Importa, pois, reconhecer - aceitando - que não estamos
perante duas perspetivas sobre a mesma realidade. Estamos, antes, perante um
deslocamento da própria realidade, que sustenta a mesma estrutura sem coincidir
consigo mesma. Daqui surgem posições desencontradas, contradições lógicas e
práticas discordantes, que se tornam aberturas de sentido para múltiplas
interpretações.
Que referencial teórico poderá, então, servir de base para
compreender, explicar ou analisar um raciocínio capaz de nos conduzir a uma
conclusão? Provavelmente, não há acordo definitivo. O “eu-sujeito” não é uma
entidade fixa, racional e coerente, mas uma identidade fluida, moldada pelo
inconsciente, através da linguagem e condicionada pelo meio social. Assim
sendo, a “vulnerabilidade” não é apenas do sujeito, mas da própria realidade,
onde o erro, a imperfeição ou a falha não resultam apenas de incompetência, mas
de um real dividido em si mesmo.
Não há totalidades equilibradas e coerentes, dado que não
existe um critério último estável. Em síntese, diria que não há uma verdade
absoluta com solução-chave na mão. Nesse sentido, o desvio entre perspetivas
não decorre de uma falha, fraqueza, ignorância ou limitação individual, mas
sinaliza uma quebra de continuidade. A chamada paralaxe ontológica não diz
respeito à diferença entre dois níveis de realidade, mas a uma torção interna
da própria realidade. O problema não é apenas epistemológico; a dificuldade
incorpora-se, sim, no próprio ser.
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