Apesar da idade, sinto-me resistir ao otimismo da esperança,
a essa esperança especificamente humana que nos permite olhar para além do
presente. Uma esperança que mostra ser uma crença das mais humanas das nossas
emoções, pois nos concede a possibilidade de imaginar o futuro e de idealizar
uma vida mais harmoniosa, mais justa e mais humana.
Esperar não é apenas aguardar que alguma coisa aconteça. É,
de algum modo, antecipar o possível. É acreditar que o presente não acaba
aquilo que podemos ser. Por isso, a esperança parece elevar-se contra a
angústia e o medo: enquanto estes nos prendem à ameaça do que pode acontecer, a
esperança floresce no futuro um horizonte de possibilidade.
Mas talvez seja precisamente por isso que a perda da
esperança nos atinge tão profundamente. Quando ela desaparece, não perdemos
apenas uma expectativa; perdemos também uma certa relação com o futuro. O
amanhã deixa de se apresentar como possibilidade e o presente pode fechar-se
sobre si mesmo.
É talvez nesse momento que a angústia e o medo ganham outra
dimensão: já não são apenas sentimentos diante daquilo que pode acontecer, mas
a experiência dolorosa de um futuro que parece ter deixado de nos pertencer.
Pergunto, porque sofre tanto o humano quando a esperança lhe foge?
Talvez porque, ao perder a esperança, não perde apenas
aquilo que espera. Perde a própria abertura ao possível, ou seja, essa
capacidade profundamente humana de imaginar que a vida ainda pode ser uma outra,
diferente.
A esperança não é apenas esperar que o futuro seja melhor; é a capacidade de acreditar que o futuro pode ser diferente do presente. Talvez seja justamente nessa possibilidade de diferença que reside uma das mais profundas razões para salvaguardamos o nosso digno lado humano.
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