As chamadas proteções argumentativas tornaram-se hoje expedientes eficazes de resguardo moral. Funcionam por meio de complexificações paralisantes, desvios calculados de responsabilidade, relativismos seletivos e moralismos de fachada. O seu objetivo não é esclarecer, mas amortecer a crítica, permitindo que práticas já eticamente frágeis permaneçam intactas.
É neste contexto que a hipocrisia deixa de ser apenas
incoerência individual e se transforma numa forma social de desorientação moral.
Ela enfraquece a espessura histórica da responsabilidade e converte a linguagem
ética em dispositivo de neutralização. Com o tempo, torna-se um sinal claro de
que já não acreditamos plenamente nas nossas próprias justificações, embora
continuemos a repeti-las com crescente sofisticação.
A hipocrisia passa então a operar como índice de dissonância
coletiva. O juízo moral amplia-se, o discurso ético prolifera, mas a ação
permanece cativa dos interesses instituídos, dos confortos adquiridos e das
identidades estabilizadas. Algo tenta mudar, mas encontra resistência
organizada sob a forma do adiamento, da complexidade e do gesto simbólico.
Por isso, hipocrisia e ambição moral não se conjugam. A
ambição moral exige coerência entre juízo e ação, disposição para a perda e
coragem para romper com o habitual. Supõe conflito e transformação. A
hipocrisia, pelo contrário, alimenta-se da moral, acolhe a crítica apenas para
a desarmar e converte o discurso do bem em cobertura legitimadora do existente.
Nesse sentido, a hipocrisia contemporânea não é apenas um
vício individual. É um sintoma social: revela um tempo em que o círculo moral
tenta alargar-se, enquanto a ordem vigente se defende pela retórica que tudo
reconhece e nada transforma. Daí, o triunfo cínico da hipocrisia...
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