… e o vazio chama os
mostrengos
Será que desejamos verdadeiramente viver a descontinuidade
que os mostrengos do nosso tempo nos propõem? Uma sociedade sem raízes, sem
orientação e sem legitimidade, onde as referências normativas e simbólicas
deixam de sustentar a vida comum e passam apenas a alimentar um vazio
regulador, incapaz de oferecer sentido coletivo? Poderão estas figuras
representar um futuro legítimo e leal? Ou estaremos apenas a recorrer a
expedientes fáceis para enfrentar desafios que são profundamente sistémicos?
Não será este o terreno onde germinam o medo, a amargura e uma bipolarização
simplificadora que empobrece a inteligência democrática?
Importa recordar que os valores continuam a organizar
simbolicamente a experiência humana. São eles que dão coerência às nossas
ações, orientam os nossos juízos e tornam possível a convivência. Quando,
porém, a arquitetura dos valores se fragmenta, instala-se uma desorientação
coletiva que enfraquece os laços comuns e dissolve os horizontes partilhados. É
precisamente nesse hiato histórico que os valores estruturantes da vida
democrática se desagregam, abrindo caminho à sedução de identidades monolíticas
e de pertenças exclusivas.
É então que surgem as almas penadas do presente, sempre
prontas a ocupar o espaço abandonado. Oferecem pertença em vez de comunidade;
certezas em vez de pensamento crítico; identidades fechadas em vez de diálogo;
força em vez de legitimidade; obediência em vez de participação. Alimentam-se
da inquietação social e transformam a insegurança numa oportunidade política.
Convém não esquecer uma verdade elementar: o vazio nunca
permanece vazio durante muito tempo. Quando deixa de ser preenchido por um
projeto humano, democrático e partilhado, rapidamente é ocupado por aqueles que
fazem do medo um instrumento de poder e da fragmentação uma estratégia de
domínio. A história demonstra-o repetidamente. O desafio do nosso tempo não
consiste apenas em denunciar os mostrengos, mas em reconstruir as condições
simbólicas, culturais e políticas que devolvam à democracia a sua capacidade de
produzir sentido, esperança e comunidade. Porque os mostrengos nunca vencem
apenas pela sua força; vencem, sobretudo, quando a esperança abdica de ocupar o
lugar que lhe pertence.
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