Ouvi ontem FRANCISCO LOUÇÃ na Antena 1. Serviu-se da figura
do polígono regular de mil lados e ângulos para nos conduzir à construção da
imaginação na interpretação da realidade e das suas vivências. Reconhece que as
narrativas atravessam a religião, a arte e toda a obra literária, manifestando
uma tensão permanente entre aquilo que existe e aquilo que projetamos sobre o
mundo. Por isso, vamos deixando de exigir que a imaginação seja fiel à
realidade e começamos a indagar se ela nos poderá revelar alguma coisa que um
olhar superficial não consegue mostrar.
É precisamente nesta abertura que encontro o valor da
imaginação: caminha no horizonte livremente - caminha, sim, sem procurar
atingir um fim. Não se limita a reproduzir o que existe, nem se obriga a
encontrar respostas definitivas. Permite-nos explorar o que ainda não
conhecemos, interrogar o que julgamos conhecer e descobrir outras
possibilidades de compreender o mundo e a nossa própria existência.
Diria até que a expressão contém uma ideia muito próxima da liberdade de pensar que tantas vezes procuro defender: pensar não é necessariamente chegar a algum lugar; é também não deixar de abrir horizontes. E talvez seja essa a sua maior riqueza: a imaginação não nos retira da realidade; ajuda-nos a descobrir que a realidade não se esgota naquilo que os nossos olhos conseguem alcançar.
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