O capitalismo não é apenas um modelo económico. É um maquinismo totalizante que se fez infraestrutura da realidade, organizando antecipadamente a nossa perceção do que é pensável, do que é possível e do que é sumariamente interdito. Não se limita a governar a economia: governa o horizonte do imaginável. Tudo o que dele escapa surge como delírio, ingenuidade ou ameaça.
A sua força não reside somente no consumismo, mas na captura
do desejo e na simulação de uma liberdade reduzida à escolha entre ofertas. O
mercado apresenta-se como instância libertadora quando, na verdade, condiciona
a própria criação da vontade. A subjetividade deixa de ser espaço de abertura
para se tornar produto moldável, adaptável e funcional.
Neste quadro, o capitalismo revela a sua dissimulação maior:
a capacidade de absorver a crítica que lhe é dirigida, neutralizando-a. A
contestação é tolerada desde que seja rentável, estetizada ou inofensiva. A
crítica transforma-se em mercadoria, em gesto simbólico sem consequências,
integrada no mesmo caminho que afirma combater.
O resultado é uma ordem que se apresenta como inevitável, segura
pela fórmula cínica do “não há alternativa”. Romper com essa lógica exige mais
do que indignação ou consumo crítico: exige a recusa ativa das coordenadas do
possível que nos são impostas. Pensar contra o capitalismo é não só reaprender
a desobedecer como, também, atrever-se a conjeturar o futuro.
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