A liberdade tornou-se uma palavra sem norte: um “vai-e-vem” que pouco ou nada cuida. É invocada como passaporte para a irresponsabilidade, para a indiferença social, para a boçalidade orgulhosa e, não raras vezes, para a parvoíce exibida como autenticidade. Com destreza, manifesta-se a “liberdade” num singular conforto que se afasta de qualquer ideia de compromisso.
Deste uso e costume nasce um deus-dará politicamente
eficiente. A liberdade é deslocada para o terreno do acolhimento conveniente:
dispensa definições, desconfia da consistência e recusa a ordenação das ideias.
O mundo torna-se um espaço de opiniões soltas, indignações descontínuas e
certezas instantâneas. Pergunta-se, então, como viver sem tropeçar num tempo
que já não garante nem consistência moral nem memória crítica.
Dito de um lugar hoje bem pouco valorizado - e, por isso
mesmo, mais ou menos suspeito -, a liberdade dá trabalho. Não é um atributo
identitário para exibir nas redes, nem um direito abstrato para brandir contra
tudo e contra todos. É uma prática exigente, feita de atenção, disciplina e
transformação de si. Exatamente o oposto da cultura da reação imediata, do
mérito autopromovido e da convicção ruidosa que obstaculiza o pensamento.
O tempo de hoje inventa representações contraditórias da
liberdade. Uns desarrumam-na no vazio total de limites e descobrem, tarde
demais, que uma vida sem limites é uma vida sem normas comuns e, como tal, um
terreno fértil para a lei do mais forte. Outros submetem-na às normas de um
purismo moral e de sentinela permanente, convertendo a liberdade numa
obediência ajustada, vista como bem-intencionada e socialmente admitida. Em
ambos os casos, a liberdade esbate-se: ora capturada pelo “mercado do eu”, ora
pelo “moralismo do nós”.
Entre o impulso justificado e a norma consagrada, resiste
uma ideia pouco popular e politicamente incómoda: a liberdade não justifica,
não desobriga, não protege. Expõe. Impõe a resposta pelo que se faz, pelo que
se diz e pelo que se decide calar. Não é defesa nem desculpa, mas critério.
Talvez por isso seja tão prestigiada no discurso público e tão raramente
assumida na vida quotidiana.
Pensar a liberdade hoje exige menos entusiasmo retórico e
mais claridade crítica. Menos palavras de ordem, menos ofensa travestida de
direito, menos virtude convertida em representação pública. Exige mais
responsabilidade social, mais densidade cultural, mais consciência do lugar que
se ocupa e dos efeitos que se produzem. A liberdade não absolve, não desobriga,
não defende. Exige. Por isso, com a liberdade não se transige: ou se caminha,
ou se manca.
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