Eu mesmo e a minha alma nem sempre nos aconchegamos. Daí rompe um monólogo interior que, repetidamente, me protege, mas que outras tantas vezes me desafia. O que sinto e o que digo nem sempre se sossegam. Há entre ambos um afastamento que, por vezes, reconheço, talvez porque aprendi a coabitar com ele.
A consciência do sentimento pode revelar-se abandonada
perante o ajuste funcional ao convencional. Adaptamo-nos para pertencer, para
sermos aceites, para não perdermos o vínculo, para evitarmos o medo da
rejeição. E essa adaptação, inicialmente protetora, pode acabar por
oferecer-nos um resguardo tão confortável que passamos a confundi-lo com a
nossa própria identidade.
É então que a autenticidade se arreda da ideia romântica de
ser simplesmente sincero comigo mesmo. Ser autêntico talvez exija algo bem mais
espinhoso: reconhecer aquilo que sinto antes de procurar acomodá-lo ao que
esperam de mim. Não se trata apenas de dizer o que penso, mas de conseguir
escutar o que, em mim, procura existir antes que a adaptação o silencie.
A dissonância emocional, por sua vez, pode garantir-me
segurança ou proximidade através do controlo ou do afastamento. Aproximo-me
para não perder, afasto-me para não sofrer. Controlo o que sinto para proteger
uma relação e, nesse mesmo gesto, posso afastar-me de uma parte de mim. A
relação humana, que me empenho em cuidar, pode tornar-se precisamente o lugar
onde deixo de me reconhecer.
A acomodação afasta-me, assim, do desejo e, talvez, de algo
humanamente essencial. Não porque toda a adaptação seja negativa, dado que ela
é necessária à vida e à convivência, mas porque existe um limite impercetível
entre adaptar-me ao mundo e abandonar-me para me submeter a ele.
O encontrar-me a mim próprio revela-se, então, desorientado.
Quem sou eu quando já não sei distinguir aquilo que verdadeiramente sinto
daquilo que aprendi a sentir? Onde termina a necessidade de pertencer e começa
a necessidade de ser? Até que ponto aquilo a que chamo “eu” é realmente meu? Daí,
comigo desabafo: até que ponto sou eu, verdadeiramente eu?
Como posso ser eu perante a acomodação de uma vida feita de
relações, de cultura, de expectativas e de esperanças, sem deixar de admitir o
medo de perder o valor da relação humana? Talvez não exista uma resposta
definitiva. Talvez ser eu não seja alcançar uma identidade pura, intacta,
finalmente descoberta. Talvez seja aprender a reconhecer, no meio de tudo
aquilo que me foi dado, imposto ou aprendido, o dito que ainda consigo sentir
como verdadeiramente meu.
Neste infinito em que se aprende a ser, penso que tal
implica compreender o próprio sentir desse movimento: entre o que sinto, o que
aprendi a ser e aquilo que ainda procuro descobrir sobre quem sou. Reconheço,
assim, a identidade como um processo contínuo, sempre inacabado, onde ser
também significa aprender a sentir.
A adaptação não contraria a autenticidade nem diminui o seu
valor. Ela faz parte da nossa condição humana. Mas, para conservar o vínculo e
o afinco à relação, temos também de saber oferecer a nós próprios uma vida
verdadeiramente humana. Talvez seja esse o difícil equilíbrio: adaptarmo-nos
sem nos perdermos, pertencermos sem deixarmos de ser e aprendermos a ser sem desistirmos
de sentir.
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