Vivemos um tempo humanamente satírico em que o valor do “SER” parece medir-se pelo que possui, exibe ou consome. O “TER” fantasiou-se numa espécie de segunda natureza, mostrando-se endinheirado, superior, com relevância e reconhecida presença. Buscando influência como se a condição humana pudesse reduzir-se a um balanço contabilístico.
Entretanto, o “SER” vai-se ocultando distanciando-se através
do seu espaço escondido no seu silêncio reflexivo e na sua embaraçosa agilidade
crítica. A sensibilidade, o encontro verdadeiro com os outros e consigo mesmo,
perde memórias, história, tradições ou mesmo referências anteriores. A cultura
do desempenho substitui a experiência humana; a aparência ocupa o lugar da
profundidade.
Certamente que o dilema não esteja em negar o “TER” em si. Acompanhando
o palpite de Žižek, diria que a experiência vivida se mostra contraditória e
dialética, posto que não vivemos fora da realidade concreta e muito menos evitamos
ganhar o sustento. O problema surge quando o “TER” deixa de servir a vida e
passa a sustentá-la. Quando a praça comercial e o espírito de rivalidade acomodam
o próprio desejo humano.
A dialética entre o SER e o TER, como Zizek diria, exige
então uma conversão crítica; possuir sem ser possuído, utilizar sem reduzir a
vida ao consumo, reconhecer que nenhum acúmulo material substitui a construção
interior, cultural e ética do sujeito. Talvez a verdadeira e humana pobreza do
nosso tempo não seja apenas a falta de bens, mas a erosão do ser conduzida pelo
humano desvanecimento da identidade e pela decomposição da sua subjetividade.
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