segunda-feira, março 23, 2026

O EU NA ERA DOS ALGORITMOS

 


Nestes tempos últimos o homem vem-se tornando num sujeito colado a uma liberdade farsante. A razão moderna segmentada e submersa nas ondas do consumismo, tudo fez para dar fim a grandes narrativas, valorizando o momento presente, focalizando a atenção, a consciência e a ação no apressado agora e pouco mais.

O capitalismo digital não é mais do que uma fase atual do seu amplo sistema. Caracteriza-se pela centralidade de dados, plataformas digitais e algoritmos na sua organização sistémica, abraçando produção, distribuição e consumo. É por aqui que passa a mundialização do capital, onde a produção e as finanças operam em escala global, precarizando relações de trabalho e flexibilizando mercados.

A "dissolução do eu" (ou do ego) é um conceito complexo, frequentemente discutido a partir de diversos pontos de vista, que revela a perda ou o enfraquecimento temporário das fronteiras da identidade pessoal. Mas o mais curioso - talvez o mais irónico - é que essa dissolução não chega como experiência libertadora, mas, sim, como uma lamentável rotina banalizada.

O eu assim se desintegra, por exaustão, por dissipação ou por quebras sucessivas. Não desaparece, é certo. Todavia multiplica-se em perfis, opiniões rápidas, estados transitórios e identidades de ocasião. Cada gesto digital promete expressão, mas entrega dispersão; cada afirmação gera um atenuar do conteúdo. Assim se vive numa estranha e permanente oscilação entre a exibição e o afastamento, em prejuízo de uma presença consistente.

A adaptação vai-se tornando conformação. O sujeito habitua-se a viver amortecido, a reconhecer-se na corrente dominante, a aceitar a variabilidade como reconfiguração de identidade. Já não se interroga “quem sou?”, mas “como devo aparecer?”. Todavia, é nesta inquietude que as próprias condições dos atos e da realidade interrogam, ainda que timidamente, sobre aquilo que se perdeu, ou sobre aquilo que, afinal, nunca chegou verdadeiramente a possuir. A possibilidade de um outro modo de existir vai, certamente, escorregando por aqui.


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