terça-feira, abril 09, 2019

DE FATO E GRAVATA, ELE PRÓPRIO


Há gente atrofiada, reprimida e mutilada que insiste, em recurso próprio, mostrar-se social e moralmente com excelência e sobriedade. Tudo certo, pois a sua moral tem por função apenas convencer, e com isso, lograr descanso na ilusão. Dirigem-se proporcionados aos que importa iludir, mas opostamente não se apaziguam perante a exigência ontológica da dignidade. Eis a clandestina disfunção. Ou seja, o desejo de convencer o outro fazendo-se depender de valores que, em suma e sobretudo, interpelam a sua própria vontade. Esclarecendo não o que a vontade verdadeiramente quer, mas aquilo que quer essa sua circunstancial, quiçá, utilitária vontade. Assim vai essa gente – confraria de pequenas e mesquinhas personagens – se negando, julgando atingir a desejada afirmação atormentada. Todavia, ficam-se pela aparência, provavelmente certos, não do mérito da fantasia, mas do crédito que um putrefato meio burguês, tido por natural, lhes reconhece.

O fato e a gravata, assim como a panóplia de simbologias similares, ajudam. Mas, conselho meu, se bem perfumados, tanto melhor. Tornar-se-ão, seguramente, mais convencidos e, vamos lá saber, mais convincentes. A fragrância acorre, deste jeito, com o ganho útil de aromatizar o ambiente.

quinta-feira, abril 04, 2019

REFORMAS ESTRUTURAIS, DO DISSENSO AO INSUCESSO SOCIAL


Cruzar-me com doutos economistas a discorrer sobre política, o meu juízo intempestivo convida-me a servir de um simples cálculo em discordância com a cultura do tempo. Como? Sopesando o número de vezes, que da instruída voz, o clamor dos mercados se sobreleva ao iniludível exercício do político. Ou melhor, quantas vezes essa voz, entoando e consagrando o culto de uns poucos, se esforça, e se esfola, por tornar mudo o interesse de todos.

Ouvi-los proclamar por reformas estruturais é como escutar um infundado presságio convertido numa repisada e venerada superstição, à qual a persistência mediática empresta um carácter vizinho do sagrado. Assim sendo, em rutura com tais ascéticas crendices, hoje elevadas ao descaramento neoliberal, importa muita firmeza ideológica (e atenção política) na disputa desse turvado e tinhoso jogo de luz e sombra [1].

Compreender a vida, para nela poder viver agindo e nela poder causar os efeitos ambicionados, só na base de um consenso acrescido, e esclarecido, é possível obter esse poder. O poder de pôr em prática o avesso, ou seja, reformas estruturais insubmissas a essa fóbica fórmula mágica, apadrinhada pelo capital e nutrida pelo acasalamento da cumplicidade política com a sovinice manhosa dos mercados. Agindo, assim, não pela enfraquecida e costumeira reação, mas pela nobreza da decidida afirmação da dignidade da condição humana.


[1] Edição de março 2019, em Reformas estruturais de esquerda, expressão usada, e bem, por Nuno Serra no Le Monde Diplomatique.

quarta-feira, março 27, 2019

FALAR MANSO? PARA QUÊ E PARA QUEM?


Será que vale a pena apreçar a tartufice de ardilosos poderes quando amiúdo repetem a kantiana premissa de que a pessoa humana não tem preço, tem sim dignidade? Pessoalmente, há muito que tais cócegas, vindo de quem vêm, viraram repugnância. Não pela certeza que a premissa alberga, mas pelo vampiresco uso que esses ilustres safardanas põem em cena. Seráficos e entufados doutrinam sobre o humano, e sobre a sociedade, cismando afinal num talhado agregado que lhes obedeça e proteja. Deste jeito, escorando a combinação em familiarizadas desigualdades, de vários matizes e cores, cujo limite, sabe-se, é o trágico desfiladeiro da exclusão. Daqueles que não contam, que estão a mais, pesos mortos sem lugar. Daqueles que somente chateiam e complicam o jogo da exploração, desapossados que estão já da rendosa condição de mercadoria. Subsistam, rastreiam eles, apenas as presas que ainda dão jeito aos predadores que de tal ordem gozam o bom viver. Em suma, dessa ordem que assim cuida, e bem, da marcha civilizacional do rentável, das desigualdades e das exclusões. Caminhada, afinal, que se aperfeiçoa sobre os escombros de múltiplas crises, desdenhando sem pudor do sofrimento que delas deslaçam. Falar manso, para quê e para quem?

domingo, março 24, 2019

UMA VERGONHOSA HIPOCRISIA!

Ler aqui texto completo (de António Nabarrete), tesoureiro do SPGL e membro eleito do CGS (Conselho Geral e Supervisão) da ADSE. Seguem-se alguns dos seus fragmentos politicamente elucidativos …

….

… o que é estranho não é o financiamento pela ADSE das entidades privadas, per capita, de 419 euros em 2016, já que nesse ano totalizava 1.222.809 beneficiários. O que é politicamente irresponsável, economicamente desastroso e financeiramente vergonhoso é, nesse mesmo ano, para o qual se dispõe de dados consolidados, o Serviço Nacional de Saúde ter financiado as entidades privadas, per capita, em 494 euros, já que em 2016 viviam em Portugal 10.325.500 pessoas e todas elas tinham o direito constitucional de aceder ao SNS”.

Chega a ser constrangedor ler e ouvir as barbaridades que alguns desses responsáveis trazem à colação (a maior parte deles sentados agora à mesa dos prestadores privados de saúde) como aquela de que o problema do SNS resulta da “desnatação” que lhe é feita pela ADSE. Não lhes passa pela cabeça que, no estado de fragilidade em que se encontra o SNS, o fim da ADSE levaria ao colapso daquele praticamente de imediato. Mas, talvez seja isso mesmo que pretendam. Já que, dos mais de 1,2 milhões dos actuais beneficiários da ADSE, provavelmente conseguiriam “conquistar” os 200.000 com melhores salários e pensões para as seguradoras privadas”.

Por outro lado, e isto mostra as contradições que se cruzam ao sabor dos mais variados interesses, a ADSE é usada pelo Governo para baixar o défice público, impedindo que esta utilize parte dos saldos positivos que acumulou para se modernizar, tendo em vista o seu combate à fraude e à sobrefaturação. Em sentido oposto, o Governo nada faz para implementar as medidas que inscreve nos decretos-Lei de execução orçamental, que permitiriam à ADSE pôr em prática as novas tabelas de preços, entre outras medidas essenciais à sua saúde financeira. Isto, apesar da ADSE ser financiada praticamente a 100% pelos seus beneficiários titulares”.

terça-feira, março 19, 2019

AS FISIONOMIAS DA PALAVRA


Com a palavra sabe-se como fazer. Com a palavra comunica-se com o outro. Com a palavra critica-se, e faz-se dela uma ferramenta de poder. Nesta caminhada vai-se pisando chãos diversos e, certamente, mudados. Na presença do outro despontam prescrições sociais. As palavras tornam-se aí diversas anunciando a sequela da justura. Atentando-se, ainda, aos lugares e às suas circunstâncias. Porém, na crítica, a palavra desafia. Naturalmente o outro, mas acima de tudo enfrenta o próprio. Na sua identidade e emancipação. Quem sabe, sadiamente malandrando pela incúria das frestas oferecidas pela arenga reinante. Especialmente por aquelas atravessadiças à luz que se busca.

quarta-feira, março 13, 2019

A LONGEVIDADE, UM DESAFIO QUE A TODOS OBRIGA

O envelhecimento e os avanços da longevidade, embora positivos, constituem fenómenos correlacionados que arrastam consigo preocupantes e significantes desafios humanos, sociais, culturais e políticos. A questão demográfica a eles associada, agravada pelo declínio das taxas de natalidade, concede-lhes uma abrangência e importância que a toda a sociedade diz respeito. Compreender esta realidade hoje requer um olhar que oriente o futuro, dando assim respostas adequadas e coesivas à premência dos impasses do presente. Daí, o despontar de um peso político acrescido que deve ser considerado e estruturado, preconizando-se o envelhecer como um continuum ao longo de todo o ciclo vital. A longevidade é, assim, um tempo de todos, o inevitável amanhã do natural envelhecimento.

quinta-feira, fevereiro 28, 2019

NINGUÉM SE ERGUE SEM TOMBAR

                              

Não há ouvido independente. É certo. Todavia, o imbróglio é ter-se um ouvido improvável. Na pretensão da escuta que admite tornar inteligível compreensões absurdas em si mesmas. Melhor dizendo, fazer de uma arenga cabalística algo de aceitável que avilta o outro na sua inteligência e dignidade. Mesmo sabendo que há quem viva, e consiga viver, abraçado à cabala. Mas aí, o visível caricato cumpre o seu papel. Nutre, sem querer, a confiança na suspeição. E assim, a hermenêutica respira e, de modo natural, pode consertar-se. A bem da inteligência maltratada e da dignidade atingida. Mais claro ainda, a bem da verdade que resiste aos descaminhos de mórbidos e sombrios artifícios.


domingo, fevereiro 17, 2019

A CIÊNCIA E O AMOR


Carlos Fiolhais, um homem da Ciência, deu uma entrevista ao Expresso. O sublinhado, em jeito de título, não deixa de ser mordente - Se perguntar o que é o amor, a ciência não saberá responder. Se a ciência não sabe, não pode explicar. Logo, não se aventura em respostas. Mas quantos de nós, falamos de amor porque o sentimento nos consente faze-lo? Quantos de nós, na dúvida ou ausência desse sentimento, damos voz a convicções? Mas, donde despontam as crenças que seguram tais convicções? Qual a natureza e a incumbência, sobretudo histórico-culturais, de tais créditos? Duas asserções de Fiolhais me tranquilizam e, simultaneamente, me desafiam. A primeira, a que antecede o precedente sublinhado - A vida é um dom maravilhoso, e está cheia de aspetos não científicos - e uma outra seguinte que me acalma - O cientista não lida com a categoria de Deus. Em jeito de remate, construo então uma insofrida convicção; o amor não será determinável pela Ciência nem, tão-pouco, em concubinato com um qualquer deus. Assim sendo, resta-nos a liberdade de caminhar, na descoberta e busca da partilha intima e verdadeiramente humana do amor. Valha-nos ao menos isso. Queiramos e tenhamos firmeza, nós, de ser resolutos nessa pretensão.

