Num café, como em tantos outros lugares, entre a essência do
explícito e o ruído dos bate-papos, esboça-se sempre a imagem mais rotineira do
nosso tempo, ou seja, a das criaturas achegadas disputarem, com exaltação,
pequenas e tolas diferenças. Um olhar naturalmente fingido, quiçá meigo, eis a
farsa da rotina onde cada um se esforça, no íntimo, por se distinguir do seu
próprio espelho.
Freud há muito já nos falava do “narcisismo das pequenas
diferenças” como uma curiosa tendência humana para repelir o que nos é quase
igual. Esta inclinação humana olha, atentamente e com ironia, o palco-café onde
os costumes se ensaiam todos os dias e revelam como o eu e o outro persistem atados
ao mesmo bailado de espelhos.
É um facto, uma realidade, pois vivemos encurralados em imaginários
de opiniões e em brumas de semelhanças e de convicções que se confundem e
disputam a mínima diferença como se fosse uma inestimável bandeira. O “Café das
Pequenas Diferenças” é, pois, um retrato irónico do nosso tempo, civilizado na
forma, todavia bem tosco na desprezível e tola vaidade.
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