terça-feira, novembro 23, 2021

A INVERDADE, UMA CIRCUNSTÂNCIA DA MENTIRA

Por muito que a ideia cause incómodo diria que a falsidade, a todo o momento, futura o rumo da verdade. Esse tal destino de horizonte largo onde a mentira se arquiteta, e sobretudo se recria. Hábil ou não, sempre intemporal enquanto negação e deturpação. Negação na sua dialética e assonante na deturpação da sua representação. Hospedado o capcioso senso, a partir daí assedia-se a simulada valia da significação ilusória. Desviando-se da razão precisa, a mentira tudo ajeita para virar o aspeto à “coisa”, ou até, e sem dó, em definitivo a sepultar no fossário das ausências. O apego ao rigor seguramente se perde e o acesso à natureza absoluta da inverdade revela-se. Isto posto, pergunta-se; por que não principiar pela mentira, pela tortuosidade do seu roteiro e pelo que ela cala ou busca falsear? Caminhar para a verdade pressupõe procurá-la, mesmo na mentira, nesse outro lado do biombo onde a emancipação humana entorpece e a liberdade se desfigura. Adormecidos? Quem sabe. Mas certa e massivamente entretidos ouvindo - e trauteando - a cançoneta capitalista de nota única[1].


[1] Expressão de José Barata Moura (Filosofia Em O Capital, pág. 224)

terça-feira, novembro 02, 2021

VAMOS A ELEIÇÕES

Não poucas vezes a mentira piedosa alicia a razoabilidade que prenuncia o que se espera escutar. A ideia açodada pelo amparo e segurança antepõe-se à alternativa do que possa estorvar. Assim, o precioso imprevisto deste continuum jeito, a cada instante refeito, torna-se então objeto inescusável do ofício da ilusão e da mestria do sôfrego exercício. Reclinando ou desnaturando os factos, habilmente se ilude o que é … em coisa diferente. Na circunstância, o sem-fim político desta ajeitada fabulação, bem arrumada por calados e membrudos poderes, depressa afina coligados interesses e vitais agilidades. Do dolo e finório gesto grupal, acolchoado de cínica moralidade, cria-se o traçado da agitação aproveitando então a apetecida onda despontada. Com ardileza, e aptas práticas ábditas, arrumam-se as gentes e dá-se aos movimentos acerto e conveniência. Em liberdade, diz-se. Por coincidência, arrolada esta ao relento da entrópica ficção que, aligeirada, abre mão da urgente verdade. E a culpa, como sempre, aos mesmos pertence. Os açuladores simulam-se mártires, os padecentes obstúpidos tão somente votam e, ao sabor da contingência política, a empatia do vicioso círculo, destarte, vai sustentando a exotérica rotina do esquema. As eleições aproximam-se e o método ressoa. Com papas e bolos assim se vão fazendo as cráticas mentiras que, liberalmente, aos tolos são servidas.

sexta-feira, outubro 08, 2021

ENTRE A COISA E A PALAVRA

Entreouve-se um silêncio de dentro, um silêncio que desperta as humanas imperfeição e insuficiência. Decerto, uma incompletude atenta que sempre se encaminha por entre sombras sem brilho. A todo o momento desafiada pela inevitável e infinda busca de unicidade e transparência. Busca que se oferece ao mundo habitando a experiência dura da singularidade. Opondo-se ao comum do evidente, persegue então corrigidos alcances para além dele. Dando às palavras sentidos mudados e verdades reparadas. Metaforizando-as, supondo horizontes, percursos e lugares. Em suma, juntando ao banal a dimensão do que, sendo único, se percebe a cada instante diferente. Entre a coisa e a palavra, intuições se percecionam, imagens se esboçam e verdades se garantem. Com autenticidade. Ou, porventura, sem ela.

quarta-feira, setembro 22, 2021

GRATA LIBERDADE

O tempo passa. Por vezes depressa demais. Afinal, sem tempo para se apreender a superior sublimidade da experiência. Da experiência humana da íntima liberdade. No tempo impaciente do passado, caminhos calcados e sofridos foram andados. Quantas vezes só, sufocado por culpas de ocultas e teimosas razões. Em afinidade com os ressoados ecos de uma frágil consciência. Sempre conformes, saturados pelo crescente enfado do rito e da regra. Repetições. Sombras e silhuetas justificantes que afinal se revelam. Adormecendo a dúvida inevitável que a trivialidade no seu colo embala. Recalcados gestos advindos da quietação embalada por acomodadas coreografias e deificadas crenças. Ambas abraçadas na dança arrastada de indolentes movimentos. Recatado, e pelas margens andejando, interpela-se a liberdade. Aquela que compromete, que desafia e que connosco priva. E que em segredo sussurra…

Sê mais igual a ti próprio. Caminha, sem medos de novos caminhos. Descobre o que vais encontrando. Não receies o espanto. Deixa-te interrogar. Reavive e muda. Não receies ser sujeito. Se possível, todos os dias mais sujeito.

Grata Liberdade!

sábado, setembro 18, 2021

OPINIÕES

À opinião marcada pela incerteza, sitiada esta entre o acerto da ciência e a titubeação do desconhecimento, reconhece-se em geral o dever de consideração, logo, o crédito ao direito fundado e democrático da sua expressão. O dito que expressa acertada interrogação, lógica afirmação, ou sustentada recusa, e que expõe, propõe ou adita algo, concorrerá naturalmente para a aclaração e transparência da pretendida compreensão. Sendo este, talvez, o dizer e o propósito do ofício adversativo das heterodoxias, quiçá necessárias e proveitosas a reciclagens profícuas de ortodoxias envelhecidas, venham elas, então, as opiniões. Nada mais. Apenas um simples e puro desabafo nestes tempos em que a falsa opinião alheia se faz invasiva da condição de se pensar livremente.

terça-feira, julho 06, 2021

OBRIGADO, ROGÉRIO

Jovialidade, sublinhada pela alegria, simpatia e um singular e saudável humor. Uma incomum persistência que, ao longo do tempo, habitou o seu carácter, disponibilidade e presença. Mas não só. Igualmente, a sua superior inteligência, o seu saber incisivo e a sua maneira própria de significar, e com outros trabalhar, a causa solidária. O Rogério deixou-nos o exemplo sem querer, de modo algum, ser exemplar. Serviu, sim, um espelho de vida, de amizade e de ousadia. Em suma, um homem imenso, invulgarmente humano e admiravelmente interessante. Obrigado, Rogério.

sábado, maio 29, 2021

A VERDADE DE UMA VERDADE

Vagueia-se, não ausente, no encalço de uma verdade que, em definitivo, não se encontra. Uma verdade sem critério de universalidade, nem afinidades com a ciência. Uma verdade outra que, afinal, se vai criando ao longo da vida e do conhecimento que ela nos oferece. Uma verdade que cedo recusa a insuficiência de uma existência mimética, porventura acorrentada. Sem receios do vazio e de estar só, livremente só. Nesse lugar de liberdade, possibilidade e criação com os que procuram, afinal, a felicidade de todos e de cada um. Como diria Jung, estar só só é solidão quando nos sentimos incapazes de comunicar as coisas que nos parecem importantes, ou por defendermos pontos de vista que outros consideram inadmissíveis. Assim sendo, fala-se então de uma verdade outra que exige coragem, e um insistente e persistente humanismo crítico[1]. Ou seja, um modo de estar na busca dura dessa verdade.


[1] Ideia suscitada pela leitura do prólogo do livro de Manuel Frias Martins, A Espiritualidade Clandestina de José Saramago.

terça-feira, maio 25, 2021

A LEI E O PARDO DAS SUAS CINZAS


A lei compromete-se a encaminhar. Exaltada, escuda-se na ordem. Entre o traço do rumo e a deriva acomodada desponta o lusco-fusco do cinzento. Habilmente escuro, e obscuro. Um sujo matizado e amoldado à mutante e obscena violência de ideias últimas, impacientes e, pelos vistos, de sentidos elevados. Num ardiloso e sarcástico movimento, o uso da lei contorna assim a ordem e assume-se vício de imposição, pronto e insistente. Porventura, pragmático, simples e cómodo, mas sempre conveniente. Lugar propício à falsidade e à verdade que assim se arrumam numa desfigurada e adversa generalidade. Ou melhor, numa circularidade que vive, e resiste, mediante o desgaste criador, e crítico, da alma e do juízo humano. Demudando valores e desfigurando ideais. Sem apurados rodeios, prescrevo então; viva-se sem valores nem ideais pastando erva e ruminando desgraças[1]. Pascente-se, destarte, e alegremente, neste de campo recamado de frutífera e rotineira forragem.



