Vivemos um tempo em que ninguém suporta a ideia de não saber
quem é. A hesitação passou a desconfiança, a fraqueza, quase defeito de natureza.
O essencial tornou-se simples, revelando-se, situando-se e assumindo-se. Tornando-se
evidente. Fomos aceitando, assim, que o eu é um apego de resguardo, um teatro
de imagens aceitáveis, íntegras e irrefutáveis. No íntimo, um espelho que não
falha. Obedientes, confiamos nele como se a nitidez fosse verdade e não apenas
acerto.
A incerteza, com certeza, não é ausência de identidade. O contratempo
nasce quando a identidade se impõe como analgia. Quanto mais intransigente a
perceção de si, mais inquieta a afinidade. Quanto mais decisivo o “eu sou”, no
interior mais profundo entoa o “e se eu não for?”. A comunidade protege, já que
cada um deve conduzir-se como reconhecimento. A coerência vende, a vacilação
não tem mercado. Em tempos líquidos, como diria Zygmunt Bauman, a tentação é fortalecer-se
sem demora, erigindo algo pessoal contra a instabilidade que nos acompanha.
Mas quando a identidade se endurece em robustez, o desassossego já está à porta. Abraçar papéis sociais é cómodo, a função pensa por nós e o posto responde antes da indagação. O lugar protege-nos da contrariedade que nos habita. Talvez a agitação não seja crise de identidade. Talvez seja apenas a incapacidade de tolerar a limitação. A identidade rígida não é força, torna-se defesa. E a defesa, quando perfeita demais, apenas encobre o medo que insiste em não se deixar anunciar. Ser-se humano não é fácil, requer, por isso, não ter medo de ser atrevido...
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