quinta-feira, julho 30, 2020

O BICHO HOMEM

A miséria da pervicácia desportiva é culpa dos comentadores adeptos?

A mente ridícula e risível de quem o afirma não é apenas insana razão. É doutrina doente para rebanho de ingénuos há muito entontecidos. É, acima de tudo, evidência e rasto de um catequismo que se serve de um pasto de incautos esfomeados da bola. Claro que nada mudará nesta corrente de lama gulosa e calculista. A bravata tem amo e, quiçá, proveitosa companhia.

quarta-feira, julho 22, 2020

AQUELE QUE PARTE PARA O DESERTO NÃO É UM DESERTOR


Observo a democracia e interpelo a sua razão democrática. A abrangência da sua mediação e o fruto da sua socialização. Exigindo de mim estar presente, e pensar. Sim, pensar de um modo consequente e radical a vida concreta das pessoas. Essa outra vida escorada na materialidade do seu existir real. Instigação provavelmente incerta, ou mesmo inverosímil. As distâncias do múltiplo desconcertam e desordenam o decente olhar. Submetem-no ao desalmado lodaçal das desigualdades. Afadigado, desisto da procura. E assim abandono o sonho de encontrar a razão que busco. Repouso, pois então, apenas no silêncio da utopia prometida do universal que a todos pertence.


Nota – O título é uma expressão referida por Esquirol, no seu livro Resistência Íntima, supostamente gravada por um eremita nas paredes da sua cela.

quarta-feira, julho 08, 2020

SAUDADE, TRADIÇÃO E IDENTIDADE


Sentir, lembrar a saudade, viver a saudade, pensar o passado. Um passado que de modo algum afasta a permanência do presente e nega o desertar do futuro.

Lembrar a saudade será, então, revisitar lugares, tempos e momentos. Acaso, reviver afetos, emoções e memórias. Lembrar a saudade será, pois, viver a saudade, e não viver da saudade.

Viver da saudade faz-se um outro viver. É ficar lá, é permanecer agarrado ao contínuo retorno, isolado na ilusão do regresso e da esperança ressuscitadora. Em síntese, é habitar encasulado no reducente e desnaturado saudosismo.

Estará (ou não), por isso, na saudade, na tradição e na identidade, o quadro em que as três penas, em simultâneo, esboçam, serigrafam e representam o viver?

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quinta-feira, junho 11, 2020

LOBOS DISFARÇADOS DE PASTORES


Lendo aqui

Marcelo esclareceu, e assim aconteceu, que as comemorações do 10 de Junho iriam decorrer no Mosteiro dos Jerónimos com apenas oito pessoas. E, como não estava tudo dito, completou; assim deveriam ter sido as comemorações do 25 de Abril e do 1.º de Maio. Pergunta-se; onde, em que lugar evidenciou Marcelo tamanha clarividência? Exatamente à entrada para a “solenidade festiva” de Bruno Nogueira e Manuela Azevedo no Campo Pequeno. Estiveram aqui apenas meia dúzia de pessoas? Claro que não. Conclusão; Marcelo procurou, antes de pecar, penitenciar-se à teocracia jornalística com os pecados de outros. Mais vezeiro que useiro, Marcelo começa assim pelos demais. Acoima os outros, acoitando o seu próprio exemplo. A política tem destas coisas…

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segunda-feira, junho 08, 2020

UM SINGULAR TEMPO DE CRIAÇÃO ARTÍSTICA


Ao desapegar-se da rotina profissional ELE acolheu o repto. Esse desafio irresistível de pintar com tempo, e serenamente. Apurando emoções, recobrando sonhos e despertando qualidades sustadas. Na escuta sédula dessa outra e crepuscular estação de vida que, na sua verdade, ilumina sitiados afastamentos, proximidades e impulsos. Uma estranha e somada liberdade que, insinuante, se anuncia envolvente. Certa de que se pode ainda ter ou ser mais, essa liberdade acrescida oferta-lhe apego à largueza para além da premência. Da insondável razão já afadigada abraça então o aconchego entusiasmante de criar. A falha e o falto fazem-se definitiva vontade arrebatada pelo enlevo da incitação. Admito, pois, que a arte, a criação artística, vale para ELE uma vida que se inteira nesse tempo de perfeito reencontro de si. Vida certamente sentida, e julgada, ainda insuficiente e imperfeita. Contudo, desviada esta pelo crivo da imaginação do si mesmo costumado, ELE apura o essencial e retoca o seu reflexo tornando-o sentido. Um sentido primacial no presente desta sua feliz teimosia de assim viver, e conviver, com o estético das formas e das cores. De viver a Vida, afinal.

Pintura, Mário Calçada

segunda-feira, junho 01, 2020

DIA DA CRIANÇA


Neste dia, neste tempo, o poema que a criança havia de abraçar…


Sou barco de vela e remo, sou vagabundo do mar. Não tenho escala marcada nem hora para chegar: é tudo conforme o vento, tudo conforme a maré... Muitas vezes acontece largar o rumo tomado da praia para onde ia... Foi o vento que virou? foi o mar que enraiveceu e não há porto de abrigo? ou foi a minha vontade de vagabundo do mar? Sei lá. Fosse o que fosse não tenho rota marcada ando ao sabor da maré. É por isso, meus amigos, que a tempestade da Vida me apanhou no alto mar. E agora queira ou não queira, cara alegre e braço forte: estou no meu posto a lutar! Se for ao fundo acabou-se. Estas coisas acontecem aos vagabundos do mar.

(O vagabundo do mar, de Manuel da Fonseca, apresentado em termos de texto)

sexta-feira, maio 29, 2020

O CENÁRIO REAL DE FRANCISCO JOSÉ VIEGAS


Francisco José Viegas (FJV) aceitou o apelo do tabloide “CM” para descer à península imaginária e revisitar “o lugar negro da noite de maio”. Já dizia o meu amigo, batizado de Marx, que o concreto é concreto pois ele é a síntese de numerosas determinações. Melhor, que o concreto não é mais do que uma unidade do múltiplo. Daí que um pensamento que se ambiciona ser íntegro deve-se desenvolver como um processo de síntese, e não seduzido por uma dúbia conveniência de partida.

A jornada do escritor aos lugares macabros, como as imagens confirmam, e acima de tudo testemunham, revela por si a provável debilidade de uma consciência jornalística na sua relação com o real e com a nitidez da sua busca. O FJV, sendo escritor, sabe usar, e usou bem, a comunicação literária, oferecendo à dimensão pragmática da escrita um acrescido valor estético. Nada havia a obstar se o autor não se deixasse trair por uma linguagem afrontosa marcada, quiçá, pelo subjetivismo subtraído da sua ideação. Ao alongar-se sobre a península imaginária e o seu (t)ermo, o lúgubre Peniche, FJV resvalou não para a mentira completa, mas para uma cómoda falsidade enquanto pano de fundo da sua pulsão autística e consequente topologia semiótica. Sem mais, e apesar da inquietação que me provoca a sujeição da linguagem, junto-me a António Coimbra de Matos quando ele, pacientemente, diz que apesar do avanço sociocultural a palavra de rei é ainda a mais escutada. A pessoa de bem não engana, pode, sim, é enganar-se…

quarta-feira, maio 27, 2020

A ROTINA E OS TROPEÇOS, DO EXEMPLO AO EXEMPLAR

Muitos exemplos são-nos, continuamente, oferecidos. Decantando gestos, pessoas, coletivos ou mesmo ideias. Na busca de os tornar modelo ou de os fazer valer como lição. Do exemplo ao exemplar as conotações modalizam-se e, amiúde, derruindo o impreciso da evidência. Um suspeito exemplo, deste jeito, tudo faz para se mostrar exemplar. Aliás, o duvidoso sabe e vive do sagaz ofício da exemplaridade. Despido certamente de uma segura ciência moral, chama a si o fosco útil da polissemia. Seduzindo ou coagindo mediante o solto arbítrio do poder de encantar ou de se impor. Uma e outra vez, através de liames insistentes que, com o tempo, se vão familiarizando. Suavemente protocolizando. Exemplarmente justiçando. Humilhando a simplicidade ingénua, sempre crédula e disponível. Com a opacidade facilitando a acolhedora doxa infundada. A vida por aqui passa, silenciosamente!

