quarta-feira, julho 22, 2026

A SUBJETIVIDADE A CAMINHO DOS VALORES

A subjetividade não nos nasce acabada, nem se esgota na nossa intimidade. Constrói-se no encontro entre o vivido e o universo da cultura, nessa linha mestra onde procuramos dar sentido à vida, aos outros e a nós próprios. É por aí, nesse caminho de pensamento, que os valores deixam de ser simples referências exteriores para se tornarem princípios orientadores da existência.

Talvez por isso Resweber recorra à reduplicação: «o valor é o valor do valor». Esta formulação, aparentemente paradoxal, não constitui um mero jogo de palavras. Ela evidencia que o valor não retira a sua legitimidade da utilidade, do consenso ou da conveniência. O valor vale porque remete para uma dimensão que o transcende. O seu fundamento reside precisamente na capacidade de despertar reconhecimento, de interpelar a consciência para além do imediato e de abrir um horizonte de sentido.

É importante recordar que a aparência exige sempre uma compreensão mais exigente. A aparência não é, por si mesma, simulacro. É o simulacro que faz passar por realidade aquilo que apenas oculta outra realidade. A aparência pode, pelo contrário, revelar e transmitir. Torna visível uma relação com um ideal poético, ético ou religioso, conferindo forma e consistência ao agir humano. O símbolo não oculta a verdade; oferece-lhe, antes, uma expressão sensível para que possa ser reconhecida.

Os valores precedem-nos. Encontramo-los inscritos na cultura, presentes nas palavras, nos gestos, nas obras, nas instituições, nos sinais e nos bens que uma comunidade vai produzindo ao longo da sua história. Contudo, essa existência permanece apenas potencial enquanto os valores não forem acolhidos pela subjetividade. Só quando se tornam objetos do desejo deixam de ser um património imóvel para se converterem numa força dinâmica, capaz de suscitar novas formas de pensar, de agir e de criar.

Daqui decorre igualmente que o consenso coletivo, embora necessário para o reconhecimento social dos valores, não basta para os fundar. A maioria pode reconhecer práticas ou costumes, mas não cria, por si só, o valor. Se assim fosse, toda a verdade dependeria apenas das circunstâncias históricas ou da vontade das forças dominantes. O consenso reconhece; não constitui, porém, o fundamento último daquilo que merece ser reconhecido.

O valor oferece-se ao sujeito como um apelo. A cultura transmite-nos um património simbólico que solicita a nossa adesão. Mas essa adesão nunca é automática. Cada pessoa é chamada a dar crédito ao crédito que a própria cultura lhe oferece, confirmando ou renovando, pela liberdade e pela responsabilidade, aquilo que recebeu. É neste reconhecimento que a subjetividade cresce e se humaniza.

Os valores situam-se, por isso, na confluência de uma dupla economia. Por um lado, a economia da necessidade, que exige referências estáveis, pontos de apoio e condições de satisfação para a vida concreta. Por outro, a economia do desejo, que recusa permanecer encerrada na simples utilidade e transforma esses mesmos dados em expressões de finalidades mais elevadas, capazes de orientar a existência para horizontes de transcendência. É o desejo que impede a vida humana de se reduzir ao cálculo das necessidades, convertendo o útil em significativo e a sobrevivência em projeto.

Neste sentido, a subjetividade não constitui um universo fechado sobre si próprio. Realiza-se precisamente quando reconhece que os valores não são uma invenção arbitrária do indivíduo nem uma simples imposição da sociedade. São possibilidades de sentido que a cultura conserva, que a consciência reconhece e que o desejo faz florescer na história. Caminhar para os valores é, afinal, o processo através do qual a pessoa ultrapassa o imediatismo do interesse, abre espaço ao reconhecimento do outro e encontra razões para dar unidade, coerência e dignidade à sua própria existência. 

Sem comentários:

Enviar um comentário