quinta-feira, outubro 17, 2019

TUDO VEIO MESMO A CALHAR


Ontem fui até ao mercado da Ribeira, ver e ouvir Ivo Canelas. Em Todas as Coisas Maravilhosas, um monólogo espirituoso, mas que nos inquieta com tópicos delicados. Tudo parte de uma lista elaborada por uma criança de sete anos sobre as melhores coisas da vida. Algumas das pessoas que assistiam foram, nestas  circunstâncias, convocadas a participar. Lendo pequenas frases ou palavras dessa lista, previamente distribuídas pelo ator. Fui um dos solicitados. Através desse breve momento, com muito agrado me associei ao envolvente e sublime espetáculo de Ivo Canelas.

segunda-feira, outubro 14, 2019

NARCISISMOS, ARTES E BAILADOS

As coreografias, hoje, mais do que ontem, crescem em número e matizam-se em subtileza. Em peculiar harmonia com as faltas temidas e a urgência da fantasia. A insuportável pequenez, se pode, mostra-se superior; se não, cresce diminuindo os outros. As músicas do grotesco exagero, ou da perversa dor de cotovelo, acompanham o bailado do artifício. À magia carnavalesca dos primeiros pode exibir-se, todavia, a torpeza dos segundos. A vulgaridade não serve e dela o dançarino se livra. Pela imaginação, da ilusão ou da ansiedade. O outro, o circunstante, que se cuide então. Ou reconhece o dançarino, ou é maltratado. A realidade está no palco e a verdade na sua dança. Na arte de convencer, ou melhor, no engenho de se provar. Não aceita não ser admirado, pois é do dançarino que se fala, quiçá o maior e o melhor. Logo, deseja ser amado, reconhecido na sua perfeição. Ele está acima de todos os outros. Governado pela fantasiosa certeza ou falta dela. Desvariando, ou diminuindo os outros. Com os outros na cabeça, esquecendo-se de si próprio. Continuadamente, recriando miudezas onde a dissimulação se atrele. Cuidando dos azares, a culpa reside sempre perdida, ou morando já ali na casa do vizinho. O (desa)tino, esclarece-se, então, como o mote em palanque. O dançarino, afinal, não se esquece de si próprio. Ele espelha, nos seus irretocáveis movimentos, a sua própria negação.

domingo, outubro 13, 2019

O VOTO NÃO REVOGA A LUTA


O Voto, de quatro em quatro anos, escolhe. A Luta, não tendo tempo marcado, faz-se quando deve ser feita. Quatro anos é tempo além da conta para alcançar o que há muito tempo se espera. A democracia, reclamando o voto, exige mais, a Vida do concreto de todos os dias. Num tempo sempre atempado e em lugares plurais para além das urnas acertadas. Quando e onde a injustiça se acomode e o abuso se faça engenho. Por uma Democracia mais íntegra e saudável, o Voto não pode revogar a Luta – a luta de todos os dias.

Respeitando, e apreciando a sua mensagem, aqui deixo um envolvente e oportuno trabalho …


sábado, setembro 28, 2019

EM TEMPO DE ELEIÇÕES, UM ARRISCADO ATREVIMENTO

O entretém do negócio mediático seguramente arreda vitalizantes e humanos tormentos. Enfeitiça o pululamento entre irrisórias telenovelas, comovedoras desgraças e outras eletrizantes frivolidades, esmerando assim o acabamento do devoto cliente. Como vale, ajustando em permanência o desfrute alegre de um tempo com pouca sobra para entender a vida, a confinante vida. Imerso então no torpor de adventícias pertenças, o confiável freguês repousa ingénuo na consolável religiosidade de um não-lugar tomado como seu. Sem pauta própria, resiste acolhendo – e não escolhendo – a musicalidade em voga. Todavia, não uma qualquer, mas a que se lhe prefigura antever um resguardo, ao que parece, mais seguro e, sobretudo, assegurado. Mestria adestrada pelas reiteradas e massificadoras mediações que têm por peculiar encargo apostolizar o público reconhecimento. Manobrando significações, ordenações e homologações, não esquecendo o arremate certeiro de frutuosas e oportunas omissões. Delineia-se, deste jeito, afinidades e sintonias. Abrigando, e guardando, no meio comum do magote, os silêncios apreensivos que as íntimas e embaraçosas fragilidades atenazam. Um lugar, afinal, que se faz caverna de fraquezas e inocências e que, por reserva, aí se acoitam. Mas aonde utilmente se adensa, em tempo de reservados apetites eleitorais, uma disputável e, acima de tudo, manipulável maioria silenciosa. Uma maioria por fim aliviada, quem sabe absorvida no bizarro triunfo dos vencedores. A pasmaceira reflui então contente à caverna, e a devoção – ufa - à mansidão de todos os dias.

segunda-feira, setembro 16, 2019

O ANUAL REENCONTRO DA FAMÍLIA LOPES

Já cá não estão os avós, os pais e os tios. Dos primos, dois já nos deixaram. Também um irmão, há algum tempo, partiu. Mas a família permanece com os seus filhos, netos e memórias. Desenrolando o tempo na busca de uma história sempre inconclusa. De um apuro que se vai reerguendo como se de uma lenda se tratasse. Entranhada num banho de afetos e de cumplicidades. Com uma leveza que se reconhece, e se revela, na sua funda simplicidade. Sem feridas que inibam a verdade da reciprocidade e a sã emocionalidade das compreensões. Trocas soltas que no presente dão mais vida ao passado. Com entusiasmo, alegria e descoberta, enriquecendo, quiçá, vazios impensados. O mundo familiar torna-se, aqui, mais vasto e o tempo do momento mais precioso e vivo. Sonhando e imaginando esquecimentos acordados. Retraçando continuidades e dando às memórias palcos mais alargados. Sem medo do falso na busca do verdadeiro, acercando a imaginação do entendimento. Revivendo o passado, sabe-se lá, se não para inventar o futuro. Revigorando afetos, a amizade e a familiaridade. Assim saudando, todos anos, aqueles que o tempo vem tornando referências sólidas do nosso presente simbólico. Preservemos o sopro, e até breve.

sábado, setembro 14, 2019

MEMÓRIA CURTA DE ALCANCE ENCOLHIDO

Vive na Madeira um homenzinho feito político que, por não apresentar a tempo a sua declaração de rendimentos, perde o seu mandato na Câmara do burgo. Naturalmente já nesse tempo de 2007 a memória não o ajudava. Naturalmente fruto de uma qualquer família de fagáceas, a sua cabeça apresenta-se como uma bolota cintilante de pedúnculo curto. Um empecimento que o estorva e o impede de ler a história e apenas nela enxergar a utilidade como seu privativo critério. Sem ética, sem maneiras, a não ser de empecilhar o seu fantástico mundaréu de empecilhos. As gentes do PS que se cuidem…

Imagem do homem retirada DESTE SEU DESCUIDO

terça-feira, setembro 10, 2019

VOLEIBOL REGRESSA AO F.C.PORTO



Parabéns ao meu amigo José Moreira e ao FCP. Permitam-me manifestar publicamente o meu orgulho, pois fui eu que levei o José Moreira para o FCP em 1967, enquanto seu treinador na categoria de juvenis. Mais ainda, relembrando que nesse ano o FCP foi Campeão Nacional na categoria. Tinha eu, então, 19 anos. Memórias que contam...

Imagem retirada DAQUI

segunda-feira, setembro 09, 2019

A PRIMORDIALIDADE DO ACASO




Imagina-se futuros, inventa-se vidas, despontam acasos. O princípio da verdade solta-se assim do burburinhar revolto do sentimento. Cá se espiga a circunstância de humanas coincidências descobertas. Casualidades que valem, significam e se representam. Que ganham corpo adiando sonhos atraídos por encantamentos. Quiçá, igualmente sentenciados por abruptas fatalidades. A sedução ou a necessidade ambas triunfam na sua emergência. E o acontecimento assim vai desafiando o então traçado, o aspirado. Com o acaso sempre presente, ajuntado à fertilidade da sua ontológica supremacia. Imerso na inevitável intimidade da facticidade com o indeclinável devir da singularidade. Garantidamente entranhado no jogo da vida que, em suma, interessa arriscar. Com certeza, ousando vive-lo.