[1] Matos, António Coimbra (2017). Nova Relação (pg. 30). CLIMEPSI EDITORAS.

domingo, maio 16, 2021

O ENTORPECIMENTO DA RAZÃO

Repetidamente, a urgência em explicar desleixa a exigência de compreender. Porém, a explicação não advém, sem mais, da compreensão, mas desta não se desobriga. Envolvem-se mútua, e certamente, quando, com paciência, a determinação se resguarda do consolo fácil, quiçá útil, da simplificação. Escutar, com distância, muitas das vozes ao serviço do mundo do futebol, faz-se uma experiência superior. Logo se adentra numa ardorosa e ostensiva várzea que desvincula, de modo interesseiro, a emoção do pensamento. Aí se excedem, pois então, pressupostos e preconceitos que enfraquecem a razão, banalizam o desvio e incapacitam a sensibilidade. Culpar apenas os adeptos é cobardia, é situar a causa distante da causalidade e esta retirada da sua prevalência. As sintomatologias da modernidade movimentam-se, além do mais, no fenómeno do futebol. As suas raízes, no presente, tornaram-se bem mais abrangentes, entranhadas e obscuras.

quarta-feira, abril 28, 2021

OS TÚMULOS DA VIDA


Estou velho, persiste-me apenas futuro. Sinto-me, em absoluto, impaciente com os rituais e, em verdade, morto com os protocolos. Abraço o que me dá vida, o que me traz a energia da dúvida e me sussurra a clareza do relativo. A palavra de ontem do “eu ideal” foi-se. Hoje, procuro uma verdade mais simples, mais nítida, a do “ideal do eu”. Sonho, realidade, ou mera obra do pensamento? Não sei. Certamente de tudo um pouco, ou mesmo nada disso. Unicamente pressinto a química que me projeta para além da sobrevivência. Abrindo-me à impermanência dos tempos, dos seus movimentos e das suas realidades. Definitivamente sem túmulos, os convencionais de ontem e os antecipados de hoje.

sexta-feira, abril 02, 2021

O FOSSO DA INDIGÊNCIA E AS SUAS PROFUNDIDADES


Seria superior alcançar a ideia de injustiça como prévia à idealização da justiça, ou seja, esta como confirmação daquela. Ao tempo, a justiça revelou-se como redarguição da injustiça, logo, um conceito oposto e deste derivado. Sem rodeios, afrontando a negação da vontade, da liberdade e da dignidade do outro. A injustiça fez-se, nesse tempo filosófico, a condição da justiça. Por sua vez, a justiça deste modo justificada e legitimada, torna-se argumento de direito. Do direito natural, moral, ao histórico e crescente direito jurídico. Neste criativo movimento, diz-se, busca-se ouvir e honrar a consciência moral mediante a instituição do acordo social e cominativo. Surge assim o Estado e o seu poder obrigante. Despontam os cânones que regulam, moderam e organizam a vida. Vagarosamente, a moral vai perdendo o seu impulso e o credo da convenção, captando o seu império. A justiça ganha autonomia, e no seu dinamismo arquiteta uma vontade racional própria. A injustiça, de causa passa a ser efeito, finalidade, motivo. A justiça, perde as suas raízes, e sem elas, passo a passo deturpa a relação entre a promessa e o contrato. Inverte a sua lógica e a sua correspondência original. Dissipa-se nos impetuosos egoísmos dos interesses e nas astúcias discursivas e politiqueiras dos poderes. As obscenas e crescentes desigualdades do tempo recente são a prova irrebatível desta inversão (ou mesmo regressão) civilizacional. A ambição da Igualdade vai-se perdendo nas sombras das suas palavras, das palavras reiterados do seu louvor.

segunda-feira, março 29, 2021

O IMEDIATO, O MEDIATO E UMA PERCEÇÃO

José Gil, no seu livro O Tempo Indomado, alega que a subjetividade digital implica novas perceções do espaço, do tempo e do corpo. Eis um enunciado labiríntico e desafiante, não só na superfície lisa e impaciente das ideias como, e aqui sim, nas presumíveis e caladas decorrências da deduzida, e consequente, virtualização em todos os domínios da experiência[1]. Sintetizando o tema de A crise da subjetividade, num arrumo meu, resumido, referencio alguns dos subtemas aludidos, predizendo, e assim anunciando, uma multiplicidade de relações indeterminadas, tais como, a experiência do tempo num tempo virtual, o encapsular do tempo e a absorção da realidade, a experiência do corpo, os processos de subjetivação, a manipulação das linguagens informatizadas, seus códigos e algoritmos, a desterritorialização dos referentes tradicionais e sua virtualização, entre outros possíveis.

Desta súmula prenunciadora, o essencial que daqui pretendo destacar, e ressair, é a questão central da subjetividade enquanto processo pelo qual o indivíduo traceja e organiza a sua singularidade e a torna elemento constitutivo do seu ser, indissociável do contexto, da historicidade, das significações e dos sentidos aí originados. Se assim for, será no âmbito consequente de uma complexificação progressiva de relações que, naturalmente, se vai incorporando e aprimorando (pela positiva ou não), uma construtura de mediações que posiciona o particular nesse inerente e permanente diálogo entre o singular e o universal, quiçá subjetivo. Daí, certamente, desponta a importância da qualidade e da materialidade (humana e social) dos vínculos que se estabelecem com a vida e com o mundo, relevando a sua hierarquização e subordinação, de modo que a “consciência sobre si” se faça útil, moral e exigente. Todavia, a caotização geral de que José Gil refere, as brechas que abre e espalha, e que certos interesses e poderes aproveitam, e impõem, será ou não, interrogo-me então, fruto/produto de uma crise da subjetividade inscrita, e acasalada, já hoje, no silêncio dessa alegada crise generalizada da vida social e individual?


[1] Págs.101 a 104.

sábado, fevereiro 20, 2021

UM RENASCER DO PURGATÓRIO?


A memória procura lembrar, a história construir. Tornando presente o passado, possibilita-se futuro. A sua herança dispõe saber. Entre um e o outro tempo, fica o tempo de um imaginário, sempre mudável. Um todo, afinal, onde o passo faz caminho, e o caminho, obra. Obra coberta de imagens. Visuais, mentais, oníricas e simbólicas. Bem como modos de representar, de pensar, de sentir e de agir. Que se disputam, seguramente. Mas capazes de partilhar e se alongarem em um tempo de curso coletivo. Um tempo histórico, com verdade, não anacrónico, fora do tempo. Diversamente, um tempo feito de juízos e sensibilidades do tempo presente. Sem evasivas ou inventos de lugares consoladores entre o paraíso e o inferno. O consenso, estou certo, realizará o seu caminho, o caminho da história, da evolução civilizacional.

sexta-feira, fevereiro 12, 2021

O DESENTENDIMENTO COM A REALIDADE

(Um breve comentário ao excelente texto de João Almeida Santos)

A irresponsabilidade libidinosa da política tabloide e a similar esparrela das redes sociais, eis o que temos. No fundo, um traiçoeiro reforço para a nossa preguiçosa e incauta desatenção seletiva. Aí, a polémica vira ingrediente de estéreis disputas e as opiniões desvirtuam-se na apatia da desconversa acomodada. E assim, absorvido, se vai entranhando na viva e ruinosa monotonia do absentismo crítico, e criativo. Pergunta-se; a quem interessará o alcance crescente deste recreativo impasse?

quinta-feira, janeiro 21, 2021

GENTE BOA, E OUTROS


Há dicotomias que não esgotam a sua amplitude. Adormecem no tempo, propiciam a recorrência e sustentam a ignorância. O humano é um ser de relações e o seu agir habilitado manifesta-se a partir desse complexo relacional. O vicioso conformismo moralista, por sua vez, arredado do devir e do múltiplo, conforta-se no silêncio da ignorância que o serve. Com o seu olhar socialmente imposto, esforça-se assim em desvigorar compreensões e possibilidades. Em desfavor de uma necessidade ética de afirmação do humano e da sua condição. E como tal, das mudanças que as possam constituir. Sem os outros, com toda a certeza, não haverá essa gente boa.

quinta-feira, janeiro 14, 2021

VERDADES ACOBERTADAS

Inquieto e ansioso, no meu divã analítico me sento. Aqui vou procurando esboçar razões sobre os plurais, e presidenciais, verbos em uso. Atinando, ou talvez não, como se esgaravata a palavra, se mimica o esgar e se contamina cabeças. Com mais ou menos pressa, apenas com o fito de se achegar aos vantajosos poderes do Estado. Assim, disponível a inopinadas e cénicas agitações, disponho-me a ser atraído pela imoderação do impressionável. Logo, pronto à compaixão do que me possa sair do tom, apto ao que não me soa bem, propenso, por adição, ao hiato ético do insólito. Acima de tudo, atento à trama comocional dos detalhes e dos iterados factos fora de cenário. Uns, comezinhos e burlescos, outros, ao que parece, impulsivos na suposta e certa hora de agir. Dispondo do “terra a terra” das circunstâncias, mas ambos excludentes, boçais e grotescos. Em prenunciado pirutear mediante a arte discursiva do simplismo binário, rude e grosseiro. Por isso, só empastado neste mundo do subentendido se descobrem verdades acobertadas. Afinal não há desemprego, eis um exemplo. Existem, sim, malandros que não querem trabucar. Muitos destes convertem-se emigrantes, afinal de contas, para vaguear por aí, digressionando. Querem mais? Sentem-se e desfrutem do (e no) vosso divã…

sábado, dezembro 26, 2020

SUGESTÃO PARA IMPACIENTES



Quando te fizerem uma pergunta, antes de responderes, deixa a pergunta respirar…




Imagem retirada DAQUI

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quarta-feira, dezembro 23, 2020










Natal, um tempo, simbólico e denso, de afetos e valores. Um tempo, de subtil química, confiado ao enleio do estreito abraço. De um “nós” que aceita a qualidade do diverso, do sentimento aberto e do renascer das memórias. Um Natal, afinal, que se repete, na verdade, recriando-se. E que assim seja, reverdecendo o intemporal voto de um Feliz Natal.

sexta-feira, dezembro 18, 2020

O MEU VOTO ... ÚTIL



“Se não tratares da política, a política trata de ti”

O voto útil tem, e terá sempre, fundamento na afirmação política e não na (em) conformidade com uma qualquer algoritmia eleitoral. Assim, vale nestas circunstâncias, de mais a mais politicamente engenhadas, lembrar essa verdade primeira, a da razão de ser do voto. A epistemologia dos cálculos não passa de um entretém ideológico, como bem se pôde confirmar na passada “Circulatura do Quadrado[1]. O refrão, aliás, de uma burguesona e persistente saloiice política…


[1] A 16.12.2020.

sábado, dezembro 05, 2020

NA DESPEDIDA DE EDUARDO LOURENÇO

Agradeçamos ao Deus dos vivos e dos mortos; agradeçamos ao Deus fiel a todas as nossas perguntas, sobretudo àquelas para as quais não encontramos reposta; agradeçamos ao Deus que se debruça sobre as nossas procuras, que anota estes nossos passos balbuciantes, este nosso tatear como se na ausência víssemos o invisível; agradeçamos ao Deus das Bem-Aventuranças as palavras que Eduardo Lourenço nos iluminou sorrindo e aquelas para cujo sentido ele nos abriu chorando[1].


