quinta-feira, junho 18, 2026

QUEM SOMOS PARA ALÉM DOS NOSSOS PENSAMENTOS?

Viajo no tempo e dou comigo a admitir momentos em que silenciei pensamentos que me convidavam a percorrer caminhos desconhecidos. Talvez por resguardo, talvez por inquietação, fui aprendendo a desconfiar de certas possibilidades antes mesmo de lhes reconhecer a realidade.

Entretanto, a vida e a experiência, na sua totalidade, mostraram-me algo que parece uma lógica invertida: o pensamento, instrumento privilegiado da compreensão, pode também tornar-se uma barreira ao próprio viver. Quando se fecha sobre si mesmo, procurando controlar o incerto e antecipar todas as consequências, acaba por transformar a liberdade em prudência excessiva e a criatividade em hesitação. O medo nasce frequentemente desse pensamento acelerado que joga pelo seguro onde apenas existem possibilidades.

Então surge uma pergunta incontornável: quem seria eu se não necessitasse de reconhecimento? O que escolheria fazer se nenhuma aprovação me fosse prometida e nenhuma crítica me pudesse diminuir? A pergunta não procura uma resposta imediata; procura, antes, revelar aquilo que permanece escondido sob as camadas da expectativa social e da imagem que construímos de nós próprios.

Talvez a liberdade comece precisamente aí, ou seja, quando deixamos de confundir o nosso ser com as narrativas que o pensamento produz. Não porque o pensar seja inútil, mas porque ele não traduz a realidade por completo. Existe uma dimensão da consciência humana que antecede os conceitos, uma abertura ao possível que não cabe inteiramente nas categorias da razão.

Por isso, dizer que tudo é possível não significa negar os limites da existência. Significa reconhecer que a mente encontra frequentemente os seus limites antes de a vida os encontrar. O pensamento tende a circunscrever o horizonte ao que conhece; a inspiração, pelo contrário, convida-nos a habitar aquilo que ainda não sabemos. E é nesse espaço de abertura, entre o conhecido e o desconhecido, que a existência continua a criar-se.

Termino, pois, afirmando que nem tudo o que orienta a vida pode ser pensado. Assim sendo, não deixo de reconhecer que algumas verdades - e não poucas - só se revelam quando ousamos caminhar. 

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