Nenhum de nós vive como sujeito fora de um cenário relacional. Pensar o indivíduo como um ser isolado, voltado para si mesmo e anterior às suas relações é uma invencionice ociosa e, porventura, politicamente aproveitável. O sujeito não antecede o fraseado da certeza: é, passo a passo, ajustado por ele, estrutura-se através dele e sob as suas interrogações, num andamento em que pensar, desejar e aderir se tornam inseparáveis.
O pensamento, a razão, a memória e a imaginação, quando
concebidos como uma rede fechada e independente, tornam-se facilmente
vulneráveis ao confinamento. Os preceitos convencionais apresentam-se como
justos, habilitados ou mesmo indispensáveis, hoje exacerbados por regras de
maneio, índices de eficiência, engenhos publicitados e ficções de segurança. O
que se diz, a forma como se diz e quem pode dizê-lo preparam silenciosamente o
horizonte do possível, partindo de mediações já decididas, naturalizadas e, como
tal, estimuladas.
Daí que a controvérsia política, hoje tão presente, não se
mova apenas entre ideias diferentes, mas também na própria formação dos
sujeitos capazes de as defender e de as encorajar. Gerir, controlar ou regular
normas, regras e convenções implica delinear perspetivas aceitáveis de existir,
onde certas formas de pensar, sentir e desejar se tornam admissíveis, enquanto
outras se tornam inexprimíveis. Convém relembrar que a subjetividade, longe de
ser um dado natural ou uma esfera privada intocável, é o efeito - sempre
instável - de forças, interesses e poderes em ação.
É neste ponto que a palavra política do tempo presente exibe
a sua esperteza. Não atua apenas no campo do argumento, mas na melodia dos
afetos, na agitação do medo, da ansiedade, do ressentimento e do desejo de
pertença. A influência deixa de ser aberta para se tornar uma ação de indução,
de normalização e de desgaste simbólico. O sujeito não é, deste modo, apenas
assediado, mas também orientado, disciplinado e, muitas vezes, exausto.
A palavra política, mais do que nunca, move-se como
instrumento de ocupação do espaço simbólico. Não se dispõe a competir: procura,
antes, anular, desacreditar e dominar quem lhe resiste. O cenário do tempo
atual vai assim incentivando um espetáculo burlesco e ruidoso, eficaz
precisamente na sua obscenidade, onde a ausência de pudor, de sentido moral e
de dignidade deixa de ser um mero desvio ocasional para se tornar um método
contínuo de exercício do poder.
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