Vivemos um tempo histórico surpreendentemente ignorado. As adversidades, para além das imediatas, vão-se mostrando universais. O desafio humano estende-se, assim, para além da realidade concreta e atual. Todavia, a nossa imaginação política, subjugada a padrões do passado, conserva-se cada vez mais individualizada e hermética. O alcance dos desafios e a dimensão da intervenção, sem nos afastarem dos horizontes coletivos, obrigam-nos a reconhecer os verdadeiros obstáculos do presente. Assim vou pacientemente caminhando...
gritoeargumento
domingo, junho 07, 2026
sábado, junho 06, 2026
A LEVEZA DO ESSENCIAL
A verdade raramente se enaltece. Não costuma mostrar-se sublime, nem tão-pouco circular pelos labirintos da erudição de fachada. Muitas vezes, passa recatada pelas franjas do caminho, como uma brisa leve que afeta com subtileza ou uma simples luz suave que ilumina sem ofuscar.
No desejo ardente de entender a realidade, arrecadamos
palavras, ideias e satisfações. Contudo, há momentos em que a verdade parece
afastar-se quando a procuramos agarrar em excesso. Ela prefere a transparência
ao ruído, a escuta ao discurso, a atenção ao espetáculo.
A simplicidade não é pobreza de pensamento. Mostra-se uma bela
e exigente arte de remover o supérfluo para que o essencial se afigure. É olhar
uma árvore sem a necessidade de a ver através de uma meticulosa tese. É escutar
o silêncio sem a urgência de o completar. É permanecer diante da vida com um
espírito disponível para acolher o que ela exibe.
Talvez a verdade não seja uma conquista definitiva, mas um
encontro momentâneo que acontece quando o olhar se torna mais leve e a alma
mais atenta. Por isso, se procuras a verdade, não abandones a simplicidade.
Muitas vezes, é nela que o mistério das coisas se deixa distinguir, não como
uma resposta final, mas como uma atitude que nos convida a seguir o seu simples e puro caminho.
domingo, maio 31, 2026
A SOMBRA DA "PATOCRACIA"
Sinto que vivemos um tempo marcado por uma espécie de psicopatia política, alimentada por uma altivez demagógica que avança de mãos dadas com a intolerância e a recusa da diferença. A linguagem pública degrada-se, o debate empobrece e os valores éticos são progressivamente substituídos por estratégias de influência, oportunismo, manipulação da verdade e exercício arbitrário do poder.
O que emerge deste cenário não é uma liderança orientada
pelo respeito, pela autonomia ou pela dignidade dos cidadãos. Pelo contrário,
assiste-se à valorização de comportamentos que privilegiam a eficácia do
domínio, a conquista de influência e a obtenção de benefícios próprios, mesmo
quando estes se apresentam disfarçados de interesse coletivo. O poder deixa de
ser um instrumento ao serviço da comunidade para se transformar num fim em si
mesmo.
As suas estratégias procuram aparentar clareza e
legitimidade. Falam em nome do povo, apresentam-se como defensores da ordem e
da moralidade, e identificam inimigos responsáveis por todos os males. Contudo,
por detrás dessa encenação, encontra-se frequentemente uma visão simplificadora
da realidade, incapaz de acolher a pluralidade, a crítica e o dissenso
democrático.
Pergunto-me, por isso, como é possível considerar exemplares
figuras que exibem, de forma recorrente, traços de narcisismo, agressividade e
inclinação autoritária. Como compreender a crescente aceitação de discursos que
estimulam o ressentimento, a exclusão e a submissão ao líder providencial?
Talvez porque a insegurança e o medo criam terreno fértil
para soluções fáceis e promessas grandiosas. Talvez porque a complexidade do
presente leve muitos a procurar refúgio em narrativas que idealizam um passado
supostamente perdido. É nesse contexto que ganha força aquilo que alguns
autores designam por patocracia: uma forma de organização política em
que traços patológicos de personalidade encontram espaço para influenciar
instituições, moldar comportamentos coletivos e corroer os fundamentos éticos
da vida democrática.
Quando ouvimos apelos à restauração de uma ordem
desaparecida com a Revolução de 1974, importa perguntar se estamos perante um
legítimo debate histórico ou perante a nostalgia de formas de autoridade
incompatíveis com as conquistas da liberdade, da participação democrática e dos
direitos cívicos. A resposta a esta questão talvez seja decisiva para
compreender os desafios políticos e culturais do nosso tempo.
sexta-feira, maio 29, 2026
A EROSÃO DO SER NUM MUNDO DE APARÊNCIAS
Vivemos um tempo humanamente satírico em que o valor do “SER” parece medir-se pelo que possui, exibe ou consome. O “TER” fantasiou-se numa espécie de segunda natureza, mostrando-se endinheirado, superior, com relevância e reconhecida presença. Buscando influência como se a condição humana pudesse reduzir-se a um balanço contabilístico.
Entretanto, o “SER” vai-se ocultando distanciando-se através
do seu espaço escondido no seu silêncio reflexivo e na sua embaraçosa agilidade
crítica. A sensibilidade, o encontro verdadeiro com os outros e consigo mesmo,
perde memórias, história, tradições ou mesmo referências anteriores. A cultura
do desempenho substitui a experiência humana; a aparência ocupa o lugar da
profundidade.
Certamente que o dilema não esteja em negar o “TER” em si. Acompanhando
o palpite de Žižek, diria que a experiência vivida se mostra contraditória e
dialética, posto que não vivemos fora da realidade concreta e muito menos evitamos
ganhar o sustento. O problema surge quando o “TER” deixa de servir a vida e
passa a sustentá-la. Quando a praça comercial e o espírito de rivalidade acomodam
o próprio desejo humano.
A dialética entre o SER e o TER, como Zizek diria, exige
então uma conversão crítica; possuir sem ser possuído, utilizar sem reduzir a
vida ao consumo, reconhecer que nenhum acúmulo material substitui a construção
interior, cultural e ética do sujeito. Talvez a verdadeira e humana pobreza do
nosso tempo não seja apenas a falta de bens, mas a erosão do ser conduzida pelo
humano desvanecimento da identidade e pela decomposição da sua subjetividade.
terça-feira, maio 26, 2026
NÃO ME AFASTO DA POLÍTICA …
… DELA NÃO ME DESVIO
Não me afasto da política porque ela atravessa a vida humana
em todas as suas dimensões. Está presente nas relações sociais, na organização
do trabalho, na distribuição da dignidade, no acesso à palavra e até na forma
como aprendemos a desejar e a temer. A política não é apenas o território dos
partidos, dos governos ou das disputas eleitorais. É também a forma como uma
sociedade constrói os seus valores, normaliza comportamentos e decide aquilo
que considera aceitável ou invisível.
Mas dela também não me aproximo de forma obediente ou
reconciliada. Procuro manter uma distância crítica. Observo a realidade humana
tentando perceber as suas contradições, os seus conflitos e as insuficiências
que muitas vezes se escondem sob discursos harmoniosos. Desconfio das
evidências demasiado seguras, das respostas prontas e das unanimidades
confortáveis.
Sinto-me frequentemente afastado do senso comum quando este
reduz a complexidade da vida a opiniões rápidas, certezas imediatas ou
alinhamentos automáticos. Não porque procure ser diferente por gosto de
oposição, mas porque encontro na realidade humana uma densidade que resiste às
simplificações. O pensamento, para mim, não pode limitar-se a repetir chavões
aceites. Precisa de interrogar, deslocar, abrir aberturas.
Talvez por isso procure aquilo que permanece oculto nas
coisas. Interessa-me o reverso do que socialmente se apresenta como evidente.
Aquilo que parece natural pode esconder formas subtis de dominação, conformismo
ou dependência emocional. Muitas vezes, o que é socialmente celebrado contém,
no seu interior, tensões que raramente queremos reconhecer.
Não procuro afastar-me do mundo, mas libertar-me das
dependências que impedem o pensamento de respirar. Existem seduções coletivas
que capturam a consciência: o consumo permanente, a necessidade de
reconhecimento, as identidades rígidas, as fidelidades absolutas. Todas elas
podem transformar a liberdade numa adaptação cómoda e silenciosa.
Vou percebendo, assim, que a verdade não ocupa uma posição
fixa. Aproximo-me dela através do contraste, da tensão e da confrontação com a
própria realidade. Não encontro a verdade através de um chavão imóvel, mas num
movimento de procura crítica. Pensar exige aceitar a incompletude e a
inquietação.
É nesse sentido que a contradição deixa de me parecer um
defeito acidental da existência. A contradição pertence à própria condição
humana e social. Vivemos entre desejos incompatíveis, promessas não cumpridas,
avanços e regressões. A sociedade produz liberdade e desigualdade, emancipação
e controlo, proximidade e isolamento. Ignorar estas tensões seria empobrecer a
compreensão do humano.
Por isso valorizo o gesto dialético. Não como uma técnica
abstrata, mas como uma disposição do pensamento que procura compreender os
conflitos internos da realidade. A dialética não elimina a tensão; trabalha-a.
Não destrói a liberdade; procura perceber os obstáculos, os desvios e as
possibilidades do seu percurso.
Também, em razão disso, reconheço a importância da
negatividade. Vivemos numa época que valoriza excessivamente a positividade, o
desempenho permanente, a motivação contínua e a adaptação rápida. No entanto, o
pensamento crítico nasce muitas vezes da inquietação, da recusa e da capacidade
de dizer “não”. A negatividade pode abrir espaço ao novo quando impede que o
existente se transforme numa fatalidade.
Não me afasto da política porque continuo a acreditar que a
vida coletiva pode ser transformada. Mas dela não me aproximo como quem procura
abrigo ideológico ou pertença absoluta. Prefiro permanecer nesse lugar de
tensão, onde pensar continua a ser uma forma de resistência interior e também
uma tentativa de abertura ao possível.
