domingo, março 08, 2026

NOS SUBTERRÂNEOS DA CONSCIÊNCIA

A PROPÓSITO DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES



A consciência humana procura reconhecer-se no mundo da representação, através desse universo de formas identificáveis, conceitos claros e relações conduzidas pelo princípio da razão. Nesse campo, o homem - o humano - aceita situar-se com firmeza, afirmando a sua identidade como ponto consciente e central da experiência.

Todavia, essa evidência é apenas relativa, pois o mundo representado não constitui, em absoluto, a essência última da realidade humana. Sob a ordem da representação atua sempre a vontade, uma influência oculta, anterior ao pensamento, que perfura o sujeito sem se deixar demarcar por conceitos.

A relevância do inconsciente aprofunda esta intuição. A vida psíquica não se organiza apenas na lucidez do pensamento; é atravessada por desejos, pulsões e formações simbólicas que escapam ao seu domínio. A identidade consciente mostra-se, assim, menos livre do que supõe.

António de Lobo Antunes leva esta perspetiva ainda mais longe ao evidenciar que o próprio sujeito falante é efeito da linguagem e das estruturas simbólicas que o precedem. O “eu” não é origem, mas antes um resultado exposto a processos que o excedem.

É neste horizonte que António Lobo Antunes se tornou particularmente significativo. A sua entrevista, ontem recordada, com clareza ele bem soube troçar da linearidade tranquila da representação, divertindo-se com as fissuras da identidade demasiado alinhada. As suas palavras pareciam emergir dos subsolos da memória e do desejo, como se a linguagem tentasse dar forma a esse fundo obscuro onde a consciência não detém domínio absoluto.

A sua literatura tornou-se, assim, um lugar de revelação: não da ordem tranquila da razão, mas da inquietante profundidade onde vontade, memória e inconsciente continuam a produzir aquilo a que chamamos pessoa, um humano de valor intrínseco.

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