segunda-feira, junho 29, 2026

A IRONIA DE PENSAR QUE NOS CONHECEMOS

Vivo a minha intimidade como um lugar desruidoso, dialogando com os pensamentos, interpelando as emoções e estudando o corpo, sem me equivocar com eles. Desse todo, tudo me vai despontando como proveitoso. Palpita-me, todavia, que a consciência seja apenas a parte visível de uma totalidade mais vasta. As emoções fazem sempre sentir a sua presença e os desejos, em silêncio, não deixam de me atrair.

Quando assim penso, pressinto as mais refinadas ilusões do eu, reconhecendo que não habito um ponto exterior à linguagem que me constitui e à expressão que me define. O "eu" torna-se, permitam-me, uma figuraça que conta histórias sobre si próprio para tolerar a incerteza que o habita.

Uns procuram despertar a interioridade; outros interrogam a fissura que atravessa a relação do eu com o mundo. A testemunha silenciosa transforma-se, então, num outro atravessado por palavras que nunca escolheu completamente.

Apoiado nas minhas leituras, diria, em síntese, que uns acreditam que a consciência pode aprender a desfrutar de tudo; outros responderiam que há sempre um resto que escapa ao saber, uma falta que nenhuma iluminação dissolve, um desejo que sobrevive a todas as respostas.

Talvez não exista, afinal, uma varanda tranquila de onde contemplamos serenamente a vida. Talvez sejamos o próprio palco. Talvez sejamos o espectador que entra em cena sem dar por isso. Os caminhos, embora diferentes, denunciam a ingenuidade humana de acreditar que aquilo que pensa ser é, efetivamente, aquilo que é.

Talvez seja aqui que a ironia encontre a sua forma mais subtil. Passamos a vida a proclamar "conheço-me perfeitamente." Entretanto, sinto o inconsciente sorrir, a linguagem a completar-me a frase e a vida, indiferente às nossas certezas, continua simplesmente a acontecer. 

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