Viajo no tempo e dou comigo a admitir momentos em que
silenciei pensamentos que me convidavam a percorrer caminhos desconhecidos.
Talvez por resguardo, talvez por inquietação, fui aprendendo a desconfiar de
certas possibilidades antes mesmo de lhes reconhecer a realidade.
Entretanto, a vida e a experiência, na sua totalidade,
mostraram-me algo que parece uma lógica invertida: o pensamento, instrumento
privilegiado da compreensão, pode também tornar-se uma barreira ao próprio
viver. Quando se fecha sobre si mesmo, procurando controlar o incerto e
antecipar todas as consequências, acaba por transformar a liberdade em
prudência excessiva e a criatividade em hesitação. O medo nasce frequentemente
desse pensamento acelerado que joga pelo seguro onde apenas existem possibilidades.
Então surge uma pergunta incontornável: quem seria eu se não
necessitasse de reconhecimento? O que escolheria fazer se nenhuma aprovação me
fosse prometida e nenhuma crítica me pudesse diminuir? A pergunta não procura
uma resposta imediata; procura, antes, revelar aquilo que permanece escondido
sob as camadas da expectativa social e da imagem que construímos de nós
próprios.
Talvez a liberdade comece precisamente aí, ou seja, quando
deixamos de confundir o nosso ser com as narrativas que o pensamento produz.
Não porque o pensar seja inútil, mas porque ele não traduz a realidade por
completo. Existe uma dimensão da consciência humana que antecede os conceitos,
uma abertura ao possível que não cabe inteiramente nas categorias da razão.
Por isso, dizer que tudo é possível não significa negar os
limites da existência. Significa reconhecer que a mente encontra frequentemente
os seus limites antes de a vida os encontrar. O pensamento tende a
circunscrever o horizonte ao que conhece; a inspiração, pelo contrário,
convida-nos a habitar aquilo que ainda não sabemos. E é nesse espaço de
abertura, entre o conhecido e o desconhecido, que a existência continua a
criar-se.
Termino, pois, afirmando que nem tudo o que orienta a vida pode ser pensado. Assim sendo, não deixo de reconhecer que algumas verdades - e não poucas - só se revelam quando ousamos caminhar.
Sem comentários:
Enviar um comentário