Talvez seja precisamente aí que a política me leva a recuperar
a sua dignidade mais profunda: não como administração passiva do existente, mas
como procura determinante e incessante de uma vida humana mais consciente, mais
livre e mais justa. Através de uma existência lúcida, um espírito liberto e uma
vivência com base numa consciência social aplicada.
segunda-feira, maio 25, 2026
A AGITAÇÃO DO ABSOLUTO
O sentimento do sublime, enquanto expressão de pureza e dignidade, inquieta-me como estado afetivo e subjetivo que nasce da intranquilidade das minhas próprias rotinas diárias e emocionais. Não se trata de um bem-estar súbito e conciliador. Bem pelo contrário: inquieta-me. Em vez de uma afinidade natural com o mundo, produz-se um abalo interior. Confronto-me com algo que supera a ordem natural das coisas e da vida.
O sentimento do sublime alberga em mim inquietação,
fragilidade e limite. Todavia, é precisamente nesse confronto que ele me ajuda
a transcender o comum, revelando uma retidão moral eticamente superior,
acompanhada pela mente e pela admissível dimensão intelectual da alma.
Os sentidos não conseguem dominar plenamente aquilo que
vejo, mas a razão leva-me a perceber que existe em nós algo que ultrapassa a
simples sensação imediata. Descobrimos que o espírito humano, a sua
inteligência e essência moral, pode imaginar sem fronteiras, idealizar a
liberdade e apreender o todo, mesmo sem a sua representação integral.
Assim, ao longo desta longevidade, vai-se consolidando e
enobrecendo em mim esta nobre dimensão do espírito humano. Percebemos que não
somos apenas seres sensíveis, dependentes da experiência imediata, mas também
portadores de uma dignidade interior que, dentro de nós, enriquece o sentimento
do sublime.
É esse sentimento do sublime que desafia a transcendência
interior e que, paradoxalmente, nos revela aquilo que em nós se eleva como
talento, qualidade ou dignidade espiritual. É por isso que o prazer sublime
nunca é simples. Contém sempre uma vulnerabilidade oculta, transformada em
elevação.
Não obstante a vulnerabilidade do ser humano, o sentimento
do sublime nasce precisamente através dela. O momento de insuficiência
torna-se, assim, essencial à própria vida e experiência. Por outras palavras,
diria que só evoluímos verdadeiramente e compreendemos o mundo com maior
profundidade quando nos confrontamos com as nossas próprias fragilidades e
lacunas, admitindo, como é de esperar, a possibilidade de a fragilidade humana
evoluir para uma virtuosa forma de humanização do humano.
domingo, maio 17, 2026
A ARTE CONFUSA DE PERMANECER
Há amizades que não se esclarecem apenas pelas palavras. A
vida de cada um de nós é, na sua maioria, estritamente individual, mas existe
entre nós uma abertura silenciosa que permite reconhecer a alegria, a tristeza,
a esperança ou o desencanto na presença do outro. Muitas vezes, antes de
qualquer explicação, já sentimos como alguém se encontra. É nessa sensibilidade
partilhada que se prospera a amizade.
Vivemos num tempo de encontros e convívios humanos.
Aproximamo-nos, afastamo-nos, incluímos e somos incluídos, mas também enfrentamos
a exclusão, a indiferença e o abandono. Cada relação deixa sinais, porque
ninguém passa verdadeiramente pela vida do outro sem o sensibilizar, ainda
que de forma recatada.
Quando alguém se afasta da nossa vida, não desaparece apenas
uma presença física. Termina a convivência, um costume de partilha, uma certa
maneira de viver numa outra realidade. Perdura um silêncio que revela o quanto
a convivência humana dá forma à nossa própria relação, existência e verdade.
Talvez a amizade verdadeira se mostre precisamente aí, ou seja, na capacidade de permanecer aberto ao outro sem encenações lineares, reconhecendo que a verdade humana não se constrói no desvio, mas na amável reciprocidade dos afetos, da compreensão e da presença. Sobretudo, não recorrendo em silêncio às portas que o tempo tolamente fecha.
sexta-feira, maio 15, 2026
SER LIVRE? DÁ QUE PENSAR…
O assombro da liberdade, enquanto sentimento humano, nunca
se mostra estável ao longo do tempo. A liberdade muda porque o próprio ser
humano se vai alterando nas suas formas de viver, desejar, inquietar-se,
produzir sentidos e disciplinar o corpo humano. O sentimento de liberdade surge
sempre embebido pela cultura, pela arte do possível, pela linguagem e pelos
impulsos do modismo de cada época, muitas vezes incontroláveis.
Num primeiro momento, a liberdade esteve fortemente ligada à
resistência e à libertação prática da intimidação externa: do senhor, da
escassez, da submissão e do controlo. Era uma liberdade compreendida como
conquista concreta, arrancada à dureza do mundo. Mais tarde, sobretudo com o
avanço das sociedades modernas, a liberdade passou também a significar expressão
do “eu”, autonomia pessoal, escolha subjetiva e consciência de si. O indivíduo
descobriu-se livre - ou, pelo menos, começou a apreciar essa ideia.
Todavia, os desenvolvimentos das sociedades contemporâneas
acabaram por sofisticar o absurdo. A liberdade deixou de ser apenas uma questão
política para se tornar também psicológica, cultural e simbólica. O cidadão do
século XXI goza direitos, consumo, mobilidade e expressão, enquanto se deixa
moldar alegremente pela arquitetura comportamental. O mercado, a ideologia, as
redes sociais, o reconhecimento narcísico e os receios da exclusão
transformaram-se em funções quase orgânicas de desempenho e validação. Já nem é
preciso mandar: basta sugerir com delicadeza.
Assim, a liberdade vai-se tornando progressivamente mais
entrelaçada, enquanto o poder se torna mais discreto e as normas de conduta
mais suaves, elegantes e até “afetuosas”. Já não se impõe pelo impedimento
direto; infiltra-se pelo desejo, pela sedução e pelo devaneio. Sobretudo,
comercializa identidades prontas a usar, embaladas com a promessa irresistível
da autenticidade. Cada um julga afirmar-se como único, desde que o faça
exatamente dentro do catálogo disponível.
Por isso, o sentimento contemporâneo de liberdade convive
com uma pressão contínua que, em nome da própria liberdade, facilmente
escorrega para simplificações ideológicas e afetivas. Tudo isto permanentemente
observado pelo olhar do outro - esse tribunal invisível - e pelos discretos
especialistas da satisfação, sempre atentos a orientar desejos, frustrações e
entusiasmos devidamente autorizados.
Em síntese, diria que a liberdade humana exige hoje uma luta
muito mais complexa contra artifícios subtis, frequentemente invisíveis ou
inconscientes, que moldam comportamentos, pensamentos e escolhas. O verdadeiro
teatro contemporâneo talvez resida precisamente aí: nesse cenário de abundância
de opções, onde nunca tivemos tantas possibilidades de escolha e,
simultaneamente, nunca foi tão difícil distinguir entre aquilo que
verdadeiramente desejamos e aquilo que aprendemos, com enorme entusiasmo, a
desejar.
No fundo, a cultura consumista não apenas acompanha a liberdade contemporânea - ela organiza o seu teatro. Define os papéis, distribui os desejos e regula os aplausos. O sujeito entra em cena acreditando ser autor, mas encontra-se já inscrito num guião de escolhas pré-formatadas. A peça prossegue com grande vitalidade, porque todos participam nela com convicção - mesmo quando o que se representa é, sobretudo, a forma contemporânea de uma liberdade, sim, organizada e dirigida.
quarta-feira, maio 06, 2026
AUTENTICIDADE OU NARCISISMO?
A autenticidade vale como qualidade, sem deturpações, e muito menos vigora quando consumida pela vaidade. A cultura não é decoração de costas voltadas ao nosso compromisso ético e existencial. A autenticidade jamais se educa na clausura pessoal. Tenhamos juízo, aceitando que a cultura não é ornamento.
quinta-feira, abril 30, 2026
SEM PULSO A DEMOCRACIA?
Vivemos um tempo em que a apatia política reduz o
entendimento comum, arrastado pela dissolução da relevância simbólica. O
sistema mostra-se inconsciente, as promessas políticas esvaziam-se e as
convicções vacilam. A apatia abraça, como é óbvio, a busca pelo prazer, criando
uma sensação de solidão onde a política se reduz ao campo da técnica e da sua
gestão.
A esperteza e o cinismo da extrema-direita logo emergem, em
voz alta, exibindo-se como um talento capaz de preencher esse “buraco
emocional” com ações imediatas e cativantes. Proclama um “estado puro”,
transbordando afetos mobilizadores, enquanto preenche vazios com narrativas
simplificadoras. O cinismo opera, convertendo-se em crendices deslocadas que
permitem romper com o marasmo.
Com o tempo, compreendemos que a extrema-direita se apresenta como uma “prótese de desejo”: sem horizontes políticos claros, oferece, ainda assim, identidade, ordem, pureza e pertença. Convém reconhecer que cresce no espaço deixado vazio por alternativas que deixaram de saber desejar. Daí a pergunta: como reconstruir um desejo político coletivo que não seja nem cínico nem regressivo?
quarta-feira, abril 29, 2026
O VÍCIO DE NÃO SER EU
Com esta idade, vou confirmando que o desejo de ter o que o outro tem não nasce porque o outro me estorva; o que me provoca é aquilo que nele aparece como excesso. É a minha silenciosa e boba inveja que arrasta este obtuso desejo.
Estúpido, sem dúvida: arrastado por algo que vem de fora,
não de um suposto “eu” puro, mas de uma identidade que não é a minha. Sinto-me,
por isso, capturado por um vício grotesco, abraçado a uma súbita paralisia
existencial.
Reconheço-me, então, como um invejoso que não consegue
caminhar a sua própria vida, embora permaneça sempre atento — e julgador — dos
assuntos alheios. Progressivamente, sinto-me afastar da minha individualidade,
da minha vontade, falseando o meu próprio caminho e a minha verdade crítica.
Confirmo, assim, que o desejo verdadeiro não vem acompanhado
de segurança: alimenta-se da falta, da ausência, do desconhecido.
E, neste ambiente de manipulação e desigualdade, a injustiça
torna-se um ator nem sempre visível. O seu cinismo opera de forma intencional,
consciente, e procura — sem pudor — decidir por todos.
Será que ainda vou na fita?
sábado, abril 25, 2026
O LUGAR DA INCERTEZA EM PATRÍCIA REIS
Há uma ideia que me ficou - entre várias - ao ouvir Patrícia
Reis falar do seu lugar da incerteza: a noção de “cultura do
pensamento”. Não se tratou de acumular ideias, nem de as exibir com charme.
