A leitura dá-me a mão quando caminho acompanhado por um pensamento inquieto. O encontro completa-se ao percorrer caminhos desafiantes, sempre estimulantes. As ideias, continuamente fecundas, apresentam-se teimosamente inacabadas. O mundo real revela-se como uma curiosa ironia, feita de camadas ocultas, contradições e obscuridades. A esperança não se perde: permanece, aguardando novas interpretações e formas de compreender. Como o tempo e a realidade nos vão ensinando, o vício não precisa de conserto; deve ser entendido, antes, como um impulso que gera movimento, aprendizagem e transformação coerente. É por isso que vou persistindo…
gritoeargumento
sábado, abril 18, 2026
domingo, abril 12, 2026
A DIFÍCIL ARTE DE CONVERSAR PENSANDO
Gosto imenso de conversar, de um conversar que se tornou difícil no nosso tempo, não porque faltem ideias e palavras, mas porque decresce o pensamento que nelas se envolvem. A trivialização comunicativa em que vivemos mostra-se sinal de entusiasmo, tornando-se frequentemente costumeira: fala-se para passar o tempo, não para o sentir de verdade e de consistente dedicação.
Pensar, conversando, não se realiza através de um ato meramente
insociável. Pensar, conversando, acontece onde a fala deixa de ser mera
transmissão e se torna incidente. É aí que a conversa consegue densidade, não
como uma mera soma de opiniões, mas como caminhada em que o sentido se imagina,
se desloca e, por vezes, se retrocede para poder surgir de uma forma diferente.
Mas este “entre” é hoje constantemente ameaçado. A tendência
dominante é a de dizer para afirmar, para classificar, para encerrar. As
palavras vitais deixam de abrir o mundo e assim se submetem ao sob domínio do refreamento.
Ajeitam a perceção, abalizam o admissível e fixam, tanto quanto possível, as
produtividades das verdades que dispensam a interrogação. Assim sendo, o
relevante já não é o que não podemos dizer, mas o que já não conseguimos dizer,
nem sequer necessidade de pensar.
Neste lente, todavia, limitante quadro, a conversa perde a
sua capacidade transformadora e, como tal, aproxima-se da dinâmica interna e
funcional da silenciosa reprodução: aplicam-se as mesmas receitas, repetem-se as
posturas, reforçam-se identidades. O outro incómodo deixa de ser um falante
para se tornar um atencioso acolhedor de confirmação ou de recusa. E, assim, o
diálogo cede ao alinhamento de retóricas que não se concordam verdadeiramente.
Escutar, então, adquire uma paciente dimensão ético-política.
Não se trata apenas de ouvir, mas de suspender a urgência da resposta, de
aceitar a opacidade do outro, de reconhecer que o sentido não está previamente
dado, mas se constrói, sempre falhando, na relação. Escutar, apenas nesse
sentido, é um abrir de espaço que não bate certo com o nosso próprio horizonte.
Conversar torna-se, assim, uma incómoda e exigente prática
de renovação. Não há entendimentos, nem harmonizações de opostos. Há apenas a frágil
possibilidade de deslocar o olhar, de descentrar o sujeito, de promover
aberturas naquilo que assumimos por evidente. Contra a tentação de uma
linguagem transparente e controlável, a conversa digna desse nome aceita a
imprecisão e o inacabado como condições possíveis do pensar.
Talvez por isso a boa conversa não exija apenas uma
competência, mas uma forma de resistência. Resistência à simplificação, à
aceleração, à captura do pensamento por discursos já feitos. Conversar é
sustentar um espaço onde o sentido não estando fechado, se torna ainda possível
pensar, não apesar do outro, mas com ele. E é neste “com ele”, sempre incerto e
exposto, que a maneira de falar deixa de ser apenas um meio e se torna,
verdadeiramente, um paciente espaço de “bricolagem”.
Sinceramente, reconheço a minha dificuldade e a minha
impaciência, bem como a falta de jeito e de preparação para tal. Todavia,
procuro ser simpático. Ainda assim, reconheço que dificilmente suporto os
“chicos-espertos”, que sabem agir de forma oportunista, desonesta ou arrogante,
julgando-se, com aparente entusiasmo, mais inteligentes do que os outros.
segunda-feira, abril 06, 2026
DELFIM, UM EXEMPLO DUMA VIDA SIMPLES
Há pessoas que passam pela vida de um modo simples e
despretensioso, mas deixam em nós uma marca profunda. O meu amigo DELFIM foi
uma dessas presenças raras.
Aos 70 anos, partiu - ele que tão bem soube viver com leveza
e dignidade. Foi um homem alegre, de sorriso fácil, mas também um companheiro
culto, atento ao mundo e às suas feridas. Nunca se acomodou à injustiça, à
hipocrisia ou à desigualdade. Combateu-as sempre com convicção, sem nunca
perder a delicadeza no trato com os outros.
Havia nele uma forma de resistência que não precisava de
agressividade: a clareza, a coerência e o respeito impunham a sua integridade e
davam ainda mais valor à sua simpatia. A sua humanidade, simples e verdadeira,
era reconhecida por todos. Era admirado porque nunca deixou de ser íntegro. E
era estimado porque, acima de tudo, sabia estar com os outros com uma presença
simples, humana e verdadeira.
Guardo em mim - e certamente tantos outros - o DELFIM como
um exemplo silencioso de como se pode ser justo sem deixar de ser amável, firme
sem deixar de ser delicado. Não o esquecerei, pois há amizades que se
transformam em memória viva, em exemplo e, sobretudo, numa presença interior
duradoura.
domingo, abril 05, 2026
77 ANOS CONTRA O TEMPO QUE PASSA
O nosso tempo não é apenas o que passa. É o que se torna
experiência vivida, onde se sente, se reconhece e se transforma, um tempo que
resiste ao imediato e faz da subjetividade um valor humano em permanente
cultivo, aceitação e devir.
É nesse tempo que nos fazemos, e nos tornamos capazes de nos reconhecer como humanos. Eis o meu grito, e o argumento que o sustenta.
sábado, abril 04, 2026
A EMBOSCADA DA LIBERDADE
A LIBERDADE tornou-se a palavra mais circulante da nossa época. Não nos liberta, agimos, sim, dentro dela. Tornou-se ideia central e comum da vida social. A sua gramática implícita faz-nos livres e, sem darmos por isso, adaptamo-nos.
A LIBERDADE deixou, assim, de ser problema. Tornou-se uma
evidência dirigida. Evita conflitos, neutralizando-os. Tudo desliza numa
superfície polída onde tudo pode circular, desde que nada se torne infiel.
Nesta conformidade, o submisso não é reprimido: é posto em movimento.
Oferecem-lhe escolha, pedem-lhe que cuide de si, que se
reinvente continuamente. Não há exterior, nem desculpas, muito menos evasivas.
O sujeito torna-se, então, o único responsável por dar forma a uma vida
previamente formatada. A liberdade adere a uma agenda que se oculta como tal e,
por isso, em silêncio, nos atraiçoa.
Move-nos a sermos “nós próprios”, ao mesmo tempo que
dissolve as condições de possibilidade dessa verdade. O que em nós é opaco,
contraditório, não rentável, é lentamente silenciado. A verdade torna-se,
assim, inviável num mundo onde tudo deve ser comunicável, partilhável,
convertível em valor.
O homem livre é, hoje, aquele que melhor se acomoda a este
regime de circulação. Aquele que se reconfigura no movimento contínuo de
competências, afetos e imagens. Não há interioridade que não se exponha. Não há
experiência que não ambicione reconhecimento. A liberdade acalma-se na
normalização.
E quanto mais nos movemos dentro dela, mais nos afastamos de
qualquer fundamento que não seja imediatamente funcional. A nossa verdade
torna-se, progressivamente, um resto, um ruído que escapa ao encadeamento. O
sistema agradece essa útil irrelevância.
A traição do nosso tempo não nega a verdade, gere a sua
dissolução. Não pelo interdito, mas pela exaustão; não pelo silêncio imposto,
mas pela presença intrusiva de uma voz onde tudo se diz para que nada se
sustente. A voz da LIBERDADE não nos cala: fala por nós.
Antecipadamente. Permanentemente.
E é por isso que resistir se torna quase impercetível. Já
não se trata de romper cadeias visíveis, mas de interromper a fluidez que nos
atravessa. De recusar uma evidência que se apresenta como natural. De
sustentar, contra a corrente, aquilo que em nós não se adapta. Talvez a verdade
comece aí, não como expressão, mas como obstáculo. Atenta a uma cultura de
mercado que vive da LIBERDADE, torturando-a.
terça-feira, março 31, 2026
REVIVER A MORTE
Há escritos que não orientam nem testemunham; apenas abrem espaço. São gestos sensoriais onde o pensamento se torna silêncio atento.
A “supraconsciência” não se impõe como verdade, mas como
possibilidade de sentir. “Reviver a morte” não é antecipá-la, mas deslocá-la: da
exterioridade do fim para a interioridade da vida.
A morte não se dá como experiência; permanece velada. É
nesse véu que a palavra ganha força - e quase se deixa acreditar. Toda a imagem
tende a consolidar-se como verdade. É aí que a crítica deve intervir: não para
negar, mas para embaraçar o refúgio.
Entre o sentir e o crer, importa manter a distância. Não há
verdade sobre a morte, apenas modos de a habitar. Não já como interrupção, mas
como deslocação: uma densidade que intensifica a vida. Reviver a morte não é
vencê-la nem a negar. É deixá-la permanecer como interrogação.
sábado, março 28, 2026
PENSAR CRITICAMENTE, EIS UMA CONDIÇÃO DO HUMANO
A CRÍTICA mostra-nos como pensamos. Não se trata de um
“saber-fazer” vantajoso, mergulhado numa esperteza enraizada. A CRÍTICA não
dispensa o conhecimento, a realidade e o poder; antes os convoca,
interrogando-os nas suas raízes, muitas vezes desprovidas de fundamento e
comprovação. Implica, assim, uma atitude de envolvimento mais exigente, capaz
de conferir, analisar e agir de forma consistente.