sexta-feira, fevereiro 15, 2019

O CUSTO DE ESCREVINHAR

O tempo vai transcorrendo. Não o sinto gasto com o seu avanço, nem cansado com a fadiga do andamento. Daí, a ousadia de ainda prezar genuínas vontades. Resistindo à neurose da acirrante e insistente adaptação. Duvidosa e continuada acomodação à reinante mesmidade. Malgrado a provecta idade, num tempo compósito de ajuste com a vida. Hoje em dia, não entorpecida pelas marcas revoltas e indeléveis desse tempo ido, ainda e sempre vivas. Porém, inscritas num presente em que, animadamente, permanecem atentas e vigilantes. Passadas à história, ainda bem que assim se desvelam. Logo, o revisitar do passado, faz-se movimento, condição atualizada. Compreendendo-o, para compreender as circunstâncias do acontecer. Abraçando, creio, o inseparável desafio do por vir das necessárias e humanas compreensões. Sobretudo, neste intrincado tempo sem tempo onde tudo parece suceder. Todavia sem o apetecível, porventura vital, atrito de valor humano.

quarta-feira, janeiro 16, 2019

CRISTINA, A PANTOMINEIRA DO TELEVISIVO


images (3)Dar forma ao individual, pressupõe o eu e um nós que nos presencie e avive. O impessoal desafia (ou dificulta), amiúde, tal suposição. Igual trato não significa invariavelmente perda. Ele, esse eu, produz-se, isso sim, nessa dificuldade. A indeclinável inscrição no totalitário universo do lifetime value inspira, porém, a idealização ética de um lugar, um nós, onde a singularidade se obriga, e abrigue. Uma busca que, mesmo individual, se faça cultural, logo política. Um apego individuante capaz de hostilidade ao fabricado para ingénuo consumo. A ecologia do sistema, também, e atentamente, passa por rechaçar os morcegos luzentes no espaço cénico desta patética e hodierna gramatização mediática.

terça-feira, janeiro 08, 2019

A VIDA QUE SE CALA NO DESTINO


487px-Portrait_of_Dr._GachetA vida faz-se para além do destino que se amostra. O destino, com permanência, escapa à vontade. À vida estende-se uma outra vontade, a do desejo e da subjetividade. A realidade e o Real estabelecem elos diferentes com a vida, e também com a vontade. A realidade inspira o pragmatismo, um útil que nos contém e, amiúde, reprime. O Real, por sua vez, recorda o desejo que, estranhando o verdadeiro vivenciado, acorda a Verdade que em nós resfolga. Um despertar mudo que se desvela empalecido quanto ao humano conhecimento de si próprio. Quebrado, aqui e ali, pela intensidade da vivência confrontativa com as leis improváveis. O já pensado revela-se, então, não esgotado ante o pensamento sempre insatisfeito. A finitude tem o seu termo na morte. O pensamento inquieto entreluz-se no infinito como porvir. Um destino imaginado no limiar de possíveis e de experiências, acolhendo a diligência do simbolizável. Afinal, preludiando roteiros que marquem, com renovada autenticidade, o nosso tempo e o nosso devir. Dando, sobretudo, presença ética à determinação e busca da Verdade, em defesa da sadia condição humana. Nesse fatal cenário do metabolismo entre a liberdade e o compromisso.

Imagem retirada DAQUI

segunda-feira, janeiro 07, 2019

MELHORES ILUSTRAÇÕES

Aqui vai uma manifestação sincera, ao amigo e à sua criação “Simão sem medo”. Um trabalho sublime, pela calorosa e destemida mensagem, assim inteligentemente repassada…

Distinção feita em ANTOLOGIA DO ESQUECIMENTO e daí retirada.

bagulhoEduardo Galeano, “As Palavras Andantes”, trad. Helena Pitta, gravuras de J. Borges, Antígona, Junho de 2018 e Miguel Granja, “Simão sem medo”, ilustrações de Beatriz Bagulho, Douda Correria, Outubro de 2018.

Escreve-se; “Seria injusto esquecer as gravuras de J. Borges, das quais tivemos conhecimento através deste livro de Eduardo Galeano. Mas mais injusto seria não dirigir a nossa atenção para as ilustrações de Beatriz Bagulho. O n.º 3 da colecção Puto Xarila é um mimo a pensar na juventude, mas perfeitamente acessível a gente mais crescida. Uma delícia”.

domingo, dezembro 30, 2018

UM TIPO MAIS QUE PROVÁVEL


pintura-em-tela-abstrata-pinturaO tipo mais que provável normalmente é perspicaz, sobretudo matreiro. Tudo o que diz tem significado, mostra-se claro e, como é normal, veicula sentido naquilo que diz. Os porquês são compreensíveis e o arrazoado revela inegável discernimento. Assim, o tal tipo mais que provável ao acreditar que aqueloutro, o outro a persuadir, acredita, e ante a verossímil aceitação, supõe-se já bem perto da proeza. Logo, sente-se aí mais confiante, seguro do tempero usado no urdido simulacro da sua calada razão. Se a sua fé porventura balança, a argumentação estende-se então pelo interior tortuoso da cooperante desculpa. Ante um qualquer revés lógico, ou desacauteladas imperfeições, as justificativas saltam, de imediato, em jeito de primeiros socorros. A realidade da artimanha não podendo revelar-se, as justificações do tipo mais que provável, nestas circunstâncias, cumprem o seu ofício. Apressadamente elas, tais justificações, se precipitam e se prestam, como é óbvio, às urgentes e imediatas assistências. Se o cenário, por acaso, se enlaça e toca os limites da dificuldade, o tipo mais que provável mesmo assim não abdica das suas intenções. Entra na decisiva e sintomática fase da emergência do pretexto, na parte aguerrida da subtil evasiva que o subterfúgio sempre acolhe. Abriga, então, e teimosamente, a sua farsa passando da aclaração à bruma da altercação. Mais do que repisar o que havia dito, ao tipo mais que provável convém-lhe agora desviar o foco. Por outras palavras, interessa-se menos pela conformidade da sua narrativa e mais por dispersar e contraditar as apreciações do outro. Não obstante, o tipo mais que provável desfruta de uma qualidade particular que aprecio; não morde pela calada, característica seráfica dos fracos normalmente sonsos e silenciosos e, pior do que tal, inconfiáveis.

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quinta-feira, dezembro 27, 2018

SAÍDAS SEM SAÍDA


labirintoO tempo civilizacional, cada vez mais eivado pela impostura económica, é um tempo de intensa oscilação quanto às coordenadas humanas do bem-estar. A sedução brilha ao ponto de se multiplicar, ela própria, como indispensabilidade. A palavra e a imagem, neste exercício de desdobramento, cumprem por função o múnus de imanizar e persuadir. Identicamente, a somada pretensão de se estender à vindicação do ganho. A expressão ampliada do utilizável, quiçá torcida, enfim, é o que conta e significa. A suficiência da sua linguagem performativa encurta-se ao ato de prometer saídas, pretextando necessidades. A efemeridade do transitório, sempre urgente, insinua-se chave. Do espúrio desejo irrompem muitos outros sem fim à vista. A contaminação refina e ornamenta o horizonte do artifício, na sua verdade firmada ao ato de prometer. Mais do que as pessoas, interessa o desvelo no ordenamento do carrilar, orientando o sonho ao retorno da saída que se segue. Exibe-se o referente, invariavelmente performativo, ocultando o sentido do seu enunciado. Com toda a certeza, livrando-se do sagaz, mas incerto comprometimento. Os conteúdos das promessas sucedem-se, assim, na sua própria e natural dissolução. Delas próprias, e com elas, maculando a dignidade humana. Acredite-se, ou não, na aleivosia das promessas, afinal, muitas delas profetizando esperanças sem saída.

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quarta-feira, dezembro 19, 2018

UM ALARGADO ABRAÇO NATALÍCIO


10840(1)Estar em família, privar com amigos, coisa bem diferente ou nem por isso? A família é sempre família mesmo quando o deixa de ser. Os amigos são sempre amigos por que, deixando de o ser, deixam de ser amigos. Não existe uma perfeita fronteira a separar família e amigos ainda que a axiomática biologia revele a diferença das suas raízes. No entanto, e surpreendentemente, o comum que resiste à diferença, e ao tempo, arrasta empatias e aproximações que embaraçam sentimentos. Com os anos, não sendo outros, não somos os mesmos. Na vida muito acontece, um tanto se vai desgastando e, por vezes, os abalos despontam. Voltas e reviravoltas fazem-se, então, história de situações e de estímulos que desconcertam. A qualidade das relações e das identificações naturalmente movem-se. Decerto, no sentido homológico e sadio da complementaridade. Mudanças nem sempre conscientes, não obstante, certamente avivadas pela compreensão que comunica e pelo afeto que aconchega. Assim sendo, a todos quantos presentificam a minha amizade, um genuíno e grato reconhecimento. Votos de um doce e aprazível Natal para esta minha grande família, onde todos vós, no meu pensamento, comigo consoam.

