Gosto imenso de conversar, de um conversar que se tornou difícil no nosso tempo, não porque faltem ideias e palavras, mas porque decresce o pensamento que nelas se envolvem. A trivialização comunicativa em que vivemos mostra-se sinal de entusiasmo, tornando-se frequentemente costumeira: fala-se para passar o tempo, não para o sentir de verdade e de consistente dedicação.
Pensar, conversando, não se realiza através de um ato meramente
insociável. Pensar, conversando, acontece onde a fala deixa de ser mera
transmissão e se torna incidente. É aí que a conversa consegue densidade, não
como uma mera soma de opiniões, mas como caminhada em que o sentido se imagina,
se desloca e, por vezes, se retrocede para poder surgir de uma forma diferente.
Mas este “entre” é hoje constantemente ameaçado. A tendência
dominante é a de dizer para afirmar, para classificar, para encerrar. As
palavras vitais deixam de abrir o mundo e assim se submetem ao sob domínio do refreamento.
Ajeitam a perceção, abalizam o admissível e fixam, tanto quanto possível, as
produtividades das verdades que dispensam a interrogação. Assim sendo, o
relevante já não é o que não podemos dizer, mas o que já não conseguimos dizer,
nem sequer necessidade de pensar.
Neste lente, todavia, limitante quadro, a conversa perde a
sua capacidade transformadora e, como tal, aproxima-se da dinâmica interna e
funcional da silenciosa reprodução: aplicam-se as mesmas receitas, repetem-se as
posturas, reforçam-se identidades. O outro incómodo deixa de ser um falante
para se tornar um atencioso acolhedor de confirmação ou de recusa. E, assim, o
diálogo cede ao alinhamento de retóricas que não se concordam verdadeiramente.
Escutar, então, adquire uma paciente dimensão ético-política.
Não se trata apenas de ouvir, mas de suspender a urgência da resposta, de
aceitar a opacidade do outro, de reconhecer que o sentido não está previamente
dado, mas se constrói, sempre falhando, na relação. Escutar, apenas nesse
sentido, é um abrir de espaço que não bate certo com o nosso próprio horizonte.
Conversar torna-se, assim, uma incómoda e exigente prática
de renovação. Não há entendimentos, nem harmonizações de opostos. Há apenas a frágil
possibilidade de deslocar o olhar, de descentrar o sujeito, de promover
aberturas naquilo que assumimos por evidente. Contra a tentação de uma
linguagem transparente e controlável, a conversa digna desse nome aceita a
imprecisão e o inacabado como condições possíveis do pensar.
Talvez por isso a boa conversa não exija apenas uma
competência, mas uma forma de resistência. Resistência à simplificação, à
aceleração, à captura do pensamento por discursos já feitos. Conversar é
sustentar um espaço onde o sentido não estando fechado, se torna ainda possível
pensar, não apesar do outro, mas com ele. E é neste “com ele”, sempre incerto e
exposto, que a maneira de falar deixa de ser apenas um meio e se torna,
verdadeiramente, um paciente espaço de “bricolagem”.
Sinceramente, reconheço a minha dificuldade e a minha
impaciência, bem como a falta de jeito e de preparação para tal. Todavia,
procuro ser simpático. Ainda assim, reconheço que dificilmente suporto os
“chicos-espertos”, que sabem agir de forma oportunista, desonesta ou arrogante,
julgando-se, com aparente entusiasmo, mais inteligentes do que os outros.