodado por palavras acotoveladas pela vontade de enxergar futuro. Afinal, o que de sincero admito no que acabo de escrever? Com efeito, não sei. Suspeito, isso sim, que o essencial eventualmente me tenha atraiçoado e escondido atrás das doces e simpáticas palavras, que essa vontade, mais do que eu, soube juntar. Se assim aconteceu, porventura, ainda bem. Por certo, sensatamente não quero agora sequer encontrar as inverdades que elas encobrem, as indignações que elas mascaram e os ressentimentos que nelas rodopiam. Por conseguinte, repito, não sei, não quero saber. Mais-quero, isso sim, deixar-me encantar melosamente pela exalação desse bálsamo que o otimismo, generosamente, desprende e espalha e eu, respirando-o, dele possa beneficiar.

sábado, outubro 07, 2017

SURPRESA, OU NEM TANTO?

A densidade do institucional demarca e orienta olhares, atenções e intenções. Descuida, por pecha, margens de vida por ele postergadas. As vozes das cercanias não são escutadas pela estranheza dos seus timbres e os seus silêncios fazem-se falsamente insignificantes na paisagem do quotidiano político

Fazer ciência política exige saber e talento para tal. Por manifesta desqualificação, analiso e procuro explicações, aliás persistentemente hesitantes, para os factos e acontecimentos políticos que observo. Por isso mesmo, neste breve texto comprometo-me a não transpor a raia desses ajuizados limites. Para mais, admitindo que o objeto a apreciar é uma realidade que, em concreto, confesso, a represento marcada por calorosa intuição. Assim, para além destas pouquidades, acresce também a natureza compósita do fenómeno observado. Logo, deste apenas isolarei um tópico que me atrai, e nesta contingência, de óbvia natureza empírica. Ou seja, o aspeto da confiança política, que creio relevante para uma leitura compreensiva, seguramente transversal do ponto de vista disciplinar, dos resultados eleitorais autárquicos em Peniche.

Pensar a eleição autárquica em Lisboa ou no Porto não é a mesma coisa que considerar a mesma eleição numa pequena cidade como Peniche. Tendo presente a ideia de confiança política, de imediato se me coloca, nestas circunstâncias, a possibilidade de a interrogar na sua natureza, materialidade e abstração. Como é sabido, o conceito de confiança acolhe coloridos distintos e, daí, qualificativos igualmente característicos que, paradoxalmente, apontam diferenças que estabelecem alteridade. Ao expressar confiança rodopiamos à volta de sentimentos, convicções, crenças, familiaridades e simpatias. A confiança política, não dispensando tais translações, convoca (e consente) mediações de múltiplas influências (institucionais, ideológicas ou outras) com consequências semânticas indomesticáveis. Assim sendo, as referências que deste modo a suportam vão-se ressignificando, no encalço de atingir, ao fim e ao cabo, o argumento síntese da fundada e alegada confiança.

Peniche, sendo, como se disse, uma pequena cidade, e como qualquer cidade pequena, é caracterizada por um tecido enraizado em dimensões comunitárias, de natureza diversa, ocasionador de proximidades e solidariedades, bem como de convicções partilhadas de valores e, naturalmente, de identificações que daí decorrem e que importa considerar. Sem pretensões de profundidade, e tendo em atenção as indagações acima referidas – natureza, materialidade e abstração da confiança política – é aceitável pensar que a matriz das mediações, neste contexto de maior proximidade/pessoalidade, experimenta o desafio de confinidades múltiplas que despistam, como se comprovou, lógicas de certo modo consolidadas ou previsíveis. A confiança política mescla-se, assim, com a confiança pessoal, e esta, com a calorosa simpatia que particulariza, acresce àquela outra o vigor que a testemunha e compele ao voto. A democracia não dispensa partidos, mas terá de aprender a viver (e a indagar-se) com estes saudáveis embaraços.

