… DELA NÃO ME DESVIO
Não me afasto da política porque ela atravessa a vida humana
em todas as suas dimensões. Está presente nas relações sociais, na organização
do trabalho, na distribuição da dignidade, no acesso à palavra e até na forma
como aprendemos a desejar e a temer. A política não é apenas o território dos
partidos, dos governos ou das disputas eleitorais. É também a forma como uma
sociedade constrói os seus valores, normaliza comportamentos e decide aquilo
que considera aceitável ou invisível.
Mas dela também não me aproximo de forma obediente ou
reconciliada. Procuro manter uma distância crítica. Observo a realidade humana
tentando perceber as suas contradições, os seus conflitos e as insuficiências
que muitas vezes se escondem sob discursos harmoniosos. Desconfio das
evidências demasiado seguras, das respostas prontas e das unanimidades
confortáveis.
Sinto-me frequentemente afastado do senso comum quando este
reduz a complexidade da vida a opiniões rápidas, certezas imediatas ou
alinhamentos automáticos. Não porque procure ser diferente por gosto de
oposição, mas porque encontro na realidade humana uma densidade que resiste às
simplificações. O pensamento, para mim, não pode limitar-se a repetir chavões
aceites. Precisa de interrogar, deslocar, abrir aberturas.
Talvez por isso procure aquilo que permanece oculto nas
coisas. Interessa-me o reverso do que socialmente se apresenta como evidente.
Aquilo que parece natural pode esconder formas subtis de dominação, conformismo
ou dependência emocional. Muitas vezes, o que é socialmente celebrado contém,
no seu interior, tensões que raramente queremos reconhecer.
Não procuro afastar-me do mundo, mas libertar-me das
dependências que impedem o pensamento de respirar. Existem seduções coletivas
que capturam a consciência: o consumo permanente, a necessidade de
reconhecimento, as identidades rígidas, as fidelidades absolutas. Todas elas
podem transformar a liberdade numa adaptação cómoda e silenciosa.
Vou percebendo, assim, que a verdade não ocupa uma posição
fixa. Aproximo-me dela através do contraste, da tensão e da confrontação com a
própria realidade. Não encontro a verdade através de um chavão imóvel, mas num
movimento de procura crítica. Pensar exige aceitar a incompletude e a
inquietação.
É nesse sentido que a contradição deixa de me parecer um
defeito acidental da existência. A contradição pertence à própria condição
humana e social. Vivemos entre desejos incompatíveis, promessas não cumpridas,
avanços e regressões. A sociedade produz liberdade e desigualdade, emancipação
e controlo, proximidade e isolamento. Ignorar estas tensões seria empobrecer a
compreensão do humano.
Por isso valorizo o gesto dialético. Não como uma técnica
abstrata, mas como uma disposição do pensamento que procura compreender os
conflitos internos da realidade. A dialética não elimina a tensão; trabalha-a.
Não destrói a liberdade; procura perceber os obstáculos, os desvios e as
possibilidades do seu percurso.
Também, em razão disso, reconheço a importância da
negatividade. Vivemos numa época que valoriza excessivamente a positividade, o
desempenho permanente, a motivação contínua e a adaptação rápida. No entanto, o
pensamento crítico nasce muitas vezes da inquietação, da recusa e da capacidade
de dizer “não”. A negatividade pode abrir espaço ao novo quando impede que o
existente se transforme numa fatalidade.
Não me afasto da política porque continuo a acreditar que a
vida coletiva pode ser transformada. Mas dela não me aproximo como quem procura
abrigo ideológico ou pertença absoluta. Prefiro permanecer nesse lugar de
tensão, onde pensar continua a ser uma forma de resistência interior e também
uma tentativa de abertura ao possível.
Talvez seja precisamente aí que a política me leva a recuperar
a sua dignidade mais profunda: não como administração passiva do existente, mas
como procura determinante e incessante de uma vida humana mais consciente, mais
livre e mais justa. Através de uma existência lúcida, um espírito liberto e uma
vivência com base numa consciência social aplicada.