A CRÍTICA é um exercício ativo, uma ação que se opõe à
passividade ou a movimentos que não têm origem na vontade ou na força do
sujeito. Exige, com frequência, uma transformação do próprio pensamento,
alterando a forma de dar sentido à vida, a si mesmo, bem como de estruturar
referências e orientações. Trata-se de uma mudança que impulsiona mediações,
abrindo caminho a possíveis reconfigurações e renovações do pensar.
Importa reconhecer que a DIMENSÃO CRÍTICA ganha relevância
ao tornar-se decisiva na integridade do conjunto. Não se procuram opiniões
secundárias ou decorativas, mas elementos essenciais para a formação,
compreensão e retificação do saber. Trata-se de um processo contínuo, que deve
ser reconhecido como uma condição constitutiva do humano.
A CRÍTICA não se reduz ao confronto de opiniões - diferentes
pontos de vista, ideias ou argumentos - nem se esgota na sua troca. Ela
revela-se também na produção de inteligibilidade, isto é, em processos
intelectuais e interpretativos, tanto por parte de quem produz um texto, uma
teoria ou um conhecimento, quanto por parte de quem os interpreta.
A CRÍTICA decorre de um modo de pensar a permanente produção de sentidos, bem como da análise e desconstrução que atravessam o viver. Defende-se, assim, a integração do PENSAMENTO CRÍTICO como uma postura proativa e constante - contínua e vigilante - e não como um entendimento transitório ou meramente conclusivo. Pensar não basta, a EXIGÊNCIA DA CRÍTICA ajuda. Sejamos, então, uns pacientes teimosos nesta vital condição do humano.
segunda-feira, março 23, 2026
O EU NA ERA DOS ALGORITMOS
O capitalismo digital não é mais do que uma fase atual do seu
amplo sistema. Caracteriza-se pela centralidade de dados, plataformas digitais
e algoritmos na sua organização sistémica, abraçando produção, distribuição e
consumo. É por aqui que passa a mundialização do capital, onde a produção e as
finanças operam em escala global, precarizando relações de trabalho e
flexibilizando mercados.
A "dissolução do eu" (ou do ego) é um conceito
complexo, frequentemente discutido a partir de diversos pontos de vista, que revela
a perda ou o enfraquecimento temporário das fronteiras da identidade pessoal. Mas
o mais curioso - talvez o mais irónico - é que essa dissolução não chega como
experiência libertadora, mas, sim, como uma lamentável rotina banalizada.
O eu assim se desintegra, por exaustão, por dissipação ou por
quebras sucessivas. Não desaparece, é certo. Todavia multiplica-se em perfis,
opiniões rápidas, estados transitórios e identidades de ocasião. Cada gesto
digital promete expressão, mas entrega dispersão; cada afirmação gera um
atenuar do conteúdo. Assim se vive numa estranha e permanente oscilação entre a
exibição e o afastamento, em prejuízo de uma presença consistente.
A adaptação vai-se tornando conformação. O sujeito habitua-se
a viver amortecido, a reconhecer-se na corrente dominante, a aceitar a variabilidade
como reconfiguração de identidade. Já não se interroga “quem sou?”, mas “como
devo aparecer?”. Todavia, é nesta inquietude que as próprias condições dos atos
e da realidade interrogam, ainda que timidamente, sobre aquilo que se perdeu, ou
sobre aquilo que, afinal, nunca chegou verdadeiramente a possuir. A possibilidade
de um outro modo de existir vai, certamente, escorregando por aqui.
quinta-feira, março 19, 2026
O FUTEBOL SEM BOLA
Aturar o futebol escutando a palavra analítica e crítica,
marcada pelo clubismo, é entrar - quase sem dar por isso - num idiota relvado
de emoções intensas onde, paradoxalmente, a bola se oculta.
A indignação gira sobre si mesma, num rodopio contínuo,
mergulhando numa atenção subterrânea que pouco ilumina. Os estímulos,
impulsivos e azedados, propagam-se rapidamente, encontrando sempre uma
justificação para a sua própria amargura.
Os impactos emocionais, invariavelmente apressados, recusam
pensar - e, mais ainda, considerar. O conflito atrai mais audiência do que o
juízo ponderado: insinua contradições, alimenta disputas apaixonadas e,
sobretudo, produz visibilidade mediática, sempre bem acolhida.
A arena do debate mascara-se, assim, numa esfera emocional
altamente excitada, onde se fabrica um ambiente psicológico coletivo saturado
de nervosismo refinado, intensidade e reatividade. É nesse terreno que
prosperam emoções indomáveis, geradoras de ambientes vivos, inquietos e, por
vezes, de atritos tidos como necessários.
Trata-se, no fundo, de uma verdadeira disputa desportiva das emoções. Ou talvez - de forma mais rigorosa - de uma autêntica economia política das emoções, onde estas são produzidas, geridas e instrumentalizadas pelas dinâmicas de poder que atravessam o universo clubista.
domingo, março 15, 2026
SERÁ QUE PENSAMOS ATRAVÉS DE UMA SUBJETIVIDADE COLONIZADA?
O modernismo fez-nos admitir que o homem poder-se-ia tornar dono do seu próprio destino. Desde a era da razão, ela se foi supondo como um rumo de autonomia e a liberdade como possibilidade de orientar a vida com plena consciência e conhecimento de causa. Contudo, a história veio revelando uma oposição desconcertante: quanto mais o homem se afirmou livre, mais complexas e invisíveis se tornaram as forças que foram surgindo na configuração da sua própria subjetividade.
A crítica marxiana veio evidenciar que a consciência não
nasce num vazio. As relações económicas e sociais estruturam o ambiente dentro
do qual os indivíduos pensam, desejam e interpretam o horizonte. Aquilo que
parece ser uma opção pessoal pode muitas vezes ser expressão de uma lógica que transpõe
o próprio sujeito.
Por sua vez, a descoberta freudiana do inconsciente abriu
uma outra ranhura na imagem convencional da autonomia. O sujeito não bate certo
consigo mesmo. A convicção convive com forças motivacionais que desviam a sua
transparência, tornando o pensamento uma atividade constante de apreciação.
É neste entrelaçamento entre economia, linguagem e desejo
que a reflexão de Habermas alcança particular evidência. Ao analisar as
sociedades contemporâneas, ele descreve uma tensão crescente entre o mundo vivido,
onde se formam as identidades, as relações e os sentidos partilhados, assim
como as grandes cadeias que organizam a modernidade, como o mercado, as suas
lideranças e comandos. Todavia, esses sistemas vão ultrapassando a sua função e
invadindo os âmbitos da vida quotidiana, começando a subjetividade a formar-se
sob a pressão de lógicas que nos são alheias.
Pensar hoje a condição humana talvez implique reconhecer
precisamente este foco de conflito. O sujeito contemporâneo não vive fora das
estruturas que o acomodam, nascendo já por elas atravessado. Todavia, embora pareça
antagónico, é nesse interior que o pensamento pode reabrir o seu espaço para a
crítica. Pensar através da subjetividade colonizada significa, então, procurar a
clareza de raciocínio, bom senso, inteligência e sanidade mental. Ou seja,
concebendo uma real lucidez dentro das próprias condições que levemente limitam
a coragem da nossa liberdade.
Pensar, reconhecendo a confirmada subjetividade colonizada,
é identificar que a liberdade não é um domínio garantido, pois nos provoca - e
convoca - uma coragem crítica que deve exercer a sua consciência dentro das
próprias fronteiras que nos propõem e neles nos procuram alinhar. A verdade, a
justiça e as normas sociais podem e devem ser discutidas, combatendo a lógica
do dinheiro, da eficiência e do poder que a abraça e aconchega. Se assim é, por
aqui passa uma tensão estrutural de referenciais e não só…
quarta-feira, março 11, 2026
DAÍ, UMA SUBJETIVIDADE INVADIDA
Nunca se falou tanto de liberdade individual como no nosso tempo. Mas nunca também o desejo humano foi tão intensamente estimulado, orientado e explorado. Entre o inconsciente e os dispositivos culturais do mercado, a subjetividade contemporânea move-se num campo onde a autonomia proclamada convive com formas subtis de captura.
Durante muito tempo acreditou-se que a realidade interior do
homem era relativamente estável: um ponto central da consciência capaz de se
situar no mundo através da razão, da vontade e da experiência. A modernidade
construiu grande parte do seu imaginário sobre essa noção de indivíduo
autónomo, senhor de si e das suas escolhas.
Contudo, ao longo do século XX, essa imagem começou a ser
profundamente fragilizada. A descoberta freudiana do inconsciente veio mostrar
que o sujeito não coincide consigo próprio. Aquilo que pensamos ser palavra “nossa”
é frequentemente atravessada por desejos, fantasias e conflitos que escapam ao
domínio da razão. O sujeito sente-se então habitado por forças que o excedem.
Mais tarde, Lacan aprofundou esse juízo ao afirmar que o
inconsciente não é apenas uma parte obscura do foro íntimo. Ele é estruturado
pela linguagem e pelo campo simbólico da cultura, dado que o desejo humano se
forma dentro de contextualizações que se antecipam ao indivíduo. Antes de
falarmos, já fomos - e continuamos a ser - rodeados por um mundo de palavras,
imagens e projeções.
A crítica social abre então um novo horizonte de
compreensão. Com o marxismo surge a ideia de que o capitalismo não produz
apenas bens destinados à venda; produz também maneiras de viver, formas de
perceção e sensibilidades coletivas. A economia, longe de ser apenas um
mecanismo de troca, torna-se também experiência e história de vida.
Nesta cultura contemporânea, marcada pela expansão do
consumo, essa dimensão torna-se particularmente evidente. O capitalismo atual
não se limita a satisfazer necessidades: vive da produção contínua de novos
desejos. A publicidade, os media e as redes simbólicas do mercado
converteram-se num vasto maquinário de estímulo e orientação do desejo humano.
O sujeito contemporâneo encontra-se assim mergulhado num
ambiente onde a identidade parece depender cada vez mais da capacidade de
escolher, adquirir e exibir objetos e estilos de vida. Consumir deixa de ser
apenas um ato económico; torna-se também um gesto simbólico através do qual o
indivíduo procura mostrar quem é.