                                                                                                                                 

quinta-feira, setembro 14, 2017

SEM DRAMAS, EM OUTUBRO LÁ ESTAREI


O particular, vale o que vale. Porém, significa sempre. O certo do seu alcance é o da utilidade. Do cabimento, nem sempre. Por si, não é o bastante para dar à presunção um valor comum. Diferentes particulares competem. Da disputa desata o problemático e, daí, desponta o problema. Dado que as ocultações que do absoluto e da totalidade não trazem saída, alcançam crédito as ligações que objetivam o particular. Destas se faz o político, continuadamente em aberto. O desejo de fazer melhor envolve-se quase sempre com o incómodo da dúvida e o receio da confiança. Reconhecendo que não há acordos perfeitos e absolutos, a política renasce então da sua viva dissonância. Não há dramas, decorre da natureza tensional da democracia e esta respira da sua imperfeição. Votar por uma melhor democracia? Decerto que sim, acreditando que os resultados venham a ser os mais preferíveis. Sem essa confiança, de que vale votar? Em outubro lá estarei. Por uma melhor democracia, capaz de uma eficiente e justa política. Saberei eu optar? Decididamente, sim.

domingo, setembro 10, 2017

OS NÚMEROS NÃO MOLDAM SENTIMENTOS


A política, ao institucionalizar-se, desvia amiúde o seu centro de gravidade. A apressurada dinâmica, que advém da presteza combativa do seu (des)caminho, causa ingénitos efeitos nocivos. Destes, em particular, se afloram os prementes jogos (formalizados) de poder, assim como, o arrasto de sagacidades desperdiçadas ou, mesmo, desgraçadamente transviadas. Entre outros efeitos, sequelas na perda de compreensão crítica das dominações e das oposições, nesse comum que rasga a imensidade diversa dos cursos humanos, mormente, dos inscritos na lavra do social.

Não se declina aqui a necessidade de urgência na luta política. Quiçá, por essa imperativa razão, interessa sulcar e, acima de tudo, brigar por um conceito de política mais amplo, mesmo que o reconhecendo ontologicamente incontentável. Amanhando solos abandonados e circunstâncias muitas vezes desmerecidas, na certeza que a democratização do sistema político não pode realizar-se ante a indiferença da sua capilaridade e disseminação. Mais, na convicção profunda que a democratização das relações sociais constitui o medular onde o político se crava.

segunda-feira, setembro 04, 2017

INTIMATIVAS (ALEJANDRO JORODOWSKY)


Em entrevista ao Diário de Notícias de 4set2017

“Para sabermos o que é bem, temos de conhecer o mal. Todavia, a moda atual mais perigosa é a mentalidade dos preconceitos. Está na moda encher os cérebros das crianças com preconceitos. Vivemos dentro de uma prisão mental. As pessoas têm de se libertar de uma série de preconceitos”.

sexta-feira, setembro 01, 2017

CAMINHAR SEM CHEGAR A LADO NENHUM


Quem luta incansavelmente pelo seu apuramento, o fracasso espera-o. Certamente. Porém, o trágico não se passa tanto com este, mas com aquele outro que se aprecia cumprido no museu das memórias a caminho da paz do cemitério.

quarta-feira, agosto 23, 2017

ESTAREI ENGANADO?



Eis uma exposição, do meu ponto de vista, demasiada esquemática para a complexidade de valores nela inscritos e que muito prezo, tais como a partilha, o respeito e a verdade. Como diria Bragança de Miranda, na sua "Teoria da Cultura", o método pode conduzir a uma complacente tecnologização do pensamento. Se não vejamos; o que aconteceria se todos os presentes observassem o princípio aqui defendido? O improvável silêncio tornaria impraticável o próprio princípio e o cenário convertia-se num absurdo ridículo. Assim sendo, ante tal consequência original, o princípio revelar-se-ia contrafeito, porquanto não resistiria ao limite da sua possibilidade. Moral da história; saber ouvir é, ou deve ser, um valor de apreço e respeitabilidade pelo outro e pelo afazer que os une e, de modo algum, no meu entendimento ético, um desvalor perverso assente no cálculo, na necessidade, e sabe se lá, se na exploração da seriedade e da inteligência do Outro. Estarei enganado ou, de facto, em presença de um tolo chico espertismo da insolvente modernidade?

quinta-feira, agosto 17, 2017

PARA UM EXERCÍCIO MAIS ÍNTIMO

Retirado da entrevista de verão a Marcello Duarte Mathias (MDM), ao DN de hoje.