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sexta-feira, maio 22, 2020

SABER, PODER E TROCADILHOS

Regressemos às Luzes preliminares e aos seus arrimos. Ao alcance infindo da crítica à crença e ao conhecimento. Ao cumprimento de um saber compreensivo e pronto ao seu próprio aperfeiçoamento. Assim como ao seu explícito uso com o fim de aprimorar a vida, privada e social dos homens. Olhemos agora o presente onde o pensamento se estreita no vantajoso e se observa no efúgio das suas meias verdades estéreis, mas deleitosas. Entre um e o outro tempo ocorre história, e nela se inscreve a memória ignorada do sucessivo escurecer das luzes. Da ideia de que saber é poder, provinda originalmente da inquietação operária, despontou a sublevada verdade do poder sobre o saber. Um válido saber que se fez, então, hábil e astucioso, irresistível à politização do pensar. Hoje, na verdade, bem acobertado no persuasivo fermento da sua codificação democrática. A democracia, assim preceituada, parece carecer de uma renovada consciência histórica, respaldada por certo num genuíno iluminismo. Necessariamente incansável e confiante e assente num saber outro, não aritmético e frio, mas benévolo e sensível. Socialmente humano.

quinta-feira, maio 21, 2020

SNOB E CONVENCIDO


Este homem faz-me (quase) sempre mudar de canal. Representa aos meus "ouvidos" um discurso autoritário e arrogante de feição cínica e revanchista e, como tal, ensopado de conservadorismos caprichosos e de odiosos pedantismos requentados. É uma espécie de urtiga que me provoca erupção cutânea, mas - quando suporto a irritação da pele - diverte-me o seu ar snob e convencido. Enfim, a eficácia organizativa dos "medias" precisam à direita destes "enterteiners" cabotinos e politiqueiros...

sábado, maio 09, 2020

UM BEM-HAJA AO MOVIMENTO SINDICAL

A pandemia ainda aí está e um outro combate se posiciona. Ambos se disseminando ainda que com propósitos diferenciados. O vírus do surto, embora mau, trata o povo por igual. Na economia, os agentes são outros e diferentes. Anunciando-se bons, os malsões dos dividendos sabem onde assentar o mal. Para tal, ajuntam poderes à volta do seu poder. Usurpando um ilusório sumo, das ideias às interpretações, das opiniões aos juízos. Marcando fronteiras, definindo confinamentos e estabelecendo afastamentos. Especialmente dos que a eles não se somam. Repetindo argumentários, reciclados ou não, do ressábio costumeiro. Isto posto, alinho em síntese com Constantino Sakellarides e Sandra Monteiro; digam-me para ser inteligente e agir com maturidade, designadamente na humana defesa dos trabalhadores e dos seus direitos[1].


[1] “Defender os trabalhadores”, artigo de Sandra Monteiro (MONDE diplomatique).

quarta-feira, maio 06, 2020

O CAMINHO DO COMUM

Como se constrói o comum quando se parte do meu, do teu e do dele? E onde se pretende chegar com ele, com o comum? Ferguson, já em 1767, lembrava[1]:

“A boa ordem das pedras numa parede é elas estarem apropriadamente fixadas nos lugares para os quais são aparelhadas; se elas houvessem mexer, o edifício teria de cair: mas a ordem dos homens na sociedade é estarem colocados onde estão propriamente qualificados para agir. A primeira é um sistema feito de partes mortas e inanimadas; a segunda é feita de membros vivos e ativos. Quando procuramos uma ordem de mera inação e tranquilidade, esquecemos a natureza do nosso assunto, e encontramos a ordem dos escravos, não a dos homens livres”.

Aceite-se, pois então, que o ponto de onde partimos subordina o nosso pensar, e este repercute-se no seu alcance. Por onde querem que comecemos, ou, por onde afinal queremos nós começar? Desta nossa escolha dependerá certamente o acesso.


[1] AS TESES DAS “TESES”, José Barata Moura.


terça-feira, maio 05, 2020

DA IDEOLOGIA SOCIALMENTE DOMINANTE

Cada um olha o mundo de um modo continuamente singular. Verdade aliás que se funda na pessoa que se vai sendo no curso do tempo. A liberdade acompanha-nos sempre, mesmo quando ela se perde. Todavia, o tangível do seu proveito faz-se sempre vinculado. Ao outro, à dignidade de ambos, à condição humana e à sua historicidade. No fundo, entranhando-se nas raízes que, com efeito, determinam. Intuições, pensamentos e intencionalidades. E, em consequência, firmam posições, criam horizontes e fixam também miudezas. Uma humana diversidade que, em si, afrenta sempre o estabelecido, o dominante. Esse arbitrário que afinal define, vigia, e socialmente até tolera. Não para impor o absoluto do mesmo e do mesmo jeito. Mas sobretudo para garantir o seu mando e socorrer a sua hegemonia. O que virá pós-covid-19? Certamente a ratificação da sua patogenicidade, não do vírus, mas da ideologia dominante que dele se servirá.

domingo, maio 03, 2020

RODRIGO GUEDES DE CARVALHO

Sobre a entrevista de Rodrigo Guedes de Carvalho à ministra Marta Temido (02/05/2020)

Para viral basta-me o covid. Patético, o homem afundou-se no faro das raízes do seu impulso animal. Grosseiramente cínico, o discernimento refundiu-se-lhe na rigidez acirrada da mímica. Arrastou-se vegetativo do esclarecimento para o bullying inquisitivo. O modo de duelo baralhou-lhe a moderação e fez-se tão-só corpo, aliás pouco. Encolhido na mesquinha sanha de apenas golpear. Sinceramente triste e penoso para todos.

sábado, maio 02, 2020

A CLAREZA SEMÂNTICA POR VEZES DÓI


O abocamento entre Pedro Nuno Santos e João Gonçalves Pereira fez-se acontecimento. Apreciações e convicções ampliaram prontamente o seu eco. Clara Ferreira Alves, no seu Eixo crítico do Mal, e em jeito de remate, subescreveu Pedro Nuno Santos. Todavia, alongou-se mais tempo a depreciar o seu verbo do que a esclarecer a consonância. Como diligente adepto do Eixo, e fanático observador de contradições, ouso uma tradução. À personagem Clara Ferreira Alves não lhe falta recursos e qualidades que se apreciam e que muitos naturalmente cobiçam. No entanto, a dimensão comentarista requer, no meu ponto de vista, e em particular neste exercício crítico estimável, uma conformidade lógica e identitária. Assim sendo, fazer comentário político não dispensa coerência predicativa na arrumação dos argumentos. Daí pensar que alguns dos seus desbrios se radicam na exigência peculiar desse jogo egoico de identificações e ficções particularistas. A sua depreciação ao colar-se em demasia ao tempo usado e à ironia adotada logo se tornou questão questionável. O relevo dado à presumida deselegância discursiva do ministro acabou por desviar a atenção do essencial, do seu conteúdo e alcance político. E assim , deste modo, sem demora se lembrou a questão estética compensatória à verdade que inquieta e que, talvez mesmo, custe aceitar. Dominar a palavra ajuda ao argumento, à reflexão e à prudência, mas não garante a razão certa. A razão não se perde pelo modo nem pela palavra usada, afirma-se certamente pela transparência do sentido que ambos propõem e fazem convergir. Todos sabem que a clareza semântica por vezes dói. Porém, muitos poucos admitem que um murro na mesa, de quando em quando, ressoa bem melhor do que a mera palavra.

terça-feira, abril 28, 2020

A MUDEZ ENCOLHIDA DA MORBIDADE SOCIAL


Nunca se é sozinho, é-se sempre indivíduo social. Pensa-se e vive-se a vida em função da materialidade circunstante e do seu acontecer histórico. Daí a gravidade dos recursos. Entre eles, os económicos, os sociais e os culturais. Daí, também, o encaminhar do papel identitário das ficções, dos sonhos e das possibilidades. Das motivações, dos estímulos e das frustrações. Igualmente, da acomodação das afeções, das emoções e das crispações. Da contingência da desmultiplicação, da desestabilização e da fragilização. Do horizonte das socialidades avistadas, ajustadas e adequadas ao crivo medular dos recursos.

Vive-se hoje uma abrupta crise, e em tempos de crise tudo se confunde no duro aperto da simplificação. E aí, os recursos, e a sua diversidade, revelam e marcam a sequela decisiva e determinante da diferença. A iniquidade das desigualdades na sua intensa e silenciada perversidade.

O ERRO DE UM É OSSO PARA O OUTRO


Não se resguarda a democracia simplesmente através de simbólicos e sinceros discursos. Sobretudo quando as perduráveis faltas cansam e se redizem compelidas por palavras diferentes. Faltas haverão sempre. Elas acontecem, e ocorrerão, ante os inevitáveis movimentos do tempo, do pensamento e da ação. Todavia, na esperança que as faltas sejam outras, diferentes, rumo ao prenúncio desejável de harmonia social. Sendo as mesmas, a insuficiência prova-se imperfeição, torna-se disfunção, e a sua continuada dilação anuncia, então, o desvio crónico fatal. A desconfiança vai-se assim infundindo e a frustração do homem movendo-se para o abismo incerto da desorientação. Exterioriza-se, então, a arte insaciável de atear o fogo, apenas aguardando os momentos certos de assanhar rancores acumulados. Para estes artistas da tocha, a agitação apronta-se, pois, na inflamação da emoção servindo-se dos vazios incumpridos. Esperando tão-só que a odiosidade ganhe corpo entre as fendas abertas no compromisso acordado das palavras e dos gestos. Em conclusão, estes apenas se aproveitam das fendas que, afinal, os outros permitiram que fossem rasgadas e, pior, que ainda hoje suportam vê-las abertas.