Referiu-se a outra coisa, mais rara e exigente: criar condições para que o
pensamento aconteça. Isso implica, desde logo, recusar a facilidade com que hoje
se confunde pensamento com mera opinião, reação ou resposta imediata.
É precisamente aqui que a abstração - tantas vezes mal vista
- se revela crucial. Patrícia Reis mostrou, com clareza, que não há pensamento
sem interposição, nem mediação sem um certo afastamento do imediato. O
concreto, esse que se apresenta como evidente, é talvez o mais opaco de todos
os domínios. Não surge do nada: foi construído, organizado, filtrado, narrado
e, com o tempo, naturalizado.
A cultura do pensamento começa, então, quando se torna
enfadonho ceder ao imediato. Não se trata de fugir do real, mas de recusar a
pobreza com que ele se impõe como evidente e inegável. A abstração revela-se,
assim, um gesto crítico: interrompe, desarticula, e permite entrever outra
coisa. É ela que nos ajuda a compreender que o “concreto” já vem saturado de
simbolismo, linguagem e relações de poder.
Neste quadro, uma verdadeira cultura do pensamento não é
compatível com a urgência - esse regime saturado de imagens e de comentários
compulsivos. Ela exige silêncio. Não o silêncio da ausência, mas o silêncio
como tempo e espaço de transformação e maturação. Um lugar onde a linguagem não
serve apenas para dizer, mas para resistir, deslocar e desorganizar o já dito.
O lugar da incerteza - ainda não lido por mim - não será,
portanto, uma falha, mas uma condição. Um espaço onde o pensamento não se deixa
capturar pela evidência, nem encerrar pela resposta. Um espaço onde o concreto
ainda pode ser interrogado - e, por isso mesmo, transformado.
Num tempo em que tudo nos empurra para a tomada de posição
imediata, talvez a tarefa mais urgente seja outra: reaprender a pensar,
valorizando o valor da condição humana.
Obrigado, cordial e aprazível Patrícia.
sexta-feira, abril 24, 2026
quinta-feira, abril 23, 2026
UM REALISMO CÍNICO
As imagens aliciam-me. Sei que mentem - e mesmo assim
sigo-as. Não é nelas que procuro a verdade; é nelas que evito encontrá-la. Desconfio,
sim, mas essa desconfiança tornou-se um hábito confortável. Começo por aí:
acreditar que não acredito.
A ilusão não apenas sobrevive, organiza. É fabricada,
normalizada, consumida. E eu instalo-me nela com uma serenidade suspeita,
embalado por um conforto silencioso de rendição. Digo-me lúcido, imune a mitos
e truques. Mas a lucidez, quando repetida, degrada-se em rotina. Escorre para
hábitos, consolida em ficções que me servem antes de eu pensar.
Resta-me, pois, um cinismo funcional: sei o suficiente para
não acreditar, mas não o necessário para evitar. Assim, abandono a verdade sem
conflito e adapto-me a uma ilusão utilizável. O imaginário empobrece - não por
excesso, mas por cansaço. Já não seduz, acomoda. Já não engana, orienta.
Com o tempo, acredito cada vez menos nas imagens. Ainda assim, dependo cada vez mais delas. Talvez a ilusão mais eficaz não esteja nas imagens. Encontra-se, sim, nesta convicção tranquila – quem sabe orgulhosa - de que já as ultrapassámos. O silêncio do cinismo, simpaticamente me assiste, trazendo a útil e atraente calma da falsidade.
quarta-feira, abril 22, 2026
UM PENSAMENTO INSISTENTEMENTE ATRASADO
Não li ainda o livro Corpo, Prazer e Estilo, de Michel Onfray. Bastou-me desfolhá-lo para suspeitar de algumas minhas higiénicas asneiras. Pensar e viver como se fossem a mesma coisa, enquanto fantasia de saneamento filosófico. O corpo, lembraria Freud, não obedece. Falha, desvia-se, insiste. Não pede coerência, impõe palpites.
Pensamos, sim. Mas quase sempre tarde. Depois da suspeita, depois
do incómodo. Depois de algo ter fracassado com um orgulho que não controlamos.
Lacan diria o óbvio que evitamos, pois, o homem é um equívoco persistente.
Quando dizemos “eu”, já chegámos atrasados no tempo e ao lugar de que falamos.
E, no entanto, escrevemos como se coincidíssemos connosco. A
promessa de uma vida única e irrepetível? Uma solidão bem editada. Ninguém
repete ninguém, nem sequer a si próprio. O chamado “romance autobiográfico” pouco
ou nada resolve. Dá-lhe, sim, forma. tornando-o suportável. Chamamos-lhe
identidade por falta de uma palavra mais frontal.
Onfray, por sua vez, procura devolver o pensamento ao corpo.
Mais autêntico e ajustado. Mas o corpo não é a casa certa, mas sim um campo de incertezas.
Há nele restos, desvios, pequenas resistências. Pensar com o corpo, sim, mas
sem a ingenuidade da transparência. A coerência, quando desponta, nada prova,
pois, na melhor das hipóteses, apresenta-se como um efeito retrospetivo bem
montado.
No fim, e em resumo, sobra isto: não pensamos a verdade para
melhor viver. Pensamos porque algo, em nós, vive em sobressalto. E talvez seja precisamente por essa
inquietação que ainda merece, seguramente, ser repensado.
segunda-feira, abril 20, 2026
A FENDA NO REAL
Importa, pois, reconhecer - aceitando - que não estamos
perante duas perspetivas sobre a mesma realidade. Estamos, antes, perante um
deslocamento da própria realidade, que sustenta a mesma estrutura sem coincidir
consigo mesma. Daqui surgem posições desencontradas, contradições lógicas e
práticas discordantes, que se tornam aberturas de sentido para múltiplas
interpretações.
Que referencial teórico poderá, então, servir de base para
compreender, explicar ou analisar um raciocínio capaz de nos conduzir a uma
conclusão? Provavelmente, não há acordo definitivo. O “eu-sujeito” não é uma
entidade fixa, racional e coerente, mas uma identidade fluida, moldada pelo
inconsciente, através da linguagem e condicionada pelo meio social. Assim
sendo, a “vulnerabilidade” não é apenas do sujeito, mas da própria realidade,
onde o erro, a imperfeição ou a falha não resultam apenas de incompetência, mas
de um real dividido em si mesmo.
Não há totalidades equilibradas e coerentes, dado que não
existe um critério último estável. Em síntese, diria que não há uma verdade
absoluta com solução-chave na mão. Nesse sentido, o desvio entre perspetivas
não decorre de uma falha, fraqueza, ignorância ou limitação individual, mas
sinaliza uma quebra de continuidade. A chamada paralaxe ontológica não diz
respeito à diferença entre dois níveis de realidade, mas a uma torção interna
da própria realidade. O problema não é apenas epistemológico; a dificuldade
incorpora-se, sim, no próprio ser.
sábado, abril 18, 2026
PENSAR, O MEU VÍCIO PROVEITOSO
A leitura dá-me a mão quando caminho acompanhado por um pensamento inquieto. O encontro completa-se ao percorrer caminhos desafiantes, sempre estimulantes. As ideias, continuamente fecundas, apresentam-se teimosamente inacabadas. O mundo real revela-se como uma curiosa ironia, feita de camadas ocultas, contradições e obscuridades. A esperança não se perde: permanece, aguardando novas interpretações e formas de compreender. Como o tempo e a realidade nos vão ensinando, o vício não precisa de conserto; deve ser entendido, antes, como um impulso que gera movimento, aprendizagem e transformação coerente. É por isso que vou persistindo…
domingo, abril 12, 2026
A DIFÍCIL ARTE DE CONVERSAR PENSANDO
Gosto imenso de conversar, de um conversar que se tornou difícil no nosso tempo, não porque faltem ideias e palavras, mas porque decresce o pensamento que nelas se envolvem. A trivialização comunicativa em que vivemos mostra-se sinal de entusiasmo, tornando-se frequentemente costumeira: fala-se para passar o tempo, não para o sentir de verdade e de consistente dedicação.
Pensar, conversando, não se realiza através de um ato meramente
insociável. Pensar, conversando, acontece onde a fala deixa de ser mera
transmissão e se torna incidente. É aí que a conversa consegue densidade, não
como uma mera soma de opiniões, mas como caminhada em que o sentido se imagina,
se desloca e, por vezes, se retrocede para poder surgir de uma forma diferente.
Mas este “entre” é hoje constantemente ameaçado. A tendência
dominante é a de dizer para afirmar, para classificar, para encerrar. As
palavras vitais deixam de abrir o mundo e assim se submetem ao sob domínio do refreamento.
Ajeitam a perceção, abalizam o admissível e fixam, tanto quanto possível, as
produtividades das verdades que dispensam a interrogação. Assim sendo, o
relevante já não é o que não podemos dizer, mas o que já não conseguimos dizer,
nem sequer necessidade de pensar.
Neste lente, todavia, limitante quadro, a conversa perde a
sua capacidade transformadora e, como tal, aproxima-se da dinâmica interna e
funcional da silenciosa reprodução: aplicam-se as mesmas receitas, repetem-se as
posturas, reforçam-se identidades. O outro incómodo deixa de ser um falante
para se tornar um atencioso acolhedor de confirmação ou de recusa. E, assim, o
diálogo cede ao alinhamento de retóricas que não se concordam verdadeiramente.
Escutar, então, adquire uma paciente dimensão ético-política.
Não se trata apenas de ouvir, mas de suspender a urgência da resposta, de
aceitar a opacidade do outro, de reconhecer que o sentido não está previamente
dado, mas se constrói, sempre falhando, na relação. Escutar, apenas nesse
sentido, é um abrir de espaço que não bate certo com o nosso próprio horizonte.
Conversar torna-se, assim, uma incómoda e exigente prática
de renovação. Não há entendimentos, nem harmonizações de opostos. Há apenas a frágil
possibilidade de deslocar o olhar, de descentrar o sujeito, de promover
aberturas naquilo que assumimos por evidente. Contra a tentação de uma
linguagem transparente e controlável, a conversa digna desse nome aceita a
imprecisão e o inacabado como condições possíveis do pensar.
