Nasci em 1948. Venho de um tempo em que a história ainda se
escrevia com a esperança de poder ser transformada. Abril de 74 marcou esse
horizonte. Hoje, já dentro de outra modernidade, mais veloz e mais disputada, o
que mais me inquieta é a facilidade com que o sofrimento social se tornou
normal, quase natural, como se fosse parte inevitável da condição humana.
Vivemos rodeados de justificações. A ansiedade, a
insegurança e a exaustão são tratadas como problemas individuais, destinos
pessoais num mundo de competição permanente. O reconhecimento passou a medir-se
por desempenhos e visibilidades, perdendo a sua dimensão humana, histórica e
política. Sofre-se muito, mas pergunta-se pouco porquê.
Ser social não é apenas conviver; é participar numa certa
forma de sociabilidade. E a nossa expõe continuamente os indivíduos, avalia-os,
compara-os, exige-lhes presença e sucesso. O sofrimento não nasce do facto de
vivermos em sociedade, mas da maneira como a sociedade se organiza e se impõe.
Perante problemas estruturais, oferece-se uma solução
simples: adapta-te melhor. Sê mais resiliente, mais produtivo, mais positivo.
Assim, o sofrimento é aceite, administrado, normalizado, ou seja, as suas
causas ficam fora de questão.
Talvez o desafio de 2026 não seja aprender a suportar melhor
este mundo, mas perguntar se todas as formas de o organizar merecem continuar.
O conflito não está entre a natureza humana e o progresso, mas entre impulsos
humanos básicos e sistemas sociais que os exploram e amplificam.
Recusar certas lógicas não é recusar a condição humana. É levá-la a sério. Um bom 2026 não virá apenas do calendário. Também depende de nós, da nossa capacidade de pensar, recusar e transformar.
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