segunda-feira, março 30, 2020

O IMPREVISÍVEL AMANHÃ

PARA MEMÓRIA FUTURA
Escritores de várias nacionalidades refletem sobre o mundo antes e pós-coronavírus | Por Lenide Duarte-Plon| 25/03/2020

« De quoi demain sera-t-il fait ? » (De que o amanhã será feito ou O que será o amanhã ?) perguntou Victor Hugo num poema. Ele continua : « O homem hoje semeia a causa. Amanhã, Deus faz amadurecer o efeito ».

O filósofo Jacques Derrida e a historiadora da psicanálise Elisabeth Roudinesco retomaram a pergunta do poeta, abreviando-a, para intitular o livro « De quoi demain… », em forma de diálogo, lançado na primeira semana de setembro de 2001.

Estimulante e abrangente, o diálogo gira em torno de temas políticos e filosóficos que resumem as interrogações de dois intelectuais sobre o século que se iniciava. A conversa termina com um elogio da psicanálise : somente levando-se em conta o inconsciente e a pulsão de morte podemos compreeder as desordens do mundo e restituir uma sociedade humana onde a abertura aos outros seja uma realidade.

Mas apenas alguns dias depois do lançamento do livro nas livrarias francesas, o 11 de setembro veio provar que o amanhã, de que falou Victor Hugo e sobre o qual se interrogavam Derrida e Roudinesco, é totalmente imprevisível.

Quem poderia prever o que se passou no dia 11 de setembro de 2001 ?

O mundo nunca mais foi o mesmo depois que a potência hegemônica se descobriu vulnerável, em estado de choque.

sábado, março 28, 2020

A VERDADE ENTRE A ILUSÃO E A DESILUSÃO


Traduzindo em contraponto Feuerbach diria que estamos a viver um tempo em que não reconhecemos a imagem da coisa, a cópia do original e a aparência do ser. A ilusão perdendo-se na verdade e a verdade refugiando-se na ilusão. Certos, sim, é de estarmos confinados a esta mística vida do seu agitar.

quarta-feira, março 25, 2020

O BEM E O BENEFÍCIO COMUM


Num texto marcado pela simplicidade culta, e nítida, e pela sua calorosa religiosidade, Anselmo Borges esclarece:

É preciso ceder bens menores a favor do bem maior, a saúde e a vida. Sacrificamo-nos todos, com o sentido do bem comum. Sem alarmismos, mas com racionalidade e urgência.

Entre outras de grande valor, destaco esta proposição por que confronta conceitos que no seu todo estreitamente se interrogam; bens menores, bem maior e sentido de bem comum. A saúde e a vida são, sem dúvida, pilares medulares desse bem maior. Outros existirão, mas a racionalidade e a urgência do momento determina a distinção. Não obstante, e sem pretensão de discordar de Anselmo Borges, bem pelo contrário, permitam-me sugerir, acrescentando, a inscrição da raiz de um bem maior na englobante e inclusiva ideia de dignidade humana e, em sequência, do valor da sua condição como horizonte comum de sentido. O momento que se atravessa, exatamente pela exigência da racionalidade e urgência, impõe, e bem, a necessidade de proteger a saúde e a vida, de todos, atribuindo-lhe sentido de bem comum. Com o tempo, estou certo, permanecerá a experiência vivida, austera e incontornável, desse desafio, desse bem imperioso. De um bem que, todavia, merece ser engrandecido, predicando-o na universalidade da sua natureza, e no seu imanente valor solidário, e não apenas como resposta, moldada e pragmática, a uma racionalidade de momento, necessária e urgente.

terça-feira, março 24, 2020

DAR-SE AO TEMPO POR DENTRO


Ruas nuas, silêncios enfadonhos. A turbulência do tempo oferece-se atando o sofrimento ao corpo e o real ao imaginário. Suspeita-se que a mudez tem voz, mas não se ouve, e que as palavras naufragam no furor do seu alento. Tudo parece obscurecido nesta ordem descontrolada, imerso que está na onda revolta de verdades incertas. E sem qualquer deus por perto, espera-se rumo,  sentido, e o seu nexo em nós. Porventura na esperança de um aguardo apenas. Sim, não mais que um aguardo que ora resguarde.

segunda-feira, março 23, 2020

O ENCANTO DO DESCONHECIDO TAMBÉM DE QUARENTENA


Aqui está um momento místico, acaso delirante, de auscultação ao jeito humano de acomodação. Não regresso decerto à infância, mas sinto a necessidade de espiar o contraste da agitação conciliadora, boa ou impiedosa, de ânimos e movimentos. Isto é, arrumar diferenças entre esse tempo vivo de céu azul e este outro, bem cinzento, que oprime. Espiar exige-me então, por condição e silhueta do termo, um modo muito pessoal de anotar, ainda que perdido no baralho das referências, dos tempos e das vivências. Sobretudo, no uso das cartas desse lúbrico jogo de adaptação ao estranho e ao desconhecido. Mormente ao lembrar, e ao invocar, esse originário e vital cuidado dos pais, reconhecido como delicado e leal. Da alegórica proteção assegurada que a todo o tempo se faz obrigatoriamente intuída como esclarecedora. Assim sendo, e perante a sombra da nuvem virulenta, no lugar dos pais, avisto padrastos distantes, desapegados e frios. Educados, e de urbanidade conveniente, mas imperfeitos na razão da primordial afabilidade. Uma elementar falha que, quer queira ou não, me define um avesso e me força ao impasse no apuro do embaraçoso oculto. A memória de infância impõe-se-me, então, na catálise das precipitadas paralisias ante a indiferença das friezas. Afinal, de outra busca se trata certamente alheia a essa verdade primeira. O que se me apresenta será (ou é), então, e diferentemente, o alcance de novos e diferentes modos de resguardo e confiança. Numa túrbida paisagem de insólitas hierarquias que me envolvem neste mudado tempo intensamente vivido como incerto e insuficiente. A dependência de antes confronta-se hoje com enlaces distintos, bem atípicos, intuídos como rebentos de estranhas e imprecisas realidades, e ritualizações. Novos mitos despontam atraindo cada qual o seu vigor na norma do reajuste, do pretexto e do abrigo. E com eles surgem cerzidas narrativas, inéditas liturgias e austeras transições. Contudo, o calor da confiança não aquece, não chega, não consola, e não dá ao desconhecido a possibilidade de me pacificar. A ansiedade junta-se ao desconforto e, em somado, gelam a minha tranquilidade. E eu, sem ela, sinto-me incapaz de inventar roteiros, apenas de simples roteiros que me levem à alquimia do tempo. Deste tempo presente por demais virulento.

terça-feira, março 17, 2020

O QUE EXISTE DENTRO DE MIM, HOJE


Aos dúbios contornos da ordem e do caos tenho dedicado algum tempo, ainda que ajudado por magra ciência. Reconhecidamente frágil, entrego-me à aventura curiosa de entranhar as suas verdades e inamistosas ocorrências. Em todo o caso, e sempre, na busca de sentido, de luz e alguma consciência. Tenteando o que desconheço e indagando a adaptabilidade, e a firmeza, do histórico caminheiro. Porém, a fonte subjetiva da ideia de sentido nem sempre me ajuda. O conflito entusiasma-me a busca, sim, mas o medo deixa-me preso às algemas da minha fraqueza. Na busca, esperançado, enxergo a raia que me abrasa. Algemado, o caos devora-me até os ossos do espírito. Assim me encontro, hoje, enclausurado nesta desalmada ordem do caos, ou melhor, nesta grande merda dita de Covis-19.

quinta-feira, março 12, 2020

RUÍDOS DA LIBERDADE


A vida na sua errância aclara o ímpeto das circunstâncias. Diz-se que a verdade da vida se cumpre na metafísica do encontro, e da circunstância. Porém, de quando em vez, dá-se a prova da humana negação em afrontar o ardor da atração urgente. Quem sabe se efeito do desmedido valor dado ao ruído da liberdade. Por que este, o ruído, ilude e constrange, capaz de consolar o vazio que, amiúde, se tenta recusar, isolando-o. Ruído que assim se oferece para um curso de agasalhada ficção. Mas a liberdade, acredita-se, existe para viver. Por isso, nesta sua verdade ela ficará atenta, ou mesmo surda, ao rumor dos paliativos. Bem como distante dos seus alívios viciantes na experiência da indiferença. Seguramente, a verdade da vida passa por encontros e circunstâncias. Mas nunca isentando o homem da sua liberdade, e da sua dignidade.

