Há perguntas que quase nos magoam pela sua evidência. Leio;
acreditamos que a maioria dos políticos são porcos egoístas e egocêntricos,
pouco preocupados com o interesse público? E que vivemos num sistema económico
estúpido e injusto?
Confesso que tenho alguma dificuldade em responder sem
recear cometer uma injustiça para com os porcos. Afinal, estes limitam-se a ser
aquilo que são, enquanto certos humanos, mesmo depois de eleitos, parecem
empenhados em demonstrar que o interesse público é uma inconveniência que se
atravessa no caminho dos seus interesses privados.
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Quanto ao sistema económico, reconheço-lhe uma qualidade
extraordinária: consegue transformar a injustiça em competência, o egoísmo em
mérito e a acumulação de riqueza numa espécie de certificado de superioridade
moral. Os que têm muito parecem merecer sempre mais; os que têm pouco são
convidados a refletir sobre o que terão feito de errado. A sociedade, nesta
sábia organização das coisas, dispensa a igualdade, mas não dispensa as lições
de moral dirigidas aos coitados.
E os políticos? Ah, esses são os indispensáveis guardiões da
nossa liberdade. Sobretudo quando nos explicam que não há alternativas, que os
sacrifícios são necessários e que o futuro exige paciência aos mesmos de
sempre. Para os cidadãos, pede-se responsabilidade; para os mercados,
compreensão; para os poderosos, liberdade de manobra. A democracia, entretanto,
vai cumprindo o seu calendário, enquanto o interesse público aguarda,
pacientemente, que alguém se lembre dele.
Não quero, naturalmente, generalizar. Há políticos sinceros,
pessoas competentes e cidadãos que levam a sério o bem comum. Mas é
precisamente por isso que se torna tão difícil aceitar a normalização daquilo
que deveria causar indignação. Uma sociedade não se torna justa apenas porque
os seus abusos são legais, nem um sistema se torna inteligente só porque os
seus beneficiários conseguem convencer-nos de que não existe outro.
Talvez o verdadeiro absurdo esteja aqui: termos aprendido a
chamar realismo à resignação, liberdade à ausência de limites para o poder
económico e responsabilidade à obrigação de cada um suportar as consequências
de decisões que não tomou.
Ao fim e ao cabo, resta-nos a consolação democrática de
podermos escolher quem nos explicará, durante os próximos anos, por que razão
as coisas têm de continuar exatamente como estão. E ainda há quem queira mais,
pois considere que o triunfo da racionalidade económica exige bem mais da sua prevalência
na conjuntura. A Santa Virtude dos poderosos assim se vai mostrando, ou melhor,
exibindo.

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