domingo, dezembro 10, 2017

OS OUTROS, E AS HISTÓRIAS QUE DELES RECRIAMOS


As coisas mais mesquinhas enchem de orgulho os indivíduos baixos, diz-nos Shakespeare


O subterfúgio da invocada natureza de vida interior é um artificio enganoso. Pior, comodamente dissuasivo, e para o próprio, por vezes, paradoxalmente impiedoso. A vida interior não é uma coisa, um íntimo em si. A vida interior existe, sim, se bem que na presença dos seus factos que se cravam no leito dramático de um real amiudadamente apoucado. Não obstante, quando isolados do seu lugar concreto, tais factos se tornam engodos míticos, pois esburgados e desnaturados de si mesmos. Viver no íntimo de nós próprios é experienciar a verdade, acaso um coabitar interior, ainda que resultado de uma autenticidade de ecos particulares, nem sempre alcançáveis. É nesta dura experiência, embora sempre incerta, que se busca a entidade ontológica daquela vida íntima que, assim e imperfeitamente, se entrega com simplicidade a um falso interior amansado. Esta, intuitivamente sentida pelo próprio como dolorosa, talvez mesmo inconsciente por abrigo, se faz preguiçosa na diligência receosa de esbarrar com dependências e reciprocidades que não se intenciona aclarar.

É assim que, ao escutar testemunhos de vida, se não se atender e cuidar do concreto das histórias, imaginamos (ou romanceamos) apenas tristes estórias de falsos duplos. Que nos servem, estas, para recontar, recriando, sabendo ou não que, sobre elas, a imprecisão nos deve inquietar. Quando não, mesmo sacudidos pela inquietude, deliberadamente ousamos então deturpar, mentindo para outros salivarem e, babados, a fazerem medrar.

terça-feira, dezembro 05, 2017

HORÁRIO DO FIM


tio oscar2Porventura, sou sem me dar ao desafio de ser. O concreto das determinações que me decide, esconde-se-me. Amiúde, busco resgatar essa história que assim me foge. É nesse exercício de pensar o passado que a saudade, não raro, se experimenta. A circunstância, todavia, desespera pela alvura da nítida lembrança. A pessoalidade de afeto conservado, agita-se no interior das densas memórias esbatidas. A insistência teimosamente fracassada confirma-me de que pouco vale o meu interpelar racional da saudade. Acima de tudo, explicá-la, situá-la. A saudade existe. Sinto-a, e essa é a verdade que me resta da recôndita materialidade. O fardo torna-se, assim, mais pesado e difícil de suportar. De tal maneira fatigante se faz que a saudade se completa em pesadelo. O vigorante saudosismo, acolitado pela sobredeterminação de cabalísticas raízes, culpa-me então de fraqueza. Suponho-me, então, exilado nesse passado que não recupero, mas que o sinto na pele sensível do vivido.

Em jeito de sinopse, significo com Mia Couto, lembrando que o Fim tem sempre o seu horário. Quando chega a vez, morre-se de nada. Quando é o justo momento, morre-se de tudo. Porém, não é nunca, para nós, esse momento. Por isso, as memórias cá estão para suspender e embargar esse Fim. Com a saudade a musicalizar a inspiração dos achados que interessam. Por isso, sem saberes, continuarei a cruzar-me contigo. Até breve, tio.

sexta-feira, novembro 24, 2017

CONVENIENTEMENTE ENTRETIDOS

O politicamente correto desvia-se, mais do que se julga, das referências morais com que se anuncia. A ordem pragmática da conveniência prevalece antepondo-se à exigência moral da probidade assim adormecida. A favor de propostas, seguramente, de improváveis vantagens. Os costumes ajudam, os urdidos preceitos informam e as valias inspiradas desatam, como se espera, as raízes da matéria ética. As boas maneiras, então afloradas, interpelam as gentes através de usos tolos e desmedidos no encalço de volúveis expectativas. Sem se dar por isso, vagueia-se pelas ruelas caóticas da ideologia onde o óbvio se faz acerto impreciso e duvidoso. A conveniência transfigura-se, deste jeito silencioso, em esquema e medida do gesto social. Sem profundidade e densidade humana. A conveniência cumpre, então, livremente o seu oficio. Entretendo e entretecendo o templo e o tempo desse social.

domingo, novembro 19, 2017

ELOS DA EDUCAÇÃO, LIAMES DA VIDA


“O homem é sempre mais do que sabe de si mesmo. Não é o que é de uma vez para sempre: é caminho” (Karl Jaspers)

Queremos, afinal, ser gente, sonhando com inteirezas ou perfeições. Porém, com o tempo, moldamo-nos ao fracasso da sua improbabilidade. Daí, o possível fazer-se da vida e do futuro que resta. Desenganada a infactível perfetibilidade, o realizável descobre-se na entrega ao impulso do desafio. Apesar da deceção, acredita-se nas possibilidades do estreitado caminho ainda assim aberto. A educação é esse caminho, sempre diferente, do vai e vem entre o “si-mesmo” e o mundo. Logo, a nossa humana realização não escapa a esse mundo, nem prescinde desse caminho incomum. Ainda que este caminhar se nos afigure estranhamente rotineiro…

segunda-feira, novembro 13, 2017

O DESEJO DETERMINADO DE DURAR QUE SEMPRE PREVALECE

Ao João, amigo de longa data!

O passado é uma anterioridade sempre relembrável. As suas precedências alimentam as memórias do tempo presente. Estas, permeando o futuro, não decretam, porém, o Futuro. Neste porvir, pela esclarecida coragem, recuperam-se transvios recuados. As descontinuidades prestam-se, por isso, a tais reparações. Outras prioridades se revelam então. E a ordem a contrariar, na aparência precisa e arrastada, desnuda-se. Anuncia-se, afinal, atacável pela necessidade destemida do reparo. A vida, essa, enquanto ordem última, resiste e projeta-se nesse outro Futuro a inventar. Os impulsos, as motivações e as emoções, que outrora atraíram, mostram-se, pois, debilitados e inexprimíveis. Deste modo, a vontade traída, retira-se do beco sem saída do juízo gratuito. Os meios desobrigados dos seus fins, mostram-se pequenas artes para tão pobres propósitos. Sobrepõe-se, de agora em diante, o desejo determinado de durar que sempre prevalece. E o caminho, decerto, acontecerá desdobrado em múltiplos e merecidos possíveis.

quinta-feira, novembro 02, 2017

A ALQUIMIA DA LIBERDADE


A LIBERDADE é uma presença íntegra que nunca nos abandona. Bem como, não estranhamente, em circunstância alguma se nos impõe. A LIBERDADE anuncia-se, deste jeito, igual a si própria. Falamos da LIBERDADE. Sempre presente, confiável na sua discreta e irrevogável decência. Companhia diligente, solidária e generosa, apesar dos nossos continuados descuidos. Da LIBERDADE, a sua coragem assusta-nos. Desperta-nos inquietações, quando não inoportunos desconfortos. Embalados nos romantismos das nossas agitações, DELA não desmerecemos a sua solicitude. A pujança das urgências, provavelmente adiáveis ou mesmo inúteis, por si só, determinará o descaso em favor das vontades do momento. À LIBERDADE, embora atenta e presente, viramos-lhes então as costas. Não por receio de sucumbir à firmeza do seu axiomático olhar, mas por recusa da árdua tarefa que ELA, porventura, encorajaria. Sobra-nos, assim, a agitação dessa vida outra, uma vida animada talvez por profusas máscaras, farsas e preconceitos. Mesmo assim, a LIBERDADE, pedagógica, tolerante e paciente, não se retira. Observa-nos, sempre presente, certamente desolada, ante a dramatúrgica cena de cativeiro que representa, afinal, a nossa alegre, embora comovente condição de amansados. Mas ELA continua lá, mesmo ao nosso lado, aguardando paciente, talvez inconformada, por um qualquer apuro nosso.

domingo, outubro 29, 2017

JURO QUE NÃO VOU ESQUECER


A proximidade, o sentir dessa afabilidade que por vezes suscita e (desse causar) nos inspira, a um misterioso acordar humano do adormecido que permanece teimosamente na indignidade do nosso descuido.


Texto de António Lobo Antunes, Visão


domingo, outubro 22, 2017

A INVERDADE DA VERDADE DA EVIDÊNCIA


Com proximidades e sentimentos díspares, e proporcionalidades desiguais, o FOGO-CALAMIDADE é sempre uma evidência que desperta múltiplos sinais. Paradoxal e juntamente, a evidência atrai, em circunstâncias desta natureza, apaixonadas respostas invariavelmente precipitadas. Mais do que soluções, estas obscurecem as razões quanto a elaborações possíveis de leituras seriamente fundamentadas.

A liberdade de discorrer e ajuizar sobre a tragédia é inatacável, mas o abuso de pensamento e expressão, sobretudo no domínio da responsabilidade política, não pode deixar de ser reprovado pelos critérios de rigor e disciplina exigidos por uma conscienciosa e genuína vontade de empreender uma consequente e séria reflexão, obviamente aprofundada, consolidada e crítica.

Assim sendo, a evidência, enquanto tal, pode somar tolhimentos às dificuldades de compreensão das coisas. Através dela, corre-se o risco de aliciar e manipular a natural e humana superficialidade do visível, do emocional e do trágico. O imediatismo aí se enraíza, tornando a desconstrução dessa evidência uma exigência penosa e difícil. Por isso, é determinante avivar a vigilância à natureza das inquirições e aos arrebatados entendimentos daí decorrentes. Afinal de contas, estas poderão constituir não mais do que acrescências que ensarilham o PROBLEMA e não, de acordo com o que se pretende, alcançar as imperiosas indicações benéficas à cura que se busca.

O rigor e a disciplina no pensar, passe o juízo normativo, não pode ser descuidado e, muito menos, aviltado em momento algum. Mormente, nestes dias calamitosos marcados por reconhecidas causas de viciosas políticas que, ao longo do tempo, a vários governos responsabiliza. A incompreensão pode conduzir, assim, a um excesso de palavras frívolas, a trás das quais se acoberta o essencial do PROBLEMA e se omite a sua lamentável história. Eis, deste modo, um novo problema, aquele que sobrevém da inverdade que a verdade da evidência se arrisca a ocasionar e a fazer frutificar, desvanecendo assim o verdadeiro e lídimo PROBLEMA.

terça-feira, outubro 10, 2017

DECERTO, ILUDINDO O DESABRIGO DO TEMPO

Um tipo, quando escala a uma idade mais avançada, bem vivida e calejada, é natural que se vá dando, com o tempo, a um outro andamento. De quando em vez, a vivacidade que lhe remanesce resiste melhor às sacudidelas do imediatismo e a experiência dos refolgos, à peculiar condição, faz-se aprendizagem. Benfazeja por vezes, se bem que correntemente inquietante. Em tais casos, despertam-se inéditos acessos, alguns deles impremeditados, dificultando que os caminhos outrora demasiado espezinhados, e hoje não andarilhados, se façam penosos e soberanos vazios que unicamente a resignada memória dá conta de habitar. Assim sendo, e acompanhado por este acolhedor otimismo, vai-se rasgando este novo tempo resguardado, tanto quanto possível, das inevitáveis intempéries da vida.