Não afirmando a existência de Deus, admito-o em nós, nas perguntas para as quais não temos respostas, nas procuras obstinadas que não nos afadigam, nas incertezas que suscitam a humana teimosia da indagação, nesse bem-querer igualmente humano de abraçar a sua humanidade, manifestamente sempre imperfeita e insuficiente. Acompanhando, sem vaidades e arrogâncias, a simplicidade da limitação e da finitude, desse deus afinal que, pela Razão, em nós nos completa.



[1] Tolentino Mendonça termina assim a sua sublime homilia na despedida de Eduardo Lourenço (ler em https://dasculturas.com/2020/12/04/texto-da-homilia-de-jose-tolentino-de-mendonca-na-despedida-de-eduardo-lourenco/).

sábado, novembro 14, 2020

SEM-VERGONHICE

NOTAS DESLAÇADAS

… os EUA podem ter crédito praticamente infinito, o dólar é a divisa mundial, não há limites à quantia que os Estados Unidos podem pedir e obter crédito[1]. O capitalismo, sobretudo nesta sua particular onda, sem desfaçatez, desvela que um qualquer Estado (em termos genéricos) nada mais pode ser senão uma conspiração dos ricos…


[1] Diz Fareed ZaKaria, em entrevista ao Expresso (13NOV2020)

sexta-feira, novembro 13, 2020

UM DEVER DE SER CIDADÃO, HOJE

Julgar, formar juízos face aos populismos políticos, e áreas circunvizinhas, exige que se apresente, e se dê a conhecer, o registo da simplificação em que tomam assento as suas manhas de linguagem. Importa, do meu ponto de vista, aliás com vivaz propósito o digo, alertar para o superficial quotidiano das representações que se admitem na reflexão sobre a verdade da vida em geral, advertindo que tais simplicidades organizam e modelam discernimentos configuradores de realidades, cortejadores de preguiçosas e conformadas avaliações e/ou comportamentos. Deste modo, convicção minha, é que é neste lugar tacanho em que obviamente se entalham tais ideologias, se amanham perceções, ressecam lógicas e se emperram desenvolvimentos. A ideologia desta emergente e contemporânea direita, que à direita se apresenta como alternativa, abasta-se, pois, nesta semiótica bandeja de abusivas, apressadas e descomplicadas generalizações onde se apronta, e se serve, os seus simplificadores códigos binários, reconheça-se, de produtiva utilidade excludente. Tudo se remexe e encurta, deste modo, ao preto e branco, ao bom e mau, ao insuspeito e ao estranho, em síntese, a um falso e simplista jogo simbólico que não admite uma outra qualquer razão subordinada à reciprocidade e à compreensão dos valores da primazia democrática. O sentido e o significado de cidadania, intrinsecamente ligada - hoje - ao desenvolvimento humano e social, apela assim à consciência de cada um de nós e à nossa própria inteligência. Trata-se de um inalienável direito cuja substancialidade exige o cumprimento persistente desse dever (social e cultural, logo político) de cidadania.

quarta-feira, outubro 07, 2020

O “DILEMA DAS REDES SOCIAIS”, DA CRÍTICA AO FANTASMA DA DESGRAÇA

Um testemunho [1] que retrata, objeta e aclara mudanças, algumas delas desafiantes em face dos seus abalos na nossa vida. Desde o simples e mordaz “like”, na busca pessoal e ingénua de enganosos reconhecimentos, à extensa dimensão traficante de dados como fonte de lucro ou rendimento, assim como a outros silenciados tópicos que aí se ilustram. Julgo que ninguém duvidará que as redes sociais nos oferecem coisas auspiciosas, ímpares e surpreendentes. Todavia, os algoritmos que as confirmam sempre processam informações, encontram soluções, resolvem problemas e causam mudanças. Muitas destas versatilidades parece revelarem-se de intencionalidade danosa. Sim, mas aqui chegados, perguntar-se-á; para onde nos poderá levar esta palpitante arena de mediação? Para uma menoridade humana regressiva ou, pelo contrário, favorecerá a nossa liberdade, aperfeiçoando a nossa inteligência e comunicação? Lembremo-nos que, ao longo dos tempos, bem antes das “redes sociais”, a dependência sempre nos limitou e o negócio nos utilizou, porventura, nem sempre nos servindo. Porém, uma certeza se apresenta; o digital veio para ficar, apensando-se ao mundo real e fazendo deste o seu próprio mundo. Sintetizo, citando João Almeida Santos: “… tal como aconteceu com a televisão, esta revolução será devidamente metabolizada pela História e conhecerá o destino que formos capazes de construir, agora que a cidadania tem meios para o fazer como nunca teve no passado”. Haja, então, saber e coragem de utilizar a inteligência e a liberdade que o exercício da cidadania exige e a nossa humana condição impõe.


[1] Documentário da NETFLIX sobre “O Dilema das Redes Sociais”.

quinta-feira, outubro 01, 2020

MAS, É SEMPRE POSSÍVEL AVANÇAR

A vida surpreende-nos mais do que supomos. A verdade das evidências assim o revela ante a realidade patética dos desencontros. Dos desejos que não se cumprem às esperanças, afinal, infundadas. Habitamos pressupostos que nem sempre questionamos e, sobretudo, pressentindo o temor da inquietação, não temos a coragem de desafiar. Certamente reconhecendo que os pressupostos acompanham, em síntese, a vital efluência da sensorialidade das nossas expectativas. Humano? Sim, desejavelmente humano. Contudo, dramaticamente humano. Na busca infindável de um ajustado (tolerável) paradigma mundano mais saudável.

terça-feira, setembro 29, 2020

A APARIÇÃO DO PALADINO


A jura de um futuro que enlaça o medo, o desconhecido e a imperfeição, pelo interior de um legível retrocesso civilizacional, presentifica-se mediante uma codificação semântica imaginária assente no primarismo emocional. Daí, o empenhamento numa prosa ideológica ao serviço de um redutor, embora eficaz, esquema de busca de volúveis identidades afetivas assentes na credulidade, na ignorância e na conveniência de uma ardilosa autoridade. Chega!

quarta-feira, setembro 16, 2020

POLÍTICA, FUTEBOL E DESDOBRAMENTOS

Política e futebol, ou futebol e política, a miúdo mostram-se enrodilhados no miasma epidémico das significações. De conversões inusitadas, o reducionismo dicotómico presta-se ao semiótico partilhado. Estou onde estou, pois o meu estar nada tem a ver com a política. Muito dessa imundice calculista, em rede com o lixo emocional do adepto, vem enodoando a brisa social da nossa cidadania. Significando, germinando e, lamentavelmente, muitas vezes enraizando. Eis para mim, entre semelhantes, um elementar de tristes e reiteradas arengas.

sábado, setembro 12, 2020

LER, DANDO ALMA AOS LIVROS E VIDA À VIDA


Quando tudo se desmorona, o que resta é a cultura” (Alberto Manguel”)

Acabo de ler a entrevista do bibliófilo Alberto Manguel à A REVISTA DO EXPRESSO. Reforço, sublinhando, as suas mensagens finais. Diz ele:

  • Em França , sempre que jovens vinham visitar a biblioteca, eu dizia-lhes; … “Posso prometer-vos uma coisa: se procurarem durante tempo suficiente, garanto que há pelo menos um livro, uma página, um parágrafo ou uma palavra que foram escritas para vocês, e isso vai iluminar-vos o caminho. Procurem e acabarão por encontrá-lo.
  • Mais à frente, sobre a confiança nas gerações futuras, ele responde … Sim, mas só se a educação que dermos a essas gerações for um espaço aberto à imaginação, um campo de liberdade. Se isso acontecer, talvez deixemos de estar à beira do precipício. Porque é aí que estamos agora. À beira do precipício.

Termina, então, dizendo … Eu sei que estou no último capítulo. Restam-me algumas páginas, mas estou absolutamente satisfeito com as leituras que pude fazer.

Imóvel, apenas o meu olhar ousou recuar, relendo estas últimas das suas palavras. Inconformado, sem dúvida, com as leituras que não fiz, e agastado com o tempo (este tempo) que seguramente vai encolhendo…

quarta-feira, agosto 19, 2020

LABIRINTOS MAIS OU MENOS ARCAICOS

Mesmo que enlaçados, ler e escrever requerem disposições discrepantes. Quanto a mim, é mais imediato, porventura mais mobilizador, cultivar o pensamento através do diálogo com a leitura. Não obstante, a escrita proporciona-me, e vai impondo ao meu pensar, o deleite da disciplina, da coerência e da profundidade. Imposições às quais vai acrescendo a escrupulosa exigência de agradar ao intento de dispor de um pensamento sentido como livre e verdadeiro. Tornando-me, quem sabe, mais transparente, mais sujeito da minha subjetividade, neste tempo abstruso, denso de sucessivas e bastardas incitações. Na verdade, situamo-nos num tempo sombrio, de silenciosa serventia aos aguilhões do exterior, que causando a dispersão do interior humano, imergem o homem no lodaçal primário das entranhas emocionais. Forçado à presença teimosa desta cultura perversa, o sujeito desliga-se de si, dissolve-se e enfraquece-se. Já absorto e distraído, deixa-se então “encaixotar” – é o termo – no recetáculo regrado de uma anestesiante e simplista subjetividade. Ademais, gerando e tramando, através dela, cínicas e novas condições à expansão das vulnerabilidades individuais, tecendo, e é disso que se trata, decorrentes e talhadas conjunções de conformidade irrefletida. Afinal, obediências de que os múltiplos populismos se valem, e buscam, da economia à política, frutescendo o disfarce das determinações que, na deslisura, os possam justificar e validar. Assim acreditando, finalizo este breve texto parafraseando Francisco Louçã[1], admitindo que o sonambulismo não nos irá proteger, em tempo algum, desse e doutros vírus ubuescos. Bem pelo contrário.


