segunda-feira, janeiro 05, 2026

O TRIUNFO DA HIPOCRISIA

As chamadas proteções argumentativas tornaram-se hoje expedientes eficazes de resguardo moral. Funcionam por meio de complexificações paralisantes, desvios calculados de responsabilidade, relativismos seletivos e moralismos de fachada. O seu objetivo não é esclarecer, mas amortecer a crítica, permitindo que práticas já eticamente frágeis permaneçam intactas.

É neste contexto que a hipocrisia deixa de ser apenas incoerência individual e se transforma numa forma social de desorientação moral. Ela enfraquece a espessura histórica da responsabilidade e converte a linguagem ética em dispositivo de neutralização. Com o tempo, torna-se um sinal claro de que já não acreditamos plenamente nas nossas próprias justificações, embora continuemos a repeti-las com crescente sofisticação.

A hipocrisia passa então a operar como índice de dissonância coletiva. O juízo moral amplia-se, o discurso ético prolifera, mas a ação permanece cativa dos interesses instituídos, dos confortos adquiridos e das identidades estabilizadas. Algo tenta mudar, mas encontra resistência organizada sob a forma do adiamento, da complexidade e do gesto simbólico.

Por isso, hipocrisia e ambição moral não se conjugam. A ambição moral exige coerência entre juízo e ação, disposição para a perda e coragem para romper com o habitual. Supõe conflito e transformação. A hipocrisia, pelo contrário, alimenta-se da moral, acolhe a crítica apenas para a desarmar e converte o discurso do bem em cobertura legitimadora do existente.

Nesse sentido, a hipocrisia contemporânea não é apenas um vício individual. É um sintoma social: revela um tempo em que o círculo moral tenta alargar-se, enquanto a ordem vigente se defende pela retórica que tudo reconhece e nada transforma. Daí, o triunfo cínico da hipocrisia...

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