segunda-feira, março 09, 2020

ATÉ JÁ, AMIGOS


Escrevi há tempos;  … “uma boa conversa acrescenta-nos um quê identitário,tornando-nos mais completos e, justamente, ainda mais disponíveis. Para a vida, a tal vida de todos os dias. Por isso prezo as boas conversas e, no dia de ontem, a maré cumpriu a convicção. Experienciei, e senti, a instigante circunstância afetuosa do retomar de muitas dessas conversas que a incontornável razão da distância atrasou. Deu-se, acredito eu, um momento peculiar de caloroso convívio que concedeu vida. Às memórias e, porventura, ao sentido dos sucessivos rumos, tempos sempre incertos, plurais, mas significantes. Em suma, à história do passado acolheu-se a esperável e benfazeja retemperação do reconhecimento. De modo especial, da amizade, do apreço e do companheirismo. Assim sendo, o que nos resta, então? Não mais que presentificar e revigorar esse ressonante apelo de proximidade, vivência e afeição. Daí, amigos, com simpatia finalizo com um familiar e sincero ATÉ JÁ.

segunda-feira, março 02, 2020

PARA TI, MADALENA

A paixão não é tragédia e o desconhecido não é drama. Sorte adversa, sim, é o confronto da experiência da fraqueza na conversão do conhecido que nos faz mal. Sobretudo desse mal existencial que golpeia a decência moral e a dignidade das pessoas. Logo, não recues protegendo-te nas sombras socializadas do cínico cânone absorvente. A tua consciência jovem, já hoje lúcida e ambiciosa, pede-te coragem e não refúgio em acomodadas adaptações ardilosas. Por isso não cedas à confortável e egoísta tendência humana da desistência. Não te deixes igualmente apoderar pelo medo que em muitos atrai a cobardia do subterfúgio. Não te deixes também vender nos primeiros passos desse teu caminhar livre da maturidade. A liberdade não se compra, constrói-se, defende-se, partilhando-a. Com custos certamente. Mas a alternativa, a subjugação à iniquidade e à indignidade não merece a tua preguiça. Não tenhas medo do futuro e sê firme na coragem de dizer não. Os poderes a contrariar, e a afrontar, são muitos e diversos. Sejam eles os talentos aliciantes, os dons sedutores, ou mesmo as perícias silenciosas que por aí não escasseiam. Jogam, todos eles, na promessa do acolhimento, da segurança e do acerto do mundo. A mentira que aqui subsiste e aqui medra sabe muito bem encenar o seu próprio jogo para que a batota passe despercebida no ardiloso cumprimento das suas regras. E eis, então, seguramente o problema maior da democracia. Não é ela, a Democracia, que é o problema. Bem pelo contrário. O problema encontra-se, isso sim, entranhado nas mentiras e nos jogos que nela circulam, a pervertem e a corrompem. Aliás, passe a expressão, sem qualquer “pingo de vergonha”…

sábado, fevereiro 08, 2020

O INCERTO CONFLITO DA ILUSÃO REALISTA


Tradição é passado que permanece. Conferir direitos à tradição depende afinal de um reconhecimento atributivo. Com que fins? Da liberdade, da igualdade? Ou do seu oposto? Da sujeição, da autoridade ou do amedrontamento. Tudo junto, ou em separado. Em abstrato, a tradição não se opõe à modernidade. Ambas não são em si, e por si, predicamentos definidores de virtude. Nomeadamente no campo particular da informação e da comunicação. O fanatismo e o obscurantismo sobrevivem ao tempo. Hoje, como no passado, buscando apropriar-se do direito humano de pensar livremente. Emaranhando inteligibilidades, suscitando desorientações, deleitando o mundo opinativo das paixões. Daí, a face emergente e inadiável da consequente avidez técnica, do seu alcance e utilidade desvirtuada. Na comunicação social vacilante, nas redes sociais em expansão e nos demais (re)cursos de intermediação. Entrelaçando e aturdindo proximidades críticas e analíticas face ao mundo da vida. Um conflito incerto marcado pela perplexidade de sinais causadores de incertezas, receio e insegurança. A mediação útil e valiosa não se ausentou. A mediatização é que eficientemente se lhe contrapõe. Eis aqui, certamente, um desafio, quiçá  medular, deste tempo. De um tempo apressado, embora não letárgico, da atual civilização da imagem, do fetiche e da sua imodéstia simbólica.

quinta-feira, janeiro 23, 2020

A REALIDADE NÃO SE ESGOTA NO EMPÍRICO


Há destinos incomplacentes em que a partida se faz aproximação. O certo, o que persiste e subsiste, acoita-se no espírito das memórias, das palavras e dos pensamentos. Uma vida, afinal, marcada pela vida que ainda sobra. Na prova da ausência, e do silêncio, que dela sempre desponta. Enfim, uma distância sem cálculo de um percurso que se faz sempre só. Reconhecendo, decerto, a presença dos que partem na sua imanente intemporalidade. Partiste, sim. Uma contingência, afinal radical, que merece e exige sentido. Quem sabe, como afirmaria Anselmo Borges, através de uma outra presença. A Presença sagrada, divina, como seu fundamento e sentido últimos. E tu, Carlos, sabes, bem melhor do que eu, sabes que não estás evidentemente só.

domingo, janeiro 12, 2020

A ALMA POPULISTA


Reverencio os políticos que deslustram da política e maldizem dos parceiros do costume. Como? Costumando, eles, do devaneio democrático que ali estão para fazer diferente. Confesso que me comove a grandeza de alma dos que, sem se enredarem na política, se obrigam à missão. Por isso, merecem a minha mesura e consideração. Mormente quando, com o tempo, enrugam na busca falhada da dissemelhança. A história assim o relembra e os exemplos passados não faltam. Hoje, os prontos e frescos seguidores preanunciam-se, prometem. Com méritos e passadas diferentes, fatiando cordialmente afinidades e proximidades. Anunciando sempre virtuosos e empolgantes caminhos. Grudando à realidade a sedução do artifício. Conhecem bem os limites da liberdade e os fundamentos da sua condenação moral. Desconsideram partidárias mediações, discernindo neles, nos próprios, o irrefutável e social reconhecimento. A alma populista não se propõe, afirma-se. Eles são o povo, logo, a voz fundada da democracia. Ou melhor, da “tra(m)palhada” fascizante dos tempos modernos…

terça-feira, dezembro 10, 2019

TEMPO DE ENLAÇAR, O SABER COM A ARTE DE VIVER

A CIRCUNSTÂNCIA DO SABER EM TEMPOS DE SENIORIDADE

Fui professor. Talvez por isso, e com o exercício e acertos devidos, aprendi com erros meus e tolhimentos de fora. Neste meu novo tempo biográfico, das sombras desse anterior sinto raiar-se a sobra de uma luz remanescente. Vinda, rútila, de uma solta e desusada impermanência. Marcada pela raridade de uma serena inquietação. Lugar nascente, afinal, onde se leveda um saber outro, simples e singular na arte de viver. De viver esse novo tempo, com passado, sim, com futuro, ainda, mas sobretudo com um intenso presente. Melhor, um aqui e agora onde o saber busca harmonia com a experiência, familiaridade com a vida e realização pela satisfação de estar, de existir. Sem currículos prévios ou roteiros preestabelecidos.

terça-feira, dezembro 03, 2019

NEM TUDO O QUE RELUZ É OURO

Num tempo de mediações meândricas e de contornos incertos, a mediatização impõe-se. Praticando a ligeireza e a superficialidade. Sem critério, e sem tempo, agitando enxurradas de imagens no efémero fundo do excesso. Macaqueando arremedos de realidade, quiçá distrativos, mas cínicos e duvidosamente escrupulosos. As audiências ordenam e as receitas testemunham. O caótico do imediato enjaula assim a ilusão, imobilizando a mediação na sua exigência e alcance. Em suma, ao contrário do que se julga, tolhe a liberdade, espalmando-a ante o desmedido peso de uma “máquina de subjetivar”. Determinando, e maltratando, deste jeito, esse lugar primordial, e genuíno, de se ser sujeito, sujeito pensante. Retraindo e comprometendo o livre exercício da liberdade. Na legítima e humana formação da subjetivação, do refletir e do pensar. Com tempo.

domingo, dezembro 01, 2019

UM RECONHECIMENTO PARA INCRÉDULOS


José Moreira deu uma longa entrevista ao PORTO CANAL. Neste breve fragmento, de cerca de três minutos, tem a modéstia e a simplicidade de destacar o meu nome. Agradado e orgulhoso pelo reconhecimento, deste me presto para botar figura junto dos meus amigos desconfiados. Ao José Moreira, um abraço.

