Reafirmo: a idade não me impede a leitura nem a faculdade de pensar. Um pensar que, partindo dela, se torne, para mim, saudavelmente indiferente à passagem do tempo. O caminho vai resistindo nesse campo em que o pensamento, a responsabilidade e o valor ético da palavra se combinam. O dito «grito», presente na designação do meu blogue, desponta da empatia humana e procura, no argumento, a responsabilidade de reconhecer a inquietação do dever e de sobre ela meditar.
Ao exaltar valores, no imediato emocional, procuro apenas
dar atenção às exigências que vou colocando às minhas singulares incertezas.
Não me basta, portanto, exortá-las; torna-se essencial prosseguir o caminho da
reflexão. A justiça, enquanto moral, virtude ou dever, obriga-nos a refletir
sobre as nossas convicções e os interesses que aprovamos, valorizando a
civilidade na relação com os outros.
O meu interesse pela crítica cultural procura questionar
aquilo que se apresenta e se considera normal, mas que nem sempre é justo ou
aceitável. Os hábitos, os fundamentos e as ideias dominantes vão-me revelando
arbitrariedades que, enganosamente, parecem naturais, inevitáveis ou mesmo
legítimas.
Não sou filósofo, mas sirvo-me da sua esfera de pensamento,
procurando recuperar a capacidade de questionar aquilo a que, permitam-me o
plural, nos fomos familiarizando. Não é o pensamento que nos distancia da vida,
mas o afastamento do senso crítico que nos pode impedir de reconhecer a
injustiça e de nos dispormos a contrariá-la.
Em síntese, três interrogações me orientam desde o início:
quando a sociedade invoca a liberdade, que liberdade está a defender e para
quem? Quando se considera uma medida política, que interesses serve e que
custos humanos considera aceitáveis? Quando se fala em justiça, que interesses
defende, limita ou legitima?
Pensar o humano perde parte do seu sentido quando deixa de
reconhecer aquilo que nos liga aos outros.