Imagem - “Metamorfose de Narciso (1937)”, retirado DAQUI

sábado, agosto 31, 2019

A CRISTAS DE CRISTA ERGUIDA

O meu silêncio persistente dá-se há mês e meio. O querer escrever não atina com palavras que valham. Melhor, que mereçam a indelicadeza ao zelo que conforta o próprio silêncio. Repetir o já dito, de antemão, soa-me a obstinada sornice. Entre pensamentos e fantasmas a criatividade nada descobre. Então, o que me faz despontar neste horizonte de teimosas lamentações? Somente o topete que um outro silêncio devia recatar. Neste templo, e tempo, consagrado ao culto calculista do mérito, onde o sopro se fez ruído. Pois não basta a silenciosa lapidação que patrocina a meritocracia acomodada. Vai-se mais longe e fala-se bem claro. Se não chega o merecimento, acrescente-se-lhes a benemerência de outras mais-valias. Empilhe-se às vantagens outras e mais vantagens. Tonifique-se, sem qualquer embaraço, a andada da conformidade cumulativa. Endurecendo a disciplina das desigualdades que assim se vai firmando e afirmando. Sem acanhamento e nobreza política. O meu voto terá, assim e naturalmente, outro destino.

quarta-feira, julho 17, 2019

O AZEDUME DE UM OLHAR EXAUSTO


Vende-se a ilusão de que a culpa da abstenção eleitoral é, acima de tudo, dos políticos. Dos partidos, das políticas e da sequente ação política. Do meu ponto de vista, tal olhar estreita a envolvência que, no abstrato, se emblema por ordem política. Não será por isso acaso que os media são aqueles que, por grosso, alienam a retalho tal simplificação. Deliberadamente, silenciando a sua ilegítima desinscrição nesse embaraço. Ocultando, ou iludindo, a sua condição de sujeitos políticos ativos. Informam, formam, deformam e fazem opinião. Servem-se de um direito, mas esquivam-se do dever. O dever de promover o desempenho pleno de cidadania que a democracia obriga. Da vantagem sistémica retiram o poder mediático, menoscabando a sua primordial função social. A imperativa rentabilidade, de modo cada vez mais acentuado, escora-se nos números. Dos lucros, da publicidade, dos leitores e das audiências. Em prejuízo claro da afirmação do poder político eletivo, subalternizando assim este elemento constitutivo que, afinal de contas, se impõe proteger. Escudando a democracia e a sua qualidade. A tabloidização crescente do mediatismo fala por si. O croqui da espetacularidade, da emoção e da dramatização retrata a adoentada transição que nos envolve, e desenvolve. O cidadão, dando lugar ao espectador consumidor, vagueia na superfície do consumo da confusão. A traição à democracia ganha aqui o seu molde, o molde da contraversão. Parafraseando José Gil, diria que a ilusão da liberdade nasce aqui, na torção que se impõe à sua primordial inscrição, o legado histórico. Com a liberdade enjaulada, a democracia vai definhando e as vendas da ilusão tornam-se mais eficazes. A venda que cobre os olhares e a outra que redunda em proveitos, em dinheiro e em políticas que se fazem jeito.

domingo, julho 14, 2019

PADRE NUNO, XICO NUNO




Com ele, com o padre Nuno, com o Xico Nuno, aconteceu um singular encontro. Nesse lugar nobre onde as memórias dão amanho à consciência, as palavras se desfraldam mais livremente e se herda, da obscuridade, a envolvência da sua claridade. Daí se prossegue, para além do conhecido, essa humana rota, sem termo, de Resistência e Liberdade.

Atento, não deixei de pensar, de imaginar o padre, o homem, o marido, o pai, a quem muitos tratam por Xico Nuno. O que nesse entretanto se recontava, em mim, fazia-se estímulo à criação romântica de uma figura talentosamente sólida, ainda que múltipla, simples e decidida. Uma história, uma vida em que a liberdade parece desvelar-se em impulso sereno, ainda que intenso e apaixonado. Fazendo do seu tempo, um tempo absoluto, inadiável.


Para o Xico Nuno a liberdade mostrava-se, talvez, uma força vital, não uma finalidade. Uma condição da sua e nossa própria condição. Reconhecendo limites, sim, mas destes sulcando as leivas resgatadoras de esquecidas determinações. Com outros, jovens e não só, partilhando experiências do pensar livre e do criar agrupado. Ousando plurais caminhos na senda de uma sociedade de sujeitos, e não de seres enfraquecidos de suas forças de vida. Libertando a liberdade, essa força medular que tem por atribuição cuidar da vida digna. Mais perfeitamente, imputando a essa força, a essa liberdade, a infinidade de sua dedicação. Seguramente, uma voz despojada que a dignidade da condição humana, ao longo do seu tempo, testemunhou, e hoje apresenta-se reafirmada. 







domingo, junho 23, 2019

PENSAR O ENVELHECIMENTO E A LONGEVIDADE HOJE

Síntese da minha intervenção no 13º Congresso da FENPROF

Pensar o envelhecimento e a longevidade hoje, é idear um cenário onde alguns equívocos, culturais e ideológicos, se movimentam. Em especial, ao reconhecer-se que o seu lado positivo e significante faz-se de desafios humanos e sociais de óbvio merecimento político. Compreender tal realidade obriga a um olhar inteirado que, à premência dos impasses do presente, a ela acresça futuro. O envelhecer acontece a todos, todos os dias. Não tem data marcada. Deste modo, o envelhecimento faz-se, por essa razão, um tempo que a todos pertence. Não somente aos reformados de hoje, mas, mormente, dos que esperam uma aposentação com amanhã.


Pensar o envelhecimento e a longevidade hoje, não aguarda o momento da aposentação, desse tempo simbólico onde tudo parece iniciar-se. A simplificação aqui interposta desmerece um processo desejavelmente natural, ativo e progressivo, confirmado na sua irreversibilidade. O envelhecimento, sendo algo que se modaliza diferentemente de pessoa para pessoa, é obviamente marcado por condições de vida objetivas e pelas respetivas transformações sociais que as assistem. A longevidade será, assim, adicionalmente depreendida como um tempo de todos, desse tal inevitável amanhã do natural envelhecimento.

 
Pensar o envelhecimento e a longevidade hoje, mais do que nunca, mostra-se cada vez mais manifestamente um tempo de todos. Para tal, é inadiável significar esse tempo que se completa e se determina através dos seus múltiplos tempos sociais. Tempos estes que se materializam em dimensões determinantes na qualidade de vida das pessoas, a começar por quem ainda trabalha e aspira à sua justa aposentação. Repesando, deste modo e a diversos níveis, os tempos de trabalho e os tempos de não trabalho. Aprendendo a envelhecer, enraizando o seu saber crítico no que vai acontecendo e experienciando. Procurando viver esses diversos tempos revertendo-os em momentos e circunstâncias estimulantes e, seguramente, bem-sucedidos.


Pensar o envelhecimento e a longevidade hoje, não se acerta, pois então, no momento da aposentação, ou seja, num possível e inquietante tempo de rutura, quiçá marcado por uma continuidade improvável e arredia. Aprender a viver o tempo de aposentação, acarreta compreender, politica e ideologicamente, a extensão e o enredamento do seu percurso prévio. Os caminhos são naturalmente diversos, decerto mais penosos para aqueles que os palmilham em terrenos de maior fragilidade humana, social e profissional. As desigualdades, fonte discricionária dessas fragilidades, naturalmente que se repercutem de modo diferente ante a progressividade do envelhecimento. Todavia, o nosso tempo permanece sempre e continuadamente aprisionado à complexa questão dos tempos sociais, nomeadamente quando ele, de modo abusivo, nos é confiscado. Ou melhor, se consume docemente enquanto objeto de exploração desta confeiçoada ordem colonial capitalista.

PADRE NUNO, XICO NUNO


Dia 9 de julho 2019 – terça-feira, pelas 18h 30m


segunda-feira, junho 17, 2019

UMA MEDIAÇÃO INEVITÁVEL E OPORTUNA


A figura de Mário Nogueira pode não ser consensual. Porém, junto dos professores parece não haver dúvidas. O 13º Congresso da FENPROF confirmou, de modo irrefutável, essa confiança. Nele, certamente, mas sobretudo na sua palavra política e na determinação com que a legitima e a assume. A crença irradiada, pela sua voz, cruza fronteiras sociais e profissionais. Daí, considerar que a sua intervenção representou uma mediação política alargada, claramente inevitável e oportuna.



sábado, junho 08, 2019

A FLAMA DAS MEMÓRIAS, ENTRE O REAL E A FICÇÃO


O segredo discursivo conservador, de parcialidade imoderada, firma-se e afirma-se na sublimidade das memórias. Fazem compêndio deste peculiar e particular património, marcadamente moral, silenciando a verdade do vivido. Calando, e acalcando, a desigual riqueza histórica herdada, sobretudo o agregado espólio de dolorosas e sofridas memórias. Aferra-se, assim, tal cifra em emudecer a voz dos sentimentos dos que mais - e repetidamente - sofrem. Afinal, amargura feita de dores que inspiram, sem destino prévio, um imponderável ímpeto de memórias para além das próprias memórias. Sequelas de singulares e múltiplas vidas, sempre diferentes, marcadas pela absorvente torpeza das desigualdades. Muitas delas imerecidas tramas humanamente indignas. Mais do que os sucedimentos, tais memórias, remanescendo pelo amargo e repisado sentimento, despertam o (re) sentimento. Um armário de dupla face intrinsecamente humano que, criativa e em diálogo, no seu íntimo se nutre e anuncia. Em suma, memórias vivas, e ressentidas, de um tempo passado de jeito algum enterrado.

segunda-feira, junho 03, 2019

ILUSÕES DA VIDA


A palavra poética expande os nossos olhares, agita as nossas compreensões e aviva as nossas reflexões e os nossos pensamentos. A filosofia e a política, de forma natural, nela se inscrevem.


Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu,
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.

Francisco Otaviano (1825-1889)

Retirado DAQUI

sábado, junho 01, 2019

UMA BOA CONVERSA


Gosto de uma boa conversa. De reciprocidades vivas e vantajosas. Escutadas com abertura ao entusiasmo da companhia. Dando vida a experiências próprias. Não de outras e de outros que as calam. Gozando, sim, a autenticidade que se resguarda da não autoria. Fazendo valer a natural fugacidade que, no entanto, deixa marcas. Nesse fundo deleitável onde a alteridade oferta memórias que regressam. Ilusoriamente silenciosa, mas a todo o momento comunicante. Subjetivamente indelével no seu jogo performativo. Afinal, uma conversa que nos acrescenta um quê identitário. Tornando-nos mais completos e, justamente, ainda mais disponíveis. Para a vida, a tal de todos os dias. Com boas conversas.

sexta-feira, maio 24, 2019

O MEU VOTO

Escutei múltiplas das intervenções dos candidatos, diga-se suficientemente bastantes e diversas. João Ferreira merece a minha consideração e, assim, o meu voto. Sério, sempre consistente e coerente. Não se escudou em abstrações e aviltamentos. As suas palavras, sempre explícitas e convincentes, apresentaram e procuraram caracterizar a realidade que, sobre esta intrincada Europa, e em razão disso, importa resenhar. Não fez delas, das palavras, recreio político, nem as usou para desdenhar dos adversários. Falou de problemas, de políticas e questionou, com sentido de oportunidade, os outros candidatos sobre factuais e urgentes soluções. A sua postura, o seu trabalho e a sua voz, serena e crítica, dão-me a mim como cidadão a representatividade que busco nestas eleições. Eis a minha, e apenas pessoal, síntese que a Liberdade me leva a decidir.

quarta-feira, maio 15, 2019

UM SABER QUE NÃO ABRE MÃO DO AFETO


Há coisas que se descobrem quando se sente, quando se existe, de verdade, no afeto do outro. Uma boa sorte, afinal. Uma ventura que se cuida para além do simples estar presente. À partida, sem destino. Segue-se, sim, o resguardo da confiança partilhada. Fazendo relação que a estima anima e o respeito afirma. Por entre palavras e ideias que significam sempre mais. Decantando o desafogo e nutrindo o ser que se vai, desde sempre, sendo. Indagando compreender mais e melhor, ao alumbrar, na andança, escuros que guardam o que não devem. Reconhecendo o valor do diálogo confiável das interioridades. Abraçando no enlace o alcance ontológico do saber humano acerca do humano. Em direção a um sonho justo de imaginar novos e possíveis lugares de estar, com verdade. Mais seguros, genuínos e responsivos. Certamente, mais compreensivos e sociáveis. Zelando pela condição humana e pela sua dignidade. Sem buscas particulares de recompensa narcisística. Apenas transformando a desalmada condição que tolhe a liberdade de sonhar, de descobrir, de criar.

Imagem retirada DAQUI

domingo, maio 05, 2019

OS SILÊNCIOS DA CONSCIÊNCIA


A consciência apela e inquieta. Não por palavras, mas pelo seu murmúrio. O silêncio é uma sua expressão. A cumplicidade destina-lhes a corrente. Movendo juntos a condição moral do acerto. Com ela alcançando uma voz, a dita voz da consciência. Porventura, mais sagaz na possibilidade da sua autenticidade. Uma voz que nos acompanhe na busca da liberdade rendida. De respirar para além da impessoalidade do submerso. Sem culpas a não ser as nossas. As que, de verdade, nos angustiam. E se adentram no nosso ser mais próprio. De um modo autêntico na radical possibilidade de existir. Culpando-nos, então, e aí sim, do que não se fez (ou se fez) enquanto seres-livres. Restam-nos, isto posto, o reconhecimento das desoladoras letargias. Desejando e querendo ter uma emendada consciência. A que nos responsabilize pelo nosso próprio ser. Vivendo, sendo mais autênticos nas nossas escolhas. Morais e não só.

Imagem retira DAQUI

terça-feira, abril 09, 2019

DE FATO E GRAVATA, ELE PRÓPRIO


Há gente atrofiada, reprimida e mutilada que insiste, em recurso próprio, mostrar-se social e moralmente com excelência e sobriedade. Tudo certo, pois a sua moral tem por função apenas convencer, e com isso, lograr descanso na ilusão. Dirigem-se proporcionados aos que importa iludir, mas opostamente não se apaziguam perante a exigência ontológica da dignidade. Eis a clandestina disfunção. Ou seja, o desejo de convencer o outro fazendo-se depender de valores que, em suma e sobretudo, interpelam a sua própria vontade. Esclarecendo não o que a vontade verdadeiramente quer, mas aquilo que quer essa sua circunstancial, quiçá, utilitária conveniência. Assim vai essa gente – confraria de pequenas e mesquinhas personagens – se negando, julgando atingir a desejada afirmação atormentada. Todavia, ficam-se pela aparência, provavelmente certos, não do mérito da fantasia, mas do crédito que um putrefato meio burguês, tido por natural, lhes reconhece.

O fato e a gravata, assim como a panóplia de simbologias similares, ajudam. Mas, conselho meu, se bem perfumados, tanto melhor. Tornar-se-ão, seguramente, mais convencidos e, vamos lá saber, mais convincentes. A fragrância acorre, deste jeito, com o ganho útil de aromatizar o ambiente.

quinta-feira, abril 04, 2019

REFORMAS ESTRUTURAIS, DO DISSENSO AO INSUCESSO SOCIAL


Cruzar-me com doutos economistas a discorrer sobre política, o meu juízo intempestivo convida-me a servir de um simples cálculo em discordância com a cultura do tempo. Como? Sopesando o número de vezes, que da instruída voz, o clamor dos mercados se sobreleva ao iniludível exercício do político. Ou melhor, quantas vezes essa voz, entoando e consagrando o culto de uns poucos, se esforça, e se esfola, por tornar mudo o interesse de todos.

Ouvi-los proclamar por reformas estruturais é como escutar um infundado presságio convertido numa repisada e venerada superstição, à qual a persistência mediática empresta um carácter vizinho do sagrado. Assim sendo, em rutura com tais ascéticas crendices, hoje elevadas ao descaramento neoliberal, importa muita firmeza ideológica (e atenção política) na disputa desse turvado e tinhoso jogo de luz e sombra [1].

Compreender a vida, para nela poder viver agindo e nela poder causar os efeitos ambicionados, só na base de um consenso acrescido, e esclarecido, é possível obter esse poder. O poder de pôr em prática o avesso, ou seja, reformas estruturais insubmissas a essa fóbica fórmula mágica, apadrinhada pelo capital e nutrida pelo acasalamento da cumplicidade política com a sovinice manhosa dos mercados. Agindo, assim, não pela enfraquecida e costumeira reação, mas pela nobreza da decidida afirmação da dignidade da condição humana.


[1] Edição de março 2019, em Reformas estruturais de esquerda, expressão usada, e bem, por Nuno Serra no Le Monde Diplomatique.

quarta-feira, março 27, 2019

FALAR MANSO? PARA QUÊ E PARA QUEM?


Será que vale a pena apreçar a tartufice de ardilosos poderes quando amiúdo repetem a kantiana premissa de que a pessoa humana não tem preço, tem sim dignidade? Pessoalmente, há muito que tais cócegas, vindo de quem vêm, viraram repugnância. Não pela certeza que a premissa alberga, mas pelo vampiresco uso que esses ilustres safardanas põem em cena. Seráficos e entufados doutrinam sobre o humano, e sobre a sociedade, cismando afinal num talhado agregado que lhes obedeça e proteja. Deste jeito, escorando a combinação em familiarizadas desigualdades, de vários matizes e cores, cujo limite, sabe-se, é o trágico desfiladeiro da exclusão. Daqueles que não contam, que estão a mais, pesos mortos sem lugar. Daqueles que somente chateiam e complicam o jogo da exploração, desapossados que estão já da rendosa condição de mercadoria. Subsistam, rastreiam eles, apenas as presas que ainda dão jeito aos predadores que de tal ordem gozam o bom viver. Em suma, dessa ordem que assim cuida, e bem, da marcha civilizacional do rentável, das desigualdades e das exclusões. Caminhada, afinal, que se aperfeiçoa sobre os escombros de múltiplas crises, desdenhando sem pudor do sofrimento que delas deslaçam. Falar manso, para quê e para quem?

domingo, março 24, 2019

UMA VERGONHOSA HIPOCRISIA!