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terça-feira, novembro 19, 2019

SENTIR, SENTINDO A INQUIETAÇÃO




Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho

domingo, novembro 17, 2019

TÓPICOS DE UMA MEDIAÇÃO DESACREDITADA


O Muro caiu e com ele dissipou-se uma marcante fronteira no tempo político. Em crescendo se abriram novos e contrastantes horizontes, e novas e resolutas engenharias se engendraram. O exercício mediático foi-se então confortando no poder ganho, e se propagando na sua ambição. Entretanto, outra e dúbia condição se espalhou. Subterrâneos interesses aproveitaram, e instalaram-se. Passo a passo, a democracia abraçada veio-se assim demudando, desfigurando-se. Habilmente o cidadão virou público, o espaço público plateia. Logo se anunciou a pós-democracia, obscura realidade ainda por entender. A cidadania foi-se desvitalizando e as suas referências perdendo-se no além do embaciamento. A superfície dos factos, por fim, tornou-se palco, publicidade, mercado. Consumo e espetáculo de emoções e fabulações assim aproveitáveis. Infundiu-se a insegurança e a incerteza, pilares do político inconfiável. Desacreditou-se a mediação prestativa, de análise e fundura úteis. Sobrou, pois, um horizonte de ligeireza, de disfarce e de fingimento. Um prolífero terreno de aproveitamentos, nutriente de sórdidos e improváveis populismos. Uma democracia, afinal, anémica, indefesa, também ela desmurada. Dos muros primordiais de intermediação que, outrora, a fecundaram e a protegeram. Em sinopse, tópicos para cuidar e pensar um futuro. Aliás, um futuro já hoje presente.

Imgem retirada DAQUI

quarta-feira, novembro 13, 2019

terça-feira, novembro 05, 2019

ERRÂNCIA, DESTINOS

Não existe ordem sem desordem. Desregramento no interior do alinhado das ordenações. As resistências estão lá, permanecem. A desordem persiste no impreciso anseio de um outro arranjo. Hesitando entre aproximações e libertações. Nesse intervalo instável da permanência, de resistir. Lugar natural de conflito em que a liberdade se aprende e deixa trilhos. No pensar e no agir. Como na afirmação que cria esperança. De um viver outro em relação ao que há-de vir. Não esperando ordem na desordem, mas tão-só rumo à errância.

Imagem retirada DAQUI

sábado, novembro 02, 2019

DA “CRISTALINA” FACTICIDADE

 Devotada ao determinismo dos factos, em obediência ao deus-capital, a liberdade deixa de ser livre. Renuncia à sua existência, reduzindo-se à necessidade do fracasso. O factual, algo que pode ser diferente do que é, torna-se obrigada condição. Essa que restringe, legitima, e se liberta da exigência intelectual, da obrigação humana. Assim, o ponto de partida e o ponto de chegada estreitam-se no comum dos números e das suas representações. Sustentadas pela útil superfície das cifras, dos seus preconceitos, opiniões e falsificações simbólicas. Enfim, postulações deste tutelar - e boçal - tempo da fúria capitalista.

terça-feira, outubro 22, 2019

HÁ DIAS ASSIM

Não sei se é tarde. Sinto apenas que é o tempo, um tempo. Não certamente de inventar destino. Só de caminhos para caminhar como se já os houvesse pressentidos. Que consintam sentido, vida, às memórias do passado. Boas, menos boas ou mesmo doídas. Barrando falhadas repetências. Tentando ler lamentos. Traduzir tolas pausas de vida. Buscando lugares de fronteira entre o vivido e o por vir no tempo. Entre o que não foi e o que poderá ser, acontecer. Ter futuro, ser ainda. Quiçá, numa outra e mudada história.

quinta-feira, outubro 17, 2019

TUDO VEIO MESMO A CALHAR


Ontem fui até ao mercado da Ribeira, ver e ouvir Ivo Canelas. Em Todas as Coisas Maravilhosas, um monólogo espirituoso, mas que nos inquieta com tópicos delicados. Tudo parte de uma lista elaborada por uma criança de sete anos sobre as melhores coisas da vida. Algumas das pessoas que assistiam foram, nestas  circunstâncias, convocadas a participar. Lendo pequenas frases ou palavras dessa lista, previamente distribuídas pelo ator. Fui um dos solicitados. Através desse breve momento, com muito agrado me associei ao envolvente e sublime espetáculo de Ivo Canelas.

segunda-feira, outubro 14, 2019

NARCISISMOS, ARTES E BAILADOS

As coreografias, hoje, mais do que ontem, crescem em número e matizam-se em subtileza. Em peculiar harmonia com as faltas temidas e a urgência da fantasia. A insuportável pequenez, se pode, mostra-se superior; se não, cresce diminuindo os outros. As músicas do grotesco exagero, ou da perversa dor de cotovelo, acompanham o bailado do artifício. À magia carnavalesca dos primeiros pode exibir-se, todavia, a torpeza dos segundos. A vulgaridade não serve e dela o dançarino se livra. Pela imaginação, da ilusão ou da ansiedade. O outro, o circunstante, que se cuide então. Ou reconhece o dançarino, ou é maltratado. A realidade está no palco e a verdade na sua dança. Na arte de convencer, ou melhor, no engenho de se provar. Não aceita não ser admirado, pois é do dançarino que se fala, quiçá o maior e o melhor. Logo, deseja ser amado, reconhecido na sua perfeição. Ele está acima de todos os outros. Governado pela fantasiosa certeza ou falta dela. Desvariando, ou diminuindo os outros. Com os outros na cabeça, esquecendo-se de si próprio. Continuadamente, recriando miudezas onde a dissimulação se atrele. Cuidando dos azares, a culpa reside sempre perdida, ou morando já ali na casa do vizinho. O (desa)tino, esclarece-se, então, como o mote em palanque. O dançarino, afinal, não se esquece de si próprio. Ele espelha, nos seus irretocáveis movimentos, a sua própria negação.

domingo, outubro 13, 2019

O VOTO NÃO REVOGA A LUTA


O Voto, de quatro em quatro anos, escolhe. A Luta, não tendo tempo marcado, faz-se quando deve ser feita. Quatro anos é tempo além da conta para alcançar o que há muito tempo se espera. A democracia, reclamando o voto, exige mais, a Vida do concreto de todos os dias. Num tempo sempre atempado e em lugares plurais para além das urnas acertadas. Quando e onde a injustiça se acomode e o abuso se faça engenho. Por uma Democracia mais íntegra e saudável, o Voto não pode revogar a Luta – a luta de todos os dias.

Respeitando, e apreciando a sua mensagem, aqui deixo um envolvente e oportuno trabalho …


sábado, setembro 28, 2019

EM TEMPO DE ELEIÇÕES, UM ARRISCADO ATREVIMENTO

O entretém do negócio mediático seguramente arreda vitalizantes e humanos tormentos. Enfeitiça o pululamento entre irrisórias telenovelas, comovedoras desgraças e outras eletrizantes frivolidades, esmerando assim o acabamento do devoto cliente. Como vale, ajustando em permanência o desfrute alegre de um tempo com pouca sobra para entender a vida, a confinante vida. Imerso então no torpor de adventícias pertenças, o confiável freguês repousa ingénuo na consolável religiosidade de um não-lugar tomado como seu. Sem pauta própria, resiste acolhendo – e não escolhendo – a musicalidade em voga. Todavia, não uma qualquer, mas a que se lhe prefigura antever um resguardo, ao que parece, mais seguro e, sobretudo, assegurado. Mestria adestrada pelas reiteradas e massificadoras mediações que têm por peculiar encargo apostolizar o público reconhecimento. Manobrando significações, ordenações e homologações, não esquecendo o arremate certeiro de frutuosas e oportunas omissões. Delineia-se, deste jeito, afinidades e sintonias. Abrigando, e guardando, no meio comum do magote, os silêncios apreensivos que as íntimas e embaraçosas fragilidades atenazam. Um lugar, afinal, que se faz caverna de fraquezas e inocências e que, por reserva, aí se acoitam. Mas aonde utilmente se adensa, em tempo de reservados apetites eleitorais, uma disputável e, acima de tudo, manipulável maioria silenciosa. Uma maioria por fim aliviada, quem sabe absorvida no bizarro triunfo dos vencedores. A pasmaceira reflui então contente à caverna, e a devoção – ufa - à mansidão de todos os dias.

segunda-feira, setembro 16, 2019

O ANUAL REENCONTRO DA FAMÍLIA LOPES

Já cá não estão os avós, os pais e os tios. Dos primos, dois já nos deixaram. Também um irmão, há algum tempo, partiu. Mas a família permanece com os seus filhos, netos e memórias. Desenrolando o tempo na busca de uma história sempre inconclusa. De um apuro que se vai reerguendo como se de uma lenda se tratasse. Entranhada num banho de afetos e de cumplicidades. Com uma leveza que se reconhece, e se revela, na sua funda simplicidade. Sem feridas que inibam a verdade da reciprocidade e a sã emocionalidade das compreensões. Trocas soltas que no presente dão mais vida ao passado. Com entusiasmo, alegria e descoberta, enriquecendo, quiçá, vazios impensados. O mundo familiar torna-se, aqui, mais vasto e o tempo do momento mais precioso e vivo. Sonhando e imaginando esquecimentos acordados. Retraçando continuidades e dando às memórias palcos mais alargados. Sem medo do falso na busca do verdadeiro, acercando a imaginação do entendimento. Revivendo o passado, sabe-se lá, se não para inventar o futuro. Revigorando afetos, a amizade e a familiaridade. Assim saudando, todos anos, aqueles que o tempo vem tornando referências sólidas do nosso presente simbólico. Preservemos o sopro, e até breve.

sábado, setembro 14, 2019

MEMÓRIA CURTA DE ALCANCE ENCOLHIDO

Vive na Madeira um homenzinho feito político que, por não apresentar a tempo a sua declaração de rendimentos, perde o seu mandato na Câmara do burgo. Naturalmente já nesse tempo de 2007 a memória não o ajudava. Naturalmente fruto de uma qualquer família de fagáceas, a sua cabeça apresenta-se como uma bolota cintilante de pedúnculo curto. Um empecimento que o estorva e o impede de ler a história e apenas nela enxergar a utilidade como seu privativo critério. Sem ética, sem maneiras, a não ser de empecilhar o seu fantástico mundaréu de empecilhos. As gentes do PS que se cuidem…

Imagem do homem retirada DESTE SEU DESCUIDO

terça-feira, setembro 10, 2019

VOLEIBOL REGRESSA AO F.C.PORTO



Parabéns ao meu amigo José Moreira e ao FCP. Permitam-me manifestar publicamente o meu orgulho, pois fui eu que levei o José Moreira para o FCP em 1967, enquanto seu treinador na categoria de juvenis. Mais ainda, relembrando que nesse ano o FCP foi Campeão Nacional na categoria. Tinha eu, então, 19 anos. Memórias que contam...

