terça-feira, fevereiro 03, 2026

SUBJETIVIDADE EM DISPUTA

Nenhum de nós vive como sujeito fora de um cenário relacional. Pensar o indivíduo como um ser isolado, voltado para si mesmo e anterior às suas relações é uma invencionice ociosa e, porventura, politicamente aproveitável. O sujeito não antecede o fraseado da certeza: é, passo a passo, ajustado por ele, estrutura-se através dele e sob as suas interrogações, num andamento em que pensar, desejar e aderir se tornam inseparáveis.

O pensamento, a razão, a memória e a imaginação, quando concebidos como uma rede fechada e independente, tornam-se facilmente vulneráveis ao confinamento. Os preceitos convencionais apresentam-se como justos, habilitados ou mesmo indispensáveis, hoje exacerbados por regras de maneio, índices de eficiência, engenhos publicitados e ficções de segurança. O que se diz, a forma como se diz e quem pode dizê-lo preparam silenciosamente o horizonte do possível, partindo de mediações já decididas, naturalizadas e, como tal, estimuladas.

Daí que a controvérsia política, hoje tão presente, não se mova apenas entre ideias diferentes, mas também na própria formação dos sujeitos capazes de as defender e de as encorajar. Gerir, controlar ou regular normas, regras e convenções implica delinear perspetivas aceitáveis de existir, onde certas formas de pensar, sentir e desejar se tornam admissíveis, enquanto outras se tornam inexprimíveis. Convém relembrar que a subjetividade, longe de ser um dado natural ou uma esfera privada intocável, é o efeito - sempre instável - de forças, interesses e poderes em ação.

É neste ponto que a palavra política do tempo presente exibe a sua esperteza. Não atua apenas no campo do argumento, mas na melodia dos afetos, na agitação do medo, da ansiedade, do ressentimento e do desejo de pertença. A influência deixa de ser aberta para se tornar uma ação de indução, de normalização e de desgaste simbólico. O sujeito não é, deste modo, apenas assediado, mas também orientado, disciplinado e, muitas vezes, exausto.

A palavra política, mais do que nunca, move-se como instrumento de ocupação do espaço simbólico. Não se dispõe a competir: procura, antes, anular, desacreditar e dominar quem lhe resiste. O cenário do tempo atual vai assim incentivando um espetáculo burlesco e ruidoso, eficaz precisamente na sua obscenidade, onde a ausência de pudor, de sentido moral e de dignidade deixa de ser um mero desvio ocasional para se tornar um método contínuo de exercício do poder.

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