"Sim, sem querer cair numa espécie de psicanálise – a um freudismo de feira -, acho que todos temos dentro de nós uma pessoa com a qual dificilmente nos confrontamos. Julgo que todas as vidas são falhadas, mesmo aquelas que aparentemente foram conseguidas. Não falo dos domínios profissionais, mas do nosso foro íntimo, através das afetividades, dos encontros ou desencontros, das nossas ações, da diferença entre o sonho e a verdade, entre ambição e realidade… Somos todos uns falhados, uns mais do que outros, uns conseguem esconder isso melhor. Há no fundo de todos nós um recheio de obsessões íntimas e a vida é uma tentativa de nos resgatarmos dessas obsessões e dessa sensação de fracasso."

Convoco, assim, para uma recôndita e disponível reflexão, tendo por esteio esta assertiva de MDM, procurando deste modo despertar um diálogo genuíno e sincero com o sentir de cada uma das nossas verdades. A autenticidade por aqui passa…

quarta-feira, agosto 16, 2017

VERDADES E REVOLUÇÕES


20840965_2034023590069937_89526410580454051_nUm bom tema, pois há verdades (e Verdade) e também revoluções. No campo apenas das verdades, as primeiras distinguem-se da segunda na justa medida em que se colocam numa contextualidade que as determina e esclarece. A Verdade, essa outra, busca uma universalidade servindo-se decerto de uma abstração que supostamente a protege. Ao invés, as primeiras abusivamente forçam o engaste da universalidade numa particularidade que se intenta legitimar. A Verdade, essa outra imaterial, imagina-se também (por vezes) apresentar-se como uma totalidade, quiçá redutora, que tudo pensa (ou quer mesmo) arrogantemente abarcar. Neste quadro esquemático, sem pretensiosismos teóricos, assim nos vemos perante um entusiasmante imbróglio filosófico e epistemológico. Por isso, as verdades e a Verdade têm (e ganham) espaço para abraçar múltiplos planos e, igualmente, atuar em domínios diferentes de diferentes naturezas. Daí (e aí ), significados e sentidos multifacetados se fundam. Daí (e aí), as complexas revoluções se vão (ou não) realizando. Todavia, é minha forte convicção, todas elas sempre assentes nas verdades enraizadas em uma sentida e pessoal autenticidade (ou não) que nos escolta. Aqui reside, suponho eu, o eixo impulsivo da busca corajosa das nossas pequenas verdades a caminho de uma Verdade teimosamente esquiva, se bem que, nunca se sabe, potencial e existencialmente revolucionária.


sexta-feira, agosto 04, 2017

A SEDUÇÃO PREDADORA NA LÓGICA DA MILITÂNCIA (A)POLÌTICA


A retórica política porta consigo, amiudadas vezes, algumas despudoradas emboscadas. Os conhecidos e perversos efeitos destas, levam-me a reconhecer a sua espantosa eficácia. Se bem que, e é bom lembrar para o foco deste texto, o hábil uso dos seus preceitos faz-se competência porque as suas vítimas não enxergam ou aceitam o logro. Por que dele não querem saber ou, pior ainda, ao desmenti-lo prontamente, se apresentam comprazidos na sua doce ignorância. Talvez por comodidade ou, certamente, por volúvel presteza, quando não, por arrogância da própria (in)suficiência. O que me é particularmente irritante não é o que essa gente vai ou não daí obter. O que me azucrina, isso sim, é que essa gente não tolera os outros, sobretudo os incómodos espíritos críticos. Melhor, o que de facto me incomoda é a ostensiva incomplacência dessa gente com aqueles que questionam, que ousam ir além das palavras, que se atrevem a duvidar das promissões ou que, tão simplesmente, se afoitam à hermenêutica das peripécias.

