terça-feira, julho 28, 2026

A CONSTRUÇÃO HERMENÊUTICA DO VALOR

Ao articular fenomenologia, hermenêutica e ciências humanas, Jean-Paul Resweber constrói uma matriz concetual densa, cuja tese sobre a estrutura do valor assume uma assinalável eficácia teórica. Depreende-se dessa formulação que o valor não se configura como um dado estático, uma mera preferência subjetiva ou uma imposição heterónoma. Pelo contrário, o valor estrutura-se a partir de uma interação dinâmica e mediadora entre os diferentes polos da experiência humana.

Neste modelo epistemológico, o valor emerge da tensão criativa e da emergência de sentido que ocorrem na confluência entre o sujeito e o mundo. Acolher a perspetiva de Resweber implica reconhecer que a moral e a ética não se reduzem a imperativos abstratos nem a impulsos solipsistas. O valor decorre, sim, de um processo contínuo de transfiguração, no qual desejos singulares se convertem em sentidos partilhados e normas vivas. A valoração constitui-se, assim, como um ato hermenêutico de interpretação e reconfiguração permanentes, ajustando-se à medida que a própria práxis evolui.

Ao adotar esta concetualização, afasta-se a análise tanto do dogmatismo essencialista - que hipostasia os valores como verdades absolutas e a-históricas - quanto do relativismo ingenuamente pluralista, que atribui uma validade indiferenciada a qualquer valoração. Reconhece-se, por conseguinte, a complexidade epistemológica de posicionar o valor como uma construção intersubjetiva de sentido, edificada no diálogo contínuo entre o eu, o outro e o horizonte cultural.

Em última análise, a estrutura do valor na perspetiva de Resweber reside na articulação dialética entre duas instâncias aparentemente antinómicas, porém interdependentes: o desejo, enquanto força vital, subjetiva e afeto; e a norma, enquanto exigência racional, reguladora e coletiva. O desejo desprovido de norma degrada-se em impulso cego; a norma desprovida de desejo reifica-se numa obrigação formal e estéril, destituída de adesão interior.

Quando a subjetividade almeja algo de valioso, esse afeto codifica-se em formas sociais e simbólicas para se tornar comunicável e partilhável. O valor manifesta-se, portanto, na síntese contínua em que o sujeito procura conciliar a fidelidade à sua intenção interior com as exigências da ordem ética e social. É mediante o diálogo, a narrativa e a cultura que as vivências se traduzem em conceitos e regras compreensíveis, sendo a linguagem o vetor fundamental que transforma a afeição primária num valor estruturado e filosoficamente fundamentado. Daí, a Construção Hermenêutica do Valor, para além do Dogmatismo e do Relativismo.

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