Imagem retirada DAQUI

segunda-feira, setembro 09, 2019

A PRIMORDIALIDADE DO ACASO




Imagina-se futuros, inventa-se vidas, despontam acasos. O princípio da verdade solta-se assim do burburinhar revolto do sentimento. Cá se espiga a circunstância de humanas coincidências descobertas. Casualidades que valem, significam e se representam. Que ganham corpo adiando sonhos atraídos por encantamentos. Quiçá, igualmente sentenciados por abruptas fatalidades. A sedução ou a necessidade ambas triunfam na sua emergência. E o acontecimento assim vai desafiando o então traçado, o aspirado. Com o acaso sempre presente, ajuntado à fertilidade da sua ontológica supremacia. Imerso na inevitável intimidade da facticidade com o indeclinável devir da singularidade. Garantidamente entranhado no jogo da vida que, em suma, interessa arriscar. Com certeza, ousando vive-lo.

Imagem - “Metamorfose de Narciso (1937)”, retirado DAQUI

sábado, agosto 31, 2019

A CRISTAS DE CRISTA ERGUIDA

O meu silêncio persistente dá-se há mês e meio. O querer escrever não atina com palavras que valham. Melhor, que mereçam a indelicadeza ao zelo que conforta o próprio silêncio. Repetir o já dito, de antemão, soa-me a obstinada sornice. Entre pensamentos e fantasmas a criatividade nada descobre. Então, o que me faz despontar neste horizonte de teimosas lamentações? Somente o topete que um outro silêncio devia recatar. Neste templo, e tempo, consagrado ao culto calculista do mérito, onde o sopro se fez ruído. Pois não basta a silenciosa lapidação que patrocina a meritocracia acomodada. Vai-se mais longe e fala-se bem claro. Se não chega o merecimento, acrescente-se-lhes a benemerência de outras mais-valias. Empilhe-se às vantagens outras e mais vantagens. Tonifique-se, sem qualquer embaraço, a andada da conformidade cumulativa. Endurecendo a disciplina das desigualdades que assim se vai firmando e afirmando. Sem acanhamento e nobreza política. O meu voto terá, assim e naturalmente, outro destino.

quarta-feira, julho 17, 2019

O AZEDUME DE UM OLHAR EXAUSTO


Vende-se a ilusão de que a culpa da abstenção eleitoral é, acima de tudo, dos políticos. Dos partidos, das políticas e da sequente ação política. Do meu ponto de vista, tal olhar estreita a envolvência que, no abstrato, se emblema por ordem política. Não será por isso acaso que os media são aqueles que, por grosso, alienam a retalho tal simplificação. Deliberadamente, silenciando a sua ilegítima desinscrição nesse embaraço. Ocultando, ou iludindo, a sua condição de sujeitos políticos ativos. Informam, formam, deformam e fazem opinião. Servem-se de um direito, mas esquivam-se do dever. O dever de promover o desempenho pleno de cidadania que a democracia obriga. Da vantagem sistémica retiram o poder mediático, menoscabando a sua primordial função social. A imperativa rentabilidade, de modo cada vez mais acentuado, escora-se nos números. Dos lucros, da publicidade, dos leitores e das audiências. Em prejuízo claro da afirmação do poder político eletivo, subalternizando assim este elemento constitutivo que, afinal de contas, se impõe proteger. Escudando a democracia e a sua qualidade. A tabloidização crescente do mediatismo fala por si. O croqui da espetacularidade, da emoção e da dramatização retrata a adoentada transição que nos envolve, e desenvolve. O cidadão, dando lugar ao espectador consumidor, vagueia na superfície do consumo da confusão. A traição à democracia ganha aqui o seu molde, o molde da contraversão. Parafraseando José Gil, diria que a ilusão da liberdade nasce aqui, na torção que se impõe à sua primordial inscrição, o legado histórico. Com a liberdade enjaulada, a democracia vai definhando e as vendas da ilusão tornam-se mais eficazes. A venda que cobre os olhares e a outra que redunda em proveitos, em dinheiro e em políticas que se fazem jeito.

domingo, julho 14, 2019

PADRE NUNO, XICO NUNO




Com ele, com o padre Nuno, com o Xico Nuno, aconteceu um singular encontro. Nesse lugar nobre onde as memórias dão amanho à consciência, as palavras se desfraldam mais livremente e se herda, da obscuridade, a envolvência da sua claridade. Daí se prossegue, para além do conhecido, essa humana rota, sem termo, de Resistência e Liberdade.

Atento, não deixei de pensar, de imaginar o padre, o homem, o marido, o pai, a quem muitos tratam por Xico Nuno. O que nesse entretanto se recontava, em mim, fazia-se estímulo à criação romântica de uma figura talentosamente sólida, ainda que múltipla, simples e decidida. Uma história, uma vida em que a liberdade parece desvelar-se em impulso sereno, ainda que intenso e apaixonado. Fazendo do seu tempo, um tempo absoluto, inadiável.


Para o Xico Nuno a liberdade mostrava-se, talvez, uma força vital, não uma finalidade. Uma condição da sua e nossa própria condição. Reconhecendo limites, sim, mas destes sulcando as leivas resgatadoras de esquecidas determinações. Com outros, jovens e não só, partilhando experiências do pensar livre e do criar agrupado. Ousando plurais caminhos na senda de uma sociedade de sujeitos, e não de seres enfraquecidos de suas forças de vida. Libertando a liberdade, essa força medular que tem por atribuição cuidar da vida digna. Mais perfeitamente, imputando a essa força, a essa liberdade, a infinidade de sua dedicação. Seguramente, uma voz despojada que a dignidade da condição humana, ao longo do seu tempo, testemunhou, e hoje apresenta-se reafirmada. 







domingo, junho 23, 2019

PENSAR O ENVELHECIMENTO E A LONGEVIDADE HOJE

Síntese da minha intervenção no 13º Congresso da FENPROF

Pensar o envelhecimento e a longevidade hoje, é idear um cenário onde alguns equívocos, culturais e ideológicos, se movimentam. Em especial, ao reconhecer-se que o seu lado positivo e significante faz-se de desafios humanos e sociais de óbvio merecimento político. Compreender tal realidade obriga a um olhar inteirado que, à premência dos impasses do presente, a ela acresça futuro. O envelhecer acontece a todos, todos os dias. Não tem data marcada. Deste modo, o envelhecimento faz-se, por essa razão, um tempo que a todos pertence. Não somente aos reformados de hoje, mas, mormente, dos que esperam uma aposentação com amanhã.


Pensar o envelhecimento e a longevidade hoje, não aguarda o momento da aposentação, desse tempo simbólico onde tudo parece iniciar-se. A simplificação aqui interposta desmerece um processo desejavelmente natural, ativo e progressivo, confirmado na sua irreversibilidade. O envelhecimento, sendo algo que se modaliza diferentemente de pessoa para pessoa, é obviamente marcado por condições de vida objetivas e pelas respetivas transformações sociais que as assistem. A longevidade será, assim, adicionalmente depreendida como um tempo de todos, desse tal inevitável amanhã do natural envelhecimento.

 
Pensar o envelhecimento e a longevidade hoje, mais do que nunca, mostra-se cada vez mais manifestamente um tempo de todos. Para tal, é inadiável significar esse tempo que se completa e se determina através dos seus múltiplos tempos sociais. Tempos estes que se materializam em dimensões determinantes na qualidade de vida das pessoas, a começar por quem ainda trabalha e aspira à sua justa aposentação. Repesando, deste modo e a diversos níveis, os tempos de trabalho e os tempos de não trabalho. Aprendendo a envelhecer, enraizando o seu saber crítico no que vai acontecendo e experienciando. Procurando viver esses diversos tempos revertendo-os em momentos e circunstâncias estimulantes e, seguramente, bem-sucedidos.