É isso, creio eu. Não obstante, pergunto-me se acredito mesmo crer? Ou, pelo contrário, se calculo eu que o seu avesso abrigue mais verdade? Não sei. Releio o que aqui aprontei em jeito de texto, rabiscado e acomodado por palavras acotoveladas pela vontade de enxergar futuro. Afinal, o que de sincero admito no que acabo de escrever? Com efeito, não sei. Suspeito, isso sim, que o essencial eventualmente me tenha atraiçoado e escondido atrás das doces e simpáticas palavras, que essa vontade, mais do que eu, soube juntar. Se assim aconteceu, porventura, ainda bem. Por certo, sensatamente não quero agora sequer encontrar as inverdades que elas encobrem, as indignações que elas mascaram e os ressentimentos que nelas rodopiam. Por conseguinte, repito, não sei, não quero saber. Mais-quero, isso sim, deixar-me encantar melosamente pela exalação desse bálsamo que o otimismo, generosamente, desprende e espalha e eu, respirando-o, dele possa beneficiar.

sábado, outubro 07, 2017

SURPRESA, OU NEM TANTO?

A densidade do institucional demarca e orienta olhares, atenções e intenções. Descuida, por pecha, margens de vida por ele postergadas. As vozes das cercanias não são escutadas pela estranheza dos seus timbres e os seus silêncios fazem-se falsamente insignificantes na paisagem do quotidiano político

Fazer ciência política exige saber e talento para tal. Por manifesta desqualificação, analiso e procuro explicações, aliás persistentemente hesitantes, para os factos e acontecimentos políticos que observo. Por isso mesmo, neste breve texto comprometo-me a não transpor a raia desses ajuizados limites. Para mais, admitindo que o objeto a apreciar é uma realidade que, em concreto, confesso, a represento marcada por calorosa intuição. Assim, para além destas pouquidades, acresce também a natureza compósita do fenómeno observado. Logo, deste apenas isolarei um tópico que me atrai, e nesta contingência, de óbvia natureza empírica. Ou seja, o aspeto da confiança política, que creio relevante para uma leitura compreensiva, seguramente transversal do ponto de vista disciplinar, dos resultados eleitorais autárquicos em Peniche.

Pensar a eleição autárquica em Lisboa ou no Porto não é a mesma coisa que considerar a mesma eleição numa pequena cidade como Peniche. Tendo presente a ideia de confiança política, de imediato se me coloca, nestas circunstâncias, a possibilidade de a interrogar na sua natureza, materialidade e abstração. Como é sabido, o conceito de confiança acolhe coloridos distintos e, daí, qualificativos igualmente característicos que, paradoxalmente, apontam diferenças que estabelecem alteridade. Ao expressar confiança rodopiamos à volta de sentimentos, convicções, crenças, familiaridades e simpatias. A confiança política, não dispensando tais translações, convoca (e consente) mediações de múltiplas influências (institucionais, ideológicas ou outras) com consequências semânticas indomesticáveis. Assim sendo, as referências que deste modo a suportam vão-se ressignificando, no encalço de atingir, ao fim e ao cabo, o argumento síntese da fundada e alegada confiança.

Peniche, sendo, como se disse, uma pequena cidade, e como qualquer cidade pequena, é caracterizada por um tecido enraizado em dimensões comunitárias, de natureza diversa, ocasionador de proximidades e solidariedades, bem como de convicções partilhadas de valores e, naturalmente, de identificações que daí decorrem e que importa considerar. Sem pretensões de profundidade, e tendo em atenção as indagações acima referidas – natureza, materialidade e abstração da confiança política – é aceitável pensar que a matriz das mediações, neste contexto de maior proximidade/pessoalidade, experimenta o desafio de confinidades múltiplas que despistam, como se comprovou, lógicas de certo modo consolidadas ou previsíveis. A confiança política mescla-se, assim, com a confiança pessoal, e esta, com a calorosa simpatia que particulariza, acresce àquela outra o vigor que a testemunha e compele ao voto. A democracia não dispensa partidos, mas terá de aprender a viver (e a indagar-se) com estes saudáveis embaraços.

                                                                                                                                 

quinta-feira, setembro 14, 2017

SEM DRAMAS, EM OUTUBRO LÁ ESTAREI


O particular, vale o que vale. Porém, significa sempre. O certo do seu alcance é o da utilidade. Do cabimento, nem sempre. Por si, não é o bastante para dar à presunção um valor comum. Diferentes particulares competem. Da disputa desata o problemático e, daí, desponta o problema. Dado que as ocultações que do absoluto e da totalidade não trazem saída, alcançam crédito as ligações que objetivam o particular. Destas se faz o político, continuadamente em aberto. O desejo de fazer melhor envolve-se quase sempre com o incómodo da dúvida e o receio da confiança. Reconhecendo que não há acordos perfeitos e absolutos, a política renasce então da sua viva dissonância. Não há dramas, decorre da natureza tensional da democracia e esta respira da sua imperfeição. Votar por uma melhor democracia? Decerto que sim, acreditando que os resultados venham a ser os mais preferíveis. Sem essa confiança, de que vale votar? Em outubro lá estarei. Por uma melhor democracia, capaz de uma eficiente e justa política. Saberei eu optar? Decididamente, sim.

domingo, setembro 10, 2017

OS NÚMEROS NÃO MOLDAM SENTIMENTOS


A política, ao institucionalizar-se, desvia amiúde o seu centro de gravidade. A apressurada dinâmica, que advém da presteza combativa do seu (des)caminho, causa ingénitos efeitos nocivos. Destes, em particular, se afloram os prementes jogos (formalizados) de poder, assim como, o arrasto de sagacidades desperdiçadas ou, mesmo, desgraçadamente transviadas. Entre outros efeitos, sequelas na perda de compreensão crítica das dominações e das oposições, nesse comum que rasga a imensidade diversa dos cursos humanos, mormente, dos inscritos na lavra do social.

Não se declina aqui a necessidade de urgência na luta política. Quiçá, por essa imperativa razão, interessa sulcar e, acima de tudo, brigar por um conceito de política mais amplo, mesmo que o reconhecendo ontologicamente incontentável. Amanhando solos abandonados e circunstâncias muitas vezes desmerecidas, na certeza que a democratização do sistema político não pode realizar-se ante a indiferença da sua capilaridade e disseminação. Mais, na convicção profunda que a democratização das relações sociais constitui o medular onde o político se crava.

segunda-feira, setembro 04, 2017

INTIMATIVAS (ALEJANDRO JORODOWSKY)


Em entrevista ao Diário de Notícias de 4set2017

“Para sabermos o que é bem, temos de conhecer o mal. Todavia, a moda atual mais perigosa é a mentalidade dos preconceitos. Está na moda encher os cérebros das crianças com preconceitos. Vivemos dentro de uma prisão mental. As pessoas têm de se libertar de uma série de preconceitos”.

sexta-feira, setembro 01, 2017

CAMINHAR SEM CHEGAR A LADO NENHUM


Quem luta incansavelmente pelo seu apuramento, o fracasso espera-o. Certamente. Porém, o trágico não se passa tanto com este, mas com aquele outro que se aprecia cumprido no museu das memórias a caminho da paz do cemitério.

quarta-feira, agosto 23, 2017

ESTAREI ENGANADO?



Eis uma exposição, do meu ponto de vista, demasiada esquemática para a complexidade de valores nela inscritos e que muito prezo, tais como a partilha, o respeito e a verdade. Como diria Bragança de Miranda, na sua "Teoria da Cultura", o método pode conduzir a uma complacente tecnologização do pensamento. Se não vejamos; o que aconteceria se todos os presentes observassem o princípio aqui defendido? O improvável silêncio tornaria impraticável o próprio princípio e o cenário convertia-se num absurdo ridículo. Assim sendo, ante tal consequência original, o princípio revelar-se-ia contrafeito, porquanto não resistiria ao limite da sua possibilidade. Moral da história; saber ouvir é, ou deve ser, um valor de apreço e respeitabilidade pelo outro e pelo afazer que os une e, de modo algum, no meu entendimento ético, um desvalor perverso assente no cálculo, na necessidade, e sabe se lá, se na exploração da seriedade e da inteligência do Outro. Estarei enganado ou, de facto, em presença de um tolo chico espertismo da insolvente modernidade?

quinta-feira, agosto 17, 2017

PARA UM EXERCÍCIO MAIS ÍNTIMO

Retirado da entrevista de verão a Marcello Duarte Mathias (MDM), ao DN de hoje.

"Sim, sem querer cair numa espécie de psicanálise – a um freudismo de feira -, acho que todos temos dentro de nós uma pessoa com a qual dificilmente nos confrontamos. Julgo que todas as vidas são falhadas, mesmo aquelas que aparentemente foram conseguidas. Não falo dos domínios profissionais, mas do nosso foro íntimo, através das afetividades, dos encontros ou desencontros, das nossas ações, da diferença entre o sonho e a verdade, entre ambição e realidade… Somos todos uns falhados, uns mais do que outros, uns conseguem esconder isso melhor. Há no fundo de todos nós um recheio de obsessões íntimas e a vida é uma tentativa de nos resgatarmos dessas obsessões e dessa sensação de fracasso."