Talvez por isso a boa conversa não exija apenas uma
competência, mas uma forma de resistência. Resistência à simplificação, à
aceleração, à captura do pensamento por discursos já feitos. Conversar é
sustentar um espaço onde o sentido não estando fechado, se torna ainda possível
pensar, não apesar do outro, mas com ele. E é neste “com ele”, sempre incerto e
exposto, que a maneira de falar deixa de ser apenas um meio e se torna,
verdadeiramente, um paciente espaço de “bricolagem”.
Sinceramente, reconheço a minha dificuldade e a minha
impaciência, bem como a falta de jeito e de preparação para tal. Todavia,
procuro ser simpático. Ainda assim, reconheço que dificilmente suporto os
“chicos-espertos”, que sabem agir de forma oportunista, desonesta ou arrogante,
julgando-se, com aparente entusiasmo, mais inteligentes do que os outros.
segunda-feira, abril 06, 2026
DELFIM, EXEMPLO DUMA VIDA SIMPLES
Há pessoas que passam pela vida de um modo simples e
despretensioso, mas deixam em nós uma marca profunda. O meu amigo DELFIM foi
uma dessas presenças raras.
Aos 70 anos, partiu - ele que tão bem soube viver com leveza
e dignidade. Foi um homem alegre, de sorriso fácil, mas também um companheiro
culto, atento ao mundo e às suas feridas. Nunca se acomodou à injustiça, à
hipocrisia ou à desigualdade. Combateu-as sempre com convicção, sem nunca
perder a delicadeza no trato com os outros.
Havia nele uma forma de resistência que não precisava de
agressividade: a clareza, a coerência e o respeito impunham a sua integridade e
davam ainda mais valor à sua simpatia. A sua humanidade, simples e verdadeira,
era reconhecida por todos. Era admirado porque nunca deixou de ser íntegro. E
era estimado porque, acima de tudo, sabia estar com os outros com uma presença
simples, humana e verdadeira.
Guardo em mim - e certamente tantos outros - o DELFIM como
um exemplo silencioso de como se pode ser justo sem deixar de ser amável, firme
sem deixar de ser delicado. Não o esquecerei, pois há amizades que se
transformam em memória viva, em exemplo e, sobretudo, numa presença interior
duradoura.
domingo, abril 05, 2026
77 ANOS CONTRA O TEMPO QUE PASSA
O nosso tempo não é apenas o que passa. É o que se torna
experiência vivida, onde se sente, se reconhece e se transforma, um tempo que
resiste ao imediato e faz da subjetividade um valor humano em permanente
cultivo, aceitação e devir.
É nesse tempo que nos fazemos, e nos tornamos capazes de nos reconhecer como humanos. Eis o meu grito, e o argumento que o sustenta.
sábado, abril 04, 2026
A EMBOSCADA DA LIBERDADE
A LIBERDADE tornou-se a palavra mais circulante da nossa época. Não nos liberta, agimos, sim, dentro dela. Tornou-se ideia central e comum da vida social. A sua gramática implícita faz-nos livres e, sem darmos por isso, adaptamo-nos.
A LIBERDADE deixou, assim, de ser problema. Tornou-se uma
evidência dirigida. Evita conflitos, neutralizando-os. Tudo desliza numa
superfície polída onde tudo pode circular, desde que nada se torne infiel.
Nesta conformidade, o submisso não é reprimido: é posto em movimento.
Oferecem-lhe escolha, pedem-lhe que cuide de si, que se
reinvente continuamente. Não há exterior, nem desculpas, muito menos evasivas.
O sujeito torna-se, então, o único responsável por dar forma a uma vida
previamente formatada. A liberdade adere a uma agenda que se oculta como tal e,
por isso, em silêncio, nos atraiçoa.
Move-nos a sermos “nós próprios”, ao mesmo tempo que
dissolve as condições de possibilidade dessa verdade. O que em nós é opaco,
contraditório, não rentável, é lentamente silenciado. A verdade torna-se,
assim, inviável num mundo onde tudo deve ser comunicável, partilhável,
convertível em valor.
O homem livre é, hoje, aquele que melhor se acomoda a este
regime de circulação. Aquele que se reconfigura no movimento contínuo de
competências, afetos e imagens. Não há interioridade que não se exponha. Não há
experiência que não ambicione reconhecimento. A liberdade acalma-se na
normalização.
E quanto mais nos movemos dentro dela, mais nos afastamos de
qualquer fundamento que não seja imediatamente funcional. A nossa verdade
torna-se, progressivamente, um resto, um ruído que escapa ao encadeamento. O
sistema agradece essa útil irrelevância.
A traição do nosso tempo não nega a verdade, gere a sua
dissolução. Não pelo interdito, mas pela exaustão; não pelo silêncio imposto,
mas pela presença intrusiva de uma voz onde tudo se diz para que nada se
sustente. A voz da LIBERDADE não nos cala: fala por nós.
Antecipadamente. Permanentemente.
E é por isso que resistir se torna quase impercetível. Já
não se trata de romper cadeias visíveis, mas de interromper a fluidez que nos
atravessa. De recusar uma evidência que se apresenta como natural. De
sustentar, contra a corrente, aquilo que em nós não se adapta. Talvez a verdade
comece aí, não como expressão, mas como obstáculo. Atenta a uma cultura de
mercado que vive da LIBERDADE, torturando-a.
terça-feira, março 31, 2026
REVIVER A MORTE
Há escritos que não orientam nem testemunham; apenas abrem espaço. São gestos sensoriais onde o pensamento se torna silêncio atento.
A “supraconsciência” não se impõe como verdade, mas como
possibilidade de sentir. “Reviver a morte” não é antecipá-la, mas deslocá-la: da
exterioridade do fim para a interioridade da vida.
A morte não se dá como experiência; permanece velada. É
nesse véu que a palavra ganha força - e quase se deixa acreditar. Toda a imagem
tende a consolidar-se como verdade. É aí que a crítica deve intervir: não para
negar, mas para embaraçar o refúgio.
Entre o sentir e o crer, importa manter a distância. Não há
verdade sobre a morte, apenas modos de a habitar. Não já como interrupção, mas
como deslocação: uma densidade que intensifica a vida. Reviver a morte não é
vencê-la nem a negar. É deixá-la permanecer como interrogação.
sábado, março 28, 2026
PENSAR CRITICAMENTE, EIS UMA CONDIÇÃO DO HUMANO
A CRÍTICA mostra-nos como pensamos. Não se trata de um
“saber-fazer” vantajoso, mergulhado numa esperteza enraizada. A CRÍTICA não
dispensa o conhecimento, a realidade e o poder; antes os convoca,
interrogando-os nas suas raízes, muitas vezes desprovidas de fundamento e
comprovação. Implica, assim, uma atitude de envolvimento mais exigente, capaz
de conferir, analisar e agir de forma consistente.
A CRÍTICA é um exercício ativo, uma ação que se opõe à
passividade ou a movimentos que não têm origem na vontade ou na força do
sujeito. Exige, com frequência, uma transformação do próprio pensamento,
alterando a forma de dar sentido à vida, a si mesmo, bem como de estruturar
referências e orientações. Trata-se de uma mudança que impulsiona mediações,
abrindo caminho a possíveis reconfigurações e renovações do pensar.
Importa reconhecer que a DIMENSÃO CRÍTICA ganha relevância
ao tornar-se decisiva na integridade do conjunto. Não se procuram opiniões
secundárias ou decorativas, mas elementos essenciais para a formação,
compreensão e retificação do saber. Trata-se de um processo contínuo, que deve
ser reconhecido como uma condição constitutiva do humano.
A CRÍTICA não se reduz ao confronto de opiniões - diferentes
pontos de vista, ideias ou argumentos - nem se esgota na sua troca. Ela
revela-se também na produção de inteligibilidade, isto é, em processos
intelectuais e interpretativos, tanto por parte de quem produz um texto, uma
teoria ou um conhecimento, quanto por parte de quem os interpreta.
A CRÍTICA decorre de um modo de pensar a permanente produção de sentidos, bem como da análise e desconstrução que atravessam o viver. Defende-se, assim, a integração do PENSAMENTO CRÍTICO como uma postura proativa e constante - contínua e vigilante - e não como um entendimento transitório ou meramente conclusivo. Pensar não basta, a EXIGÊNCIA DA CRÍTICA ajuda. Sejamos, então, uns pacientes teimosos nesta vital condição do humano.
segunda-feira, março 23, 2026
O EU NA ERA DOS ALGORITMOS
O capitalismo digital não é mais do que uma fase atual do seu
amplo sistema. Caracteriza-se pela centralidade de dados, plataformas digitais
e algoritmos na sua organização sistémica, abraçando produção, distribuição e
consumo. É por aqui que passa a mundialização do capital, onde a produção e as
finanças operam em escala global, precarizando relações de trabalho e
flexibilizando mercados.
A "dissolução do eu" (ou do ego) é um conceito
complexo, frequentemente discutido a partir de diversos pontos de vista, que revela
a perda ou o enfraquecimento temporário das fronteiras da identidade pessoal. Mas
o mais curioso - talvez o mais irónico - é que essa dissolução não chega como
experiência libertadora, mas, sim, como uma lamentável rotina banalizada.
O eu assim se desintegra, por exaustão, por dissipação ou por
quebras sucessivas. Não desaparece, é certo. Todavia multiplica-se em perfis,
opiniões rápidas, estados transitórios e identidades de ocasião. Cada gesto
digital promete expressão, mas entrega dispersão; cada afirmação gera um
atenuar do conteúdo. Assim se vive numa estranha e permanente oscilação entre a
exibição e o afastamento, em prejuízo de uma presença consistente.
A adaptação vai-se tornando conformação. O sujeito habitua-se
a viver amortecido, a reconhecer-se na corrente dominante, a aceitar a variabilidade
como reconfiguração de identidade. Já não se interroga “quem sou?”, mas “como
devo aparecer?”. Todavia, é nesta inquietude que as próprias condições dos atos
e da realidade interrogam, ainda que timidamente, sobre aquilo que se perdeu, ou
sobre aquilo que, afinal, nunca chegou verdadeiramente a possuir. A possibilidade
de um outro modo de existir vai, certamente, escorregando por aqui.
quinta-feira, março 19, 2026
O FUTEBOL SEM BOLA
Aturar o futebol escutando a palavra analítica e crítica,
marcada pelo clubismo, é entrar - quase sem dar por isso - num idiota relvado
de emoções intensas onde, paradoxalmente, a bola se oculta.
