Com esta idade, vou confirmando que o desejo de ter o que o outro tem não nasce porque o outro me estorva; o que me provoca é aquilo que nele aparece como excesso. É a minha silenciosa e boba inveja que arrasta este obtuso desejo.
Estúpido, sem dúvida: arrastado por algo que vem de fora,
não de um suposto “eu” puro, mas de uma identidade que não é a minha. Sinto-me,
por isso, capturado por um vício grotesco, abraçado a uma súbita paralisia
existencial.
Reconheço-me, então, como um invejoso que não consegue
caminhar a sua própria vida, embora permaneça sempre atento — e julgador — dos
assuntos alheios. Progressivamente, sinto-me afastar da minha individualidade,
da minha vontade, falseando o meu próprio caminho e a minha verdade crítica.
Confirmo, assim, que o desejo verdadeiro não vem acompanhado
de segurança: alimenta-se da falta, da ausência, do desconhecido.
E, neste ambiente de manipulação e desigualdade, a injustiça
torna-se um ator nem sempre visível. O seu cinismo opera de forma intencional,
consciente, e procura — sem pudor — decidir por todos.
Será que ainda vou na fita?
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