… educando para o bem comum numa cultura de competição
A escola é, por excelência, um espaço de encontro com a
diversidade. Nela cruzam-se diferentes histórias, sensibilidades, culturas,
valores e modos de compreender o mundo. Por isso, educar não pode limitar-se à
transmissão de conhecimentos: implica também aprender a viver com os outros,
reconhecer a diferença e compreender que o respeito não é uma atitude
espontânea, mas uma construção ética que precisa de ser permanentemente
trabalhada.
É neste sentido que a ética, a moral e a pluralidade
adquirem uma importância educativa, mas também profundamente cultural e social.
Mais do que ensinar comportamentos considerados corretos, importa criar
condições para que os jovens possam interrogar as suas próprias condutas,
questionar valores recebidos e compreender as consequências dos seus atos sobre
os outros. Sensibilizar, problematizar, investigar e conceptualizar são, assim,
momentos de uma educação que procura formar sujeitos capazes de pensar antes de
julgar e de compreender antes de excluir.
Mas esta tarefa da escola não acontece num vazio cultural. A
escola encontra-se inserida numa sociedade marcada por uma cultura consumista e
competitiva, que frequentemente valoriza o sucesso individual, a comparação, a
posse e a capacidade de cada um se afirmar perante os outros. O sujeito é
muitas vezes educado para desejar mais, possuir mais e competir mais, como se a
realização pessoal dependesse necessariamente da superação do outro. A lógica
do mercado tende, assim, a penetrar também no modo como nos vemos a nós
próprios e como avaliamos os outros.
É precisamente aqui que a educação ética pode assumir uma
dimensão crítica. Não para negar o indivíduo ou a legítima afirmação pessoal,
mas para interrogar uma cultura que transforma demasiadas vezes a relação com o
outro numa relação de concorrência. Educar para a diversidade, para o respeito
e para a inclusão significa, nesse contexto, criar uma possibilidade diferente:
a de compreender que a realização humana não se esgota na competição e que a
vida em sociedade exige também cooperação, responsabilidade e reconhecimento
mútuo.
A função social da escola torna-se particularmente relevante
perante o preconceito, a violência, a exclusão ou o abandono escolar. Não
porque possa, por si só, resolver problemas que pertencem à sociedade inteira,
mas porque pode constituir um lugar onde esses problemas são reconhecidos,
discutidos e pensados coletivamente.
Há aqui uma questão cultural e política que merece ser
sublinhada: a educação para a convivência contraria a lógica da competição
permanente. Enquanto esta tende a colocar cada um perante o outro, aquela
procura descobrir aquilo que podemos construir com o outro. A escola pode, por
isso, ser mais do que um lugar de aprendizagem: pode ser um lugar de formação
do comum, um espaço onde a diferença não seja motivo de afastamento, mas uma
possibilidade de reconhecimento, diálogo e enriquecimento recíproco.
Educar, neste sentido, é também resistir à ideia de que
devemos preparar os jovens apenas para competir num mundo já dado. É ajudá-los
a pensar criticamente esse mundo e a imaginar formas diferentes de nele viver. Porque
educar não é apenas adaptar o indivíduo à sociedade que existe; é também criar
condições para que ele possa participar na construção da sociedade que ainda
não existe.