A indignação gira sobre si mesma, num rodopio contínuo,
mergulhando numa atenção subterrânea que pouco ilumina. Os estímulos,
impulsivos e azedados, propagam-se rapidamente, encontrando sempre uma
justificação para a sua própria amargura.
Os impactos emocionais, invariavelmente apressados, recusam
pensar - e, mais ainda, considerar. O conflito atrai mais audiência do que o
juízo ponderado: insinua contradições, alimenta disputas apaixonadas e,
sobretudo, produz visibilidade mediática, sempre bem acolhida.
A arena do debate mascara-se, assim, numa esfera emocional
altamente excitada, onde se fabrica um ambiente psicológico coletivo saturado
de nervosismo refinado, intensidade e reatividade. É nesse terreno que
prosperam emoções indomáveis, geradoras de ambientes vivos, inquietos e, por
vezes, de atritos tidos como necessários.
Trata-se, no fundo, de uma verdadeira disputa desportiva das emoções. Ou talvez - de forma mais rigorosa - de uma autêntica economia política das emoções, onde estas são produzidas, geridas e instrumentalizadas pelas dinâmicas de poder que atravessam o universo clubista.
domingo, março 15, 2026
SERÁ QUE PENSAMOS ATRAVÉS DE UMA SUBJETIVIDADE COLONIZADA?
O modernismo fez-nos admitir que o homem poder-se-ia tornar dono do seu próprio destino. Desde a era da razão, ela se foi supondo como um rumo de autonomia e a liberdade como possibilidade de orientar a vida com plena consciência e conhecimento de causa. Contudo, a história veio revelando uma oposição desconcertante: quanto mais o homem se afirmou livre, mais complexas e invisíveis se tornaram as forças que foram surgindo na configuração da sua própria subjetividade.
A crítica marxiana veio evidenciar que a consciência não
nasce num vazio. As relações económicas e sociais estruturam o ambiente dentro
do qual os indivíduos pensam, desejam e interpretam o horizonte. Aquilo que
parece ser uma opção pessoal pode muitas vezes ser expressão de uma lógica que transpõe
o próprio sujeito.
Por sua vez, a descoberta freudiana do inconsciente abriu
uma outra ranhura na imagem convencional da autonomia. O sujeito não bate certo
consigo mesmo. A convicção convive com forças motivacionais que desviam a sua
transparência, tornando o pensamento uma atividade constante de apreciação.
É neste entrelaçamento entre economia, linguagem e desejo
que a reflexão de Habermas alcança particular evidência. Ao analisar as
sociedades contemporâneas, ele descreve uma tensão crescente entre o mundo vivido,
onde se formam as identidades, as relações e os sentidos partilhados, assim
como as grandes cadeias que organizam a modernidade, como o mercado, as suas
lideranças e comandos. Todavia, esses sistemas vão ultrapassando a sua função e
invadindo os âmbitos da vida quotidiana, começando a subjetividade a formar-se
sob a pressão de lógicas que nos são alheias.
Pensar hoje a condição humana talvez implique reconhecer
precisamente este foco de conflito. O sujeito contemporâneo não vive fora das
estruturas que o acomodam, nascendo já por elas atravessado. Todavia, embora pareça
antagónico, é nesse interior que o pensamento pode reabrir o seu espaço para a
crítica. Pensar através da subjetividade colonizada significa, então, procurar a
clareza de raciocínio, bom senso, inteligência e sanidade mental. Ou seja,
concebendo uma real lucidez dentro das próprias condições que levemente limitam
a coragem da nossa liberdade.
Pensar, reconhecendo a confirmada subjetividade colonizada,
é identificar que a liberdade não é um domínio garantido, pois nos provoca - e
convoca - uma coragem crítica que deve exercer a sua consciência dentro das
próprias fronteiras que nos propõem e neles nos procuram alinhar. A verdade, a
justiça e as normas sociais podem e devem ser discutidas, combatendo a lógica
do dinheiro, da eficiência e do poder que a abraça e aconchega. Se assim é, por
aqui passa uma tensão estrutural de referenciais e não só…
quarta-feira, março 11, 2026
DAÍ, UMA SUBJETIVIDADE INVADIDA
Nunca se falou tanto de liberdade individual como no nosso tempo. Mas nunca também o desejo humano foi tão intensamente estimulado, orientado e explorado. Entre o inconsciente e os dispositivos culturais do mercado, a subjetividade contemporânea move-se num campo onde a autonomia proclamada convive com formas subtis de captura.
Durante muito tempo acreditou-se que a realidade interior do
homem era relativamente estável: um ponto central da consciência capaz de se
situar no mundo através da razão, da vontade e da experiência. A modernidade
construiu grande parte do seu imaginário sobre essa noção de indivíduo
autónomo, senhor de si e das suas escolhas.
Contudo, ao longo do século XX, essa imagem começou a ser
profundamente fragilizada. A descoberta freudiana do inconsciente veio mostrar
que o sujeito não coincide consigo próprio. Aquilo que pensamos ser palavra “nossa”
é frequentemente atravessada por desejos, fantasias e conflitos que escapam ao
domínio da razão. O sujeito sente-se então habitado por forças que o excedem.
Mais tarde, Lacan aprofundou esse juízo ao afirmar que o
inconsciente não é apenas uma parte obscura do foro íntimo. Ele é estruturado
pela linguagem e pelo campo simbólico da cultura, dado que o desejo humano se
forma dentro de contextualizações que se antecipam ao indivíduo. Antes de
falarmos, já fomos - e continuamos a ser - rodeados por um mundo de palavras,
imagens e projeções.
A crítica social abre então um novo horizonte de
compreensão. Com o marxismo surge a ideia de que o capitalismo não produz
apenas bens destinados à venda; produz também maneiras de viver, formas de
perceção e sensibilidades coletivas. A economia, longe de ser apenas um
mecanismo de troca, torna-se também experiência e história de vida.
Nesta cultura contemporânea, marcada pela expansão do
consumo, essa dimensão torna-se particularmente evidente. O capitalismo atual
não se limita a satisfazer necessidades: vive da produção contínua de novos
desejos. A publicidade, os media e as redes simbólicas do mercado
converteram-se num vasto maquinário de estímulo e orientação do desejo humano.
O sujeito contemporâneo encontra-se assim mergulhado num
ambiente onde a identidade parece depender cada vez mais da capacidade de
escolher, adquirir e exibir objetos e estilos de vida. Consumir deixa de ser
apenas um ato económico; torna-se também um gesto simbólico através do qual o
indivíduo procura mostrar quem é.
Neste contexto, a vitalidade do inconsciente, enquanto
inquietação incessante do desejo humano, encontra um campo particularmente
fértil. A cultura do consumo aprende a falar a língua paradoxal do desejo
inconsciente. Promete satisfação, oferece objetos como sinais de realização e
desloca continuamente o auge da existência. Cada compra anuncia completar algo
que permanece, contudo, estruturalmente incompleto.
O resultado é um movimento contínuo: o desejo encontra um
objeto, esgota-o rapidamente e reabre-se para novas expectativas. O sujeito é
assim mantido num circuito de expectativas e insatisfações, numa economia
simbólica que transforma o desejo em energia social e económica.
Mas a formação da subjetividade não se limita ao plano
individual. Como sublinha Burity, os sujeitos também se constituem através de
processos de identificação coletiva. Discursos políticos, narrativas culturais
e imaginários sociais oferecem posições a partir das quais os indivíduos podem
reconhecer-se e agir.
Assim, a subjetividade contemporânea forma-se numa rede de
intersecção de múltiplos processos: estruturas psíquicas, mediações culturais,
relações económicas e figuras de identificação coletiva. O sujeito não é um
ponto fixo, mas um lugar de passagem onde se cruzam desejos, linguagens e
grupos de interesse.
Talvez por isso a experiência do presente seja
frequentemente marcada por uma sensação desconcertante. Nunca tivemos tantas
possibilidades de escolha e tantas promessas de realização. E, no entanto, o
sentimento de falha persiste, como se algo essencial escapasse à lógica do
benefício prometido.
Nesse entremeio entre o desejo e a garantia da sua
realização, entre a singularidade do humano e as formas sociais que a moldam,
desenha-se o drama silencioso da subjetividade contemporânea: uma condição em
que o inconsciente continua a mover-se, inquieto e dinâmico, no interior de uma
cultura que aprendeu a converter o desejo humano num dos seus principais
motores.
Assim, no coração da cultura contemporânea, o desejo humano continua a mover-se inquieto, enquanto o capitalismo aprende a transformar essa inquietação numa das suas forças mais produtivas.
domingo, março 08, 2026
NOS SUBTERRÂNEOS DA CONSCIÊNCIA
A PROPÓSITO DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Todavia, essa evidência é apenas relativa, pois o mundo
representado não constitui, em absoluto, a essência última da realidade humana.
Sob a ordem da representação atua sempre a vontade, uma influência oculta,
anterior ao pensamento, que perfura o sujeito sem se deixar demarcar por
conceitos.
A relevância do inconsciente aprofunda esta intuição. A vida
psíquica não se organiza apenas na lucidez do pensamento; é atravessada por
desejos, pulsões e formações simbólicas que escapam ao seu domínio. A
identidade consciente mostra-se, assim, menos livre do que supõe.
António de Lobo Antunes leva esta perspetiva ainda mais
longe ao evidenciar que o próprio sujeito falante é efeito da linguagem e das
estruturas simbólicas que o precedem. O “eu” não é origem, mas antes um
resultado exposto a processos que o excedem.
É neste horizonte que António Lobo Antunes se tornou
particularmente significativo. A sua entrevista, ontem recordada, com clareza ele
bem soube troçar da linearidade tranquila da representação, divertindo-se com
as fissuras da identidade demasiado alinhada. As suas palavras pareciam emergir
dos subsolos da memória e do desejo, como se a linguagem tentasse dar forma a
esse fundo obscuro onde a consciência não detém domínio absoluto.