sábado, abril 25, 2020

GRITO, ARGUMENTOS E FUNDAMENTOS


O Grito que se busca associar ao que se impõe dizer

A Liberdade não é esclarecida por fórmulas simples e, muito menos, por fórmulas autoritárias. Examinar os seus limites, entregar-se às condições que os determinam, podem refazer, ou mesmo recriar, a possibilidade de verdadeiramente a merecer, ou melhor, de fazer jus à verdade da LIBERDADE.

segunda-feira, abril 20, 2020

NA DESTREZA DE AJEITAR PALAVRAS

Há binários que usamos, acima de tudo, porque soam bem. Perdidos na sonoridade das palavras encurvamos o jogo dos sentidos. Vontade de poder e poder da vontade, feitas das mesmas palavras, seguem semânticas diferentes. O poder da mentira e a mentira do poder, igualmente assim servidas, desconcertam-se no seu alcance. Daí a importância de repesar bem a relação, não desdenhando a circunstância e as suas valências. Sobretudo em tempo de profusas vontades, controversos poderes e díspares urgências. Tempo, aliás, sorridente aos desmandos que ensopam a verdade que importa na adipose de ociosas dúvidas. Digo, mais precisamente, nessa gordura que sempre alenta os poderes da falsidade ardilosa. Como diria o povo, abusando de conversa fiada, ou na voz dos que falam sem rodeios, usando um paleio feirante em modo de banha da cobra. Os sanguessugas por aí serpeiam, e o seu jargão é sempre bem-talhado ao modo proveitoso de pintar úteis binários. Aqui deixo então, relembrando, a ideia que todos conhecem, mas que sendo familiar nem sempre dela nos servimos…

domingo, abril 19, 2020

sábado, abril 18, 2020

TOLICES, OU NEM TANTO


Em tempo de isolamento trago de volta a boémia que me iluminou. Esse outro tempo, a da arte de viver a menoridade e de estimular a luz alegre da razão crítica. De pensar e viver o humano liberto de fundamentos anquilosados em crenças e preconceitos. Lugares bem vivos, e não asilos de necessitados recolhidos, nem refúgios de tímidos medos. Tempos de euforia, de experiência e de margens. Tempos de usar a liberdade, de a descobrir e de se entranhar na sua luz, ousada e irreverente. Em axiomática rutura com a torpe amorfia cravada no realismo sombrio do seu quotidiano. Aguardando outro tempo, e com certeza novas ordens. Mas a boémia, essa boémia, sinto-a perdida nas memórias do tempo. Mas, afinal, o que resta cá está. A vitalidade da sua presença gravada no meu corpo já gasto e engelhado.

sexta-feira, abril 17, 2020

A FASE E A FACE DO CURSO


O vírus fez-se adverso do comum, do indistinto comum. A todos juntava na solidariedade, mas também no medo. Deste modo, o cuidado universal atou –se ao indeterminado. Hoje, o tempo mostra-se posterior e acresce pretensões díspares. O ordeiro comum apresenta-se agora no cadinho dissolvente de impacientes interesses. Nesse fundo recipiente onde se confina a estranha química de inusitadas reações. O sentido do comum, afinal frágil, aqui se submete ao imperativo da comunidade. Sempre feito de razões parciais e de racionalidades coletivas improváveis. Um outro vírus desponta pois então. Pela afirmação de um particular coletivo sempre distante da precedente universalidade. Assim, aqui estamos, mais amanhã do que hoje, entre a fase e a face da durável resistência à penosa e iníqua imperfeição do mundo.

quarta-feira, abril 15, 2020

NO PALCO DA SALOIICE

Marcelo, na sua intrínseca disponibilidade para o alarde, baralhou a possível imagem de homem bom e afetuoso com o seu dever de comprometimento político. A objeção não está no reconhecimento do inestimável empenho dos profissionais de saúde, bem pelo contrário, mas sim no relevo dado ao particular momento da circunstância e ao seu enaltecimento. Com Boris Johnson pelo meio, o gesto político ofereceu-se à representação contagiosa da pequenez, marcada pela pirosice do irrisório. Os portugueses, e em particular os profissionais de saúde, julgo não merecerem tamanho descuido.

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sexta-feira, abril 10, 2020

O MILAGRE DE PORTUGAL


Confinados em proporções desencontradas, todos estamos em isolamento, se bem que no aconchego tradicional de impiedosas desigualdades. Uns acomodados na escala das supremacias, outros abrigados na métrica das sujeições. Os filtros da liberdade aí estão para exibir, e confirmar, a equidade instituída. O contumaz discurso é sempre o mesmo, o da ordem, da justiça e da lei. Agora, quiçá, metamorfoseado pela necessidade, solidária, de proteger a vida. Todavia, mantendo folgado o segredo, bem oculto, dos filtros da liberdade nas suas cínicas escapatórias. E estas, com certeza, irão sobreviver ao covid-19 e, com muita pena minha, também sim, ao milagre da indiferença do tribunal das consciências.

quarta-feira, abril 08, 2020

A INSOLÊNCIA DESAPIEDADA


Um tributo a Luiz Pacheco, um homem único com quem tive o prazer de conversar e testemunhar a sua inusitada singularidade

Em momentos singulares o talento da insolência liberta a liberdade. Aquela capaz de se opor à altivez que medra na ordem poderosa do previsível, do conveniente e da certeza das ideias feitas. O lume ateado pela desinibição escalda, e facilmente o coração da vítima se inflama. Daqui se apercebe que à coragem falta o exercício e ao risco do choque os algoritmos. Logo, a desordem do repto se agasalha na estranheza de um não-lugar penoso. Na sua açodada e impreparada desinibição, a agressão imaginada oferece-se disponível à razão do gesto. Refugiando-se na fuga cobarde da indiferença ou, mais burlesco, no surrado disfarce do mando da indignação e seus farsantes valores.

segunda-feira, abril 06, 2020

QUEM MENTE? O REAL, A IDEOLOGIA, OU AMBOS?



A minha voz é a de um simples ser humano. Nem otimista nem pessimista, unicamente mitigado pela realidade. Como dimensões civilizacionais, continuo a dar valor às ideologias, às espiritualidades e às religiões. Admitindo, contudo, as suas inabaláveis e imoderadas dissonâncias. No que concerne à economia, não creio que o capitalismo seja algo consubstancial às relações humanas. Acredito, sim, que os poderes multiformes determinam aí o seu enlace e consequências. Por isso, o liberalismo (económico) em tempo algum me persuadiu enquanto valor de emancipação do homem. O tempo advém e as sequelas anunciam as suas caprichosas doações. Os ricos fazem-se mais ricos e os pobres, mesmo com mais, empobrecem. Por força não só da pouquidade, mas também fruto das desigualdades, das suas iniquidades e das exigências sociais e económicas do tempo presente. Todavia, afirma-se, aliciando as massas, que em média os rendimentos têm aumentado. Uma fórmula em que o rigor matemático, na sua exatidão, falseia a verdade social. Dividir 5 por 5, dá um a cada um. Se dos 5 alguém levar metade, os restantes 4 só por ideologia aceitam a divisão liberal, alegórica e ideológica. Não sendo um perito em matéria de bálsamos, não deixo de reconhecer o bafo rançoso desta sociedade capitalista de mercado. Sobretudo, e em particular, a provinda desta oferecida Europa e dos seus templos cultivadores da religião capitalista, do culto do dinheiro e consequentes liturgias. Promete-se aromas deleitosos, mas a compulsão deste inconfiável poder, aliás sem relevantes contrapoderes, apenas nos destina o cheiro e o sabor acre da impotência. Ainda assim, com esperança, afirmando-me sempre por um futuro mais solidário e humano.


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quarta-feira, abril 01, 2020

O ARRIVISMO DA ALTA-RODA


Ocorrem duas realidades, entre outras, que muito me irritam. A primeira é aturar a evidência da inversão do ser pelo parecer. A outra, aliás comparsa da anterior, embora de cariz mais moral, é lidar com lobos disfarçados de cordeiros. A pandemia tentacular ainda se alastra e já os lobos do bosque neoliberal dão ao rabo com altruísmo e piedade económica. Como é vício, a mentira aqui se esconde no disfarce de profusas máscaras de gente de bem servir. Desde sempre travestidos no mimetismo educado das aparências e da fértil diligência moral da hipocrisia. Daí esta perdoável insolência sentida por mim como orgulho, e não expressão de um qualquer desaforo. O vírus assusta, é certo. Pode matar, certo também. Mas enquanto assusta não me cega certamente.

segunda-feira, março 30, 2020

O IMPREVISÍVEL AMANHÃ

PARA MEMÓRIA FUTURA
Escritores de várias nacionalidades refletem sobre o mundo antes e pós-coronavírus | Por Lenide Duarte-Plon| 25/03/2020

« De quoi demain sera-t-il fait ? » (De que o amanhã será feito ou O que será o amanhã ?) perguntou Victor Hugo num poema. Ele continua : « O homem hoje semeia a causa. Amanhã, Deus faz amadurecer o efeito ».

O filósofo Jacques Derrida e a historiadora da psicanálise Elisabeth Roudinesco retomaram a pergunta do poeta, abreviando-a, para intitular o livro « De quoi demain… », em forma de diálogo, lançado na primeira semana de setembro de 2001.

