segunda-feira, maio 25, 2026

A AGITAÇÃO DO ABSOLUTO

O sentimento do sublime, enquanto expressão de pureza e dignidade, inquieta-me como estado afetivo e subjetivo que nasce da intranquilidade das minhas próprias rotinas diárias e emocionais. Não se trata de um bem-estar súbito e conciliador. Bem pelo contrário: inquieta-me. Em vez de uma afinidade natural com o mundo, produz-se um abalo interior. Confronto-me com algo que supera a ordem natural das coisas e da vida.

O sentimento do sublime alberga em mim inquietação, fragilidade e limite. Todavia, é precisamente nesse confronto que ele me ajuda a transcender o comum, revelando uma retidão moral eticamente superior, acompanhada pela mente e pela admissível dimensão intelectual da alma.

Os sentidos não conseguem dominar plenamente aquilo que vejo, mas a razão leva-me a perceber que existe em nós algo que ultrapassa a simples sensação imediata. Descobrimos que o espírito humano, a sua inteligência e essência moral, pode imaginar sem fronteiras, idealizar a liberdade e apreender o todo, mesmo sem a sua representação integral.

Assim, ao longo desta longevidade, vai-se consolidando e enobrecendo em mim esta nobre dimensão do espírito humano. Percebemos que não somos apenas seres sensíveis, dependentes da experiência imediata, mas também portadores de uma dignidade interior que, dentro de nós, enriquece o sentimento do sublime.

É esse sentimento do sublime que desafia a transcendência interior e que, paradoxalmente, nos revela aquilo que em nós se eleva como talento, qualidade ou dignidade espiritual. É por isso que o prazer sublime nunca é simples. Contém sempre uma vulnerabilidade oculta, transformada em elevação.

Não obstante a vulnerabilidade do ser humano, o sentimento do sublime nasce precisamente através dela. O momento de insuficiência torna-se, assim, essencial à própria vida e experiência. Por outras palavras, diria que só evoluímos verdadeiramente e compreendemos o mundo com maior profundidade quando nos confrontamos com as nossas próprias fragilidades e lacunas, admitindo, como é de esperar, a possibilidade de a fragilidade humana evoluir para uma virtuosa forma de humanização do humano.

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