quinta-feira, abril 23, 2026

UM REALISMO CÍNICO

As imagens aliciam-me. Sei que mentem - e mesmo assim sigo-as. Não é nelas que procuro a verdade; é nelas que evito encontrá-la. Desconfio, sim, mas essa desconfiança tornou-se um hábito confortável. Começo por aí: acreditar que não acredito.

A ilusão não apenas sobrevive, organiza. É fabricada, normalizada, consumida. E eu instalo-me nela com uma serenidade suspeita, embalado por um conforto silencioso de rendição. Digo-me lúcido, imune a mitos e truques. Mas a lucidez, quando repetida, degrada-se em rotina. Escorre para hábitos, consolida em ficções que me servem antes de eu pensar.

Resta-me, pois, um cinismo funcional: sei o suficiente para não acreditar, mas não o necessário para evitar. Assim, abandono a verdade sem conflito e adapto-me a uma ilusão utilizável. O imaginário empobrece - não por excesso, mas por cansaço. Já não seduz, acomoda. Já não engana, orienta.

Com o tempo, acredito cada vez menos nas imagens. Ainda assim, dependo cada vez mais delas. Talvez a ilusão mais eficaz não esteja nas imagens. Encontra-se, sim, nesta convicção tranquila – quem sabe orgulhosa - de que já as ultrapassámos. O silêncio do cinismo, simpaticamente me assiste, trazendo a útil e atraente calma da falsidade

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