Vivo a minha intimidade como um lugar desruidoso, dialogando
com os pensamentos, interpelando as emoções e estudando o corpo, sem me
equivocar com eles. Desse todo, tudo me vai despontando como proveitoso.
Palpita-me, todavia, que a consciência seja apenas a parte visível de uma
totalidade mais vasta. As emoções fazem sempre sentir a sua presença e os
desejos, em silêncio, não deixam de me atrair.
Quando assim penso, pressinto as mais refinadas ilusões do
eu, reconhecendo que não habito um ponto exterior à linguagem que me constitui
e à expressão que me define. O "eu" torna-se, permitam-me, uma
figuraça que conta histórias sobre si próprio para tolerar a incerteza que o
habita.
Uns procuram despertar a interioridade; outros interrogam a
fissura que atravessa a relação do eu com o mundo. A testemunha silenciosa
transforma-se, então, num outro atravessado por palavras que nunca escolheu
completamente.
Apoiado nas minhas leituras, diria, em síntese, que uns
acreditam que a consciência pode aprender a desfrutar de tudo; outros
responderiam que há sempre um resto que escapa ao saber, uma falta que nenhuma
iluminação dissolve, um desejo que sobrevive a todas as respostas.
Talvez não exista, afinal, uma varanda tranquila de onde
contemplamos serenamente a vida. Talvez sejamos o próprio palco. Talvez sejamos
o espectador que entra em cena sem dar por isso. Os caminhos, embora
diferentes, denunciam a ingenuidade humana de acreditar que aquilo que pensa
ser é, efetivamente, aquilo que é.
Talvez seja aqui que a ironia encontre a sua forma mais subtil. Passamos a vida a proclamar "conheço-me perfeitamente." Entretanto, sinto o inconsciente sorrir, a linguagem a completar-me a frase e a vida, indiferente às nossas certezas, continua simplesmente a acontecer.