Estimulante e abrangente, o diálogo gira em torno de temas políticos e filosóficos que resumem as interrogações de dois intelectuais sobre o século que se iniciava. A conversa termina com um elogio da psicanálise : somente levando-se em conta o inconsciente e a pulsão de morte podemos compreeder as desordens do mundo e restituir uma sociedade humana onde a abertura aos outros seja uma realidade.

Mas apenas alguns dias depois do lançamento do livro nas livrarias francesas, o 11 de setembro veio provar que o amanhã, de que falou Victor Hugo e sobre o qual se interrogavam Derrida e Roudinesco, é totalmente imprevisível.

Quem poderia prever o que se passou no dia 11 de setembro de 2001 ?

O mundo nunca mais foi o mesmo depois que a potência hegemônica se descobriu vulnerável, em estado de choque.

sábado, março 28, 2020

A VERDADE ENTRE A ILUSÃO E A DESILUSÃO


Traduzindo em contraponto Feuerbach diria que estamos a viver um tempo em que não reconhecemos a imagem da coisa, a cópia do original e a aparência do ser. A ilusão perdendo-se na verdade e a verdade refugiando-se na ilusão. Certos, sim, é de estarmos confinados a esta mística vida do seu agitar.

quarta-feira, março 25, 2020

O BEM E O BENEFÍCIO COMUM


Num texto marcado pela simplicidade culta, e nítida, e pela sua calorosa religiosidade, Anselmo Borges esclarece:

É preciso ceder bens menores a favor do bem maior, a saúde e a vida. Sacrificamo-nos todos, com o sentido do bem comum. Sem alarmismos, mas com racionalidade e urgência.

Entre outras de grande valor, destaco esta proposição por que confronta conceitos que no seu todo estreitamente se interrogam; bens menores, bem maior e sentido de bem comum. A saúde e a vida são, sem dúvida, pilares medulares desse bem maior. Outros existirão, mas a racionalidade e a urgência do momento determina a distinção. Não obstante, e sem pretensão de discordar de Anselmo Borges, bem pelo contrário, permitam-me sugerir, acrescentando, a inscrição da raiz de um bem maior na englobante e inclusiva ideia de dignidade humana e, em sequência, do valor da sua condição como horizonte comum de sentido. O momento que se atravessa, exatamente pela exigência da racionalidade e urgência, impõe, e bem, a necessidade de proteger a saúde e a vida, de todos, atribuindo-lhe sentido de bem comum. Com o tempo, estou certo, permanecerá a experiência vivida, austera e incontornável, desse desafio, desse bem imperioso. De um bem que, todavia, merece ser engrandecido, predicando-o na universalidade da sua natureza, e no seu imanente valor solidário, e não apenas como resposta, moldada e pragmática, a uma racionalidade de momento, necessária e urgente.

terça-feira, março 24, 2020

DAR-SE AO TEMPO POR DENTRO


Ruas nuas, silêncios enfadonhos. A turbulência do tempo oferece-se atando o sofrimento ao corpo e o real ao imaginário. Suspeita-se que a mudez tem voz, mas não se ouve, e que as palavras naufragam no furor do seu alento. Tudo parece obscurecido nesta ordem descontrolada, imerso que está na onda revolta de verdades incertas. E sem qualquer deus por perto, espera-se rumo,  sentido, e o seu nexo em nós. Porventura na esperança de um aguardo apenas. Sim, não mais que um aguardo que ora resguarde.

segunda-feira, março 23, 2020

O ENCANTO DO DESCONHECIDO TAMBÉM DE QUARENTENA


Aqui está um momento místico, acaso delirante, de auscultação ao jeito humano de acomodação. Não regresso decerto à infância, mas sinto a necessidade de espiar o contraste da agitação conciliadora, boa ou impiedosa, de ânimos e movimentos. Isto é, arrumar diferenças entre esse tempo vivo de céu azul e este outro, bem cinzento, que oprime. Espiar exige-me então, por condição e silhueta do termo, um modo muito pessoal de anotar, ainda que perdido no baralho das referências, dos tempos e das vivências. Sobretudo, no uso das cartas desse lúbrico jogo de adaptação ao estranho e ao desconhecido. Mormente ao lembrar, e ao invocar, esse originário e vital cuidado dos pais, reconhecido como delicado e leal. Da alegórica proteção assegurada que a todo o tempo se faz obrigatoriamente intuída como esclarecedora. Assim sendo, e perante a sombra da nuvem virulenta, no lugar dos pais, avisto padrastos distantes, desapegados e frios. Educados, e de urbanidade conveniente, mas imperfeitos na razão da primordial afabilidade. Uma elementar falha que, quer queira ou não, me define um avesso e me força ao impasse no apuro do embaraçoso oculto. A memória de infância impõe-se-me, então, na catálise das precipitadas paralisias ante a indiferença das friezas. Afinal, de outra busca se trata certamente alheia a essa verdade primeira. O que se me apresenta será (ou é), então, e diferentemente, o alcance de novos e diferentes modos de resguardo e confiança. Numa túrbida paisagem de insólitas hierarquias que me envolvem neste mudado tempo intensamente vivido como incerto e insuficiente. A dependência de antes confronta-se hoje com enlaces distintos, bem atípicos, intuídos como rebentos de estranhas e imprecisas realidades, e ritualizações. Novos mitos despontam atraindo cada qual o seu vigor na norma do reajuste, do pretexto e do abrigo. E com eles surgem cerzidas narrativas, inéditas liturgias e austeras transições. Contudo, o calor da confiança não aquece, não chega, não consola, e não dá ao desconhecido a possibilidade de me pacificar. A ansiedade junta-se ao desconforto e, em somado, gelam a minha tranquilidade. E eu, sem ela, sinto-me incapaz de inventar roteiros, apenas de simples roteiros que me levem à alquimia do tempo. Deste tempo presente por demais virulento.

terça-feira, março 17, 2020

O QUE EXISTE DENTRO DE MIM, HOJE


Aos dúbios contornos da ordem e do caos tenho dedicado algum tempo, ainda que ajudado por magra ciência. Reconhecidamente frágil, entrego-me à aventura curiosa de entranhar as suas verdades e inamistosas ocorrências. Em todo o caso, e sempre, na busca de sentido, de luz e alguma consciência. Tenteando o que desconheço e indagando a adaptabilidade, e a firmeza, do histórico caminheiro. Porém, a fonte subjetiva da ideia de sentido nem sempre me ajuda. O conflito entusiasma-me a busca, sim, mas o medo deixa-me preso às algemas da minha fraqueza. Na busca, esperançado, enxergo a raia que me abrasa. Algemado, o caos devora-me até os ossos do espírito. Assim me encontro, hoje, enclausurado nesta desalmada ordem do caos, ou melhor, nesta grande merda dita de Covis-19.

quinta-feira, março 12, 2020

RUÍDOS DA LIBERDADE


A vida na sua errância aclara o ímpeto das circunstâncias. Diz-se que a verdade da vida se cumpre na metafísica do encontro, e da circunstância. Porém, de quando em vez, dá-se a prova da humana negação em afrontar o ardor da atração urgente. Quem sabe se efeito do desmedido valor dado ao ruído da liberdade. Por que este, o ruído, ilude e constrange, capaz de consolar o vazio que, amiúde, se tenta recusar, isolando-o. Ruído que assim se oferece para um curso de agasalhada ficção. Mas a liberdade, acredita-se, existe para viver. Por isso, nesta sua verdade ela ficará atenta, ou mesmo surda, ao rumor dos paliativos. Bem como distante dos seus alívios viciantes na experiência da indiferença. Seguramente, a verdade da vida passa por encontros e circunstâncias. Mas nunca isentando o homem da sua liberdade, e da sua dignidade.

segunda-feira, março 09, 2020

ATÉ JÁ, AMIGOS


Escrevi há tempos;  … “uma boa conversa acrescenta-nos um quê identitário,tornando-nos mais completos e, justamente, ainda mais disponíveis. Para a vida, a tal vida de todos os dias. Por isso prezo as boas conversas e, no dia de ontem, a maré cumpriu a convicção. Experienciei, e senti, a instigante circunstância afetuosa do retomar de muitas dessas conversas que a incontornável razão da distância atrasou. Deu-se, acredito eu, um momento peculiar de caloroso convívio que concedeu vida. Às memórias e, porventura, ao sentido dos sucessivos rumos, tempos sempre incertos, plurais, mas significantes. Em suma, à história do passado acolheu-se a esperável e benfazeja retemperação do reconhecimento. De modo especial, da amizade, do apreço e do companheirismo. Assim sendo, o que nos resta, então? Não mais que presentificar e revigorar esse ressonante apelo de proximidade, vivência e afeição. Daí, amigos, com simpatia finalizo com um familiar e sincero ATÉ JÁ.