Ler aqui texto completo (de António Nabarrete), tesoureiro do SPGL e membro eleito do CGS (Conselho Geral e Supervisão) da ADSE. Seguem-se alguns dos seus fragmentos politicamente elucidativos …

….

… o que é estranho não é o financiamento pela ADSE das entidades privadas, per capita, de 419 euros em 2016, já que nesse ano totalizava 1.222.809 beneficiários. O que é politicamente irresponsável, economicamente desastroso e financeiramente vergonhoso é, nesse mesmo ano, para o qual se dispõe de dados consolidados, o Serviço Nacional de Saúde ter financiado as entidades privadas, per capita, em 494 euros, já que em 2016 viviam em Portugal 10.325.500 pessoas e todas elas tinham o direito constitucional de aceder ao SNS”.

Chega a ser constrangedor ler e ouvir as barbaridades que alguns desses responsáveis trazem à colação (a maior parte deles sentados agora à mesa dos prestadores privados de saúde) como aquela de que o problema do SNS resulta da “desnatação” que lhe é feita pela ADSE. Não lhes passa pela cabeça que, no estado de fragilidade em que se encontra o SNS, o fim da ADSE levaria ao colapso daquele praticamente de imediato. Mas, talvez seja isso mesmo que pretendam. Já que, dos mais de 1,2 milhões dos actuais beneficiários da ADSE, provavelmente conseguiriam “conquistar” os 200.000 com melhores salários e pensões para as seguradoras privadas”.

Por outro lado, e isto mostra as contradições que se cruzam ao sabor dos mais variados interesses, a ADSE é usada pelo Governo para baixar o défice público, impedindo que esta utilize parte dos saldos positivos que acumulou para se modernizar, tendo em vista o seu combate à fraude e à sobrefaturação. Em sentido oposto, o Governo nada faz para implementar as medidas que inscreve nos decretos-Lei de execução orçamental, que permitiriam à ADSE pôr em prática as novas tabelas de preços, entre outras medidas essenciais à sua saúde financeira. Isto, apesar da ADSE ser financiada praticamente a 100% pelos seus beneficiários titulares”.

terça-feira, março 19, 2019

AS FISIONOMIAS DA PALAVRA


Com a palavra sabe-se como fazer. Com a palavra comunica-se com o outro. Com a palavra critica-se, e faz-se dela uma ferramenta de poder. Nesta caminhada vai-se pisando chãos diversos e, certamente, mudados. Na presença do outro despontam prescrições sociais. As palavras tornam-se aí diversas anunciando a sequela da justura. Atentando-se, ainda, aos lugares e às suas circunstâncias. Porém, na crítica, a palavra desafia. Naturalmente o outro, mas acima de tudo enfrenta o próprio. Na sua identidade e emancipação. Quem sabe, sadiamente malandrando pela incúria das frestas oferecidas pela arenga reinante. Especialmente por aquelas atravessadiças à luz que se busca.

quarta-feira, março 13, 2019

A LONGEVIDADE, UM DESAFIO QUE A TODOS OBRIGA

O envelhecimento e os avanços da longevidade, embora positivos, constituem fenómenos correlacionados que arrastam consigo preocupantes e significantes desafios humanos, sociais, culturais e políticos. A questão demográfica a eles associada, agravada pelo declínio das taxas de natalidade, concede-lhes uma abrangência e importância que a toda a sociedade diz respeito. Compreender esta realidade hoje requer um olhar que oriente o futuro, dando assim respostas adequadas e coesivas à premência dos impasses do presente. Daí, o despontar de um peso político acrescido que deve ser considerado e estruturado, preconizando-se o envelhecer como um continuum ao longo de todo o ciclo vital. A longevidade é, assim, um tempo de todos, o inevitável amanhã do natural envelhecimento.

quinta-feira, fevereiro 28, 2019

NINGUÉM SE ERGUE SEM TOMBAR

                              

Não há ouvido independente. É certo. Todavia, o imbróglio é ter-se um ouvido improvável. Na pretensão da escuta que admite tornar inteligível compreensões absurdas em si mesmas. Melhor dizendo, fazer de uma arenga cabalística algo de aceitável que avilta o outro na sua inteligência e dignidade. Mesmo sabendo que há quem viva, e consiga viver, abraçado à cabala. Mas aí, o visível caricato cumpre o seu papel. Nutre, sem querer, a confiança na suspeição. E assim, a hermenêutica respira e, de modo natural, pode consertar-se. A bem da inteligência maltratada e da dignidade atingida. Mais claro ainda, a bem da verdade que resiste aos descaminhos de mórbidos e sombrios artifícios.


domingo, fevereiro 17, 2019

A CIÊNCIA E O AMOR


Carlos Fiolhais, um homem da Ciência, deu uma entrevista ao Expresso. O sublinhado, em jeito de título, não deixa de ser mordente - Se perguntar o que é o amor, a ciência não saberá responder. Se a ciência não sabe, não pode explicar. Logo, não se aventura em respostas. Mas quantos de nós, falamos de amor porque o sentimento nos consente faze-lo? Quantos de nós, na dúvida ou ausência desse sentimento, damos voz a convicções? Mas, donde despontam as crenças que seguram tais convicções? Qual a natureza e a incumbência, sobretudo histórico-culturais, de tais créditos? Duas asserções de Fiolhais me tranquilizam e, simultaneamente, me desafiam. A primeira, a que antecede o precedente sublinhado - A vida é um dom maravilhoso, e está cheia de aspetos não científicos - e uma outra seguinte que me acalma - O cientista não lida com a categoria de Deus. Em jeito de remate, construo então uma insofrida convicção; o amor não será determinável pela Ciência nem, tão-pouco, em concubinato com um qualquer deus. Assim sendo, resta-nos a liberdade de caminhar, na descoberta e busca da partilha intima e verdadeiramente humana do amor. Valha-nos ao menos isso. Queiramos e tenhamos firmeza, nós, de ser resolutos nessa pretensão.

sexta-feira, fevereiro 15, 2019

O CUSTO DE ESCREVINHAR

O tempo vai transcorrendo. Não o sinto gasto com o seu avanço, nem cansado com a fadiga do andamento. Daí, a ousadia de ainda prezar genuínas vontades. Resistindo à neurose da acirrante e insistente adaptação. Duvidosa e continuada acomodação à reinante mesmidade. Malgrado a provecta idade, num tempo compósito de ajuste com a vida. Hoje em dia, não entorpecida pelas marcas revoltas e indeléveis desse tempo ido, ainda e sempre vivas. Porém, inscritas num presente em que, animadamente, permanecem atentas e vigilantes. Passadas à história, ainda bem que assim se desvelam. Logo, o revisitar do passado, faz-se movimento, condição atualizada. Compreendendo-o, para compreender as circunstâncias do acontecer. Abraçando, creio, o inseparável desafio do por vir das necessárias e humanas compreensões. Sobretudo, neste intrincado tempo sem tempo onde tudo parece suceder. Todavia sem o apetecível, porventura vital, atrito de valor humano.

quarta-feira, janeiro 16, 2019

CRISTINA, A PANTOMINEIRA DO TELEVISIVO


images (3)Dar forma ao individual, pressupõe o eu e um nós que nos presencie e avive. O impessoal desafia (ou dificulta), amiúde, tal suposição. Igual trato não significa invariavelmente perda. Ele, esse eu, produz-se, isso sim, nessa dificuldade. A indeclinável inscrição no totalitário universo do lifetime value inspira, porém, a idealização ética de um lugar, um nós, onde a singularidade se obriga, e abrigue. Uma busca que, mesmo individual, se faça cultural, logo política. Um apego individuante capaz de hostilidade ao fabricado para ingénuo consumo. A ecologia do sistema, também, e atentamente, passa por rechaçar os morcegos luzentes no espaço cénico desta patética e hodierna gramatização mediática.

terça-feira, janeiro 08, 2019

A VIDA QUE SE CALA NO DESTINO


487px-Portrait_of_Dr._GachetA vida faz-se para além do destino que se amostra. O destino, com permanência, escapa à vontade. À vida estende-se uma outra vontade, a do desejo e da subjetividade. A realidade e o Real estabelecem elos diferentes com a vida, e também com a vontade. A realidade inspira o pragmatismo, um útil que nos contém e, amiúde, reprime. O Real, por sua vez, recorda o desejo que, estranhando o verdadeiro vivenciado, acorda a Verdade que em nós resfolga. Um despertar mudo que se desvela empalecido quanto ao humano conhecimento de si próprio. Quebrado, aqui e ali, pela intensidade da vivência confrontativa com as leis improváveis. O já pensado revela-se, então, não esgotado ante o pensamento sempre insatisfeito. A finitude tem o seu termo na morte. O pensamento inquieto entreluz-se no infinito como porvir. Um destino imaginado no limiar de possíveis e de experiências, acolhendo a diligência do simbolizável. Afinal, preludiando roteiros que marquem, com renovada autenticidade, o nosso tempo e o nosso devir. Dando, sobretudo, presença ética à determinação e busca da Verdade, em defesa da sadia condição humana. Nesse fatal cenário do metabolismo entre a liberdade e o compromisso.