[1] Em “A estratégia do bufão” (A Revista do Expresso, de 15 de agosto de 2020).

quinta-feira, julho 30, 2020

O BICHO HOMEM

A miséria da pervicácia desportiva é culpa dos comentadores adeptos?

A mente ridícula e risível de quem o afirma não é apenas insana razão. É doutrina doente para rebanho de ingénuos há muito entontecidos. É, acima de tudo, evidência e rasto de um catequismo que se serve de um pasto de incautos esfomeados da bola. Claro que nada mudará nesta corrente de lama gulosa e calculista. A bravata tem amo e, quiçá, proveitosa companhia.

quarta-feira, julho 22, 2020

AQUELE QUE PARTE PARA O DESERTO NÃO É UM DESERTOR


Observo a democracia e interpelo a sua razão democrática. A abrangência da sua mediação e o fruto da sua socialização. Exigindo de mim estar presente, e pensar. Sim, pensar de um modo consequente e radical a vida concreta das pessoas. Essa outra vida escorada na materialidade do seu existir real. Instigação provavelmente incerta, ou mesmo inverosímil. As distâncias do múltiplo desconcertam e desordenam o decente olhar. Submetem-no ao desalmado lodaçal das desigualdades. Afadigado, desisto da procura. E assim abandono o sonho de encontrar a razão que busco. Repouso, pois então, apenas no silêncio da utopia prometida do universal que a todos pertence.


Nota – O título é uma expressão referida por Esquirol, no seu livro Resistência Íntima, supostamente gravada por um eremita nas paredes da sua cela.

quarta-feira, julho 08, 2020

SAUDADE, TRADIÇÃO E IDENTIDADE


Sentir, lembrar a saudade, viver a saudade, pensar o passado. Um passado que de modo algum afasta a permanência do presente e nega o desertar do futuro.

Lembrar a saudade será, então, revisitar lugares, tempos e momentos. Acaso, reviver afetos, emoções e memórias. Lembrar a saudade será, pois, viver a saudade, e não viver da saudade.

Viver da saudade faz-se um outro viver. É ficar lá, é permanecer agarrado ao contínuo retorno, isolado na ilusão do regresso e da esperança ressuscitadora. Em síntese, é habitar encasulado no reducente e desnaturado saudosismo.

Estará (ou não), por isso, na saudade, na tradição e na identidade, o quadro em que as três penas, em simultâneo, esboçam, serigrafam e representam o viver?

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quinta-feira, junho 11, 2020

LOBOS DISFARÇADOS DE PASTORES


Lendo aqui

Marcelo esclareceu, e assim aconteceu, que as comemorações do 10 de Junho iriam decorrer no Mosteiro dos Jerónimos com apenas oito pessoas. E, como não estava tudo dito, completou; assim deveriam ter sido as comemorações do 25 de Abril e do 1.º de Maio. Pergunta-se; onde, em que lugar evidenciou Marcelo tamanha clarividência? Exatamente à entrada para a “solenidade festiva” de Bruno Nogueira e Manuela Azevedo no Campo Pequeno. Estiveram aqui apenas meia dúzia de pessoas? Claro que não. Conclusão; Marcelo procurou, antes de pecar, penitenciar-se à teocracia jornalística com os pecados de outros. Mais vezeiro que useiro, Marcelo começa assim pelos demais. Acoima os outros, acoitando o seu próprio exemplo. A política tem destas coisas…

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segunda-feira, junho 08, 2020

UM SINGULAR TEMPO DE CRIAÇÃO ARTÍSTICA


Ao desapegar-se da rotina profissional ELE acolheu o repto. Esse desafio irresistível de pintar com tempo, e serenamente. Apurando emoções, recobrando sonhos e despertando qualidades sustadas. Na escuta sédula dessa outra e crepuscular estação de vida que, na sua verdade, ilumina sitiados afastamentos, proximidades e impulsos. Uma estranha e somada liberdade que, insinuante, se anuncia envolvente. Certa de que se pode ainda ter ou ser mais, essa liberdade acrescida oferta-lhe apego à largueza para além da premência. Da insondável razão já afadigada abraça então o aconchego entusiasmante de criar. A falha e o falto fazem-se definitiva vontade arrebatada pelo enlevo da incitação. Admito, pois, que a arte, a criação artística, vale para ELE uma vida que se inteira nesse tempo de perfeito reencontro de si. Vida certamente sentida, e julgada, ainda insuficiente e imperfeita. Contudo, desviada esta pelo crivo da imaginação do si mesmo costumado, ELE apura o essencial e retoca o seu reflexo tornando-o sentido. Um sentido primacial no presente desta sua feliz teimosia de assim viver, e conviver, com o estético das formas e das cores. De viver a Vida, afinal.

Pintura, Mário Calçada

segunda-feira, junho 01, 2020

DIA DA CRIANÇA


Neste dia, neste tempo, o poema que a criança havia de abraçar…


Sou barco de vela e remo, sou vagabundo do mar. Não tenho escala marcada nem hora para chegar: é tudo conforme o vento, tudo conforme a maré... Muitas vezes acontece largar o rumo tomado da praia para onde ia... Foi o vento que virou? foi o mar que enraiveceu e não há porto de abrigo? ou foi a minha vontade de vagabundo do mar? Sei lá. Fosse o que fosse não tenho rota marcada ando ao sabor da maré. É por isso, meus amigos, que a tempestade da Vida me apanhou no alto mar. E agora queira ou não queira, cara alegre e braço forte: estou no meu posto a lutar! Se for ao fundo acabou-se. Estas coisas acontecem aos vagabundos do mar.

(O vagabundo do mar, de Manuel da Fonseca, apresentado em termos de texto)

sexta-feira, maio 29, 2020

O CENÁRIO REAL DE FRANCISCO JOSÉ VIEGAS


Francisco José Viegas (FJV) aceitou o apelo do tabloide “CM” para descer à península imaginária e revisitar “o lugar negro da noite de maio”. Já dizia o meu amigo, batizado de Marx, que o concreto é concreto pois ele é a síntese de numerosas determinações. Melhor, que o concreto não é mais do que uma unidade do múltiplo. Daí que um pensamento que se ambiciona ser íntegro deve-se desenvolver como um processo de síntese, e não seduzido por uma dúbia conveniência de partida.

A jornada do escritor aos lugares macabros, como as imagens confirmam, e acima de tudo testemunham, revela por si a provável debilidade de uma consciência jornalística na sua relação com o real e com a nitidez da sua busca. O FJV, sendo escritor, sabe usar, e usou bem, a comunicação literária, oferecendo à dimensão pragmática da escrita um acrescido valor estético. Nada havia a obstar se o autor não se deixasse trair por uma linguagem afrontosa marcada, quiçá, pelo subjetivismo subtraído da sua ideação. Ao alongar-se sobre a península imaginária e o seu (t)ermo, o lúgubre Peniche, FJV resvalou não para a mentira completa, mas para uma cómoda falsidade enquanto pano de fundo da sua pulsão autística e consequente topologia semiótica. Sem mais, e apesar da inquietação que me provoca a sujeição da linguagem, junto-me a António Coimbra de Matos quando ele, pacientemente, diz que apesar do avanço sociocultural a palavra de rei é ainda a mais escutada. A pessoa de bem não engana, pode, sim, é enganar-se…

quarta-feira, maio 27, 2020

A ROTINA E OS TROPEÇOS, DO EXEMPLO AO EXEMPLAR

Muitos exemplos são-nos, continuamente, oferecidos. Decantando gestos, pessoas, coletivos ou mesmo ideias. Na busca de os tornar modelo ou de os fazer valer como lição. Do exemplo ao exemplar as conotações modalizam-se e, amiúde, derruindo o impreciso da evidência. Um suspeito exemplo, deste jeito, tudo faz para se mostrar exemplar. Aliás, o duvidoso sabe e vive do sagaz ofício da exemplaridade. Despido certamente de uma segura ciência moral, chama a si o fosco útil da polissemia. Seduzindo ou coagindo mediante o solto arbítrio do poder de encantar ou de se impor. Uma e outra vez, através de liames insistentes que, com o tempo, se vão familiarizando. Suavemente protocolizando. Exemplarmente justiçando. Humilhando a simplicidade ingénua, sempre crédula e disponível. Com a opacidade facilitando a acolhedora doxa infundada. A vida por aqui passa, silenciosamente!

