Tenho-me vindo a cruzar com Stuart Hall, procurando
apreender o seu modo de pensar. Com ele, vou percebendo que as explicações
retilíneas, mergulhadas em cadeias simples de causa e efeito no âmbito
cultural, pouco me beneficiam e quase nada me servem. Daí vou descobrindo e
reconhecendo um rumo inspirador, onde a lógica das relações e das articulações
se revela mais precisa e valiosa.
Começo por sustentar a rejeição da ideia de que uma prática
social possa ser interpretada a partir de uma causa fundamental e universal.
Uma determinada representação cultural pode inscrever-se em múltiplas
articulações: participar na produção e reprodução de relações de poder, na
construção de identidades, na produção de diferenças, no fortalecimento de
determinadas representações sociais, mas também abrir espaços de resistência e
transformação. A cultura surge, assim, como um campo de disputa.
A cultura torna-se comum e habitual, não banal nem
desprovida de importância. Está na vida de todos os dias: na televisão que
vemos, na música que ouvimos, na publicidade que nos interpela e nos captura,
na linguagem que usamos, nos gestos e comportamentos que repetimos, nas
variadas formas de vestir, nas conversas, nos costumes e nas rotinas, nas redes
sociais, nas maneiras como representamos o outro e a nós próprios. A cultura
não se reduz às grandes obras ou às manifestações consideradas superiores; está
também no quotidiano das representações, das práticas e das relações de poder.
Eis uma deslocação decisiva para a análise cultural.
Reconheço que, ao falar de capitalismo, perceção,
algoritmos, subjetividade, cultura e poder, me aproximo desta inspiração
relacional de Hall. Tudo isto acontece no quotidiano e na cultura que nele se
produz e reproduz. É precisamente aqui que Hall se torna particularmente
fecundo para o meu próprio raciocínio e para a minha reflexão. Ele
encaminha-nos a não separar aquilo que tantas vezes aparece dividido: cultura e
política, identidade e poder, representação e experiência, sujeito e sociedade.
Hall, no fundo, não se limita a perguntar qual é a causa de
um fenómeno; procura compreender as relações que, por vezes ocultas sob a
aparência imediata das coisas, o constituem. Substitui uma conceção da cultura
como esfera superior, autónoma e inteligível da sociedade por uma compreensão
da cultura como lugar onde a vida social acontece, se representa, se confronta,
se disputa e se transforma.
Talvez seja esta uma das aprendizagens que Stuart Hall me
vai deixando: olhar não para as coisas isoladamente, mas para aquilo que entre
elas acontece. Procurar os vínculos, as articulações, as tensões e os
conflitos. Perceber que aquilo que parece separado pode, afinal, estar
profundamente ligado.
Eis, pois, por onde vou caminhando…