domingo, agosto 02, 2026

QUANDO A DEMOCRACIA PERDE AS SUAS RAÍZES

e o vazio chama os mostrengos

Será que desejamos verdadeiramente viver a descontinuidade que os mostrengos do nosso tempo nos propõem? Uma sociedade sem raízes, sem orientação e sem legitimidade, onde as referências normativas e simbólicas deixam de sustentar a vida comum e passam apenas a alimentar um vazio regulador, incapaz de oferecer sentido coletivo? Poderão estas figuras representar um futuro legítimo e leal? Ou estaremos apenas a recorrer a expedientes fáceis para enfrentar desafios que são profundamente sistémicos? Não será este o terreno onde germinam o medo, a amargura e uma bipolarização simplificadora que empobrece a inteligência democrática?

Importa recordar que os valores continuam a organizar simbolicamente a experiência humana. São eles que dão coerência às nossas ações, orientam os nossos juízos e tornam possível a convivência. Quando, porém, a arquitetura dos valores se fragmenta, instala-se uma desorientação coletiva que enfraquece os laços comuns e dissolve os horizontes partilhados. É precisamente nesse hiato histórico que os valores estruturantes da vida democrática se desagregam, abrindo caminho à sedução de identidades monolíticas e de pertenças exclusivas.

É então que surgem as almas penadas do presente, sempre prontas a ocupar o espaço abandonado. Oferecem pertença em vez de comunidade; certezas em vez de pensamento crítico; identidades fechadas em vez de diálogo; força em vez de legitimidade; obediência em vez de participação. Alimentam-se da inquietação social e transformam a insegurança numa oportunidade política.

Convém não esquecer uma verdade elementar: o vazio nunca permanece vazio durante muito tempo. Quando deixa de ser preenchido por um projeto humano, democrático e partilhado, rapidamente é ocupado por aqueles que fazem do medo um instrumento de poder e da fragmentação uma estratégia de domínio. A história demonstra-o repetidamente. O desafio do nosso tempo não consiste apenas em denunciar os mostrengos, mas em reconstruir as condições simbólicas, culturais e políticas que devolvam à democracia a sua capacidade de produzir sentido, esperança e comunidade. Porque os mostrengos nunca vencem apenas pela sua força; vencem, sobretudo, quando a esperança abdica de ocupar o lugar que lhe pertence.

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