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sexta-feira, maio 22, 2020

SABER, PODER E TROCADILHOS

Regressemos às Luzes preliminares e aos seus arrimos. Ao alcance infindo da crítica à crença e ao conhecimento. Ao cumprimento de um saber compreensivo e pronto ao seu próprio aperfeiçoamento. Assim como ao seu explícito uso com o fim de aprimorar a vida, privada e social dos homens. Olhemos agora o presente onde o pensamento se estreita no vantajoso e se observa no efúgio das suas meias verdades estéreis, mas deleitosas. Entre um e o outro tempo ocorre história, e nela se inscreve a memória ignorada do sucessivo escurecer das luzes. Da ideia de que saber é poder, provinda originalmente da inquietação operária, despontou a sublevada verdade do poder sobre o saber. Um válido saber que se fez, então, hábil e astucioso, irresistível à politização do pensar. Hoje, na verdade, bem acobertado no persuasivo fermento da sua codificação democrática. A democracia, assim preceituada, parece carecer de uma renovada consciência histórica, respaldada por certo num genuíno iluminismo. Necessariamente incansável e confiante e assente num saber outro, não aritmético e frio, mas benévolo e sensível. Socialmente humano.

quinta-feira, maio 21, 2020

SNOB E CONVENCIDO


Este homem faz-me (quase) sempre mudar de canal. Representa aos meus "ouvidos" um discurso autoritário e arrogante de feição cínica e revanchista e, como tal, ensopado de conservadorismos caprichosos e de odiosos pedantismos requentados. É uma espécie de urtiga que me provoca erupção cutânea, mas - quando suporto a irritação da pele - diverte-me o seu ar snob e convencido. Enfim, a eficácia organizativa dos "medias" precisam à direita destes "enterteiners" cabotinos e politiqueiros...

sábado, maio 09, 2020

UM BEM-HAJA AO MOVIMENTO SINDICAL

A pandemia ainda aí está e um outro combate se posiciona. Ambos se disseminando ainda que com propósitos diferenciados. O vírus do surto, embora mau, trata o povo por igual. Na economia, os agentes são outros e diferentes. Anunciando-se bons, os malsões dos dividendos sabem onde assentar o mal. Para tal, ajuntam poderes à volta do seu poder. Usurpando um ilusório sumo, das ideias às interpretações, das opiniões aos juízos. Marcando fronteiras, definindo confinamentos e estabelecendo afastamentos. Especialmente dos que a eles não se somam. Repetindo argumentários, reciclados ou não, do ressábio costumeiro. Isto posto, alinho em síntese com Constantino Sakellarides e Sandra Monteiro; digam-me para ser inteligente e agir com maturidade, designadamente na humana defesa dos trabalhadores e dos seus direitos[1].


[1] “Defender os trabalhadores”, artigo de Sandra Monteiro (MONDE diplomatique).

quarta-feira, maio 06, 2020

O CAMINHO DO COMUM

Como se constrói o comum quando se parte do meu, do teu e do dele? E onde se pretende chegar com ele, com o comum? Ferguson, já em 1767, lembrava[1]:

“A boa ordem das pedras numa parede é elas estarem apropriadamente fixadas nos lugares para os quais são aparelhadas; se elas houvessem mexer, o edifício teria de cair: mas a ordem dos homens na sociedade é estarem colocados onde estão propriamente qualificados para agir. A primeira é um sistema feito de partes mortas e inanimadas; a segunda é feita de membros vivos e ativos. Quando procuramos uma ordem de mera inação e tranquilidade, esquecemos a natureza do nosso assunto, e encontramos a ordem dos escravos, não a dos homens livres”.

Aceite-se, pois então, que o ponto de onde partimos subordina o nosso pensar, e este repercute-se no seu alcance. Por onde querem que comecemos, ou, por onde afinal queremos nós começar? Desta nossa escolha dependerá certamente o acesso.


[1] AS TESES DAS “TESES”, José Barata Moura.


terça-feira, maio 05, 2020

DA IDEOLOGIA SOCIALMENTE DOMINANTE

Cada um olha o mundo de um modo continuamente singular. Verdade aliás que se funda na pessoa que se vai sendo no curso do tempo. A liberdade acompanha-nos sempre, mesmo quando ela se perde. Todavia, o tangível do seu proveito faz-se sempre vinculado. Ao outro, à dignidade de ambos, à condição humana e à sua historicidade. No fundo, entranhando-se nas raízes que, com efeito, determinam. Intuições, pensamentos e intencionalidades. E, em consequência, firmam posições, criam horizontes e fixam também miudezas. Uma humana diversidade que, em si, afrenta sempre o estabelecido, o dominante. Esse arbitrário que afinal define, vigia, e socialmente até tolera. Não para impor o absoluto do mesmo e do mesmo jeito. Mas sobretudo para garantir o seu mando e socorrer a sua hegemonia. O que virá pós-covid-19? Certamente a ratificação da sua patogenicidade, não do vírus, mas da ideologia dominante que dele se servirá.

domingo, maio 03, 2020

RODRIGO GUEDES DE CARVALHO

Sobre a entrevista de Rodrigo Guedes de Carvalho à ministra Marta Temido (02/05/2020)

Para viral basta-me o covid. Patético, o homem afundou-se no faro das raízes do seu impulso animal. Grosseiramente cínico, o discernimento refundiu-se-lhe na rigidez acirrada da mímica. Arrastou-se vegetativo do esclarecimento para o bullying inquisitivo. O modo de duelo baralhou-lhe a moderação e fez-se tão-só corpo, aliás pouco. Encolhido na mesquinha sanha de apenas golpear. Sinceramente triste e penoso para todos.

sábado, maio 02, 2020

A CLAREZA SEMÂNTICA POR VEZES DÓI


O abocamento entre Pedro Nuno Santos e João Gonçalves Pereira fez-se acontecimento. Apreciações e convicções ampliaram prontamente o seu eco. Clara Ferreira Alves, no seu Eixo crítico do Mal, e em jeito de remate, subescreveu Pedro Nuno Santos. Todavia, alongou-se mais tempo a depreciar o seu verbo do que a esclarecer a consonância. Como diligente adepto do Eixo, e fanático observador de contradições, ouso uma tradução. À personagem Clara Ferreira Alves não lhe falta recursos e qualidades que se apreciam e que muitos naturalmente cobiçam. No entanto, a dimensão comentarista requer, no meu ponto de vista, e em particular neste exercício crítico estimável, uma conformidade lógica e identitária. Assim sendo, fazer comentário político não dispensa coerência predicativa na arrumação dos argumentos. Daí pensar que alguns dos seus desbrios se radicam na exigência peculiar desse jogo egoico de identificações e ficções particularistas. A sua depreciação ao colar-se em demasia ao tempo usado e à ironia adotada logo se tornou questão questionável. O relevo dado à presumida deselegância discursiva do ministro acabou por desviar a atenção do essencial, do seu conteúdo e alcance político. E assim , deste modo, sem demora se lembrou a questão estética compensatória à verdade que inquieta e que, talvez mesmo, custe aceitar. Dominar a palavra ajuda ao argumento, à reflexão e à prudência, mas não garante a razão certa. A razão não se perde pelo modo nem pela palavra usada, afirma-se certamente pela transparência do sentido que ambos propõem e fazem convergir. Todos sabem que a clareza semântica por vezes dói. Porém, muitos poucos admitem que um murro na mesa, de quando em quando, ressoa bem melhor do que a mera palavra.

terça-feira, abril 28, 2020

A MUDEZ ENCOLHIDA DA MORBIDADE SOCIAL


Nunca se é sozinho, é-se sempre indivíduo social. Pensa-se e vive-se a vida em função da materialidade circunstante e do seu acontecer histórico. Daí a gravidade dos recursos. Entre eles, os económicos, os sociais e os culturais. Daí, também, o encaminhar do papel identitário das ficções, dos sonhos e das possibilidades. Das motivações, dos estímulos e das frustrações. Igualmente, da acomodação das afeções, das emoções e das crispações. Da contingência da desmultiplicação, da desestabilização e da fragilização. Do horizonte das socialidades avistadas, ajustadas e adequadas ao crivo medular dos recursos.

Vive-se hoje uma abrupta crise, e em tempos de crise tudo se confunde no duro aperto da simplificação. E aí, os recursos, e a sua diversidade, revelam e marcam a sequela decisiva e determinante da diferença. A iniquidade das desigualdades na sua intensa e silenciada perversidade.

O ERRO DE UM É OSSO PARA O OUTRO


Não se resguarda a democracia simplesmente através de simbólicos e sinceros discursos. Sobretudo quando as perduráveis faltas cansam e se redizem compelidas por palavras diferentes. Faltas haverão sempre. Elas acontecem, e ocorrerão, ante os inevitáveis movimentos do tempo, do pensamento e da ação. Todavia, na esperança que as faltas sejam outras, diferentes, rumo ao prenúncio desejável de harmonia social. Sendo as mesmas, a insuficiência prova-se imperfeição, torna-se disfunção, e a sua continuada dilação anuncia, então, o desvio crónico fatal. A desconfiança vai-se assim infundindo e a frustração do homem movendo-se para o abismo incerto da desorientação. Exterioriza-se, então, a arte insaciável de atear o fogo, apenas aguardando os momentos certos de assanhar rancores acumulados. Para estes artistas da tocha, a agitação apronta-se, pois, na inflamação da emoção servindo-se dos vazios incumpridos. Esperando tão-só que a odiosidade ganhe corpo entre as fendas abertas no compromisso acordado das palavras e dos gestos. Em conclusão, estes apenas se aproveitam das fendas que, afinal, os outros permitiram que fossem rasgadas e, pior, que ainda hoje suportam vê-las abertas.

sábado, abril 25, 2020

GRITO, ARGUMENTOS E FUNDAMENTOS


O Grito que se busca associar ao que se impõe dizer

A Liberdade não é esclarecida por fórmulas simples e, muito menos, por fórmulas autoritárias. Examinar os seus limites, entregar-se às condições que os determinam, podem refazer, ou mesmo recriar, a possibilidade de verdadeiramente a merecer, ou melhor, de fazer jus à verdade da LIBERDADE.

