quinta-feira, abril 30, 2026

SEM PULSO A DEMOCRACIA?

Vivemos um tempo em que a apatia política reduz o entendimento comum, arrastado pela dissolução da relevância simbólica. O sistema mostra-se inconsciente, as promessas políticas esvaziam-se e as convicções vacilam. A apatia abraça, como é óbvio, a busca pelo prazer, criando uma sensação de solidão onde a política se reduz ao campo da técnica e da sua gestão.

A esperteza e o cinismo da extrema-direita logo emergem, em voz alta, exibindo-se como um talento capaz de preencher esse “buraco emocional” com ações imediatas e cativantes. Proclama um “estado puro”, transbordando afetos mobilizadores, enquanto preenche vazios com narrativas simplificadoras. O cinismo opera, convertendo-se em crendices deslocadas que permitem romper com o marasmo.

Com o tempo, compreendemos que a extrema-direita se apresenta como uma “prótese de desejo”: sem horizontes políticos claros, oferece, ainda assim, identidade, ordem, pureza e pertença. Convém reconhecer que cresce no espaço deixado vazio por alternativas que deixaram de saber desejar. Daí a pergunta: como reconstruir um desejo político coletivo que não seja nem cínico nem regressivo? 

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