Neste contexto, a vitalidade do inconsciente, enquanto
inquietação incessante do desejo humano, encontra um campo particularmente
fértil. A cultura do consumo aprende a falar a língua paradoxal do desejo
inconsciente. Promete satisfação, oferece objetos como sinais de realização e
desloca continuamente o auge da existência. Cada compra anuncia completar algo
que permanece, contudo, estruturalmente incompleto.
O resultado é um movimento contínuo: o desejo encontra um
objeto, esgota-o rapidamente e reabre-se para novas expectativas. O sujeito é
assim mantido num circuito de expectativas e insatisfações, numa economia
simbólica que transforma o desejo em energia social e económica.
Mas a formação da subjetividade não se limita ao plano
individual. Como sublinha Burity, os sujeitos também se constituem através de
processos de identificação coletiva. Discursos políticos, narrativas culturais
e imaginários sociais oferecem posições a partir das quais os indivíduos podem
reconhecer-se e agir.
Assim, a subjetividade contemporânea forma-se numa rede de
intersecção de múltiplos processos: estruturas psíquicas, mediações culturais,
relações económicas e figuras de identificação coletiva. O sujeito não é um
ponto fixo, mas um lugar de passagem onde se cruzam desejos, linguagens e
grupos de interesse.
Talvez por isso a experiência do presente seja
frequentemente marcada por uma sensação desconcertante. Nunca tivemos tantas
possibilidades de escolha e tantas promessas de realização. E, no entanto, o
sentimento de falha persiste, como se algo essencial escapasse à lógica do
benefício prometido.
Nesse entremeio entre o desejo e a garantia da sua
realização, entre a singularidade do humano e as formas sociais que a moldam,
desenha-se o drama silencioso da subjetividade contemporânea: uma condição em
que o inconsciente continua a mover-se, inquieto e dinâmico, no interior de uma
cultura que aprendeu a converter o desejo humano num dos seus principais
motores.
Assim, no coração da cultura contemporânea, o desejo humano continua a mover-se inquieto, enquanto o capitalismo aprende a transformar essa inquietação numa das suas forças mais produtivas.
domingo, março 08, 2026
NOS SUBTERRÂNEOS DA CONSCIÊNCIA
A PROPÓSITO DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Todavia, essa evidência é apenas relativa, pois o mundo
representado não constitui, em absoluto, a essência última da realidade humana.
Sob a ordem da representação atua sempre a vontade, uma influência oculta,
anterior ao pensamento, que perfura o sujeito sem se deixar demarcar por
conceitos.
A relevância do inconsciente aprofunda esta intuição. A vida
psíquica não se organiza apenas na lucidez do pensamento; é atravessada por
desejos, pulsões e formações simbólicas que escapam ao seu domínio. A
identidade consciente mostra-se, assim, menos livre do que supõe.
António de Lobo Antunes leva esta perspetiva ainda mais
longe ao evidenciar que o próprio sujeito falante é efeito da linguagem e das
estruturas simbólicas que o precedem. O “eu” não é origem, mas antes um
resultado exposto a processos que o excedem.
É neste horizonte que António Lobo Antunes se tornou
particularmente significativo. A sua entrevista, ontem recordada, com clareza ele
bem soube troçar da linearidade tranquila da representação, divertindo-se com
as fissuras da identidade demasiado alinhada. As suas palavras pareciam emergir
dos subsolos da memória e do desejo, como se a linguagem tentasse dar forma a
esse fundo obscuro onde a consciência não detém domínio absoluto.
A sua literatura tornou-se, assim, um lugar de revelação:
não da ordem tranquila da razão, mas da inquietante profundidade onde vontade,
memória e inconsciente continuam a produzir aquilo a que chamamos pessoa, um humano de valor intrínseco.
terça-feira, março 03, 2026
ABRIR FENDAS NO EVIDENTE
Ao longo da vida sempre fomos aprendendo muita coisa. Aprendemos a responder ao mundo, pese embora não nos tenham ensinado a meditar o pensamento, a viver a pergunta e a cultivar a inquietação sem apressar a impulsividade da conclusão.
Não sou filósofo, mas sempre tive a filosofia, essa singular
filosofia como forma de vida. A exibição de argumentos nunca me seduziu, pese
embora tenha valorizado a minha atenção. Para me interrogar e para compreender
como as minhas certezas se foram moldando. Para distinguir o que decido do que,
por conveniência, apenas repito, reproduzindo.
O que acabo de dizer não é uma opinião óbvia, nem tão pouco
um conflito retórico. Não procuro superar argumentos, mas, sim, compreender o
modo como penso. Pensar é algo que me responsabiliza, compromete e me pode modificar.
E talvez seja isso que importa, em suma, abrir pequenas fendas naquilo que
tomávamos por evidente.
Vive-se um tempo que nos chama permanentemente à reação, à
posição imediata, à identidade afirmada. Por isso, o automatismo me aborrece. A
filosofia, como forma de vida, não me promete alternativas, todavia, convoca-me
a um exercício contínuo de atenção. Ao que pensamos, ao que dizemos e a uma atenção
criteriosa ao modo como habitamos o mundo.
A liberdade não é um ponto de partida garantido, mas um criterioso
trabalho paciente. A responsabilidade não é um peso exterior, mas uma formação
interior. A maturidade não é conclusão, mas condição de aperfeiçoamento. Neste
contexto, não se procura ensinar filosofia, mas sim propor praticá-la. Quiçá, favorecendo
criar um espaço onde o pensamento deixe de ser um confuso ruído e se torne, se
possível, uma salutar e viva presença.
PARA ALÉM DO AMUO
A emoção nasce como ocorrência. Um sobressalto basta.
Precede a razão e instala-se antes que o pensamento a concilie. Diz-se
imediatamente: “estou desapontado”, e nesse gesto algo se fixa. O que poderia
ser apenas um momento passageiro torna-se questão. O que era inoportuno caso torna-se
identidade súbita.
O homem não é, sabe-se, senhor absoluto do que julga sentir.
Muitas vezes, a emoção emerge como efeito de identificações que atuam à margem
da consciência. Não é apenas afeto, torna-se apreensão. A emoção deixa de ser
uma circunstância e transforma-se num compasso envolvente. O sujeito passa a
habitar aquilo que o perturbou.
A irritação, ou o abalo, incentiva uma consistência
inesperada ao eu. Conferem-lhe intensidade, quase alma. Produz uma forma
paradoxal de gozo, desse conforto extraído da própria insistência do mal-estar.
Sofre-se, mas nessa desolação encontra-se uma autoafirmação. A racionalização
apressada, longe de esclarecer, apenas organiza o desconforto de modo a
torná-lo aproveitável.
Vive-se aí um tempo em que a emoção rapidamente se converte
em indício identitário. Deixa de ser uma experiência passageira, tornando-se um
indicador de pertença. A discórdia, a suscetibilidade ou a indignação deixam de
ser instantes e vestem-se de interpretações. A espontaneidade torna-se suspeita,
a ambiguidade intolerável e a hesitação quase culpável. Aprende-se que existir
é arriscar-se.
O “estou desapontado” já não exprime apenas um momento interior: inscreve o sujeito numa onda afetiva que foge à regra. A emoção ganha uma outra relevância notória. E, ao ganhar posição, favorece a equívoca continuidade ao eu. Ganha-se campo, sim, mas definha-se a profundidade. A identidade não precisa de estacionar em cada estado de alma. O sujeito é bem mais do que o instante em que se ofende. A liberdade - essa palavra tão invocada - só se torna valiosa quando se aprende a distinguir a emoção que nos atravessa e o rumo que escolhemos e queremos seguir.
sábado, fevereiro 28, 2026
POR AQUI, SIM, VOU CAMINHANDO
Começo por dizer que conversas que repetem palavras vazias, repetitivas ou mesmo inconsequentes, provocam-me perda de vitalidade. Busco e exploro impulsos que me entusiasmem através de horizontes criativos, que me levem a desviar da entidade consolidada. Nesse caminho definido, fui reconhecendo os significantes que me resguardam, procurando o possível intervalo que separa a submissão da minha incerta e oculta motivação ao afastar-se das raízes fundas do meu querer.
Daí fui-me, e vou-me convencendo, de que a suposta superioridade
da nossa racionalidade se mostra inábil em antepor-se ao andamento do
inconsciente, aos seus impulsos ou instintos. Interrogo-me, então: serão estes
juízos precisos e verdadeiramente informantes? Ou advirão eles de uma estrutura
simbólica que procura dar sentido à realidade, idealizar o pensamento e, como
consequência, orientar o comportamento social?
Por este caminho serpenteante vou seguindo, ainda assim bem atento
aos seus abundantes e engenhosos percalços...
domingo, fevereiro 22, 2026
ENTRE A REGRA E O PENSAMENTO
A educação caminha, e demasiado, para a conformidade, não para a autonomia. Ensinam-se regras, aferem-se desempenhos e estimula-se a concorrência, mas raramente se estimula a atitude de pensar. O saber fragmenta-se em disciplinas separadas e dilui-se em mediações superficiais. A inquietação, o propósito e o reconhecimento dos próprios limites tornam-se desacreditados.
Assim, a pessoa aprende a existir de forma controlada,
segundo os preceitos vigentes. Adota estereótipos, mas não exercita a
liberdade. Assimila identificações, aprende a ganhar, mas pouco aprende a
compreender. Daí que a educação crítica deslize, não por falta de informação,
mas por falta de atenção ao movimento interno, à contradição e à experiência do
encontro com a diferença.
A liberdade não se ensina com regras. Aprende-se abrindo-se
ao novo, ao incerto e à possibilidade da aprendizagem contínua. Aprende-se com
a capacidade de permitir a mudança, desapegar-se de certezas absolutas e fluir
com as circunstâncias da vida. Aprende-se também com a coragem de não se fixar
e com a disposição de escutar sem medo, valorizando o outro na vida em comum,
sem dependência nem imposição. A liberdade, a nossa liberdade, torna-se, assim,
também, um exigente e difícil problema.
sábado, fevereiro 21, 2026
NÃO ME PROCURO, SINTO-ME EM MOVIMENTO
Vivo um tempo em que a identidade, quando absolutizada, empobrece o meu abraço humano. A maturidade foi-me ensinando a viver sem me simplificar comodamente, sobretudo a não me acomodar no almofadado leviano das cogitações triviais. Sinto-me, assim, mais “eu” e, sobretudo, mais próximo do “outro”. Ou seja, o meu “eu”, ao libertar-se, continua a abrir espaço ao pensamento e ao encontro com o “outro”. Não me sinto gasto; sinto-me, antes, animado pelo entusiasmo do contrário. Libertar-me não é fixar-me nem me perder, mas encaminhar-me na verdade que me aproxima do outro, do humano e da vida.
quarta-feira, fevereiro 18, 2026
NEM SEMPRE NOS CONHECEMOS
Vivemos um tempo em que ninguém suporta a ideia de não saber
quem é. A hesitação passou a desconfiança, a fraqueza, quase defeito de natureza.
