quinta-feira, março 19, 2026

O FUTEBOL SEM BOLA

Aturar o futebol escutando a palavra analítica e crítica, marcada pelo clubismo, é entrar - quase sem dar por isso - num idiota relvado de emoções intensas onde, paradoxalmente, a bola se oculta.

A indignação gira sobre si mesma, num rodopio contínuo, mergulhando numa atenção subterrânea que pouco ilumina. Os estímulos, impulsivos e azedados, propagam-se rapidamente, encontrando sempre uma justificação para a sua própria amargura.

Os impactos emocionais, invariavelmente apressados, recusam pensar - e, mais ainda, considerar. O conflito atrai mais audiência do que o juízo ponderado: insinua contradições, alimenta disputas apaixonadas e, sobretudo, produz visibilidade mediática, sempre bem acolhida.

A arena do debate mascara-se, assim, numa esfera emocional altamente excitada, onde se fabrica um ambiente psicológico coletivo saturado de nervosismo refinado, intensidade e reatividade. É nesse terreno que prosperam emoções indomáveis, geradoras de ambientes vivos, inquietos e, por vezes, de atritos tidos como necessários.

Trata-se, no fundo, de uma verdadeira disputa desportiva das emoções. Ou talvez - de forma mais rigorosa - de uma autêntica economia política das emoções, onde estas são produzidas, geridas e instrumentalizadas pelas dinâmicas de poder que atravessam o universo clubista. 

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