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segunda-feira, janeiro 07, 2019

MELHORES ILUSTRAÇÕES

Aqui vai uma manifestação sincera, ao amigo e à sua criação “Simão sem medo”. Um trabalho sublime, pela calorosa e destemida mensagem, assim inteligentemente repassada…

Distinção feita em ANTOLOGIA DO ESQUECIMENTO e daí retirada.

bagulhoEduardo Galeano, “As Palavras Andantes”, trad. Helena Pitta, gravuras de J. Borges, Antígona, Junho de 2018 e Miguel Granja, “Simão sem medo”, ilustrações de Beatriz Bagulho, Douda Correria, Outubro de 2018.

Escreve-se; “Seria injusto esquecer as gravuras de J. Borges, das quais tivemos conhecimento através deste livro de Eduardo Galeano. Mas mais injusto seria não dirigir a nossa atenção para as ilustrações de Beatriz Bagulho. O n.º 3 da colecção Puto Xarila é um mimo a pensar na juventude, mas perfeitamente acessível a gente mais crescida. Uma delícia”.

domingo, dezembro 30, 2018

UM TIPO MAIS QUE PROVÁVEL


pintura-em-tela-abstrata-pinturaO tipo mais que provável normalmente é perspicaz, sobretudo matreiro. Tudo o que diz tem significado, mostra-se claro e, como é normal, veicula sentido naquilo que diz. Os porquês são compreensíveis e o arrazoado revela inegável discernimento. Assim, o tal tipo mais que provável ao acreditar que aqueloutro, o outro a persuadir, acredita, e ante a verossímil aceitação, supõe-se já bem perto da proeza. Logo, sente-se aí mais confiante, seguro do tempero usado no urdido simulacro da sua calada razão. Se a sua fé porventura balança, a argumentação estende-se então pelo interior tortuoso da cooperante desculpa. Ante um qualquer revés lógico, ou desacauteladas imperfeições, as justificativas saltam, de imediato, em jeito de primeiros socorros. A realidade da artimanha não podendo revelar-se, as justificações do tipo mais que provável, nestas circunstâncias, cumprem o seu ofício. Apressadamente elas, tais justificações, se precipitam e se prestam, como é óbvio, às urgentes e imediatas assistências. Se o cenário, por acaso, se enlaça e toca os limites da dificuldade, o tipo mais que provável mesmo assim não abdica das suas intenções. Entra na decisiva e sintomática fase da emergência do pretexto, na parte aguerrida da subtil evasiva que o subterfúgio sempre acolhe. Abriga, então, e teimosamente, a sua farsa passando da aclaração à bruma da altercação. Mais do que repisar o que havia dito, ao tipo mais que provável convém-lhe agora desviar o foco. Por outras palavras, interessa-se menos pela conformidade da sua narrativa e mais por dispersar e contraditar as apreciações do outro. Não obstante, o tipo mais que provável desfruta de uma qualidade particular que aprecio; não morde pela calada, característica seráfica dos fracos normalmente sonsos e silenciosos e, pior do que tal, inconfiáveis.

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quinta-feira, dezembro 27, 2018

SAÍDAS SEM SAÍDA


labirintoO tempo civilizacional, cada vez mais eivado pela impostura económica, é um tempo de intensa oscilação quanto às coordenadas humanas do bem-estar. A sedução brilha ao ponto de se multiplicar, ela própria, como indispensabilidade. A palavra e a imagem, neste exercício de desdobramento, cumprem por função o múnus de imanizar e persuadir. Identicamente, a somada pretensão de se estender à vindicação do ganho. A expressão ampliada do utilizável, quiçá torcida, enfim, é o que conta e significa. A suficiência da sua linguagem performativa encurta-se ao ato de prometer saídas, pretextando necessidades. A efemeridade do transitório, sempre urgente, insinua-se chave. Do espúrio desejo irrompem muitos outros sem fim à vista. A contaminação refina e ornamenta o horizonte do artifício, na sua verdade firmada ao ato de prometer. Mais do que as pessoas, interessa o desvelo no ordenamento do carrilar, orientando o sonho ao retorno da saída que se segue. Exibe-se o referente, invariavelmente performativo, ocultando o sentido do seu enunciado. Com toda a certeza, livrando-se do sagaz, mas incerto comprometimento. Os conteúdos das promessas sucedem-se, assim, na sua própria e natural dissolução. Delas próprias, e com elas, maculando a dignidade humana. Acredite-se, ou não, na aleivosia das promessas, afinal, muitas delas profetizando esperanças sem saída.

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quarta-feira, dezembro 19, 2018

UM ALARGADO ABRAÇO NATALÍCIO


10840(1)Estar em família, privar com amigos, coisa bem diferente ou nem por isso? A família é sempre família mesmo quando o deixa de ser. Os amigos são sempre amigos por que, deixando de o ser, deixam de ser amigos. Não existe uma perfeita fronteira a separar família e amigos ainda que a axiomática biologia revele a diferença das suas raízes. No entanto, e surpreendentemente, o comum que resiste à diferença, e ao tempo, arrasta empatias e aproximações que embaraçam sentimentos. Com os anos, não sendo outros, não somos os mesmos. Na vida muito acontece, um tanto se vai desgastando e, por vezes, os abalos despontam. Voltas e reviravoltas fazem-se, então, história de situações e de estímulos que desconcertam. A qualidade das relações e das identificações naturalmente movem-se. Decerto, no sentido homológico e sadio da complementaridade. Mudanças nem sempre conscientes, não obstante, certamente avivadas pela compreensão que comunica e pelo afeto que aconchega. Assim sendo, a todos quantos presentificam a minha amizade, um genuíno e grato reconhecimento. Votos de um doce e aprazível Natal para esta minha grande família, onde todos vós, no meu pensamento, comigo consoam.

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quinta-feira, dezembro 13, 2018

O MEIO-TERMO DAS MEIAS-TINTAS


É um desafio diferenciar a disposição que nos determina, do hábito que nos monotoniza. A disposição envolve o vivamente interiorizado. Um quê, vinculado e ético, que verdadeiramente nos toca, feito de uma particular dignidade. Por seu lado, o reflexo e urgente hábito, afeta a exigência do esclarecido poder de estar, aliás, de ser. O elogio do meio-termo, da ideia virtuosa do sequente mediano, não deixa de se fazer fatal critério. Desde sempre cómodo, quando não frouxo e preguiçoso. Em consequência, a inércia da aprontada rotina, assumida e admitida, tolhe o ímpeto da determinação. Não aos excessos, nada de extremos, é o lavrado e prático princípio que, na premência do juízo, se intromete. No despropósito dos excessos e dos extremos, moram imperfeições, adverte-se. Em modo de solfejo magnânimo, e num clima de fosca transparência, logo se treina  uma suposta e despontante razão prática. A moderação projeta-se, deste jeito, no acerto inexato de uma imaginosa proporção acordada. Embora se entoe as notas apreciativas do bom ou do mau, à sorrelfa se exercita, isso sim, a música alinhada do útil. O que remanesce é o entorpecimento do enlace dinâmico da relação que aproxima a disposição do hábito. Como? Mirrando a fecundidade ética da possibilidade dialética que, com efeito, vale e, sobremaneira, conta. Porém, abafado na (des)ordem das meias-tintas.

domingo, novembro 25, 2018

O HORIZONTE DA INTIMIDADE


intimidade_web_25marEm nós, podemos escutar os outros. Logicamente, o contrário também se dá. Aproximando-nos sem imaturos amedrontamentos. Cuidando da confiança e reconhecendo a possibilidade da certeza incondicional. Admitindo, assim, o amparo humano e, seguramente, a familiaridade ética. Deste jeito, conhecendo a partilha que vale, e convindo, se faz conquista. Um procurado passível de uma relação vigorante e, por conseguinte, esclarecedora e edificante. Aprenda-se, então, que a intimidade, condição desse vínculo vital, é algo provavelmente bem humano e valioso. Abertos a essa esperança, acaba-se por construir sociabilidades que significam, pois arrastam consigo, afeição, respeito e enlevo. Convictos de que a intimidade verte um humano vergado que importa desencarcerar, libertar. Dando corpo a uma humanidade que aceite renovadas espessuras e finalidades. A Vida agradece, e certamente Ela, nos saberá retribuir.