E por quê a minha indignação? Por que a aparente e enganosa tranquilidade dessa gente, quando sobressaltada, e junto, a insolência que a escolta se percebe desmoralizada, o rechaço se denuncia desproporcionado, reagindo ambas em uníssono e a uma só voz em defesa de um eu tolamente narcísico. Assim, nesse derradeiro momento de inescapável fragilidade, a verdade vem ao de cima, a adulação ao discurso sedutor dos predadores, na contingência, nervosamente se sobrestima e o efeito traiçoeiro da cilada, entretanto aparelhada, cresce engajada no triste método do enxovalho argumentativo, a favor de uma silenciosa, mas calculada neutralização do pensar que se anuncia crítico. Neste chamamento ao diálogo com o campo psicanalítico, talvez se possa desobscurecer – é apenas um contributo – um dos traços identitários dessa gente maldizente e perseverante que abomina o que não sabe, ou que não lhe importa saber, e que dessa pouquidade faz do bota-abaixo, desse ao alcance da mão, a patética militância do seu martirizante mal-estar.

terça-feira, julho 25, 2017

O CANIBALISMO VAGUEIA POR PEDRÓGÃO


Reitera-se que a nossa identidade de ser português balouça entre várias e contrastantes particularidades. O nosso carácter saudoso, embora marcado pela convicção messiânica, facilmente resvala para a inveja mesquinha ou a vaidade justiceira. O sermos anunciados por uma religiosidade caridosa e, apesar disso, esta se tornar, no acometimento pessoal, paradoxal na sua generosidade e solidariedade. Gente que se diz fadada a uma infinda docilidade e, todavia, ser dada à ousada imaginação poética e ao sequente sonho criativo. Enfim, talvez um povo desaconchegado na sua identitária duplicidade de ser e não ser, desejando estar onde não está.

Quem sabe, não sejam estas, nossas e reafirmadas características, marcas inscritas, não apenas em nós, mas na natureza evolutiva do humano que o Homem tece como fronteiras sentenciadas e naturais. O impulsivo algoritmo dessa relação dissonante da sensibilidade, da emocionalidade e do pensamento seja, assim, insubordinado aos limites geográficos e culturais. Daí, considerar provavelmente que é neste terreno escorregadio, ambivalente e naturalizado, que o exercício interesseiro da política se faz, dando origem ao canibalismo ecuménico que a destrói na sua dignidade e equilibrada legitimidade. Pedrógão e o entender das listas das vítimas consubstanciam, na minha opinião, a expressão persuasiva de um conflito político que dessa androfagia é padrão. Lamentavelmente, aquilo que se impunha nobre e ético presta-se a uma reles e desumana pequenez no zénite da tagarelice política. Infelizmente é o que temos, em Pedrogão e não só ...


segunda-feira, julho 17, 2017

O PSD E A COMPULSÃO DE UM PASSOS À ESTAFADA REPETIÇÃO


Assiste-se, presumo eu, a uma sequela traumática neste PSD, excitada por um triste e deprimido Passos Coelho, ainda fixado à marca de uma suposta e inconsequente vitória eleitoral, provável razão de ser desta estendida e gritante experiência do trauma. O seu discurso repetitivo, enfezado e cindido, não atina com qualquer rota de inscrição na teia, aliás consensual, de representações agora aceites face à atual realidade do país. E o que não se representa emerge sempre, e de um modo aparentemente novo, através ilimitadas e compulsivas repetições, diz a ciência psicanalítica. Encarcerado assim no seu trauma, o PSD ou o Passos no PSD, o passado não passa, a história não se move e o presente (do PSD ou do Passos) nela se vai esperneando por asfixia. Permita-se-me um recomendável palpite; lutar contra um luto, fazer o luto, não é enfrentar o esquecimento. É antes um corajoso exercitar da liberdade. É uma árdua faina de nos libertarmos das (pre)disposições que nos aprisionam aos lugares sombrios da infecunda melancolia.

quinta-feira, julho 13, 2017

CASOS E ACASOS NA GEOGRAFIA DA VIDA


Vivência, experiência; o que pode (des)juntar estes conceitos? Confesso que a ideia de vivenciar era, por mim, apressadamente acomodada no solo exausto dos acasos. Por sua vez, experimentar revelava-se-me caminho e percurso a fazer. A vivência era, assim, mais marcada pela inércia do momento, a experiência mais pelo dinamismo do caso, do empreender. Hoje, cuido mais em reunir e não em afastar as duas aperceções. O vínculo resistente da subjetividade está, em ambas, sempre presente. Deste jeito, a experiência decorrida assiste à hospedagem da vivência, e esta, por sua vez, particulariza sulcos na futuridade própria da experiência. Ambas vivem acasalados por uma dupla dependência; a da fluidez pulsional sempre diligente e a da história de vida que nos reconhece. Como separá-las no seu movimento comum? Para nos desobrigar da primeira e podermos afirmar a segunda? Não sei, mas é humanamente possível.


