Acabo de ler “Quando o Estado perde capacidade, a Escola Pública paga o preço”, um breve texto de José Feliciano Costa, Presidente do SPGL. Apreciei a acuidade e a fundamentação com que o texto aborda a transformação do papel do Estado na Educação. Em poucas palavras, capta-se a essência da lógica neoliberal ao demonstrar como a passagem de garante a mero regulador compromete a universalidade e a emancipação do ensino público. Trata-se de uma crítica madura, corrosiva na medida certa e profundamente comprometida com os valores constitucionais. É pena que o debate público viva tão entretido com as distrações.
gritoeargumento
sexta-feira, julho 31, 2026
terça-feira, julho 28, 2026
A CONSTRUÇÃO HERMENÊUTICA DO VALOR
Ao articular fenomenologia, hermenêutica e ciências humanas, Jean-Paul Resweber constrói uma matriz concetual densa, cuja tese sobre a estrutura do valor assume uma assinalável eficácia teórica. Depreende-se dessa formulação que o valor não se configura como um dado estático, uma mera preferência subjetiva ou uma imposição heterónoma. Pelo contrário, o valor estrutura-se a partir de uma interação dinâmica e mediadora entre os diferentes polos da experiência humana.
Neste modelo epistemológico, o valor emerge da tensão
criativa e da emergência de sentido que ocorrem na confluência entre o sujeito
e o mundo. Acolher a perspetiva de Resweber implica reconhecer que a moral e a
ética não se reduzem a imperativos abstratos nem a impulsos solipsistas. O
valor decorre, sim, de um processo contínuo de transfiguração, no qual desejos
singulares se convertem em sentidos partilhados e normas vivas. A valoração
constitui-se, assim, como um ato hermenêutico de interpretação e reconfiguração
permanentes, ajustando-se à medida que a própria práxis evolui.
Ao adotar esta concetualização, afasta-se a análise tanto do
dogmatismo essencialista - que hipostasia os valores como verdades absolutas e
a-históricas - quanto do relativismo ingenuamente pluralista, que atribui uma
validade indiferenciada a qualquer valoração. Reconhece-se, por conseguinte, a
complexidade epistemológica de posicionar o valor como uma construção
intersubjetiva de sentido, edificada no diálogo contínuo entre o eu, o outro e
o horizonte cultural.
Em última análise, a estrutura do valor na perspetiva de
Resweber reside na articulação dialética entre duas instâncias aparentemente
antinómicas, porém interdependentes: o desejo, enquanto força vital, subjetiva
e afeto; e a norma, enquanto exigência racional, reguladora e coletiva. O
desejo desprovido de norma degrada-se em impulso cego; a norma desprovida de
desejo reifica-se numa obrigação formal e estéril, destituída de adesão
interior.
Quando a subjetividade almeja algo de valioso, esse afeto
codifica-se em formas sociais e simbólicas para se tornar comunicável e
partilhável. O valor manifesta-se, portanto, na síntese contínua em que o
sujeito procura conciliar a fidelidade à sua intenção interior com as
exigências da ordem ética e social. É mediante o diálogo, a narrativa e a
cultura que as vivências se traduzem em conceitos e regras compreensíveis,
sendo a linguagem o vetor fundamental que transforma a afeição primária num
valor estruturado e filosoficamente fundamentado. Daí, a Construção Hermenêutica
do Valor, para além do Dogmatismo e do Relativismo.
quarta-feira, julho 22, 2026
A SUBJETIVIDADE A CAMINHO DOS VALORES
A subjetividade não nos nasce acabada, nem se esgota na
nossa intimidade. Constrói-se no encontro entre o vivido e o universo da
cultura, nessa linha mestra onde procuramos dar sentido à vida, aos outros e a
nós próprios. É por aí, nesse caminho de pensamento, que os valores deixam de
ser simples referências exteriores para se tornarem princípios orientadores da
existência.
Talvez por isso Resweber recorra à reduplicação: «o valor
é o valor do valor». Esta formulação, aparentemente paradoxal, não
constitui um mero jogo de palavras. Ela evidencia que o valor não retira a sua
legitimidade da utilidade, do consenso ou da conveniência. O valor vale porque
remete para uma dimensão que o transcende. O seu fundamento reside precisamente
na capacidade de despertar reconhecimento, de interpelar a consciência para
além do imediato e de abrir um horizonte de sentido.
É importante recordar que a aparência exige sempre uma
compreensão mais exigente. A aparência não é, por si mesma, simulacro. É o
simulacro que faz passar por realidade aquilo que apenas oculta outra
realidade. A aparência pode, pelo contrário, revelar e transmitir. Torna
visível uma relação com um ideal poético, ético ou religioso, conferindo forma
e consistência ao agir humano. O símbolo não oculta a verdade; oferece-lhe,
antes, uma expressão sensível para que possa ser reconhecida.
Os valores precedem-nos. Encontramo-los inscritos na
cultura, presentes nas palavras, nos gestos, nas obras, nas instituições, nos
sinais e nos bens que uma comunidade vai produzindo ao longo da sua história.
Contudo, essa existência permanece apenas potencial enquanto os valores não
forem acolhidos pela subjetividade. Só quando se tornam objetos do desejo
deixam de ser um património imóvel para se converterem numa força dinâmica,
capaz de suscitar novas formas de pensar, de agir e de criar.
Daqui decorre igualmente que o consenso coletivo, embora
necessário para o reconhecimento social dos valores, não basta para os fundar.
A maioria pode reconhecer práticas ou costumes, mas não cria, por si só, o
valor. Se assim fosse, toda a verdade dependeria apenas das circunstâncias
históricas ou da vontade das forças dominantes. O consenso reconhece; não
constitui, porém, o fundamento último daquilo que merece ser reconhecido.
O valor oferece-se ao sujeito como um apelo. A cultura
transmite-nos um património simbólico que solicita a nossa adesão. Mas essa
adesão nunca é automática. Cada pessoa é chamada a dar crédito ao crédito que a
própria cultura lhe oferece, confirmando ou renovando, pela liberdade e pela
responsabilidade, aquilo que recebeu. É neste reconhecimento que a
subjetividade cresce e se humaniza.
Os valores situam-se, por isso, na confluência de uma dupla
economia. Por um lado, a economia da necessidade, que exige referências
estáveis, pontos de apoio e condições de satisfação para a vida concreta. Por
outro, a economia do desejo, que recusa permanecer encerrada na simples
utilidade e transforma esses mesmos dados em expressões de finalidades mais
elevadas, capazes de orientar a existência para horizontes de transcendência. É
o desejo que impede a vida humana de se reduzir ao cálculo das necessidades,
convertendo o útil em significativo e a sobrevivência em projeto.
Neste sentido, a subjetividade não constitui um universo fechado sobre si próprio. Realiza-se precisamente quando reconhece que os valores não são uma invenção arbitrária do indivíduo nem uma simples imposição da sociedade. São possibilidades de sentido que a cultura conserva, que a consciência reconhece e que o desejo faz florescer na história. Caminhar para os valores é, afinal, o processo através do qual a pessoa ultrapassa o imediatismo do interesse, abre espaço ao reconhecimento do outro e encontra razões para dar unidade, coerência e dignidade à sua própria existência.
segunda-feira, julho 20, 2026
RAÍZES DO TEMPO
Há encontros que vão para além das suas presenças, sobretudo quando abraçam o tempo das suas raízes. As memórias de infância não nos trazem disparidades, mas, estranhamente, a riqueza das suas sementes. Sentimos que o tempo aprendeu a respeitar aquilo que nele sobrevive.
As memórias não revelam apenas lembranças. Exteriorizam uma
essência oculta que acompanha as nossas identidades. Vivem em nós raízes que o
olhar não alcança, mas que continuam a alimentar a árvore genealógica mesmo
quando os nossos percursos já seguiram outros destinos. Dispersos por lugares
diferentes, os afetos não esqueceram a intensidade da intimidade vivida.
O reencontro lembra-nos e dá vida a essa oportunidade,
devolvendo os rostos às memórias, não apenas para alcançar o que se passou, mas
para lhes oferecer um tempo renovado. A infância não desaparece; recolhe-se ao
lugar onde a nossa humanidade começou, antes da maturidade dos dias e da
complexidade dos tempos. As conversas nunca envelhecem; apenas aguardam o
instante em que possam voltar a ser lembradas.
A família dificilmente abandona essa geografia interior onde
permanecem as primeiras vozes, os primeiros gestos de cuidado, as primeiras
cumplicidades e até os primeiros silêncios. Não é apenas uma sucessão de nomes
ou um parentesco registado. É um património de afetos que nos precede e que,
sem o sabermos, continua a orientar os nossos passos muito depois de termos
partido.
Ao voltarmos a encontrar-nos, compreendemos que o essencial
nunca esteve apenas naquilo que revivemos, mas naquilo que permaneceu em nós
sem pedir licença para existir. Entendemos que a memória não serve apenas para
regressar ao passado; destina-se, sobretudo, a impedir que o tempo nos
desenraíze.
Neste fim de semana, foi esse o maior legado dos laços
familiares: lembrar-nos de que ninguém nasce apenas para si. Somos feitos de
muitas vidas que se entrelaçaram antes da nossa, de muitos gestos de ternura
que nos moldaram sem ruído, de muitas presenças que continuam a habitar-nos,
mesmo quando parecem distantes.
Saí deste encontro com uma serenidade difícil de exprimir.
Não recuperei um tempo perdido. Todavia, senti que algumas raízes, por mais
profundamente enterradas que permaneçam, nunca deixam de encontrar o seu rumo.
E talvez seja essa a forma mais subtil e mais bela da esperança: saber que há
afetos que o tempo não vence, porque aprenderam a viver para além dele.
Termino dizendo que, embora um pouco gasta, a minha memória
procurou afastar-se de um simples exercício de nostalgia para se tornar um
lugar de pertença. Porque a identidade deixa de ser apenas aquilo que
escolhemos e passa também a incluir aquilo que recebemos. E a família deixa de
ser um dado meramente biológico para surgir como uma herança histórica,
espiritual e fortemente afetiva.
quinta-feira, julho 16, 2026
A MÁQUINA PRESUME. O HUMANO CRIA-SE
A inteligência não é apenas uma faculdade de resolver problemas: é uma forma de nos transformarmos.