Imagem retirada DAQUI

sábado, novembro 24, 2018

IMPACIÊNCIA HISTÓRICA


picasso-poverty-old_beggar_with_boyNeste tempo neoliberal de reconhecida e institucionalizada desigualdade, provavelmente necessária à colonizadora ordem capitalista, apenas as brutais parecem estorvar. As demais, sobremodo naturalizadas, quando não por inteiro incorporadas, tornam-se objeto adotado. Para tal, e como importa, almofadadas de minguado merecimento político. Um fabrico-disfarce que simplifica e enfraquece o valor de busca do comum e da alteridade que o abraça. Desencaminhando olhares, desvitalizando pensamentos e acorrentando comportamentos. Tudo se amolda para encobrir o lado negro desta mórbida modernidade, transfigurando-o numa existência perdida, se possível inteiramente ausente. Ainda assim, neste limiar desalumiado sobrevêm sementes de impaciência capazes de germinar diferentes plantas, novas ecologias. Quem sabe, vicejando destinos históricos diferentes, ao encaminhar-se regas para este chão abandonado. Afinal, campos que, de modo acintoso, o senhorial capitalismo, e seus satélites, teimosamente enjeitam prezar.

Imagem (O velho Mendigo com  o Menino, de Picasso) retirada DAQUI

quinta-feira, novembro 15, 2018

O VAZIO DA REPETIÇÃO, UM AGASALHO À PASMACEIRA


À contumácia irreflexiva de histórias de vida enlutadas resta-lhe, pelo seu afinco, crer no recheado vazio da repetição. Um persistente retorno agasalhado na persuasiva construção de uma abreviada e árida sinopse. De certo, histórias de conformados crentes na dócil promessa de um recomeço com amanhã. Tudo parece mostrar-se aprazente, embora submerso na moderação socializada do pragmático. Incansáveis, deambulando por pitorescos caminhos recalcados. O insólito sussurro basta para resfolegar o alento. E com o tempo, a restauradora rotina, em circense modo de saltimbanco, reverte-se ingrediente. Sem dúvida, incrassada por um sonso entusiasmo expansivo. Haja assunto que enfeitice, supondo-o sustento para a bitola de um acreditar confiado ao interior de um acanhado pensamento. Invariavelmente dependente da mesmidade, das suas ocasiões fantasiosas, da patética diversidade do acidental que a desenha. O vazio ocupa-se, assim, consumindo-se de uma discretíssima, mas animada e demorada existência a meia haste. Apesar da licenciosidade, afinal de contas, o imoderado sinal de luto justifica-se.

sexta-feira, novembro 09, 2018

REVISITAR O PASSADO

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Revisitar o passado é ir ao encontro do acontecido. Revivescendo-o no tempo. Um percurso regressivo sempre singular. Que alumbra e completa o presente e, ao mesmo tempo, espraia limpidez no horizonte. Afinal, um passado que hoje resfolga, ainda que embaraçoso.

Ao contrário daquele outro, abandonado e esquecido na amiudada crueza de enquistadas memórias. Empobrecidas na sua história, e na sua verdade. Caprichosas reminiscências que parasitam silêncios ignorados. Ou, simplesmente, incompreensões de uma sombra, de um vulto. De um vulto com rosto, embora inquieto, insensível à vitalidade do coração do desassossego.

segunda-feira, novembro 05, 2018

SIMPÁTICAS? TALVEZ, MAS OCIOSAS INCRIMINAÇÕES

A acusação inútil, ou ociosa incriminação, é aquela que, fingindo opor-se, serve a regência de um poder que, habilmente, encena o sujeitado silêncio das causas que, bem vivas, gritam no âmago do desrespeito ou do abuso.

terça-feira, outubro 30, 2018

NO FUTEBOL, UMA SIMBIOSE DESTRUTIVA


synthetic_grass_for_soccerTodos nós somos diferentes na nossa complexidade, histórias de vida e funduras biológicas. Deste compósito soltam-se as raízes etiológicas dos nossos comportamentos. Os da nossa fragilidade, também. Muitos dados, nos diversos patamares de busca e entendimento, estão catalogados. Aqui, de um modo por demais conciso e modesto, interessa-me considerar apenas o meio e a sua influência. Sobretudo, genericamente relevando as suas dimensões educativas e emocionais. As primeiras, pela sua frivolidade e insensatez. E as outras, as emocionais, que fluindo do enodoar das anteriores, se constituem em uma estirpe de razão. E de tal modo, que em forma de mediação socialmente extensiva, procriam uma toxicomania constitutiva da sua atual cultura. Diga-se, paradoxalmente euforizante e sedativa. Não falo do futebol, mas de um simulacro da cultura que o assiste. Uma cultura, sobretudo mercantil, que acolhe e abriga profusos venenos provenientes de um catabolismo mediático parasitário, que dele, do futebol, simulando servir, afinal, dele vai beneficiando. Por mim, como não sou capaz de mudar o meio, vou-me mudando de meio. Num experimento de regressão terapêutica, livrando-me de objetos nocivos e, nesse decurso, procurando soterrar, a pouco e pouco, os resíduos das minhas tristes e pessoais lembranças.

Imagem retirada DAQUI

sábado, outubro 27, 2018

LUTAS SEM ALVO, INAPTAS DEFESAS


Mora em nós, um impreciso caos aclimatado por um doloroso entendimento, sobretudo, quando conformados com a inabilidade da sua mestria. Porém, quando esse entendimento se revela indiscreto ou impertinente, e o desconforto se advinha, engenhosamente dele escapamos, ou achamos fazê-lo. Nesse momento intrigante, o vivido aí marcado pelo genuíno sentir, embora amalgamado no lastro da experiência e da fantasia, apresenta-se, e anuncia-se, incómodo e inquietante. De tal jeito que a importuna agitação, nessa inimizada circunstância, se revela, e rebela, de igual modo, provocante e angustiante. Aculeada, esse despertar nos faz perceber, furtivamente, a embaraçosa verdade de uma liberdade refreada pela mordaça da iniquidade. Da malvadeza desse despótico costume doutrinário que nos afaz na presunção de nos fazer. Tornar ao passado, levantar o véu do supostamente esquecido, não é retroceder. Se o for, tomemo-lo como uma regressão necessária à busca de recomeços e de novas e imagináveis progressões. Oxigenando, com humana ousadia, o sangue que circula nas artérias do nosso pensar e do nosso agir, de modo a iluminar as ocultações que se abrigam na sombra e se disfarçam nos desvios dos nossos caminhares. Ao rememorar deste jeito o passado, novas geometrias éticas se alcançam, recuperando-se certamente um presente mais instruído, capaz de diferentes paisagens pessoais e humanas, mais livres e envolventes. Assim como, creio certo, socialmente mais autênticas e tolerantes.

domingo, outubro 21, 2018

OS BEIJOS NO MERCADO DA IDIOTICE


bebe-mandando-beijoDesenvencilhem-se desta mercancia aparvalhada, afamada ou ingénua, e, em consequência, não a receiem. Em comum liberdade, beijai-vos, tocai-vos, enlaçados pelo afeto, pelo amor, pelo prazer. O tempo e a circunstância da ocasião determinarão a justeza da razão do gesto e da sua verdade. A necessidade do agasalho, aliás uma rebelde tendência instintiva, como é sabido, persiste para além do colo da mãe. Embora mais cuidada e socializada, provavelmente menos pulsional, a raiz do princípio perpetua-se. Os objetos substitutos respeitam, deste modo, e nesse novo tempo, a genealogia dessa necessidade primária, agora e sempre conduzidas por uma busca indeclinável da assegurada homeostasia. Por isso, e por sensibilidade, tenho por divisa não pressionar, ou aprovar, que obriguem uma criança a cumprimentar, beijando. O instinto dela, expressa na sua pura e genuína vontade é, assim, por mim fundadamente estimado. Pelo respeito que experiencio pelo insondável cadinho materno dessa inicial e referida relação primária. Seja a criança familiar próxima ou uma não-familiar mesmo que chegada. A formação da consciência de uma criança não abençoa, dizem os entendidos, o distorcer desse seu conforto, desse seu aconchego, dessa sua humana instintividade. A obrigação imposta, por ela ainda não reconhecível, por via da inerente coerção, faz-se mais uma semente de má-consciência culpabilizante - e não uma consciente formação desejável -  que o arbítrio educacional reforça, ou saberá acalentar, pela ameaça do sermão na sua continuidade normalizadora. A liberdade, acredito que sensatamente, não dispensa o ambiente de alteridade que a acompanha. Ela, a liberdade, educa-se nessa irrecusável clave mediadora que é a hermenêutica da alteridade. Por isso, impõe-se não simplificar as raízes do quotidiano que alimentam a figura epistemológica da conflitualidade interpretativa. A possibilidade de tal verdade exige acerto, distanciamento e profundidade, sobretudo moral. Concluo, então, que o disparate sempre insulta, e a lisura, apesar de tudo, nem sempre desagrava.