O essencial tornou-se simples, revelando-se, situando-se e assumindo-se. Tornando-se
evidente. Fomos aceitando, assim, que o eu é um apego de resguardo, um teatro
de imagens aceitáveis, íntegras e irrefutáveis. No íntimo, um espelho que não
falha. Obedientes, confiamos nele como se a nitidez fosse verdade e não apenas
acerto.
A incerteza, com certeza, não é ausência de identidade. O contratempo
nasce quando a identidade se impõe como analgia. Quanto mais intransigente a
perceção de si, mais inquieta a afinidade. Quanto mais decisivo o “eu sou”, no
interior mais profundo entoa o “e se eu não for?”. A comunidade protege, já que
cada um deve conduzir-se como reconhecimento. A coerência vende, a vacilação
não tem mercado. Em tempos líquidos, como diria Zygmunt Bauman, a tentação é fortalecer-se
sem demora, erigindo algo pessoal contra a instabilidade que nos acompanha.
Mas quando a identidade se endurece em robustez, o desassossego já está à porta. Abraçar papéis sociais é cómodo, a função pensa por nós e o posto responde antes da indagação. O lugar protege-nos da contrariedade que nos habita. Talvez a agitação não seja crise de identidade. Talvez seja apenas a incapacidade de tolerar a limitação. A identidade rígida não é força, torna-se defesa. E a defesa, quando perfeita demais, apenas encobre o medo que insiste em não se deixar anunciar. Ser-se humano não é fácil, requer, por isso, não ter medo de ser atrevido...
domingo, fevereiro 15, 2026
ROGÉRIO, HOJE É O TEU DIA
Celebrar o teu aniversário não é apenas um gesto nostálgico, é para todo o sempre um momento que nos obriga a pensar. O teu tempo vivo permanece pela grandeza simbólica que deixaste nesta nossa continuidade. Partiste, mas a tua presença perdura. Foste um amigo, um homem público, exposto ao convívio e à divergência. Sobretudo, foste alguém que viveu o espaço público como um lugar de responsabilidade, onde a palavra pesava e a integridade se afirmava na oratória. Envio-te hoje os meus parabéns não por aquilo que foste, mas pelo que continuas a viver em nós. O teu ser permanece estimado, o teu pensar penetrante e espirituoso, o teu agir estimado pela sua inteireza, nunca traindo o essencial. Daqui te envio o meu abraço, que atravessando e vivendo esse tempo, sinto nele, e hoje, que bem me permanece.
terça-feira, fevereiro 10, 2026
OU SE CAMINHA, OU SE MANCA
A liberdade tornou-se uma palavra sem norte: um “vai-e-vem” que pouco ou nada cuida. É invocada como passaporte para a irresponsabilidade, para a indiferença social, para a boçalidade orgulhosa e, não raras vezes, para a parvoíce exibida como autenticidade. Com destreza, manifesta-se a “liberdade” num singular conforto que se afasta de qualquer ideia de compromisso.
Deste uso e costume nasce um deus-dará politicamente
eficiente. A liberdade é deslocada para o terreno do acolhimento conveniente:
dispensa definições, desconfia da consistência e recusa a ordenação das ideias.
O mundo torna-se um espaço de opiniões soltas, indignações descontínuas e
certezas instantâneas. Pergunta-se, então, como viver sem tropeçar num tempo
que já não garante nem consistência moral nem memória crítica.
Dito de um lugar hoje bem pouco valorizado - e, por isso
mesmo, mais ou menos suspeito -, a liberdade dá trabalho. Não é um atributo
identitário para exibir nas redes, nem um direito abstrato para brandir contra
tudo e contra todos. É uma prática exigente, feita de atenção, disciplina e
transformação de si. Exatamente o oposto da cultura da reação imediata, do
mérito autopromovido e da convicção ruidosa que obstaculiza o pensamento.
O tempo de hoje inventa representações contraditórias da
liberdade. Uns desarrumam-na no vazio total de limites e descobrem, tarde
demais, que uma vida sem limites é uma vida sem normas comuns e, como tal, um
terreno fértil para a lei do mais forte. Outros submetem-na às normas de um
purismo moral e de sentinela permanente, convertendo a liberdade numa
obediência ajustada, vista como bem-intencionada e socialmente admitida. Em
ambos os casos, a liberdade esbate-se: ora capturada pelo “mercado do eu”, ora
pelo “moralismo do nós”.
Entre o impulso justificado e a norma consagrada, resiste
uma ideia pouco popular e politicamente incómoda: a liberdade não justifica,
não desobriga, não protege. Expõe. Impõe a resposta pelo que se faz, pelo que
se diz e pelo que se decide calar. Não é defesa nem desculpa, mas critério.
Talvez por isso seja tão prestigiada no discurso público e tão raramente
assumida na vida quotidiana.
Pensar a liberdade hoje exige menos entusiasmo retórico e
mais claridade crítica. Menos palavras de ordem, menos ofensa travestida de
direito, menos virtude convertida em representação pública. Exige mais
responsabilidade social, mais densidade cultural, mais consciência do lugar que
se ocupa e dos efeitos que se produzem. A liberdade não absolve, não desobriga,
não defende. Exige. Por isso, com a liberdade não se transige: ou se caminha,
ou se manca.
domingo, fevereiro 08, 2026
ONDE ESTÁ A “CIGANICE”, AFINAL?
A xenofobia preconceituosa anda cansada. Muito cansada.
Sofre, suspira, diz-se esgotada por este tempo moderno que insiste em ser
povoado. Há gente a mais, vida a mais, ruído a mais. Pessoas fora do sítio,
fora do tom e, sobretudo, fora do delicado acordo tácito que define quem pode
existir sem incomodar. Respira-se mal, não por falta de ar, mas por excesso de
gente errada.
Há demasiada gente a passear, não a trabalhar, como se o
mundo não fosse um estaleiro moral permanente. Demasiadas vozes sem licença,
hábitos sem manual, presenças que se recusam a aprender a virtude fundamental
da urbanidade: desaparecer. O incómodo torna-se, então, a prova suprema de
sanidade. Quem não se irrita é suspeito. Quem não se indigna, cúmplice. Quem
não se queixa é, claramente, parte do problema.
O discurso fascistoide domina esta arte com notável
eficácia. Escolhe um alvo socialmente desprotegido, cola-lhe todos os rótulos
disponíveis - preguiça, perigo, parasitismo, desordem - e apresenta-se, com ar
grave e voz de locutor responsável, como fiscal da ordem. Uma ordem curiosa,
diga-se: aquela que permite insultar e provocar sem consequências e exige
silêncio absoluto de quem ousa responder. Ordem simples, acessível a todos:
falar alto, apontar o dedo com convicção e chamar coragem à falta de vergonha.
Não se trata, convenhamos, de resolver conflitos sociais.
Isso daria trabalho, exigiria pensamento e algum risco ético. Trata-se, antes,
de os explorar, de os encenar e, sobretudo, de os tornar produtivos. Não se
procura convivência, fabrica-se resignação. Não se quer justiça, administra-se
submissão. E, se possível, votos suficientes para continuar a chamar democracia
a este exercício de intimidação coletiva.
Os votos vão-se apresentando. São 15 horas. Faltam algumas horas, aguardo. Não posso aceitar que esteja enganado. Esta versão irónica e corrosiva não é mais do que uma ilustração que apela à compreensão humana e que, neste momento eleitoral, constitui um valor, entre muitos, que a democracia deve reconhecer e com o qual se deve comprometer e solucionar. Assim, espero confiante.
terça-feira, fevereiro 03, 2026
SUBJETIVIDADE EM DISPUTA
Nenhum de nós vive como sujeito fora de um cenário relacional. Pensar o indivíduo como um ser isolado, voltado para si mesmo e anterior às suas relações é uma invencionice ociosa e, porventura, politicamente aproveitável. O sujeito não antecede o fraseado da certeza: é, passo a passo, ajustado por ele, estrutura-se através dele e sob as suas interrogações, num andamento em que pensar, desejar e aderir se tornam inseparáveis.
O pensamento, a razão, a memória e a imaginação, quando
concebidos como uma rede fechada e independente, tornam-se facilmente
vulneráveis ao confinamento. Os preceitos convencionais apresentam-se como
justos, habilitados ou mesmo indispensáveis, hoje exacerbados por regras de
maneio, índices de eficiência, engenhos publicitados e ficções de segurança. O
que se diz, a forma como se diz e quem pode dizê-lo preparam silenciosamente o
horizonte do possível, partindo de mediações já decididas, naturalizadas e, como
tal, estimuladas.
Daí que a controvérsia política, hoje tão presente, não se
mova apenas entre ideias diferentes, mas também na própria formação dos
sujeitos capazes de as defender e de as encorajar. Gerir, controlar ou regular
normas, regras e convenções implica delinear perspetivas aceitáveis de existir,
onde certas formas de pensar, sentir e desejar se tornam admissíveis, enquanto
outras se tornam inexprimíveis. Convém relembrar que a subjetividade, longe de
ser um dado natural ou uma esfera privada intocável, é o efeito - sempre
instável - de forças, interesses e poderes em ação.
É neste ponto que a palavra política do tempo presente exibe
a sua esperteza. Não atua apenas no campo do argumento, mas na melodia dos
afetos, na agitação do medo, da ansiedade, do ressentimento e do desejo de
pertença. A influência deixa de ser aberta para se tornar uma ação de indução,
de normalização e de desgaste simbólico. O sujeito não é, deste modo, apenas
assediado, mas também orientado, disciplinado e, muitas vezes, exausto.