segunda-feira, março 02, 2020

PARA TI, MADALENA

A paixão não é tragédia e o desconhecido não é drama. Sorte adversa, sim, é o confronto da experiência da fraqueza na conversão do conhecido que nos faz mal. Sobretudo desse mal existencial que golpeia a decência moral e a dignidade das pessoas. Logo, não recues protegendo-te nas sombras socializadas do cínico cânone absorvente. A tua consciência jovem, já hoje lúcida e ambiciosa, pede-te coragem e não refúgio em acomodadas adaptações ardilosas. Por isso não cedas à confortável e egoísta tendência humana da desistência. Não te deixes igualmente apoderar pelo medo que em muitos atrai a cobardia do subterfúgio. Não te deixes também vender nos primeiros passos desse teu caminhar livre da maturidade. A liberdade não se compra, constrói-se, defende-se, partilhando-a. Com custos certamente. Mas a alternativa, a subjugação à iniquidade e à indignidade não merece a tua preguiça. Não tenhas medo do futuro e sê firme na coragem de dizer não. Os poderes a contrariar, e a afrontar, são muitos e diversos. Sejam eles os talentos aliciantes, os dons sedutores, ou mesmo as perícias silenciosas que por aí não escasseiam. Jogam, todos eles, na promessa do acolhimento, da segurança e do acerto do mundo. A mentira que aqui subsiste e aqui medra sabe muito bem encenar o seu próprio jogo para que a batota passe despercebida no ardiloso cumprimento das suas regras. E eis, então, seguramente o problema maior da democracia. Não é ela, a Democracia, que é o problema. Bem pelo contrário. O problema encontra-se, isso sim, entranhado nas mentiras e nos jogos que nela circulam, a pervertem e a corrompem. Aliás, passe a expressão, sem qualquer “pingo de vergonha”…

sábado, fevereiro 08, 2020

O INCERTO CONFLITO DA ILUSÃO REALISTA


Tradição é passado que permanece. Conferir direitos à tradição depende afinal de um reconhecimento atributivo. Com que fins? Da liberdade, da igualdade? Ou do seu oposto? Da sujeição, da autoridade ou do amedrontamento. Tudo junto, ou em separado. Em abstrato, a tradição não se opõe à modernidade. Ambas não são em si, e por si, predicamentos definidores de virtude. Nomeadamente no campo particular da informação e da comunicação. O fanatismo e o obscurantismo sobrevivem ao tempo. Hoje, como no passado, buscando apropriar-se do direito humano de pensar livremente. Emaranhando inteligibilidades, suscitando desorientações, deleitando o mundo opinativo das paixões. Daí, a face emergente e inadiável da consequente avidez técnica, do seu alcance e utilidade desvirtuada. Na comunicação social vacilante, nas redes sociais em expansão e nos demais (re)cursos de intermediação. Entrelaçando e aturdindo proximidades críticas e analíticas face ao mundo da vida. Um conflito incerto marcado pela perplexidade de sinais causadores de incertezas, receio e insegurança. A mediação útil e valiosa não se ausentou. A mediatização é que eficientemente se lhe contrapõe. Eis aqui, certamente, um desafio, quiçá  medular, deste tempo. De um tempo apressado, embora não letárgico, da atual civilização da imagem, do fetiche e da sua imodéstia simbólica.

quinta-feira, janeiro 23, 2020

A REALIDADE NÃO SE ESGOTA NO EMPÍRICO


Há destinos incomplacentes em que a partida se faz aproximação. O certo, o que persiste e subsiste, acoita-se no espírito das memórias, das palavras e dos pensamentos. Uma vida, afinal, marcada pela vida que ainda sobra. Na prova da ausência, e do silêncio, que dela sempre desponta. Enfim, uma distância sem cálculo de um percurso que se faz sempre só. Reconhecendo, decerto, a presença dos que partem na sua imanente intemporalidade. Partiste, sim. Uma contingência, afinal radical, que merece e exige sentido. Quem sabe, como afirmaria Anselmo Borges, através de uma outra presença. A Presença sagrada, divina, como seu fundamento e sentido últimos. E tu, Carlos, sabes, bem melhor do que eu, sabes que não estás evidentemente só.

domingo, janeiro 12, 2020

A ALMA POPULISTA


Reverencio os políticos que deslustram da política e maldizem dos parceiros do costume. Como? Costumando, eles, do devaneio democrático que ali estão para fazer diferente. Confesso que me comove a grandeza de alma dos que, sem se enredarem na política, se obrigam à missão. Por isso, merecem a minha mesura e consideração. Mormente quando, com o tempo, enrugam na busca falhada da dissemelhança. A história assim o relembra e os exemplos passados não faltam. Hoje, os prontos e frescos seguidores preanunciam-se, prometem. Com méritos e passadas diferentes, fatiando cordialmente afinidades e proximidades. Anunciando sempre virtuosos e empolgantes caminhos. Grudando à realidade a sedução do artifício. Conhecem bem os limites da liberdade e os fundamentos da sua condenação moral. Desconsideram partidárias mediações, discernindo neles, nos próprios, o irrefutável e social reconhecimento. A alma populista não se propõe, afirma-se. Eles são o povo, logo, a voz fundada da democracia. Ou melhor, da “tra(m)palhada” fascizante dos tempos modernos…

terça-feira, dezembro 10, 2019

TEMPO DE ENLAÇAR, O SABER COM A ARTE DE VIVER

A CIRCUNSTÂNCIA DO SABER EM TEMPOS DE SENIORIDADE

Fui professor. Talvez por isso, e com o exercício e acertos devidos, aprendi com erros meus e tolhimentos de fora. Neste meu novo tempo biográfico, das sombras desse anterior sinto raiar-se a sobra de uma luz remanescente. Vinda, rútila, de uma solta e desusada impermanência. Marcada pela raridade de uma serena inquietação. Lugar nascente, afinal, onde se leveda um saber outro, simples e singular na arte de viver. De viver esse novo tempo, com passado, sim, com futuro, ainda, mas sobretudo com um intenso presente. Melhor, um aqui e agora onde o saber busca harmonia com a experiência, familiaridade com a vida e realização pela satisfação de estar, de existir. Sem currículos prévios ou roteiros preestabelecidos.

terça-feira, dezembro 03, 2019

NEM TUDO O QUE RELUZ É OURO

Num tempo de mediações meândricas e de contornos incertos, a mediatização impõe-se. Praticando a ligeireza e a superficialidade. Sem critério, e sem tempo, agitando enxurradas de imagens no efémero fundo do excesso. Macaqueando arremedos de realidade, quiçá distrativos, mas cínicos e duvidosamente escrupulosos. As audiências ordenam e as receitas testemunham. O caótico do imediato enjaula assim a ilusão, imobilizando a mediação na sua exigência e alcance. Em suma, ao contrário do que se julga, tolhe a liberdade, espalmando-a ante o desmedido peso de uma “máquina de subjetivar”. Determinando, e maltratando, deste jeito, esse lugar primordial, e genuíno, de se ser sujeito, sujeito pensante. Retraindo e comprometendo o livre exercício da liberdade. Na legítima e humana formação da subjetivação, do refletir e do pensar. Com tempo.

domingo, dezembro 01, 2019

UM RECONHECIMENTO PARA INCRÉDULOS


José Moreira deu uma longa entrevista ao PORTO CANAL. Neste breve fragmento, de cerca de três minutos, tem a modéstia e a simplicidade de destacar o meu nome. Agradado e orgulhoso pelo reconhecimento, deste me presto para botar figura junto dos meus amigos desconfiados. Ao José Moreira, um abraço.

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terça-feira, novembro 19, 2019

SENTIR, SENTINDO A INQUIETAÇÃO




Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho

domingo, novembro 17, 2019

TÓPICOS DE UMA MEDIAÇÃO DESACREDITADA


O Muro caiu e com ele dissipou-se uma marcante fronteira no tempo político. Em crescendo se abriram novos e contrastantes horizontes, e novas e resolutas engenharias se engendraram. O exercício mediático foi-se então confortando no poder ganho, e se propagando na sua ambição. Entretanto, outra e dúbia condição se espalhou. Subterrâneos interesses aproveitaram, e instalaram-se. Passo a passo, a democracia abraçada veio-se assim demudando, desfigurando-se. Habilmente o cidadão virou público, o espaço público plateia. Logo se anunciou a pós-democracia, obscura realidade ainda por entender. A cidadania foi-se desvitalizando e as suas referências perdendo-se no além do embaciamento. A superfície dos factos, por fim, tornou-se palco, publicidade, mercado. Consumo e espetáculo de emoções e fabulações assim aproveitáveis. Infundiu-se a insegurança e a incerteza, pilares do político inconfiável. Desacreditou-se a mediação prestativa, de análise e fundura úteis. Sobrou, pois, um horizonte de ligeireza, de disfarce e de fingimento. Um prolífero terreno de aproveitamentos, nutriente de sórdidos e improváveis populismos. Uma democracia, afinal, anémica, indefesa, também ela desmurada. Dos muros primordiais de intermediação que, outrora, a fecundaram e a protegeram. Em sinopse, tópicos para cuidar e pensar um futuro. Aliás, um futuro já hoje presente.