Pensar o envelhecimento e a longevidade hoje, não se acerta, pois então, no momento da aposentação, ou seja, num possível e inquietante tempo de rutura, quiçá marcado por uma continuidade improvável e arredia. Aprender a viver o tempo de aposentação, acarreta compreender, politica e ideologicamente, a extensão e o enredamento do seu percurso prévio. Os caminhos são naturalmente diversos, decerto mais penosos para aqueles que os palmilham em terrenos de maior fragilidade humana, social e profissional. As desigualdades, fonte discricionária dessas fragilidades, naturalmente que se repercutem de modo diferente ante a progressividade do envelhecimento. Todavia, o nosso tempo permanece sempre e continuadamente aprisionado à complexa questão dos tempos sociais, nomeadamente quando ele, de modo abusivo, nos é confiscado. Ou melhor, se consume docemente enquanto objeto de exploração desta confeiçoada ordem colonial capitalista.

PADRE NUNO, XICO NUNO


Dia 9 de julho 2019 – terça-feira, pelas 18h 30m


segunda-feira, junho 17, 2019

UMA MEDIAÇÃO INEVITÁVEL E OPORTUNA


A figura de Mário Nogueira pode não ser consensual. Porém, junto dos professores parece não haver dúvidas. O 13º Congresso da FENPROF confirmou, de modo irrefutável, essa confiança. Nele, certamente, mas sobretudo na sua palavra política e na determinação com que a legitima e a assume. A crença irradiada, pela sua voz, cruza fronteiras sociais e profissionais. Daí, considerar que a sua intervenção representou uma mediação política alargada, claramente inevitável e oportuna.



sábado, junho 08, 2019

A FLAMA DAS MEMÓRIAS, ENTRE O REAL E A FICÇÃO


O segredo discursivo conservador, de parcialidade imoderada, firma-se e afirma-se na sublimidade das memórias. Fazem compêndio deste peculiar e particular património, marcadamente moral, silenciando a verdade do vivido. Calando, e acalcando, a desigual riqueza histórica herdada, sobretudo o agregado espólio de dolorosas e sofridas memórias. Aferra-se, assim, tal cifra em emudecer a voz dos sentimentos dos que mais - e repetidamente - sofrem. Afinal, amargura feita de dores que inspiram, sem destino prévio, um imponderável ímpeto de memórias para além das próprias memórias. Sequelas de singulares e múltiplas vidas, sempre diferentes, marcadas pela absorvente torpeza das desigualdades. Muitas delas imerecidas tramas humanamente indignas. Mais do que os sucedimentos, tais memórias, remanescendo pelo amargo e repisado sentimento, despertam o (re) sentimento. Um armário de dupla face intrinsecamente humano que, criativa e em diálogo, no seu íntimo se nutre e anuncia. Em suma, memórias vivas, e ressentidas, de um tempo passado de jeito algum enterrado.

segunda-feira, junho 03, 2019

ILUSÕES DA VIDA


A palavra poética expande os nossos olhares, agita as nossas compreensões e aviva as nossas reflexões e os nossos pensamentos. A filosofia e a política, de forma natural, nela se inscrevem.


Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu,
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.

Francisco Otaviano (1825-1889)

Retirado DAQUI

sábado, junho 01, 2019

UMA BOA CONVERSA


Gosto de uma boa conversa. De reciprocidades vivas e vantajosas. Escutadas com abertura ao entusiasmo da companhia. Dando vida a experiências próprias. Não de outras e de outros que as calam. Gozando, sim, a autenticidade que se resguarda da não autoria. Fazendo valer a natural fugacidade que, no entanto, deixa marcas. Nesse fundo deleitável onde a alteridade oferta memórias que regressam. Ilusoriamente silenciosa, mas a todo o momento comunicante. Subjetivamente indelével no seu jogo performativo. Afinal, uma conversa que nos acrescenta um quê identitário. Tornando-nos mais completos e, justamente, ainda mais disponíveis. Para a vida, a tal de todos os dias. Com boas conversas.

sexta-feira, maio 24, 2019

O MEU VOTO

Escutei múltiplas das intervenções dos candidatos, diga-se suficientemente bastantes e diversas. João Ferreira merece a minha consideração e, assim, o meu voto. Sério, sempre consistente e coerente. Não se escudou em abstrações e aviltamentos. As suas palavras, sempre explícitas e convincentes, apresentaram e procuraram caracterizar a realidade que, sobre esta intrincada Europa, e em razão disso, importa resenhar. Não fez delas, das palavras, recreio político, nem as usou para desdenhar dos adversários. Falou de problemas, de políticas e questionou, com sentido de oportunidade, os outros candidatos sobre factuais e urgentes soluções. A sua postura, o seu trabalho e a sua voz, serena e crítica, dão-me a mim como cidadão a representatividade que busco nestas eleições. Eis a minha, e apenas pessoal, síntese que a Liberdade me leva a decidir.

quarta-feira, maio 15, 2019

UM SABER QUE NÃO ABRE MÃO DO AFETO


Há coisas que se descobrem quando se sente, quando se existe, de verdade, no afeto do outro. Uma boa sorte, afinal. Uma ventura que se cuida para além do simples estar presente. À partida, sem destino. Segue-se, sim, o resguardo da confiança partilhada. Fazendo relação que a estima anima e o respeito afirma. Por entre palavras e ideias que significam sempre mais. Decantando o desafogo e nutrindo o ser que se vai, desde sempre, sendo. Indagando compreender mais e melhor, ao alumbrar, na andança, escuros que guardam o que não devem. Reconhecendo o valor do diálogo confiável das interioridades. Abraçando no enlace o alcance ontológico do saber humano acerca do humano. Em direção a um sonho justo de imaginar novos e possíveis lugares de estar, com verdade. Mais seguros, genuínos e responsivos. Certamente, mais compreensivos e sociáveis. Zelando pela condição humana e pela sua dignidade. Sem buscas particulares de recompensa narcisística. Apenas transformando a desalmada condição que tolhe a liberdade de sonhar, de descobrir, de criar.

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domingo, maio 05, 2019

OS SILÊNCIOS DA CONSCIÊNCIA


A consciência apela e inquieta. Não por palavras, mas pelo seu murmúrio. O silêncio é uma sua expressão. A cumplicidade destina-lhes a corrente. Movendo juntos a condição moral do acerto. Com ela alcançando uma voz, a dita voz da consciência. Porventura, mais sagaz na possibilidade da sua autenticidade. Uma voz que nos acompanhe na busca da liberdade rendida. De respirar para além da impessoalidade do submerso. Sem culpas a não ser as nossas. As que, de verdade, nos angustiam. E se adentram no nosso ser mais próprio. De um modo autêntico na radical possibilidade de existir. Culpando-nos, então, e aí sim, do que não se fez (ou se fez) enquanto seres-livres. Restam-nos, isto posto, o reconhecimento das desoladoras letargias. Desejando e querendo ter uma emendada consciência. A que nos responsabilize pelo nosso próprio ser. Vivendo, sendo mais autênticos nas nossas escolhas. Morais e não só.

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terça-feira, abril 09, 2019

DE FATO E GRAVATA, ELE PRÓPRIO


Há gente atrofiada, reprimida e mutilada que insiste, em recurso próprio, mostrar-se social e moralmente com excelência e sobriedade. Tudo certo, pois a sua moral tem por função apenas convencer, e com isso, lograr descanso na ilusão. Dirigem-se proporcionados aos que importa iludir, mas opostamente não se apaziguam perante a exigência ontológica da dignidade. Eis a clandestina disfunção. Ou seja, o desejo de convencer o outro fazendo-se depender de valores que, em suma e sobretudo, interpelam a sua própria vontade. Esclarecendo não o que a vontade verdadeiramente quer, mas aquilo que quer essa sua circunstancial, quiçá, utilitária conveniência. Assim vai essa gente – confraria de pequenas e mesquinhas personagens – se negando, julgando atingir a desejada afirmação atormentada. Todavia, ficam-se pela aparência, provavelmente certos, não do mérito da fantasia, mas do crédito que um putrefato meio burguês, tido por natural, lhes reconhece.

O fato e a gravata, assim como a panóplia de simbologias similares, ajudam. Mas, conselho meu, se bem perfumados, tanto melhor. Tornar-se-ão, seguramente, mais convencidos e, vamos lá saber, mais convincentes. A fragrância acorre, deste jeito, com o ganho útil de aromatizar o ambiente.

quinta-feira, abril 04, 2019

REFORMAS ESTRUTURAIS, DO DISSENSO AO INSUCESSO SOCIAL


Cruzar-me com doutos economistas a discorrer sobre política, o meu juízo intempestivo convida-me a servir de um simples cálculo em discordância com a cultura do tempo. Como? Sopesando o número de vezes, que da instruída voz, o clamor dos mercados se sobreleva ao iniludível exercício do político. Ou melhor, quantas vezes essa voz, entoando e consagrando o culto de uns poucos, se esforça, e se esfola, por tornar mudo o interesse de todos.