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quinta-feira, dezembro 13, 2018

O MEIO-TERMO DAS MEIAS-TINTAS


É um desafio diferenciar a disposição que nos determina, do hábito que nos monotoniza. A disposição envolve o vivamente interiorizado. Um quê, vinculado e ético, que verdadeiramente nos toca, feito de uma particular dignidade. Por seu lado, o reflexo e urgente hábito, afeta a exigência do esclarecido poder de estar, aliás, de ser. O elogio do meio-termo, da ideia virtuosa do sequente mediano, não deixa de se fazer fatal critério. Desde sempre cómodo, quando não frouxo e preguiçoso. Em consequência, a inércia da aprontada rotina, assumida e admitida, tolhe o ímpeto da determinação. Não aos excessos, nada de extremos, é o lavrado e prático princípio que, na premência do juízo, se intromete. No despropósito dos excessos e dos extremos, moram imperfeições, adverte-se. Em modo de solfejo magnânimo, e num clima de fosca transparência, logo se treina  uma suposta e despontante razão prática. A moderação projeta-se, deste jeito, no acerto inexato de uma imaginosa proporção acordada. Embora se entoe as notas apreciativas do bom ou do mau, à sorrelfa se exercita, isso sim, a música alinhada do útil. O que remanesce é o entorpecimento do enlace dinâmico da relação que aproxima a disposição do hábito. Como? Mirrando a fecundidade ética da possibilidade dialética que, com efeito, vale e, sobremaneira, conta. Porém, abafado na (des)ordem das meias-tintas.

domingo, novembro 25, 2018

O HORIZONTE DA INTIMIDADE


intimidade_web_25marEm nós, podemos escutar os outros. Logicamente, o contrário também se dá. Aproximando-nos sem imaturos amedrontamentos. Cuidando da confiança e reconhecendo a possibilidade da certeza incondicional. Admitindo, assim, o amparo humano e, seguramente, a familiaridade ética. Deste jeito, conhecendo a partilha que vale, e convindo, se faz conquista. Um procurado passível de uma relação vigorante e, por conseguinte, esclarecedora e edificante. Aprenda-se, então, que a intimidade, condição desse vínculo vital, é algo provavelmente bem humano e valioso. Abertos a essa esperança, acaba-se por construir sociabilidades que significam, pois arrastam consigo, afeição, respeito e enlevo. Convictos de que a intimidade verte um humano vergado que importa desencarcerar, libertar. Dando corpo a uma humanidade que aceite renovadas espessuras e finalidades. A Vida agradece, e certamente Ela, nos saberá retribuir.

Imagem retirada DAQUI

sábado, novembro 24, 2018

IMPACIÊNCIA HISTÓRICA


picasso-poverty-old_beggar_with_boyNeste tempo neoliberal de reconhecida e institucionalizada desigualdade, provavelmente necessária à colonizadora ordem capitalista, apenas as brutais parecem estorvar. As demais, sobremodo naturalizadas, quando não por inteiro incorporadas, tornam-se objeto adotado. Para tal, e como importa, almofadadas de minguado merecimento político. Um fabrico-disfarce que simplifica e enfraquece o valor de busca do comum e da alteridade que o abraça. Desencaminhando olhares, desvitalizando pensamentos e acorrentando comportamentos. Tudo se amolda para encobrir o lado negro desta mórbida modernidade, transfigurando-o numa existência perdida, se possível inteiramente ausente. Ainda assim, neste limiar desalumiado sobrevêm sementes de impaciência capazes de germinar diferentes plantas, novas ecologias. Quem sabe, vicejando destinos históricos diferentes, ao encaminhar-se regas para este chão abandonado. Afinal, campos que, de modo acintoso, o senhorial capitalismo, e seus satélites, teimosamente enjeitam prezar.

Imagem (O velho Mendigo com  o Menino, de Picasso) retirada DAQUI

quinta-feira, novembro 15, 2018

O VAZIO DA REPETIÇÃO, UM AGASALHO À PASMACEIRA


À contumácia irreflexiva de histórias de vida enlutadas resta-lhe, pelo seu afinco, crer no recheado vazio da repetição. Um persistente retorno agasalhado na persuasiva construção de uma abreviada e árida sinopse. De certo, histórias de conformados crentes na dócil promessa de um recomeço com amanhã. Tudo parece mostrar-se aprazente, embora submerso na moderação socializada do pragmático. Incansáveis, deambulando por pitorescos caminhos recalcados. O insólito sussurro basta para resfolegar o alento. E com o tempo, a restauradora rotina, em circense modo de saltimbanco, reverte-se ingrediente. Sem dúvida, incrassada por um sonso entusiasmo expansivo. Haja assunto que enfeitice, supondo-o sustento para a bitola de um acreditar confiado ao interior de um acanhado pensamento. Invariavelmente dependente da mesmidade, das suas ocasiões fantasiosas, da patética diversidade do acidental que a desenha. O vazio ocupa-se, assim, consumindo-se de uma discretíssima, mas animada e demorada existência a meia haste. Apesar da licenciosidade, afinal de contas, o imoderado sinal de luto justifica-se.

sexta-feira, novembro 09, 2018

REVISITAR O PASSADO

passado 01 (1)[3]

Revisitar o passado é ir ao encontro do acontecido. Revivescendo-o no tempo. Um percurso regressivo sempre singular. Que alumbra e completa o presente e, ao mesmo tempo, espraia limpidez no horizonte. Afinal, um passado que hoje resfolga, ainda que embaraçoso.

Ao contrário daquele outro, abandonado e esquecido na amiudada crueza de enquistadas memórias. Empobrecidas na sua história, e na sua verdade. Caprichosas reminiscências que parasitam silêncios ignorados. Ou, simplesmente, incompreensões de uma sombra, de um vulto. De um vulto com rosto, embora inquieto, insensível à vitalidade do coração do desassossego.

segunda-feira, novembro 05, 2018

SIMPÁTICAS? TALVEZ, MAS OCIOSAS INCRIMINAÇÕES

A acusação inútil, ou ociosa incriminação, é aquela que, fingindo opor-se, serve a regência de um poder que, habilmente, encena o sujeitado silêncio das causas que, bem vivas, gritam no âmago do desrespeito ou do abuso.

terça-feira, outubro 30, 2018

NO FUTEBOL, UMA SIMBIOSE DESTRUTIVA


synthetic_grass_for_soccerTodos nós somos diferentes na nossa complexidade, histórias de vida e funduras biológicas. Deste compósito soltam-se as raízes etiológicas dos nossos comportamentos. Os da nossa fragilidade, também. Muitos dados, nos diversos patamares de busca e entendimento, estão catalogados. Aqui, de um modo por demais conciso e modesto, interessa-me considerar apenas o meio e a sua influência. Sobretudo, genericamente relevando as suas dimensões educativas e emocionais. As primeiras, pela sua frivolidade e insensatez. E as outras, as emocionais, que fluindo do enodoar das anteriores, se constituem em uma estirpe de razão. E de tal modo, que em forma de mediação socialmente extensiva, procriam uma toxicomania constitutiva da sua atual cultura. Diga-se, paradoxalmente euforizante e sedativa. Não falo do futebol, mas de um simulacro da cultura que o assiste. Uma cultura, sobretudo mercantil, que acolhe e abriga profusos venenos provenientes de um catabolismo mediático parasitário, que dele, do futebol, simulando servir, afinal, dele vai beneficiando. Por mim, como não sou capaz de mudar o meio, vou-me mudando de meio. Num experimento de regressão terapêutica, livrando-me de objetos nocivos e, nesse decurso, procurando soterrar, a pouco e pouco, os resíduos das minhas tristes e pessoais lembranças.

Imagem retirada DAQUI

sábado, outubro 27, 2018

LUTAS SEM ALVO, INAPTAS DEFESAS


Mora em nós, um impreciso caos aclimatado por um doloroso entendimento, sobretudo, quando conformados com a inabilidade da sua mestria. Porém, quando esse entendimento se revela indiscreto ou impertinente, e o desconforto se advinha, engenhosamente dele escapamos, ou achamos fazê-lo. Nesse momento intrigante, o vivido aí marcado pelo genuíno sentir, embora amalgamado no lastro da experiência e da fantasia, apresenta-se, e anuncia-se, incómodo e inquietante. De tal jeito que a importuna agitação, nessa inimizada circunstância, se revela, e rebela, de igual modo, provocante e angustiante. Aculeada, esse despertar nos faz perceber, furtivamente, a embaraçosa verdade de uma liberdade refreada pela mordaça da iniquidade. Da malvadeza desse despótico costume doutrinário que nos afaz na presunção de nos fazer. Tornar ao passado, levantar o véu do supostamente esquecido, não é retroceder. Se o for, tomemo-lo como uma regressão necessária à busca de recomeços e de novas e imagináveis progressões. Oxigenando, com humana ousadia, o sangue que circula nas artérias do nosso pensar e do nosso agir, de modo a iluminar as ocultações que se abrigam na sombra e se disfarçam nos desvios dos nossos caminhares. Ao rememorar deste jeito o passado, novas geometrias éticas se alcançam, recuperando-se certamente um presente mais instruído, capaz de diferentes paisagens pessoais e humanas, mais livres e envolventes. Assim como, creio certo, socialmente mais autênticas e tolerantes.

