A subjetividade não nos nasce acabada, nem se esgota na
nossa intimidade. Constrói-se no encontro entre o vivido e o universo da
cultura, nessa linha mestra onde procuramos dar sentido à vida, aos outros e a
nós próprios. É por aí, nesse caminho de pensamento, que os valores deixam de
ser simples referências exteriores para se tornarem princípios orientadores da
existência.
Talvez por isso Resweber recorra à reduplicação: «o valor
é o valor do valor». Esta formulação, aparentemente paradoxal, não
constitui um mero jogo de palavras. Ela evidencia que o valor não retira a sua
legitimidade da utilidade, do consenso ou da conveniência. O valor vale porque
remete para uma dimensão que o transcende. O seu fundamento reside precisamente
na capacidade de despertar reconhecimento, de interpelar a consciência para
além do imediato e de abrir um horizonte de sentido.
É importante recordar que a aparência exige sempre uma
compreensão mais exigente. A aparência não é, por si mesma, simulacro. É o
simulacro que faz passar por realidade aquilo que apenas oculta outra
realidade. A aparência pode, pelo contrário, revelar e transmitir. Torna
visível uma relação com um ideal poético, ético ou religioso, conferindo forma
e consistência ao agir humano. O símbolo não oculta a verdade; oferece-lhe,
antes, uma expressão sensível para que possa ser reconhecida.
Os valores precedem-nos. Encontramo-los inscritos na
cultura, presentes nas palavras, nos gestos, nas obras, nas instituições, nos
sinais e nos bens que uma comunidade vai produzindo ao longo da sua história.
Contudo, essa existência permanece apenas potencial enquanto os valores não
forem acolhidos pela subjetividade. Só quando se tornam objetos do desejo
deixam de ser um património imóvel para se converterem numa força dinâmica,
capaz de suscitar novas formas de pensar, de agir e de criar.
Daqui decorre igualmente que o consenso coletivo, embora
necessário para o reconhecimento social dos valores, não basta para os fundar.
A maioria pode reconhecer práticas ou costumes, mas não cria, por si só, o
valor. Se assim fosse, toda a verdade dependeria apenas das circunstâncias
históricas ou da vontade das forças dominantes. O consenso reconhece; não
constitui, porém, o fundamento último daquilo que merece ser reconhecido.
O valor oferece-se ao sujeito como um apelo. A cultura
transmite-nos um património simbólico que solicita a nossa adesão. Mas essa
adesão nunca é automática. Cada pessoa é chamada a dar crédito ao crédito que a
própria cultura lhe oferece, confirmando ou renovando, pela liberdade e pela
responsabilidade, aquilo que recebeu. É neste reconhecimento que a
subjetividade cresce e se humaniza.
Os valores situam-se, por isso, na confluência de uma dupla
economia. Por um lado, a economia da necessidade, que exige referências
estáveis, pontos de apoio e condições de satisfação para a vida concreta. Por
outro, a economia do desejo, que recusa permanecer encerrada na simples
utilidade e transforma esses mesmos dados em expressões de finalidades mais
elevadas, capazes de orientar a existência para horizontes de transcendência. É
o desejo que impede a vida humana de se reduzir ao cálculo das necessidades,
convertendo o útil em significativo e a sobrevivência em projeto.
Neste sentido, a subjetividade não constitui um universo fechado sobre si próprio. Realiza-se precisamente quando reconhece que os valores não são uma invenção arbitrária do indivíduo nem uma simples imposição da sociedade. São possibilidades de sentido que a cultura conserva, que a consciência reconhece e que o desejo faz florescer na história. Caminhar para os valores é, afinal, o processo através do qual a pessoa ultrapassa o imediatismo do interesse, abre espaço ao reconhecimento do outro e encontra razões para dar unidade, coerência e dignidade à sua própria existência.
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