A sua literatura tornou-se, assim, um lugar de revelação:
não da ordem tranquila da razão, mas da inquietante profundidade onde vontade,
memória e inconsciente continuam a produzir aquilo a que chamamos pessoa, um humano de valor intrínseco.
terça-feira, março 03, 2026
ABRIR FENDAS NO EVIDENTE
Ao longo da vida sempre fomos aprendendo muita coisa. Aprendemos a responder ao mundo, pese embora não nos tenham ensinado a meditar o pensamento, a viver a pergunta e a cultivar a inquietação sem apressar a impulsividade da conclusão.
Não sou filósofo, mas sempre tive a filosofia, essa singular
filosofia como forma de vida. A exibição de argumentos nunca me seduziu, pese
embora tenha valorizado a minha atenção. Para me interrogar e para compreender
como as minhas certezas se foram moldando. Para distinguir o que decido do que,
por conveniência, apenas repito, reproduzindo.
O que acabo de dizer não é uma opinião óbvia, nem tão pouco
um conflito retórico. Não procuro superar argumentos, mas, sim, compreender o
modo como penso. Pensar é algo que me responsabiliza, compromete e me pode modificar.
E talvez seja isso que importa, em suma, abrir pequenas fendas naquilo que
tomávamos por evidente.
Vive-se um tempo que nos chama permanentemente à reação, à
posição imediata, à identidade afirmada. Por isso, o automatismo me aborrece. A
filosofia, como forma de vida, não me promete alternativas, todavia, convoca-me
a um exercício contínuo de atenção. Ao que pensamos, ao que dizemos e a uma atenção
criteriosa ao modo como habitamos o mundo.
A liberdade não é um ponto de partida garantido, mas um criterioso
trabalho paciente. A responsabilidade não é um peso exterior, mas uma formação
interior. A maturidade não é conclusão, mas condição de aperfeiçoamento. Neste
contexto, não se procura ensinar filosofia, mas sim propor praticá-la. Quiçá, favorecendo
criar um espaço onde o pensamento deixe de ser um confuso ruído e se torne, se
possível, uma salutar e viva presença.
PARA ALÉM DO AMUO
A emoção nasce como ocorrência. Um sobressalto basta.
Precede a razão e instala-se antes que o pensamento a concilie. Diz-se
imediatamente: “estou desapontado”, e nesse gesto algo se fixa. O que poderia
ser apenas um momento passageiro torna-se questão. O que era inoportuno caso torna-se
identidade súbita.
O homem não é, sabe-se, senhor absoluto do que julga sentir.
Muitas vezes, a emoção emerge como efeito de identificações que atuam à margem
da consciência. Não é apenas afeto, torna-se apreensão. A emoção deixa de ser
uma circunstância e transforma-se num compasso envolvente. O sujeito passa a
habitar aquilo que o perturbou.
A irritação, ou o abalo, incentiva uma consistência
inesperada ao eu. Conferem-lhe intensidade, quase alma. Produz uma forma
paradoxal de gozo, desse conforto extraído da própria insistência do mal-estar.
Sofre-se, mas nessa desolação encontra-se uma autoafirmação. A racionalização
apressada, longe de esclarecer, apenas organiza o desconforto de modo a
torná-lo aproveitável.
Vive-se aí um tempo em que a emoção rapidamente se converte
em indício identitário. Deixa de ser uma experiência passageira, tornando-se um
indicador de pertença. A discórdia, a suscetibilidade ou a indignação deixam de
ser instantes e vestem-se de interpretações. A espontaneidade torna-se suspeita,
a ambiguidade intolerável e a hesitação quase culpável. Aprende-se que existir
é arriscar-se.
O “estou desapontado” já não exprime apenas um momento interior: inscreve o sujeito numa onda afetiva que foge à regra. A emoção ganha uma outra relevância notória. E, ao ganhar posição, favorece a equívoca continuidade ao eu. Ganha-se campo, sim, mas definha-se a profundidade. A identidade não precisa de estacionar em cada estado de alma. O sujeito é bem mais do que o instante em que se ofende. A liberdade - essa palavra tão invocada - só se torna valiosa quando se aprende a distinguir a emoção que nos atravessa e o rumo que escolhemos e queremos seguir.
sábado, fevereiro 28, 2026
POR AQUI, SIM, VOU CAMINHANDO
Começo por dizer que conversas que repetem palavras vazias, repetitivas ou mesmo inconsequentes, provocam-me perda de vitalidade. Busco e exploro impulsos que me entusiasmem através de horizontes criativos, que me levem a desviar da entidade consolidada. Nesse caminho definido, fui reconhecendo os significantes que me resguardam, procurando o possível intervalo que separa a submissão da minha incerta e oculta motivação ao afastar-se das raízes fundas do meu querer.
Daí fui-me, e vou-me convencendo, de que a suposta superioridade
da nossa racionalidade se mostra inábil em antepor-se ao andamento do
inconsciente, aos seus impulsos ou instintos. Interrogo-me, então: serão estes
juízos precisos e verdadeiramente informantes? Ou advirão eles de uma estrutura
simbólica que procura dar sentido à realidade, idealizar o pensamento e, como
consequência, orientar o comportamento social?
Por este caminho serpenteante vou seguindo, ainda assim bem atento
aos seus abundantes e engenhosos percalços...
domingo, fevereiro 22, 2026
ENTRE A REGRA E O PENSAMENTO
A educação caminha, e demasiado, para a conformidade, não para a autonomia. Ensinam-se regras, aferem-se desempenhos e estimula-se a concorrência, mas raramente se estimula a atitude de pensar. O saber fragmenta-se em disciplinas separadas e dilui-se em mediações superficiais. A inquietação, o propósito e o reconhecimento dos próprios limites tornam-se desacreditados.
Assim, a pessoa aprende a existir de forma controlada,
segundo os preceitos vigentes. Adota estereótipos, mas não exercita a
liberdade. Assimila identificações, aprende a ganhar, mas pouco aprende a
compreender. Daí que a educação crítica deslize, não por falta de informação,
mas por falta de atenção ao movimento interno, à contradição e à experiência do
encontro com a diferença.
A liberdade não se ensina com regras. Aprende-se abrindo-se
ao novo, ao incerto e à possibilidade da aprendizagem contínua. Aprende-se com
a capacidade de permitir a mudança, desapegar-se de certezas absolutas e fluir
com as circunstâncias da vida. Aprende-se também com a coragem de não se fixar
e com a disposição de escutar sem medo, valorizando o outro na vida em comum,
sem dependência nem imposição. A liberdade, a nossa liberdade, torna-se, assim,
também, um exigente e difícil problema.
sábado, fevereiro 21, 2026
NÃO ME PROCURO, SINTO-ME EM MOVIMENTO
Vivo um tempo em que a identidade, quando absolutizada, empobrece o meu abraço humano. A maturidade foi-me ensinando a viver sem me simplificar comodamente, sobretudo a não me acomodar no almofadado leviano das cogitações triviais. Sinto-me, assim, mais “eu” e, sobretudo, mais próximo do “outro”. Ou seja, o meu “eu”, ao libertar-se, continua a abrir espaço ao pensamento e ao encontro com o “outro”. Não me sinto gasto; sinto-me, antes, animado pelo entusiasmo do contrário. Libertar-me não é fixar-me nem me perder, mas encaminhar-me na verdade que me aproxima do outro, do humano e da vida.
quarta-feira, fevereiro 18, 2026
NEM SEMPRE NOS CONHECEMOS
Vivemos um tempo em que ninguém suporta a ideia de não saber
quem é. A hesitação passou a desconfiança, a fraqueza, quase defeito de natureza.
O essencial tornou-se simples, revelando-se, situando-se e assumindo-se. Tornando-se
evidente. Fomos aceitando, assim, que o eu é um apego de resguardo, um teatro
de imagens aceitáveis, íntegras e irrefutáveis. No íntimo, um espelho que não
falha. Obedientes, confiamos nele como se a nitidez fosse verdade e não apenas
acerto.
A incerteza, com certeza, não é ausência de identidade. O contratempo
nasce quando a identidade se impõe como analgia. Quanto mais intransigente a
perceção de si, mais inquieta a afinidade. Quanto mais decisivo o “eu sou”, no
interior mais profundo entoa o “e se eu não for?”. A comunidade protege, já que
cada um deve conduzir-se como reconhecimento. A coerência vende, a vacilação
não tem mercado. Em tempos líquidos, como diria Zygmunt Bauman, a tentação é fortalecer-se
sem demora, erigindo algo pessoal contra a instabilidade que nos acompanha.
Mas quando a identidade se endurece em robustez, o desassossego já está à porta. Abraçar papéis sociais é cómodo, a função pensa por nós e o posto responde antes da indagação. O lugar protege-nos da contrariedade que nos habita. Talvez a agitação não seja crise de identidade. Talvez seja apenas a incapacidade de tolerar a limitação. A identidade rígida não é força, torna-se defesa. E a defesa, quando perfeita demais, apenas encobre o medo que insiste em não se deixar anunciar. Ser-se humano não é fácil, requer, por isso, não ter medo de ser atrevido...
domingo, fevereiro 15, 2026
ROGÉRIO, HOJE É O TEU DIA
Celebrar o teu aniversário não é apenas um gesto nostálgico, é para todo o sempre um momento que nos obriga a pensar. O teu tempo vivo permanece pela grandeza simbólica que deixaste nesta nossa continuidade. Partiste, mas a tua presença perdura. Foste um amigo, um homem público, exposto ao convívio e à divergência. Sobretudo, foste alguém que viveu o espaço público como um lugar de responsabilidade, onde a palavra pesava e a integridade se afirmava na oratória. Envio-te hoje os meus parabéns não por aquilo que foste, mas pelo que continuas a viver em nós. O teu ser permanece estimado, o teu pensar penetrante e espirituoso, o teu agir estimado pela sua inteireza, nunca traindo o essencial. Daqui te envio o meu abraço, que atravessando e vivendo esse tempo, sinto nele, e hoje, que bem me permanece.
terça-feira, fevereiro 10, 2026
OU SE CAMINHA, OU SE MANCA
A liberdade tornou-se uma palavra sem norte: um “vai-e-vem” que pouco ou nada cuida. É invocada como passaporte para a irresponsabilidade, para a indiferença social, para a boçalidade orgulhosa e, não raras vezes, para a parvoíce exibida como autenticidade. Com destreza, manifesta-se a “liberdade” num singular conforto que se afasta de qualquer ideia de compromisso.