domingo, outubro 21, 2018

OS BEIJOS NO MERCADO DA IDIOTICE


bebe-mandando-beijoDesenvencilhem-se desta mercancia aparvalhada, afamada ou ingénua, e, em consequência, não a receiem. Em comum liberdade, beijai-vos, tocai-vos, enlaçados pelo afeto, pelo amor, pelo prazer. O tempo e a circunstância da ocasião determinarão a justeza da razão do gesto e da sua verdade. A necessidade do agasalho, aliás uma rebelde tendência instintiva, como é sabido, persiste para além do colo da mãe. Embora mais cuidada e socializada, provavelmente menos pulsional, a raiz do princípio perpetua-se. Os objetos substitutos respeitam, deste modo, e nesse novo tempo, a genealogia dessa necessidade primária, agora e sempre conduzidas por uma busca indeclinável da assegurada homeostasia. Por isso, e por sensibilidade, tenho por divisa não pressionar, ou aprovar, que obriguem uma criança a cumprimentar, beijando. O instinto dela, expressa na sua pura e genuína vontade é, assim, por mim fundadamente estimado. Pelo respeito que experiencio pelo insondável cadinho materno dessa inicial e referida relação primária. Seja a criança familiar próxima ou uma não-familiar mesmo que chegada. A formação da consciência de uma criança não abençoa, dizem os entendidos, o distorcer desse seu conforto, desse seu aconchego, dessa sua humana instintividade. A obrigação imposta, por ela ainda não reconhecível, por via da inerente coerção, faz-se mais uma semente de má-consciência culpabilizante - e não uma consciente formação desejável -  que o arbítrio educacional reforça, ou saberá acalentar, pela ameaça do sermão na sua continuidade normalizadora. A liberdade, acredito que sensatamente, não dispensa o ambiente de alteridade que a acompanha. Ela, a liberdade, educa-se nessa irrecusável clave mediadora que é a hermenêutica da alteridade. Por isso, impõe-se não simplificar as raízes do quotidiano que alimentam a figura epistemológica da conflitualidade interpretativa. A possibilidade de tal verdade exige acerto, distanciamento e profundidade, sobretudo moral. Concluo, então, que o disparate sempre insulta, e a lisura, apesar de tudo, nem sempre desagrava.

Foto retirada DAQUI

terça-feira, outubro 16, 2018

ANTÓNIO COIMBRA DE MATOS, NO “PRÓS E CONTRAS”, O BRILHO DO SABER E DA SIMPLICIDADE


antonio-coimbra-de-matosAcompanhei com muito interesse, ontem, o “Prós e Contras”, dedicado ao tema #MeToo (Out, 2018 | Episódio 30). Tópico obviamente disputável onde as lídimas ideias se debateram, apesar de algumas outras (felizmente poucas) contaminadas pela vaidade e afirmação pessoal, acrescidas pelo vulgaríssimo (por incalculado) interesse politiqueiro. O ciúme de Isabel Moreira, atraiçoou-a. Raquel Varela tem igualmente presença e ideias. Podemos não concordar com ela, mas o argumento da belicosidade fácil não colheu, e do meu ponto de vista, Isabel Moreira desaproveitou a circunstância. Neste cenário, Coimbra de Matos avantajou-se. Pela simplicidade do seu sinótico mas substancial discurso, sensatamente somado à estética recatada e natural dos seus gestos. Um senhor…

Socorrendo-me de uma entrevista sua, aqui vos deixo, através de algumas das controversas passagens, uma imagem  impressiva dessa figura nobiliária, nomeadamente enquanto intelectual/psicanalista.

sexta-feira, outubro 12, 2018

A AMEAÇA DE UMA ÉTICA QUE CALA A SUBORDINAÇÃO


Nem sempre se é capaz de interpretar as coisas à maneira de Deus, mas, quando assim é, não resta outro caminho se não tentar compreender as coisas à maneira dos homens. Assim, parafraseada esta ousadia saramaguiana, e sobretudo adotando-a, é ajuizado ter profundamente presente o fatal entrecho do necessário teatro mental no qual se vai encenando a busca de mudados entendimentos.

Consentindo a transitoriedade da humana verdade, quando não a sua intangibilidade, importa não recusar a subjetividade tolerável de um incerto resvalar, quiçá lírico, todavia verdadeiro humano. Ainda que de apego ardente, ou mesmo obstinado, tanto como consciente se está da adversativa familiaridade dos cenários reguladores de bastardos movimentos, ou mesmo, de acabados destinos lógicos. Sente-se, assim, impelidas por tão valorosa firmeza, a vontade e o desejo de caminhar sem fim por lugares de coragem moral, não abandonando a possibilidade, despontantes de desafiantes brechas, de continuar livremente a desejar.

Pergunta-se, então, que consciência determina a convivência reflexiva com um tal roteiro ético que, afinal, tanto inquieta? Onde se encontram, em suma, as raízes da liberdade que, por último, fazem medrar tal inquietude? Será que tal liberdade permanece no interior do seu contrário, nesse avesso que cala, sob o signo do ético descorporalizado, por certo uma consciência desanimada, fracassada ou, quem sabe, destruída?

Não será uma outra, porventura uma conflituante consciência, a condição da possibilidade constitutiva do ser sujeito, sujeito da sua possibilidade de ficcionar, de se inventar e mudar? Uma consciência que, de verdade, dê sentido a uma primordial necessidade, a da necessidade de surpreender uma ética que amolde e proteja uma condição que propicie a possibilidade de transfiguração e transformação, a bem de uma liberdade radicada na condição humana, e como tal, zeladora da sua, e sempre, melhorável dignidade? Vale a pena tentar. Acredito que … sentir-nos-íamos bem mais vivos e, decerto, mais felizes.

sábado, setembro 22, 2018

UM OCULTO ARAME FARPADO

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Parafraseando Saramago:

o ser humano que nos gabamos de ser sempre soube humilhar e ofender aqueles a quem, com triste ironia, continua a chamar de semelhantes. Para tal inventou-se o que não existe na natureza, a crueldade, a tortura, o desprezo.

De Folhas políticas (1976-1998). Lisboa: Caminho


A subalternidade e a dependência peregrinam quase sempre de mãos dadas. Tal vagueação, sentida como condição, torna-se um cego namoro que se encanta no silêncio da subordinação. Nesse mesmo tempo, acasalam-se as suas almas, e o trato intimo entre ambas, posteriormente, favorecem o seu arrumo no virtuoso mundo da modéstia. A história continua e faz-se ao toque da ordem pura das coisas. Uma probidade desenhada sem suspeitos tolhimentos, nem imposições. Tudo correndo no sossego e silêncio dos deuses e, como convém, sem avisados antagonismos. A subalternidade e a dependência, desse jeito, neste olimpo assentam os cavoucos de uma acondicionada posição entre o “eles” e o “nós”. Entre os que, nessa ordem calculável, aproveitam e os outros. Estes outros que renunciam, ou apenas familiarmente dormem, todos os dias, na cama dos seus amos.

quinta-feira, agosto 30, 2018

ENGANO, DESCUIDO OU ESCORREGADELA?

1554423_10152751924264119_612837382_nDe Dublin, em pleno voo de regresso a Roma, o Papa Francisco deu uma inolvidável conferência de imprensa. No essencial, recusou-se a comentar as incriminações publicadas a respeito do arcebispo Carlo Maria. Sobre a trama da diferença, não menos essencial, pelos vistos ficou-se por uma ressarcida recomendação. Aconselhou à reza, ao diálogo e ao entendimento dos pais face à eventual homossexualidade dos filhos. Mas, ao que tudo indica, nunca, e bem, à sua condenação. Porém, mais à frente, o sublimíssimo Papa borrou totalmente a pintura. Sugeriu a psiquiatria, na crença terrena da bondade terapêutica da regeneração, particularmente na idade da infância. Em oposição, depois dos vinte anos, a crença papal perde a energia da convicção e, como resultado, as mercês médicas saem desgraçadas. Estranhamente, se dissipam os saberes e as competências que asseguram a cura. Deste jeito, a patologia hospeda-se sem retorno, embora, valha o Padre-Santo, sem mancha de pecado. Engano? Descuido? Escorregadela? Na minha opinião, Francisco apenas resvalou, impelido de empurrão pelo peso arcaico do Vaticano.

quarta-feira, agosto 29, 2018

LER, SENTINDO HISTÓRIAS MINHAS

 5da1c71f78e6_edipo02As diárias leituras, hoje bem passadas pela joeira de presumidos proveitos próprios, e ajuizadas pelos ecos que delas possam ressoar, oferecem-me um acrescido valor a uma vida arrastada, quiçá teimosamente rebuscada, que inspira, e vivamente marca, um embasamento – último, na verdade, mas sempre perplexo – à compreensão da humana vida. Esse lugar fundado, e conformado por múltiplas paragens de confortos desprotegidos, a todo o momento por mim desafiados, tem acolhido tocantes encontros profundos, uns pungentes, outros cenicamente fantasiados, todos eles familiarizados com histórias que se partilham, poucas confinantes, muitas certamente afastadas, algumas, por fim, insuportavelmente insuladas. Afinal, um lugar de fortes experiências, onde o provisório teve sempre um papel, o do compromisso de se oferecer à inclusão e respaldo de agilidades identitárias, todavia hoje ciente da imensidade do meu despreparado cuidado. Revisitar memórias, dar-lhes o merecido destino, desfrutando dos livros que se lê, do que com eles se cabouca, é muito provavelmente vasculhar a provisoriedade do transitório então rejeitado ou, mesmo, lamentavelmente despercebido. Revisitar memórias, enriquecidas por estes olhares ausentes, descortinados na fertilidade dos seus textos, desperta em mim um sadio aclaramento de histórias julgadas encerradas. Em síntese, favorece a ressignificação da minha história, nessa impérvia busca peculiar das suas terrenas verdades.

domingo, agosto 12, 2018

À FENOMENOLOGIA DOS INCÊNDIOS GRUDA-SE A FENOMENOLOGIA POLÍTICA DOS OPORTUNISMOS

Falar seriamente, e com a lisura necessária, sobre a entroncada fenomenologia dos incêndios, suporia conhecimentos e saberes de que não sou capaz de arrumar, muito menos de alinhar. Assim, ao acolher esta minha ignorância, feita fraqueza, socorro-me, como objeto de abordagem, as múltiplas e mescladas derivações discursivas que, conscientes ou não, com mais ou menos espavento, desconsideram tal exigência. Sendo assim, e bem ciente deste meu ponto fraco, desloco a minha atenção, e disposição crítica, para a intrigante assadeira onde as significações se cozinham, desatendendo ao claro objeto factual que é o incêndio. Estes, os incêndios, para além das suas dramáticas consequências, revolvem as nossas subjetividades, atiçam as nossas emoções e afervoram os nossos pensares. É neste caldear de sentimentos e razões que o pensado, por vezes, se deixa contaminar por germes que falseiam o que depois se diz e não o que verdadeiramente se pensa.