A palavra política, mais do que nunca, move-se como
instrumento de ocupação do espaço simbólico. Não se dispõe a competir: procura,
antes, anular, desacreditar e dominar quem lhe resiste. O cenário do tempo
atual vai assim incentivando um espetáculo burlesco e ruidoso, eficaz
precisamente na sua obscenidade, onde a ausência de pudor, de sentido moral e
de dignidade deixa de ser um mero desvio ocasional para se tornar um método
contínuo de exercício do poder.
domingo, fevereiro 01, 2026
O EU QUE SE PERFAZ NO COMUM
Julgo ser hoje bem importante relembrar que a diferenciação
não é um procedimento isolado do convívio social nem uma conduta de rutura
total com o todo. É, antes, um progresso exigente e inacabado, no qual o “eu”
se diferencia no interior de um “nós” que o antecede e o conforma. O humano não
se evolui contra o comum, mas a partir dele, individualizando-se e
diferenciando-se, sem jamais se libertar por completo da estrutura social,
simbólica e afetiva que o constitui. Entre o “eu” e o “nós” instala-se, assim,
uma relação peculiar: a da dependência que torna possível a diferença. Já o
“eles” assinala o limite, o exterior, o campo da alteridade através do qual o
“nós” se reconhece e o “eu” se situa.
Esse processo de diferenciação e desenvolvimento é
inseparável da transformação. Não há identidade que não seja atravessada pelo
tempo, pelo conflito e pela experiência. Individualizar-se é transformar-se, e
transformar-se é aceitar que a singularidade não é um dado estático, mas um
processo, um devir. O sujeito é um ser que vai sendo na interposição contínua
com os outros, com as normas, com os afetos e com as ruturas que o
desestabilizam e, paradoxalmente, o reconfiguram.
Nesse percurso, a performatividade desempenha um papel
decisivo. O “eu” não se limita a ser: vai-se realizando, afirmando e
representando socialmente. A identidade é também atuação, momento, exposição,
repetição e distanciamento. Contudo, essa relação com a ação não é arbitrária;
realiza-se num campo em que a racionalidade orienta, condiciona e, por vezes,
delimita. Singularizar-se é sempre agir num espaço de possibilidades
historicamente estruturado, onde a liberdade se exerce de forma concreta e
nunca absoluta.
Terminando, acrescento que a relação entre o “eu” e os coletivos suscita frequentemente a inexatidão da pertença. O “nós” oferece reconhecimento, sentido e abrigo simbólico, mas pode também exigir conformidade e silenciar a diferença. Pertencer é, simultaneamente, ganhar lugar e perder margem. A individuação plena não passa pela recusa dos grupos, mas pela capacidade crítica de habitar o “nós” sem nele se dissolver, mantendo viva a tensão entre o singular e o comum, entre a identidade e a abertura ao outro. Importa, pois, aprender a individuar-se sem romper o todo do “eu, nós e o devir”. Eis, assim, o meu olhar sobre o tempo que nos acompanha.
segunda-feira, janeiro 26, 2026
A TRIBO, O TRIBUNAL E A PERDA DO COMUM
O tempo político vem-se consumindo na agitação entre tribos e moralismos. De um lado, uma oratória identitária que faz do medo, do ressentimento e da exclusão um sentimento de pertença. Do outro, um discurso de reparo que, em nome de valores comuns, cede do confronto político e se resguarda na acusação dos princípios. Entre estes dois opostos, o espaço do comum vai-se debilitando, cedendo lugar ao controlo simbólico da culpa, enquanto a divergência é arrastada para o campo das fraquezas éticas. O problema não reside na pluralidade de valores em si mesma, mas na inépcia de os tornar politicamente claros e discutíveis. É aí que o confronto se agita e é aí, também, que se proporciona o corte e a exclusão indispensáveis. O “comum” medra onde o capital e o trabalho se reconhecem como divergência conjunta, não como identidades rivais. Será possível? Uma coisa é clara, voto no possível, voto na DEMOCRACIA.
sábado, janeiro 24, 2026
DO SUJEITO ÉTICO AO SUJEITO PULSIONAL
Breves notas sobre o desejo e os extremos ruídos
A sociedade dos tempos de hoje resvala, com frequência, para
uma cultura do impulso. Daí, surge uma influência penetrante na forma como o
sujeito se compreende a si mesmo e se relaciona com os outros. Não se trata
apenas de um aumento de busca de prazer ou de uma maior frente à liberalidade
dos costumes. Configura-se numa transição mais profunda, numa conversão onde o
desejo deixa de ser algo a ajuizar, a trabalhar ou a esculpir numa visão
partilhada, para se tornar critério último de validação da maneira de agir.
Nesta conformação, desejar não é apenas querer, é também autorizar-se.
O desejo mostra-se como manifesta, abrindo mão de interferências simbólicas,
normativas ou éticas. Aquilo que experimento, quero ou exijo passa a valer por
si mesmo. A fronteira, antes aprovada como condição da vida em comum, surge
agora como impedimento à autenticidade pessoal.
É nesta margem que se manobra a mudança do sujeito ético ao
sujeito pulsional. O sujeito ético funda-se na relação com o outro, aceitando a
existência de limites não escolhidos e reconhecendo a responsabilidade como
parte integrante da liberdade. O desejo, nesse cenário, não é rejeitado, mas intermediado
pela linguagem, pela cultura, pelo tempo, pela consideração da mudança
produzida sobre os outros.
O sujeito pulsional, quiçá desejante, pelo contrário, forma-se
a partir do ímpeto da experiência e da recusa da contrariedade. Vive a
contenção como violência simbólica e a responsabilidade como empecilho à
realização pessoal. Não se sente solicitado por um horizonte comum, mas por uma
razão de satisfação, frequentemente súbita, onde o outro desponta como meio,
espelho ou ameaça.
Esta conversão tem impactos abertos ao individualismo do
tempo presente. O indivíduo não se afirma apenas como livre, garante-se também como
autónomo. O comum deixa de ser espaço de uma construção partilhada e passa a
ser pressentida como restrição. A sociedade converte-se, então, numa herdade de
desejos oponentes, pautados mais por artifícios de mercado ou por engenhos
técnicos do que por referenciais éticos válidos e fundamentados.
O que se desaproveita, neste modo de pensar, é aquilo que
poderíamos nomear de o humano comum, valorizando a nossa pertença a um mundo
que não começa nem termina em nós, o acolhimento de deveres que não decorrem de
convenções, a consciência de que viver com outros requer responsabilizar-se pelo
que fazemos, mesmo quando ninguém nos obriga de forma assumida.
A incitação atual não consiste em recusar o desejo, nem em
retroceder a procedimentos impositivos de conformidade. Reside, isso sim, em
reinscrever o desejo numa humanização capaz de reconhecer a liberdade sem diluir
a responsabilidade e a singularidade sem transtornar o comum. Sem essa conciliação,
a cultura e a educação do desejo corre o risco de provocar sujeitos cada vez
mais concentrados em si mesmos, todavia ilogicamente mais vulneráveis, mais subordinados
e mais submetidos à distorção simbólica. Em exposição abreviada, diria que sem
sujeito ético não há desejo humano de verdade, apenas se dá vida a um impulso
biológico e mental, ou seja, um ímpeto à amargurada deriva.
sexta-feira, janeiro 23, 2026
FALÁCIAS, UM NOVO RUÍDO DA POLÍTICA
Leio e ouço argumentos que me assombram não pelo seu vazio,
mas pela hidrofobia das suas falácias. Refiro-me a modos de debater que, de
forma rude e agressiva, ignoram as exigências normativas do diálogo crítico em
que se entremeiam. Sem pudor nem dificuldade, desprendem-se do compromisso
elementar de oferecer razões partilháveis.
O que se afirma pode ter interesse, pode até reivindicar
legitimidade. Todavia, fá-lo sem qualquer relação com referenciais reconhecidos
de alcance universal e intemporal. Os desvios cognitivos aceleram-se numa falta
de lealdade discursiva tanto para com o interlocutor como para com o próprio
procedimento argumentativo. A falácia, neste contexto, não enfrenta a
discordância: procura esquivar-se ao desafio que ela impõe. Daí o recurso a
expedientes, sejam eles emocionais, identitários ou simplificadores, não para
fundamentar, mas para seduzir.
A falácia é, assim, uma violação contextual das exigências
de razoabilidade, reciprocidade e responsabilização que tornam possível um
espaço argumentativo confiável. O falacioso, neste quadro, não pretende
demonstrar o falso, mas antes impedir o outro de responder como falante
racional. As ondas sucessivas dessas falácias tornam-se, por isso, uma ameaça
evidente à democracia, ao espaço público e à própria integridade da disputa
democrática.
Defender a democracia, hoje, é também isto: recusar confundir eficácia com razão, visibilidade com legitimidade, adesão emocional com verdade política. Não se trata de silenciar, mas de exigir que quem fala aceite responder. Sem isso, não há debate. Há apenas ocupação do espaço público. E onde a argumentação morre, a democracia começa a contrair a sua doença fatal. Eis o cenário eleitoral dos tempos de hoje.
terça-feira, janeiro 20, 2026
ALGORITMO, RAIVA E ESPERTEZA
A redução da política à "esperteza Ventura" não se apresenta como uma corrupção explícita, mas afirma-se antes como uma contração do próprio espaço político. Já não se dedica a alicerçar o comum, mas a vencer por adaptação e remodelação estratégica do discurso.
A verdade torna-se desprezível, a justiça inoportuna e a
palavra pública um mero recurso de estímulo emocional. Neste regime, o
algoritmo não orienta nem governa: amplifica a gramática da raiva, do
ressentimento e do mau humor social.
O político deixa de se inscrever na vida concreta para se
colocar no campo da façanha, da exibição e do domínio pela força simbólica. A
democracia não cai nem colapsa de repente: enfraquece-se, acomoda-se e
adapta-se, até desaparecer. Por isso, aventuremo-nos no SEGURO.
domingo, janeiro 18, 2026
O TEMPO DE SI PRÓPRIO
O TEMPO DE SI PRÓPRIO
Parei num lugar qualquer. Era ali. O lugar não importava. Aqui, ali, ou até mesmo no sonho imaginário. Porque estou aqui? Num lugar qualquer tentando descobrir o porquê. Talvez o sonho a me incomodar outra vez.
