Sinto que vivemos um tempo marcado por uma espécie de psicopatia política, alimentada por uma altivez demagógica que avança de mãos dadas com a intolerância e a recusa da diferença. A linguagem pública degrada-se, o debate empobrece e os valores éticos são progressivamente substituídos por estratégias de influência, oportunismo, manipulação da verdade e exercício arbitrário do poder.
O que emerge deste cenário não é uma liderança orientada
pelo respeito, pela autonomia ou pela dignidade dos cidadãos. Pelo contrário,
assiste-se à valorização de comportamentos que privilegiam a eficácia do
domínio, a conquista de influência e a obtenção de benefícios próprios, mesmo
quando estes se apresentam disfarçados de interesse coletivo. O poder deixa de
ser um instrumento ao serviço da comunidade para se transformar num fim em si
mesmo.
As suas estratégias procuram aparentar clareza e
legitimidade. Falam em nome do povo, apresentam-se como defensores da ordem e
da moralidade, e identificam inimigos responsáveis por todos os males. Contudo,
por detrás dessa encenação, encontra-se frequentemente uma visão simplificadora
da realidade, incapaz de acolher a pluralidade, a crítica e o dissenso
democrático.
Pergunto-me, por isso, como é possível considerar exemplares
figuras que exibem, de forma recorrente, traços de narcisismo, agressividade e
inclinação autoritária. Como compreender a crescente aceitação de discursos que
estimulam o ressentimento, a exclusão e a submissão ao líder providencial?
Talvez porque a insegurança e o medo criam terreno fértil
para soluções fáceis e promessas grandiosas. Talvez porque a complexidade do
presente leve muitos a procurar refúgio em narrativas que idealizam um passado
supostamente perdido. É nesse contexto que ganha força aquilo que alguns
autores designam por patocracia: uma forma de organização política em
que traços patológicos de personalidade encontram espaço para influenciar
instituições, moldar comportamentos coletivos e corroer os fundamentos éticos
da vida democrática.
Quando ouvimos apelos à restauração de uma ordem
desaparecida com a Revolução de 1974, importa perguntar se estamos perante um
legítimo debate histórico ou perante a nostalgia de formas de autoridade
incompatíveis com as conquistas da liberdade, da participação democrática e dos
direitos cívicos. A resposta a esta questão talvez seja decisiva para
compreender os desafios políticos e culturais do nosso tempo.