O discurso político canhestro, que neste breve comentário destaco, e aqui denuncio, explora tal circunstância para exercitar, de modo afrontoso, a sua travessa e costumeira competência de modalizar o campo prestadio da significação que espera encenar. Inventa e inventaria, assim, indicadores (e cicatrizes) de modo a que o afloramento da mendacidade útil se aproprie q.b. da veracidade que, por si só, afinal de contas, mesmo assim embaraça muitas, e mais alargadas, responsabilidades. Fazem-se acasalar, então, várias e dispersas racionalidades, amanhando a relativização necessária á função de entontecer e cultivar a intriga pública. Deste modo, à fenomenologia dos incêndios gruda-se a fenomenologia dos oportunismos, alargando-se o chão meândrico de potenciais e circunstanciais determinações. Não me desperta muito interesse em saber se há (ou não) vontade liberada de enganar. Suscitar a possibilidade da falsidade, não sendo esta sinónimo de enganar, com toda a certeza carrega em si o sinal indesmentível da disposição para a trapaça, nomeadamente política. Nefastos exemplos estes, eis o remate crítico desta minha breve e despretensiosa anotação.

quinta-feira, agosto 09, 2018

É UMA QUESTÃO DE TEMPO, DIZ O PROFETA DANIEL


DPCO que se pode esperar deste profeta, de insuspeita imparcialidade, quando se apresta em porta-voz de uma deidade categórica? Dele, ouso nada dizer. Apenas desafio quem desconhece os meandros das suas profusas e multifárias mercancias, que busque os seus rastros e pegadas. Em particular, nos recessos esconsos dos matizados poderes que, ao arúspice Daniel, lhe parecem valer. A si, se alguma intenção tem de melhor o conhecer, os media nada, ou coisa alguma de essencial, lhe revelarão, tal como os amigos a quem ele serve ou de quem ele se serve. O comum do cidadão, amigo ou não, mas seu próximo, talvez se quede em um desacautelado e disseminado estado de vegetativo senso comum. Embora ainda que nada disso lhe aparente, patavina lhes peça também. O “divino, afinal, poderá estar em si. Quem sabe, na sua demorada e laboriosa diligência. Talvez assim se safe ao visionarismo deste sábio predestinado a epifanias escatológicas apadrinhadas por misteriosos e bem-acondicionados segredos. Escreve ele[1]:

“… as corporações do Estado agitam-se em reivindicações e multiplicam-se as reclamações sobre insuficiências de investimento e dotação na saúde, na educação, na ciência, na cultura, na justiça, nas polícias, nas Forças armadas”, sem “um minuto de reflexão sobre a dimensão da nossa dívida pública e privada, nem o peso dos impostos que recaem sobre os que produzem, vendem e exportam para sustentar o Estado”. É uma questão de tempo, diz ele. E acrescenta; o PCP e o BE “… vivem num tempo que já não existe e num mundo que caminha indiferente ao que eles pensam e advogam”, não poupando os sindicatos, afirmando que são uma “base sindical … fora da realidade”.

Não obstante, o profeta Daniel talvez esteja certo na sua predição futura, presumo já muito próxima de factual efeito. Como amplamente se reconhece, enquanto a esquerda sobrevive através das ideologias, a direita vai alcançando, com muito trabalho e exsudação, as convenientes verdades. Aqueles devoram-se em utopias, estes, pragmáticos e proficientes, promovem a responsabilidade de ordenar. A realidade é com “ELES”, já que os primeiros se perdem nos odiosos interesses corporativos e “ESTES”, pois, cuidam do interesse geral. O bom tempo está, anuncia o profeta, a caminho, graças a Deus, a caminho do seu termo. Finalmente, que alívio será, exclamaremos todos nós. Na verdade, já ninguém ouve o PCP, do BE só se fala porque existe ainda o Robles, e os sindicatos, esses, fora da realidade, prontamente decidiram emigrar para outras galáxias. Até que enfim, a paz vai descer à Terra, trazendo com ela a Igualdade, a Justiça e a Verdade. O profeta Daniel, afinal o prenunciado mensageiro que nos faltava, e que tanto desejávamos veementemente, disse. Logo, está dito. O Futuro não é já esperança. Ele está aí.


[1] Reprodução de citações  de Sandra Monteiro, no Le Monde Diplomatique (agosto 2018), no seu texto “Na construção do senso comum”.

terça-feira, julho 31, 2018

A MENTIRA, OU A BOA-FÉ, NO FIO DA NAVALHA

A dissimulação do pensado, apurada pela palavra dita, supõe um prévio decurso que vai do íntimo pensado ao dito distorcido pela astuciosa arte de tudo embrulhar. Em definitivo, uma inscrição que pensa o pensado, acorrentando-o à hábil urdidura da versão a consertar. Paradoxalmente, de quando em vez, menosprezando até o factual iludido; o outro, o próprio, ou ambos. Todavia, cuidando sempre, ciente ou não, da inautenticidade que habita esse abeiramento com sensatez ou com a falsidade que, igualmente, lhe é próxima. Dessa significação, o conteúdo vale o que vale, pelo objeto mencionado e, sobretudo, pelo sentido aí colocado. O ato de significar não dispensa o outro, e a sua circunstância, vínculos do intimamente pensado, que pela calada se faz intencionalidade ausente. Boa-fé, talvez. Ainda assim, coxa. Se tomba ou não, depende da verticalidade. Se cai, apenas remanesce a mendacidade.

quinta-feira, julho 26, 2018

A INFEDILIDADE DOS ESPELHOS

imagem-distorcidaOs espelhos da vida, mais do que exibir, representam. Afinal, é neles que nós obstinadamente nos espelhamos. Os seus semeados e difundidos reflexos saciam os nossos olhares lamentavelmente viciados. Na procura de ser, distraímo-nos, afinal, do que queremos ser e, de modo igual, descuidamos de que não somos os mesmos todos os dias. Com razão, ou sem ela, as afeições nem sempre se mostram concertadas no tempo ou nas circunstâncias da vida que se vive. Bem como, por vezes, mais vezes do que achamos, o nosso pensamento, e a imaginação que o assiste, ao abandonar o necessário, deserta apressado de nós próprios. Desencaminhada assim a natural vontade, fazemo-nos desprotegidos inventando ilusórias forças. A intrusiva ressonância dos espelhos atrai inconfiáveis energias, condição conveniente à exaurição da remanente languidez da nossa já insegura liberdade e inteireza. Com os nossos corpos espartilhados nesta abetumada envolvência, que só a custo cede a diferentes promessas, o nosso ser social adoece, e assim se esmaece. Acordar os nossos corpos dormentes obriga lembrar-lhes os poderes vitais sumidos, entorpecidos que estão, quer ao serviço da tirania de uma ideologia fundada na superfície do desperdício, quer afundada na asfixiante financeirização de uma sociedade que a agracia. Para tal, muitos desses poderes vitais são, por esta muda sujeição, suspensos e paralisados, quando não mutilados. Os apregoados e proliferados espelhos retiram-nos, certeira e penetrantemente, a profundidade e a transparência da vitalidade crítica dos olhares. Desvio que nos confunde as emoções, raízes de sentires que se plasmam, pela sua letargia, numa cultura de massas arrastada por esta mercante e padronizada trivialização cultural. Mais do que o manejo da democracia, de um modo tópico, hoje importa-me relevar as cínicas formas de autoritarismo dos espelhos que, bem arrumados, servem as artimanhas deste poder diverso que nos abafa e brutaliza. Uma obscura mesmidade, se bem que eficiente, vicia e contamina a absurdez do nosso olhar que, assim perturbado, vai divisando ilusórias singularidades. Eis aqui um chão, nem sempre ressaído, donde medram muitas das raízes da silenciosa perfídia dos reportados espelhos e espelhamentos.

quinta-feira, julho 12, 2018

“DE PERNAS PARA O AR”, UMA HOMENAGEM A EDUARDO GALEANO


No dia 17 de julho o auditório da Fundação José Saramago acolhe uma homenagem ao escritor uruguaio Eduardo Galeano, falecido em 2015.  Para conversarem sobre o legado do autor de De Pernas para o Ar – a escola do mundo às avessas, estarão presentes Alejandro García Schnetzer (editor), Gaddafi Núñez (músico) e Pilar del Río (jornalista).


