quarta-feira, abril 29, 2026

O VÍCIO DE NÃO SER EU

Com esta idade, vou confirmando que o desejo de ter o que o outro tem não nasce porque o outro me estorva; o que me provoca é aquilo que nele aparece como excesso. É a minha silenciosa e boba inveja que arrasta este obtuso desejo.

Estúpido, sem dúvida: arrastado por algo que vem de fora, não de um suposto “eu” puro, mas de uma identidade que não é a minha. Sinto-me, por isso, capturado por um vício grotesco, abraçado a uma súbita paralisia existencial.

Reconheço-me, então, como um invejoso que não consegue caminhar a sua própria vida, embora permaneça sempre atento — e julgador — dos assuntos alheios. Progressivamente, sinto-me afastar da minha individualidade, da minha vontade, falseando o meu próprio caminho e a minha verdade crítica.

Confirmo, assim, que o desejo verdadeiro não vem acompanhado de segurança: alimenta-se da falta, da ausência, do desconhecido.

E, neste ambiente de manipulação e desigualdade, a injustiça torna-se um ator nem sempre visível. O seu cinismo opera de forma intencional, consciente, e procura — sem pudor — decidir por todos.

Será que ainda vou na fita?

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