Ler Barata-Moura é sempre laborioso, revigorante e catalisador. Desta vez, ao interpelar a IA, ele alarga-se à formação do sujeito enquanto tarefa de continuidade entre o todo da educação, cultura e vida. Com tal embaraço, Barata-Moura procura libertar a aprendizagem da frenética e recomendável serventia à qualificação para o negócio.
Ironicamente, logo afirma que pensa ao arrepio da corrente que o nosso viver transporta nessa caminhada da imprudência. O humor, nele, mostra-se sempre vivo, quiçá exigente à medida que nos vai obrigando a ”ler-pensando”. Ainda mais surpreendente parece querer desassossegar o leitor acostumado à correria.
Quando Barata-Moura diz que pensa ao arrepio da corrente, afastando-se do poder e do seu controlo preponderante, justifica-se. Procura preparar o leitor para uma temática que o desafia ao arrepio do pensamento precipitado. A sua posição não é a mais frequente, pese embora procure encaminhar o leitor para uma tese que caminhe contra a correnteza.
Barata-Moura começa por esclarecer que o senso comum se serve de um conhecimento prático e superficial incorporado pelas pessoas através da experiência e do seu legado cultural. Baseia-se na habituação e no costume, alheio ao rigor científico e dos seus pensamentos profundos. O senso comum serve, sim, para facilitar o dia a dia e a tomada de decisões imediatas.
Daí, poder-se-á perguntar qual é a sua tese. Facilmente responde que o nosso viver, na sua marcha, jamais deixará de ser um continuado trabalho de educação. O nosso todo viver não fica pela infância, nem apenas pela escola. A vida não é fixa, mas sim um devir. Não deixa de ser um trabalho constante que exige esforço, reflexão, confronto e transformação. Uma formação permanente da inteligência, do carácter, da sensibilidade e da liberdade.
Viver é educar-se continuamente. Com o tempo, e a idade já não me é curta, fui aprendendo que dar vida ao pensar se torna uma prática estimulante da existência. Vivemos hoje entranhados em respostas rápidas, em soluções e pensamentos formatados. Barata-Moura lembra que os incautos facilmente se tornam leitores ingénuos que esperam sequências diretas, definições simples e fórmulas de remate.
Como Sócrates, Barata-Moura parece dizer - “Se procuras certezas confortáveis, escolheste o filósofo errado”. Barata-Moura lembra que viver é também um continuado trabalho de educação. Vai mais longe afirmando que viver é não é só preparação para a vida, tornando-se a dinâmica interna da estrutura intrínseca. Alguém diria que a maior obra-prima do homem é saber viver. Barata-Moura acrescenta; “E saber viver é nunca deixar de se educar”.
Ele desperta, pela palavra, a capacidade de despertar e transmitir bens e direito das grandes ideias através de pequenos detalhes, onde normalmente se levantam as caladas armadilhas retóricas. Por mim, sinto não arrecadar humildemente um qualquer pensamento, procuro construi-lo, reconhecendo o valor profundo da pedagogia do pensar e da reflexão existencial e ética que ela reivindica.
terça-feira, julho 07, 2026
POR UM MUNDO EM COMUM
Uma das grandes distorções do nosso tempo consiste em admitir que a liberdade pode sobreviver sem uma realidade partilhada. Exalta-se o humano, multiplicam-se os direitos, celebram-se as diferenças, mas esquece-se frequentemente da questão fulcral: o que continua a unir-nos? Quando essa interrogação deixa de ser colocada, a liberdade corre o risco de se transformar numa sucessão de vontades sem encontro e a sociedade num espaço onde todos coexistem, mas poucos partilham mundo partilhado.
O horizonte comum não é um dado da natureza, nem uma herança
garantida para sempre. É uma obra humana. Não nasce pronta. Constrói-se
lentamente. Cria-se passo a passo através da linguagem, da memória, da cultura,
das instituições e dos valores que permitem reconhecer no outro alguém com quem
partilhamos um porvir. Antes de nos associarmos a uma profissão, a uma
ideologia ou a uma identidade particular, pertencemos a um meio simbólico que configura
a nossa experiência do humano. É esse contexto que nos oferece palavras para
compreender o sofrimento, a justiça, a amizade, a responsabilidade, a esperança
ou a dignidade.
É por isso que os valores não podem ser limitados a
preferências privadas ou a simples triagens individuais. São muito mais do que triviais
opiniões. Constituem a matriz cultural que sustenta a convivência e impede que
a sociedade se dissolva na arbitrariedade ou na lógica da força. Um valor revela
plenamente a sua força quando deixa de servir apenas quem o afirma e se torna
uma possibilidade de reconhecimento para todos.
Todavia, o património simbólico comum não deve ser
confundido com uniformidade. A memória histórica tem-nos ensinado que, sempre
que uma herança cultural pretende eliminar a diferença em nome da unidade,
acaba por enfraquecer a própria humanidade. Uma casa comum não se constrói eliminando
singularidades, mas criando as condições para que elas possam comunicar, encontrar-se
e cultivar-se mutuamente. O verdadeiro elo nasce quando a diferença deixa de
ser deixa motivo de afastamento para se tornar uma oportunidade de
reciprocidade e entendimento.
É aqui que a liberdade revela toda a sua exigência. Não se
trata de um ponto de partida absoluto de uma consciência isolada, mas uma
conquista que se aperfeiçoa no contacto com os outros. Ninguém aprende sozinho o
significado da justiça. Ninguém descobre isoladamente o sentido da
responsabilidade. A liberdade medra quando se confronta com um horizonte de
sentido que a orienta e lhe confere profundidade humana. Sem essa perspetiva,
corre o risco de se contrair a mera aptidão de escolher, esquecendo a
responsabilidade pelas consequências das próprias escolhas.
Talvez seja precisamente esta a tarefa ética e cultural do
nosso tempo: reconstruir um tecido cultural suficientemente consistente para
sustentar a liberdade e suficientemente aberto para acolher a diversidade. O
caminho, profundamente humano, não é fácil, pois levar uma comunidade a
reconhecer a sua própria incompletude e a assumir a responsabilidade da sua
renovação constitui uma das tarefas mais difíceis da vida democrática.
O horizonte comum nunca permanece garantido. Não existe como
uma posse, mas como uma responsabilidade. Cada geração recebe-o das anteriores,
transforma-o através das suas experiências e transmite-o às que hão de vir. É
uma herança viva, sempre vulnerável, sempre aberta, sempre por cumprir. Exige esforço,
imaginação e coragem para resistir tanto ao fracionamento como às inclinações para
o conformismo.
Resta perguntar se não será essa a essência legítima de uma
cultura democrática, ou seja, a inteligência coletiva capaz de valorizar a
divergência em diálogo, a diferença em reconhecimento e a liberdade em
responsabilidade partilhada. Porque uma sociedade não se torna mais humana
quando todos pensam da mesma maneira, mas quando ninguém deixa de reconhecer no
outro a condição indispensável da sua própria humanidade.
No essencial, o comum não limita a liberdade; oferece-lhe o
solo onde pode criar raízes e frutificar. E a liberdade, quando se abre ao
outro, deixa de ser apenas um direito para se tornar responsabilidade criadora.
É nessa reciprocidade, sempre insegura e sempre inconclusa, que talvez resida a
mais exigente das tarefas políticas e a mais bela das aventuras culturais:
continuar a construir um mundo onde o "eu" e o "nós"
deixem de surgir como rivais e passem a ser reconhecidos como duas expressões
inseparáveis da mesma condição humana.
segunda-feira, junho 29, 2026
A IRONIA DE PENSAR QUE NOS CONHECEMOS
Vivo a minha intimidade como um lugar desruidoso, dialogando
com os pensamentos, interpelando as emoções e estudando o corpo, sem me
equivocar com eles. Desse todo, tudo me vai despontando como proveitoso.
Palpita-me, todavia, que a consciência seja apenas a parte visível de uma
totalidade mais vasta. As emoções fazem sempre sentir a sua presença e os
desejos, em silêncio, não deixam de me atrair.
Quando assim penso, pressinto as mais refinadas ilusões do
eu, reconhecendo que não habito um ponto exterior à linguagem que me constitui
e à expressão que me define. O "eu" torna-se, permitam-me, uma
figuraça que conta histórias sobre si próprio para tolerar a incerteza que o
habita.
Uns procuram despertar a interioridade; outros interrogam a
fissura que atravessa a relação do eu com o mundo. A testemunha silenciosa
transforma-se, então, num outro atravessado por palavras que nunca escolheu
completamente.
Apoiado nas minhas leituras, diria, em síntese, que uns
acreditam que a consciência pode aprender a desfrutar de tudo; outros
responderiam que há sempre um resto que escapa ao saber, uma falta que nenhuma
iluminação dissolve, um desejo que sobrevive a todas as respostas.
Talvez não exista, afinal, uma varanda tranquila de onde
contemplamos serenamente a vida. Talvez sejamos o próprio palco. Talvez sejamos
o espectador que entra em cena sem dar por isso. Os caminhos, embora
diferentes, denunciam a ingenuidade humana de acreditar que aquilo que pensa
ser é, efetivamente, aquilo que é.
Talvez seja aqui que a ironia encontre a sua forma mais subtil. Passamos a vida a proclamar "conheço-me perfeitamente." Entretanto, sinto o inconsciente sorrir, a linguagem a completar-me a frase e a vida, indiferente às nossas certezas, continua simplesmente a acontecer.
domingo, junho 28, 2026
A CONSCIÊNCIA NÃO MORA SOZINHA
O ser humano sente necessidade de se pensar um cidadão consciente da sua própria lucidez. Convenceu-se de que pensa antes de agir, decide antes de desejar e conhece bem as razões das suas opções. É um belo e conveniente enredo. Pena é que o inconsciente nunca dialogue com ele.
Há quem fale da consciência como se ela fosse a capital da
mente. Todavia, talvez seja apenas uma confortável varanda. A casa é muito
maior. Tem corredores escuros, portas entreabertas, quartos esquecidos e
habitantes que nunca se apresentam quando alguém toca à campainha.
Depois estranhamos as emoções. Aborrecemo-nos sem saber
porquê. Simpatizamos contra toda a lógica. Recusamos aquilo que prometemos
respeitar. Choramos por insignificâncias e permanecemos indiferentes perante
tragédias. A consciência, sempre incansável, chega depois para redigir uma ata
racional dos acontecimentos. Tudo é justificado com admirável segurança, embora
tenha chegado tarde.