Mas porque paras tu, pensei eu. Porque o meu silêncio não consegue ser ouvido. O caminho que cruza traz rapidez no sonho. Provavelmente. Mas porque parei por aqui outra vez?
E ali fiquei mais uma vez num lugar qualquer. Acolhendo memórias dispersas. Abraçando momentos no vento que sopra. Festejando abraços sem braços que sonho. O tempo passa devagar. Mas os sonhos correm cansados. Parei aqui. Questionando o cansaço, mas mesmo sem braços.
Espero os abraços. Parado aqui.
JF
A prosa poética “O Tempo de Si Próprio” expressa mais do que uma simples experiência: revela um momento crucial em que o autor se sente perdido diante de si próprio. Esse “lugar qualquer” em que o seu “eu poético pousa” não é um espaço físico reconhecível, mas um lugar interior, um ponto de paragem onde o movimento da vida se interroga. Parar aqui, e neste tempo, não é apenas suspender o andar, mas permanecer travado pela necessidade de compreender, ainda que sem resposta.
A ideia central acompanha, assim, um tempo vivido como
interioridade - um tempo alheado do tempo social ou refletido. É um tempo
próprio, íntimo, marcado pela lentidão “do tempo que passa devagar” e pelo
cansaço dos sonhos. Sonhar, neste poema, não surge como um rasgo de luz, mas
como um esforço persistente, de sonhos que “correm cansados”. Há desejo, sim,
mas um desejo fatigado, que já conhece bem o peso do tempo.
Interroga-se a si mesmo repetidamente ao perguntar: “Porque
estou aqui? Porque parei por aqui outra vez?”. Sei que essas perguntas pouco ou
nada procuram resolver; antes, despertam uma consciência entorpecida. A prosa mostra um eu que se pensa a pensar, dividido entre o impulso de seguir e a
necessidade de ficar. O silêncio revela-se decisivo, embora reconheça que o seu
“silêncio não consegue ser ouvido”. Trata-se de um silêncio saturado de
sentido, mas sem destinatário - um silêncio que, afinal, não encontra quem.
É neste ponto que se acentua um dos momentos mais
comunicativos do poema: a verdade dos “abraços sem braços”. Eis a imagem que
condensa a sua dimensão afetiva. Procura-se encontro, amabilidade,
participação; contudo, encontra-se o vazio de uma ausência concreta e contrária
ao desejo. O abraço existe como gesto imaginado, como memória ou sonho, não
como realidade vivida. O eu poético encontra-se, assim, numa condição de espera
desprotegida - uma espera obstinada, mesmo sabendo que nada acontece.
O “lugar qualquer” vai-se, então, transformando
progressivamente num lugar de acolhimento, abrigando memórias dispersas,
momentos levados pelo vento, fragmentos múltiplos de vida. Não há revivescência
emocional, mas uma atenção delicada ao que resta. O poético não dramatiza;
permanece. A repetição do gesto de parar indica que este estado não é
excecional, mas recorrente - talvez necessário.
Esse seu verso final - “Parado aqui” - não encerra o
poema com uma conclusão, mas com uma condição humana. O eu permanece, não
porque resolveu, mas porque reconhece que esse tempo - o tempo de si próprio -
é o único possível naquele instante. Há, nisso, uma ética silenciosa: a de não
fugir de si, mesmo quando o cansaço se torna maior do que a esperança.
quarta-feira, janeiro 14, 2026
LIBERDADE SEM PERFUME
Falar hoje de liberdade não é simples nem insignificante. Não apenas porque o mundo se tornou mais obscuro, mas porque a própria palavra se foi tornando leve e acelerada, disponível para quase tudo: para acomodar, para elogiar a eficiência, para cultuar a adaptabilidade e, sobretudo, para consagrar o desempenho. É neste chão traiçoeiro que a reflexão sobre a ação se torna decisiva. Não para resgatar uma liberdade ontológica cada vez menos considerada, mas para impedir que o humano se reduza a uma teoria convenientemente acordada.
Assim pensado, importa elaborar um posicionamento
esclarecedor que reconheça que a liberdade não é um milagre no interior da
causalidade, nem uma exceção ontológica num mundo governado por leis. É, pelo
contrário, uma destreza situada: a capacidade de agir sensível a razões, de
antecipar consequências, de rever escolhas e de responder pelo que se faz. Não
se trata de uma liberdade absoluta, mas de uma liberdade que assume esse
encalço praticável.
Este rearranjo só se sustenta se aceitarmos que a ação não é
um dado natural, mas um esforço possível e necessário. É nesse ponto que a
maneira de falar deixa de ser um artifício retórico e passa a constituir uma
condição. Sem um domínio de razões, de práticas de justificação, de crítica e
de responsabilidade, não há liberdade humana, mas apenas atividade vantajosa. O
entendimento exige, sim, palavras que obriguem, que exponham, que comprometam.
Convém reconhecer que a liberdade não desaparece quando
abandonamos as ilusões transcendentes; torna-se, isso sim, mais exigente. Já
não se garante por perfumes nem por palavras doces. Depende de ações, de
autenticidade e de crítica. E, sobretudo, da recusa em confundir inteligência
com esperteza, ação com adaptação, responsabilidade com artifício. Pensar a
liberdade hoje passa por aceitar esta tarefa ingrata: não a de possuir mais
opções, mas a de sustentar a condição de representante num mundo que prefere
sistemas eficientes a sujeitos responsáveis.
domingo, janeiro 11, 2026
DA ESPERTEZA AO PENSAMENTO
Não me falem de inteligência quando ela se apresenta como um lance ajeitável, condizente, pronto a difundir-se sem embaraço. Aí coloco a ideia de esperteza: essa arte que prontamente troca liberdade por mobilidade, dever por desempenho e responsabilidade por um hábil manuseio. Com o tempo, vou dando conta de que a esperteza, afinal, se conforma ao mundo tal como ele é. A inteligência, por sua vez, parece-me irromper quando esse acordo se torna, em crescendo, um obstinado e quase caprichoso obstáculo. Daí a urgência de reconhecer a falsa equivalência entre esperteza e inteligência.
sexta-feira, janeiro 09, 2026
UMA NOVA ECOLOGIA DA MANIPULAÇÃO E DA SEDUÇÃO
A manipulação e a sedução não são fenómenos novos na vida social. A retórica clássica, a publicidade moderna, a propaganda política e a indústria cultural sempre souberam que convencer raramente passa apenas pelo impulso dos argumentos. O que hoje se altera, com a algoritmocracia, não é tanto a existência desses procedimentos, mas a sua escala, a sua opacidade e a sua integração estrutural no quotidiano.
Tendo como referência o Vocabulário Crítico de
Argumentação de Rui Alexandre Grácio, a manipulação caracteriza-se
pela limitação da autonomia interpretativa do destinatário: omite alternativas,
distorce enquadramentos, conduz o juízo sem o assumir como tal. A sedução, por
sua vez, atua menos pela coerção do sentido e mais pela atração afetiva, pela
promessa implícita de pertença, reconhecimento ou prazer. Ambas operam numa
zona cinzenta da argumentação, onde o consentimento é obtido sem plena
consciência dos meios que o produzem.
A algoritmocracia pode ser lida como uma nova
ecologia dessas práticas. Não se limita a usar técnicas manipulativas
ou sedutoras; reorganiza o próprio ambiente onde o sentido circula. Os
algoritmos não argumentam: selecionam, hierarquizam, repetem e silenciam. Ao
fazê-lo, moldam o campo do dizível e do visível antes mesmo de qualquer
confronto racional.
Esta ecologia distingue-se por três traços centrais:
·
A personalização assimétrica. Cada
sujeito é exposto a um mundo informacional aparentemente feito à sua medida.
Essa adequação cria conforto cognitivo e reforço identitário, mas reduz a
discórdia com o diferente. A sedução opera aqui como familiaridade: vemos mais
do que confirma quem somos (ou quem julgamos ser). A manipulação surge quando
essa personalização oculta o facto de ser uma emenda interessada, orientada por
medidas de retenção, lucro ou influência.
· A autonomia da influência. Ao contrário da propaganda clássica, que exigia intenção explícita e agentes
identificáveis, a algoritmocracia dilui a responsabilidade. O efeito persuasivo
resulta de correlações estatísticas, testes contínuos e ajustes invisíveis. Não
há um discurso a refutar, mas um ambiente a respirar. A manipulação deixa de
ser episódica e torna-se envolvente.
·
A captura da atenção como valor perfeito.
A sedução algorítmica não promete verdade nem bem comum; promete continuidade:
o próximo vídeo, a próxima reação, a próxima indignação. O afeto é
constantemente excitado, raramente elaborado. Neste regime, a emoção não é um
desvio da racionalidade, mas o seu substituto funcional.
Deste ponto de vista, a algoritmocracia não empobrece apenas
o debate público; ela reformula a própria ideia de argumentação. Se a
argumentação pressupõe um espaço partilhado de razões, a lógica algorítmica
fragmenta esse espaço em parcelas insociáveis. O desacordo deixa de ser
conflito interpretável e torna-se, quiçá, um falatório provocador.
A consequência política torna-se evidente: cidadãos
progressivamente convencidos sem ponderar, envolvidos sem decidir,
mobilizados sem compreender. A manipulação já não se apresenta como imposição
externa, nem a sedução como convite assumido; ambas se naturalizam como
experiência quotidiana, confortável e eficiente.
Resistir a esta ecologia não significa recusar a técnica,
mas reintroduzir serenidade no pensamento: recuperar a lentidão, a
exposição ao contraditório, a consciência dos enquadramentos. Significa também
reinscrever a argumentação como prática ética, onde persuadir implica
reconhecer o outro como sujeito e não como natureza.
A questão decisiva, afinal, não é saber se somos manipulados
ou seduzidos - isso sempre fomos. A questão é saber quem organiza o
ambiente onde isso acontece, com que critérios e com que possibilidade de
resposta crítica. É aí que a algoritmocracia revela o seu verdadeiro alcance:
menos um regime de censura, mais um regime de orientação escondida do sentido.
quarta-feira, janeiro 07, 2026
VIDA SOB CERCO
Acordei hoje sob o resguardo do receio, abalado pela
brutalidade política e pela indigência do amanhã possível. A adversidade deixou
de ser exceção: tornou-se método, instituindo uma angústia quotidiana que
submete a vida à resistência estéril, à adaptação oportunista, à submissão
prudente e ao pressentimento sem consequências.