Ouvi-los proclamar por reformas estruturais é como escutar um infundado presságio convertido numa repisada e venerada superstição, à qual a persistência mediática empresta um carácter vizinho do sagrado. Assim sendo, em rutura com tais ascéticas crendices, hoje elevadas ao descaramento neoliberal, importa muita firmeza ideológica (e atenção política) na disputa desse turvado e tinhoso jogo de luz e sombra [1].

Compreender a vida, para nela poder viver agindo e nela poder causar os efeitos ambicionados, só na base de um consenso acrescido, e esclarecido, é possível obter esse poder. O poder de pôr em prática o avesso, ou seja, reformas estruturais insubmissas a essa fóbica fórmula mágica, apadrinhada pelo capital e nutrida pelo acasalamento da cumplicidade política com a sovinice manhosa dos mercados. Agindo, assim, não pela enfraquecida e costumeira reação, mas pela nobreza da decidida afirmação da dignidade da condição humana.


[1] Edição de março 2019, em Reformas estruturais de esquerda, expressão usada, e bem, por Nuno Serra no Le Monde Diplomatique.

quarta-feira, março 27, 2019

FALAR MANSO? PARA QUÊ E PARA QUEM?


Será que vale a pena apreçar a tartufice de ardilosos poderes quando amiúdo repetem a kantiana premissa de que a pessoa humana não tem preço, tem sim dignidade? Pessoalmente, há muito que tais cócegas, vindo de quem vêm, viraram repugnância. Não pela certeza que a premissa alberga, mas pelo vampiresco uso que esses ilustres safardanas põem em cena. Seráficos e entufados doutrinam sobre o humano, e sobre a sociedade, cismando afinal num talhado agregado que lhes obedeça e proteja. Deste jeito, escorando a combinação em familiarizadas desigualdades, de vários matizes e cores, cujo limite, sabe-se, é o trágico desfiladeiro da exclusão. Daqueles que não contam, que estão a mais, pesos mortos sem lugar. Daqueles que somente chateiam e complicam o jogo da exploração, desapossados que estão já da rendosa condição de mercadoria. Subsistam, rastreiam eles, apenas as presas que ainda dão jeito aos predadores que de tal ordem gozam o bom viver. Em suma, dessa ordem que assim cuida, e bem, da marcha civilizacional do rentável, das desigualdades e das exclusões. Caminhada, afinal, que se aperfeiçoa sobre os escombros de múltiplas crises, desdenhando sem pudor do sofrimento que delas deslaçam. Falar manso, para quê e para quem?

domingo, março 24, 2019

UMA VERGONHOSA HIPOCRISIA!

Ler aqui texto completo (de António Nabarrete), tesoureiro do SPGL e membro eleito do CGS (Conselho Geral e Supervisão) da ADSE. Seguem-se alguns dos seus fragmentos politicamente elucidativos …

….

… o que é estranho não é o financiamento pela ADSE das entidades privadas, per capita, de 419 euros em 2016, já que nesse ano totalizava 1.222.809 beneficiários. O que é politicamente irresponsável, economicamente desastroso e financeiramente vergonhoso é, nesse mesmo ano, para o qual se dispõe de dados consolidados, o Serviço Nacional de Saúde ter financiado as entidades privadas, per capita, em 494 euros, já que em 2016 viviam em Portugal 10.325.500 pessoas e todas elas tinham o direito constitucional de aceder ao SNS”.

Chega a ser constrangedor ler e ouvir as barbaridades que alguns desses responsáveis trazem à colação (a maior parte deles sentados agora à mesa dos prestadores privados de saúde) como aquela de que o problema do SNS resulta da “desnatação” que lhe é feita pela ADSE. Não lhes passa pela cabeça que, no estado de fragilidade em que se encontra o SNS, o fim da ADSE levaria ao colapso daquele praticamente de imediato. Mas, talvez seja isso mesmo que pretendam. Já que, dos mais de 1,2 milhões dos actuais beneficiários da ADSE, provavelmente conseguiriam “conquistar” os 200.000 com melhores salários e pensões para as seguradoras privadas”.

Por outro lado, e isto mostra as contradições que se cruzam ao sabor dos mais variados interesses, a ADSE é usada pelo Governo para baixar o défice público, impedindo que esta utilize parte dos saldos positivos que acumulou para se modernizar, tendo em vista o seu combate à fraude e à sobrefaturação. Em sentido oposto, o Governo nada faz para implementar as medidas que inscreve nos decretos-Lei de execução orçamental, que permitiriam à ADSE pôr em prática as novas tabelas de preços, entre outras medidas essenciais à sua saúde financeira. Isto, apesar da ADSE ser financiada praticamente a 100% pelos seus beneficiários titulares”.

terça-feira, março 19, 2019

AS FISIONOMIAS DA PALAVRA


Com a palavra sabe-se como fazer. Com a palavra comunica-se com o outro. Com a palavra critica-se, e faz-se dela uma ferramenta de poder. Nesta caminhada vai-se pisando chãos diversos e, certamente, mudados. Na presença do outro despontam prescrições sociais. As palavras tornam-se aí diversas anunciando a sequela da justura. Atentando-se, ainda, aos lugares e às suas circunstâncias. Porém, na crítica, a palavra desafia. Naturalmente o outro, mas acima de tudo enfrenta o próprio. Na sua identidade e emancipação. Quem sabe, sadiamente malandrando pela incúria das frestas oferecidas pela arenga reinante. Especialmente por aquelas atravessadiças à luz que se busca.

quarta-feira, março 13, 2019

A LONGEVIDADE, UM DESAFIO QUE A TODOS OBRIGA

O envelhecimento e os avanços da longevidade, embora positivos, constituem fenómenos correlacionados que arrastam consigo preocupantes e significantes desafios humanos, sociais, culturais e políticos. A questão demográfica a eles associada, agravada pelo declínio das taxas de natalidade, concede-lhes uma abrangência e importância que a toda a sociedade diz respeito. Compreender esta realidade hoje requer um olhar que oriente o futuro, dando assim respostas adequadas e coesivas à premência dos impasses do presente. Daí, o despontar de um peso político acrescido que deve ser considerado e estruturado, preconizando-se o envelhecer como um continuum ao longo de todo o ciclo vital. A longevidade é, assim, um tempo de todos, o inevitável amanhã do natural envelhecimento.

quinta-feira, fevereiro 28, 2019

NINGUÉM SE ERGUE SEM TOMBAR

                              

Não há ouvido independente. É certo. Todavia, o imbróglio é ter-se um ouvido improvável. Na pretensão da escuta que admite tornar inteligível compreensões absurdas em si mesmas. Melhor dizendo, fazer de uma arenga cabalística algo de aceitável que avilta o outro na sua inteligência e dignidade. Mesmo sabendo que há quem viva, e consiga viver, abraçado à cabala. Mas aí, o visível caricato cumpre o seu papel. Nutre, sem querer, a confiança na suspeição. E assim, a hermenêutica respira e, de modo natural, pode consertar-se. A bem da inteligência maltratada e da dignidade atingida. Mais claro ainda, a bem da verdade que resiste aos descaminhos de mórbidos e sombrios artifícios.


domingo, fevereiro 17, 2019

A CIÊNCIA E O AMOR


Carlos Fiolhais, um homem da Ciência, deu uma entrevista ao Expresso. O sublinhado, em jeito de título, não deixa de ser mordente - Se perguntar o que é o amor, a ciência não saberá responder. Se a ciência não sabe, não pode explicar. Logo, não se aventura em respostas. Mas quantos de nós, falamos de amor porque o sentimento nos consente faze-lo? Quantos de nós, na dúvida ou ausência desse sentimento, damos voz a convicções? Mas, donde despontam as crenças que seguram tais convicções? Qual a natureza e a incumbência, sobretudo histórico-culturais, de tais créditos? Duas asserções de Fiolhais me tranquilizam e, simultaneamente, me desafiam. A primeira, a que antecede o precedente sublinhado - A vida é um dom maravilhoso, e está cheia de aspetos não científicos - e uma outra seguinte que me acalma - O cientista não lida com a categoria de Deus. Em jeito de remate, construo então uma insofrida convicção; o amor não será determinável pela Ciência nem, tão-pouco, em concubinato com um qualquer deus. Assim sendo, resta-nos a liberdade de caminhar, na descoberta e busca da partilha intima e verdadeiramente humana do amor. Valha-nos ao menos isso. Queiramos e tenhamos firmeza, nós, de ser resolutos nessa pretensão.

