Retornamos a um tempo de anomalias democráticas crónicas, em que alguns doutores impulsivos da síndrome de fadiga prolongada saltam para o palco. As preocupações forçadas e instintivas pelos apertos emocionais dos outros mostram-se altamente rentáveis, não só para a acolhedora humanização dos incomodados, mas também pela empatia que garante e promete a necessária triagem e o encaminhamento do fado.
O papel social é claro, o dever afirma-se em voz alta e a
responsabilidade acompanha todo e qualquer descontentamento do povo. O juízo
inflacionado da responsabilidade, embora hiperbólico, não deixa de acrescentar
a sua multifuncionalidade. Pelos vistos excessivo, tudo isto acompanha o que é
preciso. A palavra impetuosa não falta e a odiosidade, sempre atraente pela
necessidade, apresenta-se como favorável e auxiliadora.
As suas bandeiras, sempre continuadamente presentes, não
deixam de revelar as suas convicções. Mostram, com destreza, a responsabilidade
pela maneira decorosa como os outros se sentem, desviando-se de qualquer erro
que os possa desgostar. Sendo diversas as competências, a palavra política
amolda-se ao propósito circunstancial da vontade e da escolha consciente.
E assim, quase sem darmos por isso, a inquietação
transforma-se em certeza, a frustração em pertença e o medo em linguagem de
proteção. Já não é preciso explicar muito, pois basta reconhecer o mal, apontar
o culpado e prometer que alguém se encarregará de pôr cada coisa no seu lugar.
Há palavras que começam por acolher e acabam por separar. Há
responsabilidades que dizem defender todos, mas precisam sempre de encontrar
alguns para deixar de fora. E há uma inusitada forma de cuidado que, prometendo
devolver ao povo aquilo que lhe pertence, começa por lhe dizer o que deve
sentir, contra quem deve olhar e onde deve estar.
Talvez seja esta a doença mais difícil de diagnosticar: a
patologia que, de boa-fé e sob a aparência da razão, se apresenta como cura,
porque chega sempre acompanhada de uma explicação simples para um mundo que
deixou de o ser. Interrogo-me, pois, como é que uma promessa de proteção se
pode transformar, de mansinho, numa habilidosa forma de submissão?
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