domingo, julho 08, 2018

“DEVER DE SER FELIZ” NESTA CAÓTICA REALIDADE? SIM, MAS…


Vive-se um tempo de reconhecida inquietação civilizacional. A ordem política e económica globalizada não se mostra capaz de resolver, e como tal de disfarçar, a vastidão das facetas caóticas que justificam tal inquietamento. A experiência socialista foi o que foi, o capitalismo global revela-se depredador e os ideais humanistas frágeis e desarmados. As denúncias e as contestações multiplicam-se, dispersando-se por um continuum fragmentado, desenhado e finalizado de materialidades múltiplas e diversas. Apontam-se discordâncias, a crítica à exploração sobe de tom e as desigualdades e injustiças sobrenadam visíveis á tona da realidade das nossas vidas. Nestas circunstâncias, o valor do homem tem-se vindo a instituir e a prolongar, no quadro da evolução histórica da acumulação capitalista, como objeto de troca no circuito das mercadorias, sujeito, assim e obviamente, ao continuado arbítrio e interesse dos outros. Os princípios individualistas fazem, deste modo, o seu caminho, autoalimentados por uma desalmada ética alicerçada sob o signo de uma fraqueza, a felicidade hedonista, que hoje, mais do que nunca, a mobiliza. Se assim é, impõe-se a demanda de um conserto ético, uma outra ética que naturalmente, em face do retrato acima referido, tem vindo a ser violada ou progressivamente excluída. A definição convincente desta, enquanto modelo ideal, pode apresentar-se imprecisa, mas a ideia, por si só, tem a potência de desorganizar a obediência aos algoritmos que a escoram, procedendo assim ao seu urgente e necessário corte. Deste modo, sugerindo prováveis e novas perspetivas e possibilidades de vida, assim como despertando, desejavelmente,  modos alternativos e compreensíveis de subjetivar a felicidade.

segunda-feira, julho 02, 2018

COXA E INCLINADA, A IMPOSSIBILIDADE DA QUADRATURA DO CÍRCULO


Banner2_quadratura_circuloEm jeito de tópico central acautelaria a ideia, porventura a crença, de que disputar a verdade da Desigualdade e da Injustiça, acintosamente maiusculizadas, torna-se uma manifestação que garantidamente espelha quem a tal se expõe. Ser de diversas pertenças, de naturezas múltiplas, por certo, e desde logo, tal condição indelevelmente marca o horizonte das nossas disputas humanas. A todo o tempo, esse além apresenta-se distinto e, acima de tudo, dissemelhante na sua imediatez. Porém, entranhados no (e pelo) princípio da estratificação, e como tal amarrados aos seus critérios de sujeição, esse tornar-se diverso, de um modo inconsciente, deixa-se entorpecer pela inércia da naturalização e da sua vigorosa dinâmica socializadora. Como? Supostamente através da sedimentação de uma consciência social que advém, creio eu, da apropriação, poder e uso desigual das engrenagens da vida coletiva nas suas múltiplas possibilidades e contingências.

Esgrimir argumentos sobre aqueles temas, teimosamente acasalados, só a petulante tecnicidade económica se afirma valorosa e capaz, conseguindo impor-se, digo eu, pela falaciosa e fabulizada retórica da neutralidade da sua diligência. Deste jeito, as ideologias que dela se servem deixam assim de o parecer, tornando-se ilusão útil, ao contrário de outras, ato contínuo inculpadas de cuidarem unicamente de suspeitos interesses de grupo, corporativos ou de classe. Eis as raízes silentes da matriz neoliberal, consubstanciadas no enaltecimento da regência técnica, no desamor pela democracia e na aversão ao Estado social. Daí que, a Quadratura do Círculo, usando apenas a régua e o compasso do arranjo capitalista, falha na sua geometria política, pese uma certa e ajuizada moderação, considero eu, de Pacheco Pereira. Jorge Coelho, este, por sua vez, em tal caso e circunstância, de régua em punho, vai gizando linhas endireitadas de cauteloso otimismo, prudentemente rabiscadas, como convém, de coloridos traços pragmáticos. Lobo Xavier, mais explícito e desvendável, ufanamente apegado ao seu compasso, reduz-se a esboçar círculos que balizam garantias aos que trabalham, assim como ao investimento que a todos possa servir, dando espaço, e de muita sobra, aos bonecos ilustrados dos negócios privados. Isto posto, com tal régua e esquadro, estou convicto que jamais se criará o almejado quadrado de igual área ao suposto círculo. Coxa e inclinada, a Quadratura do Círculo assim se manterá, sempre viva, na sua epidémica impossibilidade.

Foto retirada DAQUI

quinta-feira, junho 21, 2018

O SINAL DE RODRA

Chego a casa e vejo um relâmpago. Toca a sair de máquina fotográfica, a adrenalina está ao rubro, penso num lugar, e... a imagem fala por si, uma das fotos da minha vida... O espectáculo é do mais lindo que podes ver... Mas principalmente, esta foto é uma das da minha vida, porque é um sinal... É um sinal de como devo lidar comigo. É um sinal sim, e eu agora percebi tudo”, remata o autor no texto que acompanha a foto.

BALEAL FOTO

Foto tirada por Rodrigo Paulino Lopes (RODRA) que merece ser partilhada. Acredito que o autor não leve a mal a ousadia de o fazer.

domingo, junho 10, 2018

A COCAÍNA DA BOLA, EXPEDIENTE DE DESFOCALIZAÇÃO POLÍTICA


Vale a pena divulgar, parte de um artigo de opinião de Pacheco Pereira, pela natureza da sua denúncia. Trata-se de incriminar um tipo avassalador de controlo do discurso público, a favor de uma dominância e hegemonia que, pela sua soma, e mediante o silêncio comparsa da ordem comunicacional instituída, convém política e culturalmente aos poderes (e interesses) que delas carecem e delas sabem - e bem - aproveitar.

É por isso que se pode reescrever o artigo da Wikipédia sobre a cocaína:

“O futebol é um estimulante, com efeitos anestésicos, utilizado fundamentalmente como uma droga recreativa, muito útil quando há pouco pão, para que haja muito circo. Pode ser visto, ouvido, lido, aspirado, fumado ou injectado. Os efeitos mentais podem incluir perda de contacto com a realidade, um intenso sentimento de felicidade ou de violenta agitação. Os sintomas podem envolver aceleração do ritmo cardíaco, transpiração e dilatação das pupilas, grunhidos, gestos obscenos, pinturas de guerra e porte de cornos na cabeça. Quando consumido em doses elevadas, pode provocar hipertensão arterial ou hipertermia ou definhamento da inteligência em geral. Os efeitos têm início dentro de alguns segundos ou minutos após a sua utilização e duram entre cinco e noventa minutos, pelo que é necessário estar sempre a ver televisão, a ouvir rádio, a ler jornais, a falar de futebol nos cafés, a discutir no emprego, em doses cada vez maiores.

O futebol é muito viciante, graças aos efeitos provocados no cérebro, que assume cada vez mais a forma de uma bola. Existe um sério risco de dependência, mesmo se consumido por um curto período de tempo. A sua utilização aumenta ainda o risco de acidente vascular cerebral, infarto do miocárdio, problemas pulmonares em pessoas que o fumam, infecções sanguíneas e paragem cardiorrespiratória súbita, violência doméstica, homofobia e outras filias. No seguimento de administração repetida das doses, a pessoa pode ver diminuída a sua capacidade de sentir prazer e fisicamente sentir-se muito cansada, e ter várias formas de impotência, a começar por cima e a acabar em baixo.”

domingo, junho 03, 2018

A PARLAMENTAÇÃO ENTRE A ÉTICA E A CONVENIÊNCIA POLÍTICA


A briga discursiva sobre o mote da eutanásia ofereceu, no Parlamento, alguns surpreendentes momentos de manifesta elevação. Admito que apreciei certas apresentações, e indagações, não obstante as orientações de voto. Em ambiente sobretudo político, comprovar uma consciência generalizada da necessidade de abertura ao conhecimento, agradou-me. Aperceber-me esquadrinhados alguns caminhos interdisciplinares, desafiou-me. Reconhecer o sagaz acolhimento à fatal complexidade da matéria em disputa, enobreceu o debate e quem o encorajou. Nestas situações e circunstâncias, assim penso, o discurso político mostrou-se mais honroso, escapando à fácil e esquemática simplicidade, bem como aos limites da acostumada vulgaridade politiqueira de feição camiliana. A tonalidade filosófica dos problemas humanos esteve presente e o contributo científico não foi esquecido. Ao discorrer-se sobre o sentido da existência do ser humano atingiu-se, e bem, o reclamado campo da Ética. Importa, todavia, avançar mais, sem estremas nem pre(con)ceitos, a fim de alcançar uma profunda compreensão da perdurável controvérsia. E com a conquista desta, e através dela, exercitar um pensar livre, assumindo o dever e a responsabilidade de politicamente agir em uma fundada conformidade. Estreitando afastamentos entre a Ética e a Política, dignificando a Condição humana e o valor indissociável da Liberdade que a Ela intrinsecamente se associa. O futuro ansiado vai-se assim prenunciando. Seguramente.

segunda-feira, maio 28, 2018

ENLAÇAR AS ESQUERDAS? PORQUÊ? COMO? PARA QUÊ?


Interpelações pedidas de empréstimo a Boaventura Sousa Santos (BSS), para as quais esta desassombrada intervenção de Pedro Nuno Santos me desperta. A esquerda é diversa e, sobretudo neste tempo político, a convicção, compromete-me levar a ideia a sério. Não é fácil, mas julgo-a necessariamente útil e perscrutante. Citando ainda BSS, é indispensável “revolucionar a democracia e democratizar a revolução”. Para quem não engrace com as palavras revolucionar e revolução, sirva-se de outras semanticamente acertadas; mudar e mudança. Não dificultando, dir-se-ia assim: é indispensável mudar a democracia e democratizar a mudança.




sábado, maio 26, 2018

CAVACO SILVA, A CAPACIDADE DE DESPERSUADIR


Não lido bem com ferocidades altaneiras que, supondo refutáveis superioridades, lamentavelmente buscam obediências entorpecidas. Por isso, acompanho-vos


sexta-feira, maio 25, 2018

JÚLIO POMAR - O RISCO


Texto retirado de COMUNIDADE, CULTURA E ARTE

Este filme biográfico traça o retrato de um dos mais importantes pintores e escultores portugueses contemporâneos, através do seu testemunho e depoimentos de pessoas de vários quadrantes da sociedade, entre eles António Lobo Antunes, Siza Vieira, Mário Soares, Vasco Graça Moura, críticos de arte e galeristas, entre eles o fundador da Galeria 111 e galerista de Pomar em Portugal, Manuel Brito.