Deste uso e costume nasce um deus-dará politicamente
eficiente. A liberdade é deslocada para o terreno do acolhimento conveniente:
dispensa definições, desconfia da consistência e recusa a ordenação das ideias.
O mundo torna-se um espaço de opiniões soltas, indignações descontínuas e
certezas instantâneas. Pergunta-se, então, como viver sem tropeçar num tempo
que já não garante nem consistência moral nem memória crítica.
Dito de um lugar hoje bem pouco valorizado - e, por isso
mesmo, mais ou menos suspeito -, a liberdade dá trabalho. Não é um atributo
identitário para exibir nas redes, nem um direito abstrato para brandir contra
tudo e contra todos. É uma prática exigente, feita de atenção, disciplina e
transformação de si. Exatamente o oposto da cultura da reação imediata, do
mérito autopromovido e da convicção ruidosa que obstaculiza o pensamento.
O tempo de hoje inventa representações contraditórias da
liberdade. Uns desarrumam-na no vazio total de limites e descobrem, tarde
demais, que uma vida sem limites é uma vida sem normas comuns e, como tal, um
terreno fértil para a lei do mais forte. Outros submetem-na às normas de um
purismo moral e de sentinela permanente, convertendo a liberdade numa
obediência ajustada, vista como bem-intencionada e socialmente admitida. Em
ambos os casos, a liberdade esbate-se: ora capturada pelo “mercado do eu”, ora
pelo “moralismo do nós”.
Entre o impulso justificado e a norma consagrada, resiste
uma ideia pouco popular e politicamente incómoda: a liberdade não justifica,
não desobriga, não protege. Expõe. Impõe a resposta pelo que se faz, pelo que
se diz e pelo que se decide calar. Não é defesa nem desculpa, mas critério.
Talvez por isso seja tão prestigiada no discurso público e tão raramente
assumida na vida quotidiana.
Pensar a liberdade hoje exige menos entusiasmo retórico e
mais claridade crítica. Menos palavras de ordem, menos ofensa travestida de
direito, menos virtude convertida em representação pública. Exige mais
responsabilidade social, mais densidade cultural, mais consciência do lugar que
se ocupa e dos efeitos que se produzem. A liberdade não absolve, não desobriga,
não defende. Exige. Por isso, com a liberdade não se transige: ou se caminha,
ou se manca.
domingo, fevereiro 08, 2026
ONDE ESTÁ A “CIGANICE”, AFINAL?
A xenofobia preconceituosa anda cansada. Muito cansada.
Sofre, suspira, diz-se esgotada por este tempo moderno que insiste em ser
povoado. Há gente a mais, vida a mais, ruído a mais. Pessoas fora do sítio,
fora do tom e, sobretudo, fora do delicado acordo tácito que define quem pode
existir sem incomodar. Respira-se mal, não por falta de ar, mas por excesso de
gente errada.
Há demasiada gente a passear, não a trabalhar, como se o
mundo não fosse um estaleiro moral permanente. Demasiadas vozes sem licença,
hábitos sem manual, presenças que se recusam a aprender a virtude fundamental
da urbanidade: desaparecer. O incómodo torna-se, então, a prova suprema de
sanidade. Quem não se irrita é suspeito. Quem não se indigna, cúmplice. Quem
não se queixa é, claramente, parte do problema.
O discurso fascistoide domina esta arte com notável
eficácia. Escolhe um alvo socialmente desprotegido, cola-lhe todos os rótulos
disponíveis - preguiça, perigo, parasitismo, desordem - e apresenta-se, com ar
grave e voz de locutor responsável, como fiscal da ordem. Uma ordem curiosa,
diga-se: aquela que permite insultar e provocar sem consequências e exige
silêncio absoluto de quem ousa responder. Ordem simples, acessível a todos:
falar alto, apontar o dedo com convicção e chamar coragem à falta de vergonha.
Não se trata, convenhamos, de resolver conflitos sociais.
Isso daria trabalho, exigiria pensamento e algum risco ético. Trata-se, antes,
de os explorar, de os encenar e, sobretudo, de os tornar produtivos. Não se
procura convivência, fabrica-se resignação. Não se quer justiça, administra-se
submissão. E, se possível, votos suficientes para continuar a chamar democracia
a este exercício de intimidação coletiva.
Os votos vão-se apresentando. São 15 horas. Faltam algumas horas, aguardo. Não posso aceitar que esteja enganado. Esta versão irónica e corrosiva não é mais do que uma ilustração que apela à compreensão humana e que, neste momento eleitoral, constitui um valor, entre muitos, que a democracia deve reconhecer e com o qual se deve comprometer e solucionar. Assim, espero confiante.
terça-feira, fevereiro 03, 2026
SUBJETIVIDADE EM DISPUTA
Nenhum de nós vive como sujeito fora de um cenário relacional. Pensar o indivíduo como um ser isolado, voltado para si mesmo e anterior às suas relações é uma invencionice ociosa e, porventura, politicamente aproveitável. O sujeito não antecede o fraseado da certeza: é, passo a passo, ajustado por ele, estrutura-se através dele e sob as suas interrogações, num andamento em que pensar, desejar e aderir se tornam inseparáveis.
O pensamento, a razão, a memória e a imaginação, quando
concebidos como uma rede fechada e independente, tornam-se facilmente
vulneráveis ao confinamento. Os preceitos convencionais apresentam-se como
justos, habilitados ou mesmo indispensáveis, hoje exacerbados por regras de
maneio, índices de eficiência, engenhos publicitados e ficções de segurança. O
que se diz, a forma como se diz e quem pode dizê-lo preparam silenciosamente o
horizonte do possível, partindo de mediações já decididas, naturalizadas e, como
tal, estimuladas.
Daí que a controvérsia política, hoje tão presente, não se
mova apenas entre ideias diferentes, mas também na própria formação dos
sujeitos capazes de as defender e de as encorajar. Gerir, controlar ou regular
normas, regras e convenções implica delinear perspetivas aceitáveis de existir,
onde certas formas de pensar, sentir e desejar se tornam admissíveis, enquanto
outras se tornam inexprimíveis. Convém relembrar que a subjetividade, longe de
ser um dado natural ou uma esfera privada intocável, é o efeito - sempre
instável - de forças, interesses e poderes em ação.
É neste ponto que a palavra política do tempo presente exibe
a sua esperteza. Não atua apenas no campo do argumento, mas na melodia dos
afetos, na agitação do medo, da ansiedade, do ressentimento e do desejo de
pertença. A influência deixa de ser aberta para se tornar uma ação de indução,
de normalização e de desgaste simbólico. O sujeito não é, deste modo, apenas
assediado, mas também orientado, disciplinado e, muitas vezes, exausto.
A palavra política, mais do que nunca, move-se como
instrumento de ocupação do espaço simbólico. Não se dispõe a competir: procura,
antes, anular, desacreditar e dominar quem lhe resiste. O cenário do tempo
atual vai assim incentivando um espetáculo burlesco e ruidoso, eficaz
precisamente na sua obscenidade, onde a ausência de pudor, de sentido moral e
de dignidade deixa de ser um mero desvio ocasional para se tornar um método
contínuo de exercício do poder.
domingo, fevereiro 01, 2026
O EU QUE SE PERFAZ NO COMUM
Julgo ser hoje bem importante relembrar que a diferenciação
não é um procedimento isolado do convívio social nem uma conduta de rutura
total com o todo. É, antes, um progresso exigente e inacabado, no qual o “eu”
se diferencia no interior de um “nós” que o antecede e o conforma. O humano não
se evolui contra o comum, mas a partir dele, individualizando-se e
diferenciando-se, sem jamais se libertar por completo da estrutura social,
simbólica e afetiva que o constitui. Entre o “eu” e o “nós” instala-se, assim,
uma relação peculiar: a da dependência que torna possível a diferença. Já o
“eles” assinala o limite, o exterior, o campo da alteridade através do qual o
“nós” se reconhece e o “eu” se situa.
Esse processo de diferenciação e desenvolvimento é
inseparável da transformação. Não há identidade que não seja atravessada pelo
tempo, pelo conflito e pela experiência. Individualizar-se é transformar-se, e
transformar-se é aceitar que a singularidade não é um dado estático, mas um
processo, um devir. O sujeito é um ser que vai sendo na interposição contínua
com os outros, com as normas, com os afetos e com as ruturas que o
desestabilizam e, paradoxalmente, o reconfiguram.
Nesse percurso, a performatividade desempenha um papel
decisivo. O “eu” não se limita a ser: vai-se realizando, afirmando e
representando socialmente. A identidade é também atuação, momento, exposição,
repetição e distanciamento. Contudo, essa relação com a ação não é arbitrária;
realiza-se num campo em que a racionalidade orienta, condiciona e, por vezes,
delimita. Singularizar-se é sempre agir num espaço de possibilidades
historicamente estruturado, onde a liberdade se exerce de forma concreta e
nunca absoluta.
