quinta-feira, janeiro 01, 2026

UM BOM 2026, TAMBÉM DE NÓS DEPENDE

Nasci em 1948. Venho de um tempo em que a história ainda se escrevia com a esperança de poder ser transformada. Abril de 74 marcou esse horizonte. Hoje, já dentro de outra modernidade, mais veloz e mais disputada, o que mais me inquieta é a facilidade com que o sofrimento social se tornou normal, quase natural, como se fosse parte inevitável da condição humana.

Vivemos rodeados de justificações. A ansiedade, a insegurança e a exaustão são tratadas como problemas individuais, destinos pessoais num mundo de competição permanente. O reconhecimento passou a medir-se por desempenhos e visibilidades, perdendo a sua dimensão humana, histórica e política. Sofre-se muito, mas pergunta-se pouco porquê.

Ser social não é apenas conviver; é participar numa certa forma de sociabilidade. E a nossa expõe continuamente os indivíduos, avalia-os, compara-os, exige-lhes presença e sucesso. O sofrimento não nasce do facto de vivermos em sociedade, mas da maneira como a sociedade se organiza e se impõe.

Perante problemas estruturais, oferece-se uma solução simples: adapta-te melhor. Sê mais resiliente, mais produtivo, mais positivo. Assim, o sofrimento é aceite, administrado, normalizado, ou seja, as suas causas ficam fora de questão.

Talvez o desafio de 2026 não seja aprender a suportar melhor este mundo, mas perguntar se todas as formas de o organizar merecem continuar. O conflito não está entre a natureza humana e o progresso, mas entre impulsos humanos básicos e sistemas sociais que os exploram e amplificam.

Recusar certas lógicas não é recusar a condição humana. É levá-la a sério. Um bom 2026 não virá apenas do calendário. Também depende de nós, da nossa capacidade de pensar, recusar e transformar. 

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