quarta-feira, janeiro 07, 2026

VIDA SOB CERCO

Acordei hoje sob o resguardo do receio, abalado pela brutalidade política e pela indigência do amanhã possível. A adversidade deixou de ser exceção: tornou-se método, instituindo uma angústia quotidiana que submete a vida à resistência estéril, à adaptação oportunista, à submissão prudente e ao pressentimento sem consequências.

Mais do que a especulação financeira, é o cerco da obediência que se aperta. Proliferam ideais abstratos enquanto as ideias concretas de liberdade são desvalorizadas, difamadas ou neutralizadas. O prazer, a autenticidade e a recusa - outrora sinais de afirmação subjetiva e social - perdem legitimidade, tratados como desvios inconvenientes ou luxos irresponsáveis.

A violência política não se apresenta como assomo de loucura, mas como racionalidade funcional elementar. Os seus efeitos não são colaterais: são o próprio objetivo. Vidas abortadas, existências encolhidas, futuros administrados antes de poderem ser imaginados. Uma vida disciplinada pelo medo, pela competição e pela obediência converte a disputa permanente em norma e faz da agressividade um instrumento estratégico legitimado.

Não obstante, a arte de viver não abdica da alma nem da sua verdade. Não se confunde com adaptação nem com sobrevivência obediente. É uma postura de inconformidade íntima e pública, recusa consciente da servidão apresentada como realismo, afirmação deliberada de dignidade num tempo que insiste em tratá-la como subversão. Como realismo, uma afirmação da Dignidade não se aceita Subversiva. 

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