Há amizades que não se esclarecem apenas pelas palavras. A
vida de cada um de nós é, na sua maioria, estritamente individual, mas existe
entre nós uma abertura silenciosa que permite reconhecer a alegria, a tristeza,
a esperança ou o desencanto na presença do outro. Muitas vezes, antes de
qualquer explicação, já sentimos como alguém se encontra. É nessa sensibilidade
partilhada que se prospera a amizade.
Vivemos num tempo de encontros e convívios humanos.
Aproximamo-nos, afastamo-nos, incluímos e somos incluídos, mas também enfrentamos
a exclusão, a indiferença e o abandono. Cada relação deixa sinais, porque
ninguém passa verdadeiramente pela vida do outro sem o sensibilizar, ainda
que de forma recatada.
Quando alguém se afasta da nossa vida, não desaparece apenas
uma presença física. Termina a convivência, um costume de partilha, uma certa
maneira de viver numa outra realidade. Perdura um silêncio que revela o quanto
a convivência humana dá forma à nossa própria relação, existência e verdade.
Talvez a amizade verdadeira se mostre precisamente aí, ou seja, na capacidade de permanecer aberto ao outro sem encenações lineares, reconhecendo que a verdade humana não se constrói no desvio, mas na amável reciprocidade dos afetos, da compreensão e da presença. Sobretudo, não recorrendo em silêncio às portas que o tempo tolamente fecha.
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