Sonhadores, deixamo-nos proteger pela normalidade, mesmo quando ela desloca falsidades, desacertos e tranquilas violências que já naturalizámos, fechando os olhos. Com o tempo, adaptamo-nos a esse íntimo condicionado e passamos a legitimar o frequente como habitual, o habitual como comum e o comum como natural. Assim se faz, muitas vezes sem ruído, a nossa acessível domesticação.
As relações de poder e os hábitos quotidianos sabem bem como
administrá-lo. A cultura está, manifestamente, sempre presente. Não precisa de
proibir. Basta-lhe propor, repisar, optar e tornar aceitável. Afasta-nos do que
não devemos pensar sem nos dizer que estamos impedidos de pensar. A aparência
da qualidade e da lisura encarrega-se do resto: continuamos a sentir-nos
livres, mesmo quando já interiorizámos a aceitação dos limites que nos foram
traçados.
As palavras têm aqui uma silenciosa função decisiva.
Repetidas, tornam-se perceção; a perceção, hábito; o hábito, normalidade. E
aquilo que se tornou norma já quase não precisa de ser explicado. Aceita-se,
consome-se e reproduz-se. A cultura conquista, assim, a capacidade de nos
embalar sem que sintamos o aperto do ensaque.
“Pensar diferente” não é nada fácil. Mais difícil ainda é
duvidar do que se tornou habitual. Sabe-se que o hábito tem uma força discreta:
não nos obriga, convence-nos. E, quando nos convence adequadamente, já não
sentimos o condicionamento como dependência, mas como evidente escolha nossa.
Aprender a pensar pressupõe, por isso, despertar para a
cultura que nos “embrulhou”. Não para a recusar em bloco, mas para a
interrogar. Reconhecer que aquilo que aprendemos a aceitar pode já não nos
surgir como suficiente, assim como a normalidade pode também esconder o
disparate. E que a liberdade começa, muitas vezes, quando alguma coisa dentro
de nós se atreve a dizer: isto que todos aceitamos, por que razão não o posso
questionar?
Criticar é assumir essa liberdade. É tornar visíveis os
processos e as formas de atuação que convertem o condicionamento em
normalidade. É recuperar a capacidade de duvidar, precisamente onde nos
ensinaram a não desconfiar.
Talvez pior do que fazer descuidadamente seja não alcançar
aquilo que a cultura abusiva nos habituou a aceitar. Porque o verdadeiro aperto
não está apenas em sermos condicionados. Está, sim, em já não reconhecermos que
o somos…