segunda-feira, abril 20, 2020

NA DESTREZA DE AJEITAR PALAVRAS

Há binários que usamos, acima de tudo, porque soam bem. Perdidos na sonoridade das palavras encurvamos o jogo dos sentidos. Vontade de poder e poder da vontade, feitas das mesmas palavras, seguem semânticas diferentes. O poder da mentira e a mentira do poder, igualmente assim servidas, desconcertam-se no seu alcance. Daí a importância de repesar bem a relação, não desdenhando a circunstância e as suas valências. Sobretudo em tempo de profusas vontades, controversos poderes e díspares urgências. Tempo, aliás, sorridente aos desmandos que ensopam a verdade que importa na adipose de ociosas dúvidas. Digo, mais precisamente, nessa gordura que sempre alenta os poderes da falsidade ardilosa. Como diria o povo, abusando de conversa fiada, ou na voz dos que falam sem rodeios, usando um paleio feirante em modo de banha da cobra. Os sanguessugas por aí serpeiam, e o seu jargão é sempre bem-talhado ao modo proveitoso de pintar úteis binários. Aqui deixo então, relembrando, a ideia que todos conhecem, mas que sendo familiar nem sempre dela nos servimos…

domingo, abril 19, 2020

sábado, abril 18, 2020

TOLICES, OU NEM TANTO


Em tempo de isolamento trago de volta a boémia que me iluminou. Esse outro tempo, a da arte de viver a menoridade e de estimular a luz alegre da razão crítica. De pensar e viver o humano liberto de fundamentos anquilosados em crenças e preconceitos. Lugares bem vivos, e não asilos de necessitados recolhidos, nem refúgios de tímidos medos. Tempos de euforia, de experiência e de margens. Tempos de usar a liberdade, de a descobrir e de se entranhar na sua luz, ousada e irreverente. Em axiomática rutura com a torpe amorfia cravada no realismo sombrio do seu quotidiano. Aguardando outro tempo, e com certeza novas ordens. Mas a boémia, essa boémia, sinto-a perdida nas memórias do tempo. Mas, afinal, o que resta cá está. A vitalidade da sua presença gravada no meu corpo já gasto e engelhado.

sexta-feira, abril 17, 2020

A FASE E A FACE DO CURSO


O vírus fez-se adverso do comum, do indistinto comum. A todos juntava na solidariedade, mas também no medo. Deste modo, o cuidado universal atou –se ao indeterminado. Hoje, o tempo mostra-se posterior e acresce pretensões díspares. O ordeiro comum apresenta-se agora no cadinho dissolvente de impacientes interesses. Nesse fundo recipiente onde se confina a estranha química de inusitadas reações. O sentido do comum, afinal frágil, aqui se submete ao imperativo da comunidade. Sempre feito de razões parciais e de racionalidades coletivas improváveis. Um outro vírus desponta pois então. Pela afirmação de um particular coletivo sempre distante da precedente universalidade. Assim, aqui estamos, mais amanhã do que hoje, entre a fase e a face da durável resistência à penosa e iníqua imperfeição do mundo.

quarta-feira, abril 15, 2020

NO PALCO DA SALOIICE

Marcelo, na sua intrínseca disponibilidade para o alarde, baralhou a possível imagem de homem bom e afetuoso com o seu dever de comprometimento político. A objeção não está no reconhecimento do inestimável empenho dos profissionais de saúde, bem pelo contrário, mas sim no relevo dado ao particular momento da circunstância e ao seu enaltecimento. Com Boris Johnson pelo meio, o gesto político ofereceu-se à representação contagiosa da pequenez, marcada pela pirosice do irrisório. Os portugueses, e em particular os profissionais de saúde, julgo não merecerem tamanho descuido.

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sexta-feira, abril 10, 2020

O MILAGRE DE PORTUGAL


Confinados em proporções desencontradas, todos estamos em isolamento, se bem que no aconchego tradicional de impiedosas desigualdades. Uns acomodados na escala das supremacias, outros abrigados na métrica das sujeições. Os filtros da liberdade aí estão para exibir, e confirmar, a equidade instituída. O contumaz discurso é sempre o mesmo, o da ordem, da justiça e da lei. Agora, quiçá, metamorfoseado pela necessidade, solidária, de proteger a vida. Todavia, mantendo folgado o segredo, bem oculto, dos filtros da liberdade nas suas cínicas escapatórias. E estas, com certeza, irão sobreviver ao covid-19 e, com muita pena minha, também sim, ao milagre da indiferença do tribunal das consciências.

quarta-feira, abril 08, 2020

A INSOLÊNCIA DESAPIEDADA


Um tributo a Luiz Pacheco, um homem único com quem tive o prazer de conversar e testemunhar a sua inusitada singularidade

Em momentos singulares o talento da insolência liberta a liberdade. Aquela capaz de se opor à altivez que medra na ordem poderosa do previsível, do conveniente e da certeza das ideias feitas. O lume ateado pela desinibição escalda, e facilmente o coração da vítima se inflama. Daqui se apercebe que à coragem falta o exercício e ao risco do choque os algoritmos. Logo, a desordem do repto se agasalha na estranheza de um não-lugar penoso. Na sua açodada e impreparada desinibição, a agressão imaginada oferece-se disponível à razão do gesto. Refugiando-se na fuga cobarde da indiferença ou, mais burlesco, no surrado disfarce do mando da indignação e seus farsantes valores.

segunda-feira, abril 06, 2020

QUEM MENTE? O REAL, A IDEOLOGIA, OU AMBOS?



A minha voz é a de um simples ser humano. Nem otimista nem pessimista, unicamente mitigado pela realidade. Como dimensões civilizacionais, continuo a dar valor às ideologias, às espiritualidades e às religiões. Admitindo, contudo, as suas inabaláveis e imoderadas dissonâncias. No que concerne à economia, não creio que o capitalismo seja algo consubstancial às relações humanas. Acredito, sim, que os poderes multiformes determinam aí o seu enlace e consequências. Por isso, o liberalismo (económico) em tempo algum me persuadiu enquanto valor de emancipação do homem. O tempo advém e as sequelas anunciam as suas caprichosas doações. Os ricos fazem-se mais ricos e os pobres, mesmo com mais, empobrecem. Por força não só da pouquidade, mas também fruto das desigualdades, das suas iniquidades e das exigências sociais e económicas do tempo presente. Todavia, afirma-se, aliciando as massas, que em média os rendimentos têm aumentado. Uma fórmula em que o rigor matemático, na sua exatidão, falseia a verdade social. Dividir 5 por 5, dá um a cada um. Se dos 5 alguém levar metade, os restantes 4 só por ideologia aceitam a divisão liberal, alegórica e ideológica. Não sendo um perito em matéria de bálsamos, não deixo de reconhecer o bafo rançoso desta sociedade capitalista de mercado. Sobretudo, e em particular, a provinda desta oferecida Europa e dos seus templos cultivadores da religião capitalista, do culto do dinheiro e consequentes liturgias. Promete-se aromas deleitosos, mas a compulsão deste inconfiável poder, aliás sem relevantes contrapoderes, apenas nos destina o cheiro e o sabor acre da impotência. Ainda assim, com esperança, afirmando-me sempre por um futuro mais solidário e humano.


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quarta-feira, abril 01, 2020

O ARRIVISMO DA ALTA-RODA


Ocorrem duas realidades, entre outras, que muito me irritam. A primeira é aturar a evidência da inversão do ser pelo parecer. A outra, aliás comparsa da anterior, embora de cariz mais moral, é lidar com lobos disfarçados de cordeiros. A pandemia tentacular ainda se alastra e já os lobos do bosque neoliberal dão ao rabo com altruísmo e piedade económica. Como é vício, a mentira aqui se esconde no disfarce de profusas máscaras de gente de bem servir. Desde sempre travestidos no mimetismo educado das aparências e da fértil diligência moral da hipocrisia. Daí esta perdoável insolência sentida por mim como orgulho, e não expressão de um qualquer desaforo. O vírus assusta, é certo. Pode matar, certo também. Mas enquanto assusta não me cega certamente.

segunda-feira, março 30, 2020

O IMPREVISÍVEL AMANHÃ

PARA MEMÓRIA FUTURA
Escritores de várias nacionalidades refletem sobre o mundo antes e pós-coronavírus | Por Lenide Duarte-Plon| 25/03/2020

« De quoi demain sera-t-il fait ? » (De que o amanhã será feito ou O que será o amanhã ?) perguntou Victor Hugo num poema. Ele continua : « O homem hoje semeia a causa. Amanhã, Deus faz amadurecer o efeito ».

O filósofo Jacques Derrida e a historiadora da psicanálise Elisabeth Roudinesco retomaram a pergunta do poeta, abreviando-a, para intitular o livro « De quoi demain… », em forma de diálogo, lançado na primeira semana de setembro de 2001.

Estimulante e abrangente, o diálogo gira em torno de temas políticos e filosóficos que resumem as interrogações de dois intelectuais sobre o século que se iniciava. A conversa termina com um elogio da psicanálise : somente levando-se em conta o inconsciente e a pulsão de morte podemos compreeder as desordens do mundo e restituir uma sociedade humana onde a abertura aos outros seja uma realidade.

Mas apenas alguns dias depois do lançamento do livro nas livrarias francesas, o 11 de setembro veio provar que o amanhã, de que falou Victor Hugo e sobre o qual se interrogavam Derrida e Roudinesco, é totalmente imprevisível.

Quem poderia prever o que se passou no dia 11 de setembro de 2001 ?

