O modernismo fez-nos admitir que o homem poder-se-ia tornar dono do seu próprio destino. Desde a era da razão, ela se foi supondo como um rumo de autonomia e a liberdade como possibilidade de orientar a vida com plena consciência e conhecimento de causa. Contudo, a história veio revelando uma oposição desconcertante: quanto mais o homem se afirmou livre, mais complexas e invisíveis se tornaram as forças que foram surgindo na configuração da sua própria subjetividade.
A crítica marxiana veio evidenciar que a consciência não
nasce num vazio. As relações económicas e sociais estruturam o ambiente dentro
do qual os indivíduos pensam, desejam e interpretam o horizonte. Aquilo que
parece ser uma opção pessoal pode muitas vezes ser expressão de uma lógica que transpõe
o próprio sujeito.
Por sua vez, a descoberta freudiana do inconsciente abriu
uma outra ranhura na imagem convencional da autonomia. O sujeito não bate certo
consigo mesmo. A convicção convive com forças motivacionais que desviam a sua
transparência, tornando o pensamento uma atividade constante de apreciação.
É neste entrelaçamento entre economia, linguagem e desejo
que a reflexão de Habermas alcança particular evidência. Ao analisar as
sociedades contemporâneas, ele descreve uma tensão crescente entre o mundo vivido,
onde se formam as identidades, as relações e os sentidos partilhados, assim
como as grandes cadeias que organizam a modernidade, como o mercado, as suas
lideranças e comandos. Todavia, esses sistemas vão ultrapassando a sua função e
invadindo os âmbitos da vida quotidiana, começando a subjetividade a formar-se
sob a pressão de lógicas que nos são alheias.
Pensar hoje a condição humana talvez implique reconhecer
precisamente este foco de conflito. O sujeito contemporâneo não vive fora das
estruturas que o acomodam, nascendo já por elas atravessado. Todavia, embora pareça
antagónico, é nesse interior que o pensamento pode reabrir o seu espaço para a
crítica. Pensar através da subjetividade colonizada significa, então, procurar a
clareza de raciocínio, bom senso, inteligência e sanidade mental. Ou seja,
concebendo uma real lucidez dentro das próprias condições que levemente limitam
a coragem da nossa liberdade.
Pensar, reconhecendo a confirmada subjetividade colonizada,
é identificar que a liberdade não é um domínio garantido, pois nos provoca - e
convoca - uma coragem crítica que deve exercer a sua consciência dentro das
próprias fronteiras que nos propõem e neles nos procuram alinhar. A verdade, a
justiça e as normas sociais podem e devem ser discutidas, combatendo a lógica
do dinheiro, da eficiência e do poder que a abraça e aconchega. Se assim é, por
aqui passa uma tensão estrutural de referenciais e não só…
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