Chamamos "verdade" ao que sentimos, como se o
sentimento fosse uma testemunha imparcial. Mas um sentimento não é um
magistrado; é antes um mensageiro. Não nos diz necessariamente como o mundo é,
mas revela-nos como a nossa interioridade foi sendo estruturada por desejos,
medos, perdas, fantasias e memórias que raramente pediram licença à consciência
para existir.
Talvez a legítima maturidade não consista em dominar o
inconsciente, mas em reconhecer que a pessoa humana vale precisamente por ser
maior do que aquilo que sabe de si. Não somos apenas aquilo que pensamos; somos
também aquilo que nos pensa, moldados simultaneamente pelos nossos pensamentos
e pelo mundo que nos rodeia.
A ironia está em que a consciência continua convencida de
que nos governa. O inconsciente, discreto como sempre, limita-se a sorrir. Talvez
a verdadeira sabedoria não consista em acreditar menos na razão, mas em lhe
ensinar a escutar aquilo que nela própria nunca deixou de falar.
domingo, junho 21, 2026
PATOCRACIA, UMA ENFERMIDADE LOCAL?
Começo por dizer que a patocracia serve-se, penso eu, de traços psicopáticos, narcisistas e de outras perturbações da personalidade quando indivíduos com essas características conseguem alcançar posições estratégicas de poder e moldar as instituições de acordo com a sua visão do mundo. Poder-se-á dizer que, para além das suas características individuais, importa compreender a dinâmica estrutural através da qual o próprio sistema político pode ser convertido numa patocracia.
Tanto quanto vou assimilando através da leitura e da
observação do momento atual, a patocracia não é apenas o governo de pessoas
amorais, mas a colonização das instituições por um funcionamento mental
atípico. Daí que as características frequentemente associadas à patocracia
emerjam do culto da personalidade, da manipulação da verdade, do desprezo pela
crítica, da concentração do poder, da normalização da mentira e da corrupção,
bem como da exploração do medo e da insegurança.
Todavia, convém lembrar que a patocracia não depende apenas
dos seus promotores. Depende também da passividade, do conformismo ou da
incapacidade crítica das maiorias. Uma minoria patológica dificilmente
governaria sozinha. Necessita, por isso, de colaboradores, oportunistas,
burocratas obedientes e cidadãos que renunciem a pensar por si mesmos.
Do ponto de vista filosófico, talvez se possa dizer que a
patocracia constitui uma degradação da política. Aquela política concebida como
espaço de deliberação sobre o bem comum surge, através da patocracia, invertida
no seu sentido. A política deixa de servir a comunidade e passa a servir as
motivações dos governantes, tais como a ambição de reconhecimento, de domínio,
de grandeza ou mesmo de impunidade.
Talvez a questão mais importante não seja apenas compreender
como surgem estes líderes, mas perceber por que razão determinadas sociedades,
em momentos de medo, ressentimento ou crise, se mostram dispostas a segui-los.
É aí que a análise psicológica encontra a análise sociopolítica da patocracia:
o líder patológico e as condições sociais que permitem a sua ascensão são,
afinal, duas faces do mesmo fenómeno.
Em síntese, diria que a patocracia consiste na transformação
de patologias individuais em lógica de governo. O que começa por aparecer como
perfil psicológico de um dirigente pode acabar por transformar-se numa
estrutura política e cultural que contamina toda a sociedade. As patologias não
prosperam apenas pela vontade dos que as ambicionam. Prosperam igualmente
quando a distração coletiva, o conformismo ou o medo reduzem a vigilância
democrática.
Eis o tempo de acordar.
sábado, junho 20, 2026
QUE DEMOCRACIA TEMOS PELA FRENTE?
Fui hoje ao meu amigo Peixoto fazer a barba semanal. Mais do que o simples afeitar da barba, o bate-papo inclinou-se para o que nos pareceu essencial. O tema surgiu logo na primeira ideia estimulante, talvez até provocadora. O cenário e o seu fundo afastaram-se rapidamente da conversa informal de circunstância.
Onde estão os verdadeiros atores do poder? — tornou-se essa,
para nós, a pergunta central do problema. Quase de imediato, o dinheiro ergueu
a cabeça no meio das nossas habituais objeções e inquietações. Ideia após
ideia, fomos interrogando: quem controla a informação de milhões de pessoas? quem
influencia a opinião pública e os jogos de poder? quem lidera as tecnologias
decisivas do nosso tempo? quem estrutura a economia global? quem decide
investimentos que afetam populações inteiras? quem atua à escala global para
além das limitações dos Estados?
Fomos percebendo que, em muitos domínios, estes poderes
privados parecem preencher espaços deixados disponíveis pelo próprio Estado. De
forma discreta e quase silenciosa, aproximam-se dos centros de decisão,
influenciam capacidades e, por vezes, até objetivos coletivos, operando sob as
regras da livre concorrência e das leis do mercado.
E a pergunta ficou suspensa entre nós; estarão estes novos
poderes privados a substituir os Estados porque são mais eficazes, ou porque os
próprios Estados foram renunciando a certas funções? Se assim for, que
democracia teremos pela frente?
quinta-feira, junho 18, 2026
QUEM SOMOS PARA ALÉM DOS NOSSOS PENSAMENTOS?
Viajo no tempo e dou comigo a admitir momentos em que
silenciei pensamentos que me convidavam a percorrer caminhos desconhecidos.
Talvez por resguardo, talvez por inquietação, fui aprendendo a desconfiar de
certas possibilidades antes mesmo de lhes reconhecer a realidade.
Entretanto, a vida e a experiência, na sua totalidade,
mostraram-me algo que parece uma lógica invertida: o pensamento, instrumento
privilegiado da compreensão, pode também tornar-se uma barreira ao próprio
viver. Quando se fecha sobre si mesmo, procurando controlar o incerto e
antecipar todas as consequências, acaba por transformar a liberdade em
prudência excessiva e a criatividade em hesitação. O medo nasce frequentemente
desse pensamento acelerado que joga pelo seguro onde apenas existem possibilidades.
Então surge uma pergunta incontornável: quem seria eu se não
necessitasse de reconhecimento? O que escolheria fazer se nenhuma aprovação me
fosse prometida e nenhuma crítica me pudesse diminuir? A pergunta não procura
uma resposta imediata; procura, antes, revelar aquilo que permanece escondido
sob as camadas da expectativa social e da imagem que construímos de nós
próprios.
Talvez a liberdade comece precisamente aí, ou seja, quando
deixamos de confundir o nosso ser com as narrativas que o pensamento produz.
Não porque o pensar seja inútil, mas porque ele não traduz a realidade por
completo. Existe uma dimensão da consciência humana que antecede os conceitos,
uma abertura ao possível que não cabe inteiramente nas categorias da razão.
Por isso, dizer que tudo é possível não significa negar os
limites da existência. Significa reconhecer que a mente encontra frequentemente
os seus limites antes de a vida os encontrar. O pensamento tende a
circunscrever o horizonte ao que conhece; a inspiração, pelo contrário,
convida-nos a habitar aquilo que ainda não sabemos. E é nesse espaço de
abertura, entre o conhecido e o desconhecido, que a existência continua a
criar-se.
Termino, pois, afirmando que nem tudo o que orienta a vida pode ser pensado. Assim sendo, não deixo de reconhecer que algumas verdades - e não poucas - só se revelam quando ousamos caminhar.
segunda-feira, junho 15, 2026
ESSE MEDO DIFUSO
O medo, pelos receios que suscita, continua a ser uma das
forças mais poderosas da vida social. Alastra-se mais rapidamente do que a ponderação
e acomoda-se mais facilmente do que a confiança. Quando o futuro se apresente
incerto, avoluma a tentação de procurar respostas simples para problemas
complexos e de confiar o próprio destino a quem proclama possuir soluções
absolutas.
O medo continua a ser uma das forças mais poderosas da vida
social. Como observava Adelino Maltez, a aspiração ao poder nem sempre nasce da
força; muitas vezes alimenta-se da fraqueza, da insegurança e da necessidade de
proteção. É nesse terreno que florescem discursos autoritários, capazes de
transformar a ansiedade coletiva em obediência e a inquietação em culto da
autoridade.
O tempo que vivemos não está imune a esse risco. A amplificação
do medo, seja ele económico, social, cultural ou geopolítico, pode conduzir à
intolerância e esta à procura de culpados. Por isso, talvez a coragem
contemporânea não seja sobretudo a exibição de força, mas a capacidade de
pensar, dialogar e resistir à sedução das certezas fáceis. Nada se espalha mais
depressa do que o medo; todavia nada é mais necessário do que a lucidez para o
enfrentar.
Os mecanismos do medo, da submissão e da procura de autoridade permanecem presentes nas democracias contemporâneas, embora sob formas diferentes e por vezes mais subtis. Chega-nos hoje uma multiplicidade de medos difusos, frequentemente direcionados à pressa, antes mesmo de serem compreendidos. Daí a necessidade de uma lucidez que não se deixe governar pelo pânico nem seduzir pela autoridade.
domingo, junho 14, 2026
ENTRE O SILÊNCIO E O SENTIDO
Pensar pode ser uma fonte de liberdade, mas também uma causa
de sofrimento. Muitas vezes, somos atravessados por pensamentos cuja origem
desconhecemos. Vêm do mundo? Do nosso íntimo mais profundo? De uma dimensão
superior de nós mesmos? Talvez o essencial não esteja em descobrir a sua
origem, mas em aprender a discernir a diferença entre aqueles que nos iluminam
e aqueles que apenas alimentam a inquietação.
Vivemos num tempo de permanente aceleração. Procuramos no
exterior aquilo que sentimos faltar no interior. Corremos atrás de objetivos,
conquistas, reconhecimento e distrações, como se a acumulação de experiências
pudesse preencher um vazio que transportamos connosco. Contudo, quanto mais
procuramos fora, mais o vazio parece reclamar a sua presença.
O silêncio interior assusta-nos. Por isso, tentamos ocupá-lo
com ruído, movimento e novas metas. Muitas vezes, passamos a vida inteira a
definir objetivos não por verdadeira vocação, mas por desespero: o desespero de
não sentir a falta, de não enfrentar a ausência, de não escutar o que o
silêncio tem para nos dizer.
