O capitalismo digital não é mais do que uma fase atual do seu
amplo sistema. Caracteriza-se pela centralidade de dados, plataformas digitais
e algoritmos na sua organização sistémica, abraçando produção, distribuição e
consumo. É por aqui que passa a mundialização do capital, onde a produção e as
finanças operam em escala global, precarizando relações de trabalho e
flexibilizando mercados.
A "dissolução do eu" (ou do ego) é um conceito
complexo, frequentemente discutido a partir de diversos pontos de vista, que revela
a perda ou o enfraquecimento temporário das fronteiras da identidade pessoal. Mas
o mais curioso - talvez o mais irónico - é que essa dissolução não chega como
experiência libertadora, mas, sim, como uma lamentável rotina banalizada.
O eu assim se desintegra, por exaustão, por dissipação ou por
quebras sucessivas. Não desaparece, é certo. Todavia multiplica-se em perfis,
opiniões rápidas, estados transitórios e identidades de ocasião. Cada gesto
digital promete expressão, mas entrega dispersão; cada afirmação gera um
atenuar do conteúdo. Assim se vive numa estranha e permanente oscilação entre a
exibição e o afastamento, em prejuízo de uma presença consistente.
A adaptação vai-se tornando conformação. O sujeito habitua-se
a viver amortecido, a reconhecer-se na corrente dominante, a aceitar a variabilidade
como reconfiguração de identidade. Já não se interroga “quem sou?”, mas “como
devo aparecer?”. Todavia, é nesta inquietude que as próprias condições dos atos
e da realidade interrogam, ainda que timidamente, sobre aquilo que se perdeu, ou
sobre aquilo que, afinal, nunca chegou verdadeiramente a possuir. A possibilidade
de um outro modo de existir vai, certamente, escorregando por aqui.
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