domingo, novembro 01, 2026

A SIMPLICIDADE, O MEU FOCO NO ESSENCIAL

Procuro, nesta longevidade, caminhar pela simplicidade enquanto expressão de clareza, naturalidade, abertura e harmonia. Sei, por isso, que não me posso afastar de um estimulante percurso filosófico e literário que me questione sobre as profundas contradições do meu, do nosso tempo. Trata-se de pensar o que significa estar na vida, considerar o outro, compreender as nossas necessidades e reconhecer o valor da humanidade.

Não é uma temática simples, precisamente porque a simplicidade exige que procuremos compreender o que é verdadeiramente essencial. No campo das necessidades, importa perceber que nem todos os desejos são necessários à felicidade. Epicuro ajudou-nos a distinguir os desejos naturais e necessários daqueles que decorrem da ambição, da exibição e de uma procura interminável de satisfação. É nesta liberdade perante o excesso que a simplicidade encontra uma das suas expressões mais significativas.

Também a humildade intelectual nos aponta um caminho. A simplicidade não significa pensar pouco, mas antes não transformar o conhecimento numa demonstração de arrogância ou vaidade. Com o tempo, fui descobrindo uma disparidade entre saber e querer parecer que se sabe. Talvez por isso a simplicidade se tenha tornado, para mim, uma forma de resistência: resistência a determinadas convenções sociais, à acumulação de bens e às necessidades artificialmente criadas que tantas vezes condicionam a nossa liberdade.

Mas a simplicidade não se esgota na relação que estabelecemos com as coisas ou com o conhecimento. A sua dimensão mais profunda encontra-se nas relações humanas. Não existe verdadeira simplicidade quando a relação com os outros é conduzida pela necessidade de manipular, instrumentalizar ou retirar vantagens pessoais. O reconhecimento do outro implica responsabilidade para além dos interesses individuais. É através do respeito pela dignidade de cada pessoa que a simplicidade adquire verdadeiro sentido humano, numa existência que merece e exige respeito.

Ser simples implica, também, sentir a vida sem a complicar desnecessariamente. Não significa, porém, ignorar a complexidade da existência, dos sentimentos, das palavras e dos acontecimentos que fazem parte do nosso quotidiano. Pelo contrário, exige experiência, atenção e disponibilidade para compreender aquilo que nos acontece e aquilo que acontece aos outros. A simplicidade não representa ausência de pensamento, mas uma outra relação com o pensamento: a capacidade de procurar o essencial sem perder de vista a profundidade das coisas.

Neste sentido, a simplicidade, acompanhada da autenticidade, apresenta-se como uma resposta a uma cultura fortemente marcada pela aparência, pela ambição e por uma permanente necessidade de afirmação. Não se trata de rejeitar o desenvolvimento, o conhecimento ou a complexidade da vida, mas de recusar que se transformem em instrumentos de afastamento da nossa condição humana.

A simplicidade que aqui procuro defender assenta em três valores fundamentais: a dignidade, a igualdade e o comum. A dignidade, reconhecendo o valor de cada pessoa, independentemente da sua condição económica ou social; a igualdade, compreendendo que a humanidade não se divide entre pessoas que valem mais ou menos; e o comum, percebendo que a nossa realização individual não pode ignorar a existência, a liberdade e as necessidades dos outros.

A simplicidade não consiste em simplificar a vida dos outros, mas em aprender a não complicar desnecessariamente a nossa relação com a vida e com aqueles que a partilham connosco. Afinal, a simplicidade de pensar não se confunde com obscuridade, tal como a inteligência não se mede pela capacidade de complicar tudo aquilo que procuramos compreender.

Talvez seja este o verdadeiro foco no essencial: saber viver com menos artifícios, pensar com maior clareza e reconhecer, na presença do outro, uma parte inseparável da nossa própria humanidade. A simplicidade não é pobreza de pensamento, pois nela existe uma dimensão crítica, sem cair numa rejeição do conhecimento, do progresso ou da própria liberdade. A simplicidade afirma-se como valor ético, reconhecendo o outro, respeitando a sua dignidade e participando na produção do comum. 

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