Talvez exista outro caminho. Em vez de criar objetivos a
partir da carência, poderemos criá-los a partir da inspiração. Em vez de correr
para fugir do vazio, aprender a habitá-lo. É frequentemente nesse espaço de
aparente ausência que nascem os sonhos mais autênticos, os propósitos mais
verdadeiros e as formas de vida que melhor correspondem ao que realmente somos.
Sinto uma ideia particularmente fecunda ao reconhecer-se que nem todos os objetivos nascem da mesma fonte. Alguns surgem da falta, da ansiedade e da necessidade de satisfazer um vazio; outros emergem de uma inspiração serena ou de uma escuta mais profunda de nós mesmos. Esta distinção, simples na aparência, pode tornar-se um critério decisivo do discernimento existencial.
ENTRE O NEGÓCIO E A FORÇA
Ao ler o Le Monde diplomatique, dou comigo a
ratificar essa onda metamorfoseadora da ordem económica mundial, assente no
poder financeiro e comercial dos Estados Unidos. Pelos vistos, os monopólios
americanos vão sendo contrariados pelos interesses estratégicos, tecnológicos e
energéticos da China.
As sanções dos Estados Unidos parecem estar a perder
eficácia e, com elas, parte da influência do sistema financeiro internacional
estribado no dólar. A China, através de mecanismos distintos, vai reduzindo
essa dependência exclusiva. A globalização vai-se alicerçando numa correlação
de forças cada vez mais difícil de controlar. Por sua vez, a China parece
querer abraçar grande parte da lógica liberal do comércio mundial, procurando
ocupar uma posição de maior poder no seu interior.
Em síntese, diria que o que muda é sobretudo a divisão dos poderes. Por detrás das trocas comerciais continua a atuar um campo de disputas entre potências, interesses estratégicos, rivalidades geopolíticas e relações de força. Permanece, assim, a tensão entre o ideal universalista da cooperação humana e a realidade histórica do poder.
domingo, junho 07, 2026
PENSAR PARA ALÉM DO IMEDIATO
Vivemos um tempo histórico surpreendentemente ignorado. As adversidades, para além das imediatas, vão-se mostrando universais. O desafio humano estende-se, assim, para além da realidade concreta e atual. Todavia, a nossa imaginação política, subjugada a padrões do passado, conserva-se cada vez mais individualizada e hermética. O alcance dos desafios e a dimensão da intervenção, sem nos afastarem dos horizontes coletivos, obrigam-nos a reconhecer os verdadeiros obstáculos do presente. Assim vou pacientemente caminhando...
sábado, junho 06, 2026
A LEVEZA DO ESSENCIAL
A verdade raramente se enaltece. Não costuma mostrar-se sublime, nem tão-pouco circular pelos labirintos da erudição de fachada. Muitas vezes, passa recatada pelas franjas do caminho, como uma brisa leve que afeta com subtileza ou uma simples luz suave que ilumina sem ofuscar.
No desejo ardente de entender a realidade, arrecadamos
palavras, ideias e satisfações. Contudo, há momentos em que a verdade parece
afastar-se quando a procuramos agarrar em excesso. Ela prefere a transparência
ao ruído, a escuta ao discurso, a atenção ao espetáculo.
A simplicidade não é pobreza de pensamento. Mostra-se uma bela
e exigente arte de remover o supérfluo para que o essencial se afigure. É olhar
uma árvore sem a necessidade de a ver através de uma meticulosa tese. É escutar
o silêncio sem a urgência de o completar. É permanecer diante da vida com um
espírito disponível para acolher o que ela exibe.
Talvez a verdade não seja uma conquista definitiva, mas um
encontro momentâneo que acontece quando o olhar se torna mais leve e a alma
mais atenta. Por isso, se procuras a verdade, não abandones a simplicidade.
Muitas vezes, é nela que o mistério das coisas se deixa distinguir, não como
uma resposta final, mas como uma atitude que nos convida a seguir o seu simples e puro caminho.
domingo, maio 31, 2026
A SOMBRA DA "PATOCRACIA"
Sinto que vivemos um tempo marcado por uma espécie de psicopatia política, alimentada por uma altivez demagógica que avança de mãos dadas com a intolerância e a recusa da diferença. A linguagem pública degrada-se, o debate empobrece e os valores éticos são progressivamente substituídos por estratégias de influência, oportunismo, manipulação da verdade e exercício arbitrário do poder.
O que emerge deste cenário não é uma liderança orientada
pelo respeito, pela autonomia ou pela dignidade dos cidadãos. Pelo contrário,
assiste-se à valorização de comportamentos que privilegiam a eficácia do
domínio, a conquista de influência e a obtenção de benefícios próprios, mesmo
quando estes se apresentam disfarçados de interesse coletivo. O poder deixa de
ser um instrumento ao serviço da comunidade para se transformar num fim em si
mesmo.
As suas estratégias procuram aparentar clareza e
legitimidade. Falam em nome do povo, apresentam-se como defensores da ordem e
da moralidade, e identificam inimigos responsáveis por todos os males. Contudo,
por detrás dessa encenação, encontra-se frequentemente uma visão simplificadora
da realidade, incapaz de acolher a pluralidade, a crítica e o dissenso
democrático.
Pergunto-me, por isso, como é possível considerar exemplares
figuras que exibem, de forma recorrente, traços de narcisismo, agressividade e
inclinação autoritária. Como compreender a crescente aceitação de discursos que
estimulam o ressentimento, a exclusão e a submissão ao líder providencial?
Talvez porque a insegurança e o medo criam terreno fértil
para soluções fáceis e promessas grandiosas. Talvez porque a complexidade do
presente leve muitos a procurar refúgio em narrativas que idealizam um passado
supostamente perdido. É nesse contexto que ganha força aquilo que alguns
autores designam por patocracia: uma forma de organização política em
que traços patológicos de personalidade encontram espaço para influenciar
instituições, moldar comportamentos coletivos e corroer os fundamentos éticos
da vida democrática.
Quando ouvimos apelos à restauração de uma ordem
desaparecida com a Revolução de 1974, importa perguntar se estamos perante um
legítimo debate histórico ou perante a nostalgia de formas de autoridade
incompatíveis com as conquistas da liberdade, da participação democrática e dos
direitos cívicos. A resposta a esta questão talvez seja decisiva para
compreender os desafios políticos e culturais do nosso tempo.
sexta-feira, maio 29, 2026
A EROSÃO DO SER NUM MUNDO DE APARÊNCIAS
Vivemos um tempo humanamente satírico em que o valor do “SER” parece medir-se pelo que possui, exibe ou consome. O “TER” fantasiou-se numa espécie de segunda natureza, mostrando-se endinheirado, superior, com relevância e reconhecida presença. Buscando influência como se a condição humana pudesse reduzir-se a um balanço contabilístico.
Entretanto, o “SER” vai-se ocultando distanciando-se através
do seu espaço escondido no seu silêncio reflexivo e na sua embaraçosa agilidade
crítica. A sensibilidade, o encontro verdadeiro com os outros e consigo mesmo,
perde memórias, história, tradições ou mesmo referências anteriores. A cultura
do desempenho substitui a experiência humana; a aparência ocupa o lugar da
profundidade.
Certamente que o dilema não esteja em negar o “TER” em si. Acompanhando
o palpite de Žižek, diria que a experiência vivida se mostra contraditória e
dialética, posto que não vivemos fora da realidade concreta e muito menos evitamos
ganhar o sustento. O problema surge quando o “TER” deixa de servir a vida e
passa a sustentá-la. Quando a praça comercial e o espírito de rivalidade acomodam
o próprio desejo humano.
A dialética entre o SER e o TER, como Zizek diria, exige
então uma conversão crítica; possuir sem ser possuído, utilizar sem reduzir a
vida ao consumo, reconhecer que nenhum acúmulo material substitui a construção
interior, cultural e ética do sujeito. Talvez a verdadeira e humana pobreza do
nosso tempo não seja apenas a falta de bens, mas a erosão do ser conduzida pelo
humano desvanecimento da identidade e pela decomposição da sua subjetividade.
terça-feira, maio 26, 2026
NÃO ME AFASTO DA POLÍTICA …
… DELA NÃO ME DESVIO
Não me afasto da política porque ela atravessa a vida humana
em todas as suas dimensões. Está presente nas relações sociais, na organização
do trabalho, na distribuição da dignidade, no acesso à palavra e até na forma
como aprendemos a desejar e a temer. A política não é apenas o território dos
partidos, dos governos ou das disputas eleitorais. É também a forma como uma
sociedade constrói os seus valores, normaliza comportamentos e decide aquilo
que considera aceitável ou invisível.
Mas dela também não me aproximo de forma obediente ou
reconciliada. Procuro manter uma distância crítica. Observo a realidade humana
tentando perceber as suas contradições, os seus conflitos e as insuficiências
que muitas vezes se escondem sob discursos harmoniosos. Desconfio das
evidências demasiado seguras, das respostas prontas e das unanimidades
confortáveis.
Sinto-me frequentemente afastado do senso comum quando este
reduz a complexidade da vida a opiniões rápidas, certezas imediatas ou
alinhamentos automáticos. Não porque procure ser diferente por gosto de
oposição, mas porque encontro na realidade humana uma densidade que resiste às
simplificações. O pensamento, para mim, não pode limitar-se a repetir chavões
aceites. Precisa de interrogar, deslocar, abrir aberturas.
Talvez por isso procure aquilo que permanece oculto nas
coisas. Interessa-me o reverso do que socialmente se apresenta como evidente.
Aquilo que parece natural pode esconder formas subtis de dominação, conformismo
ou dependência emocional. Muitas vezes, o que é socialmente celebrado contém,
no seu interior, tensões que raramente queremos reconhecer.
Não procuro afastar-me do mundo, mas libertar-me das
dependências que impedem o pensamento de respirar. Existem seduções coletivas
que capturam a consciência: o consumo permanente, a necessidade de
reconhecimento, as identidades rígidas, as fidelidades absolutas. Todas elas
podem transformar a liberdade numa adaptação cómoda e silenciosa.
Vou percebendo, assim, que a verdade não ocupa uma posição
fixa. Aproximo-me dela através do contraste, da tensão e da confrontação com a
própria realidade. Não encontro a verdade através de um chavão imóvel, mas num
movimento de procura crítica. Pensar exige aceitar a incompletude e a
inquietação.
