Hoje, ao passear pelos livros, dei com um, intitulado Merdificação. Senti-me atraído e, com algum tempo disponível, vagueei por ele. Prontamente me senti convidado a percorrer as trajetórias comuns das influentes plataformas digitais, inicialmente atraentes, simples e convenientes, capazes de nos oferecer aquilo que julgamos serem supostos valores de utilidade, escolha e liberdade.
O texto, à medida que nele avançamos, não deixa de nos
confrontar com algumas certezas: pouco a pouco, vamos dependendo daquilo que
inicialmente nos foi oferecido como benefício. A concorrência parece
desaparecer e a rivalidade do mercado enfraquecer. Interrogo-me, então, se é
apenas o capital que suprime a concorrência ou se são também os engenhos
económicos e tecnológicos que facilitam essa aglutinação do poder.
Eis que me vou aproximando daquilo a que Doctorow chama
“merdificação”: o momento em que o bom serviço, depois de nos conquistar,
começa a extrair de nós o máximo valor possível. Ficamos presos à perspicaz
armação de um poder económico que torna cada vez mais difícil a saída. Pode
sair, sim. Mas para onde?
A concorrência só subsiste verdadeiramente quando existe uma
possibilidade efetiva de escolha. Quando essa possibilidade se reduz, a
liberdade permanece aparentemente intacta, mas a escolha começa a perder a sua
substância. Toda a gente sabe - ou deveria saber - que, quando a concorrência
deixa de disciplinar o capital, o poder económico pode não apenas servir-se do
mercado, mas servir-se abusivamente dele.
A “merdificação” não deteriora apenas produtos ou serviços.
Deteriora também a própria experiência que temos do mundo. O algoritmo passa a
decidir aquilo que vemos. A plataforma decide aquilo que encontramos. A
publicidade interfere naquilo que desejamos. Os critérios comerciais interferem
naquilo que circula. Ou seja, o capital deixa de disputar apenas o nosso
dinheiro e passa a disputar a nossa atenção, o nosso comportamento e a nossa
perceção.
É precisamente aqui que encontro uma ponte fértil com Žižek,
com Byung-Chul Han e com a minha reflexão sobre o sujeito algorítmico. Já não
estamos apenas perante um mercado que procura vender-nos coisas. Estamos
perante sistemas que procuram conhecer-nos, orientar-nos e, muitas vezes,
antecipar aquilo que iremos desejar.
A “merdificação” é, assim, o processo através do qual uma
plataforma, depois de conquistar utilizadores e eliminar ou enfraquecer a
concorrência, deixa progressivamente de precisar de os conquistar e passa a
poder explorá-los. O que começou como conveniência pode transformar-se em
dependência; o que parecia liberdade de escolha pode converter-se numa escolha
cada vez mais condicionada.
Talvez seja esta a ironia maior: quanto mais indispensável
se torna a plataforma, menos obrigada se sente a agradar-nos. E volto, então,
àquilo que me ficou a inquietar desde o início da breve leitura: a hegemonia do
capital começa onde a concorrência termina: quando já não é necessário
conquistar o outro, basta poder condicioná-lo. O liberalismo fascista por aqui se
vai desenrolando…