segunda-feira, abril 20, 2026

A FENDA NO REAL

Ao ler o cativante Žižek, sinto-me saudavelmente incómodo ao reconhecer o aparente desvio de um objeto quando mudamos de posição. O consequente dualismo irreconciliável revela-se, assim, mais naquilo que é do que apenas como uma diferença subjetiva ou teórica. O objeto parece sempre outro quando variamos o seu contexto. O ser humano, enquanto sujeito cultural, abre, nessas circunstâncias, de modo inconsciente, uma falha na própria realidade do objeto concreto.

Importa, pois, reconhecer - aceitando - que não estamos perante duas perspetivas sobre a mesma realidade. Estamos, antes, perante um deslocamento da própria realidade, que sustenta a mesma estrutura sem coincidir consigo mesma. Daqui surgem posições desencontradas, contradições lógicas e práticas discordantes, que se tornam aberturas de sentido para múltiplas interpretações.

Que referencial teórico poderá, então, servir de base para compreender, explicar ou analisar um raciocínio capaz de nos conduzir a uma conclusão? Provavelmente, não há acordo definitivo. O “eu-sujeito” não é uma entidade fixa, racional e coerente, mas uma identidade fluida, moldada pelo inconsciente, através da linguagem e condicionada pelo meio social. Assim sendo, a “vulnerabilidade” não é apenas do sujeito, mas da própria realidade, onde o erro, a imperfeição ou a falha não resultam apenas de incompetência, mas de um real dividido em si mesmo.

Não há totalidades equilibradas e coerentes, dado que não existe um critério último estável. Em síntese, diria que não há uma verdade absoluta com solução-chave na mão. Nesse sentido, o desvio entre perspetivas não decorre de uma falha, fraqueza, ignorância ou limitação individual, mas sinaliza uma quebra de continuidade. A chamada paralaxe ontológica não diz respeito à diferença entre dois níveis de realidade, mas a uma torção interna da própria realidade. O problema não é apenas epistemológico; a dificuldade incorpora-se, sim, no próprio ser. 

Sem comentários:

Enviar um comentário