É nesse sentido que a contradição deixa de me parecer um
defeito acidental da existência. A contradição pertence à própria condição
humana e social. Vivemos entre desejos incompatíveis, promessas não cumpridas,
avanços e regressões. A sociedade produz liberdade e desigualdade, emancipação
e controlo, proximidade e isolamento. Ignorar estas tensões seria empobrecer a
compreensão do humano.
Por isso valorizo o gesto dialético. Não como uma técnica
abstrata, mas como uma disposição do pensamento que procura compreender os
conflitos internos da realidade. A dialética não elimina a tensão; trabalha-a.
Não destrói a liberdade; procura perceber os obstáculos, os desvios e as
possibilidades do seu percurso.
Também, em razão disso, reconheço a importância da
negatividade. Vivemos numa época que valoriza excessivamente a positividade, o
desempenho permanente, a motivação contínua e a adaptação rápida. No entanto, o
pensamento crítico nasce muitas vezes da inquietação, da recusa e da capacidade
de dizer “não”. A negatividade pode abrir espaço ao novo quando impede que o
existente se transforme numa fatalidade.
Não me afasto da política porque continuo a acreditar que a
vida coletiva pode ser transformada. Mas dela não me aproximo como quem procura
abrigo ideológico ou pertença absoluta. Prefiro permanecer nesse lugar de
tensão, onde pensar continua a ser uma forma de resistência interior e também
uma tentativa de abertura ao possível.
Talvez seja precisamente aí que a política me leva a recuperar
a sua dignidade mais profunda: não como administração passiva do existente, mas
como procura determinante e incessante de uma vida humana mais consciente, mais
livre e mais justa. Através de uma existência lúcida, um espírito liberto e uma
vivência com base numa consciência social aplicada.
segunda-feira, maio 25, 2026
A AGITAÇÃO DO ABSOLUTO
O sentimento do sublime, enquanto expressão de pureza e dignidade, inquieta-me como estado afetivo e subjetivo que nasce da intranquilidade das minhas próprias rotinas diárias e emocionais. Não se trata de um bem-estar súbito e conciliador. Bem pelo contrário: inquieta-me. Em vez de uma afinidade natural com o mundo, produz-se um abalo interior. Confronto-me com algo que supera a ordem natural das coisas e da vida.
O sentimento do sublime alberga em mim inquietação,
fragilidade e limite. Todavia, é precisamente nesse confronto que ele me ajuda
a transcender o comum, revelando uma retidão moral eticamente superior,
acompanhada pela mente e pela admissível dimensão intelectual da alma.
Os sentidos não conseguem dominar plenamente aquilo que
vejo, mas a razão leva-me a perceber que existe em nós algo que ultrapassa a
simples sensação imediata. Descobrimos que o espírito humano, a sua
inteligência e essência moral, pode imaginar sem fronteiras, idealizar a
liberdade e apreender o todo, mesmo sem a sua representação integral.
Assim, ao longo desta longevidade, vai-se consolidando e
enobrecendo em mim esta nobre dimensão do espírito humano. Percebemos que não
somos apenas seres sensíveis, dependentes da experiência imediata, mas também
portadores de uma dignidade interior que, dentro de nós, enriquece o sentimento
do sublime.
É esse sentimento do sublime que desafia a transcendência
interior e que, paradoxalmente, nos revela aquilo que em nós se eleva como
talento, qualidade ou dignidade espiritual. É por isso que o prazer sublime
nunca é simples. Contém sempre uma vulnerabilidade oculta, transformada em
elevação.
Não obstante a vulnerabilidade do ser humano, o sentimento
do sublime nasce precisamente através dela. O momento de insuficiência
torna-se, assim, essencial à própria vida e experiência. Por outras palavras,
diria que só evoluímos verdadeiramente e compreendemos o mundo com maior
profundidade quando nos confrontamos com as nossas próprias fragilidades e
lacunas, admitindo, como é de esperar, a possibilidade de a fragilidade humana
evoluir para uma virtuosa forma de humanização do humano.
domingo, maio 17, 2026
A ARTE CONFUSA DE PERMANECER
Há amizades que não se esclarecem apenas pelas palavras. A
vida de cada um de nós é, na sua maioria, estritamente individual, mas existe
entre nós uma abertura silenciosa que permite reconhecer a alegria, a tristeza,
a esperança ou o desencanto na presença do outro. Muitas vezes, antes de
qualquer explicação, já sentimos como alguém se encontra. É nessa sensibilidade
partilhada que se prospera a amizade.
Vivemos num tempo de encontros e convívios humanos.
Aproximamo-nos, afastamo-nos, incluímos e somos incluídos, mas também enfrentamos
a exclusão, a indiferença e o abandono. Cada relação deixa sinais, porque
ninguém passa verdadeiramente pela vida do outro sem o sensibilizar, ainda
que de forma recatada.
Quando alguém se afasta da nossa vida, não desaparece apenas
uma presença física. Termina a convivência, um costume de partilha, uma certa
maneira de viver numa outra realidade. Perdura um silêncio que revela o quanto
a convivência humana dá forma à nossa própria relação, existência e verdade.
Talvez a amizade verdadeira se mostre precisamente aí, ou seja, na capacidade de permanecer aberto ao outro sem encenações lineares, reconhecendo que a verdade humana não se constrói no desvio, mas na amável reciprocidade dos afetos, da compreensão e da presença. Sobretudo, não recorrendo em silêncio às portas que o tempo tolamente fecha.
sexta-feira, maio 15, 2026
SER LIVRE? DÁ QUE PENSAR…
O assombro da liberdade, enquanto sentimento humano, nunca
se mostra estável ao longo do tempo. A liberdade muda porque o próprio ser
humano se vai alterando nas suas formas de viver, desejar, inquietar-se,
produzir sentidos e disciplinar o corpo humano. O sentimento de liberdade surge
sempre embebido pela cultura, pela arte do possível, pela linguagem e pelos
impulsos do modismo de cada época, muitas vezes incontroláveis.
Num primeiro momento, a liberdade esteve fortemente ligada à
resistência e à libertação prática da intimidação externa: do senhor, da
escassez, da submissão e do controlo. Era uma liberdade compreendida como
conquista concreta, arrancada à dureza do mundo. Mais tarde, sobretudo com o
avanço das sociedades modernas, a liberdade passou também a significar expressão
do “eu”, autonomia pessoal, escolha subjetiva e consciência de si. O indivíduo
descobriu-se livre - ou, pelo menos, começou a apreciar essa ideia.
Todavia, os desenvolvimentos das sociedades contemporâneas
acabaram por sofisticar o absurdo. A liberdade deixou de ser apenas uma questão
política para se tornar também psicológica, cultural e simbólica. O cidadão do
século XXI goza direitos, consumo, mobilidade e expressão, enquanto se deixa
moldar alegremente pela arquitetura comportamental. O mercado, a ideologia, as
redes sociais, o reconhecimento narcísico e os receios da exclusão
transformaram-se em funções quase orgânicas de desempenho e validação. Já nem é
preciso mandar: basta sugerir com delicadeza.
Assim, a liberdade vai-se tornando progressivamente mais
entrelaçada, enquanto o poder se torna mais discreto e as normas de conduta
mais suaves, elegantes e até “afetuosas”. Já não se impõe pelo impedimento
direto; infiltra-se pelo desejo, pela sedução e pelo devaneio. Sobretudo,
comercializa identidades prontas a usar, embaladas com a promessa irresistível
da autenticidade. Cada um julga afirmar-se como único, desde que o faça
exatamente dentro do catálogo disponível.
Por isso, o sentimento contemporâneo de liberdade convive
com uma pressão contínua que, em nome da própria liberdade, facilmente
escorrega para simplificações ideológicas e afetivas. Tudo isto permanentemente
observado pelo olhar do outro - esse tribunal invisível - e pelos discretos
especialistas da satisfação, sempre atentos a orientar desejos, frustrações e
entusiasmos devidamente autorizados.
Em síntese, diria que a liberdade humana exige hoje uma luta
muito mais complexa contra artifícios subtis, frequentemente invisíveis ou
inconscientes, que moldam comportamentos, pensamentos e escolhas. O verdadeiro
teatro contemporâneo talvez resida precisamente aí: nesse cenário de abundância
de opções, onde nunca tivemos tantas possibilidades de escolha e,
simultaneamente, nunca foi tão difícil distinguir entre aquilo que
verdadeiramente desejamos e aquilo que aprendemos, com enorme entusiasmo, a
desejar.
No fundo, a cultura consumista não apenas acompanha a liberdade contemporânea - ela organiza o seu teatro. Define os papéis, distribui os desejos e regula os aplausos. O sujeito entra em cena acreditando ser autor, mas encontra-se já inscrito num guião de escolhas pré-formatadas. A peça prossegue com grande vitalidade, porque todos participam nela com convicção - mesmo quando o que se representa é, sobretudo, a forma contemporânea de uma liberdade, sim, organizada e dirigida.
quarta-feira, maio 06, 2026
AUTENTICIDADE OU NARCISISMO?
A autenticidade vale como qualidade, sem deturpações, e muito menos vigora quando consumida pela vaidade. A cultura não é decoração de costas voltadas ao nosso compromisso ético e existencial. A autenticidade jamais se educa na clausura pessoal. Tenhamos juízo, aceitando que a cultura não é ornamento.
quinta-feira, abril 30, 2026
SEM PULSO A DEMOCRACIA?
Vivemos um tempo em que a apatia política reduz o
entendimento comum, arrastado pela dissolução da relevância simbólica. O
sistema mostra-se inconsciente, as promessas políticas esvaziam-se e as
convicções vacilam. A apatia abraça, como é óbvio, a busca pelo prazer, criando
uma sensação de solidão onde a política se reduz ao campo da técnica e da sua
gestão.
A esperteza e o cinismo da extrema-direita logo emergem, em
voz alta, exibindo-se como um talento capaz de preencher esse “buraco
emocional” com ações imediatas e cativantes. Proclama um “estado puro”,
transbordando afetos mobilizadores, enquanto preenche vazios com narrativas
simplificadoras. O cinismo opera, convertendo-se em crendices deslocadas que
permitem romper com o marasmo.