O mundo nunca mais foi o mesmo depois que a potência hegemônica se descobriu vulnerável, em estado de choque.

sábado, março 28, 2020

A VERDADE ENTRE A ILUSÃO E A DESILUSÃO


Traduzindo em contraponto Feuerbach diria que estamos a viver um tempo em que não reconhecemos a imagem da coisa, a cópia do original e a aparência do ser. A ilusão perdendo-se na verdade e a verdade refugiando-se na ilusão. Certos, sim, é de estarmos confinados a esta mística vida do seu agitar.

quarta-feira, março 25, 2020

O BEM E O BENEFÍCIO COMUM


Num texto marcado pela simplicidade culta, e nítida, e pela sua calorosa religiosidade, Anselmo Borges esclarece:

É preciso ceder bens menores a favor do bem maior, a saúde e a vida. Sacrificamo-nos todos, com o sentido do bem comum. Sem alarmismos, mas com racionalidade e urgência.

Entre outras de grande valor, destaco esta proposição por que confronta conceitos que no seu todo estreitamente se interrogam; bens menores, bem maior e sentido de bem comum. A saúde e a vida são, sem dúvida, pilares medulares desse bem maior. Outros existirão, mas a racionalidade e a urgência do momento determina a distinção. Não obstante, e sem pretensão de discordar de Anselmo Borges, bem pelo contrário, permitam-me sugerir, acrescentando, a inscrição da raiz de um bem maior na englobante e inclusiva ideia de dignidade humana e, em sequência, do valor da sua condição como horizonte comum de sentido. O momento que se atravessa, exatamente pela exigência da racionalidade e urgência, impõe, e bem, a necessidade de proteger a saúde e a vida, de todos, atribuindo-lhe sentido de bem comum. Com o tempo, estou certo, permanecerá a experiência vivida, austera e incontornável, desse desafio, desse bem imperioso. De um bem que, todavia, merece ser engrandecido, predicando-o na universalidade da sua natureza, e no seu imanente valor solidário, e não apenas como resposta, moldada e pragmática, a uma racionalidade de momento, necessária e urgente.

terça-feira, março 24, 2020

DAR-SE AO TEMPO POR DENTRO


Ruas nuas, silêncios enfadonhos. A turbulência do tempo oferece-se atando o sofrimento ao corpo e o real ao imaginário. Suspeita-se que a mudez tem voz, mas não se ouve, e que as palavras naufragam no furor do seu alento. Tudo parece obscurecido nesta ordem descontrolada, imerso que está na onda revolta de verdades incertas. E sem qualquer deus por perto, espera-se rumo,  sentido, e o seu nexo em nós. Porventura na esperança de um aguardo apenas. Sim, não mais que um aguardo que ora resguarde.

segunda-feira, março 23, 2020

O ENCANTO DO DESCONHECIDO TAMBÉM DE QUARENTENA


Aqui está um momento místico, acaso delirante, de auscultação ao jeito humano de acomodação. Não regresso decerto à infância, mas sinto a necessidade de espiar o contraste da agitação conciliadora, boa ou impiedosa, de ânimos e movimentos. Isto é, arrumar diferenças entre esse tempo vivo de céu azul e este outro, bem cinzento, que oprime. Espiar exige-me então, por condição e silhueta do termo, um modo muito pessoal de anotar, ainda que perdido no baralho das referências, dos tempos e das vivências. Sobretudo, no uso das cartas desse lúbrico jogo de adaptação ao estranho e ao desconhecido. Mormente ao lembrar, e ao invocar, esse originário e vital cuidado dos pais, reconhecido como delicado e leal. Da alegórica proteção assegurada que a todo o tempo se faz obrigatoriamente intuída como esclarecedora. Assim sendo, e perante a sombra da nuvem virulenta, no lugar dos pais, avisto padrastos distantes, desapegados e frios. Educados, e de urbanidade conveniente, mas imperfeitos na razão da primordial afabilidade. Uma elementar falha que, quer queira ou não, me define um avesso e me força ao impasse no apuro do embaraçoso oculto. A memória de infância impõe-se-me, então, na catálise das precipitadas paralisias ante a indiferença das friezas. Afinal, de outra busca se trata certamente alheia a essa verdade primeira. O que se me apresenta será (ou é), então, e diferentemente, o alcance de novos e diferentes modos de resguardo e confiança. Numa túrbida paisagem de insólitas hierarquias que me envolvem neste mudado tempo intensamente vivido como incerto e insuficiente. A dependência de antes confronta-se hoje com enlaces distintos, bem atípicos, intuídos como rebentos de estranhas e imprecisas realidades, e ritualizações. Novos mitos despontam atraindo cada qual o seu vigor na norma do reajuste, do pretexto e do abrigo. E com eles surgem cerzidas narrativas, inéditas liturgias e austeras transições. Contudo, o calor da confiança não aquece, não chega, não consola, e não dá ao desconhecido a possibilidade de me pacificar. A ansiedade junta-se ao desconforto e, em somado, gelam a minha tranquilidade. E eu, sem ela, sinto-me incapaz de inventar roteiros, apenas de simples roteiros que me levem à alquimia do tempo. Deste tempo presente por demais virulento.

terça-feira, março 17, 2020

O QUE EXISTE DENTRO DE MIM, HOJE


Aos dúbios contornos da ordem e do caos tenho dedicado algum tempo, ainda que ajudado por magra ciência. Reconhecidamente frágil, entrego-me à aventura curiosa de entranhar as suas verdades e inamistosas ocorrências. Em todo o caso, e sempre, na busca de sentido, de luz e alguma consciência. Tenteando o que desconheço e indagando a adaptabilidade, e a firmeza, do histórico caminheiro. Porém, a fonte subjetiva da ideia de sentido nem sempre me ajuda. O conflito entusiasma-me a busca, sim, mas o medo deixa-me preso às algemas da minha fraqueza. Na busca, esperançado, enxergo a raia que me abrasa. Algemado, o caos devora-me até os ossos do espírito. Assim me encontro, hoje, enclausurado nesta desalmada ordem do caos, ou melhor, nesta grande merda dita de Covis-19.

quinta-feira, março 12, 2020

RUÍDOS DA LIBERDADE


A vida na sua errância aclara o ímpeto das circunstâncias. Diz-se que a verdade da vida se cumpre na metafísica do encontro, e da circunstância. Porém, de quando em vez, dá-se a prova da humana negação em afrontar o ardor da atração urgente. Quem sabe se efeito do desmedido valor dado ao ruído da liberdade. Por que este, o ruído, ilude e constrange, capaz de consolar o vazio que, amiúde, se tenta recusar, isolando-o. Ruído que assim se oferece para um curso de agasalhada ficção. Mas a liberdade, acredita-se, existe para viver. Por isso, nesta sua verdade ela ficará atenta, ou mesmo surda, ao rumor dos paliativos. Bem como distante dos seus alívios viciantes na experiência da indiferença. Seguramente, a verdade da vida passa por encontros e circunstâncias. Mas nunca isentando o homem da sua liberdade, e da sua dignidade.

segunda-feira, março 09, 2020

ATÉ JÁ, AMIGOS


Escrevi há tempos;  … “uma boa conversa acrescenta-nos um quê identitário,tornando-nos mais completos e, justamente, ainda mais disponíveis. Para a vida, a tal vida de todos os dias. Por isso prezo as boas conversas e, no dia de ontem, a maré cumpriu a convicção. Experienciei, e senti, a instigante circunstância afetuosa do retomar de muitas dessas conversas que a incontornável razão da distância atrasou. Deu-se, acredito eu, um momento peculiar de caloroso convívio que concedeu vida. Às memórias e, porventura, ao sentido dos sucessivos rumos, tempos sempre incertos, plurais, mas significantes. Em suma, à história do passado acolheu-se a esperável e benfazeja retemperação do reconhecimento. De modo especial, da amizade, do apreço e do companheirismo. Assim sendo, o que nos resta, então? Não mais que presentificar e revigorar esse ressonante apelo de proximidade, vivência e afeição. Daí, amigos, com simpatia finalizo com um familiar e sincero ATÉ JÁ.

segunda-feira, março 02, 2020

PARA TI, MADALENA

A paixão não é tragédia e o desconhecido não é drama. Sorte adversa, sim, é o confronto da experiência da fraqueza na conversão do conhecido que nos faz mal. Sobretudo desse mal existencial que golpeia a decência moral e a dignidade das pessoas. Logo, não recues protegendo-te nas sombras socializadas do cínico cânone absorvente. A tua consciência jovem, já hoje lúcida e ambiciosa, pede-te coragem e não refúgio em acomodadas adaptações ardilosas. Por isso não cedas à confortável e egoísta tendência humana da desistência. Não te deixes igualmente apoderar pelo medo que em muitos atrai a cobardia do subterfúgio. Não te deixes também vender nos primeiros passos desse teu caminhar livre da maturidade. A liberdade não se compra, constrói-se, defende-se, partilhando-a. Com custos certamente. Mas a alternativa, a subjugação à iniquidade e à indignidade não merece a tua preguiça. Não tenhas medo do futuro e sê firme na coragem de dizer não. Os poderes a contrariar, e a afrontar, são muitos e diversos. Sejam eles os talentos aliciantes, os dons sedutores, ou mesmo as perícias silenciosas que por aí não escasseiam. Jogam, todos eles, na promessa do acolhimento, da segurança e do acerto do mundo. A mentira que aqui subsiste e aqui medra sabe muito bem encenar o seu próprio jogo para que a batota passe despercebida no ardiloso cumprimento das suas regras. E eis, então, seguramente o problema maior da democracia. Não é ela, a Democracia, que é o problema. Bem pelo contrário. O problema encontra-se, isso sim, entranhado nas mentiras e nos jogos que nela circulam, a pervertem e a corrompem. Aliás, passe a expressão, sem qualquer “pingo de vergonha”…

