terça-feira, maio 26, 2026

NÃO ME AFASTO DA POLÍTICA …

… DELA NÃO ME DESVIO

Não me afasto da política porque ela atravessa a vida humana em todas as suas dimensões. Está presente nas relações sociais, na organização do trabalho, na distribuição da dignidade, no acesso à palavra e até na forma como aprendemos a desejar e a temer. A política não é apenas o território dos partidos, dos governos ou das disputas eleitorais. É também a forma como uma sociedade constrói os seus valores, normaliza comportamentos e decide aquilo que considera aceitável ou invisível.

Mas dela também não me aproximo de forma obediente ou reconciliada. Procuro manter uma distância crítica. Observo a realidade humana tentando perceber as suas contradições, os seus conflitos e as insuficiências que muitas vezes se escondem sob discursos harmoniosos. Desconfio das evidências demasiado seguras, das respostas prontas e das unanimidades confortáveis.

Sinto-me frequentemente afastado do senso comum quando este reduz a complexidade da vida a opiniões rápidas, certezas imediatas ou alinhamentos automáticos. Não porque procure ser diferente por gosto de oposição, mas porque encontro na realidade humana uma densidade que resiste às simplificações. O pensamento, para mim, não pode limitar-se a repetir chavões aceites. Precisa de interrogar, deslocar, abrir aberturas.

Talvez por isso procure aquilo que permanece oculto nas coisas. Interessa-me o reverso do que socialmente se apresenta como evidente. Aquilo que parece natural pode esconder formas subtis de dominação, conformismo ou dependência emocional. Muitas vezes, o que é socialmente celebrado contém, no seu interior, tensões que raramente queremos reconhecer.

Não procuro afastar-me do mundo, mas libertar-me das dependências que impedem o pensamento de respirar. Existem seduções coletivas que capturam a consciência: o consumo permanente, a necessidade de reconhecimento, as identidades rígidas, as fidelidades absolutas. Todas elas podem transformar a liberdade numa adaptação cómoda e silenciosa.

Vou percebendo, assim, que a verdade não ocupa uma posição fixa. Aproximo-me dela através do contraste, da tensão e da confrontação com a própria realidade. Não encontro a verdade através de um chavão imóvel, mas num movimento de procura crítica. Pensar exige aceitar a incompletude e a inquietação.

É nesse sentido que a contradição deixa de me parecer um defeito acidental da existência. A contradição pertence à própria condição humana e social. Vivemos entre desejos incompatíveis, promessas não cumpridas, avanços e regressões. A sociedade produz liberdade e desigualdade, emancipação e controlo, proximidade e isolamento. Ignorar estas tensões seria empobrecer a compreensão do humano.

Por isso valorizo o gesto dialético. Não como uma técnica abstrata, mas como uma disposição do pensamento que procura compreender os conflitos internos da realidade. A dialética não elimina a tensão; trabalha-a. Não destrói a liberdade; procura perceber os obstáculos, os desvios e as possibilidades do seu percurso.

Também, em razão disso, reconheço a importância da negatividade. Vivemos numa época que valoriza excessivamente a positividade, o desempenho permanente, a motivação contínua e a adaptação rápida. No entanto, o pensamento crítico nasce muitas vezes da inquietação, da recusa e da capacidade de dizer “não”. A negatividade pode abrir espaço ao novo quando impede que o existente se transforme numa fatalidade.

Não me afasto da política porque continuo a acreditar que a vida coletiva pode ser transformada. Mas dela não me aproximo como quem procura abrigo ideológico ou pertença absoluta. Prefiro permanecer nesse lugar de tensão, onde pensar continua a ser uma forma de resistência interior e também uma tentativa de abertura ao possível.

Talvez seja precisamente aí que a política me leva a recuperar a sua dignidade mais profunda: não como administração passiva do existente, mas como procura determinante e incessante de uma vida humana mais consciente, mais livre e mais justa. Através de uma existência lúcida, um espírito liberto e uma vivência com base numa consciência social aplicada.


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