Há uma ideia que me ficou - entre várias - ao ouvir Patrícia
Reis falar do seu lugar da incerteza: a noção de “cultura do
pensamento”. Não se tratou de acumular ideias, nem de as exibir com charme.
Referiu-se a outra coisa, mais rara e exigente: criar condições para que o
pensamento aconteça. Isso implica, desde logo, recusar a facilidade com que hoje
se confunde pensamento com mera opinião, reação ou resposta imediata.
É precisamente aqui que a abstração - tantas vezes mal vista
- se revela crucial. Patrícia Reis mostrou, com clareza, que não há pensamento
sem interposição, nem mediação sem um certo afastamento do imediato. O
concreto, esse que se apresenta como evidente, é talvez o mais opaco de todos
os domínios. Não surge do nada: foi construído, organizado, filtrado, narrado
e, com o tempo, naturalizado.
A cultura do pensamento começa, então, quando se torna
enfadonho ceder ao imediato. Não se trata de fugir do real, mas de recusar a
pobreza com que ele se impõe como evidente e inegável. A abstração revela-se,
assim, um gesto crítico: interrompe, desarticula, e permite entrever outra
coisa. É ela que nos ajuda a compreender que o “concreto” já vem saturado de
simbolismo, linguagem e relações de poder.
Neste quadro, uma verdadeira cultura do pensamento não é
compatível com a urgência - esse regime saturado de imagens e de comentários
compulsivos. Ela exige silêncio. Não o silêncio da ausência, mas o silêncio
como tempo e espaço de transformação e maturação. Um lugar onde a linguagem não
serve apenas para dizer, mas para resistir, deslocar e desorganizar o já dito.
O lugar da incerteza - ainda não lido por mim - não será,
portanto, uma falha, mas uma condição. Um espaço onde o pensamento não se deixa
capturar pela evidência, nem encerrar pela resposta. Um espaço onde o concreto
ainda pode ser interrogado - e, por isso mesmo, transformado.
Num tempo em que tudo nos empurra para a tomada de posição
imediata, talvez a tarefa mais urgente seja outra: reaprender a pensar,
valorizando o valor da condição humana.
Obrigado, Patrícia.
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