quarta-feira, outubro 07, 2026

MERDIFICAÇÃO

Hoje, ao passear pelos livros, dei com um, intitulado Merdificação. Senti-me atraído e, com algum tempo disponível, vagueei por ele. Prontamente me senti convidado a percorrer as trajetórias comuns das influentes plataformas digitais, inicialmente atraentes, simples e convenientes, capazes de nos oferecer aquilo que julgamos serem supostos valores de utilidade, escolha e liberdade.

O texto, à medida que nele avançamos, não deixa de nos confrontar com algumas certezas: pouco a pouco, vamos dependendo daquilo que inicialmente nos foi oferecido como benefício. A concorrência parece desaparecer e a rivalidade do mercado enfraquecer. Interrogo-me, então, se é apenas o capital que suprime a concorrência ou se são também os engenhos económicos e tecnológicos que facilitam essa aglutinação do poder.

Eis que me vou aproximando daquilo a que Doctorow chama “merdificação”: o momento em que o bom serviço, depois de nos conquistar, começa a extrair de nós o máximo valor possível. Ficamos presos à perspicaz armação de um poder económico que torna cada vez mais difícil a saída. Pode sair, sim. Mas para onde?

A concorrência só subsiste verdadeiramente quando existe uma possibilidade efetiva de escolha. Quando essa possibilidade se reduz, a liberdade permanece aparentemente intacta, mas a escolha começa a perder a sua substância. Toda a gente sabe - ou deveria saber - que, quando a concorrência deixa de disciplinar o capital, o poder económico pode não apenas servir-se do mercado, mas servir-se abusivamente dele.

A “merdificação” não deteriora apenas produtos ou serviços. Deteriora também a própria experiência que temos do mundo. O algoritmo passa a decidir aquilo que vemos. A plataforma decide aquilo que encontramos. A publicidade interfere naquilo que desejamos. Os critérios comerciais interferem naquilo que circula. Ou seja, o capital deixa de disputar apenas o nosso dinheiro e passa a disputar a nossa atenção, o nosso comportamento e a nossa perceção.

É precisamente aqui que encontro uma ponte fértil com Žižek, com Byung-Chul Han e com a minha reflexão sobre o sujeito algorítmico. Já não estamos apenas perante um mercado que procura vender-nos coisas. Estamos perante sistemas que procuram conhecer-nos, orientar-nos e, muitas vezes, antecipar aquilo que iremos desejar.

A “merdificação” é, assim, o processo através do qual uma plataforma, depois de conquistar utilizadores e eliminar ou enfraquecer a concorrência, deixa progressivamente de precisar de os conquistar e passa a poder explorá-los. O que começou como conveniência pode transformar-se em dependência; o que parecia liberdade de escolha pode converter-se numa escolha cada vez mais condicionada.

Talvez seja esta a ironia maior: quanto mais indispensável se torna a plataforma, menos obrigada se sente a agradar-nos. E volto, então, àquilo que me ficou a inquietar desde o início da breve leitura: a hegemonia do capital começa onde a concorrência termina: quando já não é necessário conquistar o outro, basta poder condicioná-lo. O liberalismo fascista por aqui se vai desenrolando…

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