... ENTRE O MERCADO E O ATROPELO DEMOCRÁTICO
Relacionar o liberalismo com o fascismo não significa confundir duas correntes políticas distintas. Trata-se, antes, de procurar compreender os pontos de contacto, as rivalidades e as convergências históricas que, em determinadas circunstâncias, podem aproximá-las. Os tempos têm demonstrado que a divergência entre ambas não constitui necessariamente uma muralha intransponível. Se o liberalismo se apresenta como defensor da liberdade individual e do pluralismo, o fascismo procura condicioná-los através de uma estrutura opressiva, que centraliza o poder e procura afastar a discordância.
Todavia, nos dias de hoje, somos convidados a questionar a
solidez dessa resistência. Alguns pensadores têm chamado a atenção para as
aproximações que podem ocorrer quando a liberdade económica se sobrepõe à
construção democrática do comum, quando a concentração do poder enfraquece a
participação dos cidadãos e quando o pluralismo passa a ser encarado como um
obstáculo ao exercício da autoridade. Não se trata de afirmar que o liberalismo
conduz inevitavelmente ao fascismo, mas de reconhecer que, entre ambos, podem
estabelecer-se alianças políticas e económicas capazes de fragilizar a
democracia.
O mercado conserva a sua posição predominante na organização
da vida social. O indivíduo é formalmente livre perante a lei; contudo, essa
liberdade nem sempre encontra correspondência nas condições concretas da sua
existência. A assimetria económica limita as possibilidades de escolha,
enquanto o consumo reforça a perceção de uma liberdade que parece ampliar-se
com o alargamento do catálogo de opções disponíveis. A tecnologia, por sua vez,
multiplica as alternativas, mas também pode orientar preferências, acelerar
comportamentos e condicionar escolhas através da mediação algorítmica.
Escolhemos mais, mas nem sempre percebemos quem organiza e condiciona o nosso
campo de escolhas.
Entretanto, a democracia pode preservar as suas formalidades
eleitorais enquanto se adulteram algumas das condições que lhe dão sentido. A
concentração económica, a desigualdade, a vigilância, a personalização do poder
e a intolerância perante a divergência podem reduzir o espaço da participação
cívica e enfraquecer a confiança naquilo que é público e partilhado. O voto
permanece, mas as possibilidades de intervenção dos cidadãos nas decisões que
determinam a vida coletiva tornam-se cada vez mais desiguais e
desproporcionadas.
É aqui que a questão da liberdade adquire uma dimensão
política e humana essencial. Não basta sermos formalmente livres; importa saber
em que condições podemos exercer essa liberdade, participar nas decisões comuns
e construir, com os outros, o nosso futuro. Uma sociedade pode multiplicar as
escolhas individuais e, simultaneamente, diminuir a capacidade coletiva de
decidir.
A liberdade não se esgota no direito de escolher dentro de
uma realidade previamente organizada por outros. Exige também a possibilidade
de participar na construção dessa realidade. Quando essa possibilidade se
enfraquece, a democracia corre o risco de conservar as suas formas enquanto
perde parte daquilo que é essencial à condição humana.
Eis a pergunta que considero merecer o nosso tempo de
reflexão: se a liberdade individual se torna cada vez mais dependente de
poderes económicos e tecnológicos que escapam ao controlo democrático, como
poderemos reconstruir uma liberdade que não seja apenas individual, mas também
uma capacidade partilhada de decidir o nosso destino coletivo? Pessoalmente, apesar
da idade, procuro, outro sim, dar vida ao pensar.