Julgo ser hoje bem importante relembrar que a diferenciação
não é um procedimento isolado do convívio social nem uma conduta de rutura
total com o todo. É, antes, um progresso exigente e inacabado, no qual o “eu”
se diferencia no interior de um “nós” que o antecede e o conforma. O humano não
se evolui contra o comum, mas a partir dele, individualizando-se e
diferenciando-se, sem jamais se libertar por completo da estrutura social,
simbólica e afetiva que o constitui. Entre o “eu” e o “nós” instala-se, assim,
uma relação peculiar: a da dependência que torna possível a diferença. Já o
“eles” assinala o limite, o exterior, o campo da alteridade através do qual o
“nós” se reconhece e o “eu” se situa.
Esse processo de diferenciação e desenvolvimento é
inseparável da transformação. Não há identidade que não seja atravessada pelo
tempo, pelo conflito e pela experiência. Individualizar-se é transformar-se, e
transformar-se é aceitar que a singularidade não é um dado estático, mas um
processo, um devir. O sujeito é um ser que vai sendo na interposição contínua
com os outros, com as normas, com os afetos e com as ruturas que o
desestabilizam e, paradoxalmente, o reconfiguram.
Nesse percurso, a performatividade desempenha um papel
decisivo. O “eu” não se limita a ser: vai-se realizando, afirmando e
representando socialmente. A identidade é também atuação, momento, exposição,
repetição e distanciamento. Contudo, essa relação com a ação não é arbitrária;
realiza-se num campo em que a racionalidade orienta, condiciona e, por vezes,
delimita. Singularizar-se é sempre agir num espaço de possibilidades
historicamente estruturado, onde a liberdade se exerce de forma concreta e
nunca absoluta.
Terminando, acrescento que a relação entre o “eu” e os coletivos suscita frequentemente a inexatidão da pertença. O “nós” oferece reconhecimento, sentido e abrigo simbólico, mas pode também exigir conformidade e silenciar a diferença. Pertencer é, simultaneamente, ganhar lugar e perder margem. A individuação plena não passa pela recusa dos grupos, mas pela capacidade crítica de habitar o “nós” sem nele se dissolver, mantendo viva a tensão entre o singular e o comum, entre a identidade e a abertura ao outro. Importa, pois, aprender a individuar-se sem romper o todo do “eu, nós e o devir”. Eis, assim, o meu olhar sobre o tempo que nos acompanha.
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