Mais do que a especulação financeira, é o cerco da
obediência que se aperta. Proliferam ideais abstratos enquanto as ideias
concretas de liberdade são desvalorizadas, difamadas ou neutralizadas. O
prazer, a autenticidade e a recusa - outrora sinais de afirmação subjetiva e
social - perdem legitimidade, tratados como desvios inconvenientes ou luxos
irresponsáveis.
A violência política não se apresenta como assomo de
loucura, mas como racionalidade funcional elementar. Os seus efeitos não são
colaterais: são o próprio objetivo. Vidas abortadas, existências encolhidas,
futuros administrados antes de poderem ser imaginados. Uma vida disciplinada
pelo medo, pela competição e pela obediência converte a disputa permanente em
norma e faz da agressividade um instrumento estratégico legitimado.
Não obstante, a arte de viver não abdica da alma nem da sua verdade. Não se confunde com adaptação nem com sobrevivência obediente. É uma postura de inconformidade íntima e pública, recusa consciente da servidão apresentada como realismo, afirmação deliberada de dignidade num tempo que insiste em tratá-la como subversão. Como realismo, uma afirmação da Dignidade não se aceita Subversiva.
segunda-feira, janeiro 05, 2026
O TRIUNFO DA HIPOCRISIA
As chamadas proteções argumentativas tornaram-se hoje expedientes eficazes de resguardo moral. Funcionam por meio de complexificações paralisantes, desvios calculados de responsabilidade, relativismos seletivos e moralismos de fachada. O seu objetivo não é esclarecer, mas amortecer a crítica, permitindo que práticas já eticamente frágeis permaneçam intactas.
É neste contexto que a hipocrisia deixa de ser apenas
incoerência individual e se transforma numa forma social de desorientação moral.
Ela enfraquece a espessura histórica da responsabilidade e converte a linguagem
ética em dispositivo de neutralização. Com o tempo, torna-se um sinal claro de
que já não acreditamos plenamente nas nossas próprias justificações, embora
continuemos a repeti-las com crescente sofisticação.
A hipocrisia passa então a operar como índice de dissonância
coletiva. O juízo moral amplia-se, o discurso ético prolifera, mas a ação
permanece cativa dos interesses instituídos, dos confortos adquiridos e das
identidades estabilizadas. Algo tenta mudar, mas encontra resistência
organizada sob a forma do adiamento, da complexidade e do gesto simbólico.
Por isso, hipocrisia e ambição moral não se conjugam. A
ambição moral exige coerência entre juízo e ação, disposição para a perda e
coragem para romper com o habitual. Supõe conflito e transformação. A
hipocrisia, pelo contrário, alimenta-se da moral, acolhe a crítica apenas para
a desarmar e converte o discurso do bem em cobertura legitimadora do existente.
Nesse sentido, a hipocrisia contemporânea não é apenas um
vício individual. É um sintoma social: revela um tempo em que o círculo moral
tenta alargar-se, enquanto a ordem vigente se defende pela retórica que tudo
reconhece e nada transforma. Daí, o triunfo cínico da hipocrisia...
sábado, janeiro 03, 2026
O CAPITALISMO E A DOMESTICAÇÃO DA CRÍTICA
O capitalismo não é apenas um modelo económico. É um maquinismo totalizante que se fez infraestrutura da realidade, organizando antecipadamente a nossa perceção do que é pensável, do que é possível e do que é sumariamente interdito. Não se limita a governar a economia: governa o horizonte do imaginável. Tudo o que dele escapa surge como delírio, ingenuidade ou ameaça.
A sua força não reside somente no consumismo, mas na captura
do desejo e na simulação de uma liberdade reduzida à escolha entre ofertas. O
mercado apresenta-se como instância libertadora quando, na verdade, condiciona
a própria criação da vontade. A subjetividade deixa de ser espaço de abertura
para se tornar produto moldável, adaptável e funcional.
Neste quadro, o capitalismo revela a sua dissimulação maior:
a capacidade de absorver a crítica que lhe é dirigida, neutralizando-a. A
contestação é tolerada desde que seja rentável, estetizada ou inofensiva. A
crítica transforma-se em mercadoria, em gesto simbólico sem consequências,
integrada no mesmo caminho que afirma combater.
O resultado é uma ordem que se apresenta como inevitável, segura
pela fórmula cínica do “não há alternativa”. Romper com essa lógica exige mais
do que indignação ou consumo crítico: exige a recusa ativa das coordenadas do
possível que nos são impostas. Pensar contra o capitalismo é não só reaprender
a desobedecer como, também, atrever-se a conjeturar o futuro.
quinta-feira, janeiro 01, 2026
UM BOM 2026, TAMBÉM DE NÓS DEPENDE
Nasci em 1948. Venho de um tempo em que a história ainda se
escrevia com a esperança de poder ser transformada. Abril de 74 marcou esse
horizonte. Hoje, já dentro de outra modernidade, mais veloz e mais disputada, o
que mais me inquieta é a facilidade com que o sofrimento social se tornou
normal, quase natural, como se fosse parte inevitável da condição humana.
Vivemos rodeados de justificações. A ansiedade, a
insegurança e a exaustão são tratadas como problemas individuais, destinos
pessoais num mundo de competição permanente. O reconhecimento passou a medir-se
por desempenhos e visibilidades, perdendo a sua dimensão humana, histórica e
política. Sofre-se muito, mas pergunta-se pouco porquê.
Ser social não é apenas conviver; é participar numa certa
forma de sociabilidade. E a nossa expõe continuamente os indivíduos, avalia-os,
compara-os, exige-lhes presença e sucesso. O sofrimento não nasce do facto de
vivermos em sociedade, mas da maneira como a sociedade se organiza e se impõe.
Perante problemas estruturais, oferece-se uma solução
simples: adapta-te melhor. Sê mais resiliente, mais produtivo, mais positivo.
Assim, o sofrimento é aceite, administrado, normalizado, ou seja, as suas
causas ficam fora de questão.
Talvez o desafio de 2026 não seja aprender a suportar melhor
este mundo, mas perguntar se todas as formas de o organizar merecem continuar.
O conflito não está entre a natureza humana e o progresso, mas entre impulsos
humanos básicos e sistemas sociais que os exploram e amplificam.
Recusar certas lógicas não é recusar a condição humana. É levá-la a sério. Um bom 2026 não virá apenas do calendário. Também depende de nós, da nossa capacidade de pensar, recusar e transformar.
terça-feira, dezembro 30, 2025
RESPIRAR AINDA NÃO TEM PREÇO
Chamam-lhe mercado, mas para viver vai-se exigindo cada vez
mais uma taxa de utilização. O capitalismo contemporâneo não avança: ocupa.
Organiza-se menos em torno da produção e mais em torno da apropriação, de
rendas, de dados, de tempo, de atenção, de afetos. O comum privatiza-se com a
naturalidade de quem transforma a evidência em mercadoria. O ar, o tempo, a
linguagem, o cuidado: tudo entra no circuito da extração. Não se faz mundo.
Administra-se o acesso. E quem controla as cercas dispensa a violência:
basta-lhe gerir a dependência.
segunda-feira, dezembro 29, 2025
O HUMANO REDUZIDO AO OFÍCIO
A atividade humana ordena-se mal quando se interpõe como obstáculo entre a ação e o seu sentido. O domínio da propriedade privada e a divisão do trabalho transformam-se então em oposições que se tornam arrumadores quotidianos, por vezes verdadeiros expropriadores, do domínio do trabalhador sobre a sua própria vida.
O desfecho é uma forma de estar em que o ser humano surge
cada vez mais como utilidade, rendimento ou reforço produtivo, e cada vez menos
pelo valor do que faz e do mundo que alimenta. A alienação intensifica-se,
convertendo-se num calvário externo de subsistência. Subordinado à
racionalidade da pertença privada e a uma divisão fragmentada do trabalho, o
ser humano vê-se afastado do todo do seu agir, desligando-se da sua própria
vida.
Reconhecer a alienação não é apenas um exercício de clareza,
mas um gesto basilar e, por isso mesmo, ético. Sempre que a atividade humana se
submete a mediações que escapam ao seu controlo consciente, a vida organiza-se
contra si própria. Recuperar o sentido humano do trabalho implica reintegrar a
sua orientação e reconhecer os sujeitos como autores do seu agir e
corresponsáveis pelo mundo comum que constroem. Sem essa progressiva
apropriação ética da atividade humana, toda a promessa de avanço permanece fútil,
e a liberdade se reduz a uma mera aparência formal.
domingo, dezembro 28, 2025
PELO MONTE NEGRO ... PRECIPITOU-SE
Perdeu-se, como tantos, neste tempo em que a virtude deixou de se exercer para passar a exibir-se na linguagem pública. Incorreu num erro mais grave do que parece: tomou uma reconhecida qualidade futebolística por sinal de excelência moral, como se o êxito visível garantisse a retidão do carácter. Assim se baralhou, não por ignorância inocente, mas por vaidade interessada, nesse espaço público onde a justiça se mede pelo aplauso e a ética se confunde com reconhecimento.
sexta-feira, dezembro 26, 2025
LEIO PARA ME CONTINUAR HUMANO
Ler não é apenas aceder à informação. Ler é, antes de mais, viver
um tempo. Um tempo que não se mede pela rapidez da resposta, mas pela
capacidade de permanecer, de voltar atrás, de aceitar o que não se entende de
imediato. A leitura mais exigente, sobretudo a literária, pede persistência,
silêncio interior e uma inteligência capaz de suportar ambiguidades, dúvidas e
sentidos que não se fecham rapidamente. Ora, a sociedade digital, marcada pela
aceleração constante e pela interrupção permanente, tende a corroer essa temporalidade
longa. O risco não é apenas ler menos, mas ler de outra maneira, de forma mais
apressada e menos fecunda em solidez simbólica.
