domingo, novembro 02, 2025

UM TOLO NARCISISMO

Num café, como em tantos outros lugares, entre a essência do explícito e o ruído dos bate-papos, esboça-se sempre a imagem mais rotineira do nosso tempo, ou seja, a das criaturas achegadas disputarem, com exaltação, pequenas e tolas diferenças. Um olhar naturalmente fingido, quiçá meigo, eis a farsa da rotina onde cada um se esforça, no íntimo, por se distinguir do seu próprio espelho.

Freud há muito já nos falava do “narcisismo das pequenas diferenças” como uma curiosa tendência humana para repelir o que nos é quase igual. Esta inclinação humana olha, atentamente e com ironia, o palco-café onde os costumes se ensaiam todos os dias e revelam como o eu e o outro persistem atados ao mesmo bailado de espelhos.

É um facto, uma realidade, pois vivemos encurralados em imaginários de opiniões e em brumas de semelhanças e de convicções que se confundem e disputam a mínima diferença como se fosse uma inestimável bandeira. O “Café das Pequenas Diferenças” é, pois, um retrato irónico do nosso tempo, civilizado na forma, todavia bem tosco na desprezível e tola vaidade.


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