Convoco, assim, para uma recôndita e disponível reflexão, tendo por esteio esta assertiva de MDM, procurando deste modo despertar um diálogo genuíno e sincero com o sentir de cada uma das nossas verdades. A autenticidade por aqui passa…

quarta-feira, agosto 16, 2017

VERDADES E REVOLUÇÕES


20840965_2034023590069937_89526410580454051_nUm bom tema, pois há verdades (e Verdade) e também revoluções. No campo apenas das verdades, as primeiras distinguem-se da segunda na justa medida em que se colocam numa contextualidade que as determina e esclarece. A Verdade, essa outra, busca uma universalidade servindo-se decerto de uma abstração que supostamente a protege. Ao invés, as primeiras abusivamente forçam o engaste da universalidade numa particularidade que se intenta legitimar. A Verdade, essa outra imaterial, imagina-se também (por vezes) apresentar-se como uma totalidade, quiçá redutora, que tudo pensa (ou quer mesmo) arrogantemente abarcar. Neste quadro esquemático, sem pretensiosismos teóricos, assim nos vemos perante um entusiasmante imbróglio filosófico e epistemológico. Por isso, as verdades e a Verdade têm (e ganham) espaço para abraçar múltiplos planos e, igualmente, atuar em domínios diferentes de diferentes naturezas. Daí (e aí ), significados e sentidos multifacetados se fundam. Daí (e aí), as complexas revoluções se vão (ou não) realizando. Todavia, é minha forte convicção, todas elas sempre assentes nas verdades enraizadas em uma sentida e pessoal autenticidade (ou não) que nos escolta. Aqui reside, suponho eu, o eixo impulsivo da busca corajosa das nossas pequenas verdades a caminho de uma Verdade teimosamente esquiva, se bem que, nunca se sabe, potencial e existencialmente revolucionária.


sexta-feira, agosto 04, 2017

A SEDUÇÃO PREDADORA NA LÓGICA DA MILITÂNCIA (A)POLÌTICA


A retórica política porta consigo, amiudadas vezes, algumas despudoradas emboscadas. Os conhecidos e perversos efeitos destas, levam-me a reconhecer a sua espantosa eficácia. Se bem que, e é bom lembrar para o foco deste texto, o hábil uso dos seus preceitos faz-se competência porque as suas vítimas não enxergam ou aceitam o logro. Por que dele não querem saber ou, pior ainda, ao desmenti-lo prontamente, se apresentam comprazidos na sua doce ignorância. Talvez por comodidade ou, certamente, por volúvel presteza, quando não, por arrogância da própria (in)suficiência. O que me é particularmente irritante não é o que essa gente vai ou não daí obter. O que me azucrina, isso sim, é que essa gente não tolera os outros, sobretudo os incómodos espíritos críticos. Melhor, o que de facto me incomoda é a ostensiva incomplacência dessa gente com aqueles que questionam, que ousam ir além das palavras, que se atrevem a duvidar das promissões ou que, tão simplesmente, se afoitam à hermenêutica das peripécias.

E por quê a minha indignação? Por que a aparente e enganosa tranquilidade dessa gente, quando sobressaltada, e junto, a insolência que a escolta se percebe desmoralizada, o rechaço se denuncia desproporcionado, reagindo ambas em uníssono e a uma só voz em defesa de um eu tolamente narcísico. Assim, nesse derradeiro momento de inescapável fragilidade, a verdade vem ao de cima, a adulação ao discurso sedutor dos predadores, na contingência, nervosamente se sobrestima e o efeito traiçoeiro da cilada, entretanto aparelhada, cresce engajada no triste método do enxovalho argumentativo, a favor de uma silenciosa, mas calculada neutralização do pensar que se anuncia crítico. Neste chamamento ao diálogo com o campo psicanalítico, talvez se possa desobscurecer – é apenas um contributo – um dos traços identitários dessa gente maldizente e perseverante que abomina o que não sabe, ou que não lhe importa saber, e que dessa pouquidade faz do bota-abaixo, desse ao alcance da mão, a patética militância do seu martirizante mal-estar.

terça-feira, julho 25, 2017

O CANIBALISMO VAGUEIA POR PEDRÓGÃO


Reitera-se que a nossa identidade de ser português balouça entre várias e contrastantes particularidades. O nosso carácter saudoso, embora marcado pela convicção messiânica, facilmente resvala para a inveja mesquinha ou a vaidade justiceira. O sermos anunciados por uma religiosidade caridosa e, apesar disso, esta se tornar, no acometimento pessoal, paradoxal na sua generosidade e solidariedade. Gente que se diz fadada a uma infinda docilidade e, todavia, ser dada à ousada imaginação poética e ao sequente sonho criativo. Enfim, talvez um povo desaconchegado na sua identitária duplicidade de ser e não ser, desejando estar onde não está.

Quem sabe, não sejam estas, nossas e reafirmadas características, marcas inscritas, não apenas em nós, mas na natureza evolutiva do humano que o Homem tece como fronteiras sentenciadas e naturais. O impulsivo algoritmo dessa relação dissonante da sensibilidade, da emocionalidade e do pensamento seja, assim, insubordinado aos limites geográficos e culturais. Daí, considerar provavelmente que é neste terreno escorregadio, ambivalente e naturalizado, que o exercício interesseiro da política se faz, dando origem ao canibalismo ecuménico que a destrói na sua dignidade e equilibrada legitimidade. Pedrógão e o entender das listas das vítimas consubstanciam, na minha opinião, a expressão persuasiva de um conflito político que dessa androfagia é padrão. Lamentavelmente, aquilo que se impunha nobre e ético presta-se a uma reles e desumana pequenez no zénite da tagarelice política. Infelizmente é o que temos, em Pedrogão e não só ...


segunda-feira, julho 17, 2017

O PSD E A COMPULSÃO DE UM PASSOS À ESTAFADA REPETIÇÃO


Assiste-se, presumo eu, a uma sequela traumática neste PSD, excitada por um triste e deprimido Passos Coelho, ainda fixado à marca de uma suposta e inconsequente vitória eleitoral, provável razão de ser desta estendida e gritante experiência do trauma. O seu discurso repetitivo, enfezado e cindido, não atina com qualquer rota de inscrição na teia, aliás consensual, de representações agora aceites face à atual realidade do país. E o que não se representa emerge sempre, e de um modo aparentemente novo, através ilimitadas e compulsivas repetições, diz a ciência psicanalítica. Encarcerado assim no seu trauma, o PSD ou o Passos no PSD, o passado não passa, a história não se move e o presente (do PSD ou do Passos) nela se vai esperneando por asfixia. Permita-se-me um recomendável palpite; lutar contra um luto, fazer o luto, não é enfrentar o esquecimento. É antes um corajoso exercitar da liberdade. É uma árdua faina de nos libertarmos das (pre)disposições que nos aprisionam aos lugares sombrios da infecunda melancolia.

quinta-feira, julho 13, 2017

CASOS E ACASOS NA GEOGRAFIA DA VIDA


Vivência, experiência; o que pode (des)juntar estes conceitos? Confesso que a ideia de vivenciar era, por mim, apressadamente acomodada no solo exausto dos acasos. Por sua vez, experimentar revelava-se-me caminho e percurso a fazer. A vivência era, assim, mais marcada pela inércia do momento, a experiência mais pelo dinamismo do caso, do empreender. Hoje, cuido mais em reunir e não em afastar as duas aperceções. O vínculo resistente da subjetividade está, em ambas, sempre presente. Deste jeito, a experiência decorrida assiste à hospedagem da vivência, e esta, por sua vez, particulariza sulcos na futuridade própria da experiência. Ambas vivem acasalados por uma dupla dependência; a da fluidez pulsional sempre diligente e a da história de vida que nos reconhece. Como separá-las no seu movimento comum? Para nos desobrigar da primeira e podermos afirmar a segunda? Não sei, mas é humanamente possível.


segunda-feira, julho 10, 2017

SABER CUIDAR DA INDIFERENÇA


Vive-se um tempo de insólita feira, onde a ambição, acima de tudo, mercadeja controversos desejos, desdobrados estes na promessa desmedida e abundante de imaginados, e quiçá, fúteis e excitantes prazeres. Daí que a nossa relação com esse atiçado mundo voluptuoso se faça emocionalmente atribulado. Porém, insatisfeitos tais intentos, os alentados proveitos esvaecidos esculpem-se em tristes frustrações ou em intensos desgostos. Enquanto a frustração o tempo cura, o desgosto apodera-se das pessoas. Neste, os incautos, deleitando-se, deixam-se entregar a continuados e reiterados gozos entretanto passados, contudo definitivamente já submersos. Daí que, dei comigo a ponderar, se não vale a pena cuidar da indiferença, procurando escapar, através dela, a inúteis desilusões e, sobretudo, a desgostos que tanto nos castigam. Ou melhor, no uso quotidiano comum, cuidar da indiferença, aprendendo a fazer dela uma qualidade e não, de todo, uma mera apatia mesquinha ou, mais errado ainda, praticar com ela uma selvática e familiar insensibilidade.

sábado, julho 08, 2017

ESTRANHEZAS


Não me revivem deuses, santos ou ídolos de infância. Na escola, na igreja, e mesmo na família, retrataram-me uns tantos. Alguns deles, presentes demais em explanações fatigantes de estórias longínquas. Outros, poucos, mais avizinhados, carrearam uma outra vitalidade, na verdade, mais intimativos ao meu impressionável imaginário. Os retratos destes, em película, ofereciam proximidade, as estampas de outrora daqueles, apenas aparências misteriosas e improváveis. Assim, se porventura os tive, a deslembrança confirma que eles não resistiram ao passar dos tempos. Em definitivo, não habitam em mim heróis provindos da minha infância.

Mais tarde, no tempo adolescente, relevei algumas criaturas. Ainda assim, não muitas. Algumas que me destinaram marcas cinzeladoras do que tenho vindo a ser. Outras, que se me afigurando provocantes, e sobretudo intrigantes, delas conservei vestígios. Melhor, uma memória adiada, embora fecunda na sua permanecente e excitante estranheza. Quando a generalidade das pessoas me fala dos seus heróis e ídolos, não deixo de me sentir órfão desse comum partilhado. Interrogando-me, apesar de respostas presumíveis, não choro esse interpelante desabrigo. Talvez por isso, o culto aos heróis e notáveis não abalou, reconheço, a minha abaladiça emoção. Talvez por isso, não vicejei um qualquer instinto de rebanho. Talvez por isso, me sinta hoje um “velhote” tranquilo, cadenciado pela sua paradoxal inconformidade.

sexta-feira, julho 07, 2017

ORA PORRA!


Poema de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), que dedico como tributo (em particular) ao CM, o diário mais vendido neste país, e que tanto tem contribuído para a proliferação devastadora da ESTUPIDEZ


Ora porra!

Então a imprensa portuguesa é

que é a imprensa portuguesa?

Então é esta merda que temos

que beber com os olhos?

Filhos da puta! Não, que nem

há puta que os parisse.


domingo, julho 02, 2017

NO BALEAL, O LUGAR DO BAR DA PRAIA


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Vivo um tempo que, sendo decurso do Tempo, é também um certo modo de estar (ou de ser), seguramente demudado. Suponho eu, que a vida é assim mesmo. Creio que ela, a Vida, é uma corrente que resvala num aparente e naturalizado quotidiano, anunciando ao longo do seu tempo as marcas indeléveis de uma certa e inevitável marcha do próprio ser. Porventura, um contínuo que se esconde por trás de inesgotáveis descontinuidades, instruídas de invencíveis ressignificações, e em razão disso, de novas e inquietantes interpretações.

