Uma das grandes distorções do nosso tempo consiste em admitir que a liberdade pode sobreviver sem uma realidade partilhada. Exalta-se o humano, multiplicam-se os direitos, celebram-se as diferenças, mas esquece-se frequentemente da questão fulcral: o que continua a unir-nos? Quando essa interrogação deixa de ser colocada, a liberdade corre o risco de se transformar numa sucessão de vontades sem encontro e a sociedade num espaço onde todos coexistem, mas poucos partilham mundo partilhado.
O horizonte comum não é um dado da natureza, nem uma herança
garantida para sempre. É uma obra humana. Não nasce pronta. Constrói-se
lentamente. Cria-se passo a passo através da linguagem, da memória, da cultura,
das instituições e dos valores que permitem reconhecer no outro alguém com quem
partilhamos um porvir. Antes de nos associarmos a uma profissão, a uma
ideologia ou a uma identidade particular, pertencemos a um meio simbólico que configura
a nossa experiência do humano. É esse contexto que nos oferece palavras para
compreender o sofrimento, a justiça, a amizade, a responsabilidade, a esperança
ou a dignidade.
É por isso que os valores não podem ser limitados a
preferências privadas ou a simples triagens individuais. São muito mais do que triviais
opiniões. Constituem a matriz cultural que sustenta a convivência e impede que
a sociedade se dissolva na arbitrariedade ou na lógica da força. Um valor revela
plenamente a sua força quando deixa de servir apenas quem o afirma e se torna
uma possibilidade de reconhecimento para todos.
Todavia, o património simbólico comum não deve ser
confundido com uniformidade. A memória histórica tem-nos ensinado que, sempre
que uma herança cultural pretende eliminar a diferença em nome da unidade,
acaba por enfraquecer a própria humanidade. Uma casa comum não se constrói eliminando
singularidades, mas criando as condições para que elas possam comunicar, encontrar-se
e cultivar-se mutuamente. O verdadeiro elo nasce quando a diferença deixa de
ser deixa motivo de afastamento para se tornar uma oportunidade de
reciprocidade e entendimento.
É aqui que a liberdade revela toda a sua exigência. Não se
trata de um ponto de partida absoluto de uma consciência isolada, mas uma
conquista que se aperfeiçoa no contacto com os outros. Ninguém aprende sozinho o
significado da justiça. Ninguém descobre isoladamente o sentido da
responsabilidade. A liberdade medra quando se confronta com um horizonte de
sentido que a orienta e lhe confere profundidade humana. Sem essa perspetiva,
corre o risco de se contrair a mera aptidão de escolher, esquecendo a
responsabilidade pelas consequências das próprias escolhas.
Talvez seja precisamente esta a tarefa ética e cultural do
nosso tempo: reconstruir um tecido cultural suficientemente consistente para
sustentar a liberdade e suficientemente aberto para acolher a diversidade. O
caminho, profundamente humano, não é fácil, pois levar uma comunidade a
reconhecer a sua própria incompletude e a assumir a responsabilidade da sua
renovação constitui uma das tarefas mais difíceis da vida democrática.
O horizonte comum nunca permanece garantido. Não existe como
uma posse, mas como uma responsabilidade. Cada geração recebe-o das anteriores,
transforma-o através das suas experiências e transmite-o às que hão de vir. É
uma herança viva, sempre vulnerável, sempre aberta, sempre por cumprir. Exige esforço,
imaginação e coragem para resistir tanto ao fracionamento como às inclinações para
o conformismo.
Resta perguntar se não será essa a essência legítima de uma
cultura democrática, ou seja, a inteligência coletiva capaz de valorizar a
divergência em diálogo, a diferença em reconhecimento e a liberdade em
responsabilidade partilhada. Porque uma sociedade não se torna mais humana
quando todos pensam da mesma maneira, mas quando ninguém deixa de reconhecer no
outro a condição indispensável da sua própria humanidade.
No essencial, o comum não limita a liberdade; oferece-lhe o
solo onde pode criar raízes e frutificar. E a liberdade, quando se abre ao
outro, deixa de ser apenas um direito para se tornar responsabilidade criadora.
É nessa reciprocidade, sempre insegura e sempre inconclusa, que talvez resida a
mais exigente das tarefas políticas e a mais bela das aventuras culturais:
continuar a construir um mundo onde o "eu" e o "nós"
deixem de surgir como rivais e passem a ser reconhecidos como duas expressões
inseparáveis da mesma condição humana.
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