Foto retirada DAQUI

terça-feira, outubro 16, 2018

ANTÓNIO COIMBRA DE MATOS, NO “PRÓS E CONTRAS”, O BRILHO DO SABER E DA SIMPLICIDADE


antonio-coimbra-de-matosAcompanhei com muito interesse, ontem, o “Prós e Contras”, dedicado ao tema #MeToo (Out, 2018 | Episódio 30). Tópico obviamente disputável onde as lídimas ideias se debateram, apesar de algumas outras (felizmente poucas) contaminadas pela vaidade e afirmação pessoal, acrescidas pelo vulgaríssimo (por incalculado) interesse politiqueiro. O ciúme de Isabel Moreira, atraiçoou-a. Raquel Varela tem igualmente presença e ideias. Podemos não concordar com ela, mas o argumento da belicosidade fácil não colheu, e do meu ponto de vista, Isabel Moreira desaproveitou a circunstância. Neste cenário, Coimbra de Matos avantajou-se. Pela simplicidade do seu sinótico mas substancial discurso, sensatamente somado à estética recatada e natural dos seus gestos. Um senhor…

Socorrendo-me de uma entrevista sua, aqui vos deixo, através de algumas das controversas passagens, uma imagem  impressiva dessa figura nobiliária, nomeadamente enquanto intelectual/psicanalista.

sexta-feira, outubro 12, 2018

A AMEAÇA DE UMA ÉTICA QUE CALA A SUBORDINAÇÃO


Nem sempre se é capaz de interpretar as coisas à maneira de Deus, mas, quando assim é, não resta outro caminho se não tentar compreender as coisas à maneira dos homens. Assim, parafraseada esta ousadia saramaguiana, e sobretudo adotando-a, é ajuizado ter profundamente presente o fatal entrecho do necessário teatro mental no qual se vai encenando a busca de mudados entendimentos.

Consentindo a transitoriedade da humana verdade, quando não a sua intangibilidade, importa não recusar a subjetividade tolerável de um incerto resvalar, quiçá lírico, todavia verdadeiro humano. Ainda que de apego ardente, ou mesmo obstinado, tanto como consciente se está da adversativa familiaridade dos cenários reguladores de bastardos movimentos, ou mesmo, de acabados destinos lógicos. Sente-se, assim, impelidas por tão valorosa firmeza, a vontade e o desejo de caminhar sem fim por lugares de coragem moral, não abandonando a possibilidade, despontantes de desafiantes brechas, de continuar livremente a desejar.

Pergunta-se, então, que consciência determina a convivência reflexiva com um tal roteiro ético que, afinal, tanto inquieta? Onde se encontram, em suma, as raízes da liberdade que, por último, fazem medrar tal inquietude? Será que tal liberdade permanece no interior do seu contrário, nesse avesso que cala, sob o signo do ético descorporalizado, por certo uma consciência desanimada, fracassada ou, quem sabe, destruída?

Não será uma outra, porventura uma conflituante consciência, a condição da possibilidade constitutiva do ser sujeito, sujeito da sua possibilidade de ficcionar, de se inventar e mudar? Uma consciência que, de verdade, dê sentido a uma primordial necessidade, a da necessidade de surpreender uma ética que amolde e proteja uma condição que propicie a possibilidade de transfiguração e transformação, a bem de uma liberdade radicada na condição humana, e como tal, zeladora da sua, e sempre, melhorável dignidade? Vale a pena tentar. Acredito que … sentir-nos-íamos bem mais vivos e, decerto, mais felizes.

sábado, setembro 22, 2018

UM OCULTO ARAME FARPADO

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Parafraseando Saramago:

o ser humano que nos gabamos de ser sempre soube humilhar e ofender aqueles a quem, com triste ironia, continua a chamar de semelhantes. Para tal inventou-se o que não existe na natureza, a crueldade, a tortura, o desprezo.

De Folhas políticas (1976-1998). Lisboa: Caminho


A subalternidade e a dependência peregrinam quase sempre de mãos dadas. Tal vagueação, sentida como condição, torna-se um cego namoro que se encanta no silêncio da subordinação. Nesse mesmo tempo, acasalam-se as suas almas, e o trato intimo entre ambas, posteriormente, favorecem o seu arrumo no virtuoso mundo da modéstia. A história continua e faz-se ao toque da ordem pura das coisas. Uma probidade desenhada sem suspeitos tolhimentos, nem imposições. Tudo correndo no sossego e silêncio dos deuses e, como convém, sem avisados antagonismos. A subalternidade e a dependência, desse jeito, neste olimpo assentam os cavoucos de uma acondicionada posição entre o “eles” e o “nós”. Entre os que, nessa ordem calculável, aproveitam e os outros. Estes outros que renunciam, ou apenas familiarmente dormem, todos os dias, na cama dos seus amos.

quinta-feira, agosto 30, 2018

ENGANO, DESCUIDO OU ESCORREGADELA?

1554423_10152751924264119_612837382_nDe Dublin, em pleno voo de regresso a Roma, o Papa Francisco deu uma inolvidável conferência de imprensa. No essencial, recusou-se a comentar as incriminações publicadas a respeito do arcebispo Carlo Maria. Sobre a trama da diferença, não menos essencial, pelos vistos ficou-se por uma ressarcida recomendação. Aconselhou à reza, ao diálogo e ao entendimento dos pais face à eventual homossexualidade dos filhos. Mas, ao que tudo indica, nunca, e bem, à sua condenação. Porém, mais à frente, o sublimíssimo Papa borrou totalmente a pintura. Sugeriu a psiquiatria, na crença terrena da bondade terapêutica da regeneração, particularmente na idade da infância. Em oposição, depois dos vinte anos, a crença papal perde a energia da convicção e, como resultado, as mercês médicas saem desgraçadas. Estranhamente, se dissipam os saberes e as competências que asseguram a cura. Deste jeito, a patologia hospeda-se sem retorno, embora, valha o Padre-Santo, sem mancha de pecado. Engano? Descuido? Escorregadela? Na minha opinião, Francisco apenas resvalou, impelido de empurrão pelo peso arcaico do Vaticano.

quarta-feira, agosto 29, 2018

LER, SENTINDO HISTÓRIAS MINHAS

 5da1c71f78e6_edipo02As diárias leituras, hoje bem passadas pela joeira de presumidos proveitos próprios, e ajuizadas pelos ecos que delas possam ressoar, oferecem-me um acrescido valor a uma vida arrastada, quiçá teimosamente rebuscada, que inspira, e vivamente marca, um embasamento – último, na verdade, mas sempre perplexo – à compreensão da humana vida. Esse lugar fundado, e conformado por múltiplas paragens de confortos desprotegidos, a todo o momento por mim desafiados, tem acolhido tocantes encontros profundos, uns pungentes, outros cenicamente fantasiados, todos eles familiarizados com histórias que se partilham, poucas confinantes, muitas certamente afastadas, algumas, por fim, insuportavelmente insuladas. Afinal, um lugar de fortes experiências, onde o provisório teve sempre um papel, o do compromisso de se oferecer à inclusão e respaldo de agilidades identitárias, todavia hoje ciente da imensidade do meu despreparado cuidado. Revisitar memórias, dar-lhes o merecido destino, desfrutando dos livros que se lê, do que com eles se cabouca, é muito provavelmente vasculhar a provisoriedade do transitório então rejeitado ou, mesmo, lamentavelmente despercebido. Revisitar memórias, enriquecidas por estes olhares ausentes, descortinados na fertilidade dos seus textos, desperta em mim um sadio aclaramento de histórias julgadas encerradas. Em síntese, favorece a ressignificação da minha história, nessa impérvia busca peculiar das suas terrenas verdades.

domingo, agosto 12, 2018

À FENOMENOLOGIA DOS INCÊNDIOS GRUDA-SE A FENOMENOLOGIA POLÍTICA DOS OPORTUNISMOS

Falar seriamente, e com a lisura necessária, sobre a entroncada fenomenologia dos incêndios, suporia conhecimentos e saberes de que não sou capaz de arrumar, muito menos de alinhar. Assim, ao acolher esta minha ignorância, feita fraqueza, socorro-me, como objeto de abordagem, as múltiplas e mescladas derivações discursivas que, conscientes ou não, com mais ou menos espavento, desconsideram tal exigência. Sendo assim, e bem ciente deste meu ponto fraco, desloco a minha atenção, e disposição crítica, para a intrigante assadeira onde as significações se cozinham, desatendendo ao claro objeto factual que é o incêndio. Estes, os incêndios, para além das suas dramáticas consequências, revolvem as nossas subjetividades, atiçam as nossas emoções e afervoram os nossos pensares. É neste caldear de sentimentos e razões que o pensado, por vezes, se deixa contaminar por germes que falseiam o que depois se diz e não o que verdadeiramente se pensa.