sexta-feira, fevereiro 15, 2019

O CUSTO DE ESCREVINHAR

O tempo vai transcorrendo. Não o sinto gasto com o seu avanço, nem cansado com a fadiga do andamento. Daí, a ousadia de ainda prezar genuínas vontades. Resistindo à neurose da acirrante e insistente adaptação. Duvidosa e continuada acomodação à reinante mesmidade. Malgrado a provecta idade, num tempo compósito de ajuste com a vida. Hoje em dia, não entorpecida pelas marcas revoltas e indeléveis desse tempo ido, ainda e sempre vivas. Porém, inscritas num presente em que, animadamente, permanecem atentas e vigilantes. Passadas à história, ainda bem que assim se desvelam. Logo, o revisitar do passado, faz-se movimento, condição atualizada. Compreendendo-o, para compreender as circunstâncias do acontecer. Abraçando, creio, o inseparável desafio do por vir das necessárias e humanas compreensões. Sobretudo, neste intrincado tempo sem tempo onde tudo parece suceder. Todavia sem o apetecível, porventura vital, atrito de valor humano.

quarta-feira, janeiro 16, 2019

CRISTINA, A PANTOMINEIRA DO TELEVISIVO


images (3)Dar forma ao individual, pressupõe o eu e um nós que nos presencie e avive. O impessoal desafia (ou dificulta), amiúde, tal suposição. Igual trato não significa invariavelmente perda. Ele, esse eu, produz-se, isso sim, nessa dificuldade. A indeclinável inscrição no totalitário universo do lifetime value inspira, porém, a idealização ética de um lugar, um nós, onde a singularidade se obriga, e abrigue. Uma busca que, mesmo individual, se faça cultural, logo política. Um apego individuante capaz de hostilidade ao fabricado para ingénuo consumo. A ecologia do sistema, também, e atentamente, passa por rechaçar os morcegos luzentes no espaço cénico desta patética e hodierna gramatização mediática.

terça-feira, janeiro 08, 2019

A VIDA QUE SE CALA NO DESTINO


487px-Portrait_of_Dr._GachetA vida faz-se para além do destino que se amostra. O destino, com permanência, escapa à vontade. À vida estende-se uma outra vontade, a do desejo e da subjetividade. A realidade e o Real estabelecem elos diferentes com a vida, e também com a vontade. A realidade inspira o pragmatismo, um útil que nos contém e, amiúde, reprime. O Real, por sua vez, recorda o desejo que, estranhando o verdadeiro vivenciado, acorda a Verdade que em nós resfolga. Um despertar mudo que se desvela empalecido quanto ao humano conhecimento de si próprio. Quebrado, aqui e ali, pela intensidade da vivência confrontativa com as leis improváveis. O já pensado revela-se, então, não esgotado ante o pensamento sempre insatisfeito. A finitude tem o seu termo na morte. O pensamento inquieto entreluz-se no infinito como porvir. Um destino imaginado no limiar de possíveis e de experiências, acolhendo a diligência do simbolizável. Afinal, preludiando roteiros que marquem, com renovada autenticidade, o nosso tempo e o nosso devir. Dando, sobretudo, presença ética à determinação e busca da Verdade, em defesa da sadia condição humana. Nesse fatal cenário do metabolismo entre a liberdade e o compromisso.

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segunda-feira, janeiro 07, 2019

MELHORES ILUSTRAÇÕES

Aqui vai uma manifestação sincera, ao amigo e à sua criação “Simão sem medo”. Um trabalho sublime, pela calorosa e destemida mensagem, assim inteligentemente repassada…

Distinção feita em ANTOLOGIA DO ESQUECIMENTO e daí retirada.

bagulhoEduardo Galeano, “As Palavras Andantes”, trad. Helena Pitta, gravuras de J. Borges, Antígona, Junho de 2018 e Miguel Granja, “Simão sem medo”, ilustrações de Beatriz Bagulho, Douda Correria, Outubro de 2018.

Escreve-se; “Seria injusto esquecer as gravuras de J. Borges, das quais tivemos conhecimento através deste livro de Eduardo Galeano. Mas mais injusto seria não dirigir a nossa atenção para as ilustrações de Beatriz Bagulho. O n.º 3 da colecção Puto Xarila é um mimo a pensar na juventude, mas perfeitamente acessível a gente mais crescida. Uma delícia”.

domingo, dezembro 30, 2018

UM TIPO MAIS QUE PROVÁVEL


pintura-em-tela-abstrata-pinturaO tipo mais que provável normalmente é perspicaz, sobretudo matreiro. Tudo o que diz tem significado, mostra-se claro e, como é normal, veicula sentido naquilo que diz. Os porquês são compreensíveis e o arrazoado revela inegável discernimento. Assim, o tal tipo mais que provável ao acreditar que aqueloutro, o outro a persuadir, acredita, e ante a verossímil aceitação, supõe-se já bem perto da proeza. Logo, sente-se aí mais confiante, seguro do tempero usado no urdido simulacro da sua calada razão. Se a sua fé porventura balança, a argumentação estende-se então pelo interior tortuoso da cooperante desculpa. Ante um qualquer revés lógico, ou desacauteladas imperfeições, as justificativas saltam, de imediato, em jeito de primeiros socorros. A realidade da artimanha não podendo revelar-se, as justificações do tipo mais que provável, nestas circunstâncias, cumprem o seu ofício. Apressadamente elas, tais justificações, se precipitam e se prestam, como é óbvio, às urgentes e imediatas assistências. Se o cenário, por acaso, se enlaça e toca os limites da dificuldade, o tipo mais que provável mesmo assim não abdica das suas intenções. Entra na decisiva e sintomática fase da emergência do pretexto, na parte aguerrida da subtil evasiva que o subterfúgio sempre acolhe. Abriga, então, e teimosamente, a sua farsa passando da aclaração à bruma da altercação. Mais do que repisar o que havia dito, ao tipo mais que provável convém-lhe agora desviar o foco. Por outras palavras, interessa-se menos pela conformidade da sua narrativa e mais por dispersar e contraditar as apreciações do outro. Não obstante, o tipo mais que provável desfruta de uma qualidade particular que aprecio; não morde pela calada, característica seráfica dos fracos normalmente sonsos e silenciosos e, pior do que tal, inconfiáveis.

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quinta-feira, dezembro 27, 2018

SAÍDAS SEM SAÍDA


labirintoO tempo civilizacional, cada vez mais eivado pela impostura económica, é um tempo de intensa oscilação quanto às coordenadas humanas do bem-estar. A sedução brilha ao ponto de se multiplicar, ela própria, como indispensabilidade. A palavra e a imagem, neste exercício de desdobramento, cumprem por função o múnus de imanizar e persuadir. Identicamente, a somada pretensão de se estender à vindicação do ganho. A expressão ampliada do utilizável, quiçá torcida, enfim, é o que conta e significa. A suficiência da sua linguagem performativa encurta-se ao ato de prometer saídas, pretextando necessidades. A efemeridade do transitório, sempre urgente, insinua-se chave. Do espúrio desejo irrompem muitos outros sem fim à vista. A contaminação refina e ornamenta o horizonte do artifício, na sua verdade firmada ao ato de prometer. Mais do que as pessoas, interessa o desvelo no ordenamento do carrilar, orientando o sonho ao retorno da saída que se segue. Exibe-se o referente, invariavelmente performativo, ocultando o sentido do seu enunciado. Com toda a certeza, livrando-se do sagaz, mas incerto comprometimento. Os conteúdos das promessas sucedem-se, assim, na sua própria e natural dissolução. Delas próprias, e com elas, maculando a dignidade humana. Acredite-se, ou não, na aleivosia das promessas, afinal, muitas delas profetizando esperanças sem saída.

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quarta-feira, dezembro 19, 2018

UM ALARGADO ABRAÇO NATALÍCIO


10840(1)Estar em família, privar com amigos, coisa bem diferente ou nem por isso? A família é sempre família mesmo quando o deixa de ser. Os amigos são sempre amigos por que, deixando de o ser, deixam de ser amigos. Não existe uma perfeita fronteira a separar família e amigos ainda que a axiomática biologia revele a diferença das suas raízes. No entanto, e surpreendentemente, o comum que resiste à diferença, e ao tempo, arrasta empatias e aproximações que embaraçam sentimentos. Com os anos, não sendo outros, não somos os mesmos. Na vida muito acontece, um tanto se vai desgastando e, por vezes, os abalos despontam. Voltas e reviravoltas fazem-se, então, história de situações e de estímulos que desconcertam. A qualidade das relações e das identificações naturalmente movem-se. Decerto, no sentido homológico e sadio da complementaridade. Mudanças nem sempre conscientes, não obstante, certamente avivadas pela compreensão que comunica e pelo afeto que aconchega. Assim sendo, a todos quantos presentificam a minha amizade, um genuíno e grato reconhecimento. Votos de um doce e aprazível Natal para esta minha grande família, onde todos vós, no meu pensamento, comigo consoam.

