Acordei hoje sob o resguardo do receio, abalado pela
brutalidade política e pela indigência do amanhã possível. A adversidade deixou
de ser exceção: tornou-se método, instituindo uma angústia quotidiana que
submete a vida à resistência estéril, à adaptação oportunista, à submissão
prudente e ao pressentimento sem consequências.
Mais do que a especulação financeira, é o cerco da
obediência que se aperta. Proliferam ideais abstratos enquanto as ideias
concretas de liberdade são desvalorizadas, difamadas ou neutralizadas. O
prazer, a autenticidade e a recusa - outrora sinais de afirmação subjetiva e
social - perdem legitimidade, tratados como desvios inconvenientes ou luxos
irresponsáveis.
A violência política não se apresenta como assomo de
loucura, mas como racionalidade funcional elementar. Os seus efeitos não são
colaterais: são o próprio objetivo. Vidas abortadas, existências encolhidas,
futuros administrados antes de poderem ser imaginados. Uma vida disciplinada
pelo medo, pela competição e pela obediência converte a disputa permanente em
norma e faz da agressividade um instrumento estratégico legitimado.
Não obstante, a arte de viver não abdica da alma nem da sua verdade. Não se confunde com adaptação nem com sobrevivência obediente. É uma postura de inconformidade íntima e pública, recusa consciente da servidão apresentada como realismo, afirmação deliberada de dignidade num tempo que insiste em tratá-la como subversão. Como realismo, uma afirmação da Dignidade não se aceita Subversiva.
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