Com o tempo, compreendemos que a extrema-direita se apresenta como uma “prótese de desejo”: sem horizontes políticos claros, oferece, ainda assim, identidade, ordem, pureza e pertença. Convém reconhecer que cresce no espaço deixado vazio por alternativas que deixaram de saber desejar. Daí a pergunta: como reconstruir um desejo político coletivo que não seja nem cínico nem regressivo?
quarta-feira, abril 29, 2026
O VÍCIO DE NÃO SER EU
Com esta idade, vou confirmando que o desejo de ter o que o outro tem não nasce porque o outro me estorva; o que me provoca é aquilo que nele aparece como excesso. É a minha silenciosa e boba inveja que arrasta este obtuso desejo.
Estúpido, sem dúvida: arrastado por algo que vem de fora,
não de um suposto “eu” puro, mas de uma identidade que não é a minha. Sinto-me,
por isso, capturado por um vício grotesco, abraçado a uma súbita paralisia
existencial.
Reconheço-me, então, como um invejoso que não consegue
caminhar a sua própria vida, embora permaneça sempre atento — e julgador — dos
assuntos alheios. Progressivamente, sinto-me afastar da minha individualidade,
da minha vontade, falseando o meu próprio caminho e a minha verdade crítica.
Confirmo, assim, que o desejo verdadeiro não vem acompanhado
de segurança: alimenta-se da falta, da ausência, do desconhecido.
E, neste ambiente de manipulação e desigualdade, a injustiça
torna-se um ator nem sempre visível. O seu cinismo opera de forma intencional,
consciente, e procura — sem pudor — decidir por todos.
Será que ainda vou na fita?
sábado, abril 25, 2026
O LUGAR DA INCERTEZA EM PATRÍCIA REIS
Há uma ideia que me ficou - entre várias - ao ouvir Patrícia
Reis falar do seu lugar da incerteza: a noção de “cultura do
pensamento”. Não se tratou de acumular ideias, nem de as exibir com charme.
Referiu-se a outra coisa, mais rara e exigente: criar condições para que o
pensamento aconteça. Isso implica, desde logo, recusar a facilidade com que hoje
se confunde pensamento com mera opinião, reação ou resposta imediata.
É precisamente aqui que a abstração - tantas vezes mal vista
- se revela crucial. Patrícia Reis mostrou, com clareza, que não há pensamento
sem interposição, nem mediação sem um certo afastamento do imediato. O
concreto, esse que se apresenta como evidente, é talvez o mais opaco de todos
os domínios. Não surge do nada: foi construído, organizado, filtrado, narrado
e, com o tempo, naturalizado.
A cultura do pensamento começa, então, quando se torna
enfadonho ceder ao imediato. Não se trata de fugir do real, mas de recusar a
pobreza com que ele se impõe como evidente e inegável. A abstração revela-se,
assim, um gesto crítico: interrompe, desarticula, e permite entrever outra
coisa. É ela que nos ajuda a compreender que o “concreto” já vem saturado de
simbolismo, linguagem e relações de poder.
Neste quadro, uma verdadeira cultura do pensamento não é
compatível com a urgência - esse regime saturado de imagens e de comentários
compulsivos. Ela exige silêncio. Não o silêncio da ausência, mas o silêncio
como tempo e espaço de transformação e maturação. Um lugar onde a linguagem não
serve apenas para dizer, mas para resistir, deslocar e desorganizar o já dito.
O lugar da incerteza - ainda não lido por mim - não será,
portanto, uma falha, mas uma condição. Um espaço onde o pensamento não se deixa
capturar pela evidência, nem encerrar pela resposta. Um espaço onde o concreto
ainda pode ser interrogado - e, por isso mesmo, transformado.
Num tempo em que tudo nos empurra para a tomada de posição
imediata, talvez a tarefa mais urgente seja outra: reaprender a pensar,
valorizando o valor da condição humana.
Obrigado, cordial e aprazível Patrícia.
sexta-feira, abril 24, 2026
quinta-feira, abril 23, 2026
UM REALISMO CÍNICO
As imagens aliciam-me. Sei que mentem - e mesmo assim
sigo-as. Não é nelas que procuro a verdade; é nelas que evito encontrá-la. Desconfio,
sim, mas essa desconfiança tornou-se um hábito confortável. Começo por aí:
acreditar que não acredito.
A ilusão não apenas sobrevive, organiza. É fabricada,
normalizada, consumida. E eu instalo-me nela com uma serenidade suspeita,
embalado por um conforto silencioso de rendição. Digo-me lúcido, imune a mitos
e truques. Mas a lucidez, quando repetida, degrada-se em rotina. Escorre para
hábitos, consolida em ficções que me servem antes de eu pensar.
Resta-me, pois, um cinismo funcional: sei o suficiente para
não acreditar, mas não o necessário para evitar. Assim, abandono a verdade sem
conflito e adapto-me a uma ilusão utilizável. O imaginário empobrece - não por
excesso, mas por cansaço. Já não seduz, acomoda. Já não engana, orienta.
Com o tempo, acredito cada vez menos nas imagens. Ainda assim, dependo cada vez mais delas. Talvez a ilusão mais eficaz não esteja nas imagens. Encontra-se, sim, nesta convicção tranquila – quem sabe orgulhosa - de que já as ultrapassámos. O silêncio do cinismo, simpaticamente me assiste, trazendo a útil e atraente calma da falsidade.
quarta-feira, abril 22, 2026
UM PENSAMENTO INSISTENTEMENTE ATRASADO
Não li ainda o livro Corpo, Prazer e Estilo, de Michel Onfray. Bastou-me desfolhá-lo para suspeitar de algumas minhas higiénicas asneiras. Pensar e viver como se fossem a mesma coisa, enquanto fantasia de saneamento filosófico. O corpo, lembraria Freud, não obedece. Falha, desvia-se, insiste. Não pede coerência, impõe palpites.
Pensamos, sim. Mas quase sempre tarde. Depois da suspeita, depois
do incómodo. Depois de algo ter fracassado com um orgulho que não controlamos.
Lacan diria o óbvio que evitamos, pois, o homem é um equívoco persistente.
Quando dizemos “eu”, já chegámos atrasados no tempo e ao lugar de que falamos.
E, no entanto, escrevemos como se coincidíssemos connosco. A
promessa de uma vida única e irrepetível? Uma solidão bem editada. Ninguém
repete ninguém, nem sequer a si próprio. O chamado “romance autobiográfico” pouco
ou nada resolve. Dá-lhe, sim, forma. tornando-o suportável. Chamamos-lhe
identidade por falta de uma palavra mais frontal.
Onfray, por sua vez, procura devolver o pensamento ao corpo.
Mais autêntico e ajustado. Mas o corpo não é a casa certa, mas sim um campo de incertezas.
Há nele restos, desvios, pequenas resistências. Pensar com o corpo, sim, mas
sem a ingenuidade da transparência. A coerência, quando desponta, nada prova,
pois, na melhor das hipóteses, apresenta-se como um efeito retrospetivo bem
montado.
No fim, e em resumo, sobra isto: não pensamos a verdade para
melhor viver. Pensamos porque algo, em nós, vive em sobressalto. E talvez seja precisamente por essa
inquietação que ainda merece, seguramente, ser repensado.
segunda-feira, abril 20, 2026
A FENDA NO REAL
Importa, pois, reconhecer - aceitando - que não estamos
perante duas perspetivas sobre a mesma realidade. Estamos, antes, perante um
deslocamento da própria realidade, que sustenta a mesma estrutura sem coincidir
consigo mesma. Daqui surgem posições desencontradas, contradições lógicas e
práticas discordantes, que se tornam aberturas de sentido para múltiplas
interpretações.
Que referencial teórico poderá, então, servir de base para
compreender, explicar ou analisar um raciocínio capaz de nos conduzir a uma
conclusão? Provavelmente, não há acordo definitivo. O “eu-sujeito” não é uma
entidade fixa, racional e coerente, mas uma identidade fluida, moldada pelo
inconsciente, através da linguagem e condicionada pelo meio social. Assim
sendo, a “vulnerabilidade” não é apenas do sujeito, mas da própria realidade,
onde o erro, a imperfeição ou a falha não resultam apenas de incompetência, mas
de um real dividido em si mesmo.
Não há totalidades equilibradas e coerentes, dado que não
existe um critério último estável. Em síntese, diria que não há uma verdade
absoluta com solução-chave na mão. Nesse sentido, o desvio entre perspetivas
não decorre de uma falha, fraqueza, ignorância ou limitação individual, mas
sinaliza uma quebra de continuidade. A chamada paralaxe ontológica não diz
respeito à diferença entre dois níveis de realidade, mas a uma torção interna
da própria realidade. O problema não é apenas epistemológico; a dificuldade
incorpora-se, sim, no próprio ser.
sábado, abril 18, 2026
PENSAR, O MEU VÍCIO PROVEITOSO
A leitura dá-me a mão quando caminho acompanhado por um pensamento inquieto. O encontro completa-se ao percorrer caminhos desafiantes, sempre estimulantes. As ideias, continuamente fecundas, apresentam-se teimosamente inacabadas. O mundo real revela-se como uma curiosa ironia, feita de camadas ocultas, contradições e obscuridades. A esperança não se perde: permanece, aguardando novas interpretações e formas de compreender. Como o tempo e a realidade nos vão ensinando, o vício não precisa de conserto; deve ser entendido, antes, como um impulso que gera movimento, aprendizagem e transformação coerente. É por isso que vou persistindo…
domingo, abril 12, 2026
A DIFÍCIL ARTE DE CONVERSAR PENSANDO
Gosto imenso de conversar, de um conversar que se tornou difícil no nosso tempo, não porque faltem ideias e palavras, mas porque decresce o pensamento que nelas se envolvem. A trivialização comunicativa em que vivemos mostra-se sinal de entusiasmo, tornando-se frequentemente costumeira: fala-se para passar o tempo, não para o sentir de verdade e de consistente dedicação.
Pensar, conversando, não se realiza através de um ato meramente
insociável. Pensar, conversando, acontece onde a fala deixa de ser mera
transmissão e se torna incidente. É aí que a conversa consegue densidade, não
como uma mera soma de opiniões, mas como caminhada em que o sentido se imagina,
se desloca e, por vezes, se retrocede para poder surgir de uma forma diferente.
Mas este “entre” é hoje constantemente ameaçado. A tendência
dominante é a de dizer para afirmar, para classificar, para encerrar. As
palavras vitais deixam de abrir o mundo e assim se submetem ao sob domínio do refreamento.