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Atendendo a uma voz íntima do dever, sinto-me obrigado a satisfazer uma dívida para com este lugar chamado BAR DA PRAIA, no BALEAL. Neste ambiente paisagístico (mas igualmente humano), aqui parcialmente retratado, vou criando uma reconfortante continuidade com o meu próprio passado, tanto quanto me é possível, pela vontade e autenticidade de um pensar que busca, insistentemente, libertar-se do tolhido e irremissível transato recalcado. Dessa salutar e urgente tarefa, tem-se em vista povoar a tempo o tempo de um presente, desejando que este me esperte a estribar uma sorte, quiçá um fugaz futuro, de uma bem-fadada produção. Assim sendo, ao BAR DA PRAIA, o meu reconhecimento pela sua agraciada hospitalidade.

sábado, junho 24, 2017

A SABEDORIA DA INDUÇÃO


Sei que persegues insistentemente a Verdade. Que a buscas caminhando trilhos duros e arrojados. Sei das tuas falhas e dos desencantos guardados na permanência da tua entrega. Quando te dizem sábio, de pronto a tua modéstia repudia tal afago. Sim, todos erramos, mas tu, de um modo esclarecido, como poucos, sabes talentosamente enjeitar o raciocínio do erro. Em particular, quando juntas á tua incerteza mais dúvidas à própria incerteza. És um sábio, enfim, do modo como despertas a opinião definitiva, nesse teu trabalho íntegro e árduo de te desprenderes das certezas, que a tua suspeita, torna incerta.


quarta-feira, junho 21, 2017

A FAMILIARIDADE DA LINGUAGEM E O DESCONCERTO POLÍTICO DE TORNAR O POBRE, UM BOM POBRE


Burgueses há muitos. Os que são porque o são. Outros, porque o cobiçam ser. Outros ainda, porque já os macaqueiam duvidando vir a ser. E, finalmente, a maioria, ou seja, os restantes pobres que se decidem burgueses. Os únicos tangíveis são os matrimoniados com o sistema, que neste vivem bem acolchoados e sabem, igualmente bem, porque razão nele habilmente logram permanecer. Todos os outros, particularizam-se pela natureza da sua ambição de ser, servindo-se de palavras, gestos e esgares grotescos, na qual a farsa, a mistificação, a hipocrisia e a própria imprevidência se caldeiam com a ensimesmada ignorância ou, pior ainda, com o cabal arroubamento de espírito.

Porém, existem Outros. Os pobres, os verdadeiros pobres, os assistidos, aqueles que não têm sequer ensejo para fantasiar e, por isso, atassalham a possibilidade de mitigar a realidade, macaqueando ou cobiçando sonsos e ociosos paliativos. Então, como reconhecer e discernir, não propriamente para surpreender os referidos originais, farsantes ou otários, mas sim o discurso que a todos estas figuras une? Quem é essa gente? Eis alguns sinais que emergem das raízes, relações e entrelaçados circunstanciais dos seus cerceamentos:

domingo, junho 18, 2017

AS UNHAS-DE-FOME DO LUCRO PANÇUDO


Será que alguém de bom senso contradita a ideia de que o Consumo há muito se descasou das verdadeiras necessidades das pessoas, viandando pela intemperança do dispensável ou pelas apatetadas passarelas do Simbólico? Eis um ruído sibilante que julgo salubre lembrar como óbvio; o abrir de mão das rendas com que o concupiscente Lucro avassala a Publicidade conivente em perda do Salário que o serve. Aliás, estrupido esse, que num mundo sem fronteiras, a Besta Globalizada faz ouvir enquanto seu santo e bendito Lugar. Neste, Ela forja mercados, inventa engrenagens e conforma ficções prestáveis à epidemia que sufoca o Humano Futuro. Um futuro, que no concreto, é tão-só um ensejo aguardado, cercado por uma avivada fadiga grifada no paradoxo da recusada descrença. Desta alogia, sobra então a íntegra razão da Esperança do (e no) Humano, donde medra a Convicção que alenta a faina do Resistir.

sexta-feira, junho 16, 2017

O SOFRIDO LABOR DA AUTENTICIDADE


Como é penoso sacudir o passado. Um passado que afinal não passa. Sempre presente, desvela uma sobra de afetos que me amarga. As palavras úteis escondem-se por trás desse mudo silêncio que me castiga. O meu eu inquieta-me e o espelho em que me procuro descobrir não se cansa de testemunhar a minha culpa. Assim, a singularidade, que laboriosamente busco, parece esgotar-se nessa briga infinda com o avesso mundo das normas e dos seus medidores. O caminho e o sentido da autenticidade, desse modo, tornam-se compromisso, dívida para com a dignidade, uma viagem sem dúvida incerta e ousada. No seu fundo, uma aventura humana que não posso, nem devo deixar de tentar. Sempre e com determinação. Não há volta a dar.

quinta-feira, junho 15, 2017

ILUSÃO OU PESADELO?


A ordem mercantilizada, hoje instituída e severamente estabelecida, acomoda-se a uma dinâmica progressiva de desigualdades, inscrevendo-as em largos e múltiplos campos de natureza muito diversa. Não conhecemos os confins deste açodamento, mas vivemos e sentimos já o seu violento ritmo. Saber se as classes sociais, consequência dessas desigualdades, existem e quais as suas fronteiras, constituem hoje vertentes analíticas de merecimento relativo. A expansão e o desdobramento do todo das desigualdades tornam, aquelas, seguramente subordinadas nos seus rumos e alcance. Com a atual evolução da Inteligência Artificial e do desenvolvimento da Biotecnologia, sem demora se perspetiva um outro cenário, ou seja, o da transmudação de natureza das próprias desigualdades. A tradicional e primordial natureza económica das desigualdades será, desta feita, reconcentrada pelo biológico. A partir daí, deixamos de falar de classes sociais e passamos a discorrer, com maior rigor e pertinência, sobre castas biológicas. Assim sendo, nesse tempo, certamente se urdirá e sintetizará a mais inquietante e desalmada doença da humanidade futura. Será?

sexta-feira, junho 09, 2017

SEI APENAS QUE POR AÍ NÃO VOU


Circunstância pode sugerir mera particularidade, condição ou mera qualidade determinante. Contudo, pode também instituir-se como causa, desejo ou motivação incitante ao comprometimento. Ou seja, uma circunstância que se faz ocasião e, não raras vezes, se torna acontecimento, já que força à preferência, ou mesmo, impõe a opção.

Claude Roy, no seu livro O homem em questão, anota no seu texto introdutório, duas ideias que desde 1972 – cumpria eu o serviço militar em Moçambique – eternizei no meu espírito.

A grande questão metafísica da vida quotidiana é a dos encontros. Os seres são inúmeros, mas apenas conheceremos alguns deles.

Mais à frente, acrescentava uma outra que abrilhantava e aclarava a primeira.

Viver nem sempre é escolher o que se conhece, mas é sempre escolher o que se recusa reconhecer.

Ao longo da vida, e nas mais diversas circunstâncias, a síntese destas simples intuições facultaram-me prezar (e dispor) o (do) argumento da recusa, mesmo quando confrontado com o incerto caminho a tomar. A recusa de um caminho tornou-se, nestes hipotéticos cenários, uma confiante certeza que me espicaça o risco de jornadear por veredas desconhecidas e até imprecisas. Apurei, apesar das dificuldades, que o exercício do Não, convicto e fundado, pode-se transfigurar num horizonte impensado de possibilidades e oportunidades. Diferentes, provável e naturalmente, e decerto bem mais benéficas para a Vida.


quinta-feira, junho 08, 2017

OS LUGARES DA VERDADE


Exausto, onde busco os lugares da verdade?

Nos mitos quando a razão me confessa a sua falta?

Nas imagens junto dos vazios do representável?

Escalando o céu das transcendências,

repousando no aconchego das suas metafísicas?

Ou, entre outras artes ilusórias do entendimento?


Apenas creio que esse lugar está ao alcance da coragem,

algures no concreto da vida,

entre o que sou e o que ainda cuido ser.


terça-feira, junho 06, 2017

CHEGOU O TEMPO DAS VERDADES INCONVENIENTES. E A CORAGEM?


Abrolhado eu nas entranhas de um tosco tempo de ignorância, aí duramente devassado pela presença autoritária da crendice e do medo, estremecendo com os decididos assertos de escusos confessores (aqueles de sotaina e outros de diferentes batinas) ou, apenas mesmo, tristemente intimidado com os seus circunspectos, embora ávidos e abelhudos movimentos, sendo esse um passado distante, apresenta-se-me ainda hoje, esse tempo, um tempo de doídas sobras de infindáveis e múltiplas memórias, se bem que algumas de apreciáveis experiências, perduráveis conquistas e, quiçá, muitas outras de lamentáveis impulsos ocasionais.

Recordo ainda, quando fora de portas, digressoando em tempo de férias pelas profundezas da rusticidade das nossas terras e aldeias, o mundo parecendo-me outro, àquela memória incorporara-se afinal uma outra, sem dúvida mais meândrica, forjada na alma de um sentimento de liberdade traído, dado que laboriosamente a circunstancial alforria se me exibia mutilada. Reporto-me àquela outra biografia entontecida por misteriosas histórias repisadas de feitiços e de magias, de bruxas e de endireitas, levando-me a adolescer numa andança em que o permanecer, afinal, se fizera à custa de uma arte de viver em incessante e obstinado risco, porventura até mesmo ascético, na genuína e humana busca de me tornar sujeito da minha própria verdade.

Com o tempo, desfez-se esse tempo da crença assujeitada à conveniência espúria das verdades decididas, passando a escutar o vozear dos possíveis, que das sombras dos seus silêncios, neste meio-tempo, se faziam e ainda se fazem ouvir. Assim sendo, terá chegado finalmente o tempo das minhas verdades inconvenientes? Provavelmente. Tenha eu agora a coragem de as dizer, de as saber dizer e de as saber partilhar claramente e, se necessário, dizê-las com gentil e conveniente insolência, entregando-me à liberdade do compromisso urgente de cuidar de mim, sabendo cuidar do Outro e da dignidade (ontológica) da condição humana que a todos assiste.

sábado, junho 03, 2017

O CÃO, O GATO E O HOMEM


O cão e o gato, mesmo quando exultantes, não riem. A todo o momento, os humanos-bichos-do-mato podem levar o sorriso aos confins da gargalhada. Aqui habita uma estranha diferença digna de ser esgravatada. Desejavelmente, até ao fundo do seu tutano, não obstante as múltiplas teorias a respeito deste social afogo e dos seus peculiares roteiros espraiados sem limites. Para proveito humano e do humano, decerto interessa ousadamente insistir nele, no riso.