Imgem retirada DAQUI

quarta-feira, novembro 13, 2019

A MINHA CIDADE

Figura de hoje, espelho alegórico do passado. Um plástico e sugestivo cinzento de entranhadas memórias.



terça-feira, novembro 05, 2019

ERRÂNCIA, DESTINOS

Não existe ordem sem desordem. Desregramento no interior do alinhado das ordenações. As resistências estão lá, permanecem. A desordem persiste no impreciso anseio de um outro arranjo. Hesitando entre aproximações e libertações. Nesse intervalo instável da permanência, de resistir. Lugar natural de conflito em que a liberdade se aprende e deixa trilhos. No pensar e no agir. Como na afirmação que cria esperança. De um viver outro em relação ao que há-de vir. Não esperando ordem na desordem, mas tão-só rumo à errância.

Imagem retirada DAQUI

sábado, novembro 02, 2019

DA “CRISTALINA” FACTICIDADE

 Devotada ao determinismo dos factos, em obediência ao deus-capital, a liberdade deixa de ser livre. Renuncia à sua existência, reduzindo-se à necessidade do fracasso. O factual, algo que pode ser diferente do que é, torna-se obrigada condição. Essa que restringe, legitima, e se liberta da exigência intelectual, da obrigação humana. Assim, o ponto de partida e o ponto de chegada estreitam-se no comum dos números e das suas representações. Sustentadas pela útil superfície das cifras, dos seus preconceitos, opiniões e falsificações simbólicas. Enfim, postulações deste tutelar - e boçal - tempo da fúria capitalista.

terça-feira, outubro 22, 2019

HÁ DIAS ASSIM

Não sei se é tarde. Sinto apenas que é o tempo, um tempo. Não certamente de inventar destino. Só de caminhos para caminhar como se já os houvesse pressentidos. Que consintam sentido, vida, às memórias do passado. Boas, menos boas ou mesmo doídas. Barrando falhadas repetências. Tentando ler lamentos. Traduzir tolas pausas de vida. Buscando lugares de fronteira entre o vivido e o por vir no tempo. Entre o que não foi e o que poderá ser, acontecer. Ter futuro, ser ainda. Quiçá, numa outra e mudada história.

quinta-feira, outubro 17, 2019

TUDO VEIO MESMO A CALHAR


Ontem fui até ao mercado da Ribeira, ver e ouvir Ivo Canelas. Em Todas as Coisas Maravilhosas, um monólogo espirituoso, mas que nos inquieta com tópicos delicados. Tudo parte de uma lista elaborada por uma criança de sete anos sobre as melhores coisas da vida. Algumas das pessoas que assistiam foram, nestas  circunstâncias, convocadas a participar. Lendo pequenas frases ou palavras dessa lista, previamente distribuídas pelo ator. Fui um dos solicitados. Através desse breve momento, com muito agrado me associei ao envolvente e sublime espetáculo de Ivo Canelas.

segunda-feira, outubro 14, 2019

NARCISISMOS, ARTES E BAILADOS

As coreografias, hoje, mais do que ontem, crescem em número e matizam-se em subtileza. Em peculiar harmonia com as faltas temidas e a urgência da fantasia. A insuportável pequenez, se pode, mostra-se superior; se não, cresce diminuindo os outros. As músicas do grotesco exagero, ou da perversa dor de cotovelo, acompanham o bailado do artifício. À magia carnavalesca dos primeiros pode exibir-se, todavia, a torpeza dos segundos. A vulgaridade não serve e dela o dançarino se livra. Pela imaginação, da ilusão ou da ansiedade. O outro, o circunstante, que se cuide então. Ou reconhece o dançarino, ou é maltratado. A realidade está no palco e a verdade na sua dança. Na arte de convencer, ou melhor, no engenho de se provar. Não aceita não ser admirado, pois é do dançarino que se fala, quiçá o maior e o melhor. Logo, deseja ser amado, reconhecido na sua perfeição. Ele está acima de todos os outros. Governado pela fantasiosa certeza ou falta dela. Desvariando, ou diminuindo os outros. Com os outros na cabeça, esquecendo-se de si próprio. Continuadamente, recriando miudezas onde a dissimulação se atrele. Cuidando dos azares, a culpa reside sempre perdida, ou morando já ali na casa do vizinho. O (desa)tino, esclarece-se, então, como o mote em palanque. O dançarino, afinal, não se esquece de si próprio. Ele espelha, nos seus irretocáveis movimentos, a sua própria negação.

domingo, outubro 13, 2019

O VOTO NÃO REVOGA A LUTA


O Voto, de quatro em quatro anos, escolhe. A Luta, não tendo tempo marcado, faz-se quando deve ser feita. Quatro anos é tempo além da conta para alcançar o que há muito tempo se espera. A democracia, reclamando o voto, exige mais, a Vida do concreto de todos os dias. Num tempo sempre atempado e em lugares plurais para além das urnas acertadas. Quando e onde a injustiça se acomode e o abuso se faça engenho. Por uma Democracia mais íntegra e saudável, o Voto não pode revogar a Luta – a luta de todos os dias.

Respeitando, e apreciando a sua mensagem, aqui deixo um envolvente e oportuno trabalho …


sábado, setembro 28, 2019

EM TEMPO DE ELEIÇÕES, UM ARRISCADO ATREVIMENTO

O entretém do negócio mediático seguramente arreda vitalizantes e humanos tormentos. Enfeitiça o pululamento entre irrisórias telenovelas, comovedoras desgraças e outras eletrizantes frivolidades, esmerando assim o acabamento do devoto cliente. Como vale, ajustando em permanência o desfrute alegre de um tempo com pouca sobra para entender a vida, a confinante vida. Imerso então no torpor de adventícias pertenças, o confiável freguês repousa ingénuo na consolável religiosidade de um não-lugar tomado como seu. Sem pauta própria, resiste acolhendo – e não escolhendo – a musicalidade em voga. Todavia, não uma qualquer, mas a que se lhe prefigura antever um resguardo, ao que parece, mais seguro e, sobretudo, assegurado. Mestria adestrada pelas reiteradas e massificadoras mediações que têm por peculiar encargo apostolizar o público reconhecimento. Manobrando significações, ordenações e homologações, não esquecendo o arremate certeiro de frutuosas e oportunas omissões. Delineia-se, deste jeito, afinidades e sintonias. Abrigando, e guardando, no meio comum do magote, os silêncios apreensivos que as íntimas e embaraçosas fragilidades atenazam. Um lugar, afinal, que se faz caverna de fraquezas e inocências e que, por reserva, aí se acoitam. Mas aonde utilmente se adensa, em tempo de reservados apetites eleitorais, uma disputável e, acima de tudo, manipulável maioria silenciosa. Uma maioria por fim aliviada, quem sabe absorvida no bizarro triunfo dos vencedores. A pasmaceira reflui então contente à caverna, e a devoção – ufa - à mansidão de todos os dias.

segunda-feira, setembro 16, 2019

O ANUAL REENCONTRO DA FAMÍLIA LOPES

Já cá não estão os avós, os pais e os tios. Dos primos, dois já nos deixaram. Também um irmão, há algum tempo, partiu. Mas a família permanece com os seus filhos, netos e memórias. Desenrolando o tempo na busca de uma história sempre inconclusa. De um apuro que se vai reerguendo como se de uma lenda se tratasse. Entranhada num banho de afetos e de cumplicidades. Com uma leveza que se reconhece, e se revela, na sua funda simplicidade. Sem feridas que inibam a verdade da reciprocidade e a sã emocionalidade das compreensões. Trocas soltas que no presente dão mais vida ao passado. Com entusiasmo, alegria e descoberta, enriquecendo, quiçá, vazios impensados. O mundo familiar torna-se, aqui, mais vasto e o tempo do momento mais precioso e vivo. Sonhando e imaginando esquecimentos acordados. Retraçando continuidades e dando às memórias palcos mais alargados. Sem medo do falso na busca do verdadeiro, acercando a imaginação do entendimento. Revivendo o passado, sabe-se lá, se não para inventar o futuro. Revigorando afetos, a amizade e a familiaridade. Assim saudando, todos anos, aqueles que o tempo vem tornando referências sólidas do nosso presente simbólico. Preservemos o sopro, e até breve.

sábado, setembro 14, 2019

MEMÓRIA CURTA DE ALCANCE ENCOLHIDO

Vive na Madeira um homenzinho feito político que, por não apresentar a tempo a sua declaração de rendimentos, perde o seu mandato na Câmara do burgo. Naturalmente já nesse tempo de 2007 a memória não o ajudava. Naturalmente fruto de uma qualquer família de fagáceas, a sua cabeça apresenta-se como uma bolota cintilante de pedúnculo curto. Um empecimento que o estorva e o impede de ler a história e apenas nela enxergar a utilidade como seu privativo critério. Sem ética, sem maneiras, a não ser de empecilhar o seu fantástico mundaréu de empecilhos. As gentes do PS que se cuidem…

Imagem do homem retirada DESTE SEU DESCUIDO

terça-feira, setembro 10, 2019

VOLEIBOL REGRESSA AO F.C.PORTO



Parabéns ao meu amigo José Moreira e ao FCP. Permitam-me manifestar publicamente o meu orgulho, pois fui eu que levei o José Moreira para o FCP em 1967, enquanto seu treinador na categoria de juvenis. Mais ainda, relembrando que nesse ano o FCP foi Campeão Nacional na categoria. Tinha eu, então, 19 anos. Memórias que contam...

