sábado, abril 25, 2026

O LUGAR DA INCERTEZA EM PATRÍCIA REIS

Há uma ideia que me ficou - entre várias - ao ouvir Patrícia Reis falar do seu lugar da incerteza: a noção de “cultura do pensamento”. Não se tratou de acumular ideias, nem de as exibir com charme. Referiu-se a outra coisa, mais rara e exigente: criar condições para que o pensamento aconteça. Isso implica, desde logo, recusar a facilidade com que hoje se confunde pensamento com mera opinião, reação ou resposta imediata.

É precisamente aqui que a abstração - tantas vezes mal vista - se revela crucial. Patrícia Reis mostrou, com clareza, que não há pensamento sem interposição, nem mediação sem um certo afastamento do imediato. O concreto, esse que se apresenta como evidente, é talvez o mais opaco de todos os domínios. Não surge do nada: foi construído, organizado, filtrado, narrado e, com o tempo, naturalizado.

A cultura do pensamento começa, então, quando se torna enfadonho ceder ao imediato. Não se trata de fugir do real, mas de recusar a pobreza com que ele se impõe como evidente e inegável. A abstração revela-se, assim, um gesto crítico: interrompe, desarticula, e permite entrever outra coisa. É ela que nos ajuda a compreender que o “concreto” já vem saturado de simbolismo, linguagem e relações de poder.

Neste quadro, uma verdadeira cultura do pensamento não é compatível com a urgência - esse regime saturado de imagens e de comentários compulsivos. Ela exige silêncio. Não o silêncio da ausência, mas o silêncio como tempo e espaço de transformação e maturação. Um lugar onde a linguagem não serve apenas para dizer, mas para resistir, deslocar e desorganizar o já dito.

O lugar da incerteza - ainda não lido por mim - não será, portanto, uma falha, mas uma condição. Um espaço onde o pensamento não se deixa capturar pela evidência, nem encerrar pela resposta. Um espaço onde o concreto ainda pode ser interrogado - e, por isso mesmo, transformado.

Num tempo em que tudo nos empurra para a tomada de posição imediata, talvez a tarefa mais urgente seja outra: reaprender a pensar, valorizando o valor da condição humana.

Obrigado, Patrícia. 

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