Ajeitam a perceção, abalizam o admissível e fixam, tanto quanto possível, as
produtividades das verdades que dispensam a interrogação. Assim sendo, o
relevante já não é o que não podemos dizer, mas o que já não conseguimos dizer,
nem sequer necessidade de pensar.
Neste lente, todavia, limitante quadro, a conversa perde a
sua capacidade transformadora e, como tal, aproxima-se da dinâmica interna e
funcional da silenciosa reprodução: aplicam-se as mesmas receitas, repetem-se as
posturas, reforçam-se identidades. O outro incómodo deixa de ser um falante
para se tornar um atencioso acolhedor de confirmação ou de recusa. E, assim, o
diálogo cede ao alinhamento de retóricas que não se concordam verdadeiramente.
Escutar, então, adquire uma paciente dimensão ético-política.
Não se trata apenas de ouvir, mas de suspender a urgência da resposta, de
aceitar a opacidade do outro, de reconhecer que o sentido não está previamente
dado, mas se constrói, sempre falhando, na relação. Escutar, apenas nesse
sentido, é um abrir de espaço que não bate certo com o nosso próprio horizonte.
Conversar torna-se, assim, uma incómoda e exigente prática
de renovação. Não há entendimentos, nem harmonizações de opostos. Há apenas a frágil
possibilidade de deslocar o olhar, de descentrar o sujeito, de promover
aberturas naquilo que assumimos por evidente. Contra a tentação de uma
linguagem transparente e controlável, a conversa digna desse nome aceita a
imprecisão e o inacabado como condições possíveis do pensar.
Talvez por isso a boa conversa não exija apenas uma
competência, mas uma forma de resistência. Resistência à simplificação, à
aceleração, à captura do pensamento por discursos já feitos. Conversar é
sustentar um espaço onde o sentido não estando fechado, se torna ainda possível
pensar, não apesar do outro, mas com ele. E é neste “com ele”, sempre incerto e
exposto, que a maneira de falar deixa de ser apenas um meio e se torna,
verdadeiramente, um paciente espaço de “bricolagem”.
Sinceramente, reconheço a minha dificuldade e a minha
impaciência, bem como a falta de jeito e de preparação para tal. Todavia,
procuro ser simpático. Ainda assim, reconheço que dificilmente suporto os
“chicos-espertos”, que sabem agir de forma oportunista, desonesta ou arrogante,
julgando-se, com aparente entusiasmo, mais inteligentes do que os outros.
segunda-feira, abril 06, 2026
DELFIM, EXEMPLO DUMA VIDA SIMPLES
Há pessoas que passam pela vida de um modo simples e
despretensioso, mas deixam em nós uma marca profunda. O meu amigo DELFIM foi
uma dessas presenças raras.
Aos 70 anos, partiu - ele que tão bem soube viver com leveza
e dignidade. Foi um homem alegre, de sorriso fácil, mas também um companheiro
culto, atento ao mundo e às suas feridas. Nunca se acomodou à injustiça, à
hipocrisia ou à desigualdade. Combateu-as sempre com convicção, sem nunca
perder a delicadeza no trato com os outros.
Havia nele uma forma de resistência que não precisava de
agressividade: a clareza, a coerência e o respeito impunham a sua integridade e
davam ainda mais valor à sua simpatia. A sua humanidade, simples e verdadeira,
era reconhecida por todos. Era admirado porque nunca deixou de ser íntegro. E
era estimado porque, acima de tudo, sabia estar com os outros com uma presença
simples, humana e verdadeira.
Guardo em mim - e certamente tantos outros - o DELFIM como
um exemplo silencioso de como se pode ser justo sem deixar de ser amável, firme
sem deixar de ser delicado. Não o esquecerei, pois há amizades que se
transformam em memória viva, em exemplo e, sobretudo, numa presença interior
duradoura.
domingo, abril 05, 2026
77 ANOS CONTRA O TEMPO QUE PASSA
O nosso tempo não é apenas o que passa. É o que se torna
experiência vivida, onde se sente, se reconhece e se transforma, um tempo que
resiste ao imediato e faz da subjetividade um valor humano em permanente
cultivo, aceitação e devir.
É nesse tempo que nos fazemos, e nos tornamos capazes de nos reconhecer como humanos. Eis o meu grito, e o argumento que o sustenta.
sábado, abril 04, 2026
A EMBOSCADA DA LIBERDADE
A LIBERDADE tornou-se a palavra mais circulante da nossa época. Não nos liberta, agimos, sim, dentro dela. Tornou-se ideia central e comum da vida social. A sua gramática implícita faz-nos livres e, sem darmos por isso, adaptamo-nos.
A LIBERDADE deixou, assim, de ser problema. Tornou-se uma
evidência dirigida. Evita conflitos, neutralizando-os. Tudo desliza numa
superfície polída onde tudo pode circular, desde que nada se torne infiel.
Nesta conformidade, o submisso não é reprimido: é posto em movimento.
Oferecem-lhe escolha, pedem-lhe que cuide de si, que se
reinvente continuamente. Não há exterior, nem desculpas, muito menos evasivas.
O sujeito torna-se, então, o único responsável por dar forma a uma vida
previamente formatada. A liberdade adere a uma agenda que se oculta como tal e,
por isso, em silêncio, nos atraiçoa.
Move-nos a sermos “nós próprios”, ao mesmo tempo que
dissolve as condições de possibilidade dessa verdade. O que em nós é opaco,
contraditório, não rentável, é lentamente silenciado. A verdade torna-se,
assim, inviável num mundo onde tudo deve ser comunicável, partilhável,
convertível em valor.
O homem livre é, hoje, aquele que melhor se acomoda a este
regime de circulação. Aquele que se reconfigura no movimento contínuo de
competências, afetos e imagens. Não há interioridade que não se exponha. Não há
experiência que não ambicione reconhecimento. A liberdade acalma-se na
normalização.
E quanto mais nos movemos dentro dela, mais nos afastamos de
qualquer fundamento que não seja imediatamente funcional. A nossa verdade
torna-se, progressivamente, um resto, um ruído que escapa ao encadeamento. O
sistema agradece essa útil irrelevância.
A traição do nosso tempo não nega a verdade, gere a sua
dissolução. Não pelo interdito, mas pela exaustão; não pelo silêncio imposto,
mas pela presença intrusiva de uma voz onde tudo se diz para que nada se
sustente. A voz da LIBERDADE não nos cala: fala por nós.
Antecipadamente. Permanentemente.
E é por isso que resistir se torna quase impercetível. Já
não se trata de romper cadeias visíveis, mas de interromper a fluidez que nos
atravessa. De recusar uma evidência que se apresenta como natural. De
sustentar, contra a corrente, aquilo que em nós não se adapta. Talvez a verdade
comece aí, não como expressão, mas como obstáculo. Atenta a uma cultura de
mercado que vive da LIBERDADE, torturando-a.
terça-feira, março 31, 2026
REVIVER A MORTE
Há escritos que não orientam nem testemunham; apenas abrem espaço. São gestos sensoriais onde o pensamento se torna silêncio atento.
A “supraconsciência” não se impõe como verdade, mas como
possibilidade de sentir. “Reviver a morte” não é antecipá-la, mas deslocá-la: da
exterioridade do fim para a interioridade da vida.
A morte não se dá como experiência; permanece velada. É
nesse véu que a palavra ganha força - e quase se deixa acreditar. Toda a imagem
tende a consolidar-se como verdade. É aí que a crítica deve intervir: não para
negar, mas para embaraçar o refúgio.
Entre o sentir e o crer, importa manter a distância. Não há
verdade sobre a morte, apenas modos de a habitar. Não já como interrupção, mas
como deslocação: uma densidade que intensifica a vida. Reviver a morte não é
vencê-la nem a negar. É deixá-la permanecer como interrogação.
sábado, março 28, 2026
PENSAR CRITICAMENTE, EIS UMA CONDIÇÃO DO HUMANO
A CRÍTICA mostra-nos como pensamos. Não se trata de um
“saber-fazer” vantajoso, mergulhado numa esperteza enraizada. A CRÍTICA não
dispensa o conhecimento, a realidade e o poder; antes os convoca,
interrogando-os nas suas raízes, muitas vezes desprovidas de fundamento e
comprovação. Implica, assim, uma atitude de envolvimento mais exigente, capaz
de conferir, analisar e agir de forma consistente.
A CRÍTICA é um exercício ativo, uma ação que se opõe à
passividade ou a movimentos que não têm origem na vontade ou na força do
sujeito. Exige, com frequência, uma transformação do próprio pensamento,
alterando a forma de dar sentido à vida, a si mesmo, bem como de estruturar
referências e orientações. Trata-se de uma mudança que impulsiona mediações,
abrindo caminho a possíveis reconfigurações e renovações do pensar.
Importa reconhecer que a DIMENSÃO CRÍTICA ganha relevância
ao tornar-se decisiva na integridade do conjunto. Não se procuram opiniões
secundárias ou decorativas, mas elementos essenciais para a formação,
compreensão e retificação do saber. Trata-se de um processo contínuo, que deve
ser reconhecido como uma condição constitutiva do humano.
A CRÍTICA não se reduz ao confronto de opiniões - diferentes
pontos de vista, ideias ou argumentos - nem se esgota na sua troca. Ela
revela-se também na produção de inteligibilidade, isto é, em processos
intelectuais e interpretativos, tanto por parte de quem produz um texto, uma
teoria ou um conhecimento, quanto por parte de quem os interpreta.
A CRÍTICA decorre de um modo de pensar a permanente produção de sentidos, bem como da análise e desconstrução que atravessam o viver. Defende-se, assim, a integração do PENSAMENTO CRÍTICO como uma postura proativa e constante - contínua e vigilante - e não como um entendimento transitório ou meramente conclusivo. Pensar não basta, a EXIGÊNCIA DA CRÍTICA ajuda. Sejamos, então, uns pacientes teimosos nesta vital condição do humano.
segunda-feira, março 23, 2026
O EU NA ERA DOS ALGORITMOS
O capitalismo digital não é mais do que uma fase atual do seu
amplo sistema. Caracteriza-se pela centralidade de dados, plataformas digitais
e algoritmos na sua organização sistémica, abraçando produção, distribuição e
consumo. É por aqui que passa a mundialização do capital, onde a produção e as
finanças operam em escala global, precarizando relações de trabalho e
flexibilizando mercados.
