À medida que vou lendo e vivendo, achegando a filosofia à
arte, vou entrevendo melhor a realidade do conhecimento. Pergunto hoje e a mim
próprio, o que é o conhecimento senão o aperto de um ambiente condicionado,
feito de suposições que nos obriga a interrogar?
Dou, pois, comigo a pensar que a indolência mental nos
encaminha facilmente para o imediato. Aceitamos o que está diante de nós como
se fosse evidente e, distraídos pelo tempo, deixamos de interrogar o chão em
que fundamentamos a nossa maneira de viver. Há uma espécie de indiferença
acomodada nos pressupostos que aceitamos sem os considerar.
Reconheço que a arte nos ajuda precisamente a interromper
essa distração. Uma canção pode fazer-nos parar quando o tempo nos impulsiona
para a frente. Pode repor-nos uma pergunta, uma memória, um sentimento que imaginávamos
perdido. Pode fazer-nos perceber que aquilo que vivemos não desaparece só
porque o tempo passa.
É também por isso que hoje penso e lembro Jorge Palma. A sua
morte lembra-nos, de uma maneira particularmente dolorosa, que o tempo não se suspende.
Jorge Palma partiu, mas a sua música ficou. Ficaram as palavras, as melodias, a
voz, o piano, as canções que acompanharam vidas e gerações. Mais de cinco
décadas de criação fizeram da sua obra uma presença na cultura portuguesa.
Com a idade e a experiência, descubro também que as verdades
e os valores não vivem fora da história. Têm uma sequência, pertencem a
determinados homens e a determinados tempos. O que num momento se apresenta
como verdade pode, noutro, revelar os seus limites.
A arte, porém, tem uma relação singular com o tempo. Nasce
num tempo, exprime um tempo, mas pode atravessar muitos outros. Talvez seja
essa uma das formas mais humanas de contrariar a morte: não a vencer porque
isso não nos é possível, mas deixar algo que continue a conversar com quem vem
depois.
Talvez por isso a verdade que sempre procurei não seja um
absoluto imóvel à espera de ser vislumbrado. Ela caminha connosco, atravessa a
história, confronta-se com o possível e vai deixando o absoluto abrir-se às
relatividades do tempo. Jorge Palma caminhou no seu tempo. Viveu-o, cantou-o e
deixou nele a sua marca. Agora somos nós que ficamos com as suas palavras e as
suas canções.
E talvez seja essa a mais funda homenagem que podemos
prestar-lhe: não deixar que a sua morte transforme a sua presença em passado
encerrado. O tempo passa. A vida passa. A morte chega. Mas há vidas que, pela
arte, continuam a fazer-nos companhia. Jorge Palma é uma dessas vidas.