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quinta-feira, dezembro 13, 2018

O MEIO-TERMO DAS MEIAS-TINTAS


É um desafio diferenciar a disposição que nos determina, do hábito que nos monotoniza. A disposição envolve o vivamente interiorizado. Um quê, vinculado e ético, que verdadeiramente nos toca, feito de uma particular dignidade. Por seu lado, o reflexo e urgente hábito, afeta a exigência do esclarecido poder de estar, aliás, de ser. O elogio do meio-termo, da ideia virtuosa do sequente mediano, não deixa de se fazer fatal critério. Desde sempre cómodo, quando não frouxo e preguiçoso. Em consequência, a inércia da aprontada rotina, assumida e admitida, tolhe o ímpeto da determinação. Não aos excessos, nada de extremos, é o lavrado e prático princípio que, na premência do juízo, se intromete. No despropósito dos excessos e dos extremos, moram imperfeições, adverte-se. Em modo de solfejo magnânimo, e num clima de fosca transparência, logo se treina  uma suposta e despontante razão prática. A moderação projeta-se, deste jeito, no acerto inexato de uma imaginosa proporção acordada. Embora se entoe as notas apreciativas do bom ou do mau, à sorrelfa se exercita, isso sim, a música alinhada do útil. O que remanesce é o entorpecimento do enlace dinâmico da relação que aproxima a disposição do hábito. Como? Mirrando a fecundidade ética da possibilidade dialética que, com efeito, vale e, sobremaneira, conta. Porém, abafado na (des)ordem das meias-tintas.

domingo, novembro 25, 2018

O HORIZONTE DA INTIMIDADE


intimidade_web_25marEm nós, podemos escutar os outros. Logicamente, o contrário também se dá. Aproximando-nos sem imaturos amedrontamentos. Cuidando da confiança e reconhecendo a possibilidade da certeza incondicional. Admitindo, assim, o amparo humano e, seguramente, a familiaridade ética. Deste jeito, conhecendo a partilha que vale, e convindo, se faz conquista. Um procurado passível de uma relação vigorante e, por conseguinte, esclarecedora e edificante. Aprenda-se, então, que a intimidade, condição desse vínculo vital, é algo provavelmente bem humano e valioso. Abertos a essa esperança, acaba-se por construir sociabilidades que significam, pois arrastam consigo, afeição, respeito e enlevo. Convictos de que a intimidade verte um humano vergado que importa desencarcerar, libertar. Dando corpo a uma humanidade que aceite renovadas espessuras e finalidades. A Vida agradece, e certamente Ela, nos saberá retribuir.

Imagem retirada DAQUI

sábado, novembro 24, 2018

IMPACIÊNCIA HISTÓRICA


picasso-poverty-old_beggar_with_boyNeste tempo neoliberal de reconhecida e institucionalizada desigualdade, provavelmente necessária à colonizadora ordem capitalista, apenas as brutais parecem estorvar. As demais, sobremodo naturalizadas, quando não por inteiro incorporadas, tornam-se objeto adotado. Para tal, e como importa, almofadadas de minguado merecimento político. Um fabrico-disfarce que simplifica e enfraquece o valor de busca do comum e da alteridade que o abraça. Desencaminhando olhares, desvitalizando pensamentos e acorrentando comportamentos. Tudo se amolda para encobrir o lado negro desta mórbida modernidade, transfigurando-o numa existência perdida, se possível inteiramente ausente. Ainda assim, neste limiar desalumiado sobrevêm sementes de impaciência capazes de germinar diferentes plantas, novas ecologias. Quem sabe, vicejando destinos históricos diferentes, ao encaminhar-se regas para este chão abandonado. Afinal, campos que, de modo acintoso, o senhorial capitalismo, e seus satélites, teimosamente enjeitam prezar.

Imagem (O velho Mendigo com  o Menino, de Picasso) retirada DAQUI

quinta-feira, novembro 15, 2018

O VAZIO DA REPETIÇÃO, UM AGASALHO À PASMACEIRA


À contumácia irreflexiva de histórias de vida enlutadas resta-lhe, pelo seu afinco, crer no recheado vazio da repetição. Um persistente retorno agasalhado na persuasiva construção de uma abreviada e árida sinopse. De certo, histórias de conformados crentes na dócil promessa de um recomeço com amanhã. Tudo parece mostrar-se aprazente, embora submerso na moderação socializada do pragmático. Incansáveis, deambulando por pitorescos caminhos recalcados. O insólito sussurro basta para resfolegar o alento. E com o tempo, a restauradora rotina, em circense modo de saltimbanco, reverte-se ingrediente. Sem dúvida, incrassada por um sonso entusiasmo expansivo. Haja assunto que enfeitice, supondo-o sustento para a bitola de um acreditar confiado ao interior de um acanhado pensamento. Invariavelmente dependente da mesmidade, das suas ocasiões fantasiosas, da patética diversidade do acidental que a desenha. O vazio ocupa-se, assim, consumindo-se de uma discretíssima, mas animada e demorada existência a meia haste. Apesar da licenciosidade, afinal de contas, o imoderado sinal de luto justifica-se.

sexta-feira, novembro 09, 2018

REVISITAR O PASSADO

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Revisitar o passado é ir ao encontro do acontecido. Revivescendo-o no tempo. Um percurso regressivo sempre singular. Que alumbra e completa o presente e, ao mesmo tempo, espraia limpidez no horizonte. Afinal, um passado que hoje resfolga, ainda que embaraçoso.

Ao contrário daquele outro, abandonado e esquecido na amiudada crueza de enquistadas memórias. Empobrecidas na sua história, e na sua verdade. Caprichosas reminiscências que parasitam silêncios ignorados. Ou, simplesmente, incompreensões de uma sombra, de um vulto. De um vulto com rosto, embora inquieto, insensível à vitalidade do coração do desassossego.

segunda-feira, novembro 05, 2018

SIMPÁTICAS? TALVEZ, MAS OCIOSAS INCRIMINAÇÕES

A acusação inútil, ou ociosa incriminação, é aquela que, fingindo opor-se, serve a regência de um poder que, habilmente, encena o sujeitado silêncio das causas que, bem vivas, gritam no âmago do desrespeito ou do abuso.

terça-feira, outubro 30, 2018

NO FUTEBOL, UMA SIMBIOSE DESTRUTIVA


synthetic_grass_for_soccerTodos nós somos diferentes na nossa complexidade, histórias de vida e funduras biológicas. Deste compósito soltam-se as raízes etiológicas dos nossos comportamentos. Os da nossa fragilidade, também. Muitos dados, nos diversos patamares de busca e entendimento, estão catalogados. Aqui, de um modo por demais conciso e modesto, interessa-me considerar apenas o meio e a sua influência. Sobretudo, genericamente relevando as suas dimensões educativas e emocionais. As primeiras, pela sua frivolidade e insensatez. E as outras, as emocionais, que fluindo do enodoar das anteriores, se constituem em uma estirpe de razão. E de tal modo, que em forma de mediação socialmente extensiva, procriam uma toxicomania constitutiva da sua atual cultura. Diga-se, paradoxalmente euforizante e sedativa. Não falo do futebol, mas de um simulacro da cultura que o assiste. Uma cultura, sobretudo mercantil, que acolhe e abriga profusos venenos provenientes de um catabolismo mediático parasitário, que dele, do futebol, simulando servir, afinal, dele vai beneficiando. Por mim, como não sou capaz de mudar o meio, vou-me mudando de meio. Num experimento de regressão terapêutica, livrando-me de objetos nocivos e, nesse decurso, procurando soterrar, a pouco e pouco, os resíduos das minhas tristes e pessoais lembranças.

Imagem retirada DAQUI

sábado, outubro 27, 2018

LUTAS SEM ALVO, INAPTAS DEFESAS


Mora em nós, um impreciso caos aclimatado por um doloroso entendimento, sobretudo, quando conformados com a inabilidade da sua mestria. Porém, quando esse entendimento se revela indiscreto ou impertinente, e o desconforto se advinha, engenhosamente dele escapamos, ou achamos fazê-lo. Nesse momento intrigante, o vivido aí marcado pelo genuíno sentir, embora amalgamado no lastro da experiência e da fantasia, apresenta-se, e anuncia-se, incómodo e inquietante. De tal jeito que a importuna agitação, nessa inimizada circunstância, se revela, e rebela, de igual modo, provocante e angustiante. Aculeada, esse despertar nos faz perceber, furtivamente, a embaraçosa verdade de uma liberdade refreada pela mordaça da iniquidade. Da malvadeza desse despótico costume doutrinário que nos afaz na presunção de nos fazer. Tornar ao passado, levantar o véu do supostamente esquecido, não é retroceder. Se o for, tomemo-lo como uma regressão necessária à busca de recomeços e de novas e imagináveis progressões. Oxigenando, com humana ousadia, o sangue que circula nas artérias do nosso pensar e do nosso agir, de modo a iluminar as ocultações que se abrigam na sombra e se disfarçam nos desvios dos nossos caminhares. Ao rememorar deste jeito o passado, novas geometrias éticas se alcançam, recuperando-se certamente um presente mais instruído, capaz de diferentes paisagens pessoais e humanas, mais livres e envolventes. Assim como, creio certo, socialmente mais autênticas e tolerantes.