Neste contexto, o papel dos algoritmos torna-se decisivo. A
mediação algorítmica tende a sobrepor-se à experiência direta da leitura. Ao
enfatizar o previsível e ao organizar conteúdos segundo preferências já
conhecidas, o algoritmo reduz o encontro com o inesperado e transforma o leitor
no persistente perfil de consumidor. A leitura, porém, ganha verdadeiro valor
quando faz exatamente o contrário: quando desabriga quem lê, quando confronta
com o estranho, o incómodo, o que não confirma expectativas. Enquanto o
algoritmo oferece reconhecimento e conforto, a literatura oferece alteridade, a
experiência de sair de si e de ser interpelado por outras vozes, tempos e
mundos.
É neste ponto que se torna decisiva a afirmação de que o ser
humano não é, nem deve ser, uma marionete. Errar, hesitar, interpretar, reler,
mudar de sentido fazem parte da nossa condição. A leitura, entendida em
profundidade, pode ser um gesto de resistência contra a automatização da
subjetividade, isto é, contra a tentação de nos pensarmos como sistemas
eficientes de respostas imediatas. Quando reduzida ao seu valor prático e
instrumental, a leitura perde a sua dimensão formadora. Mas quando acolhida na
sua essencialidade, ela contribui para a construção de um sujeito mais atento,
mais crítico e mais humano.
A literatura, em particular, é um espaço privilegiado de complexidade
moral. Ela não simplifica o mundo nem oferece soluções rápidas para as vidas
humanas. Pelo contrário, introduz obstáculos, dilemas e dificuldades que
enriquecem a experiência de quem lê. O ambiente digital tende a caminhar no
sentido oposto: favorece posições rápidas, indignações instantâneas e
identidades rígidas, facilmente reconhecíveis. A leitura literária ensina a
convivência com o incerto, com o contraditório e com pessoas que não cabem em bordões
morais nem em juízos imediatos.
Como síntese, importa assumir uma posição crítica, mas não reacionária. Trata-se de defender a leitura enquanto prática de atenção num mundo dispersivo; de afirmar o exercício da liberdade contra a personalização algorítmica; de valorizar a leitura como experiência ética de encontro com o outro; e de recusar a redução do gesto humano à lógica da máquina. Nesse sentido, pode dizer-se, em formulação final, que ler é uma forma de dizer “não” à redução da vida e à sua versão somente funcional.
quinta-feira, dezembro 25, 2025
O NATAL, O TEMPO, A MEMÓRIA E O FUTURO
O Natal sempre se me apresenta como um tempo que regressa. Mas não regressa o passado tal como foi; regressa a memória que, ao ser evocada, se transfigura. Não me lembro apenas de eventos: lembro-me daquilo que, ao ser recordado, continua a ser vivido por dentro, dando forma ao que somos.
A consciência humana não se fixa no instante. Ela
prolonga-se no tempo, como um laço frágil que liga o que fomos ao que ainda
podemos ser. É nessa continuidade que a memória, atravessada pela emoção e pela
palavra, vai entrelaçando a nossa identidade, não como substância fixa, mas
como processo vivo, sempre inacabado, sempre exposto ao sentido que se renova.
Neste tempo de Natal, sempre povoado de imagens, rituais e
promessas repetidas, talvez o essencial seja prestar atenção à memória que nos
habita. Não como refúgio nostálgico, mas como responsabilidade tranquila e
sossegada. A memória não é, pois, um lugar de repouso, mas uma silenciosa
vitalidade que nos envolve e habita o presente sem renunciar ao futuro.
Se ainda há algo a resgatar neste tempo, talvez seja a
consciência de que o humano não está seguro nem definitivamente afirmado. Ele
constrói-se lentamente: no modo como se lembra, no cuidado que tem com o tempo
vivido e na delicada tarefa de abrir, a partir dele, um futuro que não seja
apenas repetição.
Talvez o Natal, no seu sentido mais humano, seja um precioso
instante de atenção ao tempo que somos, à memória que nos constitui e à
possibilidade - sempre frágil - de não deixarmos o futuro tombar no fácil
esquecimento.
terça-feira, dezembro 23, 2025
FELIZ NATAL …
… UM GESTO SIMPLES, UMA EXIGÊNCIA HUMANA
Em tempo de Natal, sinto-me deliberadamente num lugar sem
fronteiras. Um momento onde a convicção não se apronta em separação, a dúvida
em rejeição, mas simplesmente o espírito humano procura reconhecer-se. Ao longo
do tempo fui aprendendo a escutar o Natal para além da sua inscrição religiosa,
não como preceito a repetir, experiência a viver ou simples memória ritual, mas
sim como uma instância presente.
O que este tempo nos devolve, antes de mais nada, é relembrar
a consciência da nossa fragilidade. O humano começa sempre pequeno: exposto,
dependente e entregue. Não é apesar dessa fragilidade que merece cuidado, mas
exatamente por causa dela. A figura da criança, incessantemente repetida, pese
embora tantas vezes esquecida, relembra-nos que ninguém se cuida por si e que a
vitalidade carece de cuidado para persistir no tempo.
Talvez seja aqui que o Natal se aproxima de uma verdade
humana mais funda, sobretudo quando a fragilidade deixa de ser lida como desvio
e passa a ser reconhecida como vínculo. Quando o simples, o rejeitado, o velho
e o emigrante deixam de figurar como problemas a gerir e passam a valer-se como
rostos a não abandonar.
O Natal não surge para desmentir o mundo tal como ele se
apresenta, nem para o reabilitar por negação. Antes, e brevemente, abre um
intervalo no tempo em que o outro pode deixar de ser abstrato e tornar-se
próximo, não por semelhança, mas precisamente pela diferença. Nesse instante
descontínuo, somos chamados à responsabilidade antes da avaliação, à atenção
antes do juízo. O rosto do outro fala primeiro e a sua presença basta para nos tornar
necessários.
O Natal não nos exige vaidades nem gestos teatrais. Pede
contenção, pede que não acrescentemos peso ao peso do sofrimento, que não formalizemos
a crueza, assim como não abandonemos o humano por tédio ou desprezo. O Natal já
não pertence apenas a uma tradição religiosa, pese embora nela tenha tido
origem. Ao longo do tempo, o Natal, tornou-se uma herança comum, claramente aberta
solicitando um horizonte mais amplo e compartilhável. É nesse sentido que, para
mim, o Natal não é um credo a professar, mas uma prática a assumir. Melhor dizendo,
um gesto simples e exigente que reconfirma que ninguém é dispensável, nenhuma
vida é irrelevante e que a humanidade só existe quando é continuamente
reconhecida, cuidada e exercida. Logo, sejamos simples e exigentes a caminho de
um Natal feliz.
segunda-feira, dezembro 22, 2025
GENEALOGIA DE UM PRESENTE FRAGMENTADO
3. Um caminho entre a crítica e a ideologia
Vivemos um tempo em que a transparência da verdade se
obscurece, o desprezo pela racionalidade se aperfeiçoa e a exaltação de um
subjetivismo absoluto se exibe orgulhosamente no palco da metáfora teatral. A
produção cultural, sobretudo de matriz norte‑americana, difunde‑se no campo da
moralidade existencial e dos seus refinamentos, dando voz ao engenho ideológico
basilar do capitalismo tardio, marcado pela globalização, pela financeirização
extrema e pela expansão do consumo a todas as esferas da vida.
Neste processo, o antagonismo político real é
progressivamente deslocado e neutralizado, substituindo‑se a luta de classes
por divergências culturais e de valores. A clivagem fundamental entre capital e
trabalho é, assim, habilmente silenciada por outras matérias que, não sendo
irrelevantes, ocupam o lugar do conflito económico e social efetivo, funcionando
como seus substitutos simbólicos. Questões como o aborto, a identidade de
género, a raça, a religião, as linguagens ou os costumes acabam por contribuir
para que o todo social se conserve submisso, e silencioso, perante a lógica do
capital e os seus interesses.
Assistimos, por isso, a múltiplos desacordos que,
curiosamente, convergem num ponto essencial: a aceitação do capitalismo como
dado lógico e natural. Em campos aparentemente opostos, a economia é tratada
como competência técnica e não como terreno de disputa política, sendo reduzida
a uma questão moral ou cultural. O resultado é um conflito intenso em
aparência, mas estéril em consequências transformadoras. A identidade, enquanto
forma ideológica dominante, reorganiza injustiças estruturais sob a forma de exigências
de reconhecimento simbólico, funcionando como uma ideologia amplamente
compatível com o mercado.
Os conflitos sociais e políticos passam, assim, a ser
formulados em termos de valores culturais e morais, nos quais grupos opostos
disputam influência sobre a identidade nacional, a educação, a religião ou os
costumes, utilizando a “cultura” como principal campo de batalha. Os
adversários deixam de ser concebidos como portadores de interesses materiais
divergentes e passam a ser representados como incompetentes, perversos ou imorais,
isto é, como perigos fundamentais. O resultado manifesta‑se num estado de
indignação moral permanente, que bloqueia a possibilidade de uma política
emancipatória efetiva.
A chamada guerra cultural designa, deste modo, uma disputa
ideológica em torno de modos de vida, hábitos, convicções e valores, na qual
diferentes grupos procuram assegurar a hegemonia cultural para influenciar a
política e o pensamento social. Não se trata de uma oposição direta no plano
material, mas de um confronto situado no domínio das ideias, visível, por
exemplo, nos debates sobre família, religião ou direitos. Este processo produz
simplificações abusivas, gera envolvimentos emocionais intensos e evita, de
forma sistemática, disputas centrais sobre redistribuição, propriedade e
trabalho. A governação passa, então, a operar sobretudo pela reação emocional,
pelo entusiasmo ou pela agitação simbólica, explorando afetos fortes e
mobilizações imediatas.
O paradoxo é evidente. Como observa Žižek, quanto mais intenso se torna o antagonismo cultural, menor é o alcance da verdade política real e concreta. O confronto simbólico, embora pareça radical, preserva intacta a estrutura económica, ao mesmo tempo que consome a energia crítica da sociedade. Eis o teatro ideológico que tendemos a aceitar: uma falsa polarização que funciona como mecanismo de contenção do antagonismo social. Não é o excesso de conflito que define o presente, mas antes a deslocação calculada do antagonismo, cuidadosamente instalado no lugar errado, como substituto do conflito essencial.