Terminando, acrescento que a relação entre o “eu” e os coletivos suscita frequentemente a inexatidão da pertença. O “nós” oferece reconhecimento, sentido e abrigo simbólico, mas pode também exigir conformidade e silenciar a diferença. Pertencer é, simultaneamente, ganhar lugar e perder margem. A individuação plena não passa pela recusa dos grupos, mas pela capacidade crítica de habitar o “nós” sem nele se dissolver, mantendo viva a tensão entre o singular e o comum, entre a identidade e a abertura ao outro. Importa, pois, aprender a individuar-se sem romper o todo do “eu, nós e o devir”. Eis, assim, o meu olhar sobre o tempo que nos acompanha.
segunda-feira, janeiro 26, 2026
A TRIBO, O TRIBUNAL E A PERDA DO COMUM
O tempo político vem-se consumindo na agitação entre tribos e moralismos. De um lado, uma oratória identitária que faz do medo, do ressentimento e da exclusão um sentimento de pertença. Do outro, um discurso de reparo que, em nome de valores comuns, cede do confronto político e se resguarda na acusação dos princípios. Entre estes dois opostos, o espaço do comum vai-se debilitando, cedendo lugar ao controlo simbólico da culpa, enquanto a divergência é arrastada para o campo das fraquezas éticas. O problema não reside na pluralidade de valores em si mesma, mas na inépcia de os tornar politicamente claros e discutíveis. É aí que o confronto se agita e é aí, também, que se proporciona o corte e a exclusão indispensáveis. O “comum” medra onde o capital e o trabalho se reconhecem como divergência conjunta, não como identidades rivais. Será possível? Uma coisa é clara, voto no possível, voto na DEMOCRACIA.
sábado, janeiro 24, 2026
DO SUJEITO ÉTICO AO SUJEITO PULSIONAL
Breves notas sobre o desejo e os extremos ruídos
A sociedade dos tempos de hoje resvala, com frequência, para
uma cultura do impulso. Daí, surge uma influência penetrante na forma como o
sujeito se compreende a si mesmo e se relaciona com os outros. Não se trata
apenas de um aumento de busca de prazer ou de uma maior frente à liberalidade
dos costumes. Configura-se numa transição mais profunda, numa conversão onde o
desejo deixa de ser algo a ajuizar, a trabalhar ou a esculpir numa visão
partilhada, para se tornar critério último de validação da maneira de agir.
Nesta conformação, desejar não é apenas querer, é também autorizar-se.
O desejo mostra-se como manifesta, abrindo mão de interferências simbólicas,
normativas ou éticas. Aquilo que experimento, quero ou exijo passa a valer por
si mesmo. A fronteira, antes aprovada como condição da vida em comum, surge
agora como impedimento à autenticidade pessoal.
É nesta margem que se manobra a mudança do sujeito ético ao
sujeito pulsional. O sujeito ético funda-se na relação com o outro, aceitando a
existência de limites não escolhidos e reconhecendo a responsabilidade como
parte integrante da liberdade. O desejo, nesse cenário, não é rejeitado, mas intermediado
pela linguagem, pela cultura, pelo tempo, pela consideração da mudança
produzida sobre os outros.
O sujeito pulsional, quiçá desejante, pelo contrário, forma-se
a partir do ímpeto da experiência e da recusa da contrariedade. Vive a
contenção como violência simbólica e a responsabilidade como empecilho à
realização pessoal. Não se sente solicitado por um horizonte comum, mas por uma
razão de satisfação, frequentemente súbita, onde o outro desponta como meio,
espelho ou ameaça.
Esta conversão tem impactos abertos ao individualismo do
tempo presente. O indivíduo não se afirma apenas como livre, garante-se também como
autónomo. O comum deixa de ser espaço de uma construção partilhada e passa a
ser pressentida como restrição. A sociedade converte-se, então, numa herdade de
desejos oponentes, pautados mais por artifícios de mercado ou por engenhos
técnicos do que por referenciais éticos válidos e fundamentados.
O que se desaproveita, neste modo de pensar, é aquilo que
poderíamos nomear de o humano comum, valorizando a nossa pertença a um mundo
que não começa nem termina em nós, o acolhimento de deveres que não decorrem de
convenções, a consciência de que viver com outros requer responsabilizar-se pelo
que fazemos, mesmo quando ninguém nos obriga de forma assumida.
A incitação atual não consiste em recusar o desejo, nem em
retroceder a procedimentos impositivos de conformidade. Reside, isso sim, em
reinscrever o desejo numa humanização capaz de reconhecer a liberdade sem diluir
a responsabilidade e a singularidade sem transtornar o comum. Sem essa conciliação,
a cultura e a educação do desejo corre o risco de provocar sujeitos cada vez
mais concentrados em si mesmos, todavia ilogicamente mais vulneráveis, mais subordinados
e mais submetidos à distorção simbólica. Em exposição abreviada, diria que sem
sujeito ético não há desejo humano de verdade, apenas se dá vida a um impulso
biológico e mental, ou seja, um ímpeto à amargurada deriva.
sexta-feira, janeiro 23, 2026
FALÁCIAS, UM NOVO RUÍDO DA POLÍTICA
Leio e ouço argumentos que me assombram não pelo seu vazio,
mas pela hidrofobia das suas falácias. Refiro-me a modos de debater que, de
forma rude e agressiva, ignoram as exigências normativas do diálogo crítico em
que se entremeiam. Sem pudor nem dificuldade, desprendem-se do compromisso
elementar de oferecer razões partilháveis.
O que se afirma pode ter interesse, pode até reivindicar
legitimidade. Todavia, fá-lo sem qualquer relação com referenciais reconhecidos
de alcance universal e intemporal. Os desvios cognitivos aceleram-se numa falta
de lealdade discursiva tanto para com o interlocutor como para com o próprio
procedimento argumentativo. A falácia, neste contexto, não enfrenta a
discordância: procura esquivar-se ao desafio que ela impõe. Daí o recurso a
expedientes, sejam eles emocionais, identitários ou simplificadores, não para
fundamentar, mas para seduzir.
A falácia é, assim, uma violação contextual das exigências
de razoabilidade, reciprocidade e responsabilização que tornam possível um
espaço argumentativo confiável. O falacioso, neste quadro, não pretende
demonstrar o falso, mas antes impedir o outro de responder como falante
racional. As ondas sucessivas dessas falácias tornam-se, por isso, uma ameaça
evidente à democracia, ao espaço público e à própria integridade da disputa
democrática.
Defender a democracia, hoje, é também isto: recusar confundir eficácia com razão, visibilidade com legitimidade, adesão emocional com verdade política. Não se trata de silenciar, mas de exigir que quem fala aceite responder. Sem isso, não há debate. Há apenas ocupação do espaço público. E onde a argumentação morre, a democracia começa a contrair a sua doença fatal. Eis o cenário eleitoral dos tempos de hoje.
terça-feira, janeiro 20, 2026
ALGORITMO, RAIVA E ESPERTEZA
A redução da política à "esperteza Ventura" não se apresenta como uma corrupção explícita, mas afirma-se antes como uma contração do próprio espaço político. Já não se dedica a alicerçar o comum, mas a vencer por adaptação e remodelação estratégica do discurso.
A verdade torna-se desprezível, a justiça inoportuna e a
palavra pública um mero recurso de estímulo emocional. Neste regime, o
algoritmo não orienta nem governa: amplifica a gramática da raiva, do
ressentimento e do mau humor social.
O político deixa de se inscrever na vida concreta para se
colocar no campo da façanha, da exibição e do domínio pela força simbólica. A
democracia não cai nem colapsa de repente: enfraquece-se, acomoda-se e
adapta-se, até desaparecer. Por isso, aventuremo-nos no SEGURO.
domingo, janeiro 18, 2026
O TEMPO DE SI PRÓPRIO
O TEMPO DE SI PRÓPRIO
Parei num lugar qualquer. Era ali. O lugar não importava. Aqui, ali, ou até mesmo no sonho imaginário. Porque estou aqui? Num lugar qualquer tentando descobrir o porquê. Talvez o sonho a me incomodar outra vez.
Mas porque paras tu, pensei eu. Porque o meu silêncio não consegue ser ouvido. O caminho que cruza traz rapidez no sonho. Provavelmente. Mas porque parei por aqui outra vez?
E ali fiquei mais uma vez num lugar qualquer. Acolhendo memórias dispersas. Abraçando momentos no vento que sopra. Festejando abraços sem braços que sonho. O tempo passa devagar. Mas os sonhos correm cansados. Parei aqui. Questionando o cansaço, mas mesmo sem braços.
Espero os abraços. Parado aqui.
JF
A prosa poética “O Tempo de Si Próprio” expressa mais do que uma simples experiência: revela um momento crucial em que o autor se sente perdido diante de si próprio. Esse “lugar qualquer” em que o seu “eu poético pousa” não é um espaço físico reconhecível, mas um lugar interior, um ponto de paragem onde o movimento da vida se interroga. Parar aqui, e neste tempo, não é apenas suspender o andar, mas permanecer travado pela necessidade de compreender, ainda que sem resposta.
A ideia central acompanha, assim, um tempo vivido como
interioridade - um tempo alheado do tempo social ou refletido. É um tempo
próprio, íntimo, marcado pela lentidão “do tempo que passa devagar” e pelo
cansaço dos sonhos. Sonhar, neste poema, não surge como um rasgo de luz, mas
como um esforço persistente, de sonhos que “correm cansados”. Há desejo, sim,
mas um desejo fatigado, que já conhece bem o peso do tempo.
Interroga-se a si mesmo repetidamente ao perguntar: “Porque
estou aqui? Porque parei por aqui outra vez?”. Sei que essas perguntas pouco ou
nada procuram resolver; antes, despertam uma consciência entorpecida. A prosa mostra um eu que se pensa a pensar, dividido entre o impulso de seguir e a
necessidade de ficar. O silêncio revela-se decisivo, embora reconheça que o seu
“silêncio não consegue ser ouvido”. Trata-se de um silêncio saturado de
sentido, mas sem destinatário - um silêncio que, afinal, não encontra quem.
É neste ponto que se acentua um dos momentos mais
comunicativos do poema: a verdade dos “abraços sem braços”. Eis a imagem que
condensa a sua dimensão afetiva. Procura-se encontro, amabilidade,
participação; contudo, encontra-se o vazio de uma ausência concreta e contrária
ao desejo. O abraço existe como gesto imaginado, como memória ou sonho, não
como realidade vivida. O eu poético encontra-se, assim, numa condição de espera
desprotegida - uma espera obstinada, mesmo sabendo que nada acontece.
O “lugar qualquer” vai-se, então, transformando
progressivamente num lugar de acolhimento, abrigando memórias dispersas,
momentos levados pelo vento, fragmentos múltiplos de vida. Não há revivescência
emocional, mas uma atenção delicada ao que resta. O poético não dramatiza;
permanece. A repetição do gesto de parar indica que este estado não é
excecional, mas recorrente - talvez necessário.
Esse seu verso final - “Parado aqui” - não encerra o
poema com uma conclusão, mas com uma condição humana. O eu permanece, não
porque resolveu, mas porque reconhece que esse tempo - o tempo de si próprio -
é o único possível naquele instante. Há, nisso, uma ética silenciosa: a de não
fugir de si, mesmo quando o cansaço se torna maior do que a esperança.