O discurso político canhestro, que neste breve comentário destaco, e aqui denuncio, explora tal circunstância para exercitar, de modo afrontoso, a sua travessa e costumeira competência de modalizar o campo prestadio da significação que espera encenar. Inventa e inventaria, assim, indicadores (e cicatrizes) de modo a que o afloramento da mendacidade útil se aproprie q.b. da veracidade que, por si só, afinal de contas, mesmo assim embaraça muitas, e mais alargadas, responsabilidades. Fazem-se acasalar, então, várias e dispersas racionalidades, amanhando a relativização necessária á função de entontecer e cultivar a intriga pública. Deste modo, à fenomenologia dos incêndios gruda-se a fenomenologia dos oportunismos, alargando-se o chão meândrico de potenciais e circunstanciais determinações. Não me desperta muito interesse em saber se há (ou não) vontade liberada de enganar. Suscitar a possibilidade da falsidade, não sendo esta sinónimo de enganar, com toda a certeza carrega em si o sinal indesmentível da disposição para a trapaça, nomeadamente política. Nefastos exemplos estes, eis o remate crítico desta minha breve e despretensiosa anotação.

quinta-feira, agosto 09, 2018

É UMA QUESTÃO DE TEMPO, DIZ O PROFETA DANIEL


DPCO que se pode esperar deste profeta, de insuspeita imparcialidade, quando se apresta em porta-voz de uma deidade categórica? Dele, ouso nada dizer. Apenas desafio quem desconhece os meandros das suas profusas e multifárias mercancias, que busque os seus rastros e pegadas. Em particular, nos recessos esconsos dos matizados poderes que, ao arúspice Daniel, lhe parecem valer. A si, se alguma intenção tem de melhor o conhecer, os media nada, ou coisa alguma de essencial, lhe revelarão, tal como os amigos a quem ele serve ou de quem ele se serve. O comum do cidadão, amigo ou não, mas seu próximo, talvez se quede em um desacautelado e disseminado estado de vegetativo senso comum. Embora ainda que nada disso lhe aparente, patavina lhes peça também. O “divino, afinal, poderá estar em si. Quem sabe, na sua demorada e laboriosa diligência. Talvez assim se safe ao visionarismo deste sábio predestinado a epifanias escatológicas apadrinhadas por misteriosos e bem-acondicionados segredos. Escreve ele[1]:

“… as corporações do Estado agitam-se em reivindicações e multiplicam-se as reclamações sobre insuficiências de investimento e dotação na saúde, na educação, na ciência, na cultura, na justiça, nas polícias, nas Forças armadas”, sem “um minuto de reflexão sobre a dimensão da nossa dívida pública e privada, nem o peso dos impostos que recaem sobre os que produzem, vendem e exportam para sustentar o Estado”. É uma questão de tempo, diz ele. E acrescenta; o PCP e o BE “… vivem num tempo que já não existe e num mundo que caminha indiferente ao que eles pensam e advogam”, não poupando os sindicatos, afirmando que são uma “base sindical … fora da realidade”.

Não obstante, o profeta Daniel talvez esteja certo na sua predição futura, presumo já muito próxima de factual efeito. Como amplamente se reconhece, enquanto a esquerda sobrevive através das ideologias, a direita vai alcançando, com muito trabalho e exsudação, as convenientes verdades. Aqueles devoram-se em utopias, estes, pragmáticos e proficientes, promovem a responsabilidade de ordenar. A realidade é com “ELES”, já que os primeiros se perdem nos odiosos interesses corporativos e “ESTES”, pois, cuidam do interesse geral. O bom tempo está, anuncia o profeta, a caminho, graças a Deus, a caminho do seu termo. Finalmente, que alívio será, exclamaremos todos nós. Na verdade, já ninguém ouve o PCP, do BE só se fala porque existe ainda o Robles, e os sindicatos, esses, fora da realidade, prontamente decidiram emigrar para outras galáxias. Até que enfim, a paz vai descer à Terra, trazendo com ela a Igualdade, a Justiça e a Verdade. O profeta Daniel, afinal o prenunciado mensageiro que nos faltava, e que tanto desejávamos veementemente, disse. Logo, está dito. O Futuro não é já esperança. Ele está aí.


[1] Reprodução de citações  de Sandra Monteiro, no Le Monde Diplomatique (agosto 2018), no seu texto “Na construção do senso comum”.

terça-feira, julho 31, 2018

A MENTIRA, OU A BOA-FÉ, NO FIO DA NAVALHA

A dissimulação do pensado, apurada pela palavra dita, supõe um prévio decurso que vai do íntimo pensado ao dito distorcido pela astuciosa arte de tudo embrulhar. Em definitivo, uma inscrição que pensa o pensado, acorrentando-o à hábil urdidura da versão a consertar. Paradoxalmente, de quando em vez, menosprezando até o factual iludido; o outro, o próprio, ou ambos. Todavia, cuidando sempre, ciente ou não, da inautenticidade que habita esse abeiramento com sensatez ou com a falsidade que, igualmente, lhe é próxima. Dessa significação, o conteúdo vale o que vale, pelo objeto mencionado e, sobretudo, pelo sentido aí colocado. O ato de significar não dispensa o outro, e a sua circunstância, vínculos do intimamente pensado, que pela calada se faz intencionalidade ausente. Boa-fé, talvez. Ainda assim, coxa. Se tomba ou não, depende da verticalidade. Se cai, apenas remanesce a mendacidade.

quinta-feira, julho 26, 2018

A INFEDILIDADE DOS ESPELHOS

imagem-distorcidaOs espelhos da vida, mais do que exibir, representam. Afinal, é neles que nós obstinadamente nos espelhamos. Os seus semeados e difundidos reflexos saciam os nossos olhares lamentavelmente viciados. Na procura de ser, distraímo-nos, afinal, do que queremos ser e, de modo igual, descuidamos de que não somos os mesmos todos os dias. Com razão, ou sem ela, as afeições nem sempre se mostram concertadas no tempo ou nas circunstâncias da vida que se vive. Bem como, por vezes, mais vezes do que achamos, o nosso pensamento, e a imaginação que o assiste, ao abandonar o necessário, deserta apressado de nós próprios. Desencaminhada assim a natural vontade, fazemo-nos desprotegidos inventando ilusórias forças. A intrusiva ressonância dos espelhos atrai inconfiáveis energias, condição conveniente à exaurição da remanente languidez da nossa já insegura liberdade e inteireza. Com os nossos corpos espartilhados nesta abetumada envolvência, que só a custo cede a diferentes promessas, o nosso ser social adoece, e assim se esmaece. Acordar os nossos corpos dormentes obriga lembrar-lhes os poderes vitais sumidos, entorpecidos que estão, quer ao serviço da tirania de uma ideologia fundada na superfície do desperdício, quer afundada na asfixiante financeirização de uma sociedade que a agracia. Para tal, muitos desses poderes vitais são, por esta muda sujeição, suspensos e paralisados, quando não mutilados. Os apregoados e proliferados espelhos retiram-nos, certeira e penetrantemente, a profundidade e a transparência da vitalidade crítica dos olhares. Desvio que nos confunde as emoções, raízes de sentires que se plasmam, pela sua letargia, numa cultura de massas arrastada por esta mercante e padronizada trivialização cultural. Mais do que o manejo da democracia, de um modo tópico, hoje importa-me relevar as cínicas formas de autoritarismo dos espelhos que, bem arrumados, servem as artimanhas deste poder diverso que nos abafa e brutaliza. Uma obscura mesmidade, se bem que eficiente, vicia e contamina a absurdez do nosso olhar que, assim perturbado, vai divisando ilusórias singularidades. Eis aqui um chão, nem sempre ressaído, donde medram muitas das raízes da silenciosa perfídia dos reportados espelhos e espelhamentos.

quinta-feira, julho 12, 2018

“DE PERNAS PARA O AR”, UMA HOMENAGEM A EDUARDO GALEANO


No dia 17 de julho o auditório da Fundação José Saramago acolhe uma homenagem ao escritor uruguaio Eduardo Galeano, falecido em 2015.  Para conversarem sobre o legado do autor de De Pernas para o Ar – a escola do mundo às avessas, estarão presentes Alejandro García Schnetzer (editor), Gaddafi Núñez (músico) e Pilar del Río (jornalista).