O percurso de Júlio Pomar (Lisboa, 1926 – 2018) é feito de rupturas e regressos. Abandona a Escola de Belas Artes devido a uma suspensão. Lidera o movimento neorrealista. É preso. Faz viagens, como a Amazónia, e descobre os seus grandes mestres. Instala-se em Paris em 1963. Desagrada-se com a pintura e destrói telas. Pratica cores lisas e contornos definidos mas também pintura livre e gestual. Faz colagens. Pinta erotismo. Decora espaços públicos. Ilustra grandes obras da literatura universal. Faz retratos polémicos. Gosta de rir e de viver. Apanha um susto e renasce para a vida. Pinta grandes formatos. Expõe em várias cidades do Mundo. É condecorado. Recebe prémios. Embarca nos mitos e odisseias. Marca o eterno retorno a D. Quixote. Faz esculturas,  assemblage, ilustração, cerâmica e vidro, tapeçaria, cenografia para teatro e decoração mural em azulejo.

quarta-feira, maio 23, 2018

A GLUTONIA INSACIÁVEL DO ARRANJO


Impõe-se a sidérea globalização como de uma benfazeja e sentenciosa pertença se tratasse. Sendo um estradeiro à esquerda, calcorreando caminhos que imaginam, amanhã, alcançar dignidade para os desabrigados de hoje, acompanho alguns outros recalcitrantes heréticos. Todas as tretas que buscam carcomer o princípio do Estado, em favor de premissas mercantis, continuamente não passam de ardilosas ciladas no sentido trapaceiro de atingir formas prestadias e gananciosas de um dócil alinhamento gregário. A suposta charada, na sua linguagem labiríntica, mantém-se obscura porque homizia o seu mostrengo neoliberal. Daí, não rareiam os jorros de vomições desreguladoras, os panegíricos à privatização, os elogios aos seus senhores, assim como os cultos venerados aos bancos, aos agiotas e a tantos outros anelídeos tipo FMI. Entrementes, pela calada bem cuidada, vai-se confiscando a democracia, premissa alicerçadora da sangria a extrair. Adormecidos, lá vamos esquecendo necessidades que de facto fazem falta, tanto quanto vamos aceitando uma liberdade contaminada de serventias e constrangimentos. A democracia assim se vai apodrecendo desgraçadamente corrompida. Assim parece ser a autofagia do Capital. Assim vai acontecendo este licencioso e selvagem imperialismo capitalista.

terça-feira, maio 22, 2018

O PONTO DE INTERROGAÇÃO DE JÚLIO POMAR

PomarMORTE? DESCANSAR RAPAZES

De acordo com o Público de 5 de Março de 2014, reaviva-se o cartaz do programa de comemorações dos 40 anos do 25 de Abril pela A25 de autoria de Júlio Pomar e de Henrique Cayatte. Uma imagem com fundo vermelho, com um ponto de interrogação branco desenhado ao centro, e as datas, 1974 a verde e 2014 a preto.

Questionado sobre o significado do ponto de interrogação, Júlio Pomar justificou-se com a incerteza dos tempos, sublinhando a “gravidade do momento que estamos a atravessar”. “Daqui para a frente o que é que vai ser?”, questionou. O autor da imagem referiu-se ainda à urgência de discutir a "revolução dos cravos", notando que a média de idades das pessoas presentes era um “sinal muito grave”, sendo por isso fundamental “aproveitar a experiência” dos que fizeram Abril.

Júlio Pomar decidiu então descansar. Por isso, importa relembrar a figura, evocando hoje, em 2018, a sua irreverente e militante inquietude.

segunda-feira, maio 21, 2018

AS LÁGRIMAS DE PATRÍCIO

https://www.jn.pt/opiniao/ines-cardoso/interior/as-lagrimas-de-patricio-9360633.html

Do escrito, o devaneio que elejo:

“Na Comunicação Social, podemos começar por não dar tempo de antena a comentadores que em direto oferecem porrada. Ou retirar-nos de salas de imprensa quando os Brunos de Carvalho desta vida ficam horas a falar sem espaço a perguntas. Se nem desta vez aprendermos alguma coisa, o futebol continuará a perder”

Será que a ideia terá colo numa comunicação social que encoraja e transaciona esse despudorado “negócio”? Será ela, a ideia, igualmente suficiente e suficientemente eficiente? Do que precisamos afinal? Sejamos mais claros, sem (A) “economia de responsabilidades…

quarta-feira, maio 16, 2018

ENTENDER A CULPA, UM DURO TRABALHO


A subordinação que nos cativa, desencaminha o dever de responsabilidade. A consciência que vivifica tal acato, do meu ponto de vista, não nos submete moralmente. Admitir-se responsável pressupõe reconhecer a culpa no descuido. Para tal, impõe-se lutar pela autenticidade, pela verdade, escapar ao medo, fazendo o fatigante caminho capaz de despertar uma clara consciência da culpa. Ou seja, da culpa que sobrevém de uma moral educada na liberdade e na responsabilidade e nunca corrompida pelo medo dogmático dos valores, das imposições ou dos preceitos doutrinados.

segunda-feira, maio 14, 2018

DE ONTEM, SOBREVIVEU AMAR PELOS DOIS


Ontem, confirmou-se. AMAR PELOS DOIS fez-se uma canção singular e invulgarmente admirável.

Composição de Luísa Sobral, arranjo de Luís Figueiredo e com a talentosa interpretação de Salvador Sobral



quinta-feira, maio 10, 2018

É OU NÃO GRANDE PENALIDADE?


PENALTIQuando alguém fala do que toda a gente viu, a realidade mostra-se estranhamente diversa. A diferença mora, sem dúvida, na desordem dos olhares e, de modo algum, como é óbvio, nos factos vistos. O real e o imaginário acertam, no seu todo subjetivo, a interpretação que convém. O tolerante dirá que tal acerto é uma sequela da natural paixão e da emoção que a ela se associa. Decerto que sim. Todavia, a persistência dos excessos, e o jeito armífero com que se manifestam os arbítrios, não cabem no regaço bondoso da compreensão. A insistência obstinada na versão, que não se reconhece tendenciosa em tempo algum, adquire claramente características patológicas. Com o tempo, o encarniçamento nada explica, apesar de se explicar de mais e, acima de tudo, bloqueia em definitivo a capacidade, afinal, de separar a ficção da verdade. O ambiente do bate-boca ganha assim, através da intoxicação verbal alardeada, contornos de uma risível, embora penosa, paranoia tristemente generalizada. Não será grande a penalidade, mas é, na verdade, uma inevitável indigência comunicativa.

domingo, maio 06, 2018

SERÁ O TEMPO DO DESTEMPO?


Apanhar a tempo o tempo é uma qualidade política. Fazer da contingência uma possibilidade é exercer essa qualidade a tempo. Era cedo, sim; poderia ser tarde, evidente; mas será que é agora o tempo certo? No Congresso far-se-á, naturalmente, juízo desse tempo. Sócrates, tendo ido, mas não desaparecido, fulgurará nele com uma exabundante e somada vida. Não obstante, para um cruel estrebuchar, afinal para um desenlace último, quiçá insondável, creio por muitos apetecido. Atados pelo desfastio, mas desavindos na fraterna briga entre a história e os votantes. Uns, escudados na nobre retórica do célebre imperativo categórico; o de à Política o que é da Política e à Justiça o que é da Justiça. Os restantes, decerto bem mais numerosos, fartos de más companhias, entredentes desfraldam, embora retraídos, opostas vontades. Para estes, o categórico não dá votos. Outros imperativos os inspiram. Prouvera Deus, diz o ateu, seja outro que não o asfalto esburacado da terceira via. Haja tempo. O Congresso atestará.

sábado, abril 28, 2018

… as redes sociais vieram dar voz aos imbecis!


Regressando a esta asserção polémica de Umberto Eco e em resposta a um comentário produzido face à postagem na altura por mim colocada no facebook, senti-me na necessidade de expor o seguinte esclarecimento, que achei por bem incluir (hoje) no GRITOEARGUMENTO.


Esclareço que julgo não ser um bobo feito “profeta da desgraça” no que respeita às tecnologias digitais. Nelas não pressinto, de modo algum, o diabólico, nem empobrecimentos avassaladores. No plano pessoal, a elas recorrendo hoje como um recurso inevitável e altamente vantajoso, não deixei, porém, de conviver, de ler e de escrever, aliás agora até com cuidada regularidade e entusiasmo. Reconheço, como a generalidade das pessoas, que as armadilhas não estão na tecnologia, mas na forma como se usa e se convoca o seu uso. Algo é certo e que importa registar; a evolução digital favorece e potencia transformações bem visíveis nos paradigmas tecnológicos com um enorme impacto nas dinâmicas sociais, nas mutações socioculturais e, até mesmo, nos nossos ambientes antropológicos. As redes sociais fazem parte desse grande domínio, hoje designado por cibercultura, através das quais se partilha valores, linguagens e ícones. Assim sendo, não se trata de calar os imbecis que legitimamente por aqui jornadeiam. O que importa dizer é que os há e em número enorme. Imbecil, refere o dicionário, é um idiota, um parvo ou mesmo um tolo que alimenta, pela negativa, e frequentemente com petulância, a asneira grossa, a mediocridade ética, o ataque injurioso e não tanto o desconhecimento e a ingenuidade. Denunciar este tipo de comportamentos, diria de fenómeno, é um exercício de responsabilidade e de cidadania. Provavelmente, Umberto Eco usou de uma estética discursiva altaneira e deselegante. Mas este suposto pecado do doutor honoris causa não dá, de modo algum, razão aos imbecis e aos seus comportamentos.

