A PROPÓSITO DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Todavia, essa evidência é apenas relativa, pois o mundo
representado não constitui, em absoluto, a essência última da realidade humana.
Sob a ordem da representação atua sempre a vontade, uma influência oculta,
anterior ao pensamento, que perfura o sujeito sem se deixar demarcar por
conceitos.
A relevância do inconsciente aprofunda esta intuição. A vida
psíquica não se organiza apenas na lucidez do pensamento; é atravessada por
desejos, pulsões e formações simbólicas que escapam ao seu domínio. A
identidade consciente mostra-se, assim, menos livre do que supõe.
António de Lobo Antunes leva esta perspetiva ainda mais
longe ao evidenciar que o próprio sujeito falante é efeito da linguagem e das
estruturas simbólicas que o precedem. O “eu” não é origem, mas antes um
resultado exposto a processos que o excedem.
É neste horizonte que António Lobo Antunes se tornou
particularmente significativo. A sua entrevista, ontem recordada, com clareza ele
bem soube troçar da linearidade tranquila da representação, divertindo-se com
as fissuras da identidade demasiado alinhada. As suas palavras pareciam emergir
dos subsolos da memória e do desejo, como se a linguagem tentasse dar forma a
esse fundo obscuro onde a consciência não detém domínio absoluto.
A sua literatura tornou-se, assim, um lugar de revelação:
não da ordem tranquila da razão, mas da inquietante profundidade onde vontade,
memória e inconsciente continuam a produzir aquilo a que chamamos pessoa, um humano de valor intrínseco.
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