Imagem retirada DAQUI

segunda-feira, setembro 09, 2019

A PRIMORDIALIDADE DO ACASO




Imagina-se futuros, inventa-se vidas, despontam acasos. O princípio da verdade solta-se assim do burburinhar revolto do sentimento. Cá se espiga a circunstância de humanas coincidências descobertas. Casualidades que valem, significam e se representam. Que ganham corpo adiando sonhos atraídos por encantamentos. Quiçá, igualmente sentenciados por abruptas fatalidades. A sedução ou a necessidade ambas triunfam na sua emergência. E o acontecimento assim vai desafiando o então traçado, o aspirado. Com o acaso sempre presente, ajuntado à fertilidade da sua ontológica supremacia. Imerso na inevitável intimidade da facticidade com o indeclinável devir da singularidade. Garantidamente entranhado no jogo da vida que, em suma, interessa arriscar. Com certeza, ousando vive-lo.

Imagem - “Metamorfose de Narciso (1937)”, retirado DAQUI

sábado, agosto 31, 2019

A CRISTAS DE CRISTA ERGUIDA

O meu silêncio persistente dá-se há mês e meio. O querer escrever não atina com palavras que valham. Melhor, que mereçam a indelicadeza ao zelo que conforta o próprio silêncio. Repetir o já dito, de antemão, soa-me a obstinada sornice. Entre pensamentos e fantasmas a criatividade nada descobre. Então, o que me faz despontar neste horizonte de teimosas lamentações? Somente o topete que um outro silêncio devia recatar. Neste templo, e tempo, consagrado ao culto calculista do mérito, onde o sopro se fez ruído. Pois não basta a silenciosa lapidação que patrocina a meritocracia acomodada. Vai-se mais longe e fala-se bem claro. Se não chega o merecimento, acrescente-se-lhes a benemerência de outras mais-valias. Empilhe-se às vantagens outras e mais vantagens. Tonifique-se, sem qualquer embaraço, a andada da conformidade cumulativa. Endurecendo a disciplina das desigualdades que assim se vai firmando e afirmando. Sem acanhamento e nobreza política. O meu voto terá, assim e naturalmente, outro destino.

quarta-feira, julho 17, 2019

O AZEDUME DE UM OLHAR EXAUSTO


Vende-se a ilusão de que a culpa da abstenção eleitoral é, acima de tudo, dos políticos. Dos partidos, das políticas e da sequente ação política. Do meu ponto de vista, tal olhar estreita a envolvência que, no abstrato, se emblema por ordem política. Não será por isso acaso que os media são aqueles que, por grosso, alienam a retalho tal simplificação. Deliberadamente, silenciando a sua ilegítima desinscrição nesse embaraço. Ocultando, ou iludindo, a sua condição de sujeitos políticos ativos. Informam, formam, deformam e fazem opinião. Servem-se de um direito, mas esquivam-se do dever. O dever de promover o desempenho pleno de cidadania que a democracia obriga. Da vantagem sistémica retiram o poder mediático, menoscabando a sua primordial função social. A imperativa rentabilidade, de modo cada vez mais acentuado, escora-se nos números. Dos lucros, da publicidade, dos leitores e das audiências. Em prejuízo claro da afirmação do poder político eletivo, subalternizando assim este elemento constitutivo que, afinal de contas, se impõe proteger. Escudando a democracia e a sua qualidade. A tabloidização crescente do mediatismo fala por si. O croqui da espetacularidade, da emoção e da dramatização retrata a adoentada transição que nos envolve, e desenvolve. O cidadão, dando lugar ao espectador consumidor, vagueia na superfície do consumo da confusão. A traição à democracia ganha aqui o seu molde, o molde da contraversão. Parafraseando José Gil, diria que a ilusão da liberdade nasce aqui, na torção que se impõe à sua primordial inscrição, o legado histórico. Com a liberdade enjaulada, a democracia vai definhando e as vendas da ilusão tornam-se mais eficazes. A venda que cobre os olhares e a outra que redunda em proveitos, em dinheiro e em políticas que se fazem jeito.

domingo, julho 14, 2019

PADRE NUNO, XICO NUNO




Com ele, com o padre Nuno, com o Xico Nuno, aconteceu um singular encontro. Nesse lugar nobre onde as memórias dão amanho à consciência, as palavras se desfraldam mais livremente e se herda, da obscuridade, a envolvência da sua claridade. Daí se prossegue, para além do conhecido, essa humana rota, sem termo, de Resistência e Liberdade.

Atento, não deixei de pensar, de imaginar o padre, o homem, o marido, o pai, a quem muitos tratam por Xico Nuno. O que nesse entretanto se recontava, em mim, fazia-se estímulo à criação romântica de uma figura talentosamente sólida, ainda que múltipla, simples e decidida. Uma história, uma vida em que a liberdade parece desvelar-se em impulso sereno, ainda que intenso e apaixonado. Fazendo do seu tempo, um tempo absoluto, inadiável.


Para o Xico Nuno a liberdade mostrava-se, talvez, uma força vital, não uma finalidade. Uma condição da sua e nossa própria condição. Reconhecendo limites, sim, mas destes sulcando as leivas resgatadoras de esquecidas determinações. Com outros, jovens e não só, partilhando experiências do pensar livre e do criar agrupado. Ousando plurais caminhos na senda de uma sociedade de sujeitos, e não de seres enfraquecidos de suas forças de vida. Libertando a liberdade, essa força medular que tem por atribuição cuidar da vida digna. Mais perfeitamente, imputando a essa força, a essa liberdade, a infinidade de sua dedicação. Seguramente, uma voz despojada que a dignidade da condição humana, ao longo do seu tempo, testemunhou, e hoje apresenta-se reafirmada. 







domingo, junho 23, 2019

PENSAR O ENVELHECIMENTO E A LONGEVIDADE HOJE

Síntese da minha intervenção no 13º Congresso da FENPROF

Pensar o envelhecimento e a longevidade hoje, é idear um cenário onde alguns equívocos, culturais e ideológicos, se movimentam. Em especial, ao reconhecer-se que o seu lado positivo e significante faz-se de desafios humanos e sociais de óbvio merecimento político. Compreender tal realidade obriga a um olhar inteirado que, à premência dos impasses do presente, a ela acresça futuro. O envelhecer acontece a todos, todos os dias. Não tem data marcada. Deste modo, o envelhecimento faz-se, por essa razão, um tempo que a todos pertence. Não somente aos reformados de hoje, mas, mormente, dos que esperam uma aposentação com amanhã.


Pensar o envelhecimento e a longevidade hoje, não aguarda o momento da aposentação, desse tempo simbólico onde tudo parece iniciar-se. A simplificação aqui interposta desmerece um processo desejavelmente natural, ativo e progressivo, confirmado na sua irreversibilidade. O envelhecimento, sendo algo que se modaliza diferentemente de pessoa para pessoa, é obviamente marcado por condições de vida objetivas e pelas respetivas transformações sociais que as assistem. A longevidade será, assim, adicionalmente depreendida como um tempo de todos, desse tal inevitável amanhã do natural envelhecimento.

 
Pensar o envelhecimento e a longevidade hoje, mais do que nunca, mostra-se cada vez mais manifestamente um tempo de todos. Para tal, é inadiável significar esse tempo que se completa e se determina através dos seus múltiplos tempos sociais. Tempos estes que se materializam em dimensões determinantes na qualidade de vida das pessoas, a começar por quem ainda trabalha e aspira à sua justa aposentação. Repesando, deste modo e a diversos níveis, os tempos de trabalho e os tempos de não trabalho. Aprendendo a envelhecer, enraizando o seu saber crítico no que vai acontecendo e experienciando. Procurando viver esses diversos tempos revertendo-os em momentos e circunstâncias estimulantes e, seguramente, bem-sucedidos.


Pensar o envelhecimento e a longevidade hoje, não se acerta, pois então, no momento da aposentação, ou seja, num possível e inquietante tempo de rutura, quiçá marcado por uma continuidade improvável e arredia. Aprender a viver o tempo de aposentação, acarreta compreender, politica e ideologicamente, a extensão e o enredamento do seu percurso prévio. Os caminhos são naturalmente diversos, decerto mais penosos para aqueles que os palmilham em terrenos de maior fragilidade humana, social e profissional. As desigualdades, fonte discricionária dessas fragilidades, naturalmente que se repercutem de modo diferente ante a progressividade do envelhecimento. Todavia, o nosso tempo permanece sempre e continuadamente aprisionado à complexa questão dos tempos sociais, nomeadamente quando ele, de modo abusivo, nos é confiscado. Ou melhor, se consume docemente enquanto objeto de exploração desta confeiçoada ordem colonial capitalista.