segunda-feira, julho 10, 2017

SABER CUIDAR DA INDIFERENÇA


Vive-se um tempo de insólita feira, onde a ambição, acima de tudo, mercadeja controversos desejos, desdobrados estes na promessa desmedida e abundante de imaginados, e quiçá, fúteis e excitantes prazeres. Daí que a nossa relação com esse atiçado mundo voluptuoso se faça emocionalmente atribulado. Porém, insatisfeitos tais intentos, os alentados proveitos esvaecidos esculpem-se em tristes frustrações ou em intensos desgostos. Enquanto a frustração o tempo cura, o desgosto apodera-se das pessoas. Neste, os incautos, deleitando-se, deixam-se entregar a continuados e reiterados gozos entretanto passados, contudo definitivamente já submersos. Daí que, dei comigo a ponderar, se não vale a pena cuidar da indiferença, procurando escapar, através dela, a inúteis desilusões e, sobretudo, a desgostos que tanto nos castigam. Ou melhor, no uso quotidiano comum, cuidar da indiferença, aprendendo a fazer dela uma qualidade e não, de todo, uma mera apatia mesquinha ou, mais errado ainda, praticar com ela uma selvática e familiar insensibilidade.

sábado, julho 08, 2017

ESTRANHEZAS


Não me revivem deuses, santos ou ídolos de infância. Na escola, na igreja, e mesmo na família, retrataram-me uns tantos. Alguns deles, presentes demais em explanações fatigantes de estórias longínquas. Outros, poucos, mais avizinhados, carrearam uma outra vitalidade, na verdade, mais intimativos ao meu impressionável imaginário. Os retratos destes, em película, ofereciam proximidade, as estampas de outrora daqueles, apenas aparências misteriosas e improváveis. Assim, se porventura os tive, a deslembrança confirma que eles não resistiram ao passar dos tempos. Em definitivo, não habitam em mim heróis provindos da minha infância.

Mais tarde, no tempo adolescente, relevei algumas criaturas. Ainda assim, não muitas. Algumas que me destinaram marcas cinzeladoras do que tenho vindo a ser. Outras, que se me afigurando provocantes, e sobretudo intrigantes, delas conservei vestígios. Melhor, uma memória adiada, embora fecunda na sua permanecente e excitante estranheza. Quando a generalidade das pessoas me fala dos seus heróis e ídolos, não deixo de me sentir órfão desse comum partilhado. Interrogando-me, apesar de respostas presumíveis, não choro esse interpelante desabrigo. Talvez por isso, o culto aos heróis e notáveis não abalou, reconheço, a minha abaladiça emoção. Talvez por isso, não vicejei um qualquer instinto de rebanho. Talvez por isso, me sinta hoje um “velhote” tranquilo, cadenciado pela sua paradoxal inconformidade.

sexta-feira, julho 07, 2017

ORA PORRA!


Poema de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), que dedico como tributo (em particular) ao CM, o diário mais vendido neste país, e que tanto tem contribuído para a proliferação devastadora da ESTUPIDEZ


Ora porra!

Então a imprensa portuguesa é

que é a imprensa portuguesa?

Então é esta merda que temos

que beber com os olhos?

Filhos da puta! Não, que nem

há puta que os parisse.


domingo, julho 02, 2017

NO BALEAL, O LUGAR DO BAR DA PRAIA


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Vivo um tempo que, sendo decurso do Tempo, é também um certo modo de estar (ou de ser), seguramente demudado. Suponho eu, que a vida é assim mesmo. Creio que ela, a Vida, é uma corrente que resvala num aparente e naturalizado quotidiano, anunciando ao longo do seu tempo as marcas indeléveis de uma certa e inevitável marcha do próprio ser. Porventura, um contínuo que se esconde por trás de inesgotáveis descontinuidades, instruídas de invencíveis ressignificações, e em razão disso, de novas e inquietantes interpretações.

