A trajetória do pensamento que venho percorrendo não se fez
por uma linha reta, nem pela procura de uma crença capaz de ordenar
definitivamente o mundo. Foi-se construindo por encontros, deslocamentos,
aproximações e interrogações que, vindas de autores e tradições diferentes,
foram encontrando entre si inesperadas correspondências.
É talvez isto que hoje reconheço como uma leitura relacional:
não tomar cada ideia isoladamente, mas procurar os vínculos que a ligam a
outras ideias, a outras experiências e, sobretudo, à realidade histórica que
habitamos. Há vínculos de natureza afetiva, social e intelectiva que fazem com
que uma leitura nunca seja inteiramente exterior àquele que lê. Leio os
autores, mas também me leio neles; e, através deles, procuro compreender melhor
os meus dias.
É neste movimento que Stuart Hall ganhou para mim uma
particular importância. O seu pensamento não me conduz para uma teoria fechada,
mas para um campo de relações onde identidade, cultura e poder, representação e
media, política da cultura e subjetividade se cruzam continuamente. Por isso, e
para mim, a sua obra não se apresenta como um simples vocabulário crítico. Há
nela uma espécie de deslocação, olhando de um outro lugar para aquilo que
julgávamos conhecer.
A própria ideia de diáspora, tão importante em Hall, pode
ser entendida para além da experiência histórica específica a que se refere.
Ela torna-se também um ofício do pensamento: a possibilidade de ponderar
identidades que não são fixas, culturas que não são puras e sujeitos que se
constituem através de encontros, conflitos, deslocamentos e relações de poder.
Pensar a partir desse lugar significa desconfiar das identidades acabadas e das
explicações demasiado simples.
É daqui que vão surgindo as minhas interrogações: o que faz
a cultura numa sociedade capitalista? Como se relacionam cultura e poder? De
que modo os media e as novas formas de comunicação participam na produção das
nossas representações? Como se forma a subjetividade no interior de um mundo
que transforma cada vez mais a experiência em bens de consumo? E, finalmente,
que possibilidades permanecem para uma existência que queira pensar
criticamente o seu próprio tempo?
Talvez seja este, afinal, o terreno que venho percorrendo.
Não procuro acumular autores, conceitos ou livros como quem constrói uma
biblioteca de certezas. Procuro estabelecer entre eles relações que me permitam
pensar. Marx, Gramsci, Hall, Resweber, Lacan, Arendt e tantos outros não formam
para mim uma coleção homogénea; são interlocutores diferentes, por vezes
contraditórios, através dos quais vou avaliando outras maneiras de ver.
Por isso, a minha via de ponderação é também uma forma de
acompanhar o tempo. Pensar não é afastar-me da realidade, mas aproximar-me dela
com outras perguntas. E talvez seja precisamente aí que a cultura que procuro
encontre o seu sentido: não na posse de um saber definitivo, mas na capacidade
de permanecer atento às relações, às tensões e às transformações que fazem o
nosso presente.
É nesse movimento - entre os livros e a vida, entre os conceitos e a experiência, entre a cultura e o poder, entre o sujeito e o mundo - que vou acompanhando o meu pensar. Por isso, reafirmo que vou lendo os autores e, também, que neles me leio procurando melhor assimilar o tempo que me vai sobrando.
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