O riso é sempre bem-acolhido. Quando a liberdade cumpre a sua parte e o riso alegra o clima. Melhor ainda, se arruma o seu júbilo à serventia do pensar, escarnecendo sobre os ondulantes artifícios das certezas que ordenam as superfícies sonsas das nossas vidas. A sua autora ironia, com malícia encostada, habilmente apresentada, cumpre então aquele vital divertimento de nos devolver as coisas da vida de modo mais aprazível e saudável. Diante disto, enobrecer o riso com humanidade, não só traz vigor à Vida como encanta a sua condição (a Liberdade) e cuida do seu destino (o Outro).

domingo, maio 28, 2017

O MEU LIVRO QUER OUTRO LIVRO


Sessão do Meu Livro quer outro Livro, 25 de maio de 2017
Utopia - Poema para o amanhã, de Francisco Madureira.
Departamento de Professores e Educadores Aposentados e Departamento da Cultura do SPGL

O esquecimento é, na verdade sempre foi, uma forma de burlar a história. Esquecendo não se faz justiça aos que lutaram pelo acerto do seu movimento. Esquecendo, faz-se do desacerto a alegoria única e certa da história. Porém, ao invés, lembrando, rememorando o que não pode ser esquecido, abre-se as comportas da memória, salvam-se verdades abandonadas e aviva-se a chama da imaginação. Este texto do Xico Madureira, aqui presente e apresentado, sendo poesia, está para além da mera representação da realidade. Este texto, esta poesia, acima de tudo, torna-se um apelo à reflexão sobre a realidade, projetando-a no tempo desse futuro utópico que saberá merecer a liberdade que cuidará da dignidade da condição humana, como tão bem deixa transparecer o Xico Madureira neste seu “poema para o amanhã”.


sábado, maio 27, 2017

CAUTELA COM AS TOPADAS


Acredita-se que o português fantasia ser o que não é ou estar onde não está. Diz-se que assim vive suspenso no seu tempo histórico, adormecido na sua entranhada religiosidade, replicando-se incansavelmente nas regras e fórmulas do seu culto. Porém, sendo o português, diz-se também, certamente mais supersticioso do que devoto, a vida mostra que lhe sobra uma galhardia feita de talento inspirativo e de emoção lírica fácil, para se ligar a consentâneas circunstâncias, mais doídas ou entusiasmantes, donde se soerguem grotescas e teatrais erupções coletivas.

Errante e dilemático, esse português, usa máscaras e disfarces numerosas, jubila com rotineira leviandade, se bem que fácil (e amiudadamente) se estatele na merda. Descuidado (ou nem por isso), enleia os valores do sentimento e da comoção, cultuando sem lágrimas e com aguaçada destreza, o segredo do mexerico e, com a leveza do instintivo, agarra-se ao vício irresistível de profanar o próximo, mesmo que de um comparsa se trate. Por mim, duvido deste retrato identitário do português. Não obstante, se não me cuido, neles tropeçarei mais vezes do que agoiro.

terça-feira, maio 23, 2017

PARA UMA CULTURA DE DESOBEDIÊNCIA


Vezes sem conta, muitas mais do que se imagina, a obediência rasteja por trilhos de obscura lealdade ou continuidade. Os encorajamentos da obediência, servindo-se de secretos e perversos alicerces, promovem e respaldam, com a maior das indignidades, estranháveis (embora entranháveis)  autoridades. Estas, recorrendo a poderes intrigantes e a saberes por eles malsinados e utilizáveis, fatalmente excludentes, traçam com crueldade geométrica as suas fronteiras disciplinares, intransitáveis àquela liberdade desafiadora da emigração de criações implicantes.

Os condenados ao coagido exílio, nestas circunstâncias, negando o silêncio submisso, amantes da livre circulação da palavra, empenham-se (acertadamente) por pensar em voz alta, resistem pensando diferente e, sobretudo, com a presença ousada da coragem, não desistem de pensar. Ao mundo, os dogmáticos obedientes, acima de tudo estes, e não a triste escolta que a imbecilidade guarda, apenas mostram uma fachada, aquela codificada em sínteses ideológicas e morais trapaceiras, que bem escondem (nesses fundos) uma miserável história de exploração, dominação, hipocrisia e corrupção.

Em jeito de desfecho, diria que no fundo dos fundos, como vitalidade medular desta história, encontramos a ganância e os seus comoventes papagaios que rastejam à cata prostituída do restolho das migalhas. Assim sendo, garanto que o eixo utópico deste desalinhado contributo entrega-se mormente a amofinar o cantar desses psitacídeos e a infestar as suas gaiolas de padronização interesseira, sejam as douradas dos ladinos, sejam as piolhentas dos alegres e lerdaços parasitas. Como primeiro passo pedagógico, se me permitem, aconselho a estimar aquele olhar atiçado pela tentação de desobedecer, ou mais simplesmente, de dizer não e de corajosamente vociferar BASTA…

sábado, maio 20, 2017

MAIO 13, UM CONCENTRADO DE EMOÇÕES

 

No 13 de maio último, numa intrigante fúria (ou fuga) histórica, enrugada por súbita vinculação a um sublime fado lusitano, admitia-se que os portugueses se haveriam, afinal, de reencontrar com as suas raízes simbólicas e mitológicas, mediante as quais a faceta exaltante da jactância, finalmente, reprimiria a aferrada queda na persistente e deprimente saudade acamada, um tanto ontológica, da sua arcaica essência criadora de impérios entretanto abortada.

De manhã, todos, mesmo todos (cristãos, ateus e apáticos), confluiriam, mental e fisicamente, para esse beatificado lugar predestinado, onde os pastorinhos, não deixando de o ser, se converteriam em santos. De tarde, todos, mesmo todos, se regozijariam com os seus lábaros ou bandeiras, na circunstância professantes ou tinhosos, estes caçoando com o burlesco da treta, os outros comemorando  em gáudio e em trânsito o tetra, todavia, ambos, todos, em divina eucaristia canibalesca com o ondeante de agitação avermelhado.

À noite, muito provavelmente, e pelo contrário, o acerto apresentava-se menos esperançoso. Um rapazote, com uma deselegante aparência relaxada, barba em arrogante desalinho, cabelo estranhamente encapelado, à revelia dos mais reverenciados escantilhões prescritos, ousaria botar anomia artística na ordem fabril da exorbitância festivaleira.

Tudo aconteceu, tudo parece ter resultado, e como se presume saber, a transferência tem uma força psíquica poderosa, pois os egos marcadamente neuróticos, sobretudo em cenário de massas, tendem a albergar no seu eu esse mundo inteiro, embora incomum, quando este se compadece, acima de tudo, com uma desaconchegada dispneia existencial. Assim, deixar a libido descansar e as emoções flutuar livremente, manifesta-se em um útil oportuno. Certamente, assistirá ao nosso sentimento de sobrevivência e, nunca se sabe, de consolável refúgio.

domingo, maio 14, 2017

QUANDO A EMOÇÃO NÃO DISPENSA A LUCIDEZ



Não admiro as "vedetas" que se ensoberbecem. Este jovem, um agradável EXEMPLO, não de despojamento cristão e mole, mas de incitação declarativa, corajosa e transparente.

domingo, maio 07, 2017

DESTINEMO-NOS

 

Reacende o sensível que em ti adormece.
Derrota essa cobardia que te desalma.
Sacode os galhos que te tolhem o rasgo.
E liberta-te da teia das repetições.

Descobre o novo diante da tartamudez do mesmo.
Arrisca a corrente de ar que te refresca.
Despede-te do sofrimento que te suga.

Vai, vai por que sem coragem o futuro aperta.

terça-feira, abril 25, 2017

O TEMPO E AS SUAS DÚVIDAS

 

A(s) história(s), os discursos e os poderes, nos seus múltiplos entrelaçamentos, reiteradamente entretecem curtas verdades que acobertam o essencial da realidade. Pratica-se, então, o exercício de análise e de pensamento na busca compulsória de caminhos para surpreender o medular da Verdade mascarada. Posteriormente, indaga-se com atrevimento o saber desse exercer, correndo os riscos próprios de um tempo entrópico, acreditando no juízo disponível de uma consciência incertamente instruída. Os relatos então espiados, mesmo os mais inócuos, arrumam narrativas falhas que calam o segredo da mecânica do poder, abafam os seus movimentos e exorcizam as suas sequelas e responsabilidades. Eis as pequenas-grandes dúvidas de um tempo tão pessoal quanto imediato.

sábado, abril 01, 2017

UM ACORDO DE PRINCÍPIO QUE FINDA EM DESACORDO DE FACTO

 

17426174_1572119059483296_1613670877643978794_nPor muito que me esforce por escutar a voz da minha razão, o desconforto ofusca o seu ímpeto e confunde a sua linguagem. Entregue a mim próprio, o consolo possível parece persistir nesse aceno, um tanto patético, de apelar a algo que me ultrapassa e se esgueira. Embora distante, ou na fisionomia ausente, a minha condição de cidadão comum em tempo algum se despegou da sua dimensão política e, naturalmente, da sua legitimidade social e dever de intervenção. Após três mandatos consecutivos da CDU, independentemente do que se realizou ou não, se fez bem ou menos bem, e que a comunidade ajuizará nas próximas eleições, desponta uma incompatibilidade embaraçosa entre duas influentes personagens, socialmente reconhecidas, em particular no quadro político da CDU, que a meio de um percurso (im)provável e penoso, embora conseguido, se desavieram inusitadamente, sobretudo, para a generalidade do seu presumível eleitorado. O exercício político supõe ideias, exige projetos e, seguramente, trabalha por resultados. Não duvido das ideias e dos projetos que a ambos juntou. Suspeito, isso sim, que as consequências da rutura não tenham sido devidamente cuidadas e, permitam-me, acuradamente sopesadas. Consintam-me, pois então, a expressão pública deste meu penoso lamento.

domingo, março 05, 2017

O COMPROMISSO DE RECONHECER

 

BERTINO

 

A sua simplicidade, a sua firmeza, o seu saber, todo o seu conhecer e vontade de servir a comunidade, todas estas suas qualidades transformam-no num homem ímpar, que merece o meu reconhecimento público e, como tal, político.

domingo, fevereiro 26, 2017

VOTOS DE UM BOM CARNAVAL

 

Há gente que ao aparecer faz o possível de parecer o que não é, mas diligentemente mostra ser, por vezes, o que de todo não é. Outros há, que se empenham por aparecer, parecendo o que procuram denodadamente ser. Este é o quotidiano desigual de um tipo de carnaval multifacetado que o tempo de Carnaval desobriga, dissolvendo os diversos contrastes numa oportunidade comum de galhofa e onde a sadia ociosidade se espreguiça ante o esmero da distinção. O Carnaval é, deste modo, talvez o tempo único onde o poder de iludir escapa à prova da sinceridade e a hipocrisia, podendo existir, se acolhe na legitimidade da sua máscara risível. No Carnaval, o poder de iludir, ao desenvencilhar-se da maçadora perversidade do mau uso da liberdade de cada um, dá descanso à necessidade de agasalhar uma nudez interior embaraçosa. Aproveite-se o Carnaval ... para que o porvir do quotidiano possa lucrar com a venturosa folia.

domingo, fevereiro 19, 2017

ONDE SE METEM OS COBARDES APADRINHADOS?

