Vivemos um tempo em que a apatia política reduz o
entendimento comum, arrastado pela dissolução da relevância simbólica. O
sistema mostra-se inconsciente, as promessas políticas esvaziam-se e as
convicções vacilam. A apatia abraça, como é óbvio, a busca pelo prazer, criando
uma sensação de solidão onde a política se reduz ao campo da técnica e da sua
gestão.
A esperteza e o cinismo da extrema-direita logo emergem, em
voz alta, exibindo-se como um talento capaz de preencher esse “buraco
emocional” com ações imediatas e cativantes. Proclama um “estado puro”,
transbordando afetos mobilizadores, enquanto preenche vazios com narrativas
simplificadoras. O cinismo opera, convertendo-se em crendices deslocadas que
permitem romper com o marasmo.
Com o tempo, compreendemos que a extrema-direita se apresenta como uma “prótese de desejo”: sem horizontes políticos claros, oferece, ainda assim, identidade, ordem, pureza e pertença. Convém reconhecer que cresce no espaço deixado vazio por alternativas que deixaram de saber desejar. Daí a pergunta: como reconstruir um desejo político coletivo que não seja nem cínico nem regressivo?
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