Procuro, nesta longevidade, caminhar pela simplicidade
enquanto expressão de clareza, naturalidade, abertura e harmonia. Sei, por
isso, que não me posso afastar de um estimulante percurso filosófico e
literário que me questione sobre as profundas contradições do meu, do nosso
tempo. Trata-se de pensar o que significa estar na vida, considerar o outro,
compreender as nossas necessidades e reconhecer o valor da humanidade.
Não é uma temática simples, precisamente porque a
simplicidade exige que procuremos compreender o que é verdadeiramente
essencial. No campo das necessidades, importa perceber que nem todos os desejos
são necessários à felicidade. Epicuro ajudou-nos a distinguir os desejos
naturais e necessários daqueles que decorrem da ambição, da exibição e de uma
procura interminável de satisfação. É nesta liberdade perante o excesso que a
simplicidade encontra uma das suas expressões mais significativas.
Também a humildade intelectual nos aponta um caminho. A
simplicidade não significa pensar pouco, mas antes não transformar o
conhecimento numa demonstração de arrogância ou vaidade. Com o tempo, fui
descobrindo uma disparidade entre saber e querer parecer que se sabe. Talvez
por isso a simplicidade se tenha tornado, para mim, uma forma de resistência:
resistência a determinadas convenções sociais, à acumulação de bens e às
necessidades artificialmente criadas que tantas vezes condicionam a nossa
liberdade.
Mas a simplicidade não se esgota na relação que
estabelecemos com as coisas ou com o conhecimento. A sua dimensão mais profunda
encontra-se nas relações humanas. Não existe verdadeira simplicidade quando a
relação com os outros é conduzida pela necessidade de manipular,
instrumentalizar ou retirar vantagens pessoais. O reconhecimento do outro
implica responsabilidade para além dos interesses individuais. É através do
respeito pela dignidade de cada pessoa que a simplicidade adquire verdadeiro
sentido humano, numa existência que merece e exige respeito.
Ser simples implica, também, sentir a vida sem a complicar
desnecessariamente. Não significa, porém, ignorar a complexidade da existência,
dos sentimentos, das palavras e dos acontecimentos que fazem parte do nosso
quotidiano. Pelo contrário, exige experiência, atenção e disponibilidade para
compreender aquilo que nos acontece e aquilo que acontece aos outros. A
simplicidade não representa ausência de pensamento, mas uma outra relação com o
pensamento: a capacidade de procurar o essencial sem perder de vista a
profundidade das coisas.
Neste sentido, a simplicidade, acompanhada da autenticidade,
apresenta-se como uma resposta a uma cultura fortemente marcada pela aparência,
pela ambição e por uma permanente necessidade de afirmação. Não se trata de
rejeitar o desenvolvimento, o conhecimento ou a complexidade da vida, mas de
recusar que se transformem em instrumentos de afastamento da nossa condição
humana.
A simplicidade que aqui procuro defender assenta em três
valores fundamentais: a dignidade, a igualdade e o comum. A dignidade,
reconhecendo o valor de cada pessoa, independentemente da sua condição
económica ou social; a igualdade, compreendendo que a humanidade não se divide
entre pessoas que valem mais ou menos; e o comum, percebendo que a nossa
realização individual não pode ignorar a existência, a liberdade e as
necessidades dos outros.
A simplicidade não consiste em simplificar a vida dos
outros, mas em aprender a não complicar desnecessariamente a nossa relação com
a vida e com aqueles que a partilham connosco. Afinal, a simplicidade de pensar
não se confunde com obscuridade, tal como a inteligência não se mede pela
capacidade de complicar tudo aquilo que procuramos compreender.
Talvez seja este o verdadeiro foco no essencial: saber viver com menos artifícios, pensar com maior clareza e reconhecer, na presença do outro, uma parte inseparável da nossa própria humanidade. A simplicidade não é pobreza de pensamento, pois nela existe uma dimensão crítica, sem cair numa rejeição do conhecimento, do progresso ou da própria liberdade. A simplicidade afirma-se como valor ético, reconhecendo o outro, respeitando a sua dignidade e participando na produção do comum.