quarta-feira, abril 25, 2018

ITINERÂNCIAS DO SILÊNCIO AO VALOR DA PALAVRA


O incitamento ao silêncio habitualmente por si se confessa. A sua originária estranheza dissipa-se, aclarando-se, com o desenrolar do seu pulsar enovelado. De começo, aparentemente intangível, o silêncio vai-se assim deslindando. Os sinais, gestos por demais humanos, soltam decerto o recôndito segredo. Para tal, subsiste a sua ramosa proximidade. A que o acompanha de perto e uma outra que o orienta para lá da circunstância. É assim um silêncio que fala sem palavras, espelhando a translucidez do não-dito. Quiçá, um silêncio que aguarda sereno a vez da palavra necessária. Deste jeito, o sentido do silêncio passa por esta arte de bem usar a linguagem do dizer e do não-dizer. Uma aprendizagem que se firma no recato da presença autêntica, sem distâncias ou vazios. Um silêncio sem solidão, afinal preso ao apego e à vontade de sempre fazer. Não se me apresenta simples. Embora tardiamente, vou-me aventurando no empreendimento.

quarta-feira, abril 11, 2018

EM CONTRAMÃO, TALVEZ SE ACERTEM RUMOS


Reagir, saber reagir, insurgir-se, em regra são, quiçá, atitudes não só dignas como socialmente higiénicas. Sobretudo, em face de silêncios entorpecentes, e insistentes, provindos de arranjos assentes em lugares e circunstâncias de assimétricos poderes. A medrosa mudez aqui indiciada torna-se, destarte, oportuna condição de ainda mais domínio, guarnecido, como é conveniente, de conspícua e ufana superioridade. A distância afinal, por muitos desde sempre namorada, assim se estabelece, certamente se instaura, e a arbitrariedade com social desembaraço se metaboliza em obstinado abuso. Costumeiramente mediante expedientes que se vão simbolizando sob formas matreiras e sortidas de pedantices ideológicas, em permanente aclimatação da sua aburguesada base algorítmica. Ou seja, uma base, tipo excipiente, onde se faz germinar, e daí medrar, a tão propalada e enjeitada manipulação.

domingo, abril 01, 2018

OS BALDIOS DA NATURALIDADE


O “à toa” tornado natural, amiúde se inebria na nascente das abstrações. Despreza, ou mesmo humilha, descuidada, a condição terrena do seu álveo concreto. Daí, se desponta um sortido de duvidosos supostos, aforismos decerto humanos e ocultados em augustos princípios. De propósito, ou não, estes calam sempre a sua nudez, diga-se ingénua, da sua mancebia lógica. Neste incauto e preguiçoso entrelaçar, quiçá assustado, tal nexo faz das suas. As relações e os vínculos, por isso, e nessas circunstâncias, detalham aparências onde o singular se mostra alegremente dispensado das suas pertenças e determinações. A partir daí, move-se a incessante e genérica moldura de um esboço alegórico com as saloias pretensões de se incutir em decisiva representatividade. A compreensão das coisas, desde então, ufana e atoleimada, difunde-se através das suas sonambúlicas derivas. Porém, num descampado onde o precioso sentido do transformável se desorienta ou, pior ainda, de todo se perde. Mesmo quando sós, bem reconhecemos que jamais caminhamos sozinhos. Melhor, e talvez com mais acerto, diria que é bom e conveniente lembrar que a humanidade é aquele vital e útil “terreiro do não-eu” onde o eu se situa e vive e aí se projeta e singulariza. Em consciência, onde o singular, o dito individual, se solidariza (ou não) com o Outro no transformável mundo que importa. Com (ou sem) esperas celestiais ou transcursos homólogos. O natural é (ou pode ser), de certo modo, um descuidado impensado que espera (ou desespera) mais de nós e das nossas humanas faculdades.

sexta-feira, março 23, 2018

O INFERNO ESTÁ NOS OUTROS, EIS A CERTEZA DO NOSSO FUTEBOL


O futebol e seus abarcantes, pouco a pouco, cada vez mais, consomem (e consomem-se de) uma prática viciada e viciante. Animada por interesses e valores bem diferentes, e diferenciados, nesta trama todos são cúmplices e, paradoxalmente, de igual modo coniventes. Afigura-se, assim, uma realidade de obscura obediência, supostamente a uma intrusiva teologia à volta da bola e das suas piruetas. Brotada esta, quiçá, por uma vulgata versio que a todos desobriga do sacramento da razão. Da religião assim emergente enxerga-se, certamente, um qualquer cabalístico deus fanático, que se revela em espírito aos seus santos caudilhos. Daí, aos diletos intérpretes destes impende o posterior e divino apostolado do urgente refinamento dos seus crentes. Adquirida a vital e acossada , condição precípua de acolhimento e pertença, o desprotegido entendimento, agora sobrante, apenas alcança a evidência do dogma que assim se tonifica. Deste jeito, o fanatismo religioso em modo clubístico talvez baste. Desde de que a decência da virgindade original se invente diluído na trama religiosa da semelhança. Tarefa a que alguns intelectuais da nossa praça se dedicam com genialidade, pedantismo e … patético patetar servilheteiro.

quinta-feira, março 22, 2018

EVOCANDO O AMIGO CARLOS MEDEIROS

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INSOMNIA
(«A voz humana», Jean Cocteau-Teatro Nacional São João)

Poderia ser uma imagem do que antecede ou se segue ao telefonema que uma mulher faz ao amante que a abandona, … aproximando-nos antes dos anos 1930 e 1940, a época em que o monólogo de Cocteau se estreou e conheceu, primeiro, o escândalo e, depois, uma invulgar fortuna. Inspirada no imaginário do film noir, utilizando sombras dramáticas e alto contraste, INSOMNIA oferece uma narrativa densa, sem desfecho.

(retirado de http://www.carlosmedeiros.com/)

quarta-feira, março 21, 2018

OS MEDIA, UMA FONTE TÁCITA DO POPULISMO?


No seu livro O QUE É O POPULISMO?, Dani Rodrik diz-nos que Fukuyama, ao prenunciar “O Fim da História”, não reclamaria sustentar o fim de todas as hostilidades. Talvez afiançasse, isso sim, que a democracia liberal (associado ao capitalismo de mercado) não teria no futuro, e no plano das ideias, eficazes concorrentes. Para tal, como justificativas, convoca a assombração do “islamofascismo”, avoca o “modelo chinês de capitalismo” e, sobretudo, desperta para o perigo crescente fenómeno do populismo. Dani Rodrik contraria, com tais fenómenos, o altaneiro convencimento de Fukuyama. Acima de tudo, e isso particularmente me interessa, manifesta que tal perigo possa vir do próprio interior do mundo democrático, hoje reconhecidamente rebaixado.

Este último lampejo, o do populismo que daninha enraizado no modelo democrático, é aquele que, por isso, aqui importa permanecer e, a ele recorrendo, espiar culpabilidades que os media têm vindo a gerar no adensar da epidemia desta doença politicamente traiçoeira. Entre o que o cidadão necessita de saber (exigência política) e o que interessa ao consumidor (conveniência de mercado), solta-se a substância de um intervalo que se impõe assim como matéria de indagação. Não perdendo tempo, por evidente serventia ao intuito de despudorada despolitização, com um tipo de mediação/mediatização afeito às alcoviteirices sociais, às indecorosidades sexuais e aos crimes e escândalos que compungem, sem interrupção avanço, de um modo esquemático, para a sinopse que importa.

Historicamente, julgo ser consensual que o jornalismo serviu provadamente o instituir da Democracia, designadamente da democracia representativa. Hoje, o dito Mercado, através de um todo poderoso industrial e empresarial no campo da informação, tem vindo a distorcer a qualidade dessa irmanada e alicerçadora convivência memoriosa. Como prólogo aos tópicos que a seguir na sinopse se considera, vale a pena caracterizar, em jeito breve (e decerto caricatural), o que significa (e alcança) esta, hoje, original máquina social do mediar imediato da informação. Ela (esta máquina) encaminha, através de acertados filtros, os nossos olhares a espreitarem e a descodificarem uma certa, aliás particular, e (correntemente) imperfeita realidade. Ela (esta máquina) doutrina mais do que informa, propagando astutamente discursividades fragmentárias e favoráveis ao talhado arranjo da nossa perceção política e ideológica. Ela (esta máquina), e de um modo larvar, impinge um saber superficial, alicerçado em decididos factos e opiniões, que adiante move e moverá úteis juízos de valor pragmaticamente convenientes, convertendo assim tal engenho num eixo axial do andamento democrático.

Tendo presente que o poder desta maquinaria informativa, em síntese, opera em dois relevantes domínios, ou seja; (1) no da descodificação e interpretação dos factos e, como tal, nas implícitas sugestões veiculadas no campo das análises e leituras politico-ideológicas e (2) no dos sistemas de representação estruturados quanto à compreensão da realidade, com o consequente impacto no campo da crítica social e política, aqui deixo para inquérito o seguinte e premente enredo; até que ponto este ordenado poder, que entre nós e a realidade, opera, se faz (ou não) hoje um mastodôntico território simbólico, que nos vem afiliando (ou não) ao teatral divórcio ante a materialidade objetiva da nossa concreta experiência de vida, dos nossos interesses reais, recolocando no lugar destes alienantes considerandos embelezados pela lógica consertada e domesticadora demarcada pelas conveniências dos respetivos mercados? Na minha modesta opinião, a somática colagem dos media aos interesses vantajosos destes últimos proveitos, tem vindo, creio eu, a instigar o incremento da insurgência antissistema e, como tal, a tornar-se numa silenciosa e pérfida parceria, fonte significante deste generalizado, mas perverso populismo crescente. Estarei eu a ser descomedido nesta alarmante, embora pessoal inquietação?