 

E se o homem experienciasse o desrespeito com maior exigência? E se o sentimento daí resultante se revertesse em convicção político-moral? Ou melhor, se esse sentimento volvesse em estímulo motivacional de um ressarcir empenhado da sua dignidade e integralidade? Onde se iriam refugiar, com o rabinho bem entre as pernas, os oradores sagrados deste tempo selvático?

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

SEM PROFETISMOS OU MESSIANISMOS

 

Em tradução livre, recordo Boaventura Sousa Santos, sugerindo que os lugares não têm destino. Têm passado, presente e têm futuro. Ouso propor que é nesta marcha do tempo que a destinação se desenha, se alicerça e constrói. Porventura, a escora de uma identidade própria que, deste jeito, se vai assenhoreando do seu caminho, produto de vontades que se agregam e afluem crendo nas pessoas, na eficácia da perceção comunitária do inaceitável e no talento práxico do comum. Sem vaidades ou tartufices, a bem do futuro do Lugar e das suas gentes.

sábado, fevereiro 04, 2017

UM TESTEMUNHO APENAS

 

Bertino e RogérioNão sei o que dizer quando testemunho um abraço entre dois amigos, enlace no qual, naturalmente, a amizade experimenta o embaraço (sobremodo recompensador) em assinalar as suas próprias fronteiras. Como vos invejo, amigos. Desculpai este ciúme, aliás de um saudável egoísmo, quando presumo reconhecer uma amizade capaz de resistir às vicissitudes das múltiplas exigências, dos tempos e das experiências, nem sempre, certamente, condicentes. No fundo, uma amizade onde o conveniente não é a marca e o convincente alcança o seu lugar. Admirável amizade que os seus amigos, que sei não serem poucos, sabem que transcendem os próprios Henrique Bertino e Rogério Cação. Se bem que, nem sempre presente, dessa nobreza e dignidade sou uma perseverante testemunha. Agradecido aos dois. Muitas felicidades a ambos.

quinta-feira, dezembro 29, 2016

UM CORPO AGITADO


O silêncio deste préstito fúnebre azeda-me. Definitivamente, já não dependo de mim. Desencaminhei a minha liberdade repetidamente, desprezando-a. Não vale a pena, nesta hora, o grito arrependido do abafado lamento. Ainda assim, a mudez dos marchantes teima em me perseguir, confirmando a cruciante subordinação. Detido no ataúde cerimonial, sinto bem o castigo merecido de não ter feito, afinal, um pouco mais. Pela minha liberdade, acompanhando outros nessa humana verdade. Por isso, sobre a pedra que me oculta abandono o seguinte epitáfio - “Aqui jaz um virtuoso e nobre medroso. Sacrificou a sua vida a ofertar bravura aos outros. Muitos deles, fracos e pobres de espírito”.

sábado, dezembro 24, 2016

UM TEMPO, O TEMPO DE NATAL

 

O tempo de Natal é um tempo plural que amadurece, tornando-se sempre, ao longo desse tempo diverso, uma inefável e, por vezes, insondável vivência. Da chaminé adornada pelos ansiosos sapatinhos, aos dias de hoje marcados pelas memórias da virtuosa credulidade. Permanecem, nesta caminhada, presenças consoladoras, e insistentes ausências, que inteiramente nos acarinham. Afinal, o tempo de Natal releva a espiritualidade que acontece com esse fatal desenhar da vida. Um humano e esquinado traçado de dor e de felicidade, esboçado pelo incessante afeto que alenta a Vida e tempera a vontade de a continuar a viver. É tempo de Natal.

quinta-feira, dezembro 08, 2016

O LEGADO DA INDIGNIDADE

 

A significante evolução das condições de vida, nas últimas décadas, é inegável. A narrativa histórica e social assim o reconhece e a memória dos mais provectos tal confirma. Agora, concordar esta corroboração com o desígnio ontológico da condição humana respalda em si um paralático equívoco. A lógica mercantilizada do desenvolvimento vem cavando um trágico fosso humano e social feito de desigualdades, injustiças e precariedades. O Trabalho disso se ressente e a Cidadania assim se inabilita. Isto posto, trabalhar a condição humana exige o estímulo do humano no Homem e, para tal, importa cuidar da qualidade das políticas e da democracia. Eis, na minha leitura, o essencial da advertência, aliás otimista, deixada por Carvalho da Silva na sua Conferência “O trabalho, A solidariedade Intergeracional, O tempo de reforma”, a 6 de dezembro, nas Caldas da Rainha (Delegação do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa).

quarta-feira, novembro 30, 2016

RESGATAR A LIBERDADE DESSA VONTADE QUE NÃO NOS PERTENCE

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(Apresentação que fiz do livro, UTOPIA, PARA O AMANHÃ, de Francisco Coelho Madureira, ontem, na Livraria Letra Livre/Lisboa/Bairro Alto)

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Poderia, nesta circunstância embaraçosa, fazer aquele número de proferir umas breves palavras de improviso, com base num texto previamente escrito, seguramente bem arrumado nesta minha já apoucada memória e, assim, fingir um talento que realmente não disponho. No entanto, certo de que não se deixariam enganar, e muito menos nessa mentira cairia o meu amigo Xico Madureira, optei por este escrito – que vou acompanhar, confesso, por intranquilidade minha – procurando, prometo, proteger-vos da desagradável monotonia, bem como, e tanto quanto possível, fintar o lado enfastiante do formalismo.

Experimentando eu, uma habitual comodidade quando abrigado nesse mundo prosaico da linguagem do quotidiano, no instante do convite para aqui estar presente nesta função de me pronunciar sobre a obra, como é fácil de entender, senti-me na verdade desaconchegado quando pressenti a poesia a aproximar-se de mim, imprudentemente a me apadrinhar e, no limite, a me distinguir – evidentemente por amizade – para uma árdua incumbência de apresentação do trabalho, sublime e poético, como é o caso desta UTOPIA, PARA O AMANHÃ.

quinta-feira, novembro 17, 2016

ESCUTAR O CORAÇÃO DO VAZIO

 

Que coração é este? Decerto, um coração que ilumina o vazio na recusa de se consolidar no nada. Um coração que dá vida a esse vazio que se rebela, e revela, ante uma arredia existência. Afinal de contas, um coração que desperta a espessura de um vigor que ainda resta e que, assim sendo, traz consigo incitação e existência. Na sua obstinada verdade, um coração que faz com que esse experimentado e preciso vazio se torne, tão-só, um momento valoroso, síntese de muitos outros, quiçá dolorosos e magoados, e lhe oferece um sentido capaz de presença e, sobremodo, de vontade de resistir. Aliás, momento esse que vale pela negação do falso nada e se dispõe ao alívio, angustiado e decadente, desse desvio sem rosto. Um coração, em suma, que comunica instruído por vigorosas e vigilantes memórias e nos faz permanecer inteiros, provando que o vazio e o nada não são coisas semelhantes. Assim nos ensina a experiência dura, embora tranquila, desse vazio aclarado, capaz de nos exibir a vida sobrante que entrementes se esvaiu. Um coração, enfim, que nos resgata o nosso próprio rosto, nesta hora, sagaz e recompensado.

quarta-feira, novembro 16, 2016

A FORTALEZA, 40 ANOS DE PRISÃO POLÍTICA

 

forte_Peniche_desenho_CunhalEnlaçada em factos, lembranças e esquecimentos, veracidades e falsificações, bem como em silêncios que a desengrandecem, a História constrói-se, em todo o caso, sempre incerta. Persistentemente entretecida pelos fios comprometedores da memória (individual e coletiva), as narrativas da história, fazem-se de maculadas impurezas ou (mesmo) de sujidades, sobretudo pelos poderes triunfantes dos poderosos e afins. Daí, um outro facto, ou seja, um consequente futuro que se vai mostrando nessa disputa desproporcionada da “verdade” das narrações.

Ainda que assim seja, porventura sempre incerta a história, ao abordar-se as prisões políticas e as suas memórias, o esquecimento ocupado de silêncios ou vazado em subterfúgios, em tempo algum, poderá espaldear-se em quaisquer margens que admitam burlar a História. Rememorar aqueles que lutaram pela nossa Liberdade, que de miseráveis sofreram facínoras torturas, e deles foram atormentados e assassinados, é recuperar o que nunca pode ser esquecido, o que em tempo nenhum deve, por decência, ser calado na voz da História. O contrário, mais do que uma desmedida injustiça, e que a todos rebaixa, o que carrega esse avesso é, tão-somente, a nossa vergonha coletiva.

domingo, novembro 13, 2016

A (DES)ESPERANÇA QUE SE ABRIGA EM NOVAS MENTIRAS

 

A desesperança nem sempre vive desacompanhada. Quando só, apenas o recôndito silêncio a assiste. Na circunstância possível de se revelar, essa descrença, amiúde, elege o azedume. Daí, mais do que um tempo exato, o momento torna-se um adensado enfurecido de beata repulsa. Um impulsivo absoluto que enturva equilíbrios e enjeita dialéticas. Nos abrumados sonhos então recriados, oferta-se destinos improváveis. Ainda assim, acasos que sorriem perante a possível inanidade. O prometedor ontológico dos populismos, sagaz abecê das novas mentiras. Trump não encenou, apenas mostrou que a História se pode voltar a fazer.

quarta-feira, novembro 09, 2016

CITAÇÃO

 

Como a teologia, a metafísica tem sido acusada de às dificuldades que não sabe resolver disfarçá-las pelo prestígio das frases pomposas, de Sampaio Bruno em A Ideia de Deus.

terça-feira, novembro 01, 2016

UMA EXALTAÇÃO AO “NÃO” TRANSGRESSIVO

 

Como diz o poeta, há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz Não…

Valter Hugo Mãe (VHM) decidiu no seu mais recente livro, Homens imprudentemente Poéticos, ausentar do seu escrito a palavra não. De acordo com o texto de João Céu e Silva[1], dado que o cenário do romance é passado no Japão, VHM esforça-se em respeitar a impropriedade localizada da palavra. Deste modo, evita correr o risco de falsear a relação cerimoniosa que os japoneses correntemente estabelecem uns com os outros. Igualmente, VHM lembra, em axiomático contraste, que na nossa cultura discursiva o não parece inevitável, alongando-se amiúde o seu uso aos limites do diálogo.

