Há sentimentos que passam. A alegria acontece, a tristeza
sucede, o medo ocorre e até o amor se pode transfigurar. Penso, a partir daí,
que também a nossa própria vida se vai modificando. Não obstante, talvez exista
em mim algo mais fundo do que todos esses sentimentos: um sentimento primeiro,
quase silencioso, que os acompanha e que está na raiz da própria consciência de
mim - o sentimento de ser.
Antes de sabermos o que sentimos, já nos sentimos existindo.
É desse lugar originário que nascem o desejo, a esperança, a memória, a
angústia, a alegria e também a tristeza. Somos feitos dessa matéria invisível
que nos liga a nós próprios, ao mundo e à vida.
O tempo leva muita coisa. Leva os dias, os anos, os rostos,
as circunstâncias. Um dia levará também cada um de nós. Mas, enquanto houver em
nós esse sentimento de existir, haverá algo que resiste ao simples passar do
tempo. Talvez seja isso que hoje mais importa: não acrescentar simplesmente
anos à vida, mas continuar a sentir a vida dentro dos anos.
Porque envelhecer é, inevitavelmente, ver o tempo passar.
Mas viver talvez seja continuar a sentir que estamos aqui. Não fazer da idade
apenas uma contagem do tempo, mas interrogá-la a partir da experiência interior
de ainda estar vivo, ainda sentir, ainda pensar e ainda se deixar surpreender
pela existência. Afinal de contas, vivificando o sentimento de estar vivo.
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