As imagens aliciam-me. Sei que mentem - e mesmo assim
sigo-as. Não é nelas que procuro a verdade; é nelas que evito encontrá-la. Desconfio,
sim, mas essa desconfiança tornou-se um hábito confortável. Começo por aí:
acreditar que não acredito.
A ilusão não apenas sobrevive, organiza. É fabricada,
normalizada, consumida. E eu instalo-me nela com uma serenidade suspeita,
embalado por um conforto silencioso de rendição. Digo-me lúcido, imune a mitos
e truques. Mas a lucidez, quando repetida, degrada-se em rotina. Escorre para
hábitos, consolida em ficções que me servem antes de eu pensar.
Resta-me, pois, um cinismo funcional: sei o suficiente para
não acreditar, mas não o necessário para evitar. Assim, abandono a verdade sem
conflito e adapto-me a uma ilusão utilizável. O imaginário empobrece - não por
excesso, mas por cansaço. Já não seduz, acomoda. Já não engana, orienta.
Com o tempo, acredito cada vez menos nas imagens. Ainda assim, dependo cada vez mais delas. Talvez a ilusão mais eficaz não esteja nas imagens. Encontra-se, sim, nesta convicção tranquila – quem sabe orgulhosa - de que já as ultrapassámos. O silêncio do cinismo, simpaticamente me assiste, trazendo a útil e atraente calma da falsidade.
Sem comentários:
Enviar um comentário