Acolhendo eu esta contumácia, quiçá deveras espalhada, diria que ela não se me apresenta, em si, como uma fraqueza. Na minha opinião, este meu arrastado e desafiado sentir aconselha-me a um entendimento diverso. O não, na sua variedade de usos e significações, obriga-nos a um duro e exigente exercício de liberdade e inteligência. Sobretudo, neste tempo de notório trânsito de uma conformação social disciplinante para uma outra de frívola permissividade. Em especial, no tempo presente onde a vigilância, apesar de falsamente ausente, estabelece com vigor e arteirice a rude diligência da sua industriosa destinação.

Vive-se uma época de uma turbulência feita de convergências diversas. Ainda assim, apesar das diferenças, estreitamente escoradas nos interesses de uma ideologia capitalista homicida e nas suas idiossincrasias alienantes. Não se me mostra, pois, ousado sustentar que os múltiplos sentidos do não se entretecem, numa (des)ordem crescente e mistificadora, de armadilhas compulsivas e/ou de vínculos moralistas, notadamente geradoras de desorientadas e doentias euritmias. Como me aparenta inegável, feitas estas de muitos e distintos nãos. Alguns destes silenciosos e enraizados em aberrantes heranças ou em abstrações obsoletas.

Assim sendo, importa alcançar onde está afinal o Não aos nãos que destroem a vida e a sua dignidade. Ao limitá-la e ao desvirtuá-la, esses nãos desfazem a própria vida e, mais do que isso, implacavelmente nulificam a dignidade do ser humano. A liberdade, sendo uma construção humana, os seus alicerces dever-se-ão assentar nos caboucos de uma primordial descrença. Citando David Cooper[2], a descrença na inevitabilidade das coisas que nos oprimem. Postulo, então, que é dessa descrença que germina o Não que nega os nãos que assistem à sujeição, à injustiça e à arbitrariedade. Ou seja, o Não transgressivo de resistência à opressão e à dominação.


[1] No Diário de Notícias de 31 de outubro de 2016.

[2] Em ALINGUAGEM DA LOUCURA.

sábado, outubro 29, 2016

A JORNA DO DITO BANQUEIRO ANARQUISTA

 

O draconiano mercado tudo trafica, tudo subordina, e até mesmo o absurdo se transaciona. Torna-se casa de câmbio, lugar súpero no qual se opera o valor de troca dos homens. Muitos, diminuídos a ser valor produtivo e manadeiros de uma mais-valia extraível. Outros, igualmente numerosos, contas feitas, nada sendo, acrescentam uma maçada afinal utilizável. Neste pronunciado esboço, remanescem uns poucos. Gente providencial e qualificada que, agadanhando o frutuoso devido, com competência reconhecida, orientam a arrumação acertada dos demais merecimentos. Não só materiais como, principalmente, os simbólicos.

Daí, ser neste espaço subjetivo que a tagarelice de uma linhagem conceptual e argumentativa situa as suas necessitantes e pautadas arquiteturas que mantêm, reforçam e legitimam a batota social e económica. Ou, melhor dizendo, encenam as vantajosas patranhas que aclimam as gentes às obscenas desigualdades que perpetuam uma estirpe de moralidade, em que o pecado da injusta arbitrariedade, não só é absolvido, como se apresenta curandeiro. Conforme se comprova, discorrendo pela via láctea recortada pelas altas nuvens do rigor, da isenção e da juridicidade. Chover no molhado é, certamente, desperdício. Isto dito, passemos então à frente…

domingo, outubro 23, 2016

DIAS NÃO

 

Estou em dia não. Aliás, instantes e circunstâncias que se refazem a contragosto uma vez que tenho vindo, não tanto por me ter desapossado daqueles recursos coloquiais que me permitiam, tempos atrás, assegurar conversas obstinadamente recomeçadas, mas porque me sinto inábil em encenar dramaturgias simpáticas e estimulantes que animem as pessoas a uma cavaqueira prevaricadora de ramerrames enfastiosos que consomem as nossas ordenadas vidas quotidianas. Eis uma confissão forte, com certeza indelicada, mas que apenas tem por propósito admitir a esperança de uma simples, quiçá necessária, transgressão apta a um questionamento saudável das nossas transitórias certezas. No essencial, uma transgressão instruída e preparada para cuidar do avesso que o hábito, a fachada e a aparência nos acobertam. Tão-só.

sábado, outubro 22, 2016

A SIMPATIA NEM SEMPRE RIMA

 

A minha última postagem, faz-me retornar hoje a um certo argumentário tendo como tónica a anotação aí citada das boas maneiras ou, se preferirem, dos bons modos. Com o propósito de trazer, desafiando consciências disponíveis, uma atenção crítica para a arrogância e a presunção dos signos que nelas se inscrevem e, acima de tudo, convocar um olhar analítico e perscrutador para os arbítrios protocolares que, de modo valorativo, se auto creditam distintos. Em peculiar, no compartilhado mundo das castas assentadas na metagaláxia reinante e naquele outro disputativo cosmos proporcionado por uma atontada parentela que lhe é confinante. Este, lamentavelmente pateta e patético, figurando o seu comovente idiotismo de assemelhação na mimética e notória contrafação carnavalesca.

Em jeito introdutório, falemos de elegância, uma ideia simbolicamente muito apreciada pelo atributo que lhe é concedido graças a um certo imaginário induzido pela invencionice da catalogação social. O reconhecimento desmedido e incondicional da boa educação daí provindo e que acompanha a graduação de tal seriação, alenta, em si, uma suposta lógica de superioridade que naturalmente faz o seu pretensioso percurso. Todavia, no âmbito das boas maneiras, e da elegância a elas associada, do meu ponto de vista, duas perspetivas se fitam. Num extremo, temos uma elegância proeminente que se filia e persegue, na sua austera aparência, a simbologia litúrgica dos distinguidos; no outro, e em clara discordância, uma distinta elegância instruída na genuína empatia da consideração e da reputação pelo Outro, por esse outro que é sentido, na sua raiz, como um outro-eu.

As relações humanas de sociabilidade, podendo-se aproximar daqueles limites, manifestamente se localizam no cultural registo da contradição caminhante. Porém, parece-me óbvio que a autenticidade da empatia, no ato espontâneo de se afastar do pavoneio que enfeitiça a primeira, elegante e discretamente, condena os múltiplos disfarces sociais que levam ao enganoso jogo simbólico das superioridades, das dominações e das servidões. Entre o espaço do pensar e do dizer posiciona-se um campo de subjetividade onde muitas enormidades acontecem e, sobretudo, as mentiras da significação se produzem. As maneiras, as boas maneiras protocolares, desligadas dos seus contextos concretos, modelam comunicações que escapam às suas objetivas e fundadas determinações. Ou seja, e em tradução livre, rematando em concordância com José Barata Moura; a mentira não é apenas a fáctica. A mentira, ou melhor, a mendacidade não utiliza apenas a língua e a sua voz. Utiliza, e bem, o corpo todo. Inclusive, a dissimulação que o conforma.

terça-feira, outubro 18, 2016

UMA ARTE SUPERIOR DE TER RAZÃO

 

Foste desbragado na linguagem, descortês ou simplesmente antipático, por isso, perdeste a razão. Se a perdeste é por que a tinhas, ou tinhas a forte probabilidade de a ter. Ficaste sem ela, a razão ou a esperança de a ter. Assim sendo, a tua razão nulificou-se subsumida pela avidez esganada da tua expressividade. Imprópria, ou tão-só inconveniente. Decerto, usaste-a desajeitadamente. Sem dúvida descuidaste a ciência das boas maneiras. No essencial, desdenhaste essa arte superior de ter razão. Afinal não a estudaste, alcançaste ou praticaste. Não entendes, mas, certamente, tornar-te-ias destro na dócil e obediente agilidade de obteres, também, razão quando não a mereces. O que tu perdes neste tempo de consensos voláteis…

domingo, outubro 16, 2016

PELAS VIELAS DO PENSAR

 

E se eu me dispusesse vadiar ociosamente Pelas Vielas do Pensar, procurando resgatar uma nostálgica gandaia perdida, da qual guardo profundas lembranças? Na verdade, memórias que ardem no apático cinzentismo desta entorpecida e vigorante ordem de utilidade social, onde os idosos se tornam refugo e aos velhos loucos se requer cativeiro. Pois, o pouco que me parece restar faz-se-me vida e neste fazer-se atrevido, além do mais divertido, trago comigo um sonho de homem que me disponho, sem limites, ainda algum dia ser. Seguramente mais determinado pelo peso da idade e das circunstâncias, talvez com menos força para determinar utópicos futuros, esse sonho, infindavelmente legítimo de ainda me determinar, desafia-me a liberdade, ao longo dos tempos sempre vigiada, do uso ousado da lucidez que hoje em dia me acompanha, provavelmente mais madura, mas certamente deveras pungida e, talvez por isso, capaz de fundada insubmissão e desobediência à docilidade parva, e por isso patológica, de muitas das desnaturadas criações corrediças do ingénuo e medroso senso comum.

Esclareci tarde, porém ainda a tempo, que a responsabilidade não se funda em astuciosas abstrações, notadamente na circularidade acumpliciada e temerosa que ela projeta com escora nas imperfeições prescritas do dever e da obediência, mormente vindos do poder e da culpa. Tive, talvez um dia finalmente bem-afortunado, dia feito de muitos dias pesarosos, que enxerguei a liberdade, aquela da raiz da responsabilidade inteira, para além da tal frívola, a outra que não se pode reconhecer por completo quando se fica pela tranquila negação, ou sempre que a insurgência, desobrigada da razão, reage caprichosamente ou, ainda, nos numerosos instantes em se que decide sobre o que somente é facultado. Apoiado na ideia da dignidade como fundamento ontológico da condição humana[i] e tendo ela despertado em mim um sentido irrefutável de humanidade, pressenti vir a achar no labirinto das vielas do pensar, por vezes há muito abandonadas ou esquecidas, a presença vivificante da Liberdade na tarefa entranhável da responsabilização. Ou seja, no que fazer para cuidar e contribuir, através da palavra consciente, embora aventurosa e informal, para a dignidade do fazer-se humano. Este será o meu próximo roteiro. Egoísta? Comodista? Talvez. Mas será a minha improtelável e urgente viagem da escrevedura.


[i] Proposta de Fernando Evangelista Bastos

quarta-feira, julho 13, 2016

TORNAR CLARO O QUE É UM TANTO OU QUANTO OBSCURO

 

A 30 de maio, faz mês e meio, fiz a minha última postagem. As leituras, que consomem (e bem) muito do meu tempo, de facto, entusiasmam-me pois facultam-me oportunas e proveitosas vitalidades mediante a benfazeja inquietude que elas me espertam. Apesar disso, o desassossego daí advindo apenas me tem levado ao constringente perscrutar de novas leituras e não à escrita sofrida capaz de amanhar e alicerçar as reflexões que busco. Tudo isto na exploração de ressignificar um passado e de viver um presente que, embora tardio, seja capaz de expandir horizontes e esperançar futuro.