A "dissolução do eu" (ou do ego) é um conceito
complexo, frequentemente discutido a partir de diversos pontos de vista, que revela
a perda ou o enfraquecimento temporário das fronteiras da identidade pessoal. Mas
o mais curioso - talvez o mais irónico - é que essa dissolução não chega como
experiência libertadora, mas, sim, como uma lamentável rotina banalizada.
O eu assim se desintegra, por exaustão, por dissipação ou por
quebras sucessivas. Não desaparece, é certo. Todavia multiplica-se em perfis,
opiniões rápidas, estados transitórios e identidades de ocasião. Cada gesto
digital promete expressão, mas entrega dispersão; cada afirmação gera um
atenuar do conteúdo. Assim se vive numa estranha e permanente oscilação entre a
exibição e o afastamento, em prejuízo de uma presença consistente.
A adaptação vai-se tornando conformação. O sujeito habitua-se
a viver amortecido, a reconhecer-se na corrente dominante, a aceitar a variabilidade
como reconfiguração de identidade. Já não se interroga “quem sou?”, mas “como
devo aparecer?”. Todavia, é nesta inquietude que as próprias condições dos atos
e da realidade interrogam, ainda que timidamente, sobre aquilo que se perdeu, ou
sobre aquilo que, afinal, nunca chegou verdadeiramente a possuir. A possibilidade
de um outro modo de existir vai, certamente, escorregando por aqui.
quinta-feira, março 19, 2026
O FUTEBOL SEM BOLA
Aturar o futebol escutando a palavra analítica e crítica,
marcada pelo clubismo, é entrar - quase sem dar por isso - num idiota relvado
de emoções intensas onde, paradoxalmente, a bola se oculta.
A indignação gira sobre si mesma, num rodopio contínuo,
mergulhando numa atenção subterrânea que pouco ilumina. Os estímulos,
impulsivos e azedados, propagam-se rapidamente, encontrando sempre uma
justificação para a sua própria amargura.
Os impactos emocionais, invariavelmente apressados, recusam
pensar - e, mais ainda, considerar. O conflito atrai mais audiência do que o
juízo ponderado: insinua contradições, alimenta disputas apaixonadas e,
sobretudo, produz visibilidade mediática, sempre bem acolhida.
A arena do debate mascara-se, assim, numa esfera emocional
altamente excitada, onde se fabrica um ambiente psicológico coletivo saturado
de nervosismo refinado, intensidade e reatividade. É nesse terreno que
prosperam emoções indomáveis, geradoras de ambientes vivos, inquietos e, por
vezes, de atritos tidos como necessários.
Trata-se, no fundo, de uma verdadeira disputa desportiva das emoções. Ou talvez - de forma mais rigorosa - de uma autêntica economia política das emoções, onde estas são produzidas, geridas e instrumentalizadas pelas dinâmicas de poder que atravessam o universo clubista.
domingo, março 15, 2026
SERÁ QUE PENSAMOS ATRAVÉS DE UMA SUBJETIVIDADE COLONIZADA?
O modernismo fez-nos admitir que o homem poder-se-ia tornar dono do seu próprio destino. Desde a era da razão, ela se foi supondo como um rumo de autonomia e a liberdade como possibilidade de orientar a vida com plena consciência e conhecimento de causa. Contudo, a história veio revelando uma oposição desconcertante: quanto mais o homem se afirmou livre, mais complexas e invisíveis se tornaram as forças que foram surgindo na configuração da sua própria subjetividade.
A crítica marxiana veio evidenciar que a consciência não
nasce num vazio. As relações económicas e sociais estruturam o ambiente dentro
do qual os indivíduos pensam, desejam e interpretam o horizonte. Aquilo que
parece ser uma opção pessoal pode muitas vezes ser expressão de uma lógica que transpõe
o próprio sujeito.
Por sua vez, a descoberta freudiana do inconsciente abriu
uma outra ranhura na imagem convencional da autonomia. O sujeito não bate certo
consigo mesmo. A convicção convive com forças motivacionais que desviam a sua
transparência, tornando o pensamento uma atividade constante de apreciação.
É neste entrelaçamento entre economia, linguagem e desejo
que a reflexão de Habermas alcança particular evidência. Ao analisar as
sociedades contemporâneas, ele descreve uma tensão crescente entre o mundo vivido,
onde se formam as identidades, as relações e os sentidos partilhados, assim
como as grandes cadeias que organizam a modernidade, como o mercado, as suas
lideranças e comandos. Todavia, esses sistemas vão ultrapassando a sua função e
invadindo os âmbitos da vida quotidiana, começando a subjetividade a formar-se
sob a pressão de lógicas que nos são alheias.
Pensar hoje a condição humana talvez implique reconhecer
precisamente este foco de conflito. O sujeito contemporâneo não vive fora das
estruturas que o acomodam, nascendo já por elas atravessado. Todavia, embora pareça
antagónico, é nesse interior que o pensamento pode reabrir o seu espaço para a
crítica. Pensar através da subjetividade colonizada significa, então, procurar a
clareza de raciocínio, bom senso, inteligência e sanidade mental. Ou seja,
concebendo uma real lucidez dentro das próprias condições que levemente limitam
a coragem da nossa liberdade.
Pensar, reconhecendo a confirmada subjetividade colonizada,
é identificar que a liberdade não é um domínio garantido, pois nos provoca - e
convoca - uma coragem crítica que deve exercer a sua consciência dentro das
próprias fronteiras que nos propõem e neles nos procuram alinhar. A verdade, a
justiça e as normas sociais podem e devem ser discutidas, combatendo a lógica
do dinheiro, da eficiência e do poder que a abraça e aconchega. Se assim é, por
aqui passa uma tensão estrutural de referenciais e não só…
quarta-feira, março 11, 2026
DAÍ, UMA SUBJETIVIDADE INVADIDA
Nunca se falou tanto de liberdade individual como no nosso tempo. Mas nunca também o desejo humano foi tão intensamente estimulado, orientado e explorado. Entre o inconsciente e os dispositivos culturais do mercado, a subjetividade contemporânea move-se num campo onde a autonomia proclamada convive com formas subtis de captura.
Durante muito tempo acreditou-se que a realidade interior do
homem era relativamente estável: um ponto central da consciência capaz de se
situar no mundo através da razão, da vontade e da experiência. A modernidade
construiu grande parte do seu imaginário sobre essa noção de indivíduo
autónomo, senhor de si e das suas escolhas.
Contudo, ao longo do século XX, essa imagem começou a ser
profundamente fragilizada. A descoberta freudiana do inconsciente veio mostrar
que o sujeito não coincide consigo próprio. Aquilo que pensamos ser palavra “nossa”
é frequentemente atravessada por desejos, fantasias e conflitos que escapam ao
domínio da razão. O sujeito sente-se então habitado por forças que o excedem.
Mais tarde, Lacan aprofundou esse juízo ao afirmar que o
inconsciente não é apenas uma parte obscura do foro íntimo. Ele é estruturado
pela linguagem e pelo campo simbólico da cultura, dado que o desejo humano se
forma dentro de contextualizações que se antecipam ao indivíduo. Antes de
falarmos, já fomos - e continuamos a ser - rodeados por um mundo de palavras,
imagens e projeções.
A crítica social abre então um novo horizonte de
compreensão. Com o marxismo surge a ideia de que o capitalismo não produz
apenas bens destinados à venda; produz também maneiras de viver, formas de
perceção e sensibilidades coletivas. A economia, longe de ser apenas um
mecanismo de troca, torna-se também experiência e história de vida.
Nesta cultura contemporânea, marcada pela expansão do
consumo, essa dimensão torna-se particularmente evidente. O capitalismo atual
não se limita a satisfazer necessidades: vive da produção contínua de novos
desejos. A publicidade, os media e as redes simbólicas do mercado
converteram-se num vasto maquinário de estímulo e orientação do desejo humano.
O sujeito contemporâneo encontra-se assim mergulhado num
ambiente onde a identidade parece depender cada vez mais da capacidade de
escolher, adquirir e exibir objetos e estilos de vida. Consumir deixa de ser
apenas um ato económico; torna-se também um gesto simbólico através do qual o
indivíduo procura mostrar quem é.
Neste contexto, a vitalidade do inconsciente, enquanto
inquietação incessante do desejo humano, encontra um campo particularmente
fértil. A cultura do consumo aprende a falar a língua paradoxal do desejo
inconsciente. Promete satisfação, oferece objetos como sinais de realização e
desloca continuamente o auge da existência. Cada compra anuncia completar algo
que permanece, contudo, estruturalmente incompleto.
O resultado é um movimento contínuo: o desejo encontra um
objeto, esgota-o rapidamente e reabre-se para novas expectativas. O sujeito é
assim mantido num circuito de expectativas e insatisfações, numa economia
simbólica que transforma o desejo em energia social e económica.
Mas a formação da subjetividade não se limita ao plano
individual. Como sublinha Burity, os sujeitos também se constituem através de
processos de identificação coletiva. Discursos políticos, narrativas culturais
e imaginários sociais oferecem posições a partir das quais os indivíduos podem
reconhecer-se e agir.
Assim, a subjetividade contemporânea forma-se numa rede de
intersecção de múltiplos processos: estruturas psíquicas, mediações culturais,
relações económicas e figuras de identificação coletiva. O sujeito não é um
ponto fixo, mas um lugar de passagem onde se cruzam desejos, linguagens e
grupos de interesse.
Talvez por isso a experiência do presente seja
frequentemente marcada por uma sensação desconcertante. Nunca tivemos tantas
possibilidades de escolha e tantas promessas de realização. E, no entanto, o
sentimento de falha persiste, como se algo essencial escapasse à lógica do
benefício prometido.
Nesse entremeio entre o desejo e a garantia da sua
realização, entre a singularidade do humano e as formas sociais que a moldam,
desenha-se o drama silencioso da subjetividade contemporânea: uma condição em
que o inconsciente continua a mover-se, inquieto e dinâmico, no interior de uma
cultura que aprendeu a converter o desejo humano num dos seus principais
motores.
Assim, no coração da cultura contemporânea, o desejo humano continua a mover-se inquieto, enquanto o capitalismo aprende a transformar essa inquietação numa das suas forças mais produtivas.