sábado, fevereiro 08, 2020

O INCERTO CONFLITO DA ILUSÃO REALISTA


Tradição é passado que permanece. Conferir direitos à tradição depende afinal de um reconhecimento atributivo. Com que fins? Da liberdade, da igualdade? Ou do seu oposto? Da sujeição, da autoridade ou do amedrontamento. Tudo junto, ou em separado. Em abstrato, a tradição não se opõe à modernidade. Ambas não são em si, e por si, predicamentos definidores de virtude. Nomeadamente no campo particular da informação e da comunicação. O fanatismo e o obscurantismo sobrevivem ao tempo. Hoje, como no passado, buscando apropriar-se do direito humano de pensar livremente. Emaranhando inteligibilidades, suscitando desorientações, deleitando o mundo opinativo das paixões. Daí, a face emergente e inadiável da consequente avidez técnica, do seu alcance e utilidade desvirtuada. Na comunicação social vacilante, nas redes sociais em expansão e nos demais (re)cursos de intermediação. Entrelaçando e aturdindo proximidades críticas e analíticas face ao mundo da vida. Um conflito incerto marcado pela perplexidade de sinais causadores de incertezas, receio e insegurança. A mediação útil e valiosa não se ausentou. A mediatização é que eficientemente se lhe contrapõe. Eis aqui, certamente, um desafio, quiçá  medular, deste tempo. De um tempo apressado, embora não letárgico, da atual civilização da imagem, do fetiche e da sua imodéstia simbólica.

quinta-feira, janeiro 23, 2020

A REALIDADE NÃO SE ESGOTA NO EMPÍRICO


Há destinos incomplacentes em que a partida se faz aproximação. O certo, o que persiste e subsiste, acoita-se no espírito das memórias, das palavras e dos pensamentos. Uma vida, afinal, marcada pela vida que ainda sobra. Na prova da ausência, e do silêncio, que dela sempre desponta. Enfim, uma distância sem cálculo de um percurso que se faz sempre só. Reconhecendo, decerto, a presença dos que partem na sua imanente intemporalidade. Partiste, sim. Uma contingência, afinal radical, que merece e exige sentido. Quem sabe, como afirmaria Anselmo Borges, através de uma outra presença. A Presença sagrada, divina, como seu fundamento e sentido últimos. E tu, Carlos, sabes, bem melhor do que eu, sabes que não estás evidentemente só.

domingo, janeiro 12, 2020

A ALMA POPULISTA


Reverencio os políticos que deslustram da política e maldizem dos parceiros do costume. Como? Costumando, eles, do devaneio democrático que ali estão para fazer diferente. Confesso que me comove a grandeza de alma dos que, sem se enredarem na política, se obrigam à missão. Por isso, merecem a minha mesura e consideração. Mormente quando, com o tempo, enrugam na busca falhada da dissemelhança. A história assim o relembra e os exemplos passados não faltam. Hoje, os prontos e frescos seguidores preanunciam-se, prometem. Com méritos e passadas diferentes, fatiando cordialmente afinidades e proximidades. Anunciando sempre virtuosos e empolgantes caminhos. Grudando à realidade a sedução do artifício. Conhecem bem os limites da liberdade e os fundamentos da sua condenação moral. Desconsideram partidárias mediações, discernindo neles, nos próprios, o irrefutável e social reconhecimento. A alma populista não se propõe, afirma-se. Eles são o povo, logo, a voz fundada da democracia. Ou melhor, da “tra(m)palhada” fascizante dos tempos modernos…

terça-feira, dezembro 10, 2019

TEMPO DE ENLAÇAR, O SABER COM A ARTE DE VIVER

A CIRCUNSTÂNCIA DO SABER EM TEMPOS DE SENIORIDADE

Fui professor. Talvez por isso, e com o exercício e acertos devidos, aprendi com erros meus e tolhimentos de fora. Neste meu novo tempo biográfico, das sombras desse anterior sinto raiar-se a sobra de uma luz remanescente. Vinda, rútila, de uma solta e desusada impermanência. Marcada pela raridade de uma serena inquietação. Lugar nascente, afinal, onde se leveda um saber outro, simples e singular na arte de viver. De viver esse novo tempo, com passado, sim, com futuro, ainda, mas sobretudo com um intenso presente. Melhor, um aqui e agora onde o saber busca harmonia com a experiência, familiaridade com a vida e realização pela satisfação de estar, de existir. Sem currículos prévios ou roteiros preestabelecidos.

terça-feira, dezembro 03, 2019

NEM TUDO O QUE RELUZ É OURO

Num tempo de mediações meândricas e de contornos incertos, a mediatização impõe-se. Praticando a ligeireza e a superficialidade. Sem critério, e sem tempo, agitando enxurradas de imagens no efémero fundo do excesso. Macaqueando arremedos de realidade, quiçá distrativos, mas cínicos e duvidosamente escrupulosos. As audiências ordenam e as receitas testemunham. O caótico do imediato enjaula assim a ilusão, imobilizando a mediação na sua exigência e alcance. Em suma, ao contrário do que se julga, tolhe a liberdade, espalmando-a ante o desmedido peso de uma “máquina de subjetivar”. Determinando, e maltratando, deste jeito, esse lugar primordial, e genuíno, de se ser sujeito, sujeito pensante. Retraindo e comprometendo o livre exercício da liberdade. Na legítima e humana formação da subjetivação, do refletir e do pensar. Com tempo.

domingo, dezembro 01, 2019

UM RECONHECIMENTO PARA INCRÉDULOS


José Moreira deu uma longa entrevista ao PORTO CANAL. Neste breve fragmento, de cerca de três minutos, tem a modéstia e a simplicidade de destacar o meu nome. Agradado e orgulhoso pelo reconhecimento, deste me presto para botar figura junto dos meus amigos desconfiados. Ao José Moreira, um abraço.

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terça-feira, novembro 19, 2019

SENTIR, SENTINDO A INQUIETAÇÃO




Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho

domingo, novembro 17, 2019

TÓPICOS DE UMA MEDIAÇÃO DESACREDITADA


O Muro caiu e com ele dissipou-se uma marcante fronteira no tempo político. Em crescendo se abriram novos e contrastantes horizontes, e novas e resolutas engenharias se engendraram. O exercício mediático foi-se então confortando no poder ganho, e se propagando na sua ambição. Entretanto, outra e dúbia condição se espalhou. Subterrâneos interesses aproveitaram, e instalaram-se. Passo a passo, a democracia abraçada veio-se assim demudando, desfigurando-se. Habilmente o cidadão virou público, o espaço público plateia. Logo se anunciou a pós-democracia, obscura realidade ainda por entender. A cidadania foi-se desvitalizando e as suas referências perdendo-se no além do embaciamento. A superfície dos factos, por fim, tornou-se palco, publicidade, mercado. Consumo e espetáculo de emoções e fabulações assim aproveitáveis. Infundiu-se a insegurança e a incerteza, pilares do político inconfiável. Desacreditou-se a mediação prestativa, de análise e fundura úteis. Sobrou, pois, um horizonte de ligeireza, de disfarce e de fingimento. Um prolífero terreno de aproveitamentos, nutriente de sórdidos e improváveis populismos. Uma democracia, afinal, anémica, indefesa, também ela desmurada. Dos muros primordiais de intermediação que, outrora, a fecundaram e a protegeram. Em sinopse, tópicos para cuidar e pensar um futuro. Aliás, um futuro já hoje presente.

Imgem retirada DAQUI

quarta-feira, novembro 13, 2019

A MINHA CIDADE

Figura de hoje, espelho alegórico do passado. Um plástico e sugestivo cinzento de entranhadas memórias.



terça-feira, novembro 05, 2019

ERRÂNCIA, DESTINOS

Não existe ordem sem desordem. Desregramento no interior do alinhado das ordenações. As resistências estão lá, permanecem. A desordem persiste no impreciso anseio de um outro arranjo. Hesitando entre aproximações e libertações. Nesse intervalo instável da permanência, de resistir. Lugar natural de conflito em que a liberdade se aprende e deixa trilhos. No pensar e no agir. Como na afirmação que cria esperança. De um viver outro em relação ao que há-de vir. Não esperando ordem na desordem, mas tão-só rumo à errância.

Imagem retirada DAQUI

sábado, novembro 02, 2019

DA “CRISTALINA” FACTICIDADE

 Devotada ao determinismo dos factos, em obediência ao deus-capital, a liberdade deixa de ser livre. Renuncia à sua existência, reduzindo-se à necessidade do fracasso. O factual, algo que pode ser diferente do que é, torna-se obrigada condição. Essa que restringe, legitima, e se liberta da exigência intelectual, da obrigação humana. Assim, o ponto de partida e o ponto de chegada estreitam-se no comum dos números e das suas representações. Sustentadas pela útil superfície das cifras, dos seus preconceitos, opiniões e falsificações simbólicas. Enfim, postulações deste tutelar - e boçal - tempo da fúria capitalista.

terça-feira, outubro 22, 2019

HÁ DIAS ASSIM

Não sei se é tarde. Sinto apenas que é o tempo, um tempo. Não certamente de inventar destino. Só de caminhos para caminhar como se já os houvesse pressentidos. Que consintam sentido, vida, às memórias do passado. Boas, menos boas ou mesmo doídas. Barrando falhadas repetências. Tentando ler lamentos. Traduzir tolas pausas de vida. Buscando lugares de fronteira entre o vivido e o por vir no tempo. Entre o que não foi e o que poderá ser, acontecer. Ter futuro, ser ainda. Quiçá, numa outra e mudada história.