O assombro da liberdade, enquanto sentimento humano, nunca
se mostra estável ao longo do tempo. A liberdade muda porque o próprio ser
humano se vai alterando nas suas formas de viver, desejar, inquietar-se,
produzir sentidos e disciplinar o corpo humano. O sentimento de liberdade surge
sempre embebido pela cultura, pela arte do possível, pela linguagem e pelos
impulsos do modismo de cada época, muitas vezes incontroláveis.
Num primeiro momento, a liberdade esteve fortemente ligada à
resistência e à libertação prática da intimidação externa: do senhor, da
escassez, da submissão e do controlo. Era uma liberdade compreendida como
conquista concreta, arrancada à dureza do mundo. Mais tarde, sobretudo com o
avanço das sociedades modernas, a liberdade passou também a significar expressão
do “eu”, autonomia pessoal, escolha subjetiva e consciência de si. O indivíduo
descobriu-se livre - ou, pelo menos, começou a apreciar essa ideia.
Todavia, os desenvolvimentos das sociedades contemporâneas
acabaram por sofisticar o absurdo. A liberdade deixou de ser apenas uma questão
política para se tornar também psicológica, cultural e simbólica. O cidadão do
século XXI goza direitos, consumo, mobilidade e expressão, enquanto se deixa
moldar alegremente pela arquitetura comportamental. O mercado, a ideologia, as
redes sociais, o reconhecimento narcísico e os receios da exclusão
transformaram-se em funções quase orgânicas de desempenho e validação. Já nem é
preciso mandar: basta sugerir com delicadeza.
Assim, a liberdade vai-se tornando progressivamente mais
entrelaçada, enquanto o poder se torna mais discreto e as normas de conduta
mais suaves, elegantes e até “afetuosas”. Já não se impõe pelo impedimento
direto; infiltra-se pelo desejo, pela sedução e pelo devaneio. Sobretudo,
comercializa identidades prontas a usar, embaladas com a promessa irresistível
da autenticidade. Cada um julga afirmar-se como único, desde que o faça
exatamente dentro do catálogo disponível.
Por isso, o sentimento contemporâneo de liberdade convive
com uma pressão contínua que, em nome da própria liberdade, facilmente
escorrega para simplificações ideológicas e afetivas. Tudo isto permanentemente
observado pelo olhar do outro - esse tribunal invisível - e pelos discretos
especialistas da satisfação, sempre atentos a orientar desejos, frustrações e
entusiasmos devidamente autorizados.
Em síntese, diria que a liberdade humana exige hoje uma luta
muito mais complexa contra artifícios subtis, frequentemente invisíveis ou
inconscientes, que moldam comportamentos, pensamentos e escolhas. O verdadeiro
teatro contemporâneo talvez resida precisamente aí: nesse cenário de abundância
de opções, onde nunca tivemos tantas possibilidades de escolha e,
simultaneamente, nunca foi tão difícil distinguir entre aquilo que
verdadeiramente desejamos e aquilo que aprendemos, com enorme entusiasmo, a
desejar.
No fundo, a cultura consumista não apenas acompanha a liberdade contemporânea - ela organiza o seu teatro. Define os papéis, distribui os desejos e regula os aplausos. O sujeito entra em cena acreditando ser autor, mas encontra-se já inscrito num guião de escolhas pré-formatadas. A peça prossegue com grande vitalidade, porque todos participam nela com convicção - mesmo quando o que se representa é, sobretudo, a forma contemporânea de uma liberdade, sim, organizada e dirigida.