PADRE NUNO, XICO NUNO


Dia 9 de julho 2019 – terça-feira, pelas 18h 30m


segunda-feira, junho 17, 2019

UMA MEDIAÇÃO INEVITÁVEL E OPORTUNA


A figura de Mário Nogueira pode não ser consensual. Porém, junto dos professores parece não haver dúvidas. O 13º Congresso da FENPROF confirmou, de modo irrefutável, essa confiança. Nele, certamente, mas sobretudo na sua palavra política e na determinação com que a legitima e a assume. A crença irradiada, pela sua voz, cruza fronteiras sociais e profissionais. Daí, considerar que a sua intervenção representou uma mediação política alargada, claramente inevitável e oportuna.



sábado, junho 08, 2019

A FLAMA DAS MEMÓRIAS, ENTRE O REAL E A FICÇÃO


O segredo discursivo conservador, de parcialidade imoderada, firma-se e afirma-se na sublimidade das memórias. Fazem compêndio deste peculiar e particular património, marcadamente moral, silenciando a verdade do vivido. Calando, e acalcando, a desigual riqueza histórica herdada, sobretudo o agregado espólio de dolorosas e sofridas memórias. Aferra-se, assim, tal cifra em emudecer a voz dos sentimentos dos que mais - e repetidamente - sofrem. Afinal, amargura feita de dores que inspiram, sem destino prévio, um imponderável ímpeto de memórias para além das próprias memórias. Sequelas de singulares e múltiplas vidas, sempre diferentes, marcadas pela absorvente torpeza das desigualdades. Muitas delas imerecidas tramas humanamente indignas. Mais do que os sucedimentos, tais memórias, remanescendo pelo amargo e repisado sentimento, despertam o (re) sentimento. Um armário de dupla face intrinsecamente humano que, criativa e em diálogo, no seu íntimo se nutre e anuncia. Em suma, memórias vivas, e ressentidas, de um tempo passado de jeito algum enterrado.

segunda-feira, junho 03, 2019

ILUSÕES DA VIDA


A palavra poética expande os nossos olhares, agita as nossas compreensões e aviva as nossas reflexões e os nossos pensamentos. A filosofia e a política, de forma natural, nela se inscrevem.


Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu,
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.

Francisco Otaviano (1825-1889)

Retirado DAQUI

sábado, junho 01, 2019

UMA BOA CONVERSA


Gosto de uma boa conversa. De reciprocidades vivas e vantajosas. Escutadas com abertura ao entusiasmo da companhia. Dando vida a experiências próprias. Não de outras e de outros que as calam. Gozando, sim, a autenticidade que se resguarda da não autoria. Fazendo valer a natural fugacidade que, no entanto, deixa marcas. Nesse fundo deleitável onde a alteridade oferta memórias que regressam. Ilusoriamente silenciosa, mas a todo o momento comunicante. Subjetivamente indelével no seu jogo performativo. Afinal, uma conversa que nos acrescenta um quê identitário. Tornando-nos mais completos e, justamente, ainda mais disponíveis. Para a vida, a tal de todos os dias. Com boas conversas.

sexta-feira, maio 24, 2019

O MEU VOTO

Escutei múltiplas das intervenções dos candidatos, diga-se suficientemente bastantes e diversas. João Ferreira merece a minha consideração e, assim, o meu voto. Sério, sempre consistente e coerente. Não se escudou em abstrações e aviltamentos. As suas palavras, sempre explícitas e convincentes, apresentaram e procuraram caracterizar a realidade que, sobre esta intrincada Europa, e em razão disso, importa resenhar. Não fez delas, das palavras, recreio político, nem as usou para desdenhar dos adversários. Falou de problemas, de políticas e questionou, com sentido de oportunidade, os outros candidatos sobre factuais e urgentes soluções. A sua postura, o seu trabalho e a sua voz, serena e crítica, dão-me a mim como cidadão a representatividade que busco nestas eleições. Eis a minha, e apenas pessoal, síntese que a Liberdade me leva a decidir.

quarta-feira, maio 15, 2019

UM SABER QUE NÃO ABRE MÃO DO AFETO


Há coisas que se descobrem quando se sente, quando se existe, de verdade, no afeto do outro. Uma boa sorte, afinal. Uma ventura que se cuida para além do simples estar presente. À partida, sem destino. Segue-se, sim, o resguardo da confiança partilhada. Fazendo relação que a estima anima e o respeito afirma. Por entre palavras e ideias que significam sempre mais. Decantando o desafogo e nutrindo o ser que se vai, desde sempre, sendo. Indagando compreender mais e melhor, ao alumbrar, na andança, escuros que guardam o que não devem. Reconhecendo o valor do diálogo confiável das interioridades. Abraçando no enlace o alcance ontológico do saber humano acerca do humano. Em direção a um sonho justo de imaginar novos e possíveis lugares de estar, com verdade. Mais seguros, genuínos e responsivos. Certamente, mais compreensivos e sociáveis. Zelando pela condição humana e pela sua dignidade. Sem buscas particulares de recompensa narcisística. Apenas transformando a desalmada condição que tolhe a liberdade de sonhar, de descobrir, de criar.

Imagem retirada DAQUI

domingo, maio 05, 2019

OS SILÊNCIOS DA CONSCIÊNCIA


A consciência apela e inquieta. Não por palavras, mas pelo seu murmúrio. O silêncio é uma sua expressão. A cumplicidade destina-lhes a corrente. Movendo juntos a condição moral do acerto. Com ela alcançando uma voz, a dita voz da consciência. Porventura, mais sagaz na possibilidade da sua autenticidade. Uma voz que nos acompanhe na busca da liberdade rendida. De respirar para além da impessoalidade do submerso. Sem culpas a não ser as nossas. As que, de verdade, nos angustiam. E se adentram no nosso ser mais próprio. De um modo autêntico na radical possibilidade de existir. Culpando-nos, então, e aí sim, do que não se fez (ou se fez) enquanto seres-livres. Restam-nos, isto posto, o reconhecimento das desoladoras letargias. Desejando e querendo ter uma emendada consciência. A que nos responsabilize pelo nosso próprio ser. Vivendo, sendo mais autênticos nas nossas escolhas. Morais e não só.

Imagem retira DAQUI

terça-feira, abril 09, 2019

DE FATO E GRAVATA, ELE PRÓPRIO


Há gente atrofiada, reprimida e mutilada que insiste, em recurso próprio, mostrar-se social e moralmente com excelência e sobriedade. Tudo certo, pois a sua moral tem por função apenas convencer, e com isso, lograr descanso na ilusão. Dirigem-se proporcionados aos que importa iludir, mas opostamente não se apaziguam perante a exigência ontológica da dignidade. Eis a clandestina disfunção. Ou seja, o desejo de convencer o outro fazendo-se depender de valores que, em suma e sobretudo, interpelam a sua própria vontade. Esclarecendo não o que a vontade verdadeiramente quer, mas aquilo que quer essa sua circunstancial, quiçá, utilitária conveniência. Assim vai essa gente – confraria de pequenas e mesquinhas personagens – se negando, julgando atingir a desejada afirmação atormentada. Todavia, ficam-se pela aparência, provavelmente certos, não do mérito da fantasia, mas do crédito que um putrefato meio burguês, tido por natural, lhes reconhece.

O fato e a gravata, assim como a panóplia de simbologias similares, ajudam. Mas, conselho meu, se bem perfumados, tanto melhor. Tornar-se-ão, seguramente, mais convencidos e, vamos lá saber, mais convincentes. A fragrância acorre, deste jeito, com o ganho útil de aromatizar o ambiente.

quinta-feira, abril 04, 2019

REFORMAS ESTRUTURAIS, DO DISSENSO AO INSUCESSO SOCIAL


Cruzar-me com doutos economistas a discorrer sobre política, o meu juízo intempestivo convida-me a servir de um simples cálculo em discordância com a cultura do tempo. Como? Sopesando o número de vezes, que da instruída voz, o clamor dos mercados se sobreleva ao iniludível exercício do político. Ou melhor, quantas vezes essa voz, entoando e consagrando o culto de uns poucos, se esforça, e se esfola, por tornar mudo o interesse de todos.

Ouvi-los proclamar por reformas estruturais é como escutar um infundado presságio convertido numa repisada e venerada superstição, à qual a persistência mediática empresta um carácter vizinho do sagrado. Assim sendo, em rutura com tais ascéticas crendices, hoje elevadas ao descaramento neoliberal, importa muita firmeza ideológica (e atenção política) na disputa desse turvado e tinhoso jogo de luz e sombra [1].

Compreender a vida, para nela poder viver agindo e nela poder causar os efeitos ambicionados, só na base de um consenso acrescido, e esclarecido, é possível obter esse poder. O poder de pôr em prática o avesso, ou seja, reformas estruturais insubmissas a essa fóbica fórmula mágica, apadrinhada pelo capital e nutrida pelo acasalamento da cumplicidade política com a sovinice manhosa dos mercados. Agindo, assim, não pela enfraquecida e costumeira reação, mas pela nobreza da decidida afirmação da dignidade da condição humana.


[1] Edição de março 2019, em Reformas estruturais de esquerda, expressão usada, e bem, por Nuno Serra no Le Monde Diplomatique.