domingo, outubro 04, 2026

SEMPRE, MATUTANDO

Eu mesmo e a minha alma nem sempre nos aconchegamos. Daí rompe um monólogo interior que, repetidamente, me protege, mas que outras tantas vezes me desafia. O que sinto e o que digo nem sempre se sossegam. Há entre ambos um afastamento que, por vezes, reconheço, talvez porque aprendi a coabitar com ele.

A consciência do sentimento pode revelar-se abandonada perante o ajuste funcional ao convencional. Adaptamo-nos para pertencer, para sermos aceites, para não perdermos o vínculo, para evitarmos o medo da rejeição. E essa adaptação, inicialmente protetora, pode acabar por oferecer-nos um resguardo tão confortável que passamos a confundi-lo com a nossa própria identidade.

É então que a autenticidade se arreda da ideia romântica de ser simplesmente sincero comigo mesmo. Ser autêntico talvez exija algo bem mais espinhoso: reconhecer aquilo que sinto antes de procurar acomodá-lo ao que esperam de mim. Não se trata apenas de dizer o que penso, mas de conseguir escutar o que, em mim, procura existir antes que a adaptação o silencie.

A dissonância emocional, por sua vez, pode garantir-me segurança ou proximidade através do controlo ou do afastamento. Aproximo-me para não perder, afasto-me para não sofrer. Controlo o que sinto para proteger uma relação e, nesse mesmo gesto, posso afastar-me de uma parte de mim. A relação humana, que me empenho em cuidar, pode tornar-se precisamente o lugar onde deixo de me reconhecer.

A acomodação afasta-me, assim, do desejo e, talvez, de algo humanamente essencial. Não porque toda a adaptação seja negativa, dado que ela é necessária à vida e à convivência, mas porque existe um limite impercetível entre adaptar-me ao mundo e abandonar-me para me submeter a ele.

O encontrar-me a mim próprio revela-se, então, desorientado. Quem sou eu quando já não sei distinguir aquilo que verdadeiramente sinto daquilo que aprendi a sentir? Onde termina a necessidade de pertencer e começa a necessidade de ser? Até que ponto aquilo a que chamo “eu” é realmente meu? Daí, comigo desabafo: até que ponto sou eu, verdadeiramente eu?

Como posso ser eu perante a acomodação de uma vida feita de relações, de cultura, de expectativas e de esperanças, sem deixar de admitir o medo de perder o valor da relação humana? Talvez não exista uma resposta definitiva. Talvez ser eu não seja alcançar uma identidade pura, intacta, finalmente descoberta. Talvez seja aprender a reconhecer, no meio de tudo aquilo que me foi dado, imposto ou aprendido, o dito que ainda consigo sentir como verdadeiramente meu.

Neste infinito em que se aprende a ser, penso que tal implica compreender o próprio sentir desse movimento: entre o que sinto, o que aprendi a ser e aquilo que ainda procuro descobrir sobre quem sou. Reconheço, assim, a identidade como um processo contínuo, sempre inacabado, onde ser também significa aprender a sentir.

A adaptação não contraria a autenticidade nem diminui o seu valor. Ela faz parte da nossa condição humana. Mas, para conservar o vínculo e o afinco à relação, temos também de saber oferecer a nós próprios uma vida verdadeiramente humana. Talvez seja esse o difícil equilíbrio: adaptarmo-nos sem nos perdermos, pertencermos sem deixarmos de ser e aprendermos a ser sem desistirmos de sentir.

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