Certamente por inépcia minha, nessa busca pessoal de sentidos que se prestem valorosos, confesso, nada de verdadeiramente novo alcanço que se me ofereça inspirador e, como tal, tenha o dom de acicatar este meu pachorrento e fleumático humor quotidiano. Daí, uma insistente preguiça teima em escolher a despreocupada (embora desafiante) indagação, encanzinada que está a optação pela escarpada rota suscitadora de ideias, despretensiosas certamente, mas que possam valer neste tempo saturado de lavas feitas de ativos tóxicos diversos. A(s) crise(s) múltiplas fazem o seu percurso com uma vagareza acertada na devida cadência da naturalização que a própria encalça, arquitetando com o tempo a perceção que o dramático está para além do controlo humano, acobertando a responsabilidade da ação política que a determina.

Sendo assim, nesta Europa política que vai martirizando os mais fracos, tendo como referência uma lógica neoliberal de integração capitalista, quis a ironia do destino que Portugal se tenha mostrado suficientemente forte para ser, nesta matéria do futebol, o melhor da União. Ateísta que sou, atrevo-me a dizer, contrariando o próprio, que a fé de Fernando Santos valeu provavelmente pouco ou mesmo nada. Caso contrário, o seu Deus teria cometido não só uma injustiça, privilegiando os seus santos e as suas preces, como o nosso merecimento de campeões seria fortemente estorcegado porque beliscada no seu talento. Sem rebuço o digo, no lugar de Deus coloco o próprio treinador (e este em especial), os jogadores e todos os demais que concorreram para o todo dos factos que determinou a vitória dos portugueses.

Eu sei que seria cómodo, deferente e igualmente mais fácil, inteirar o porquê do sucesso agradecendo o achego de Deus. Por mim, no entanto, e apesar da dificuldade da resposta, agrada-me quem prefira o como ao porquê, esgravatando e desnudando o conjunto dos factos (re)conhecidos, analisando a operacionalidade decursiva da relação entre eles e aferir da responsabilidade individual e coletiva dos intervenientes na dinâmica circunstancial dos acontecimentos. O que aconteceu, aconteceu e não há volta a dar. Não há lugar para mistérios nem tão pouco para sentidos insondáveis. As soluções encontradas e as situações daí ocorridas não são do domínio da metafísica nem de um qualquer panteísmo de última hora. Em síntese, não neguemos a ação e a responsabilidade humana como vão fazendo os autores da lenta crise que nos sufoca. Parabéns a Portugal e a todos aqueles que fizeram as coisas acontecer. Afinal, o fazer as coisas acontecer, engenha a lição que merece ser utilmente assinalada e sublinhada.

segunda-feira, maio 30, 2016

PROVOCAÇÕES

 
“Escolho os meus amigos pela pupila”

GERINGONÇA, UMA UTOPIA?

 

Geringonça, uma utopia? Se é certo que a(s) utopia(s), o que não sendo podem via a ser, elas ocorrem, com toda certeza, de amargosas circunstâncias históricas que nos inspiram a busca de um tempo e lugar diferentes. O certo, essa irremissível evidência, é a amargura do presente com a contrastante possibilidade do aprazimento que só o futuro pode acolher. Esta é a marcha inevitável do homem que, escapando à alienação do medo, prefere o fracasso à desistência de ser corajosamente humano.

quinta-feira, maio 19, 2016

O PROTOCOLO DA INCOMUNICAÇÃO

 

Gostava de ser um bom comunicador, mas nem sempre o consigo ser. Reconheço as minhas imperfeições. Sem qualquer consumição moral, confesso que as coloquiais máculas se inveteram na incauta têmpera da minha safada emoção, que me destinando muito da minha amena vida, de igual modo, é bem capaz, também, de a atraiçoar. Desse nervo cúmplice, fogoso demais por vezes, ainda assim dele tiro a vantagem sagaz da matreirice e, desta, a ardente e sadia energia que, em circunstâncias bem-fadadas, me fazem escapar à inútil tarefa da moderação ou ao indolente corretismo da polidez. Pois é. Mas comunicar, esse salubre e benéfico pôr em comum, pressupõe a ousadia da liberdade, a dádiva da disponibilidade e o leal empenho na partilha perspícua desse comum em que se procura adentrar, ou em que se esforça por concertar ou, tão-só, em que se dirime delicadas fissuras, afinal provavelmente irremovíveis. Esta sinopse marcada pelo dissemelhante, em que o comum todavia se arruma, é um desafio que aprecio, que me desperta e me entusiasma, não obstante os caprichos dessa bravia emoção antes aludida. Azucrina-me, isso sim, a cátedra da unidirecionalidade que sufoca o pensamento do outro, a arenga que subestima o diverso e o discrepante que intenta nulificar o exercício do diálogo e da crítica. Deste jeito funciona o suposto poder do algoritmo de alguma convencida sabença, de uma certa empáfia social arrogante, que sem pudor manobra a fala do recurso à estolidez que aferrolha horizontes e atravanca quaisquer estendeduras e escavações. Mais trivial ainda é o uso do método da simplificada e obscura forma de extremar o colóquio, despachando célere movimentos de argumentação embaraçosa e, em consequência, e desde logo, sepultando algo que, mesmo exordiando viva e fortemente, nasce já condenado a ser defunto prematuro. De facto, assim me parece ser e acontecer.

quarta-feira, maio 11, 2016

A RETÓRICA DA IMPOSTURICE E DA DRAMATIZAÇÃO

 

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Ao abrigo dos Gigantes da net que atacam a liberdade de imprensa, a 4 de maio o Correio da Manhã, como nota relevante de uma conformada Conferência, maldizia o uso abusivo de conteúdos produzidos por alguns nupérrimos meios de comunicação, em especial esses hercúleos do Google e do Facebook. O argumento fulcral enganchava-se na fuga de publicidade (e, como tal, de pecúlio) que resvalavam desmerecidamente para tais ogres gulosos.

Há muito tempo que pouco ou nada espero da corrigibilidade ética do capitalismo, das suas lógicas e dinâmicas, cujo único e absoluto valor é o capital. Daí, tudo isto se me afigura como uma rixa de convizinhos que se engalfinham por uma talhada de terra que, nos tempos de hoje, se torna em uma eficiente herdade mediadora da (des)ordem financeira no poder, malsinando perceções cognitivas esculpidas a uma forma de consciência onde a tacanha resignação é exercitada a esmoer a humana vitalidade da convicção.

O senhor diretor do CM/CMTV, de nome Octávio Ribeiro, diz o seu jornal, não deixou cinicamente de alertar para os perigos de uma democracia sem jornalismo. Com certeza compadecido e naturalmente bem consciente dos problemas e do papel que lhe concerne, ou seja, dos dinheiros que se esgueiram e da ideologia vazia que mercadeja, facto que bem caracteriza a admirável lata do homem e do seu pasquim.

A sua indiferença social expressa é ocupada por tiros, malandrices e facadas e por outros equivalentes como coscuvilhices intrusivas e patéticas. A sua arrogância é almofadada pelos desordeiros do profícuo poder através da denúncia mercenária de outros que lhe sejam desvantajosos. O caos, a violência e o medo constituem as glândulas reprodutoras do seu entusiasmo, expropriador da crítica social séria, significativa e fundamentada. Em síntese, o seu problema é vender um evangelo diário que sirva os interesses obscuros que se escondem por de trás deste dramático modelo social e cultural regressivo dos dias de hoje. Em síntese, um desabafo; tenha pudor moral e intelectual, senhor Octávio…

segunda-feira, maio 02, 2016

A LEGITIMIDADE DOS CONSENSOS

 

p_19_11_2005[1][1]A ideia de consenso, ao longo da história, transitou alucinante sempre (ou quase sempre) pelos arbítrios da crença, da fé, da verdade e do senso comum. Igualmente sempre (ou quase sempre), silenciou o seu uso obstinado em acoitar da crítica os entendimentos ou preconceitos decididos pelos interesses difusos dos diferentes poderes, que sempre (ou quase sempre) foram exibidos como universalmente verdadeiros. A conquista do consenso foi assim, sempre (ou quase sempre), admitida como uma condição impreterível das ambições dos diferentes poderes, em particular do poder político.

Contudo, este poder político, hoje encravado num contexto globalizado de financeirização da economia e submetido à predominância da civilização mediática, trocou (ou viu-se obrigado a trocar) o espaço público da cidadania democrática pelo ambiente do consumo teatral da oferta política e das suas figuras de proa ou cortesãos de faxina. Assim sendo, alcançar o consenso, como condição para chegar ao poder, torna-se hoje uma arte, pressupondo atores habilidosos e encenadores imaginativos e, principalmente, o que não é de somenos importância, acesso ao palco das representações. A cidadania desvanece-se, é certo, mas o espetáculo anima-se e o aplauso cria finalmente o consenso íntimo desejado. Embora desvalido, politicamente poderoso como convém.

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domingo, abril 17, 2016

FOUCAULT E LACAN

 

"Lacan, o 'libertador' da Psicanálise"

michel-foucaultLacan não exercia nenhum poder institucional. Os que o escutavam queriam exatamente escutá-lo. Ele não aterrorizava senão aqueles que tinham medo. A influência que exercemos não pode nunca ser um poder que impomos.

Michel Foucault, in: Ditos e Escritos I

Post publicado em Psicanaliselacaniana.blogspot.pt/

domingo, abril 10, 2016

ESCREVE, AMIGO

 

michael_cheval_1_ak_thumbÉs um daqueles amigos que muito admiro, permanentemente instigado pelo desafio do escuro, daquele impreciso que te desconcerta, te parece desalinhado, mas que se te apresenta livre, sedutor e acertadamente indisciplinado. Mareias por águas bravias e outras dóceis e domésticas como se a vida não desnudasse o contraste. Curiosamente, respaldas-te naquelas e vives azedado no quotidiano das últimas. Não obstante, é nestas que refazes a saudável vitalidade e energia da tua fúria e encontras o irónico sossego do arrimo que te permite viver a vida que sabes escapar-te.

Por isso, tens de escrever para dar forma ao informe experimentado que te cabe no universo dessa infinidade de possíveis mundos e modos de vida, dando vida aos restos exclusos da desenxabida mas cuidada cena do tartufismo nomeável. Muda de palco e encena a tua história. Dá voz aos silêncios que tão bem soubeste guardar ao longo dos tempos. Sei que sabes escutar os murmúrios desses destroços empilhados e, mais do que escutar, perceber a sua linguagem e inventar as palavras com que o teu imaginário enlaçará o real, que nunca se apreende por inteiro, e o simbólico, que sempre nos surge incapaz. Escreve, amigo. Com nobreza, se fores capaz sem o calor embriagado da inquietação ou, com grandeza, escusando o afável aliciamento do cativeiro. 

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