Não li ainda o livro Corpo, Prazer e Estilo, de Michel Onfray. Bastou-me desfolhá-lo para suspeitar de algumas minhas higiénicas asneiras. Pensar e viver como se fossem a mesma coisa, enquanto fantasia de saneamento filosófico. O corpo, lembraria Freud, não obedece. Falha, desvia-se, insiste. Não pede coerência, impõe palpites.
Pensamos, sim. Mas quase sempre tarde. Depois da suspeita, depois
do incómodo. Depois de algo ter fracassado com um orgulho que não controlamos.
Lacan diria o óbvio que evitamos, pois, o homem é um equívoco persistente.
Quando dizemos “eu”, já chegámos atrasados no tempo e ao lugar de que falamos.
E, no entanto, escrevemos como se coincidíssemos connosco. A
promessa de uma vida única e irrepetível? Uma solidão bem editada. Ninguém
repete ninguém, nem sequer a si próprio. O chamado “romance autobiográfico” pouco
ou nada resolve. Dá-lhe, sim, forma. tornando-o suportável. Chamamos-lhe
identidade por falta de uma palavra mais frontal.
Onfray, por sua vez, procura devolver o pensamento ao corpo.
Mais autêntico e ajustado. Mas o corpo não é a casa certa, mas sim um campo de incertezas.
Há nele restos, desvios, pequenas resistências. Pensar com o corpo, sim, mas
sem a ingenuidade da transparência. A coerência, quando desponta, nada prova,
pois, na melhor das hipóteses, apresenta-se como um efeito retrospetivo bem
montado.
No fim, e em resumo, sobra isto: não pensamos a verdade para
melhor viver. Pensamos porque algo, em nós, vive em sobressalto. E talvez seja precisamente por essa
inquietação que ainda merece, seguramente, ser repensado.
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