quinta-feira, outubro 01, 2026

UMA DISFUNÇÃO DO NOSSO TEMPO

Retornamos a um tempo de anomalias democráticas crónicas, em que alguns doutores impulsivos da síndrome de fadiga prolongada saltam para o palco. As preocupações forçadas e instintivas pelos apertos emocionais dos outros mostram-se altamente rentáveis, não só para a acolhedora humanização dos incomodados, mas também pela empatia que garante e promete a necessária triagem e o encaminhamento do fado.

O papel social é claro, o dever afirma-se em voz alta e a responsabilidade acompanha todo e qualquer descontentamento do povo. O juízo inflacionado da responsabilidade, embora hiperbólico, não deixa de acrescentar a sua multifuncionalidade. Pelos vistos excessivo, tudo isto acompanha o que é preciso. A palavra impetuosa não falta e a odiosidade, sempre atraente pela necessidade, apresenta-se como favorável e auxiliadora.

As suas bandeiras, sempre continuadamente presentes, não deixam de revelar as suas convicções. Mostram, com destreza, a responsabilidade pela maneira decorosa como os outros se sentem, desviando-se de qualquer erro que os possa desgostar. Sendo diversas as competências, a palavra política amolda-se ao propósito circunstancial da vontade e da escolha consciente.

E assim, quase sem darmos por isso, a inquietação transforma-se em certeza, a frustração em pertença e o medo em linguagem de proteção. Já não é preciso explicar muito, pois basta reconhecer o mal, apontar o culpado e prometer que alguém se encarregará de pôr cada coisa no seu lugar.

Há palavras que começam por acolher e acabam por separar. Há responsabilidades que dizem defender todos, mas precisam sempre de encontrar alguns para deixar de fora. E há uma inusitada forma de cuidado que, prometendo devolver ao povo aquilo que lhe pertence, começa por lhe dizer o que deve sentir, contra quem deve olhar e onde deve estar.

Talvez seja esta a doença mais difícil de diagnosticar: a patologia que, de boa-fé e sob a aparência da razão, se apresenta como cura, porque chega sempre acompanhada de uma explicação simples para um mundo que deixou de o ser. Interrogo-me, pois, como é que uma promessa de proteção se pode transformar, de mansinho, numa habilidosa forma de submissão?

Sem comentários:

Enviar um comentário