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Atendendo a uma voz íntima do dever, sinto-me obrigado a satisfazer uma dívida para com este lugar chamado BAR DA PRAIA, no BALEAL. Neste ambiente paisagístico (mas igualmente humano), aqui parcialmente retratado, vou criando uma reconfortante continuidade com o meu próprio passado, tanto quanto me é possível, pela vontade e autenticidade de um pensar que busca, insistentemente, libertar-se do tolhido e irremissível transato recalcado. Dessa salutar e urgente tarefa, tem-se em vista povoar a tempo o tempo de um presente, desejando que este me esperte a estribar uma sorte, quiçá um fugaz futuro, de uma bem-fadada produção. Assim sendo, ao BAR DA PRAIA, o meu reconhecimento pela sua agraciada hospitalidade.

sábado, junho 24, 2017

A SABEDORIA DA INDUÇÃO


Sei que persegues insistentemente a Verdade. Que a buscas caminhando trilhos duros e arrojados. Sei das tuas falhas e dos desencantos guardados na permanência da tua entrega. Quando te dizem sábio, de pronto a tua modéstia repudia tal afago. Sim, todos erramos, mas tu, de um modo esclarecido, como poucos, sabes talentosamente enjeitar o raciocínio do erro. Em particular, quando juntas á tua incerteza mais dúvidas à própria incerteza. És um sábio, enfim, do modo como despertas a opinião definitiva, nesse teu trabalho íntegro e árduo de te desprenderes das certezas, que a tua suspeita, torna incerta.


quarta-feira, junho 21, 2017

A FAMILIARIDADE DA LINGUAGEM E O DESCONCERTO POLÍTICO DE TORNAR O POBRE, UM BOM POBRE


Burgueses há muitos. Os que são porque o são. Outros, porque o cobiçam ser. Outros ainda, porque já os macaqueiam duvidando vir a ser. E, finalmente, a maioria, ou seja, os restantes pobres que se decidem burgueses. Os únicos tangíveis são os matrimoniados com o sistema, que neste vivem bem acolchoados e sabem, igualmente bem, porque razão nele habilmente logram permanecer. Todos os outros, particularizam-se pela natureza da sua ambição de ser, servindo-se de palavras, gestos e esgares grotescos, na qual a farsa, a mistificação, a hipocrisia e a própria imprevidência se caldeiam com a ensimesmada ignorância ou, pior ainda, com o cabal arroubamento de espírito.

Porém, existem Outros. Os pobres, os verdadeiros pobres, os assistidos, aqueles que não têm sequer ensejo para fantasiar e, por isso, atassalham a possibilidade de mitigar a realidade, macaqueando ou cobiçando sonsos e ociosos paliativos. Então, como reconhecer e discernir, não propriamente para surpreender os referidos originais, farsantes ou otários, mas sim o discurso que a todos estas figuras une? Quem é essa gente? Eis alguns sinais que emergem das raízes, relações e entrelaçados circunstanciais dos seus cerceamentos:

domingo, junho 18, 2017

AS UNHAS-DE-FOME DO LUCRO PANÇUDO


Será que alguém de bom senso contradita a ideia de que o Consumo há muito se descasou das verdadeiras necessidades das pessoas, viandando pela intemperança do dispensável ou pelas apatetadas passarelas do Simbólico? Eis um ruído sibilante que julgo salubre lembrar como óbvio; o abrir de mão das rendas com que o concupiscente Lucro avassala a Publicidade conivente em perda do Salário que o serve. Aliás, estrupido esse, que num mundo sem fronteiras, a Besta Globalizada faz ouvir enquanto seu santo e bendito Lugar. Neste, Ela forja mercados, inventa engrenagens e conforma ficções prestáveis à epidemia que sufoca o Humano Futuro. Um futuro, que no concreto, é tão-só um ensejo aguardado, cercado por uma avivada fadiga grifada no paradoxo da recusada descrença. Desta alogia, sobra então a íntegra razão da Esperança do (e no) Humano, donde medra a Convicção que alenta a faina do Resistir.